CANTA O MERLO: O GOLPE DE ESTADO financeiro da classe rentista (capitalistas-parasitários) na Europa

19-11-2011

  13:27:50, por Corral   , 1966 palavras  
Categorias: Ensaio

CANTA O MERLO: O GOLPE DE ESTADO financeiro da classe rentista (capitalistas-parasitários) na Europa

Estamos a assistir nem mais nem menos que a um golpe de estado financeiro da classe rentista (capitalista-parasitária)s da Eurozona

Marshall Auerback · http://www.sinpermiso.info· ·

Di-se que a Uniom Europeia é umha organizaçom notavelmente ineficiente em ponto a articular os pacotes de resgates, mas quando do que se trata é de subverter a democracia, som tom implacáveis e eficientes como qualquer outro sindicato do crime.

Reflictam sobre isto: no espaço de menos de 2 semanas, os burocratas arranjaram-lhas para eliminar a dous dirigentes políticos incómodos, cujas acçons ameaçavam com interferir num objectivo de maior calado, e é a saber: culminar o "Projecto Europeu", um projecto que, para dizê-lo clara e singelamente, cada vez parece-se mais a um golpe de estado financeiro.

Primeiro, Grécia, que em verdadeiro sentido proporcionou a pauta: o primeiro-ministro, Papandreu, tivo a audácia de buscar o consenso por referendo do seu próprio povo ante decisons que tinham que afectar decisivamente as suas vidas. Bem, pois a julgar polas petulantes reacçons da chanceler alemá Angela Merkel e o presidente francês Nicolas Sarkozy, isso desde logo nom podia fazer-se. Interferindo grosseiramente nos assuntos internos de um sócio democrático (e, enzima, aliado), ambos os amanhárom contra o "e ameaçaram a o" governo grego. Resultado final: o senhor Papandreu foi apartado do caminho depois de se retractar.

E, mira por onde, o novo primeiro-ministro da Grécia, Lucas Papademos, um antigo alto funcionário do BCE (naturalmente, com um conveniente currículohomem de Goldman Sachs), vai ser agora o cavaleiro encarregado de pôr por obra o último pacote de "reformas estruturais" que, cala por sabido, terám com toda a segurança o efeito de seguir afundando na deflaçom à economia grega. As privatizaçons, óbvio é dizê-lo, seguírom de vento em popa, e os oligarcas gregos, soados pola sua rapazidade na evasom fiscal, farám-se com os activos privatizados a preço de saldo (presumivelmente com o dinheiro contante e sonante que há colocaram oportunamente no estrangeiro, no mercado imobiliário londrino ou na banca suíça): consolidárom assim o seu controlo de umha vida económica, a grega, mais e mais disfuncional. A imensa maioria dos gregos sofrerá horrivelmente. Nom tenhem voz nisso: deixou-se-lhes com a só alternativa de dar-se morte por própria mao ou ser fusilados. Nom é, contodo, o último que perdêrom. A cousa nom oferece dúvida: Goldman Sachs ingressará ainda muitos honorários pola seu contributo ao leilom desses mesmos activos públicos.

Do outro lado do Adriático, parece que o tándem "Merkozy" soubo jogar também as suas cartas com sucesso no Turno 2, desta vez eliminando com sucesso ao seu perturbadora Némesis, o primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi. Diga-se o que se queira do senhor Berlusconi, o verdadeiro é que nesta ocasiom levava razom ao resistir-se a um cru complô político, urdido contra ele polo BCE, os franceses e os alemans, para que aceitasse um programa, tam irracional como economicamente contraindicado, de austeridade fiscal a mudança do "apoio" dos seus pares no FMI. Perguntem a qualquer argentino que significa o "apoio" do FMI.

Todo o que Berlusconi tinha que fazer era deitar umha olhadela a Atenas para dar-se conta dos prováveis efeitos que teria um novo assalto ao Estado de Bem-estar italiano. Mas a eufórica reacçom dos mercados à sua demissom era surrealista: como a dos perus votando a favor da celebraçom do Dia de Acçom de Graças.

Em Roma, este jogo de poder franco-alemám foi circunspectamente supervisionado por um aplicado euro-comunista, o presidente Giorgio Napolitano, que está em vias de converter a um burocrata de toda a vida, Mario Monti, no próximo primeiro-ministro da Itália. Nom perdam de vista a trajectória de Monti: credenciais impecáveis: um "habitante" virtual nas estruturas tecnocráticas de governo da UE, com algumha "experiência" no sector privado como director de entidades como Coca Cola e, claro, como "consultor internacional" de Goldman Sachs.

