
Altera Galiza.- Lá por Dezembro de 2005 o relançado boletim «Em Movimento», do MDL, fazia-me uma alargada entrevista da qual depois publicaria um excerto no número 3 da sua 3ª época. Na verdade as minhas respostas foram longas demais por isso a impossibilidade de publicá-la na íntegra, mas recupero agora o documento completo que á para conhecer muito bem todo o que o pessoal quiser acerca do meu trabalho nos últimos anos e, ainda, alguma outra coisinha, nomeadamente o PGL (ver também entrevista que em seu dia me fez Dinahosting).
Continua:
Breve introduçom biográfica e profissional, estudos, trabalho, desde quando no PGL...?
Posso dizer que Vítor Manuel Lourenço Peres nasceu num 27 de Dezembro de 1970, na freguesia rural de Vilarinho (Pereiro de Aguiar), muito pertinho da cidade das Burgas, cidade que marcou a minha vida desde que, polos 13 anos, vim com a minha mãe morar nela para continuar os estudos de bacharelato.
A cidade supôs um choque brutal com o mundo de que vinha. A cidade, por um lado, e o meu avô materno polo outro, foram os dous pólos graças aos quais desenvolvi uma personalidade que, afinal, mesmo me levaram a fazer a licenciatura de História, tentado ir na procura de respostas a determinadas contradições.
A minha vida profissional, no entanto, foi e é voltada para o emprego público. A humildade da família, com uma mãe viúva desde que eu tinha 15 meses, fez que a procura de trabalho me levasse a opositar e conseguir uma vaga no Ministério das Finanças espanhol, primeiro como auxiliar administrativo, logo a seguir como Agente das Finanças Públicas.
Mas a minha vocaçom, e o meu trabalho mais sentido, sempre teve a ver com a Galiza, a luta pola dignidade e, ainda, pola conservaçom do seu património, sendo o linguístico um algo vital que me faz ser, finalmente, o que é que eu sou. A internet apareceu mesmo como um algo normal, e como simples usuário tentei promover e divulgar a potencialidade que como meio comunicacional podia ter para concorrer face aos média convencionais.
Dessa maneira trabalhei em vários projectos, como o auria-bng, que atingiu um moderado sucesso entre 1999-2001, ou a página da Gomes Mouro, mas que acabei por abandonar por questões que aqui nom têm maior importância, ou também a página da Livraria Torga. A seguir veio o trabalho na língua, e, nunca pensei que ia dizê-lo, desde o dia 1 de Dezembro de 2005 sou o Director do Portal Galego da Língua, um projecto que envolve, no profissional, por volta de 20 pessoas a trabalharem quase diariamente com um objectivo comum: preservar e divulgar o património linguístico galego-português da Galiza.
A ti deve-se fundamentalmente a criaçom deste projecto. Estás aí desde o início. Quais os primeiros passos? Como surgiu e se plasmou numa realidade consolidada? Como está actualmente?...
Bom, é bom matizar um algo. O PGL, possivelmente, nom existiria se nom fosse polo esforço, trabalho e confiança inicial quer do Prof. José Henrique Peres Rodrigues, nomeadamente, quer, ainda, do José Manuel Outeiro. Eles foram os que fizeram que a AGAL, naquela altura com uma nova direcçom, visse uma porta aberta na internet para, quando menos, entrar e conectar com a sociedade galega, embora fosse uma sociedade mais virtual do que real.
O certo é que lá por Setembro de 2001, quando o Dr. Carlos Garrido me convidou a fazer parte desse projecto que o José Henrique e o Outeiro estavam a impulsionar numa associaçom com o Prof. Penabade recém chegado à Presidência, com muitas feridas a fechar, e muito fraca mesmo a respeito daquilo que tinha sido a sua massa associativa, eu aceitei mesmo porque necessitava fazer parte de novos trabalhos, novos reptos que colmatassem o meu «imaginário de luta».
