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História de Táliga segundo Carlos Luna

07-11-2005

Link permanente 18:29:04, por Ibérico Email , 4121 palavras, 290 leituras   Português (PT)
Categorias: Olivença

História de Táliga segundo Carlos Luna

Link: http://porolivenca.blogs.sapo.pt/

História de Táliga, por Carlos Luna.

http://www.pueblos-espana.org/extremadura/badajoz/taliga/Calle+con+arquitectura+alentejana+portuguesa/ (discussão)

HISTÓRIA DE TÁLIGA (só texto), corrigida
Contribuição para uma (pequena) História de Táliga (Talega)

Táliga é uma vila de pouco mais de 720 habitantes, nas margens da ribeira de Táliga ou de Alconchel, a cerca de 20 Km a sudeste de Olivença, cercada ainda pelos concelhos de Bancarrota, Higuera de Vargas e Alconchel, embora em relação aos dois primeiros a separe territórios do concelho de Olivença. A áerea do concelho é reduzida (31,55 Km2) e a densidade populacional é de cerca de 2 3 hs/Km2.

Táliga fez parte do concelho de Olivença até 1850, e é só em 1871 surgem os primeiros registos municipais. A sua História, portanto, confunde-se com a de Olivença, que por vezes a ofusca.

Continua:

Todavia, por ser a aldeia mais distante da sede do concelho, por já haver noticias da sua existência no século XIII, talvez antes, e por ter sido mais povoada que outras aldeias da mesma região, tem bastante mais registos históricos que outras localidades em situação semelhante.

Fazendo parte, com o Olivença, da Tayfa muçulmana de Batalyaws (Badajoz), terá caído em mãos cristãs com as conquistas de D. Afonso Henriques por volta de 1170, voltando à posse muçulmana por volta de 1189.

Na época de D. Sancho II, por volta de 1228, terá sido conquistada por templários portugueses. A tradição histórica refere-se a Olivença e Táliga como duas fortificações templárias. No caso de Táliga, tem-se contestado a existência de qualquer verdadeira fortificação. E, todavia, até hoje, os taliguenhos chamam a uma zona da vila “O Castelo”.

Muitas discussões se têm levantado ultimamente sobre a tradição de terem sido templários portugueses a arrebatar Táliga (e Olivença) aos muçulmanos. Teses recentes referem a pouca lógica geográfica de tal
facto, e insistem na probabilidade de terem sido templários Leoneses a fazê-lo, vindos de Badajoz, em 1230, ou um pouco depois.

Muito ainda se escreverá sobre o assunto. Todavia, as fontes espanholas até à pouco tempo, não hesitavam em considerar correcto que tinham sido ordens militares sob obediência portuguesa a conquistar a margem esquerda do Guadiana, desde Olivença até Huelva, incluindo Cheles, Alconchel, Aroche, Aracena, El Almendro, Lepe, e Ayamonte
(História do Mundo, José Pijoan, Salvat Editores, 1973, página 250 [mapa]; História Universal, 1985, Salvat Editores, 1985, volume III, Jacinto Boch Vilá, página 252 [mapa idêntico]). Mesmo as obras muito célebres do oliventino de adopção Victoriano Parra (1808-1869) falam da origem Templária Portuguesa de Olivença e Táliga.

Nada impede que todos estes autores estivessem enganados. Mas dever-se-á ter muito cuidado com este assunto, para que não se esteja perante um caso de revisão nacionalista da história, neste caso no sentido de provar a espanholidade remota da margem esquerda do Guadiana na região em questão. O Chauvinismo, seja português ou espanhol, é sempre reprovável.

Os reis portugueses, no século XIII, tentaram “cortar” o caminho aos reis de Leão e Castela, apoderando-se do máximo de terras para Leste do Guadiana. A guerra civil, em Portugal, entre o rei Sancho II e o seu irmão, futuro Afonso III, enfraqueceu o país, tanto mais que Castela apoiava o primeiro, derrotado, o que acabou por levar a revindicações de Toledo sobre o Algarve e a um tratado, em 1267 (Tratado de Badajoz) em que toda a margem esquerda do Guadiana ficava sob domínio Castelhano. Afonso III nunca se conformou com tal decisão, e tanto ele, como seu filho D. Dinis, apoiavam núcleos portugueses na região cedida.

