« Cavaquinho 50! A luta continua!Mentiras da extrema direita espanhola »

Saramago iberista

22-01-2006

Link permanente 11:19:44, por Ibérico Email , 3947 palavras, 573 leituras   Português (PT)
Categorias: Ibéria

Saramago iberista

Link: http://www.caleida.pt/saramago/index.html

O amigo Carlos Luna mandou-me isto.

COURRIER INTERNACIONAL em Português, 20 a 26-Janeiro-2006 (Capa:José Saramago-Portugal pode acabar)
PORTUGAL
ENTREVISTA - PASSEIO
Xavi Ayén (em Lisboa)

José Saramago e a Ibéria Unida

La Vanguardia escolheu Saramago e a capital portuguesa para iniciar uma série de visitas às cidades dos vencedores do Nobel da Literatura. O escritor lança uma tese polémica: Portugal estaria melhor dentro de
Espanha.

LA VANGUARDIA-Barcelona

A nova casa de José Saramago, num bairro discreto do centro de Lisboa, é ampla, austera, e tem um nome: chama-se Blimunda, como a prodigiosa personagem que, no seu romance
Memorial do convento, possui a capacidade de ver através da pele.

Continua:

Recebe-nos à porta, sob um chuvisco, a sua mulher, a jornalista granadina Pilar del Río, que faz as presentações: "José, estes são os senhores que vão ser a tua sombra durante três dias". "Ah, encantado", responde o Prémio Nobel da Literatura de 1998, que
acaba de despertar da sesta. "Sabem que, no dia do Livro, comprei esta casa a partir de Barcelona, sem sequer a ver?"

Enquanto Pilar serve um chá na modesta mas acolhedora cozinha, esclarece que "confiámos nuns amigos que a tinham visto, tanto que até nos esquecemos de perguntar o preço, e quando dissemos ao vendedor que o comprador era Saramago, até ficou com pele de galinha. A casa chama-se Blimunda", disse-nos."Era fã do José e uma vez até o tinha convidado para ir observar golfinhos no seu barco"."Queríamos voltar a ter um sítio nosso em Lisboa", explica o escritor. "Vão-se equilibrando, a pouco e pouco, os tempos que passo entre Portugal e Espanha e, embora Lanzarote continue a ser muito mais forte, senti a necessidade de restabelecer o vínculo afectivo com Portugal".

Saramago brigou com o seu país em 1992, quando o Governo português vetou
O Evangelho segundo Jesus Cristo -muito crítico para com a Igreja Católica-, impedindo-o de concorrer a um prémio literário europeu.
No ano seguinte, emigrou para Lanzarote (ilha das Canárias), onde ainda reside. No próximo dia 22 de Janeiro, Portugal realiza eleições presidenciais e o Nobel contempla com autêntica preocupação a possibilidade de uma vitória de Aníbal Cavaco Silva, candidato único da direita: "Não me esqueci do que me fizeram. Cavaco Silva era o primeiro-ministro do
Governo que me censurou. Se chegasse a Presidente, eu não teria nenhum motivo para manter relações com ele, nem sequer institucionais".

José e Pilar multiplicam os gestos de afecto, são um desses casais que dá a mão e não hesitam em beijar-se na rua. Unidos também na literatura (ela é a tradutora das obras dele para espanhol), a sua história de amor começou em 1986, quando "me telefonou para Lisboa, apresentando-se como uma leitora que desejava roubar-me um quarto de hora. Aceitei, combinámos às quatro da tarde. Ela tinha 36 anos e eu 63. Falámos muito e demos uma volta pelos lugares dos meus romances. Pouco epois,
escrevi-lhe uma carta: "Se as circunstâncias da tua vida o permitirem, gostaria de me encontrar contigo". Era uma forma de lhe perguntar se estava casada. Foi então que tudo disparou. Aquele primeiro passeio foi ao
cemitério, para ver o lugar onde estivera o túmulo de Pessoa; depois ao Mosteiro dos Jerónimos, para cujo claustro o trasladaram, e ao Hotel Bragança, cenário do meu romance
O ano da morte de Ricardo Reis. Agora veremos todos esses locais convosco".

