A DERROTA PELA DIVIDA é tão mortal quanto uma derrota militar absoluta

12-04-2009

  14:25:54, por Corral   , 2387 palavras  
Categorias: Ensaio

A DERROTA PELA DIVIDA é tão mortal quanto uma derrota militar absoluta

por Michael Hudson

A Islândia está sob ataque ? não militar, mas financeiro. Ela deve mais do que pode pagar. Isto ameaça os devedores com o confisco (forfeiture) do que resta nos seus lares e de outros activos. Dizem ao governo para liquidar o domínio público do país, seus recursos naturais e empresas públicas, a fim de pagar as dívidas do jogo financeiro acumuladas irresponsavelmente por uma nova classe de banqueiros. Esta classe procura aumentar a sua riqueza e poder. A guerra financeira contra a Islândia apesar do facto de que a sua estratégia de alavancamento de dívida já ter lançado a economia na bancarrota. No topo desta, os credores procuram aprovar impostos permanentes e a liquidação de activos públicos para pagar os salvamentos deles próprios.

A derrota pela dívida é tão mortal quanto uma derrota militar absoluta. Confrontados com a perda das suas propriedades e dos meios de subsistência, muitos cidadãos ficarão doentes, levará a vidas de crescente desespero e morte prematura se não repudiarem a maior parte dos empréstimos oferecidos fraudulentamente nos últimos cinco anos. E defender a sua sociedade civil não será tão fácil como numa guerra em que a cidadania se posiciona em conjunto para enfrentar um agressor visível. A Islândia está confrontada pelos países mais poderosos, encabeçados pelos Estados Unidos e a Grã-Bretanha. Eles estão a por em acção os seus propagandistas e a mobilizar o FMI e o Banco Mundial para exigir que a Islândia não se defenda a si própria anulando as suas dívidas podres. Mas estes países credores até agora não assumiram responsabilidade pela actual desordem do crédito. E, na verdade, os Estados Unidos e a Grã-Bretanha são devedores líquidos no cômputo geral. Mas no que se refere à sua posição em relação à Islândia, eles estão a exigir que esta empobreça os seus cidadãos através do pagamento de dívidas de formas que estes países nunca o fariam. Eles sabem que falta o dinheiro para pagar, mas estão bastante desejosos de receberem o pagamento na forma de arresto dos recursos naturais do país, da terra e da habitação e de uma hipoteca sobre os próximos séculos do seu futuro.

Se isto soa como despojos de guerra, é exactamente isso ? e sempre foi. A escravização pela dívida é o nome deste jogo. E a grande arma neste conflito de interesse é como o povo o entende. Os devedores devem ser convencidos a pagar voluntariamente, a colocar os interesses dos credores acima da prosperidade da economia como um todo, e até mesmo a colocar exigências estrangeiras acima do seu próprio interesse nacional. Isto não é uma política que o meu país, os Estados Unidos, seguiria. Mas a discussão popular na Islândia até à data tem sido limitada unilateralmente à defesa dos interesses dos credores, não o dos seus próprios devedores internos.

Em última análise, o adversário da Islândia não é um país ou mesmo uma classe, mas a dinâmica financeira impessoal a trabalhar globalmente e internamente. Para estar à altura da sua actual pressão da dívida, a Islândia deve reconhecer quão singularmente destrutivo foi o regime económico criado pelos seus banqueiros, através de legislação em causa própria e fraude absoluta. Com ávida cumplicidade externa, os seus bancos administraram a criação de bastante dívida externa a fim de provocar depreciação crónica da divisa e portanto inflação interna de preços durante muitas décadas pela frente.

Para colocar o dilema financeiro da Islândia em perspectiva, examine-se como outros países trataram enormes obrigações de dívida. Historicamente, o caminho da resistência mínima foi "inflacionar a sua saída da dívida". A ideia é pagar dívidas com "dinheiro barato" em termos do seu reduzido poder de compra. Os governos fazem isto ao imprimir dinheiro e incidir em défices orçamentais (gastando mais do que arrecadam através de impostos) suficientemente grandes para elevar preços quando este novo dinheiro apanha o mesmo volume de bens. Foi assim que Roma depreciou a sua divisa na antiguidade e como a América fez para reduzir grande parte da sua própria dívida na década de 1970 ? e como a queda internacional do valor do dólar anulou grande parte da dívida internacional dos EUA nos últimos anos. Esta inflação de preços reduz o fardo da dívida ? desde que salários e outros rendimentos se elevem em conjunto.

