14-03-2013

Link permanente 11:17:23, por José Alberte Email , 669 palavras   Português (GZ)
Categorias: Ensaio

CANTA O MERLO: O Vaticano, fonte do fascismo

Francisco vem disputar o consenso social
por Julio C. Gambina [*]

A Igreja é parte do poder mundial, e não só do poder económico. A Igreja disputa historicamente o consenso da sociedade. É uma realidade a considerar em tempos de crise capitalista, considerada também uma crise de civilização uma vez que esta civilização contemporânea está ordenada pelo regime do capital, ou seja, pela exploração do homem pelo homem, pela depredação da Natureza.

Quando o sistema mundial era desafiado pelo avanço dos povos e pelo socialismo (como forma que tentava ser alternativa da ordem mundial) abriu-se caminho a teologia da libertação, em aberta confrontação com o poder institucional de uma Igreja retrógrada. Assim, a Igreja dos pobres mostrava-se a partir do Sul do mundo, mais precisamente da Nossa América. A Igreja oficial não podia negar este rumo que abria passagem entre os padres de base e permitiu um grande debate mundial no seio da Igreja.

Os rumos da ofensiva popular batiam à porta da instituição. A resposta contemporânea da instituição Igreja foi acompanhando a ofensiva capitalista para recuperar o poder do regime do capital. Essa ofensiva materializou-se nos anos 80 contra o socialismo e os povos, abrindo o caminho ao poder reaccionário dos Ratzinger e dos Bergoglio.

Há 40 anos o neoliberalismo foi ensaiado em nossos territórios com as ditaduras e o terrorismo de Estado, para a seguir estender-se por toda a orbe. A Igreja da Argentina, salvo honrosas e escassas excepções, acompanhou a ditadura genocida nesse parto neoliberal, ainda que agora fale contra a pobreza e a ética.

Um PAPA polaco chegou à Igreja para acompanhar o princípio do fim da experiência socialista, ainda que se discuta o próprio carácter daquela experiência. O capitalismo mundial necessitava do Leste da Europa. A Alemanha assim o entendeu. Os EUA também. Sem o Leste da Europa, já abandonado o projecto socialista original, o mundo deixou de ser bipolar e constituiu-se o rumo unipolar do capitalismo, transnacional e neoliberal.

O rumo unipolar está a ser desafiado pela mudança política na Nossa América e o ressurgir do socialismo, seja pela mão da revolução cubana ou pelos processos específicos que emergem em alguns países (Venezuela ou Bolívia), inclusive em variados movimentos políticos, sociais, intelectuais, culturais, na nossa região.

Com a morte de Chávez e milhões mobilizados para constituírem-se em sujeitos pelo cumprimento do legado revolucionário e socialista de Hugo Chávez, a Igreja lança à arena o símbolo de um chefe da Igreja nascido no Sul e compenetrado com o projecto do Norte.

O PAPA argentino, Francisco, vem cumprir o projecto do poder mundial para disputar o consenso da sociedade, especialmente dos povos. Não só se trata de sustentar posições contrárias ao matrimónio igualitário, ou contra o aborto, amplamente difundidas pelo bispo Bergoglio, como de gestar uma consciência de disciplinamento para com a ordem contemporânea, reaccionária, de dominação transnacional.

Nossa América é hoje laboratório de mudança política. A Igreja instituição quer intervir neste processo – não para pressionar essas mudanças e sim para travá-las. A disputa é pelas consciências. É uma batalha de ideias, pela mudança, ou pelo retrocesso. Preocupa-os o efeito Chávez na região. Preocupa-os a sucessão política na Venezuela e a capacidade de estender o rumo socialista. Necessitam disputar o consenso.

Mas, apesar das tentativas institucionais para acompanhar a ofensiva do capital contra o trabalho, os trabalhadores e os sectores populares, incluída a igreja dos pobres, o movimento religioso popular, persiste na busca pela organização da sociedade do viver bem (Bolívia), do bom viver (Equador), do socialismo cubano, ou da luta pela emancipação social de grande parte da sociedade dos de baixo na Nossa América.