UM SELO DEMASIADO CARO

Toca a campainha e aparece o gerente da editora Caminho, onde Saramago publica fielmente os seus livros. Veio buscá-lo para o acompanhar à apresentação de um novo selo dos correios, com a efígie de Álvaro
Cunhal, falecido líder histórico do Partido Comunista Português (PCP), em que o escritor milita. "Creio que Cunhal e eu somos os únicos comunistas com selo...embora me dê um pouco de ciúmes o facto de ele ir agora aparecer no correio normal, porque lhe deram um selo de poucos cêntimos. Eu nunca vi uma carta com a minha cara, deram-lhe um preço muito alto!"

Entramos no carro, rumo ao evento, e, sob a iluminação natalícia das ruas, Saramago revela-nos o seu voto numa hipotética segunda volta: "Optarei por Mário Soares, se for possível". O PCP é talvez o único partido comunista na Europa que mantém a sua sigla e a foice e o martelo como símbolo nos cartazes. "Apresenta-se com o seu nome e não lhe fica mal. Somos o que somos: não há razão para entrarmos numa falsa cosmética; nós, comunistas, continuamos a acreditar que os problemas do mundo se
resolvem com uma distribuição mais equitativa da riqueza". A filha foi candidata, mas pelo Bloco de Esquerda, "uma esquerda independente muito activa, mas que rejeita tudo o que tenha a ver com o PCP. Fazemos-lhes náuseas", comenta com resignação paterna.

Saímos do carro e chegamos aos correios, onde, após os abraços da praxe, Saramago contempla a emissão filatélica e fica a olhar o rosto de Cunhal nos envelopes. Ao fundo, Jerónimo de Sousa, candidato comunista à presidêmncia, dá autógrafos como uma estrela de "rock".

Saramago também se tem dedicado à promoção de
As Intermitências da Morte", o seu último romance, que especula sobre o que aconteceria se, de repente, num determinado país, a morte deixasse de fazer o seu trabalho e as pessoas vivessem eternamente. No dia seguinte à concorridíssima procissão em honra da Virgem -que congestionou as ruas da cidade -, o escritor, grande leitor de obras de astrofísica, dizia:"Não sou crente, mas nem percebo como é que alguém pode acreditar em Deus. É muito difícil, com os progressos científicos actuais... quando chegar a minha
hora, entrarei no nada, dissolver-me-ei em tomos, e já está, como fez o meu cão há dois meses. Até ao dia em que se acabe tudo: a Terra, a galáxia, o sistema solar. Isso acontecerá e não haverá Deus que nos venha proteger dizendo: "Onde estão esses seres que criei com tanto amor?"

"A sério que nunca pensa na morte?", pergunto-lhe. "Quando nasci, a esperança de vida na minha aldeia era de 33 anos. Aos 17 tive pela primeira vez consciência de que temos de nos ir embora. Vivi isso com pânico total! Ia pela rua e essa idéia caía-me, como uma guilhotina, em cima da cabeça. Parava e exclamava: "Porra, porra, tenho de morrer!". Mas tal
como veio, essa obsessão partiu. E, aos 84 anos, não penso nisso Há que desdramatizar, compreendo que é um desgosto para a família, mas que quer que faça? Como tenho saúde, vivo como se tivesse 75 anos, que é uma
idade estupenda. Às vezes, como se tivesse 62, o que também não é mau".

DE SERRALHEIRO A NOBEL

E que tal lhe parece a vida? "Um milagre...se eles existissem. Sou autodidacta. A minha família não tinha meios. Trabalhei como serralheiro mecânico durante cerca de dois anos, com o clássico fato-macaco azul, e
fiz muitas outras coisas. A minha educação literária fez-se em bibliotecas públicas, porque em minha casa não havia um único livro, a minha mãe era analfabeta. Nada indicava que pudesse ter o percurso que tive.
Escrevi um romance aos 25 anos e depois nada, até que, com mais de 50 anos, perdi o meu emprego de jornalista no
Diário de Notícias e decidi que era o momento de dedicar-me à escrita. Quando me perguntam porque passei tantos anos sem escrever, respondo sinceramente que não tinha nada para dizer".

