A lei da selva

24-10-2008

  00:09:53, por Corral   , 1253 palavras  
Categorias: Ensaio

A lei da selva

O comércio dentro da sociedade e entre os países é o intercâmbio de bens e serviços produzidos pelos seres humanos. Os donos dos meios de produção se apropriam dos lucros. Eles dirigem, como classe, o estado capitalista e se ufanam de serem os impulsores do desenvolvimento e do bem-estar social através do mercado, ao qual se rende culto como deus infalível.

Dentro de cada país é a concorrência entre os mais fortes e os mais débeis, os de mais vigor físico, os que se alimentam melhor, os que aprenderam a ler e escrever, os que foram às escolas, os que acumulam mais experiência, mais relações sociais, mais recursos, e os que carecem dessas vantagens dentro da sociedade.

Entre países, os que têm melhor clima, mais terra cultivável, mais água, mais recursos naturais no espaço em que lhes tocou viver quando não existem mais territórios para conquistar, os que dominam as tecnologias, os que possuem mais desenvolvimento e manejam infinitos recursos midiáticos, e os que, pelo contrário, não desfrutam nenhuma destas prerrogativas. São as diferenças às vezes abismais entre as que se qualificam como nações ricas ou pobres.

É a lei da selva.

As diferenças entre as etnias não existem quando se refere às faculdades mentais do ser humano. É algo mais que comprovado cientificamente. A sociedade atual não foi a forma natural em que evoluiu a vida humana; foi uma criação do homem já mentalmente desenvolvido, sem a qual não se pode conceber sua própria existência. O que se propõe é, portanto, se o ser humano poderá sobreviver ao privilégio de possuir uma inteligência criadora.

O sistema capitalista desenvolvido, cujo máximo expoente é o país de natureza privilegiada onde o homem branco europeu levou suas idéias, seus sonhos e suas ambições, encontra-se hoje em plena crise. Não é a habitual de cada certo número de anos, nem sequer a traumática dos anos trinta, senão a pior de todas desde que o mundo seguiu esse modelo de crescimento e desenvolvimento.

A atual crise do sistema capitalista desenvolvido ocorre quando o império está próximo de mudar de chefatura nas eleições que acontecerão dentro de vinte e cinco dias; era o único que faltava para ver.

Os candidatos dos dois partidos que decidem essas eleições, tratam de persuadir aos desconcertados eleitores, muitos dos quais não se preocuparam nunca por votar, de que eles, como aspirantes à Presidência, são capazes de garantir o bem-estar e o consumismo do que qualificam como um povo de camadas médias, sem o menor propósito de verdadeiras mudanças no que consideram o mais perfeito sistema econômico que o mundo conheceu; um mundo que, evidentemente, na mentalidade de cada um deles, é menos importante que a felicidade de trezentos e tantos milhões de habitantes de uma população que não chega ao cinco por cento dos habitantes do planeta. A sorte dos outros noventa e cinco por cento dos seres humanos, a guerra e a paz, a atmosfera respirável ou não, dependerá em grande parte das decisões do chefe institucional do império, se é que esse cargo constitucional tem ou não poder real na época das armas nucleares e dos escudos espaciais manejados por computadores em circunstâncias tais que os segundos são decisivos e os princípios éticos têm cada vez menos vigência. Não se pode, no entanto, ignorar o papel mais ou menos nefasto que corresponde a um presidente desse país.

Nos Estados Unidos existe um profundo racismo, e a mente de milhões de brancos não se reconcilia com a idéia de que uma pessoa negra com a esposa e as crianças ocupem a Casa Branca, que se chama assim: Branca.

Por puro milagre o candidato democrata não sofreu a sorte de Martin Luther King, Malcolm X e outros, que albergaram sonhos de igualdade e justiça nas décadas recentes. Tem também o hábito de olhar ao adversário com serenidade e rir dos apertos dialéticos de um oponente que olha para o vazio.

Por outro lado, o candidato republicano, que cultiva sua fama de homem belicoso, foi um dos piores alunos de seu curso em West Point. Não sabia nada de Matemáticas, segundo confessa, e é de supor que muito menos das complicadas ciências econômicas. Sem dúvida, seu adversário o supera em inteligência e serenidade.

O que mais aparece em McCain são os anos, e sua saúde não é no absoluto segura.

Menciono estes dados para assinalar a eventual possibilidade, se algo ocorresse com a saúde do candidato republicano, se o elegem, de que a senhora do rifle e inexperiente ex-governadora do Alaska fosse Presidenta dos Estados Unidos. Observa-se que não sabe nada de nada.

Meditando sobre a dívida pública atual dos Estados Unidos que o presidente Bush descarrega sobre as novas gerações nesse país, dez trilhões duzentos sessenta e seis bilhões, tive a idéia de calcular o tempo que um homem demoraria para contar a dívida que aquele praticamente duplicou em oito anos.

Supondo oito horas de trabalho líquido diário sem perder um segundo, ao ritmo rápido de cem notas de um dólar por minuto, 300 dias de trabalho ao ano, um homem demoraria setecentos dez bilhões de anos para contar essa soma.

Não encontrei outra forma gráfica de imaginar o volume dessa soma de dinheiro que se menciona quase diariamente nestes dias.

O governo dos Estados Unidos, para evitar um pânico generalizado, declara que garantirá depósitos das poupanças que não ultrapassem os 250 mil dólares; administrará bancos e cifras de dinheiro que Lenin, com ábacos, não teria imaginado contabilizar.

Podemos nos perguntar agora que aporte a administração Bush fará ao socialismo. Mas não nos façamos ilusões. Quando o funcionamento dos bancos se normalize, os imperialistas lhes devolverão às empresas privadas, como fez um ou outro país neste hemisfério. O povo sempre paga as contas.

O capitalismo tende a se reproduzir em qualquer sistema social, porque parte do egoísmo e dos instintos do homem.

À sociedade humana não lhe resta outra alternativa que superar essa contradição, porque de outra forma não poderia sobreviver.

Neste momento, o mar de dinheiro que os bancos centrais dos países capitalistas desenvolvidos lançam às finanças mundiais está atingindo fortemente as bolsas dos países que tratam de superar o subdesenvolvimento econômico e vão a essas instituições. Cuba não possui bolsa de valores. Sem dúvida surgirão formas de financiamento mais racionais, mais socialistas.

A crise atual e as brutais medidas do governo dos Estados Unidos para se salvar trarão mais inflação, mais desvalorização das moedas nacionais, mais perdas dolorosas dos mercados, menores preços para as mercadorias de exportação, mais intercâmbio desigual. Mas trarão também aos povos mais conhecimento da verdade, mais consciência, mais rebeldia e mais revoluções.

Veremos agora como se desenvolve a crise e daí o que ocorre nos Estados Unidos dentro de vinte e cinco dias.

Fidel Castro Ruz

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