Desafios e necessidades da esquerda do século XXI

Desafios e necessidades da esquerda do século XXI

Miguel R. Penas.- Em passado 18 de Março pudem realizar a minha segunda colaboraçom com Alter-Galiza (veja-se a primeira aqui, o facto de estar na minha Compostela natal permitiu-me assistir às X Jornadas Independentistas Galegas. Como passa o tempo! Ainda lembro bem as primeiras, segundas, terceiras,... jornadas que nascérom quando estava a estudar na Universidade. Os organizadores das jornadas som Primeira Linha, acho que o mais jovem dos partidos comunistas da Galiza, e no qual militam vários amigos meus.

A gravaçom que aqui podeis ouvir ou descarregar é a segunda parte das jornadas, a sessom da tarde. Nela tinham que participar duas pessoas que se auto-qualificam como socialistas: Joseba Álvarez e José Manuel Beiras Torrado e duas que se identificam como comunistas: Francisco Martins e Carlos Morais. E digo tinham porque realmente destes quatro só pudérom participar três. Joseba Álvarez, representante da esquerda abertzale, decidiu nom assistir ao evento ante a possibilidade de ter de ingressar em prisom em breve. Compreensível. Passar os possíveis últimos dias de liberdade em família.

Continua:

Joseba Alvarez

Apesar de que ao escrever estas linhas semelha que o panorama basco mudará vertiginosamente nos próximos meses, nom podo evitar reflexonar ao respeito da enorme fragilidade que os Estado de Direito tem no Estado Espanhol. Quando o poder judicial funciona com total impunidade, detendo pessoas indiscriminadamente, fechando jornais,... quando este poder funciona como um apêndice do Executivo (às vezes até mantendo lealdades a executivos anteriores) é que algumha cousa está errada na famosa divisom de poderes.

Ainda que Joseba Álvarez nom assistiu, sim que pudemos conhecer as suas opiniões sobre a construçom dumha nova esquerda para o século XXI. A jovem militante comunista Íria Medranho leu de viva-voz a comunicaçom que Álvarez tinha pensado desenvolver nas jornadas. Assim pudemos conhecer que o futuro da esquerda é umha preocupaçom constante para a esquerda abertzale. Na opinom de Joseba é muito importante que a esquerda seja coerente nom só na teoria senom também na prática, a cidadania deve de tentar conhecer como agem os activistas de esquerda para saber se realmente som ou nom som coerentes com o que predicam.

Umha das reflexões que mais dam para pensar foi a de que o objectivo da esquerda é transformar a sociedade e nom simplesmente ter a razom mas sem dispor de capacidade de transformaçom. E digo que isto chamou muito a minha atençom porque semelha que nom sempre sucede isto. Tenho a sensaçom que na maioria dos casos muitas organizações de esquerda som felizes sabendo que tenhem a razom mas nom se preocupam em tentar transformar a realidade.

Outro dos eixos da comunicaçom de Joseba Álvarez é a constataçom do fracasso da esquerda tradicional e a necessidade de criar umha nova esquerda. A esquerda de sempre fracassa porque faz demasiadas concessões para chegar ao poder. Como indicadores deste fracasso podem valer a sua pouca capacidade de mobilizaçom e o nascimento dos diversos Foros Sociais. Diante deste diagnóstico tenho que reconhecer que concordo muito com Joseba na sua ideia de que é necessário que exista um referente político certo para todo esta movimentaçom social. Este é o único caminho que acho pode evitar que a direita (ou as políticas de direitas exercidas por partidos de pseudo-esquerda) se torne hegemónica.

Finalmente Joseba acaba o seu relatório reflexionando sobre o contributo desde Euskal Herria à construçom deste futuro da esquerda. Acho que o mais interessante é que após mais de quarenta anos decidírom passar da resistência à construçom de novas realidades alternativas. Acho que este vai ser um ponto de inflexom no contributo basco à luita contra o neoliberalismo.

Beiras, a estrela

Após a leitura do comunicado chegado desde as terras bascas começou a reflexom de José Manuel Beiras. Tenho que dizer que a participaçom de Beiras foi o principal atractivo para assistir às jornadas. E acho que nom era o único. Nom podo conhecer os motivos certos para que Primeira Linha convocasse a Beiras, provocaçom, oportunismo, reconhecimento? Em qualquer caso acho um acerto que devia de valer como exemplo para romper com absurdos partidismos e sectarismo que existem no nacionalismo galego. E sobre todo entre o nacionalismo «majoritário» e o independentismo organizado.

Pois bem, o primeiro que se pode comentar é que Beiras tinha ganhas de falar. E eu acho que nom decepcionou. É mágoa que nom esteja a ser aproveitado mais desde o BNG, mas é certo que no Bloco há muitas situações incompreensíveis herdadas de dinámicas e processos anteriores. Beiras exerceu de professor e apresentou a sua intervençom em três planos: a estrutura ou base económica, o pensamento de esquerda para umha diagnose correcta e por último quais devem ser as estretegias da esquerda (que el definiu como desenho de praxes).