À noite, o programa é ópera, outra grande paixão sua. Em cartaz no Teatro São Carlos está o
Otello de Verdi, com direcção musical de Antonio Pirolli, "embora sempre tenha preferido o Don Giovanni de Mozart". À porta, uma mendiga oferece-lhe um jornal de beneficência e Saramago dá-lhe uma inesperada nota de cinco euros antes de entrar rapidamente no átrio. A mulher, aturdida, entra no edifício atrás dele, talvez para ter a certeza de quem era aquele homem. Ao franquear a entrada, descobrindo a beleza dourada da sala, o tecto estucado e os elegantes vestidos das senhoras, benze-se freneticamente e concede-se uns instantes de contemplação extética. Os seus farrapos destoam do ambiente, mas fica fascinada durante um bocado, olhando para tudo.

Pilar é a organizadora da saída e preparou também para o fim-de-semana um trajecto exaustivo pelos lugares da cidade que aparecem nas obras do seu marido. A rota começa, com pertinente chuva molha-tolos, pela Praça do Rossio, expoente máximo da parte antiga de Lisboa. Em 1969, Saramago publicou um artigo num jornal da capital, no qual alguém encontrava uma mensagem numa garrafa, na fonte que há no centro do Rossio. Pilar
del Rio lê agora, em voz alta, esse texto, enquanto ele a fita, rejuvenescido e com um sorriso largo. No conto, a mensagem diz: "Socorro!", uma referência à ditadura que então reinava.

Seguir Saramago numa excursão é uma actividade esgotante. Alto, magro, ágil e quixotesco, move-se de um lado para o outro, para cima e para baixo, subindo ou descendo os 200 degraus das escadinhas de São
Crispim, contando a história de cada recanto de uma Lisboa que tem novos espaços verdes e que, desde a Expo 98, tenta sacudir o estigma de cidade desgraçada pelas catástrofes que sofreu ao longo da História. "Não foram só terramotos e incêndios, mas também o primeiro maremoto da História do Ocidente, em 1755", recorda o Nobel. Cada noite, não obstante, todos esses esforços modernizadores e optimistas são desmentidos pelos pungentes cantores de fado, que povoam os restaurantes populares da parte velha.

[Frase em destaque: DECADÊNCIA
Saramago não tem a certeza de que Portugal exista dentro de 50 anos. Diz que vivemos um "lento processo de decadência" e faz o contraponto com a Espanha, "um país vivo e em progressão", enquanto nós revelamos uma "incapacidade para manter alta a nossa tensão de viver". Os portugueses continuarão a "existir enquanto
comunidade de gente que fala esta língua", mas "o Estado português pode desaparecer". Lembra, por exemplo, que há pouco desapareceu um país que se
chamava Jugoslávia.]

O INÚTIL FERNANDO PESSOA

Passamos, de autocarro, pela praça onde a Inquisição queimou hereges, judeus, e homossexuais, evocando uma cena brutal do

Memorial do Convento". Segue-se o Poço dos negros, "para onde se lançavam os cadáveres
dos africanos nos séculos XVII e XVIII". O percurso inclui uma paragem diante do antigo hotel Bragança, onde se alojava o protagonista de
O ano da morte de Ricardo Reis, no quarto 201. Reis tinha, de resto, o seu consultório médico na Praça Luís de Camões, onde o estado actual da estátua do símbolo da "identidade" portuguesa - "ponha isso entre aspas", diz Saramago - "mostra a falta de respeito dos pombos pelas pessoas importantes".

O Nobel extrai mil histórias das esquinas, azulejos, e cheiros de cada rua, mas as mais frequentes são as que envolvem o poeta Fernando Pessoa ("viveu em quase toda a cidade, em apartamentos alugados"), possivelmente o maior responsável pela transformação do ex-serralheiro em escritor. "Quando era jovem, li uma ode sua que marcou a minha vida", conta: "'Para ser grande, sê inteiro: / nada teu exagera ou exclui. / Sê todo em
cada coisa. / Põe quanto és no mínimo que fazes. / Assim em cada lago a lua toda brilha. / Porque alta vive' (Ode de Ricardo Reis). Depois de ler estes versos, disse para mim próprio: "Sim, vou viver assim",", diz Saramago. O escritor conheceu o médico que tratou de Pessoa no final da sua vida. "Contou-me que, quando os familiares do poeta o acompanhavam ao quarto deste, lhe diziam: "Entre, entre, doutor, aqui
está o inútil". A família não gosta que eu fale disto, mas foi assim. Como não era banqueiro nem capitalista, era um inútil", diz antes de pigarrear e de balançar a cabeça em jeito de reprovação. Frente à sepultura do poeta, no mosteiro manuelino dos Jerónimos, Saramago volta a ler essa Ode, dá umas pancadinhas na lápide, como se alguèm lhe pudesse responder, mantém uma conversa carinhosa com os restos mortais de Pessoa e
diz, com alguma solenidade: "Aqui está Pessoa, senhores!".