Em 1295, é Castela que está a braços com a guerra civil. Aproveitando a ocasião, D. Dinis melhora, dilatando-a para leste, a fronteira portuguesa, o que conduziu ao Tratado de Alcañices de 1297. Ouguela, Campo Maior, Olivença, e outras praças ficariam portuguesas.

E Táliga? A sua posse ficou em dúvida. O rei D.Dinis pediu aos governantes de Badajoz que analisassem a questão, e se consideravam ou não que a região de Táliga era parte do Termo de Olivença. Em 1314, Táliga era reconhecida como portuguesa… o que sabemos graças a um documento descoberto em Badajoz pelo já citado Vitoriano Parra, datado de 1575, e que a tal se refere.

Táliga e Olivença ficaram pois em terras templárias portuguesas, até 1311. Com a extinção dos Templários, passaram a ser terras da ordem de Avis desde 1315 até 1801. Note-se que pertenceram, com Ouguela e Campo Maior, ao Bispado de Badajoz até 1415.

Sem dúvida que Táliga viu então crescer a sua população. O próprio rei D. Dinis promoveu o povoamento da Raia, enfim definida e estabilizada.

Havia, contudo, em Táliga, um sentimento de diferença em relação a Olivença. Embora dependentes desta, os taliguenhos manifestavam o seu espírito independente afirmando-se orgulhosamente “vizinhos [homens livres] de Táliga, reino de Portugal”, sem referirem ligações a Olivença.

Também desde muito cedo a justiça em Táliga era quase autónoma em relação a Olivença, pois a localidade dispunha do direito a “um juiz de pé”, o que em relação a outras povoações da região, era único. Só no séc. XVIII há notícias de igual direito para São Bento da Contenda e Olor (São Jorge).

O nome Táliga continua a ser um mistério. Virá do árabe, e quererá dizer “separada”, “dispensada” (“talaq”), por, em tempos muçulmanos, ter deixado de depender de Alconchel? Significará que foi uma “Vila
Itálica”? Virá da portuguesa/alentejana táliga ou talega (saca), por nela se produzir farinha que era depois ensacada? Eis algo de difícil resposta.

O sentido de “saca” foi , com o tempo, aquele que foi assumido pelos habitantes, já que o nome da vila surge muitas vezes como sendo Talega (designação que ainda hoje é ouvida a alguns idosos). Decerto o sentido original se tornou incompreensível…

Sabe-se que Táliga, como as restantes aldeias de Olivença, sofreu bastante na guerra desencadeada a partir da revolução de 1383. O Alcaide de Olivença apoiou a facção favorável a Castela (como os de Campo
maior, Vila Viçosa, Noudar, Mértola, e outros), e só em 1390 a nova dinastia portuguesa recuperou a região, na qual se incluía Táliga. É de supor que vários ataques, destruições várias, roubos, e incêndios, terão ocorrido na povoação. Talvez a sua população, como sucedeu em Olivença, se tenha dividido, lutando alguma, talvez fugindo para Elvas e para Alandroal, ao lado da revolução.

Terá sido nestes séculos mediavais que nasceu a Táliga
Alentejana, com as suas casas características. Ainda hoje as encontramos por todo o lado, este tipo de construção popular, em especial na zona conhecida como o “Castelo”. É urgente as autoridades locais se disponham a proteger as casas ainda existentes da chamada “Táliga Alentejana”, antes que os tempos modernos engulam esta riqueza, património histórico e
memória da velha Táliga, herança deixada aos taliguenhos modernos, que simboliza quinhentos anos da sua história, ou até mais, pois até ao século XX as edificações realizadas pelas gentes mais simples obedeciam à tradição.

Também da época mediaval deverá ser a chamada “Ponte Romana” de Táliga. É muito mais provável do que ser de facto romana. E, todavia, aqui há que proceder a estudos mais aprofundados.

Assinale-se que alguma Igreja ou Ermida terá existido já no século XIII. Poderá ter estado situada debaixo da actual? Considerando os muitos estragos a mudanças que a história produziu em Táliga, é também possível que tivesse sido noutro local.

Em 1510, houve confrontos fronteiriços com a espanhola Alconchel resolvidos em 1511, pelos governos centrais. Os problemas contudo, verificam-se, quase todos, na região de São Bento da Contenda.

