CANTA O MERLO: O Vaticano-A Corte do crimem e a corrupçom

17-02-2013

  13:12:09, por Corral   , 1636 palavras  
Categorias: Ensaio

CANTA O MERLO: O Vaticano-A Corte do crimem e a corrupçom

Eduardo Febbro
Página/12

http://www.pagina12.com.ar/diário/elmundo/4-213961-2013-02-16.html

As verdadeiras razons da renúncia do papa Benedito XVI: Corrupçom, lavagem de dinheiro e as luitas internas mais ferozes

Um relatório elaborado por três cardeais terminou-o de convencer de que era impossível limpar o Vaticano, onde até a Cosa Nostra guarda os seus fundos. A abdicaçom como maneira de sacudir o tabuleiro na Igreja.

Os experto vaticanistas alegam que o papa Benedito XVI decidiu renunciar em Março do ano passado, depois de regressar da sua viagem a México e a Cuba. Nesse entom, o Papa que encarna o que o especialista e universitário francês Philippe Portier chama "umha continuidade pesada" com o seu predecessor, Joám Paulo II, descobriu a primeira parte de um informe elaborado polos cardeais Julián Herranz, Jozef Tomko e Salvatore de Giorgi. Ali estavam resumidos os abismos nada espirituais nos que caíra a Igreja: corrupçom, finanças escuras, guerras fratricidas polo poder, roubo maciço de documentos secretos, pugna entre facçons e lavagem de dinheiro. O resumo final era a "resistência na cúria à mudança e muitos obstáculos às acçons pedidas polo Papa para promover a transparência".

O Vaticano era um ninho de hienas excitadas, um pugilato sem limites nem moral algumha onde a cúria faminta de poder fomentava denúncias, traiçons, cambadelas, lavagem de dinheiro, operaçons de Inteligência para manter as suas prerrogativas e privilégios à frente das instituiçons religiosas e financeiras. Muito longe do céu e muito perto dos pecados terrestres. Baixo o mandato de Benedito XVI, o Vaticano foi um dos Estados mais escuros do planeta. Josef Ratzinger tivo o mérito de destapar o imenso buraco negro dos curas pedófilos, mas nom o de modernizar a Igreja e dar volta a página do legado de assuntos turvos que deixou o seu predecessor, Joám Paulo II.

Esse primeiro relatório do três cardeais desembocou, em agosto do ano passado, na nomeaçom do suíço René Brülhart, um especialista em lavagem de dinheiro que dirigiu durante oito anos a Financial Intelhigence Unit (FIU) du Liechtenstein, ou seja, a agência nacional encarregado de analisar as operaçons financeiras suspeitas. Brülhart tinha como missom pôr ao Banco do Vaticano em sintonia com as normas europeias ditadas polo GAFI, o grupo de acçom financeira. Desde logo, nom o pode fazer. O passado turvo fechou-lhe o passo.

Benedito XVI foi, como o assinala Philippe Portier, um continuador da obra de Joám Paulo II: "Desde 1981 seguiu o reino do seu predecessor acompanhando vários textos importantes que ele mesmo redigiu às vezes, como a Condenaçom das teologias da libertaçom dos anos 1984-1986, o Evangelium Vitae de 1995, adrede da doutrina da Igreja sobre temas da vida, ou Splendor Veritas, um texto fundamental redigido a quatro maos com Woxtyla". Estes dous textos citados polo experto francês som um compendio prático da visom reaccionária da Igreja sobre as questons políticas, sociais e cientistas do mundo moderno.

A segunda parte do relatório do três cardeais foi-lhe apresentada ao Papa em Dezembro. Desde entom, a renúncia expós-se de forma irrevogável. Em pleno marasmo e com umha cheia de corredores que conduziam ao inferno, a cúria romana actuou como o faria qualquer Estado. Buscou impor umha verdade oficial com métodos modernos. Para isso contratou ao jornalista norte-americano Greg Burke, membro do Opus Dei e ex membro da agência Reuters, a revista Time e a corrente Fox. Burke tinha por missom melhorar a deteriorada imagem da Igreja. "A minha ideia é achegar claridade", falou Burke ao assumir o posto. Demasiado tarde. Nada há de claro na cima da Igreja católica.

A divulgaçom dos documentos secretos do Vaticano orquestrada polo mordomo do papa, Paolo Gabriele, e muitas outras maos invisíveis foi umha operaçom sabiamente montada cujos recursos seguem sendo misteriosos: operaçom contra o poderoso secretário de Estado, Tarcisio Bertone, conspiraçom para empurrar a Benedito XVI à renúncia e pôr a um italiano no seu lugar, ou tentativa de frear a purga interna em curso e a avalanche de segredos, os vatileaks mergulharam a tarefa limpadora de Burke. Um inferno de paredes pintadas com anjos nom é fácil de redesenhar.

Benedito XVI foi esmagado polas contradiçons que ele mesmo suscitou. Estas som tais que, umha vez que fixo pública a sua renúncia, os tradicionalistas da Fraternidade de Som Pio X fundada por monsenhor Lefebvre saudaram a figura do Papa. Nom é para menos: umha das primeiras missons que empreendeu Ratzinger consistiu em suprimir as sançons canónicas adoptadas contra os partidários fascistoides e ultrarreaccionarios de monsenhor Lefebvre e, por conseguinte, legitimar no seio da Igreja essa corrente retrógrada que, de Pinochet a Videla, soubo apoiar a quase todas as ditaduras de ultradereita do mundo.

