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Entrevista
'Sou oriundo da classe burguesa'
Proprietário de uma embarcação de recreio, Garcia Pereira é o advogado dos trabalhadores... por €100/hora
Inês Rapazote / VISÃO nº 672 19 Jan. 2006
Elege Ramalho Eanes como o melhor Presidente desde o 25 de Abril e defende Alberto João Jardim. Garcia Pereira teria desistido, se a esquerda tivesse chegado a acordo sobre uma candidatura ganhadora, que podia ter sido protagonizada por um conservador.
VISÃO: Tardou a lançar a candidatura?
GARCIA PEREIRA: Procurei, antes, que surgisse aquela candidatura democrática e patriótica que eu achava ser a única em condições de bater a de Cavaco Silva. Essa solução foi inviabilizada pelo PS.
Continua:
Uma candidatura única de esquerda?
Uma candidatura democrática e patriótica, protagonizada por alguém que até podia ser um conservador.
Freitas do Amaral?
Sim. Ou António Pires de Lima, ex-bastonário da Ordem dos Advogados.
O que se poderia esperar do Presidente Garcia Pereira?
Grande firmeza relativamente ao respeito pelo programa, com base no qual um partido se apresenta ao eleitorado e obtém a maioria dos votos.
Essa tem sido uma crítica recorrente a José Sócrates. Demitia-o?
Dar-lhe-ia um prazo para que recolocasse o cumprimento do programa. Se não o fizesse, demitia-o.
Mas José Sócrates continua em alta... Era possível uma coabitação entre os dois?
Era possível com qualquer governo que tivesse obtido a maioria dos votos com um programa e o respeitasse.
Defende o Serviço Militar Obrigatório. Como é que o explica aos jovens?
A perspectiva de Defesa Nacional está ultrapassada. As Forças Armadas (FA) existem para defender o País ou para pôr as nossas tropas ao serviço dos interesses do imperialismo americano? E há o aspecto que costumo simbolizar desta forma: se, em 1974, em vez de SMO, tivéssemos FA profissionalizadas, o 25 de Abril não tinha acontecido.
Sustenta a saída de Portugal da NATO. Qual a sua posição em relação à presença de Portugal na UE?
Não se põe um problema de saída da UE, mas o de não aceitação de um processo de liquidação definitiva da soberania portuguesa. Há que lutar pela renegociação dos tratados, em termos que permitam o apetrechamento do País, que não foi feito nestes anos.
Tem um barco de recreio. Isso é compatível com a sua ideologia?
Tem-se o preconceito de que a defesa dos ideais do marxismo-leninismo passa pelo miserabilismo. E que para se poder defender esses ideias, tem de se esconder a sua origem de classe. Nunca disse que era um proletário. Sou oriundo da classe burguesa.
E se estou inserido numa economia de mercado, não vejo porque não hei-de ser remunerado em função dessas regras. Mas a advocacia de barra, no sector laboral, exercida do lado dos trabalhadores, não permite enriquecer.
Caso não consiga ser eleito, quem gostaria de ver em Belém: Cavaco ou Soares?
Nenhum deles terá o meu voto. São os principais responsáveis pela situação do País!
Votava em Jerónimo de Sousa?
Darei uma indicação de voto, mas essas questões não devem ser levantadas antes da primeira volta.
Incomoda-o o facto de Manuel Alegre não ter votado o Orçamento de Estado?
Demonstra a contradição em que um dirigente do PS (mesmo que não apoiado por ele) se encontra, quando disputa umas eleições para eleger um Presidente que vai ter de lidar com um Governo do PS. Mostra que Manuel Alegre não quer estar nem contra nem a favor. Mas, como PR, ele tem de escolher. Não precisamos de presidentes Godot, como Jorge Sampaio.
Sampaio lançou a bomba atómica.
Foi preciso o País ficar de pantanas para o PR ter feito aquilo que devia ter feito meses antes. Dispensávamos os meses desastrosos de governação de Santana Lopes.
O que é que Jorge Sampaio podia ter feito no caso Casa Pia?
Antes de mais, demitir o procurador-geral da República (PGR). Durante anos, ouvi Jorge Sampaio defender a teoria fascizante do pretenso excesso de garantismo. E, num congresso realizado na altura mais acesa do processo Casa Pia, ultrapassou pela extrema-direita a ministra Celeste Cardona, para dizer que, num Estado de direito democrático, todos podemos ser escutados.
Em duas palavras, como caracterizar o mandato de Jorge Sampaio?
Incapacidade de decisão. No fim destas eleições, há outro poder que tem de ser escrutinado: a comunicação social. Se não for discutido, vamos voltar à primeira República, em que houve tantos desmandos que, depois, processos censórios e de liquidação da liberdade de informação encontraram terreno livre para caminhar.
E o poder judicial?
Também tem de ter mecanismos de legitimação democrática electiva. Em democracia, não pode haver poderes incontrolados.
Se a «vitória só está ao alcance de Cavaco e de Soares», porque se candidata?
Candidato-me em defesa de um projecto político. Diria até que foi por isso que fui excluído dos debates: estou fora da área do poder, liberto de compromissos ou oportunismos eleitorais e em condições de formular as questões que os cidadãos querem ver esclarecidas agora, e não depois de sacado o voto, para fazer dele o que se quiser, com base no princípio antidemocrático de que «tenho a legitimidade de ter sido eleito, portanto faço com o voto o que quiser».
Pondera desistir a favor de alguém?
No quadro actual, não. Procurei que nascesse uma candidatura democrática e patriótica. Em Dezembro, escrevi aos outros quatro candidatos a dizer que era altura de discutirmos uma alternativa ganhadora. Ninguém me respondeu.
Quanto leva por uma consulta?
Cairá na remuneração horária de €100 à hora, mais IVA.
Pediu algum empréstimo para financiar a campanha?
Não. Tenho avançado do meu bolso a parte que falta.
Quem foi o melhor PR, desde o 25 de Abril? Eanes, apoiante de Cavaco?
Sim, indiscutivelmente. As voltas que o mundo dá...
Foi recebido por algum representante do Governo Regional (GR) da Madeira?
Não.
É advogado do vice-presidente do GR da Madeira. Trabalho é trabalho, política é política?
Ter quem quer que seja por constituinte, não me impede de defender as ideias que defendo.
A pergunta tinha por base a teoria do défice democrático?
Na Madeira, há é défice de oposição. Os partidos que se reclamam da esquerda abandonaram a autonomia à direita e, enquanto não o perceberem, o PSD vai ganhar as próximas 326 eleições. Há tanto défice democrático na Madeira como em qualquer ponto do País. Se me disser que as minorias têm direito à palavra eu rio-me, porque, na pré-campanha, «não abri o bico». Diz-me que as pessoas próximas do PSD têm facilidades no acesso a cargos públicos – e o que é que se passa aqui?
Demitia Alberto João Jardim, como Francisco Louçã?
Os governos do continente podem violentar as promessas, 'são democráticos, não se peça isso', mas, numa região autónoma, a situação já é outra? Continua a padecer do mesmo defeito de origem.
O Bolíndri pergunta-se se um comunista pode ter um iate. Poder pode, mas...
MRPP: "Movimento Reorganizativo do Partido do PROLETARIADO". Do PROLETARIADO!
Mesmo assim o Bolíndri apoiava esta candidatura.
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