Muitos portugueses do interior alentejano participaram na aventura dos descobrimentos iniciada no século XV. Isto significa que bastantes taliguenhos terão percorrido os mares, e chegado ao Brasil, a África, à Ásia… e sabe-se lá mais aonde…

Os mesmos descobrimentos ter-se-ão feito sentir em Táliga. Assim ao lado da partida de locais, produtos vários terão alcançado a localidade, bem como, inevitavelmente, alguns escravos africanos, e pessoas de outras origens.

Em 1527, o Numeramento (censo) da população portuguesa, o primeiro de que há notícia, cita Táliga, dando a como povoação “aglomerada”, isto é, com a população concentrada num centro bem definido, talvez herança de um núcleo templário. São citados 53 fogos, (cerca de 220 habitantes). Algo que muito nos diz da importância da povoação, pois raras são as localidades sem autonomia municipal que vêem citados os fogos nesse documento. Na verdade, apenas três ou quatro no Alentejo.

É curioso que algumas sedes de concelho tinham uma população inferior (Noudar, Vila Boim, Vila Fernando, Capelins, Canal, Montoito, Aguiar, Ervedal, e outras). Olivença teria então 4800 habitantes, Elvas 8800, Évora 12100.

Uma leitura apressada no Numeramento de 1527-1532 parecia indicar 133 fogos para Táliga, graças ao texto pouco claro e arcaico. Todavia, uma leitura atenta não deixa margem para dúvidas. São só, mesmo, 53 fogos.

Táliga era conhecida por ser montanhosa e ter muitos matos; também se fala em moinhos de água e na produção de farinha, o que pode ser mais ou menos provado pela abundância do apelido “Farinha” nos habitantes. Logicamente, o contrabando foi uma actividade florescente até 1801.

Pouco se sabe do Século XVI (a partir de 1527) até no XVII (até 1640). Táliga terá vivido as hora de glória da expansão portuguesa, bem como a decadência vivida a partir da metade do século XVI. Provavelmente, terá perdido alguma população, alguma da qual terá ajudado a povoar o Brasil. É possível que tenha existido uma Táliga no Brasil, no estado do Piaui, mas hoje não se encontram vestígios. Das duas, uma: ou era uma povoação já desaparecida, ou terá mudado de nome no século XIX. Eis algo a investigar.

Táliga volta a ser (tristemente) notícia em 1641. Tendo-se Portugal proclamado de novo independente em 1640, o exército espanhol tratou de recuperá-lo. Em 1641, Olor (São Jorge) e Talega foram queimadas. Como escreveu o conde da Ericeira, “ tiveram os moradores aviso a tempo, que puderam retirar-se a Olivença; perderam a pouca roupa com que pobremente se reparavam, vitória de que os castelhanos nas gazetas fizeram ridícula ostentação. Retiraram-se deixando queimadas as aldeias, e nas igrejas delas sacrilégios testemunhos da sua irreverência. Os moradores das aldeias se dispuseram a satisfazer o agravo e a recuperação a perda. Um e outro efeito conseguiram em muitas entradas que fizeram em várias partes de Castela.”

(História de Portugal Restaurado, 1710, pelo Conde da Ericeira.)

Por outras palavras, a guerra (1640-1668) levou á destruição a portugueses e espanhóis, perdendo ambos. Eis a principal lição a tirar de tais eventos.

A guerra, na região, atingiu o auge em 1657/58, quando Olivença, onde de novo se tinham refugiado os habitantes das aldeias em redor, e, portanto, taliguenhos, foi ocupada pelo exército espanhol. Sabe-se que a população oliventina, salvo 30 pessoas, se refugiou em Elvas, Alandroal, Estremoz, e outras localidades. Presume-se que entre eles houvesse muitos taliguenhos.

Até 1668, muitas gentes de Cheles e Alconchel, vieram tomar o lugar dos oliventinos, só regressando á origem na citada data, estabelecida a paz. Os oliventinos tiveram que construir muito do que fora destruído (o que também sucedeu, naturalmente, em localidades espanholas), e em Táliga as coisas não foram diferentes.

No meio de tanta destruição/reconstrução, não é de estranhar que muita coisa se perdesse. Talvez fosse então, ou já, no século XIV, que algum eventual vestígio, se existiu, de uma fortaleza templária, se
perdeu.

A tradição popular diz também que Táliga foi reconstruída várias vezes em lugares diferentes. Um exagero… ou a memória de algo real?

De novo em 1709, e por volta de 1750, Táliga foi perturbada por guerras entre Portugal e Espanha.