O PAPA Francisco I vem com a sua. Nós os povos devemos continuar nossa busca e experimentação em favor de uma nova sociedade, por outro mundo possível, esse que se constrói na luta contra a exploração, pela emancipação social, contra o capitalismo e o imperialismo, pelo socialismo.
13/Março/2013

Ver também:
juicioesma.blogspot.pt/2010/11/el-cardenal-bergoglio-que-tanto-sabe.html
www.infoeducasares.com.ar/?p=1223
www.taringa.net/...

[*] Presidente da Fundación de Investigaciones Sociales y Políticas, FISYP .

O original encontra-se em http://www.argenpress.info/2013/03/francisco-i-viene-disputar-consenso.html

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

02-03-2013

Link permanente 21:02:32, por José Alberte Email , 2667 palavras   Português (GZ)
Categorias: Novas, Ensaio

CANTA O MERLO: O crescimento e a inflação contra a dívida

por Jacques Sapir [*]

http://resistir.info/europa/sapir_10fev13_p.html

Não é preciso ser marxista para constatar que a pertença à zona Euro constitui uma grilheta que tolhe o desenvolvimento da maioria dos países europeus. Isso pode ser visto por qualquer economista sem viseiras, como é o caso do keynesiano Jacques Sapir. Neste artigo ele demonstra, e bem, que até mesmo a França seria beneficiada se abandonasse o euro e retornasse à sua antiga moeda nacional, o franco.

Se isto é verdadeiro até para a França, o que dizer em relação a Portugal? Galiza? Neste país submetido aos tratos brutais da troika FMI/BCE/UE, a recuperação da soberania monetária constituiria uma verdadeira libertação nacional. Esta é a condição necessária e indispensável (mas não suficiente) para o desendividamento e para qualquer desenvolvimento digno desse nome.
Quanto mais tarde isso for percebido e quanto mais tarde forem dados passos nesse sentido, mais escravizado e depauperado estará o país. Pretender um novo governo mas sem dar este passo fundamental – mesmo que o dito governo se diga "de esquerda" – é enganar os outros e enganarmos a nós próprios.
resistir.info

A questão da dívida pública é objecto de confusões importantes. Na realidade, ela gira inteiramente em torno da questão do crescimento nominal (crescimento real + taxa de inflação) e não da questão da pressão fiscal. A questão da pressão fiscal é importante para determinar o nível do défice orçamental que poderá ser aceitável.

Dívida e crescimento nominal

A fórmula utilizada para medir o peso da dívida ou Dívida/PIB contém já uma confusão. Compara um stock (a dívida) com um fluxo, a riqueza criada num período de referência (neste caso um ano) e medida pelo PIB (soma dos valores acrescentados). Uma medida mais coerente seria comparar a dívida com o stock das imobilizações e do capital (infra-estruturas) que o Estado possui. Este stock é largamente superior ao valor anual do PIB. Se conservarmos a fórmula Dívida/PIB , que é uma fórmula de análise estática, a fórmula dinâmica (derivada) escreve-se Défice Orçamental/Crescimento Nominal do PIB.

Sendo o défice orçamental (numerador) medido aos preços correntes, é preciso evidentemente que o denominador também o seja. Recorde-se que o crescimento nominal é o produto do crescimento do PIB em termos reais pela taxa de inflação. O nível do crescimento nominal depende pois daquilo a que chamamos "crescimento" (na realidade, o crescimento do PIB em termos reais) e do nível da taxa de inflação. O nível da taxa de inflação aceitável depende da competitividade da França em relação aos seus principais concorrentes. Marcaremos com (f) os números relativos à França e com (c) os que são relativos aos países concorrentes. Neste caso, e tudo o mais permanecendo igual, a competitividade é medida pelo diferencial da inflação (lf/lc) que mostra o crescimento comparado da produtividade do trabalho entre a França e os países concorrentes (Prodf/Prodc).

