As guerras que lubrificam a máquina do Pentágono

04-07-2007

Link permanente 01:38:00, por José Alberte Email , 2803 palavras   Português (GZ)
Categorias: Outros, Ensaio

As guerras que lubrificam a máquina do Pentágono

por Michael T. Klare (*)

resistir.info

Dezasseis galões americanos – mais de 60 litros – de petróleo. É isso que o soldado americano no Iraque ou no Afeganistão consome em média por dia – quer directamente, através do uso de Humvees, tanques, camiões e helicópteros, quer indirectamente, nos ataques aéreos.

Multiplique-se este número por 162 mil soldados americanos no Iraque, 24 mil no Afeganistão, e 30 mil na região circundante (incluindo os marinheiros a bordo dos navios de guerra americanos no Golfo Pérsico) e chega-se a cerca de 13,25 milhões de litros de petróleo: a factura diária de petróleo para as operações de combate dos EUA na zona de guerra do Médio Oriente.

Multiplique-se essa factura diária por 365 e chega-se aos 4 900 milhões de litros: o gasto anual estimado de petróleo para as operações de combate dos EUA no sudoeste asiático. É mais do que o consumo anual de petróleo do Bangladesh, com uma população de 150 milhões – e mesmo assim é uma estimativa muito por baixo do consumo do Pentágono em tempo de guerra.

Estes números não conseguem prestar total justiça à terrível voragem de gasolina das guerras no Iraque e no Afeganistão. Se virmos bem, por cada soldado no "teatro de guerra", há outros dois em trânsito, em treino, ou por qualquer outra forma na linha de espera para uma eventual deslocação para a zona de guerra – soldados que também consomem enormes quantidades de petróleo, mesmo que sejam menores do que as dos seus compatriotas no estrangeiro. Além disso, para alimentar um exército "expedicionário" situado do lado oposto do hemisfério, o Departamento da Defesa dos EUA tem que movimentar milhões de toneladas de armamento, munições, alimentos, combustível e equipamentos por ano, de avião ou de barco, consumindo cargas completas de petroleiros adicionais. Some-se isto à conta e o orçamento do Pentágono destinado ao petróleo para a guerra dá um salto apreciável, embora não tenhamos qualquer forma de saber exactamente quanto.

E, é pena ter que dizê-lo, as guerras no estrangeiro são apenas uma pequena fracção do consumo total de petróleo do Pentágono. Como possui a maior frota do mundo de modernos aviões, helicópteros, barcos, navios-tanques, veículos blindados e sistemas de apoio – na prática todos eles alimentados a petróleo – o Departamento da Defesa (DoD) é o maior consumidor mundial de petróleo. Pode ser difícil obter detalhes precisos sobre o consumo máximo de petróleo diário do DoD, mas um relatório de Abril feito por um empreiteiro da defesa, a LMI Government Consulting, indica que o Pentágono pode estar a consumir cerca de 340 mil barris (53 milhões de litros) por dia. É mais do que o consumo total nacional da Suécia ou da Suiça.

Não se trata de 'espingardas vs manteiga' mas de 'espingardas vs petróleo'

Para todos aqueles que conduzem um veículo motorizado hoje em dia, isto tem implicações desastrosas.

Com o preço da gasolina nos Estados Unidos actualmente entre 75 cêntimos e um dólar a mais por galão (20-26 cêntimos por litro) do que era há apenas seis meses, é óbvio que o Pentágono se depara com uma degradação orçamental potencialmente grave. Tal como qualquer família média americana, o DoD tem que fazer algumas escolhas difíceis: pode usar a sua quantidade normal de petróleo e pagar mais na bomba de gasolina do Pentágono, enquanto reduz outras despesas básicas; ou pode reduzir a utilização da gasolina em prol do aperfeiçoamento dos sistemas de armas favoritas.

