1906 Galiza, Memória Viva

1906 Galiza, Memória Viva



No terceiro cabo-de-ano do meu avô e no primeiro da minha avó

Vítor M. Lourenço*.- Dezembro de 1906, que longe fica a data. Aos olhos de uma criança galega dos dias de hoje, nomeadamente se ela vier da zona urbana, é mesmo difícil idear o mundo de princípios de século que se tecia na Galiza, ou talvez nem tanto. E que ninguém pense na marca de cerveja alguma... A história que eu reivindico é feita sempre pelas pessoas humildes, as pessoas sem nome.

Continua:

Na Galiza de princípios de século o peso do rural era esmagador face as cidades; o peso da tradição galega era esmagador face qualquer sintoma ou aparelho de Estado espanhol colonizador que, no entanto, já existia, bem como os colaboracionistas dispostos a fazê-lo aliado seu; colaboracionistas surgidos em primeiro lugar do caciquismo que na altura -se calhar não mudou tanto a coisa, era o pão nosso de cada dia e as relações de poder não deixavam ascender facilmente de uma camada social para outra, nem tão sequer falando castelhano. E claro, a emigração já batia constantemente na porta.

Nessa Galiza de 1906, de fins de 1906, cujos condicionantes históricos em detalhe não é questão aqui de analisar, veio ao mundo numa pequena aldeia da Galiza mais profunda, ribeirinha com o Minho, perto da Ribeira Sacra e a uns quilómetros da emergente cidade de Ourense, uma criança cuja vida não ia ser lá nada fácil, também como não ia ser para muitas outras, claro.

O meu avô (materno) não teve ocasião de conhecer o seu pai (coincidências, eu também não), teve uma mãe delicada que morreu também jovem e ficou praticamente sozinho tendo como única família ele próprio e as suas terras. Um capital que foi conhecendo à perfeição, que trabalhou com grande paixão e do qual aproveitou até o máximo os seus frutos para sobreviver, mesmo que fosse arriscadamente, da sangria migratória que levou muitas das suas amizades e familiares pelo mundo adiante na procura de um melhor destino.

Mas o meu avô foi um afortunado nisso, porque graças ao seu trabalho obstinado e à sua humildade soube carregar com pesados fardos e aguentou mesmo o destino cruel de uma guerra na qual se viu envolvido forçosamente e forçadamente, fazendo apagar as suas ideias publicamente, mas mantendo o espírito combativo e lutador que transmitiria muito subliminal e delicadamente ao seu neto, que só anos depois, quando já era um homem adulto, saberia valorizar no seus justos termos.

É só agora quando nas noites esse neto tarda em pegar no sono, ou nos dias calmos quando o pensamento dele voa subitamente, como querendo fugir da ruindade diária de estreasse, mentiras e destruição que nos abala, é aí, dizia, quando o neto repara no grande legado do seu avô (e da sua avó).

O neto, eu próprio claro, tem lamentado imenso não ter aproveitado mais algumas das suas lições magistrais acerca do seu mundo, essas lições que nos dias de hoje talvez possamos ler nalguns livros como cultura material... já quase morta, mas cuja transmissão vivência real e sentimento são chaves para a sua compreensão.

O meu avô dedicou-se a muitas dessas coisas que hoje soam a lendas, ou são descritas como tais. Além do seu abnegado trabalho nas suas terras e montes, também passaram pela sua vida o pequeno contrabando, a militância activa na base do Partido Galeguista, o apoio e o trabalho por conseguir adesões para o Estatuto de 1936... e a seguir o sofrimento da guerra e o silêncio, o trabalho calado, o mantimento da família e o explodir secreto com a oportunidade dada ao neto, o seu único neto, uma oportunidade que procurava abrir a janela fechada bruscamente na sua vida.

Contar detalhes não vale muito a pena, acho. Só sei que lá a princípios da década de 90 do século XX o meu avô, já velhinho, lembrava parte da sua vida, das suas vivências para um arquivo sonoro para o qual trabalhava um amigo. Foi pena não conservar uma cópia da fita... mas talvez também nem seja necessário. A história foi feita a partir da humildade, do silêncio, do trabalho calado... e da transmissão certa de uns ideais simples, mas marcantes: liberdade, humildade, dignidade e solidariedade, muita solidariedade.

A minha avó acompanhou o meu avô desde meados da década de 40. Por 1945 casavam e, embora o meu avô fosse quase 20 anos mais velho, fizeram cerca de 60 anos de casados e tiveram uma única filha. Foram duplamente pai e mãe. Agora que já cá não estão, sei que (todos) perdemos muito com a sua ausência.

Mas podemos recuperar, preservar e modernizar a sua memória se realmente tivermos vontade. E eu tenho vontade. Talvez ainda haja esperança... embora se calhar seja tarde demais.

Nota: Este texto foi redigido após uma sugestão feita pelo grande Ernesto Vasques Souza, para fazer parte de um projecto muito maior dedicado aos nossos avós, mas o pessoal pode ver que os meus dotes de escrevente não dão para tal. Por uma vez, assino também em primeira pessoa.

Escrito em 07-11-2007, na categoria: Contributos

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