Do século XVIII, há várias informações. Assim no livro
Corografia Portuguesa, de 1708, de António Carvalho da Costa, tomo II, fala-se de “Nossa senhora da Assumpção de Aldeia de Talega”. Diz-se que a sua terra é menos abundante que a de São Domingos de Gusmão, por ser “montanhosa, e de maiores matos”; que tem cem vizinhos (460 habitantes?) com o seu juiz de Vintena”,que é atributo também de São Jorge de Alor,
apenas um pouco menor. Cita-se haver em Tálega grandes herdades, com destaque para a de Alparragena, “que está dividida em tantos quinhões, que os mesmos lavradores lhe ignoram os donos; a [herdade] de Val-Moreno, cujos matos passam de dois mil cruzados de renda a seu dono; a [herdade] de Mentilhão, e monte da Vinha, e outras muitas.”

Táliga era, ainda, a aldeia mais populosa de Olivença…

Porque se celebram (passe a ironia) 250 anos de terramoto de Lisboa de 1755, cabe aqui referir que Táliga foi atingida, ainda que levemente, pelo mesmo. O relatório de 1756 de São João de Spinha Cordeiro, cura da localidade, afirma que nove minutos antes das dez de 1 de Novembro de 1755 se ouvira grande estrondo, que durou cinco minutos; nenhuma casa se arruinou, ninguém morreu, nem surgiram fendas. Todavia, na herdade de Vale de Gameiros, bem como na de Vila Velha, rebentaram nascentes de água. O cura refere que a 11 de Dezembro houve um abalo de terra sem importância bem como tal sucedera cerca de trinta anos antes. Refere, finamente, que havia em Táliga 250 homens e 166 mulheres.

Um texto de 1758, do cura José Joaquim Guerra (“Memória
Popular”), dizia existirem na localidade 104 vizinhos e 277 pessoas… o que quase certamente significará 450 habitantes e cerca de 257 pessoas consideradas como de fora (jornaleiros? Escravos?).

Na “Memória Paroquial” de 1758, e no que se refere a Vila Viçosa, destaca-se um parágrafo sobre a freguesia calipolense de Cilada, onde se lê “a serra (…) criar piorno, arruda (…) ; e pelas fontes avenca, erva saboeira, e também erva coroa de rey, TÁLIGA, cardo arzol (…)” (Citado em
O Montado no Alentejo, séculos XV a XVIII), de Ana Fonseca, Colibri, 2004). Pelos vistos existia uma planta com o nome de ” táliga”.

Datará talvez do século XVIII a traça actual da Igreja de Táliga, embora talvez seja mais correcto dizer que estamos perante uma mistura de estilos. O telhado, esse, tem uma forma muito encontrada em igrejas rurais alentejanas.

Em 1801 (20 de Maio), o exército espanhol ocupou Olivença e, portanto, todo o município, incluindo Táliga. Talvez alguns taliguenhos estivessem dentro das muralhas da sede do concelho. Não há muitas informações sobre a época mesmo porque quase não houve derramamento de sangue na Região. Note-se que a actual aldeia de Vila Real não pertencia então a Olivença, mas sim ao depois extinto concelho de Juromenha.

Em 1811, espanhóis, franceses, portugueses e ingleses,
defrontaram –se na Região. Há noticias de novas destruições nos arredores, o que significou sofrimento para os taliguenhos.

Como se sabe, a Questão da Posse da Região de Olivença-Táliga nunca foi considerada como resolvida por Lisboa… o que não impede que se dialogue, se estabeleçam muito boas relações Portugal-Espanha, Extremadura-Alentejo, e Concelhos dos dois países. Deixemos, pois, de lado o
aprofundamento e discussão deste problema, e continuemos o nosso esboço histórico.

Coube a Miguel Ángel Vallecillo Teodoro, de Olivença, escrever um livro
Olivenza en su História, Olivença, 1999), onde se relatam os dramas que no inicio do século XIX as populações da Região (Táliga
incluída, claro) viveram, ao tentarem forçá-las a abandonar costumes, língua, e cultura ancestrais. O Português, mesmo assim, segundo me disseram habitantes idosos em 1994, era ainda falado pela maioria dos taliguenhos em 1950.

É possível que alguns taliguenhos se tenham refugiado em Portugal no século XIX. O aparecimento de gente, por exemplo, com os apelidos “Farinha” e “Isaac” na Raia (Borba, Alandroal, Reguengos) assim o indica. Em contrapartida, famílias de várias regiões de Espanha foram-se fixando em Táliga principalmente quadros de funcionalismo e de ensino.