Temos portanto um limite fixado pelos ganhos de produtividade . Se a França tivesse ganhos muito grandes em relação aos dos países concorrentes, podia permitir-se ter uma inflação igualmente superior na mesma proporção. Quando isso não acontece, a taxa de inflação potencial é limitada pela competitividade. Mas, temos vindo a raciocinar até aqui com taxas de câmbio fixas. Quando um país (como o Japão) provoca uma depreciação da sua moeda em relação ao Euro, isso equivale a um ganho em produtividade aparente, e naturalmente o nível de inflação que o Japão pode suportar aumenta.

Se passarmos a raciocinar considerando que a França recupera a sua soberania monetária, uma desvalorização do franco em relação às moedas dos países que são nossos concorrentes permitiria ter uma taxa de inflação superior à desses países.

O nível de inflação natural da França

Publicámos um " working paper " sobre este assunto em Junho de 2012. [1] Nele demonstra-se que em TODAS as inflações há uma componente monetária e uma componente real, a que chamamos taxa de inflação "natural". Os determinantes dessa inflação "real" devem ser procurados nas estruturas económicas. Esses determinantes decompõem-se em factores "estruturais-técnicos", em factores "institucionais" e em factores "sociais" (ver a tabela 1). Um dos principais resultados demonstrados foi que toda a política que visa aproximar a inflação do zero, teria um efeito tanto mais deletério sobre o crescimento económico quanto mais alta fosse a inflação "natural" dessa economia.

Tabela 1- Elementos da taxa de inflação dita "natural"
Determinantes

Categoria

Elementos de activação
(1) Mudanças internas no seio do aparelho produtivo tornando necessárias variações dos preços e dos rendimentos relativos. Estrutural - Técnica - Progresso técnico e tecnológico, ritmo da inovação
- Introdução de novos métodos de gestão e de organização
- Mudanças institucionais
(2) Desequilíbrio forte entre a estrutura técnica necessária do capital produtivo e a estrutura presente que pode necessitar uma recuperação de investimento. Estrutural - Técnica - Ruptura importante nos equilíbrios entre diversas tecnologias
- Inovação radical
- Atraso acumulado do investimento em períodos anteriores
(3) Forte rigidez das estruturas de consumos intermédias ligada à forte especificidade dos activos Estrutural - Técnica - Aumento acentuado dos custos de consumos intermédios (preço da energia e das matérias-primas).
(4) Forte dependência das fontes internas de financiamento devido tanto ao mau estado das instituições financeiras como a assimetrias de acesso a estas instituições. Institucional - Alta acentuada das necessidades de investimentos para enfrentar uma grande mutação ou uma forte expansão da procura.
- Deterioração no acesso às fontes externas de financiamento devido tanto a uma crise das instituições financeiras como a assimetrias fortes induzidas pelo racionamento do crédito.
(5) Comportamentos de curto-prazo privilegiando a maximização do rendimento imediato e a detenção da liquidez. Institucional - Agravamento brutal da incerteza institucional e contextual.
- Erros e perversõos da política monetária
(6) Conflito de repartição Trabalhadores/Gestores ou Gestores/Proprietários Social - Existência de desequilíbrios na repartição do rendimento nacional
- Crise de legitimidade das formas de repartição devido às condições de formação de certos rendimentos
(7) Desequilíbrio entre consumo e poupança na procura nacional ou no próprio interior da estrutura de consumo Social - Bloqueios no acesso dos agentes nacionais aos bens de consumo e apoios da poupança.
- Incerteza grave sobre o futuro, criando um pico contextual na necessidade de financiamento.