A primeira página da AGAL, que hoje ainda está disponível no server da Universidade de Vigo, era, num princípio, um projecto unicamente corporativo, mas tentava já abrir uma fenda na considerada clássica marginalizaçom do reintegracionismo. Com a chegada do Valentim R. Fagim e do Miguel R. Penas, designadamente, e mais e mais pessoal, o projecto apanhou novos fôlegos e lá, um 17 de Maio de 2002, via a luz o PGL, tal qual a sua concepçom actual, embora com muitas menos secções, conteúdos e mesmo com muitas dúvidas a respeito do seu futuro.
O avanço foi progressivo. Lembro bem que o nosso primeiro objectivo, na primeira página da AGAL, era conseguirmos atingir 1000 visitas mensais. Quando lançamos o PGL esse objectivo já se voltara para as 10.000 visitas, e hoje andamos por volta das 60.000 visitas de média mensais, às quais devemos somar a das páginas associadas como som o dicionário e-Estraviz (3.000 visitas/mês de média), o Planeta NH (5.000 visitas/mês) e mais os Blogues agal-gz (por volta das 10.000 visitas/mês).
Posso dizer que hoje o PGL é um projecto consolidado ou, no mínimo, em vias de consolidaçom. Um projecto que deverá evoluir num futuro para uma necessária e verdadeira profissionalizaçom, quer na técnica quer na informaçom. Um projecto que é promovido pola AGAL, mas que, com certeza, é de muito mais pessoal, pessoal que ultrapassa o âmbito corporativo, mesmo o âmbito reintegracionista. Podemos dizer, talvez com alguma tristeza, que somos o portal de referência num campo concreto como é a língua, e isso feito só com vontade e muito, muito carinho por uns ideais e uma causa que achamos justa e de justiça.
O PGL é, nesta altura, o maior referente do reintegracionismo neste país. E nom apenas linguístico mas também cultural num sentido amplo e diverso. Pode-se avançar mais? Que vos resta por fazer?...
O PGL tenta ser mais do que o referente do reintegracionismo. Uma outra cousa é termo-lo conseguido. O PGL tenta fazer ver que o reintegracionismo é, na verdade, sociedade viva neste país e, como tal sociedade, faz parte do mesmo. Portanto, nesse sentido o PGL é parte dos média galegos, humilde a lado dos grandes média convencionais, mas grande no que diz respeito a perspectivas e trabalho.
Ora, acho que, mesmo isso, o PGL nom deixa de ser um algo muito concreto, que tem de fazer parte de um entramado social muito poderoso, vivo e dinámico que faça ver que na Galiza existe, na verdade, uma concepçom social, uma massa social que trabalha, ama e faz lazer em galego e que aproveita essa potencialidade que chegar a Portugal, ao Brasil, aos PALOPs, a Timor, a Macau... em definitivo, que faz parte de um entramado com uma mentalidade sem fronteiras mas orgulhosa das suas próprias criações.
Desse ponto de vista, temos de ter os pés colados à terra. O PGL nom pode concorrer com outros meios, o reintegracionismo no seu conjunto, mesmo o mundo da defesa da língua em geral, continuam a ser uma minoria, continuam a ser, em muitos casos, discriminados socialmente. Eis o avanço principal, tentarmos construir uma concepçom social que respeite a língua galega e que aceite com normalidade todos os caminhos para ela. Os locais sociais, as empresas, a iniciativa das Galescolas, mesmo o labor de impulsionalmento do governo da Junta, fazem parte dessa necessária energia que tem de mexer o carro da língua, que tem de fazer da mesma um algo transversal, só entom é que estaremos avançando no caminho certo.
No PGL, é certo, a língua nom é um algo transversal mas o principal. Por isso o que temos de tentar construir é que o pessoal esteja informado, sem exclusões, embora com a nossa visom e a proposta que defendemos claramente marcada, e que o portal seja um núcleo de formaçom, quando menos de uma primeira formaçom que os leve a deitar preconceitos, que os leve a aprender a língua de uma outra maneira. Talvez com isso consigamos o reconhimento institucional, sim também o institucional, que faça que comecemos a contar de verdade.
