A esquecida história de António Seoane

29-07-2006

  20:08:15, por Corral   , 2199 palavras  
Categorias: Outros, Ensaio

A esquecida história de António Seoane

O tanguero fuzilado por Franco

Susana Viau Página/12

Chegou a Buenos Aires aos cinco anos. Trabalhou no diário A Imprensa, foi directivo da Federação de Sociedades Galegas e bailarino de tango. Voltou a seu país como chefe da guerrilha de Galiza. Aqui, a história do vizinho de San Telmo, fuzilado por republicano no '49. E o depoimento de seu filho Jorge, agora de 75 anos. Às oito e meia da noite do 10 de julho de 1948, Eduardo Alfonso Cruz, chefe o Serviço de Informação da 140 Comandáncia da Policia civil, sentou-se como um paroquiano qualquer numa das mesas do Barlovento, o bar mais coincidido da Corunha. Tinha a esperança de ser quem atrapasse a "Julián", o chefe da guerrilha galega ou, como escreveu no parte, das "partidas de bandoleiros que actuam nesta região". Ao cabo de um momento, um casal aproximou-se ao local. O homem respondia às características físicas de "Julián". Num abrir e fechar de olhos, os efectivos da "benemérita" que vigiavam nas imediações rodearam aos dois clandestinos. Começava assim um processo absurdo que ia culminar nas primeiras horas do 6 de novembro, quando no Campo das Dormideiras "Julián" foi colocado em frente ao pelotom de fuzilamento. "Julián" era em realidade António Seoane Sánchez, um espanhol chegado aos cinco anos à Argentina, trabalhador do diário A Imprensa, director da Federação de Sociedades Galegas, bailarino de tango, habituei de um café de Defesa e Estados Unidos, vizinho de San Telmo. Tinha 43 anos. As assinaturas, as mobilizações realizadas em Buenos Aires pedindo a comutaçom da pena não tinham servido de nada.

Não foi a única condenação a morte: com ele morreu José Gómez Gayoso, alias "López", ex comissário político dos exércitos republicanos e regressado para assumir a secretaria geral do ilegalizado Partido Comunista de Galiza, direcção política da guerrilha. A jovem apresada com "Julián" no Barlovento era seu novo amor, Josefina González Cudeiro, Fina para seus familiares. Ela permaneceu quinze anos detida nos cárceres de Alcalá de Henares, Burgos e Segovia. Dantes, igual que seu amante, tinha sido brutalmente torturada, pendurada das mãos e queimada com ácido nos genitais, quiçá porque assim castigava a Espanha da cruz e a espada à rapariga de esquerdas que acabava de se fazer um aborto com uma parteira de Madri e praticava o amor livre.

Foi a irmã de Fina a que a seu pedido mandou uma carta à mãe de António, a Buenos Aires, lhe avisando de sua detenção. Também recomendava-lhe que golpeasse todas as portas, que mobilizasse tudo o mobilizável porque o final do processo se avizinhava e ficavam poucas esperanças. Assunção, a mãe de António, uma galega que se tinha estabelecido em San Telmo e alugava habitações para ajudar aos esquálidos rendimentos do marido, carpinteiro e dono de uma carbonária que estava em frente ao cinema Cecil, seguiu ao pé da letra as indicações que lhe chegaram do outro lado do mar. "Pediu inclusive uma audiência com Eva Perón para rogar-lhe que intercedera, mas a senhora não a recebeu - recorda agora Jorge, o filho de António -. Minha avó era uma velha heróica, que apesar de sua pobreza lhes deu de comer a muitos colegas que chegavam de Espanha morridos de fome."

Jorge acha que a única depositaria do segredo que rodeou a viagem de António a Espanha foi sua avó Anunciaçom. Dele, em mudança, se despediu num dia que não atinge a determinar, com um abraço e a promessa do mandar a procurar muito cedo; talvez não fosse uma mentira, pode que António Seoane pensasse, como muitos republicanos então, que o final da Segunda Guerra ia ser também o fim da ditadura franquista.

O verdadeiro é que Jorge não imaginou que esse seria o último contacto entre ambos. Tinha ideias imprecisas a respeito da causa que impulsionava a seu pai e aos homens e mulheres com quem António se reunia no local da Federação de Sociedades Galegas. E levar-lhe-ia um tempo descobrir que tinha sido recém em 1939 quando resolveu se afiliar ao Partido Comunista de Espanha, uma decisão tardia mas não inesperada: estava inscrita na atmosfera familiar e no contacto com os exilados republicanos.