Claro que o DoD tem uma terceira opção: pode ir ter com o Congresso e pedir mais um aumento suplementar do orçamento, mas isso provocará de certeza novas exigências de um calendário para a retirada das tropas americanas do Iraque e portanto não é uma perspectiva muito provável nesta altura.

E isto nem sequer é um problema ocasional. Ainda há dois anos, o Departamento americano da Energia (DoE) previa confiadamente que o preço da rama do petróleo iria ficar pelos 40 dólares por barril durante mais ou menos vinte e cinco anos, o que manteria os preços da gasolina americana em cerca de 2 dólares por galão (53 cêntimos por litro). Mas depois aconteceu o Furacão Katrina, a crise no Irão, a rebelião no sul da Nigéria, e um montão de outros problemas que estrangularam o mercado do petróleo, levando a que o DoE elevasse a sua projecção de preços a longo prazo para a escala dos 50 dólares por barril. É este o valor que figura em muitas previsões orçamentais actuais do governo – incluindo também provavelmente as do DoD.

Mas que realismo há nisso? O preço actual de um barril de crude anda na ordem dos 66 dólares. Muitos analistas de energia dizem agora que o destino mais provável para o futuro previsível é um preço na ordem dos 70 a 80 dólares por barril (ou possivelmente ainda mais).

Um aumento de preços desta amplitude, quando reflectido no custo da gasolina, combustível de aviação, diesel, combustível para aquecimento doméstico, e petroquímicos, vai deitar abaixo os orçamentos das famílias, dos negócios, e dos governos locais. Mais cedo ou mais tarde, obrigará as pessoas a efectuarem profundas mudanças nas suas vidas diárias – as fáceis, como comprar um carro híbrido em vez de um veículo de tipo desportivo, ou as dolorosas como reduzir o aquecimento doméstico ou os cuidados de saúde para poder continuar a fazer a indispensável viagem para ir trabalhar.

E o efeito no orçamento do Pentágono será igualmente grave. Enquanto consumidor nº 1 a nível mundial de derivados do petróleo, o DoD não deixará de ser afectado desproporcionalmente pela duplicação do preço do petróleo bruto. Se não se puder virar para o Congresso para se equilibrar, terá que reduzir o seu consumo excessivo de petróleo e/ou reduzir outras despesas, incluindo as compras de armamento.

A subida do preço do petróleo está a ocasionar aquilo a que a LMI, empreiteiro do Pentágono, chama de "desarticulação fiscal" entre os objectivos a longo prazo das forças armadas americanas e as realidades do mercado da energia. "Está a aumentar a necessidade de recapitalizar equipamento obsoleto e danificado [das guerras no Iraque e no Afeganistão] e de desenvolver sistemas de alta tecnologia para implementar futuros conceitos operacionais", explicou num relatório de Abril. No entanto, a incapacidade "de controlar o aumento dos custos da energia a partir do petróleo e das infra-estruturas de apoio desvia recursos que poderiam ser aplicados na produção de novas capacidades".

E, segundo parece, esta nem sequer é a maior preocupação do Pentágono. O DoD, afinal de contas, é a mais rica organização militar do mundo, e por isso é de esperar que consiga descobrir contas bancárias escondidas de uma ou outra forma para pagar as suas contas de petróleo e financiar os seus muitos projectos de armas queridas. No entanto, isto é partindo do princípio que haverá petróleo suficiente nos mercados mundiais para satisfazer as necessidades sempre crescentes do Pentágono – o que não é de forma alguma uma conclusão inevitável. Tal como qualquer outro grande consumidor, o DoD tem hoje que enfrentar a realidade cada vez mais próxima – mas difícil de precisar – do "pico petrolífero" e a possibilidade bem real de que a produção global do petróleo se encontre ou esteja muito perto da sua produção sustentada máxima ("pico") e de que em breve entre num declínio irreversível.