No caso da França, os factores ditos "estruturais-técnicos" desempenham um papel evidente, assim como alguns dos factores sociais. É pois lógico que a taxa de inflação em França seja mais elevada do que em determinados países vizinhos. Os economistas do BCE afirmam há muito que a melhor taxa de inflação é a mais baixa possível. Sustentam este objectivo com a afirmação de que os agentes económicos não são minimamente sensíveis à ilusão nominal. Por outras palavras, que os agentes estão plenamente conscientes das modificações presentes e futuras dos preços de todos os produtos e de todos os activos, e que determinam a sua atitude em relação à sua riqueza real. Recordemos que era a mesma hipótese que um dos pais teóricos do Euro, Mundell, tinha mobilizado. Em meados dos anos 90, George Akerlof e os investigadores da Brookings Institution nos Estados Unidos demonstraram a persistência dessa ilusão nominal tão referida nos escritos monetaristas. [2] Isso levou-os a reconhecer que era necessária uma certa inflação para o desenvolvimento económico. Deduziram que a importância da rigidez resultante do sector real e das instituições económicas tinha consequências importantes sobre a taxa de inflação. Esta rigidez traduz a individualidade da trajectória social e histórica de cada país. [3] Ora, constata-se que, mesmo com uma política monetária uniforme (levada à prática pelo BCE), as diferenças de taxas de inflação entre os países da zona Euro não são negligenciáveis.

Tabela 2- Variação das taxas de inflação médias nos países da zona Euro

Média 2001-2007

Média 2007-2011
Áustria 1,7 1,4
Bélgica 2,2 1,7
Dinamarca 2,2 2,0
Finlândia 1,2 1,8
França 2,1 1,4
Alemanha 1,1 1,2
Grécia 3,2 2,7
Irlanda 3,2 -1,1
Itália 2,6 1,9
Luxemburgo 3,6 1,8
Países Baixos 2,6 1,4
Portugal 3,0 1,5
Espanha 4,1 1,4
Zona Euro 2,2 1,4
Total OCDE 2,6 1,8
Fonte : OCDE via J. Sapir, Faut-il sortir de l'Euro , Le Seuil, Paris, 2012.

Um estudo realizado sobre as dinâmicas da inflação nos países da zona Euro reveste-se aqui duma importância especial. [4] O trabalho de Christian Conrad e Menelaos Karanasos, com data de 2004, demonstra dois resultados essenciais. Primeiro, não há uma dinâmica única da inflação no seio da zona Euro e esta não influencia sempre negativamente o crescimento económico. Estamos na presença de dinâmicas diferenciadas e, em certos casos, a inflação aparece mesmo como necessária ao crescimento. Segundo, o trabalho deles mostra que a heterogeneidade dos sistemas produtivos e das estruturas sociais se reflecte nas dinâmicas monetárias. A moeda é um espelho, ou mesmo uma lente de aumentar, das dinâmicas do mundo real. Podemos pois pensar que uma taxa de inflação correspondente àquela a que chamamos inflação "natural", ou seja, uma taxa não penalizadora do crescimento e correspondente à maximização do crescimento potencial (com um "intervalo de crescimento" ou output gap nulo), seria para a França na ordem dos 3%, e isso sem um choque inflacionista exógeno.

Os factores de crescimento

É necessário determinar agora quais são os factores que influenciam mais o crescimento. O investimento, em capital fixo, em infra-estruturas, mas também na educação, determina globalmente o crescimento potencial máximo. O crescimento também é sensível, sabe-se, a uma sobrevalorização ou a uma desvalorização da moeda em relação às divisas dos países concorrentes (efeito de competitividade). Finalmente, está ligado a curto prazo à evolução da procura tanto no interior do país como no exterior. Mas estes diferentes factores são interdependentes. Uma subvalorização da moeda e o crescimento da procura interna aumentam o nível dos investimentos, o que se traduz depois de um certo prazo num aumento do potencial de crescimento a longo prazo. Inversamente, se a procura se contrai e se a taxa de câmbio é sobrevalorizada durante um período relativamente longo, isso arrasta uma baixa do investimento e portanto uma baixa do crescimento potencial. É de resto o que observamos actualmente em Espanha, em Itália e em França. Os factores sobre os quais podemos agir imediatamente são o valor da moeda e a procura. Diversos estudos feitos, em particular no INSEE, mostram que uma variação de 10% na taxa de câmbio (neste caso a taxa de câmbio do Euro) arrasta uma flutuação em sentido inverso do crescimento real de 0,6% no primeiro ano e de 1,2% no segundo ano. Há a tendência para considerar actualmente que estes números até estão subavaliados porque a procura interna está relativamente deprimida, o que aumenta a importância potencial da procura externa (as exportações).