Confrontada com uma explosão sem precedentes de obrigações de dívida ? muitas delas aparentemente fraudulentas e certamente em violação da prática tradicional de crédito ? a Islândia aplicou esta solução inflacionária às avessas. Ao invés de permitir a clássica a panaceia creditícia de inflacionar a divisa, ela criou uma economia de sonho para os credores, impedindo a fuga clássica da dívida. A Islândia descobriu um meio de inflacionar o seu caminho para dentro da dívida, não para sair dela. Ao indexar a dívida à taxa de inflação, ela garantiu uma benesse inesperada única para bancos que aumentam amplamente o que recebem num "mercado em baixo", a expensas dos assalariados e dos lucros industriais. Ligar empréstimos hipotecários ao índice de preços no consumidor (IPC) em face de uma divisa em depreciação e de uma pesada drenagem da balança de pagamento em favor de estrangeiros pode ter apenas um resultado: destruição da sociedade islandesa e do seu modo de vida tradicional.

A Islândia precisa repudiar esta bomba da dívida. Sob a actual política, as suas dívidas nunca perderão valor porque estão indexadas à inflação. Isto por sua vez está a ser provocado em grande parte pelo serviço da dívida externa que está a por a divisa em colapso, elevando preços de importação e portanto provocando ainda maiores pagamentos de dívida numa máquina sem fim. A economia contrai-se, os salários caem e os activos perdem valor, mas as obrigações de dívida continua a crescer cada vez mais. O resultante esvaziamento dos salários, dos padrões de vida e dos gastos do consumidor mais uma vez contrairão a economia ? uma receita para o vírus económico que ameaça praguejar a Islândia durante muitas décadas se não for revertida agora. A formação de capital afundará quando faltar dinheiro aos consumidores para gastar. Muitos podem não ter o suficiente para sobreviver. A economia será "crucificada numa cruz de ouro", para utilizar a famosa frase de William Jennings Bryan na eleição presidencial americana de 1896 quando ele advogava uma cunhagem de prata para aliviar a pressão da dívida sobre os agricultores e o trabalho.

O outro lado da discussão?

Apesar de ter passado o último meio século concentrado a estudar os países com problemas de balança de pagamentos, mesmo eu acho chocante o singularmente auto-destrutivo regime financeiro da Islândia. Antes que rejeite a minha candura, devo apresentar um curriculum pessoal resumido para que entenda que as minhas conclusões são baseadas principalmente em ter sido um iniciado no jogo da pilhagem de países em estilo imperial durante quarenta anos. Nos meados da década de 1960 eu era o economista de balanças de pagamentos do Chase Manhattan Bank, a seguir da Arthur Anderson e posteriormente do United Nations Institute for Training and Research (UNITAR). Tenho ensinado teoria económica internacional em nível de graduação desde 1969 e agora dirijo um grupo internacional de história económica e financeira com base em Harvard. Em 1990, na Scudder Stevens and Clark, organizei o primeiro fundo de dívida soberana. Todos estes trabalhos envolveram analisar a limitada capacidade de países devedores para pagar ? quando podia ser deles extraído através de empréstimos em divisas estrangeiros e quanta infraestrutura pública estava disponível para ser liquidada num processo voluntário de arrestos virtuais por países desejosos de se submeterem às regras ditadas pelo credor.

Escrevi primeiramente acerca do imperialismo monetário na década de 1970 no meu livro Super Imperialism. Ele deveria ter-se intitulado "Imperialismo monetário" porque pormenorizava como a substituição do ouro por papéis de dólar IOUs ( I owe you, notas de reconhecimento de dívida) no comércio e nos défices de balanças de pagamentos, em 1971, permitiu aos Estados Unidos explorarem o resto do mundo sem limites. Reduzindo gradualmente os pagamentos em ouro entre bancos centrais em favor de dinheiro fiduciário de papel permitiu ao Estados Unidos acumularem dívidas maciças iguais aos seus défices acumulados de pagamentos, muito além da sua capacidade de pagar. Os EUA actualmente devem mais de US$4 milhões de milhões (trillion), enquanto mantém um défice comercial crónico com enormes gastos militares além-mar, financiados inteiramente por outros países através dos seus bancos centrais. Isto é chamado eufemisticamente de "sistema monetário internacional".

