A farsa do capitalismo popular

08-10-2006

  15:05:55, por Corral   , 1014 palavras  
Categorias: Outros, Ensaio

A farsa do capitalismo popular

Juan Francisco Martín Seco

Lá por 1986, quando o Instituto Nacional de Hidrocarburos (Organismo estatal espanhol do petróleo) sopesava se converter no que hoje é Repsol, era eu conselheiro daquela entidade. Como se pretendesse justificar no Conselho tal transformação pela conveniência de sair a Carteira, se me ocorreu inocentemente inquirir a respeito da razão de tal necessidade. O então presidente, com a petulância dos novos conversos ao neoliberalismo económico, contestou-me, muito seguro de si mesmo, que existiam duas razões: a primeira, obter financiamento; a segunda, que os mercados fossem juízes de nossa boa ou má gestão.

Já naqueles momentos me pareceu disparatada a resposta. Em quanto ao primeiro argumento, qualquer estudante de primeiro curso de Economia sabe que a eleição entre se financiar com recursos próprios ou alheios depende da relação que exista entre benefícios esperados e taxa de juro. O INH era por aquelas datas uma máquina de fazer dinheiro, com uma rentabilidade infinitamente superior à taxa de juro de mercado. A análise mais singelo, sempre que estivesse-se livre de prejuízos ideológicos, indicava que para obter recursos era bem mais rentável ir ao endividamento e não à ampliação de capital e posterior colocação em Carteira das acções.

O segundo motivo resultava ainda mais jocoso. A carteira está submetida a toda uma série de variáveis e factores aleatórios, que não costumam obedecer precisamente à máxima racionalidade. A maioria das vezes, o valor em Carteira das empresas tem pouco que ver com seu valor real, e suas modificações dependem com freqüência de operações especulativas ou de actuações pontuas: OPAS, fusões, absorções, etcétera. Mas é que, ademais, em certos sectores de serviços nos que está ausente a concorrência, os benefícios das empresas são com harta frequência totalmente independentes da boa ou má gestão. Constituir à Carteira em juiz da adequada administração é uma ingenuidade difícil de entender.

Sob estes supostos e o da farsa do capitalismo popular, iniciou-se a segunda fase das privatizações em Espanha. Até então, com melhor ou pior critério, as privatizações tinham obedecido a motivos estratégicos: empresas em perdas que para ser viáveis precisavam de reconversom e entrar na órbita de outras de superiores dimensões, na maior parte dos casos, estrangeiras. Na segunda fase, o processo foi muito diferente. Agora se transferiam ao sector privado sociedades sumamente rentáveis com mercados cativos e sem nenhum risco. Não pode causar estranheza, por tanto, que fossem ambicionadas pelo capital privado.

Em 1988 sacou-se a Carteira o 25% de Endesa, uma sociedade que ao igual que Repsol, Campsa, Enagás ou Telefónica, forneciam ao fisco importantes benefícios. Ao longo dos anos seguintes, o resto de capital da primeira eléctrica do país passou a mãos privadas. Os últimos acontecimentos, com Opas e mais Opas, estão sem dúvida deixando em claro para o que queira os ver diferentes aspectos da realidade económica. Em primeiro lugar, o espolio que representaram para o conjunto da sociedade espanhola privatizações como a de Endesa. Só há que observar o interesse que uns e outros têm por se fazer com seu controle e comparar o preço que estão dispostos a oferecer nos momentos actuais com o que recebeu o Estado em sua privatizaçom.

Em segundo lugar, fazem-se patentes as contradições de certos discursos. Como casar o empenho actual em contar com campeões nacionais com a filosofia das privatizações defendidas no passado. A única maneira de assegurar que estas empresas fossem nacionais e, o que é mais importante, que antepuseram o interesse geral ao puro lucro privado ?porque se não, que nos importa que sejam nacionais?, teria sido não as ter privatizado. É contraditório defender que o capital não tem nacionalidade e que deve se mover livremente com a pretensão mais tarde do controlar e falar de empresas nacionais e estrangeiras.

Discurso contraditório é o de alguns campeões do neoliberalismo ?ou neo liberais conversos, que para o caso é o mesmo? que gritam e se esforçam para que a Governação defenda no estrangeiro a multinacionais como Repsol, pretendendo nos convencer de que os interesses destas sociedades coincidem com o interesse da economia espanhola. Deveríamos começar a aclararmos.

As últimas movidas da Bolsa no sector eléctrico deixaram também ao descoberto a ingenuidade fundamentalista de alguns. O presidente da patronal, ao ser perguntado sobre o affaire, exultante pelo que estava a ocorrer, prorrompeu em louvores a respeito da liberdade financeira e denominou bendito ao mercado como se de uma jaculatória se tratasse. Tal explosão de alegria só tem fundamento se um se encontra entre os agraciados com suficientes recursos para investir em Carteira quantidades significativas. No mercado os únicos que gozam de liberdade são os entrecanais, florentinos, botines, fernandos martín e alguns poucos mais. Todo o jogo depende deles. Os demais são simples comparsas, espectadores passivos, que ganham ou perdem segundo celebrem o partido os actores principais ou bem disponham de informação privilegiada de por onde vão a se decantar estes.

O chamado capitalismo popular é um dos maiores embustes do neoliberalismo económico. Criado com o único objectivo de procurar a cumplicidade de um número maior de cidadãos, insuflando-lhes o espelhismo de que porque possuam umas poucas acções das empresas seus interesses são os delas e os de seus grandes accionistas ou gestores. De nada lhes vale ganhar uns quantos euros em Carteira se a contrapartida vai consistir em maiores gastos ao consumir os serviços que essas sociedades proporcionam. Que ninguém se chame a engano, alguém vai pagar as revalorizações que as OPAS estão a gerar no sector eléctrico, e esse alguém não pode ser mais que os consumidores através das tarifas e uma maior concentração no mercado.

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