Administrativamente, não houve grandes alterações iniciais. São Jorge de Alor foi transformada em concelho independente a partir de 1843 (voltou a integrar-se em Olivença em 1862), mas Táliga só em 1850 viu a sua autonomia concedida. Mesmo assim só em 1871 surgem os primeiros registos feitos em Táliga, e já não em Olivença.

A Guerra Civil de Espanha (1936-39) produziu os seus dolorosos estragos, mortos, e anátemas. Táliga não foi muito afectada, pelo menos directamente, mas a nível de mentalidades assistiu-se a uma oficialização de um tipo de espanholismo chauvinista e xenófobo.

A localidade chegou a ter 1200 habitantes na década de 1950, mas a emigração reduziu este número para pouco mais de 700 (2001).

Há algumas notas sobre a história de Táliga que serão úteis divulgar. Por exemplo, temos o testemunho do oliventino Ventura Ledesma Abrantes, de cerca de 1940, publicado no livro
O Património da Sereníssima Casa de Bragança em Olivença (Lisboa, 1954) em que se refer o seguinte nas páginas 290-291: “O Orago da freguesia (Táliga) é N.S. da Assunção, imagem moderna, que brilha numa disposição econfortante e a sua festividade realiza-se em 15 de Agosto. Do lado do Evangelho existe uma pia de água benta, que serve de baptistério. Numa das arrecadações encontramos uma formosíssima Imagem do século XVI ou XVII, que, por ter a base bastante carunchosa, não é exposta ao culto: é uma N. S. dos Santos de Talega, cuja reprodução se faz para melhor se avaliar do seu valor. O tempo de uma só nave tem de fundo 28 m por 6m de largo”.

Ora a gravura do livro mostra uma imagem igual á da de N. S. dos Santos hoje presente na Igreja de Táliga.

Todavia, é voz corrente na povoação que “os portugueses roubaram a imagem de Táliga, não é a verdadeira a que lá está”.

O velho sacristão Florêncio Silva, de mais de 90 anos, com quem falei em 1994, dizia-me que não tinha havido roubo nenhum. Confidenciava ele que a imagem de N. S. Santos tinha sido muito mal restaurada, mas que era a mesma (o que se verifica, sem grande esforço, comparando com esboços ou fotografias da Imagem actual). Mais, dizia que ainda existira outra imagem, nova, na Igreja, que não era de Táliga, nem de N. S. Santos, e que tinha sido retirada. E, finalmente, declarava, um tanto a medo, que havia pessoas que, ou por falta de cultura, ou por serem afectas ao franquismo, queriam por culpas nos portugueses para criar má vontade em relação aos mesmos.

Ignoro até onde vai a verdade e a mentira em toda esta história da “santa roubada”. É, contudo, urgente esclarecer o que se passou, pois, e de uma forma muito em desacordo com os tempos que hoje se vivem, o “roubo” continua a ser encarado por muitos taliguenhos como demonstração do mau carácter dos portugueses. Pior, dizem que a velha (antiga) santa da igreja é uma substituta do da original, o que, dada a antiguidade que apesar de tudo a mesma evidencia, é absurdo.

Não resisto (e a minha opinião vale o que vale) a chamar a atenção para o que considero ser um erro histórico no Escudo de Táliga, o primeiro conhecido da povoação, aprovado em 2003. Nele está inscrita uma cruz vermelha, que é classificada como “templária”, mas que não o é, pois a Cruz Templária era diferente e inconfundível (ver gravuras). Na parte inferior do mesmo Escudo, vê-se um ramo de laranjeira com duas laranjas, representando a Guerra das Laranjas (1801), que, segundo o texto oficial aprovado, representou a libertação de Táliga em relação a Olivença e a Portugal.

Não se contesta a importância que teve para Táliga a Guerra das Laranjas. Mas, tendo sido esta em 1801, e tendo-se autonomizado Táliga só em 1850, é difícil compreender porque se classifica como “libertadora” a primeira data.

