Uma desconhecida acção antifascista com protagonismo galego e português

Uma desconhecida acção antifascista com protagonismo galego e português



Margarita Ledo Andiom e o seu «Santa Liberdade» tiveram grande acolhida em Ourense na abertura da segunda edição do ciclo «CinemGalego»

Altera Galiza.- Xavier Castelhanos, moderador no acto de abertura da II edição do ciclo «CinemGalego», encerrou o mesmo com a leitura de um poema de Bertold Brecht que assenta com uma luva para resumirmos o que vivemos as mais de 30 pessoas que estivemos no Centro Social da Esmorga em passada quarta-feira, 5 de Dezembro:

Do rio que tudo arrasta
se diz que é violento.
Mas ninguém diz violentas as
margens que o comprimem.

Continua:

«Santa Liberdade», de Margarita Ledo Andiom

O regime e os média espanhóis da época –década de 60 de século passado- venderam a acção do ‘Santa Liberdade’ como apenas portuguesa, embora no comando composto por 24 pessoas, 12 eram portuguesas, mas 8 galegas e, ainda, 4 espanholas.

O regime português fez naquela altura uma grande campanha a prol de Salazar, aproveitando sobretudo a morte de um oficial do Santa Maria e também o silêncio das chamadas organizações interiores, que embora apoiassem a acção como antifascistas não emprestaram grandes ajudas para um dos homens do triunvirato do D.R.I.L., estamos a falar, claro, de Galvão.

Ora, o sequestro do 'Santa Maria' foi uma coisa bem distinta, como desvenda o fantástico documentário produzido em 2002 pela galega Margarita Ledo Andiom e que ainda hoje continua no cartaz de diversos festivais internacionais. A acção apresentada no «Santa Liberdade» foi antifascista, de uma estreita colaboração galego-portuguesa e utilizou o sequestro como reivindicação política para combater os regimes dos estados português e espanhol, quer o Salazarista quer o Franquista.

«Se sodes antifascistas e romântic@s ‘Santa Liberdade’ é o vosso filme»

Margarita Ledo Andiom, apresentou o documentário de uma maneira muito emotiva e com grande força e energia nas suas palavras, pois afirmou, dirigindo-se ao auditório, que «se sodes antifascistas e romântic@s ‘Santa Liberdade’ é o vosso filme porque é uma viagem com um tipo de herói problemático e colectivo que, como todos os heróis de filmes, enfrenta dificuldades, enfrenta com o dragão, neste caso o fascismo, mas ao contrário do que nas histórias literárias clássicas não consegue chegar a casa».

Ledo Andiom continuo a sua exposição inicial relatando qual a sua vontade à hora de «embarcar-se» neste projecto, manifestando que «as três personagens que dão corpo à esta viagem, a primeira vez que retornam à casa é com este filme; retornam com um produto para ser exibido, para ser comentado e para dialogar com algo que se passou na resistência nos anos 60 e que é muito representativo do que eram os anos 60 como os anos de grande imaginação na política, dos movimentos de libertação, de formações com muito poucos meios, mas que faz grandes acções, como é o caso do D.R.I.L, uma formação pequena que se faz com um 'coche de linha marítimo', como era o Santa Maria, que fazia a linha La Guaira-Lisboa-Vigo, e é convertido durante 13 dias no 'Santa Liberdade', um pouco é essa a história».

O triunvirato galego-português: Velo – Souto Maior - Galvão

A realizadora galegou continuo a sua apresentação salientando também que «a história do ‘Santa Liberdade’ está relatada pelos próprios protagonistas, porque sabeis que havia um triunvirato que eram dois galegos, que representam um pouco o arco da frente popular na Galiza, do republicanismo galeguista ao comunismo, que eram Pepe Velo - Souto Maior; e por essa figura que aparece muito em Portugal, o militar inadaptado, que é o caso de Galvão, um homem que passa de ser da confiança do Salazarismo a, precisamente a partir de ser governador de Angola e fazer um relatório muito crítico sobre a política portuguesa em Angola, passar à lista negra, acabar no exílio e protagonizar este feito muito singular».

Margarita Ledo Andiom acrescentou ainda, referindo-se aos protagonistas, que «eles agora não estão, mas ficam, no caso dos galegos, os seus filhos biológicos que iam no comando, portanto é uma história de pais a filhos, e embora Galvão não tivesse filhos, tinha um dos portugueses que era a chamada mão direita de Galvão, o enlace com o comando composto maioritariamente por galegos, pois em 12 pessoas que faziam parte do mesmo, 8 eram galegas e 4 espanholas».

Para findar a apresentação inicial, Ledo Andiom comentou que «este é o material que dá corpo à história que eu recupero e, obviamente, como parece uma acção muito muito de homens, no filme têm um grande peso as mulheres, porque eu jogo sempre com o que se conhece e o que não se conhece e esta era uma acção completamente desconhecida e, sobretudo para os portugueses, era desconhecida a participação galega».

«Portugal pensou durante muito tempo que o sequestro do Santa Maria fora só uma acção portuguesa e de facto o filme apresentou-se e entrou em competição no ano 2004 no Festival Internacional de Documentários de Lisboa», concluiu.

A diversidade da nossa língua no filme

Do ponto de vista linguístico, vale a pena destacarmos o facto de na fita original exibida na Esmorga não serem legendadas em momento nenhum –excepto um par de casos cuja audição era muito dificultosa- as diversas declarações, realizadas em diversos sotaques e com fonéticas diversas da nossa língua, além do próprio espanhol utilizado, em menor medida, nalguma das declarações dos protagonistas.

Após a projecção do documentário seguiu-se um muito participado debate durante o qual foram comentados diversos aspectos históricos dos feitos, bem como da realização e técnica utilizada no próprio filme.

Esta primeira exibição do ciclo «CinemGalego» dá para animar o pessoal a assistir às próximas exibições nas quais estarão presentes até 5 realizadores/as galegos com filmes que abordam temáticas do mais variado.

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=> Descarregar Ficheiro MP3
[Duração da gravação 38 min | 35.9 MB]

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Escrito em 07-12-2007, na categoria: Cultura, Política, Áudio

2 comentários

Comentário de: margarida [Visitante] Email · http://www.parcelaria.com/
Daqui, Galiza do Sul, te digo: Noraboa, Vítor! o teu blogue está
"um arraso"(esta é em Galego Tropical... ;-P )

já agora, vai à "www.parcelaria.com" e clica nos ícones da minha Gatinha MIMI....

Abraço forte,
margarida
27-03-2008 @ 00:44
Comentário de: Joana [Visitante]
Não estou a conseguir descarregar o mp3, será que mo podiam enviar para o mail? joanaperez90@gmail.com agradecia muito, obrigada.
03-04-2009 @ 20:00

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