
Altera Galiza.- Pode fazer-se jornalismo livre, continuado e influinte? Podem mesmo amadores fazer parte das redes jornalísticas sem elas perderem credibilidade? Estas e outras perguntas podem vir à tona quando estamos a falar dos meios alternativos de informação que, nomeadamente na net, nasceram e se multiplicaram nos últimos anos. Quando, designadamente, a catástrofe do Prestige fez com que na Galiza esse jornalismo «popular e livre» surgisse com força, muito pessoal pôde ver que havia mais possibilidades daquelas que nos oferecia o «sistema controlado».
Continua:
Talvez as experiências possam ajudar a compreender a importância e vitalidade que estes projectos estão já a ter hoje, mas que poderão vir a ter muita mais num futuro (e por isso, por exemplo, começa o debate nas elites sistémicas do controlo da rede de redes). Na Galiza, cingindo-me ao meu quefazer nos últimos 5 anos, uma pequena associação soube aproveitar esse canal para criar opinião e informar livre e continuadamente.
O Portal Galego da Língua impulsionou e potenciou grandemente desde a sua criação uma metodoloia talvez pouco explorada (embora algum exemplo existia) no campo da língua: a prática da teoria reintegracionista não elitista, mesmo transfronteiriça, a prática da liberdade banindo a censura, que resultou em inúmeras colaborações e a consolidação como referente da comunicação social, no seu terreno.
Com efeito, a liberdade com que sempre se tentou agir nesse meio permitiu que o portal fosse atingindo patamares nem sonhados num primeiro momento. Essa liberdade envolveu que pessoas e associações, mesmo contrárias aos posicionamentos da AGAL, ou então, críticas com a mesma, pudessem expressar sem qualquer problema as suas ideias, pudessem enviar os seus comunicados e, afinal, até tivessem a oportunidade de se darem a conhecer publicamente. O resultado foi a abertura social sem por isso a associação patrocinadora e o próprio meio renunciarem à sua própria idiosincrassia.
A constância fez com que a diário houvesse pessoal que tinha mesmo a necessidade de acessar o PGL -existia «procura» do mesmo, pois continuamente se estava a noticiar quer acerca da actualidade mais conhecida e divulgada por outros meios, embora com a própria visão, quer acerca de eventos de grande importância mas ignorados pela grande e convencional comunicação social galega. Destarte, a informação, a produção própria e o contínuo ritmo de informações envolveu uma comunidade que começou a sentir o portal com meio de comunicação sério, responsável e livre, e que também sentiu que podia sair do seu «gueto» particular.
Ainda, o próprio dinamismo provocou que, aos poucos e de uma maneira não maciça mas sim qualitativamente importante, o portal começasse a ser referente em inúmeros sites da net e não só, com meios da imprensa escrita ou rádios como a Galega a referenciarem o PGL nas suas emissões. Este pulo, o de meio capaz de criar um incipiente estado de opinião pública, acho, foi a meta que, finalmente, sagrou a importância já não virtual mas real para o reintegracionismo, a lusofonia toda e, também, para a própria Galiza do Portal Galego da Língua e todos os seus sites associados.
Não faço muita ideia de se o manifestado até aqui tem sido muito pretensioso. Na vez de construirmos um gigante com pés de barro, é preciso reconhecermos que o melhor é termos um pequeno alicerce sólido, não muito significativo na massa social galega, certo, mas já com alguma transcendência nalguns sectores linguísticos salientáveis. É também preciso reconhecermos o envolvimento dessa massa, activa quer no quefazer, quer na divulgação e consulta. Porfim, é preciso reconhecermos a necessidade de contar com profissionais que saibam orientar do ponto de vista técnico, jornalístico. Assim, dessa maneira, a junção colaboradores-profissionais será plena e construtiva.
A minha visão é amadora, mas o futuro comunicacional «alternativo, livre e consciente» deve de ter em conta a constância e a vontade de trabalho conjugando o profissionalismo com o compromisso das pessoas e movimentos envolventes na construção, defesa e promoção de uma outra ideia de informação, mais humana, mais livre e, no entanto, mais crítica. A nível «global» já os há consolidados e cooperando entre eles; a nível galego vão caminho dessa consolidação e cooperação, embora as dificuldades. Não são a última esperança, mas são esperança, como foi nestes últimos 5 anos o Portal Galego da Língua.
* Vítor Manuel Lourenço Feres fez parte da equipa do PGL desde a sua criação, em Maio de 2002, agindo como Director desde Novembro de 2005 até Outubro de 2006.
Escrito em 24-09-2007,
na categoria: Contributos, Sociedade
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