Por outro lado, e passando agora a referir, na minha opinião, outro erro histórico, convém não esquecer que, entre 1315 e 1801, Táliga esteve integrada nas terras da Ordem de Avis. Assim, não se ter colocado no Escudo uma cruz da mesma ordem traduz-se num silenciamento do
Passado Histórico da nova Vila, e no desrespeito da vivência de inúmeras gerações de taliguenhos que viveram, e muitas vezes morreram, por Portugal, durante quase 500 anos. Que razões se poderão apresentar que obstem a que se coloque uma Cruz de Cristo, ao lado de uma Cruz Templária correcta, no Escudo?

Menos pertinente, mas não absurda, seria a colocação de uma torre, ou de um castelo, no centro do Escudo, talvez de cor negra, dada a tradição persistente sobre a existência de uma primitiva fortaleza templária em Táliga. Talvez não passe tudo de uma lenda… mas as lendas têm muita importância em Heráldica! E, claro, nada obsta a que as laranjas continuem na parte inferior do Escudo. Por que não?

Assim, e repito que é uma opinião, se respeitaria a História de Táliga e do seu Povo, assumindo-a… em vez de se dar a ideia de haver vergonha em relação a uma parte dela (basta consultar os apelidos taliguenhos numa Lista Telefónica para se perceber que não se podem ocultar as origens…). Trata-se de um modesto apelo (e não se contesta que a Câmara Municipal / Ayuntamiento / Casa Consistorial de Táliga é soberana/o), mas ficaria bem dar-lhe resposta positiva num contexto de crescente amizade e colaboração entre Portugal e Espanha, entre o Alentejo e a Extremadura, entre povoações raianas. Ninguém seria obrigado a abdicar de coisa nenhuma, mas poderia considerar-se historicamente correcto e visto como um gesto “bonito”, que mostraria a realidade da existência de só, e apenas, boas intenções.

Por outro lado, parece importante lembrar que o uso do Português está quase extinto em Táliga. Em 60 anos, passou de língua ainda e teimosamente maioritária por uma língua falada por 10 ou 20 por cento da população, e quase só dentro de casa, na maior privacidade. Pessoalmente, só na terceira visita que fiz a Táliga pude verificar que o Português é ainda falado.

Toda a vivência histórica/cultural de Táliga, desde 1297 ou 1314 até 1801, e até cerca de 1930/1940, se fez em Língua Portuguesa. Se ela se extinguir, morre uma cultura, morre muito da alma taliguenha. Há que ensinar o Português na Vila, pelo menos em moldes semelhantes ao que se faz em Olivença.

É também necessária uma Biblioteca em Táliga que contenha bastantes livros portugueses. Talvez nela venham a ter lugar, por exemplo, edições modernas dos Registos Paroquiais da localidade, dos séculos XVII
e XVIII, cujos originais se encontram actualmente na Biblioteca de Elvas.

Cabe aos taliguenhos, e aos seus dirigentes municipais, eleitos democraticamente desde 1975, “fazer” o futuro, que se deseja próspero. Cabe-lhes também a responsabilidade, de acordo com princípios expostos
publicamente tantas vezes, de preservar um longo passado, que existiu independentemente dos homens e mulheres de hoje.

Pessoalmente, estou, e tenho a certeza que muitos portugueses e espanhóis estarão também, à disposição para dar uma ajuda, dentro das minhas capacidades e possibilidades. Repito, sem que ninguém tenha de
abdicar de princípios. Espero que se possa dizer que este texto não foi escrito, nem tornado público, em vão!

Estremoz, 3 de Novembro de 2005
Carlos Eduardo da Cruz Luna

Escudo de Táliga: http://hextremadura.iespana.es/badajoz/taliga.htm

2 comentários

Comentário de: MigRoque [Visitante] · http://arquivopessoal.com.sapo.pt/
"Nada impede que todos estes autores estivessem enganados. Mas dever-se-á ter muito cuidado com este assunto, para que não se esteja perante um caso de revisão nacionalista da história, neste caso no sentido de provar a espanholidade remota da margem esquerda do Guadiana na região em questão. O Chauvinismo, seja português ou espanhol, é sempre reprovável." Caro amigo, pego nestas suas palavras simplesmente porque penso de igual forma, é importante esclarecer que nada tenho contra Espanha ou qualquer outro país, nação ou reino... Mas me bato pela justiça, embora entenda que a justiça dos homens é muito confusa e dada a erros (alguns bem graves).

11-11-2005 @ 18:44
Gracias por este post. Es un placer leer su blog y ver que, por fin, quedó arreglado el problema con los comentarios.

Un saludo.
14-11-2005 @ 17:53

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