Se supusermos, no quadro de uma saída do Euro, uma desvalorização do franco de 20% em termos reais, isso implica um crescimento suplementar de 1,2% no primeiro ano e de 2,4% no segundo ano. Mas a desvalorização implica também um choque inflacionista, que pode ser estimado, neste nível de desvalorização, em 5% no primeiro ano e em 3% no segundo ano. O ganho de competitividade assim conseguido pode ser mantido se o Banco da França adoptar uma política direccionada para uma taxa de câmbio de referência. Mas, para tal, serão certamente necessários controlos de capitais .

Movimentos da dívida em simulação

Vamos agora comparar as trajectórias da dívida seguindo, por um lado, as hipóteses do governo e, por outro lado, considerando a hipótese da saída do Euro. Na hipótese H1, supomos a saída do Euro, acompanhada por uma desvalorização de 28%. O impacto desta desvalorização sobre a dívida será limitado aos 14% desta última que estão sob contratos de direito estrangeiro. O défice [orçamental] é de 3,7% do PIB no primeiro ano, de 3,5% nos dois anos seguintes e de 3% no resto do período. O crescimento real é estimado em +1,2% no primeiro ano, +2,4% no segundo ano e mantém-se em 2% nos anos seguintes. Isto provavelmente é pessimista, porque subavalia o impacto do choque de competitividade na economia francesa. Adoptemos então uma hipótese H1' que tem em conta um efeito positivo mais importante da desvalorização sobre o crescimento e uma taxa de crescimento residual de 2,3% no final do período. Quanto à taxa de inflação supõe-se que ela se mantém constante em 3% por ano (taxa natural) à qual se junta um choque de 5% no primeiro ano e de 3% no segundo ano para ter em conta os efeitos da desvalorização. Supõe-se que o Banco de França deixa deslizar cerca de 2% por ano o valor do franco durante dois anos para manter o efeito positivo da desvalorização.

Na hipótese H0, o défice atinge 3,7% no primeiro ano, 3,5% nos dois anos seguintes e seguidamente estabiliza em 3% do PIB. O crescimento é nulo no primeiro ano (o que actualmente parece ser optimista), depois é igual a 0,5% nos três anos seguintes e a 1% no resto do período. A taxa de inflação é de 1,4% ao ano o que corresponde à média do período 2007-2011. Segundo esta hipótese, o endividamento da França continua a aumentar.

Constata-se no gráfico 1 a divergência das trajectórias. Aquela que corresponde às hipóteses do governo mostra-se incapaz de travar o movimento da dívida. Quando muito, atrasa-o. As hipóteses H1 e H1' permitem verificar ao longo de 10 anos o decrescimento do peso da dívida relativamente ao PIB e isso sem ter em conta hipóteses especiais sobre a dimensão do défice.

A evolução do défice orçamental

Constatamos que seria possível atingir um decrescimento da dívida expressa em percentagem do PIB sem mobilizar novas hipóteses quanto ao défice orçamental e sem aplicar à França um choque fiscal demasiado forte. Mas se observarmos as receitas, as despesas e os benefícios fiscais e parafiscais, constata-se que:

(i) Há cerca de 75 mil milhões (3,75% do PIB) em "nichos fiscais" diversos. Uma série deles estão ligados à necessidade de a França compensar o seu diferencial de competitividade com os outros países. No caso de uma forte desvalorização, uma parte destes nichos fiscais torna-se supérflua. O ganho estimado é de 25 mil milhões de Euros (orçamento de 2012), ou seja, de 1,25% do PIB.