O expediente que faz nuns anos lhe enviaram desde Galiza lhe permitiu reconstruir um trecho daquela viagem: depois de falhar-lhes os contactos estabelecidos em Pamplona e em Barcelona, António pediu instruções a Buenos Aires e ordenaram-lhe dirigir-se a Madri. Desde então utilizou um documento estendido a nome de Aureliano Barral, cidadão argentino; seu pseudónimo no Exército Guerrilheiro de Galiza, onde arribou no '45, foi "Julián". A comunicação com a família cortou-se. O silêncio estava imposto pela fechada clandestinidade e pelos ares políticos governamentais que, na Argentina dos '30, os '40 e os '50 não sopravam em favor da República. A prosa fascista do atestado instruído pela Policia civil descreveria o périplo de maneira diferente: "O processado, que vivia na Argentina, se afilio ao Partido Comunista Espanhol ao chegar à Nação irmã os refugiados fugidos da zona vermelha".

Questão de honra

Hoje, Jorge admite que o casal de seus pais estava rompido desde fazia muito, mas que pese a todo Saladina Cruz, sua mãe, compreendia e apoiava o sacrifício do marido. Era uma operária esclarecida, delegada da Fábrica Argentina de Alpargatas, "na época em que iam trabalhar com chapéu". E galega. Foi a ela a quem António lhe dirigiu as cartas datadas na "Prisão Provincial, Primeira Galeria, Cela 6". Numa delas, lhe advertiu: "Fui detido o 10 de julho, acusado de ser o chefe guerrilheiro de Galiza. Já podes-te imaginar o que isto supõe num Conselho de Guerra sumarissimo. Tinha notícias de que este Conselho levar-se-ia a cabo o 7 do corrente, mas faz nuns dias nos inteirámos de que tinha sido adiado para mediados deste mês. Não sei a que obedece este adiamento. De todas formas, para mim isto significa nuns dias mais de vida. Ainda que sobre isto não tenho segurança nenhuma. Perdoa-me a crueza, mas é que devemos ser realistas. Em quanto a meu estado de ânimo, é perfeitamente normal, porque isto não me tomou de surpresa e nos últimos momentos, não te caiba dúvida alguma, saberei me comportar como o que sempre crio ter sido. Não digo mais...".

Na seguinte, quase em capela, António explicava a sua mulher: "Os três (ele, Gómez Gayoso e um terceiro combatente, José Bartrina) estamos já isolados, em regime de condenados a morte, saímos uma hora ao pátio, sob a vigilância de um oficial; não permitem que nos enviem comida da rua e nos retiraram o papel, pluma, lápis, etc. O desenlace não é possível o prever, já que pudessem existir determinados factores que modifiquem a sentença. Não fazemo-nos ilusões e sem infundados pessimismos prevemos que terá execuções. Quantas? O que está claro é que os altos chefes da Policia civil pressionam ferozmente e que fizeram de nossa execução questão de honra. A pressão do exterior pode decidir o desenlace de uma forma ou outra. Sobre isto não crio necessário vos insistir. A Argentina, pelas relações que mantém com o regime de Franco, pode decidir muitíssimo. Temos confiança absoluta no que nosso P. (partido) e os P. irmãos façam para mobilizar à opinião democrática mundial em nosso favor. Ainda que isolados, conhecemos o volume da campanha de solidariedade".

A morte, no entanto, não conseguia hegemonizar o texto; o condenado punha-a a raia com uma volta sistémica à vida quotidiana: "E agora algo do nosso - escrevia -. Estou assombrado com as fotos que me mandais. Francamente confesso-te que ao as ver me senti velho e até agora presumia de não o ser. Mas é possível que já tenha nora? ¡Vamos, isto si que é para se cair de costas! ¡E que guapa Elsita! Quando me contestes di-me de que bairro é e qual é seu apelido". A correspondência, o único vínculo do réu António Seoane com o mundo exterior, era o produto de um balanço solitário. Dí-o de maneira explícita na nota que lhe dirige a Roberto Gastelú, seu chefe na secção distribuição da Imprensa: "Você sabe que ainda que me criei na Argentina, à que amo como minha segunda pátria, na que repousam os restos de meu pai e residem minha idosa mãe, minha esposa e meu filho, eu nasci em Espanha (...). Ao fazer mentalmente um requento dos seres por quem tive sempre grande carinho e respeito não podia me esquecer de você, que me conheceu sendo quase um pibe".

