O livre comercio: O raposo livre no galinheiro(2)

25-06-2005

  18:43:47, por Corral   , 657 palavras  
Categorias: Outros, Ensaio

O livre comercio: O raposo livre no galinheiro(2)

Osvaldo Martínez
Director do Centro de Investigaciones da Economía Mundial (CIEM), Habana.

A história real não se compadeceu com a teoria liberal do comércio exterior, mas curiosamente o economista que é apresentado como o intelectual máximo que sustenta a perfeição do livre comércio era menos radical na sua fé livre-cambista do que os discursos de Bush sobre as bondades da A.L.C.A. ou os Tratados de Livre Comércio. As seguintes palavras de Adam Smith deixariam muito insatisfeitos o Departamento de Comércio dos EUA, o FMI, o BM e os interesses dominantes na OMC que exigem uma liberalização imediata e total: "A humanidade pode necessitar que a liberdade de comércio seja estabelecida através de uma lenta graduação e com uma boa dose de reserva e circunspecção" (Oxfam-2002)

Para os países subdesenvolvidos o livre comércio é outra cousa, bem diferente. ?...a divisom do trabalho entre as nações consiste em que umas se especializem em ganhar e outras em perder" (Galeano, 1989). Examinado com objetividade, o comércio internacional cumpre hoje várias funções no sistema imperialista de dominação caracterizado pela globalização de signo neoliberal. Essas funções são instrumento de domínio em favor dos países ricos, factor de acentuação e perpetuação de desigualdades e iniquidades e cenário de uma guerra virtual pelo controle dos Mercados actuais e os do futuro.

Inclusive mais: o livre comércio não é livre agora nem nunca o foi, nem é já sequer comércio de acordo com o conceito clássico deste, nem sua prática gera crescimento econômico per se, nem reduz a pobreza, nem reparte ?benefícios mútuos? entre as partes que comerciam.

Já em 1963 Che Guevara dizia: "Como pode significar benefício mútuo vender a preços de mercado mundial as matérias-primas que custam suor e sofrimento sem limites aos países atrasado e comprar a preço de mercado mundial as máquinas produzidas nas grandes fábricas automatizadas do presente?" Pertence também a Che Guevara esta definição exacta do livre comercio: ?livre competiçom para os monopólios, a raposa livre entre galinhas livres?.

O livre comércio é hoje, antes de tudo, a frase retórica com que se apresenta um pacote neoliberal bem orgânico e coerente no que diz respeito aos interesses das transnacionais e dos governos que os representam, e que não se reduzem aos temas clássicos que sempre apareceram nos livros de economia no capitulo do comércio internacional. De facto, quando aos países do Terceiro Mundo se lhes recomenda o livre comércio, seja como política adequada para aplicar, seja como proposta para estabelecer um Tratado de Livre Comércio, o comércio não é a única peça e nem sequer a mais importante.

Nesta peculiar retórica neoliberal o livre comércio interessa, mas interessa tanto ou mais a livre mobilidade do capital, a liberalização da conta de capital da balança de pagamentos que eqüivale à taxa de câmbio de mercado e a liberdade para fugir com o capital, liberdade para o que capital transnacional invista à sua escolha e liberdade para que contrate em condições de "flexibilidade laboral" uma força de trabalho indefesa. Uma novidade do livre comércio é a capacidade de vincular novas e avançadas tecnologias com baixíssimos salários da força de trabalho.

O livre comércio tornou-se o irmão menor de uma financeirização da economia mundial na qual o montante das exportações mundiais num ano (uns 9 milhões de milhões de dólares) é apenas aquilo que em três dias move em transações o mercado financeiro globalizado com sua especulação desenfreada em bolsas de valores, acções, bónus, derivados, especulação com taxas de câmbio de moedas.

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