(ii) O crescimento implica automaticamente uma subida das receitas fiscais (em especial via IVA). A diferença entre o crescimento na hipótese H0 e a hipótese H1 é em média de 1,5 pontos do PIB para os primeiros 4 anos e de 1 ponto para os anos seguintes. Isso implica um ganho de 0,67 pontos do PIB em receitas suplementares nos primeiros 4 anos e de 0,45 pontos do PIB nos anos seguintes.

(iii) Com o regresso a um crescimento superior a 1,5%, como se simulou nas trajectórias H1 e H1', observa-se uma descida do desemprego e portanto uma baixa dos encargos ligados aos subsídios de desemprego. A recuperação desses encargos pelas empresas e assalariados poderá ser equivalente a 0,2% de crescimento suplementar a partir do terceiro ano.

Chegamos pois, no quadro da hipótese H1 a um crescimento suplementar e a receitas de 1,92 pontos do PIB para os primeiros quatro anos [isto é, 1,25 da alínea i, mais 0,67 de ii] e de 1,7 pontos para os anos seguintes. Se aplicarmos estas vantagens na trajectória H1, chamando H2 à nova trajectória, constata-se uma baixa muito mais acentuada do peso da dívida pública.

Conclusão

Não há qualquer necessidade de considerar hipóteses extremas do ponto de vista das receitas e das despesas fiscais para obter uma baixa do peso da dívida pública. A variável principal é o crescimento nominal. Deste ponto de vista, uma saída do Euro acompanhada por uma forte desvalorização dá já resultados importantes. Se juntarmos a esta hipótese o efeito fiscal do crescimento reencontrado, supondo ajustamentos marginais (1/3 dos "nichos fiscais), os efeitos, bem entendido, multiplicam-se. Podemos assim fazer baixar a dívida pública para menos de 65% do PIB sem exigir sacrifícios suplementares aos contribuintes e diminuindo o desemprego.
1. Jacques Sapir, Inflation monétaire ou inflation structurelle? Un modèle hétérodoxe bi-sectoriel, FMSH-WP-2012-14, juin 2012. URL: http://russeurope.hypotheses.org/61
2. G. A. Akerlof, W. T. Dickens et G. L. Perry, "The Macroeconomics of Low Inflation" in Brookings Papers on Economic Activity, n°1/1996, pp. 1-59.
3. B.C. Greenwald e J. E. Stiglitz, "Toward a Theory of Rigidities" in American Economic Review, vol. 79, n°2, 1989, Papers and Proceedings, pp. 364-369. J.E. Stiglitz, "Toward a general Theory of Wage and Price Rigidities and Economic Fluctuations" in American Economic Review, vol. 79, n°2, 1989, Papers and Proceedings, pp. 75-80.
4. C. Conrad e M. Karanasos, "Dual Long Memory in Inflation Dynamics Across Countries of the Euro Area and the Link between InflationUncertainty and Macroeconomic Performance", Studies in Nonlinear Dynamics & Econometrics, vol. 9, n°4, nov. 2005 (publicado por The Berkeley Electronic Press e consultável em http://www.bepress.com/snde )
10/Fevereiro/2013
Do mesmo autor em resistir.info:
Flexibilidade e desvalorização interna: Ideias perigosas na moda , 24/Jan/13

[*] Doctorat d'État em economia, autor de Faut-il sortir de l’euro? e de La Démondialisation . Actualmente dirige o Centre d'Études des Modes d'Industrialisation (CEMI-EHESS).