Depois de visitar o castelo de São Jorge, ao pé da casa do revisor dos livros de história do cerco de Lisboa, comeremos no Restaurante do Martinho da Arcada, o mais antigo da capital, onde se conserva, como uma relíquia, a mesa a que se sentava o inútil chamado Pessoa. Enquanto espera pelo prato, Saramago exprime as suas heterodoxas opiniões sobre o seu país: "Não tenho a certeza de que Portugal exista dentro de 50 anos.
Vivemos um lento processo de decadência, com alguns focos de entusiasmo, como a República ou a Revolução dos Cravos. Isso revela uma incapacidade para manter alta a nossa tensão de viver. A nossa mentalidade é de
uma tristeza apagada e civil, que pode não ser suficiente para nos mantermos. Pode ser que existam os portugueses, enquanto comunidade de gente que fala esta língua, mas o Estado português pode desaparecer. Não há
muito tempo, desapareceu um país que se chamava Jugoslávia. Nós continuaremos aqui, claro, mas as mudanças geoestratégicas e económicas podem conduzir-nos a um grau de subalternidade inédito. Ainda que
isto não venha a suceder amanhã, tem que ver com o papel pujante de Espanha como Estado, um país vivo e em progressão. É lógico que Portugal seja atraído por ela e se integre -com um altíssimo grau de autogoverno,
entenda-se- num novo Estado ibérico. Especulo, porque pessoalmente não estou a favor nem contra, mas digo-vos que até poderia ocorrer que, como estado federado ao lado de Espanha, o país adquirisse uma importância
que agora não tem."

"A ARTE NÃO É CAPAZ DE MUDAR O MUNDO"

Chegada a noite, descobriremos que Pilar del Río se irrita sobremaneira com os que caricaturam Saramago como um profissional do compromisso, um turista do ideal ou um pregador progressista. Na verdade, o
escritor opina que "a arte não é capaz de mudar o mundo. Se fosse assim, seríamos felicíssimos, porque se escreveu o

Quixote, Os Irmãos Karamazov, Hamlet... o escritor não deve adoptar uma postura messiânica. Eu comprometo-me, mas não ponho nisso qualquer esperança".

Pilar assente: "A nossa casa é uma entidade de última instância, à qual vêm pessoas com problemas que já tentaram tudo em vão: africanos sem hospitais, miúdos mutilados, indígenas sem existência oficial. Há um
imbecil catalão -ponha mesmo assim!- que escreveu um livro a meter-se com o meu marido e com Manuel Vázquez Montalbán, ignorando que no mundo há muita dor, gente que sofre muito e que não tem a quem recorrer". O
Nobel diminui a importância das críticas e lembra que "outros dizem que coloco demasiada ideologia nos meus livros. Para eles, o que eu faço é ideologia, e o que eles fazem não. As convicções a favor do sistema não são ideológicas; só é ideológico quem é marxista ou comunista. Eu sinto-me querido pelas pessoas, mas há um sector a quem custa que eu venda tanto. Digo-lhes isto: na natureza há árvores que crescem pouco porque pertencem a uma espécie diferente, mas as sequóias não são melhores do que as oliveiras...nem vice-versa".
Xavi Ayén (em Lisboa)

[duas gravuras: uma mostrando um soldado de Abril com um cravo no cano da espingarda e uma sevilhana olhando-o com inveja por sobre um muro e com um cravo entre os dentes, com a legenda "Ilustração de Krahn para
La Vanguardia, Barcelona"; outra gravura mostra uma visão nocturna que a legenda explica: "O Mosteiro dos Jerónimos e o Padrão dos Descobrimentos, numa foto de José Ventura"]

COMENTÁRIO
RESTAURAR A HISPÂNIA

Um jornalista catalão reage com entusiasmo à idéia ibérica de Saramago, na qual vê o ressurgir da irmandade peninsular do tempo do império romano.