Ao que estamos a assistir, nem mais nem menos, é a um golpe de estado financeiro pola classe rentista (capitalista e parásita) da Euro-zona.. Umha das mais tristes ironias desta história é que, ao menos no caso da Itália, todo isto está-o cozendo um euro-comunista que provavelmente pertenceria a um governo italiano que, baixo a direcçom de Enrico Berlinguer, poderia ser derrocado por um golpe de estado da CIA, se isto ocorresse há 30 anos.

Como pode chegar-se a tanto na UE? É difícil assinalar a umha só pessoa. Vimos mover-se a este vasto projecto da mao de um punhado de burocratas inelectos durante décadas, se nom mais. Jacques Delors foi umha figura verdadeiramente seminal, mas nom actuou só. Todo o projecto europeu foi cada vez mais dirigido por esses burocratas para sempre sem eleiçom polo meio que rotam e rotam em diferentes posiçons das estruturas de governo da UE depois de receber uns quantos anos de treino em entidades privadas como Goldman Sachs ou JP Morgan (ambas as duas, banca anglo-sionista).

Poderia seica dizer-se que isso começou quando o presidente francês François Miterrand chegou ao poder a começos dos 80 disposto imprimir umha direcçom económica fresca e genuinamente progressista a França. Nom tardou em ver-se saboteado, até que compreendeu a jogar nos bastidores com os poderes que actúabam a desmao Desde entom, o plano de jogo foi, e por muito, o mesmo: os membros da Comissom Europeia emitem umha miríada de diktats, regras, regulaçons e directivas, salvo, nem que dizer tem, qualquer cousa que tenha que ver com recursos democráticos reais quando tropeçam com a resistência popular. Começas da pouquinho, e vais construindo gradualmente e criando faits accomplis em toda parte.

Quando há um revés em forma de referendum, a parada é só transitória. Países que, como Irlanda, ousaram votar de maneira "equivocada" num referendo nacional, nom viram respeitados os seus resultados. As autoridades da UE adoptaram responder, nom reflectindo sobre umha expressom popular da vontade democrática, senom ignorando os resultados até que os ignorantes camponeses dem-se conta dos seus clamorosos erros voltem votar de maneira correcta.

Se isso significam dous, três referenda, pois assim seja. Politicamente, a interpretaçom de qualquer aspecto dos Tratados relativos à goveernalidade europeia sempre se deixou em maos de cargos burocráticos nom eleitos que operam desde instituiçons desprovistas da menor legitimidade democrática. Isso levou, por sua vez, a umha crescente sensaçom de alienaçom política e ao correspondente crescimento de partidos extremistas, hostis a toda uniom política ou monetária, noutras partes da Europa. Baixo oras circunstâncias políticas, esses partidos extremistas poderiam chegar a ser maioritários.

Umha figura que terminou sendo trágica aqui é a de Papandreu. Ainda se com ínfimos resultados, Papandreu comprometeu-se profundamente com a posta por obra dos acordos alcançados em Outubro. Mas como observado o economista de Harvard (e assessor do governo grego) Richard Parker, Papandreu tivo que se enfrontar a um incêndio declarado simultaneamente em várias frentes: competidores no seu próprio partido que ambicionavam o seu cargo; parlamentares do seu partido que ameaçavam com se abroquelar ante novas medidas de austeridade; a intransigência fechada de Samara e o seu partido [conservador] de Nova Democracia; por nom falar da economia, em processo de tumba aberta deflacionista sem que chegasse nengumha ajuda real. Convocar um referendo chegou a ser o seu único instrumento para sufocar todos os focos do incêndio à vez: tratava-se de obrigar a se achandar aos políticos gregos e aos seus poderosos valedores, assim como de forçar aos dirigentes europeus a voltar negociar de imediato para elaborar definitivamente um plano de resgate que pudesse funcionar.

Óbvio é dizê-lo, estava condenado à guilhotina, dada a poderosa oposiçom que tinha às suas costas. Aos seus "aliados" da UE bastou-lhes umha mao para castigar ao primeiro-ministro grego que impusera um castigo colectivo ao povo grego por causa de décadas de corrupçom incrustada no sistema, umha corrupçom, no entanto, da que estava limpo este primeiro-ministro. Fazer da Grécia umha genuína democracia, fora a razom fundamental da entrada de Papandreu na política grega.