Também fui conselheiro do governo canadiano na década de 1970. O meu principal trabalho foi escrever uma monografia a explicar porque os países não deveriam contrair empréstimos em divisas estrangeiras, mas deveriam sim monetizar o seu próprio crédito para gastos internos e investimento. Em anos recentes ensinei na Letónia e dei este mesmo conselho aos seus responsáveis. Apresento estes antecedentes porque têm óbvia relevância para a situação financeira da Islândia de hoje. Ela rompeu a regra essencial das finanças internacionais: Nunca assumir empréstimo numa divisa estrangeira para o crédito que se pode criar livremente no plano interno. Os governos podem expandir a sua saída da dívida interna ? mas não da dívida externa. Isto constitui grande parte do problema agora enfrentado pela Islândia.

O ponto principal dos meus comentários centrar-se-á portanto na dimensão internacional do problema da dívida da Islândia, especialmente nas suas relações com a Europa. Assim, é relevante olhar para o que está a acontecer na "Europa expandida" de hoje. Como tem relatado a imprensa financeira, as economias pós-soviéticas depararam-se com resultados desastrosos depois de se terem movimentado na década passada para aderir à União Europeia. Os recentes tumultos de devedores, agricultores e membros de sindicatos desde os países bálticos até à Hungria são sintomáticos das profundas desgraças económicas que afligem estes países. Está a crescer o ressentimento de que ao invés de ajudá-los a industrializarem-se e tornarem-se mais eficientes, a Europa e o seu Tratado de Lisboa simplesmente transferiu o assunto para os seus banqueiros, os quais olham para estes países simplesmente como clientes de crédito a serem sobrecarregados com dívida ? não para empréstimos para construir manufacturas e a infraestrutura urgentemente necessária a estes países, mas empréstimos principalmente contra o imobiliário existente e a infraestrutura colateral já no lugar. Isto é o caminho mais rápido para fazer dinheiro, afinal de contas ? e as finanças tradicionalmente têm vivido no curto prazo.

Este problema era obrigado a levantar-se, dada a fé pós-industrial da Europa de que quaisquer aumentos de "riqueza" ? mesmo pelo truque de inchar o imobiliário e os preços de outros activos ? é tão produtivo como construir nova capacidade industrial e infraestrutura. O resultado desta ideologia foi um conjunto de bolhas económicas construídas sobre imobiliário financiado por dívidas e inflação do mercado de acções. Tais bolhas sempre explodem em algum momento. Só tardiamente os países estão a redescobrir o axioma clássico de que o único caminho para pagar importações numa base sustentável é produzir exportações.

Infelizmente, nem os bancos estrangeiros nem os conselheiros europeus estimularam isto. A sua política desindustrializou o países pós-soviéticos, os quais financiaram o aprofundamento dos défices comerciais contraindo empréstimos em divisas estrangeiras contra o seu património imobiliário. Os Estados bálticos tomaram empréstimos em euros, libras esterlinas e francos suíços, principalmente de bancos suecos, para financiar uma bolha imobiliária, ao passo que a Hungria e os seus vizinhos da Europa Central se endividaram pesadamente junto a bancos austríacos. As suas economias estão a contrair-se agora que o jogo de casino sobre a inflação dos preços dos activos explodiu. O rendimento locativo e portanto os preços da propriedade estão a afundar e as taxas de câmbio fazem o mesmo. Isto torna o custo de uma hipoteca em divisa estrangeira maior do que o rendimento da propriedade local. O resultado é o incumprimento generalizado de hipotecas, provocando perdas severas para bancos suecos e austríacos.

As dívidas podres do imobiliário também estão a destruir bancos nos dois principais países credores, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos. Os preços imobiliários, os preços das acções e o emprego estão indo abaixo numa linha recta sem precedentes mesmo na Grande Depressão dos anos 1930. Isto tornou um pesadelo o sonho financeiro neoliberal de "criar riqueza" pela inflação de preços de activos, através da criação de crédito, sem realmente aumentar a formação de capital tangível (salários e padrões de vida). Assim como indivíduos não podem viver de cartões de crédito para sempre, tão pouco os países o podem. Como sabe qualquer economista clássico, sociedades que apenas manufacturam dívida são insustentáveis. Os casinos podem ser lugares divertidos para visitar (os clientes pagam ao perderem o seu dinheiro), mas não lugares para viver. Isso também é verdade para as economias de casino.

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