A cara mais sórdida do Mundial de futebol

10-06-2006

  14:10:17, por Corral   , 1145 palavras  
Categorias: Outros, Dezires

A cara mais sórdida do Mundial de futebol

Dezenas de milhares de prostitutas, muitas delas forçadas ou enganadas, se deslocaram a Alemanha com motivo do Mundial.

por Paula Lego (jornalista)

Longe da alegria dos cánticos e cores dos estádios, dezenas de milhares de prostitutas, várias delas forçadas e enganadas, venderão seu corpo aos assistentes ao Mundial. Nada novo, mas a grande afluência de aficcionados ao futebol suporá a chegada a Alemanha dentre 30.000 e 60.000 mulheres para exercer a prostituição durante o evento desportivo, segundo cálculos de organizações não governamentais locais.

Milhões de aficcionados ao futebol de todo o Planeta esperam ansiosos o começo de uma das citas imprescindíveis deste desporto, o Mundial que disputar-se-á em Alemanha entre o 9 de junho e o 9 de julho. Nos campos de futebol de doze cidades alemãs, uns 30.000 seguidores animarão a sua equipa numa cita que alberga toda a emoção, estética e negócio que mistura o "desporto rei". É a cara da moeda.

O Mundial, no entanto, tem uma cruz bem mais triste e sórdida. Longe da alegria dos cánticos e cores dos estádios, dezenas de milhares de prostitutas, várias delas forçadas e enganadas, venderão seu corpo aos assistentes ao evento desportivo. Nada novo, mas a grande afluência de aficcionados ao futebol suporá a chegada a Alemanha dentre 30.000 e 60.000 mulheres para exercer a prostituição durante o Mundial, segundo cálculos de organizações não governamentais locais.

A Igreja Evangélica de Alemanha, a maior comunidade protestante do país, vai ainda mais longe e estima que as máfias internacionais trarão 40.000 prostitutas forçadas a Alemanha e o número total de meretrizes que chegarão com motivo do Mundial "será muito maior". Uma centena delas fá-lo-ão no maior bordel de Alemanha, construído no passado ano com vistas ao Mundial a vinte e cinco minutos a pé do estádio de Berlim.

Umhas 50.000 mulheres, a maioria procedentes de países pobres de Europa do Leste, foram já contratadas para exercer a prostituição durante o Mundial e muitas acham que serão camareiras ou limpadoras de hotéis, segundo o cálculo do deputado socialista espanhol Ramón Jáuregui, palestrante de uma resolução contra esta situação aprovada o passado abril pelo Parlamento do país.

Duas visões:

Como costuma suceder ao falar de prostituição, duas visões divergem na maneira de abordar o fenómeno, ainda que coincidam na necessidade de ajudar às prostitutas e não carregar contra o elo mais débil da corrente.

Uma primeira, a que se aplica por exemplo na própria Alemanha, consiste em considerar a melhor actuação possível proporcionar condições dignas às prostitutas para evitar que a sua complicada situação se uma o acosso policial e a exploração por redes ilegais.

Em Alemanha, as prostitutas podem trabalhar com contrato nos bordeis, para protegê-las da exploração, ou exercê-lo de maneira independentemente, pois os serviços sexuais estão registados e quem prestam-nos pagam impostos e custos trabalhistas.

A outra, a que impera em países como Suécia, aboga por perseguir com dureza aos clientes das prostitutas: atacar a demanda do que consideram uma "escravatura moderna". Segundo o Lobby Europeu de Mulheres, a experiência sueca é um "modelo para melhorar a igualdade entre homens e mulheres e combater efectivamente o tráfico e a exploração". Sua lei de 1999 "é única porque castiga ao cliente, e não à mulher, e já demonstrou ser efectiva para reduzir o tráfico", acrescenta.

Um dos problemas ante o Mundial é, precisamente, a convivência no seio da União Europeia (UE) de diferentes visões, que dificulta a adopção de políticas ante o Mundial. Ainda que as leis nacionais sobre prostituição são concorrência de cada um dos países que a compõem, o tráfico no seio da UE compete à Comissão Europeia.

Palavras e fatos

Outro problema é a distância entre palavras e fatos. Por uma parte, os países da UE coincidem na necessidade de atacar este fenómeno, Alemanha assinalou que "todos os meios jurídicos e práticos" ante o problema, e o Conselho de Europa aprovou uma iniciativa neste sentido.

Pelo contrário, visões mais críticas com a resposta denunciam a mobilização ante o problema só com motivo do Mundial, quando não a chamam de insuficiente. Suécia, por exemplo, quer enviar agentes de polícia a Alemanha durante a celebração do Mundial porque considera que as medidas adoptadas pela UE para frear o tráfico de mulheres e a prostituição não bastam. O Defensor do Povo para a Igualdade de Oportunidades de Suécia, Claes Borgstroem, foi bem mais lá e propôs inclusive que as autoridades do país proíbam a participação da selecção sueca no Mundial como protesto contra a escravatura sexual.

As dúvidas de Blatter

A preocupação pelo problema não parece ter chegado a todos os implicados no Mundial. Joseph Blatter, presidente da Federação Internacional de Associações de Futebol (FIFA), o organismo que organiza o mundial, disse não estar seguro de que "seja verdadeiro" o "suposto" de que entre 30.000 e 60.000 mulheres sejam forçadas a viajar a Alemanha para responder à maior demanda de prostitutas.

A palestrante de um relatório do Conselho de Europa, a legisladora suíça Ruth-Gaby Vermot-Mangold, mostrou sua "desilusão" por uma carta que lhe remeteu Blatter, na que este "parece não se inteirar de que a trata de mulheres é também um dos perigos" do Mundial e lhe pediu que condene o fenómeno porque, se não, "seria cúmplice" do mesmo.

Nesse mesmo relatório, Vermot-Mangold precisou que, entre as mulheres de Europa Central e do Leste que serão enganadas para exercer a prostituição, há adolescentes de 14 a 17 anos, e assinalou que muitas delas "sofrem ameaças, violações e violência". Pôs inclusive como exemplo uma mulher ucraniana grávida que chegou a ser vendida a um bordel por seu próprio marido.

O documento incluía um dado revelador: só um país, Moldavia, dos 46 que formam o Conselho de Europa, ratificou o Convénio sobre a luta contra a trata de seres humanos, adoptado em maio de 2005, e vinte países não o assinaram sequer.

A prostituição é um fenómeno complexo, e não se trata de criminalizar ao Mundial, mas, como assinalou Jáuregui em sua conferência, "Desgraçadamente, alguns interpretam que (recurso à prostituição e futebol) são duas coisas que vão unidas, essa espécie de apózema ou elixir: se minha equipa ganha para celebrá-lo e se perde para consolar-me".

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