Carlos Sentís

LA VANGUARDIA -Barcelona
Na Europa Ocidental, talvez não haja partido comunista que mantenha a sua estrutura como o de Portugal. Há relativamente pouco tempo morreu Cunhal, o chefe do Partido Comunista Português, e tudo foi deixado como
estava. Os comunistas lusos não passaram do vermelho ao verde ecológico nem se abrigaram sob a capa de um partido socialista. Comunista é como se proclama, hoje, o prémio Nobel da Literatura José Saramago. Muito
recentemente, na revista do
La Vanguardia, Xavi Ayén publicou uma conversa com Saramago, num longo passeio pela sua Lisboa natal. Saramago, que nos últimos tempos viveu mais em Espanha - na ilha de Lanzarote - do que em Portugal, tenciona agora equilibrar as estadias. Em Lisboa, fica num novo apartamento com a sua esposa, Pilar del Río, espanhola de Granada.

[fotografia de Saramago, com uma citação do mesmo:"A nossa mentalidade é de uma tristeza apagada e civil"]

Terá este casamento relação com o seu pensamento político? Saramago expressou a Ayén um claro pessimismo quanto ao presente e ao futuro imediato de Portugal. Vê uma actualidade triste e decadente e não crê que lhe possa ser corrigida pelo Presidente que surja das eleições iminentes. Ainda que aponte algumas demonstrações vitais, como a Revolução dos Cravos, tem dúvidas sobre se Portugal existirá dentro de 50 anos.
Refere-se, claro, à estrutura política e não ao território que, como o idioma e a cultura, é invariável por definição. Esta situação, junto à pujança actual de Espanha, fará com que Portugal, conservando o autogoverno, se sinta atraído pela esfera espanhola. Passaria a ser uma nação federada. Saramago pensa que, nesse caso, Portugal ficaria melhor do que agora.

Esta crença não vai agradar ao pensamento oficial português, que trabalha há séculos para esquecer que Portugal está rodeado de Espanha por todos os lados, tendo de saltar de olhos fechados o resto da península
para se aproximar culturalmente de França e politicamente de Inglaterra.

[Outra fotografia de Saramago, com outra citação: "É lógico que Portugal se integre num novo Estado ibérico".]

Espanha e Portugal viveram anos como irmãos siameses unidos pelas costas, com o rosto orientado em direcções opostas. Portugal e o seu império colonial contaram com o patrocínio inglês. Portugal oferecia um estribo peninsular que Nelson e Wellington não deixaram de utilizar. Esta política durou anos e nasceu após a separação de Portugal, após ter estado associado à Espanha de Filipe II (I de Portugal), ao qual se pôde
chamar "o das duas coroas". Quando Portugal quebrou a sua linha dinástica (1580), ficando sem sucessão o mítico rei Dom Sebastião, a coroa foi parar às mãos do todo-poderoso Filipe II, em cujos domínios o Sol nunca
se punha, mas que não soube valorizar o brilho do astro-rei sobre Portugal. Filho de Isabel de Portugal, tinha direito à herança, que, de resto, enriqueceu com contributos financeiros num momento de dificuldades
económicas lusas. Finalmente, houve um choque de espadas, o que permitiu a Filipe II dizer de Portugal: "Herdei-o, comprei-o, e ganhei-o". O que não fez foi garantir a sua manutenção.

Devia ter-se apercebido disso quando, com mais de 50 anos, viu no Reino de Portugal coisa pouca, não o considerando tão valioso como as terras da Flandres. Mais tarde ou mais cedo perderia aquelas, pois tinha
pelo meio todo o território francês, de poderio internacional crescente. Quando morreu, em 1598, ainda era rei de Portugal, mas este não tardaria muito a desfazer-se da dualidade outora prometedora.

Filipe II, em vez de se encerrar no mítico mosteiro de El Escorial, como se o Estado fosse mais celestial do que terreno, devia ter instalado a sua capital em Lisboa, que era então o porto mais adequado, dada a
projecção americana que os dois países partilhavam. Mas não foi assim, e tanto o rei como a sua corte mantiveram uma castelhanização da união, o que levou os portugueses a verem-se e a sentirem-se preteridos. Daí
que se tenham separado à primeira ocasião.