Já ninguém discute o facto de que a produção global do petróleo irá acabar por atingir um pico e depois entrar em declínio. Todas as principais organizações de energia já abraçaram esta perspectiva. O que se mantém em aberto para discussão é quando chegará exactamente esse momento. Alguns especialistas colocam-no confortavelmente no futuro – ou seja daqui a duas ou três décadas – enquanto que outros o situam na presente década. Se é que está a surgir algum consenso, é que o pico do petróleo deverá ocorrer por volta de 2015.

Qualquer que seja a altura deste acontecimento gravíssimo, é fácil de perceber que o mundo enfrenta uma profunda mudança na disponibilidade global de energia já que mudamos de uma situação de relativa abundância para uma de relativa escassez. De notar que esta mudança se aplicará, sobretudo, à forma de energia mais consumida pelo Pentágono, os líquidos de petróleo usados para alimentação de aviões, barcos e veículos blindados.

A Doutrina Bush enfrenta o pico do petróleo

O pico do petróleo não é uma daquelas ameaças globais que o DoD já enfrentou anteriormente. Tal como outras organizações governamentais americanas, o DoD tentou evitar o problema, considerando-o até há pouco tempo como uma questão periférica. No entanto, à medida que se foi aproximando a chegada iminente do pico do petróleo aumentou, foi forçado a parar e a reparar nela.

Acicatada talvez pelo aumento dos preços do combustível, ou pela atenção cada vez maior dada à "segurança energética" dos estrategas académicos, o DoD assumiu um interesse repentino pelo problema. Para liderar a exploração do problema, o Gabinete da Transformação da Força no interior da Sub-Secretaria da Defesa para a Política encarregou a LMI de efectuar um estudo sobre as implicações para o Pentágono da futura escassez energética.

O estudo, "Transformar a Forma como o DoD Encara a Energia" ("Transforming the Way the DoD Looks at Energy"), foi uma bomba. Determinando que a estratégia favorita do Pentágono de compromisso militar global é incompatível com um mundo de produção de petróleo em declínio, a LMI chegou à conclusão de que "o planeamento actual apresenta uma situação em que a capacidade operacional agregada da força pode ser insustentável a longo prazo".

A LMI chegou a esta conclusão a partir de uma cuidadosa análise da actual doutrina militar dos EUA. No centro da estratégia militar nacional imposta pela administração Bush – a Doutrina Bush – estão dois princípios básicos: a transformação, ou a conversão do pesado aparelho militar da Guerra-fria, com base em tanques, numa máquina de guerra de alta tecnologia futurista, ágil no continente; e a pré-preempção (pré-preemption), ou a iniciação de hostilidades contra "estados hostis" como o Iraque e o Irão, suspeitos de desenvolverem armas de destruição maciça. O que ambos os princípios implicam é um aumento substancial do consumo de produtos petrolíferos pelo Pentágono – seja porque esses planos se baseiam, numa extensão aumentada do poder aéreo e marítimo, ou porque implicam um ritmo acelerado de operações militares.

Conforme resumido pela LMI, a implementação da Doutrina Bush exige que as forças americanas "alastrem geograficamente e sejam mais móveis e expedicionárias para que se possam empenhar em mais teatros e estejam preparadas para um posicionamento expedito em qualquer parte do mundo". Ao mesmo tempo, "têm que passar de uma posição de força reactiva para uma proactiva para impedirem as forças inimigas de se organizarem e de efectuarem ataques potencialmente catastróficos". Continua dizendo que, "para efectuar essas actividades, as forças militares americanas terão que utilizar ainda mais energia … Considerando a tendência no consumo de combustível operacional e as futuras necessidades de capacidade, esta 'nova' utilização de força exigirá igualmente mais energia/combustível no cenário estabelecido".

O aumento resultante no consumo de petróleo virá também a ser dramático. Durante a Operação Tempestade no Deserto de 1991, o soldado americano consumiu em média apenas 15 litros de petróleo por dia; na sequência das iniciativas do presidente George W. Bush, um soldado americano no Iraque está agora a utilizar o quádruplo disso. Se este ritmo de aumento continuar sem parar, a próxima guerra em grande pode traduzir-se num gasto de cerca de 240 litros por soldado por dia.