A fins de outubro, o Conselho de Guerra presidido pelo tenente coronel de Engenheiros Ramón Rivas Martínez ditou para Seoane e Gómez Gayoso (a) "López" a pena capital pelo delito de "actividades comunistas". O defensor militar, mais piedoso ou mais realista, não tinha solicitado o sobressimento senão 30 anos de prisão maior. O 5 de novembro, o ministro de Exército confirmou as sentenças; o 6 dispôs-se o envio de um médico que constatasse as mortes, dois ataúdes, as permissões do cemitério para o enterro, se requerendo, ademais, a presença do defensor militar, capitão de artilharia José Lago Vizoso. Ordenou-se, assim mesmo, que os condenados fossem entregados à Policia civil, que se faria cargo de executar a sentença. Às quatro da manhã, logo de ler-lhes a resolução, "Julián" e "López" foram colocados em capela. Ambos se tinham negado a assinar a notificaçom. Uma nova cédula deixou constância de que "às oito do dia de hoje foi executada por fuzilamento a pena de morte nas pessoas dos réus José Gómez Gayoso e António Seoane Sánchez no Campo de Dormideiras desta Praça".

O 8 de fevereiro de 1949, o defensor militar fez entrega dos pertences de António Seoane que, por todo conceito, consistiam numa pluma estilográfica "Parker", um chisqueiro de metal branco, um relógio de homem "Omega" com sua correia, um alfinete de gravata de ouro com três pérolas e um prendedor de pescoço dourado. Como se vê, nem as medidas excepcionais nem a pena capital estavam renhidas com a burocracia.

O exército tinha deixado um registro formalmente perfeito de cada um dos passos cumpridos, inclusive das parcelas do campo-santo em que seriam depositados os corpos. Um pequeno esquecimento fez-lhes omitir que Seoane tinha os pés e as mãos destroçados e tinha adelgaçado vinte quilos; que a Gómez Gayoso lhe tinham esvaziado um olho e seu corpo tinha sofrido inumeráveis ultrajes. Fina comunicou-lhe a Assunção a morte de seu filho, António Seoane. Na breve esquela e com enorme dignidade pedia-lhe que a perdoasse se a confessom da "intimidade" que a tinha unido ao chefe guerrilheiro a molestava e lhe assegurava que através de "Julián" tinha aprendido aos querer a todos. Com os anos, Fina entregar-lhe-ia em própria mão a Jorge a estilográfica e o chisqueiro que tinham pertencido a seu pai. Também legou-lhe o retrato que, a lápis, lhe tinha desenhado um de seus camaradas na prisão. "Ela e os seus são nossa família agora", diz Jorge Seoane a Página/12.

A figura do tanguero António Seoane, chefe máximo do Exército Guerrilheiro Galego, quinta-essência do sacrifício militante, foi esquecida pelos argentinos. Não mencionam-se sequer os versos que lhe dedicou Rafael Alberti: "A quem nomearei primeiro?/Ninguém é segundo em minha língua/ quando é de aço o aço/ Se um é glorioso, em glorioso/ ao outro não há quem lhe ganhe/ Se digo Gómez Gayoso,/já estou a dizer Seoane (...) ¡Sangue de Gómez Gayoso/ sangue puro, sangue bravo/ sangue de António Seoane (...)/¡Mar de sangue derramado!". E se prefere-se uma homenagem mais portenho, estão os versos de Raúl González Tuñón: "Prenderam-lhe ao alva da luta/junto a Seoane, a frente de seu povo,/filhos da esperança, honra de Espanha/camaradas do dia. Guerrilheiros (...) Se cai Gayoso, se Seoane cai,/seus colegas e suas colegas,/não dobrarão a morte as campanhas/nem pôr-lhe-emos luto à bandeira". Em seu departamento de Almagro, Jorge Seoane, o filho que hoje tem 75 anos, não reclama homenagens. Seu desejo é tão modesto como incumpível: "Não perdoo-me não ter estado com ele durante o Conselho de Guerra". Quiçá, por essas coisas, não tenha consertado em que António Seoane, além de "Julián" e "Aureliano Barral", se tinha rebautiçado com um terceiro nome, "Jorge", o seu.

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