O EXEMPLO DO BENELUX

O falhanço, mais do que de Portugal, foi de Espanha. Devia ter restaurado a Hispânia do mundo antigo e, especialmente, a dos romanos, que integravam no seu seio territórios tão diferentes como a Lusitânia (actual Portugal), a Bética (Andaluzia) e a Tarraconense (Catalunha e parte dos territórios que lhe são vizinhos)... Hoje, a união ou reunião com Portugal pode ver-se, se não na interpretação de Saramago, pelo menos na linha da União Europeia, que tanto recomenda a associação, para empresas e não só, de territórios vizinhos que podem conservar, é evidente, as suas respectivas possessões estatais. O Benelux (Bélgica, Holanda, e Luxemburgo) deu o exemplo desde a primeira hora.

Não há motivo para os prémios Nobel da Literatura acertarem nos pensamentos alheios às letras, que são o seu campo. Mas erconhece-se-lhes autoridade, devido ao galardão obtido. Saramago, um heterodoxo dos pés à
cabeça, aludiu a um possível futuro hispano-português, sem recordar que já existiu e que se malogrou por um excesso de castelhanização. Voltará Espanha, amanhã, a ser Hispânia?

[Terceira e última fotografia de Saramago, com uma última citação:"Poderia ocorrer que, como Estado federado, o país adquirisse uma importância que agora não tem".]

Carlos Sentís

FIM DA REPORTAGEM/ARTIGO
Agora Carlos Luna:
[um comentário PESSOAL: na parte final do artigo, no chamado "comentário" de Carlos Sentís, não creio haver nenhum entusiasmo, como diz o título, pela idéia ibérica de Saramago. Há uma crítica, subtil, principalmente no fim. Convém não esquecer que a entrevista de Saramago já provocou reacções na Catalunha e no País Basco, onde, por exemplo, se disse que a alusão ao fim da Jugoslávia não fazia sentido, porque este país não foi absorvido nem se uniu com nehum outro; antes se subdividiu nas suas "nacionalidades"... o que faz com que seja mais comparável com Espanha, devido às ameaças de implosão...)

Agora o Bolíndri:

Este homem vai votar hoje no Mário Soares? Não será um erro do jornalista ou do jornal? Mas vejam: http://www.rtp.pt/index.php?article=207194&visual=16 Como o Saramago, muitos portugueses anticavaquistas estão em dúvida... e isso pode ser uma esperança.

Quem será esse imbecil catalão?

Mais Saramago:
http://www.facom.ufba.br/com024/saramago/
http://www.citi.pt/cultura/literatura/romance/saramago/

3 comentários

Comentário de: Fabiano [Visitante]
Essa coisa de Portugal fazer parte de Espanha só pode ser piada, não?
22-01-2006 @ 15:08
Comentário de: Mailoc Seivane [Visitante]
Lusitania = Portugal (???) e logo que foi a Gallaecia???????..E incrivel que nom haxa umha soa referencia a Galiza..algo moito portugues por outra banda..assi nom se entendera xamais a Historia..saudacoes
01-02-2006 @ 01:11
Galécia = Galiza? Não! Lusitânia = Portugal? Também não!

Ibéria = Espanha + Portugal? Mais ou menos.
15-09-2006 @ 17:27

Deixe o seu comentário


Seu endereço de e-mail não será mostrado no site.

Sua URL será exibida.
(Quebras de linha se tornam <br />)
(Nome, e-mail & website)
(Permitir que usuários o contatem através de um formulário (seu e-mail não será exibido.))
Paranóias ibéricas. Liberdade de expressão. Oliventinismos e oliventinices. Imprensa e mentiras dela, e verdades também. Rebuliço temático. Gaspachos vários. Acracias diversas. Etc. Aberto a todos. Condição: respeito e bom humor.
Outubro 2014
Seg Ter Qua Qui Sex Sab Dom
 << <   > >>
    1 2 3 4 5
6 7 8 9 10 11 12
13 14 15 16 17 18 19
20 21 22 23 24 25 26
27 28 29 30 31    

Busca

Arquivos

Feeds XML

Ferramentas do usuário

multiple blogs