Foi esta lógica inabalável da situação que levou a LMI a concluir que há uma grave "desarticulação operacional" entre os princípios da administração Bush para as futuras operações de guerra e a situação global da energia. A administração tem, assinala a empresa, "amarrado a capacidade operacional a soluções de alta tecnologia que exigem um aumento permanente de abastecimento energético" – e tem-no feito no pior momento possível. Afinal, é provável que o fornecimento de energia global esteja a começar a diminuir. Obviamente, escreve a LMI, "pode não ser possível vir a executar conceitos e capacidades operacionais para atingir a nossa estratégia de segurança se não forem consideradas as implicações energéticas". E, se forem consideradas essas implicações energéticas, a estratégia revela-se "insustentável".

O Pentágono como serviço de protecção do petróleo

Como é que os militares vão reagir a este problema inesperado? Uma solução, apoiada por algumas pessoas dentro do DoD, é tornar-se "verde" dando prioridade ao desenvolvimento acelerado e à aquisição de sistemas de armas de alto rendimento energético para que o Pentágono possa manter o seu compromisso com a Doutrina Bush, mas consuma menos ao fazê-lo. Esta proposta, a ser praticável, teria o atractivo óbvio de permitir que o Pentágono assuma a fachada de amigo do ambiente embora mantendo e desenvolvendo a sua estrutura de forças intervencionistas existentes.

Mas há também uma outra solução mais sinistra que pode ser muito mais agradável aos quadros superiores: para garantir para si mesmo uma fonte "fiável" de petróleo para sempre, o Pentágono pode aumentar os seus esforços para manter o controlo sobre as fontes externas de abastecimento, nomeadamente os campos petrolíferos e as refinarias da região do Golfo Pérsico, principalmente no Iraque, no Kuwait, no Qatar, na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos. Isso poderia explicar o recente falatório sobre planos dos EUA para manter bases "duradouras" no Iraque, conjuntamente com a sua já impressionante e elaborada infra-estrutura de bases nos outros países.

Os militares americanos começaram a adquirir pela primeira vez produtos petrolíferos a fornecedores do Golfo Pérsico para alimentar operações de combate no Médio Oriente e na Ásia durante a II Guerra Mundial e continuaram a fazê-lo desde essa altura. Foi em parte para proteger esta fonte vital de petróleo para fins militares que em 1945 o presidente Franklin Roosevelt propôs pela primeira vez o posicionamento de uma presença militar americana na região do Golfo Pérsico. Depois, a protecção do petróleo do Golfo Pérsico tornou-se mais importante para o bem-estar económico dos Estados Unidos, conforme expresso no discurso "Doutrina Carter" de Jimmy Carter em 23 de Janeiro de 1980, assim como na decisão do presidente George H. W. Bush em Agosto de 1990 para deter a invasão do Kuwait por Saddam Hussein, que levou à primeira Guerra do Golfo – e, conforme muitos defendem, na decisão de Bush júnior para invadir o Iraque cerca de uma década depois.

Durante este tempo todo, as forças militares americanas transformaram-se num "serviço global de protecção do petróleo" para benefício das empresas e consumidores dos EUA, travando batalhas além-mar e posicionando as suas bases para garantir que os americanos obtivessem a sua ração diária de combustível. Seria tanto triste como irónico se os militares americanos começassem agora a travar guerras apenas para poderem garantir o combustível para os seus próprios aviões, barcos e tanques – consumindo centenas de milhares de milhões de dólares por ano que poderiam ser gastos no desenvolvimento de alternativas ao petróleo.
[*] Professor de Estudos para a Paz e Segurança Mundial em Hampshire College, autor de Sangre Y Petroleo: Peligros Y Consecuencias De La Dependencia Del Crudo (encomendas através deste link permitem que resistir.info receba uma pequena comissão).

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