E do outro lado, os parasitários oligarcas gregos, que perceberam as acçons políticas de Papandreu como um ataque frontal ao seu inveterado controlo da economia grega, livraram-se a um combate feroz para destruir-lhe politicamente e situar a Grécia um passo mais perto de converter-se num Estado fracassado.

E agora Grécia veio a proporcionar o modelo adequado. Temos agora umha crise manufacturada (que poderia resolver-se facilmente há anos polo BCE, sendo como é a Grécia quase nom 2,5% do PIB europeu) que, propagando-se a toda a velocidade, oferece muitas oportunidades para livrar-se de políticos incómodos que nom fam o que se lhes dicta que fagam, e é a saber: abraçar essa "cultura de estabilidade" que predicam os alemáns, mas que nom é, em realidade, outra cousa a consolidaçom da tomada de controlo dos diferentes governos por parte dos rentistas (grandes parásitos capitalistas).

Analogamente na Itália: o BCE esteve comprando bonos italianos, mas de maneira renuente e, desde logo, nom os suficientes como para deter o inelutável aumento das suas taxas de interesse. O novo chefe do BCE, Mário Draghi "outro homem procedente de Goldman Sachs" começou a sua andaina no cargo com umha terminante advertência (camuflada em diferentes e duvidosos tecnicismos jurídicos) de que o Banco Central europeu nom actuaria como "prestamista de último recurso", o que punha aos seus compatriotas numha situaçom na que a resignaçom era o único curso de acçom possível para salvar ao país de um colapso financeiro imediato.

Berlusconi era também um branco fácil, dado o seu pintoresco e aberrante historial privado. E o seu mais que provável substituto, Mario Monti, resulta o perfeito arrecadador para os oligarcas financeiros da Europa. Monti é, em realidade, parte do que muito fundadamente poderia chamar-se umha "máfia financeira" que pós ao mundo de pernas para o ar desde 2008. Aos sicários, como Monti, desse mundo financeiro tenebroso e opaco se nomeia agora para que imponham programas de austeridade aos fogares trabalhadores pobres, o fim de salvar ao sector financeiro da deflaçom por sobre-endividamento: umha crise artificial dimanante da arquitectura do Euro-sistema que tanto celebraram esses mesmos "mercados" financeiros quando se lançou o euro em 1999. Desgraçadamente, muitos italianos vem ainda ao euro como o seu escudo protector frente à corrupçom do passado, que muitos associam na Itália à lira e às suas elevadas taxas de interesse, apesar de que o corrupto Berlusconi anda intimamente vinculado com a mesma euro-elite.

O próprio Draghi tem um passado farto duvidoso: como tivemos ocasiom de observar há pouco, historicamente Itália explorou a ambigüidade nas regras de contabilidade para as transacçons swap, [1] o fim de enganar às instituiçons da UE, a outros governos dos Estados membros da UE e à sua própria populaçom a respeito da verdadeira dimensom do seu deficit orçamental.

Parece, em efeito, muito adrede o que Draghi tenha agora que lidar com as conseqüências da sua própria fraude na contabilidade nacional. Mas dificilmente pode dizer-se que é justo para os povos da Europa, todos os quais seguírom estando baixo a asfixiante deita de umha austeridade fiscal crescente imposta por umha elite cada vez mais distante e democraticamente inacareável. Nom é raro que polas ruas de Madrid, de Atenas, de Roma e em toda parte começasse o incêndio.

NOTA T.: [1] Som as transacçons operadas nos mercados CDS (Credit Default Swaps), mercados de derivados financeiros de falta de pagamentos crediticia. Nesses mercados financeiros, terrivelmente opacos e praticamente des-regulados (as transacçons nos quais superam já com fartura o volume do PIB mundial), supom-se que se cobrem as regas, entre outras, dos investimentos em dívida soberana. A semana passada, por exemplo, cobrir o risco de um investimento de 10 milhons de euros em bonos espanhóis ou italianos a dez anos, chegou a valer mais de 400 mil euros. Apostar, nesses mercados, a que a dívida soberana de um país "ou os valores de umha companhia privada"vai ir mal, fai subir o preço de cobertura.

Marshall Auerback, um dos analistas económicos mais respeitados dos EEUU, é membro conselheiro do Instituto Franklin e Eleanor Roosevelt, onde colabora com o projecto de política económica alternativa new deal. 2.0.

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