Philippe Portier assinala a respeito disso que o Papa "deixou-se exceder pola opacidade que se instalou sob o seu reino". E a primeira delas nom é doutrinal, senom financeira. O Vaticano é um tenebroso gestor de dinheiro e muitas das querelas que se destapárom no último ano tem que ver com as finanças, as contas maquilhadas e as operaçons ilícitas. Esta é a herança financeira que deixou Joám Paulo II e que para muitos especialistas explica a crise actual. O Instituto para as Obras de Religiom, é dizer o banco do Vaticano, fundado em 1942 por Pio XII, funciona com umha escuridade tormentosa. Em Janeiro, a pedido do organismo europeu de luta contra o branqueio de dinheiro, Moneyval, o Banco da Itália bloqueou o uso das cartas de crédito dentro do Vaticano devido à falta de transparência e a falha-las manifestas no controlo de lavagem de dinheiro. Em 2011, o cinco milhons de turistas que visitaram a Santa Sé deixaram 93,5 milhons de euros nas caixas do Vaticano, agora deverám pagar em mao. O IOR gere mais de 33.000 contas polas que circulam mais de seis mil milhons de euros. A sua opacidade é tal que nom figura na "lista branca" dos Estados que participam no combate contra as transacçons ilícitas.

Em Setembro de 2009, Ratzinger nomeou ao banqueiro Ettore Gotti Tedeschi à frente do Banco do Vaticano. Próximo do Opus Dei, representante do Banco de Santander na Itália desde 1992, Gotti Tedeschi participou na preparaçom da encíclica social e económica Caritas in veritate, publicada polo Papa em Julho. A encíclica exige mais justiça social e expom regras mais transparentes para o sistema financeiro mundial. Tedeschi tivo como objectivo ordenar as turvas águas das finanças vaticanas. As contas da Santa Sé som um labirinto de corrupçom e lavagem de dinheiro cujos origens mais conhecidas remontam-se a finais dos anos "80, quando a justiça italiana emitiu umha ordem de detençom contra o arcebispo norte-americano Paul Marcinkus, o chamado "banqueiro de Deus", presidente do Instituto para as Obras da Religiom e máximo responsável polos investimentos vaticanos da época.

Marcinkus era um adepto aos paraísos fiscais e muito amigo das máfias. Joám Paulo II usou o argumento da soberania territorial para evitar a detençom e salvar do cárcere. Nom estranha, devia-lhe muito, xá que nos anos "70 e "80 Marcinkus utilizara o Banco do Vaticano para financiar secretamente ao filho predilecto de Joám Paulo II, o sindicato polonês Solidariedade, algo que Woxtyla nom esqueceu jamais. Marcinkus terminou os seus dias jogando ao golfe em Arizona e no meio ficou um gigantesco buraco negro de perdas (3,5 mil milhons de dólares), investimentos mafiosos e também vários cadáveres

O 18 de Junho de 1982 apareceu um cadáver aforcado na ponte londrina de Blackfriars. O corpo pertencia a Roberto Calvi, presidente do Banco Ambrosiano e principal sócio do IOR. O seu aparente suicídio correu o lenço de umha imensa trama de corrupçom que incluía, ademais do Banco Ambrosiano, a logia massónica Propaganda 2 (mais conhecida como P-2), dirigida por Licio Gelli, e o mesmo Banco do Vaticano dirigido por Marcinkus. Gelli refugiou-se um tempo na Argentina, onde já operara nos tempos do general Lanusse mediante um operativo chamado "Gianoglio" para facilitar o retorno de Perón.

A Gotti Tedeschi encomendou-se-lhe umha missom quase impossível e só permaneceu três anos à frente do Instituto para as Obras de Religiom. Foi despedido de forma fulminante em 2012 por supostas "irregularidades na sua gestom". Entre outras irregularidades, a promotoria de Roma descobriu um giro suspeito de 30 milhons de dólares entre o Banco do Vaticano e o Credito Artigiano. A transferência fizo-se desde umha conta aberta no Credito Artigiano mas bloqueada pola Justiça por causa da sua falta de transferência. Tedeschi saiu do banco poucas horas depois de que se detivesse ao mordomo do Papa e justo quando o Vaticano estava a ser investigado por suposta violaçom das normas contra o branqueio de capitais. Em realidade, a sua expulsom constitui outro episódio da guerra entre facçons. Em canto fizo-se cargo do posto, Tedeschi começou a elaborar um relatório secreto onde consignou o que foi descobrindo: contas cifradas onde se escondia dinheiro suxo de "políticos, intermediários, construtores e altos funcionários do Estado". Até Matteo Messina Denaro, o novo chefe da Cosa Nostra, tinha o seu dinheiro no IOR. Ali começou o infortúnio de Tedeschi. Quem conhecem bem o Vaticano alegam que o banqueiro amigo do Papa foi vítima de um complô armado por conselheiros do banco com o respaldo do secretário de Estado, monsenhor Bertone, um inimigo pessoal de Tedeschi e responsável pola comissom cardinalicia que vigia o funcionamento do banco. A sua destituiçom veio acompanhada pola difusom de um "documento" que o vinculava com a fuga de documentos roubados ao Papa.

Mais que as querelas teológicas, é o dinheiro e as suxas contas do Banco do Vaticano o que parecem compor a trama da inédita renúncia do Papa. Um ninho de corvos pedófilos, complotistas reaccionários e ladrons, sedentos de poder, impunes e capazes de todo com tal de defender a sua facçom, a hierarquia católica haver deixado umha imagem terrível do seu processo de descomposiçom moral. Nada muito diferente ao mundo no que vivemos: corrupçom, capitalismo suicida, protecçom dos privilegiados, circuitos de poder que se auto-alimentam e protegem, o Vaticano nom é mais que um reflexo pontual da própria decadência do sistema.

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