Há muitos projectos, nom saberia muito bem dizer quais vam ir para frente e quais nom. Ora, posso anunciar que o recém criado Conselho de Redacçom visa construir uma linha informativa própria, com mais notícias de elaboraçom própria e mais inter-relaçom com a lusofonia (eis a rede de correspondente em Portugal e no Brasil). Também gostaríamos dar um novo avanço ao dicionário e-Estraviz, ao Planeta NH e à secçom formativa, com a disponibilizaçom de material que ajude a dominar melhor a língua e, com isso, animar o pessoal a utilizá-la sem temor. Finalmente, é uma teima pessoal fazer do muito material do portal um algo mais duradouro no tempo, e nada melhor que a publicaçom em papel... Mas isso já se verá.
Dize-se de brincadeira que vives quase colado ao computador polo enorme trabalho que desenvolves no PGL. É certo? Em todo caso, sentides os redactores que o vosso labor é suficientemente valorizado socialmente e dentro do reintegracionismo? Recebedes mostras de reconhecimento?
Falar de horas nom vale muito a pena. Há dias que posso estar muito, muito tempo, mas reconheço que gosto. A minha namorada diz que eu estou «agarrado», possivelmente seja certo. Duas horas, três, cinco, seis, dez... é o de menos se há uma resposta, se verificas que vale a pena. Eu tenho reagido mesmo com certa violência dialéctica quando se têm feito críticas sem o pessoal valorar isso mesmo, mas o tempo é que me tem feito reflectir e hoje controlo mais os meus impulsos e, também, valorizo mais determinados apoios dados em momentos muito concretos e específicos que nom som, precisamente, aqueles em que temos um reconhecimento ou fazemos um lançamento de destaque.
Em suma, direi que tenho observado reacções tremendamente satisfactórias vindas de pessoal muito afastado do reintegracionismo, também desse mundo têm chegado visões menos amáveis claro, mas o facto de conseguirmos a sua atençom faz que valorizemos o facto de estarmos no caminho certo, no caminho de chumbarmos determinadas barreiras e guetos pré-existentes. Sou sincero, isto é o mais importante para mim; os apoios vindos do própio reintegracionismo som necessários como, por outro lado, lógicos. Talvez me tenha exprimido um algo pretensiosamente, mas é o que eu penso.
Da tua posiçom privilegiada de observador da realidade cultural galega do PGL, que fazemos mal para que a nossa posiçom nom seja seguida majoritariamente? Em que falhamos? Que passos devemos dar? Que temos de fortalecer?
Tenho respondido de alguma maneira nas respostas anteriores. Acho que o fundamental é acreditarmos em que somos sociedade, acreditarmos, pois, em que o único que temos de fazer é relacionarmo-nos normalmente com as pessoas, mas fazermo-lo sem temores e em galego, em galego aberto e sem fronteiras.
Uma pessoa que também tem influído no meu embarcamento final no reintegracionismo, além do próprio José Manuel Barbosa, ao que nom esqueço, foi o Xavier Paz, da reconhecida livraria Torga de Ourense. Há uma frase sua que sempre vem à minha memória nestes casos pois acho-a muito marcante, mesmo com os necessários matizes: «o importante é o fundo nom a forma, se as pessoas acharem que o fundo é bom, entom terám de aceitar a forma, a forma passará a ser um algo 'secundário' e isso significará que chegamos a bom porto, que porfim o galego chegou à lusofonia».
É, pois, isso. Eu sou partidário de conjugar no máximo forma e fundo, com isso e o compromisso de apoiar socialmente as organizações que som o espelho, os nossos representantes perante dos necessários interlocutores terám uma cadeira para o debate.
A associaçom decana do reintegracionismo, a AGAL, vai fazer 25 anos para o ano 2006, isto deve ser mais um motivo para todos e todas pensarmos que se ela for o suficientemente forte, se tiver atrás dela uma massa associativa importante, entom ela poderá ser tida em consideraçom, embora só seja por questões eleitorais. Digo de uma maneira crua e nua mas a realidade mede-se, nesta nossa sociedade, polo teu próprio peso específico nela.
Qualquer outra cousa...
Acho que já respondi demais... e parabéns polo boletim Em Movimento.