Assim começou afirmando que o período no que estamos é um tempo de mudança. Umha mudança que se inicia na década de 80 do século XX e que vai modificar o centro do sistema capitalista e também as relações deste centro com a periferia. Para Beiras esta situaçom só pode derivar em dous caminhos opostos. Um que nos levaria à apariçom de novas super-estruturas estatais que superaria os actuais obsoletos Estados Liberais. Ou umha segunda que significaria umha nova fase de hegemonia de poderes totalitários. Concordo muito com estas duas possíveis vias e também com a sua opiniom de que todo dependerá da capacidade de actuaçom dos movimentos sociais.

Continua Beiras ressaltando a necessidade de debater em profundidade sobre as mutações que se estám a dar nas formas de capital. Umha mudança na lógica de produçom e no processos de valoraçom do capital. Ao igual que Joseba Álvarez indica que será muito importante estar atentos ao que se está a passar na América Latina, onde já se está a dar umha importante mudança nos aparelhos do Estado.

Sobre o significado actual da sustentabilidade também falou. E concordo com el em que hoje está totalmente deturpado o seu significado. Com estudos de impacto médio-ambientais feitos em série e que funzionam unicamente como propaganda. Na minha opiniom o equilíbrio ambiental deve ser um dos eixos básicos de qualquer organizaçom que se chame de esquerda transformadora.

Continuando com os temas tocados por Beiras tenho que ressaltar a ideia que expom acerca da mudança do sujeito histórico para a esquerda. Agora já nom é o proletariado senom que existe um sujeito plural. Entom este sujeito terá-se que estruturar dum jeito plural e nom dirigido desde vanguardas. Achei esta reflexom como um autêntico míssil à linha de flutuaçom das teorias mais clássicas do leninismo. Com certeza que foi umha ideia que chocou um algo com as que posteriormente se enunciárom.

E ainda mais chocaria a ideia de que temos de atingir novas alianças de classes, na nossa realidades nacional, no marco estatal e no ámbito mundial. Chegado a este ponto é claro que para Beiras é importantíssimo realizar diagnoses correctas para artelhar movimentos rupturistas. Se nom se abrange toda a complexidade dos problemas nom se poderá combinar o que tem de revolucionário a emancipaçom nacional com a revoluçom social. E em palavras de José Manuel o BNG de hoje já nom está a fazer isto.

Chegados a este ponto, é certo que a última reflexom de Beiras dá que pensar. Nom por original, senom por ser el mesmo quem a menciona. Porque sejamos sinceros o que está a passar hoje no BNG, o seu aggiornamento nom é fruto do último ano e meio. Nom. Vem de muito antes, de quando el era porta-voz nacional, é dizer o máximo representante da frente. Por que lembremos que a sua queda na organizaçom tem mais a ver com os enfrentamentos pessoais que com a ideologia. E falo da sua relaçom com Quintana. E evidente que o confronto com Francisco Rodríguez tem um pouso ideológico notável.

Mas a pergunta é: por que agora se denuncia isto? por que nom antes? Suponho que a resposta nom é simples. Talvez o BNG esteja chamado a ocupar um lugar na política galega para o que nom estava, em princípio, desenhado. Talvez a medida que o BNG ocupe este espaço se abram outros espaços à sua esquerda. Mas por enquanto a fraqueza do movimento nacionalista galego é demasiada como para suportar divisões demasiados profundas.

Acabo este post mantendo a minha admiraçom à figura do Beiras intelectual e ideólogo, mas nom podo evitar sentir-me um algo decepcionado pola figura do Beiras político. Capaz de realizar magníficos discurso em chave nacional e social, de dar numerosos golpes de efeito, de manter vivo um ideário que el herdou directamente da geraçom «Nós»,... Mas também farta um pouco ler magníficas analises feitas a posteriori. E sobre todo de criticar aos outros o que, às vezes, el também fazia.

Ainda assim, acho que foi a estrela da tarde, certamente.

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Título: «2ª sessão das «X Jornadas Independentistas»
Emissão: Inédita (prevista em Rádio Alhariz)
Data: 19 de Março de 2006, 17h00
Lugar: Hotel Compostela (Compostela)
Duração: 2h 48 min. aprox.
Participantes: .- Carlos Morais (Primeira Linha)
.- Francisco Martins (Política Operária)

.- Xosé Manuel Beiras (Bloco Nacionalista Galego)

.- Ainda, foi lido um comunicado de Joseba Alvarez (esquerda abertzale)
Moderação: .- Alberte Moço (Primeira Linha)
Gravação: Digitalizada em formato MP3 a 22 Khz e 64 Kbps
Descarga: Fazer Descarga Fazer descarga do arquivo mp3
(botão direito => Salvar como...) [80.3M]


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Escrito em 26-03-2006, na categoria: Política, Áudio

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