O original encontra-se em http://russeurope.hypotheses.org/855 . Tradução de Margarida Ferreira.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

Link permanente 20:54:45, por José Alberte Email , 1797 palavras   Português (GZ)
Categorias: Ensaio

CANTA O MERLO: A necessária saída da zona euro

– Ler Sapir para entender porque é preciso sair

por João Carlos Graça [*]

http://www.resistir.info/europa/ler_sapir_26fev13.html

Ler Jacques Sapir – o "indispensável" Jacques Sapir, como lhe chama, e bem, o João Rodrigues nos Ladrões de Bicicletas – constitui cada vez mais uma forma de "lavar a alma", permitindo-nos ver um pouco mais além daquilo que as viseiras estreitas do europeísmo, incluindo o "europeísmo de esquerda", nos autorizam e se autorizam. Para não ser repetitivo em relação ao que já escreveu Octávio Teixeira , permitam-me que trate agora de sublinhar, no artigo do Sapir publicado por resistir.info :

1) A assunção, da escola dita das "expectativas racionais", em que está fundada a União Económica e Monetária (UEM). Ou seja, e nas palavras de Sapir: "Os economistas do BCE afirmam há muito que a melhor taxa de inflação é a mais baixa possível. Fundam este objetivo na afirmação de que os agentes económicos não seriam de todo sensíveis à ilusão nominal. Por outras palavras, que os agentes estariam plenamente conscientes das modificações presentes e futuras dos preços de todos os produtos e de todos os ativos, e que determinariam a sua atitude reportando-se à sua riqueza real".

Deve destacar-se que, para além de profundamente irrealista, esta assunção é quintessencialmente constitutiva da oposição de direita ao keynesianismo, ou ao Estado social. Trata-se de reaganomics em estado puro: Robert Lucas, Robert Barro e afins, os restauradores "água doce" da ortodoxia neoclássica na mainstream economics, e assumidamente à custa do keynesianismo. Face a isto, e desde logo, a presença mesmo de uma "oposição de esquerda" adentro do "europeísmo realmente existente" torna-se de todo em todo irrelevante. Noutros termos, os economistas do Bloco de Esquerda e do Syriza, precisamente em virtude do seu "europeísmo" (e mesmo sendo ele oficialmente "crítico"), estão constitucionalmente à direita e mesmo muito à direita de Lord Keynes.

Isto não é um acidente de percurso. Não estamos perante um "oops!", uma coisa que até teria sido bem-intencionada, apenas depois um pouco menos bem esgalhada na prática. Não se trata aqui do dito de que "de boas intenções está o Inferno cheio", de que "a vida é bela, os homens é que dão cabo dela", ou coisa semelhante. Não, nada disso! O "projeto europeu" é, já ao nível mesmo das intenções conscientes, um projeto constitucionalmente visando comprimir o montante da intervenção estatal na economia, o nível geral da incidência fiscal, a progressividade desta e, naturalmente, junto com tudo isso, também o nível dos salários. É um projeto não de "salários mínimos" internacionais, ou transnacionais, mas pelo contrário de "plafonamento" dos salários, de compressão e indução generalizada da baixa destes. É também um projeto de "plafonamento do Estado", de compressão da intervenção económica deste último através da concorrência fiscal, e naturalmente de ampliação da esfera dita "do mercado", isto é, dos lucros, e sobretudo dos lucros financeiros. A "Europa social" nunca acontecerá! – como aliás parece ter compreendido bem o João Rodrigues (aqui) .

2) Depois, vale também a pena destacar, no artigo do Sapir , a noção da importância dos "efeitos em cascata" nos processos de crescimento, e em particular a do investimento. O crescimento, "Finalmente, está ligado a curto prazo à evolução da procura tanto no interior do país como no exterior. Mas estes diferentes fatores são interdependentes. Uma subvalorização da divisa e um aumento da procura interna vão aumentar o nível dos investimentos, o que vai traduzir-se depois de um certo período num aumento do potencial de crescimento a longo prazo".

Este aspeto merece ser sublinhado. O Eugénio Rosa, por exemplo, tem toda a razão ao enfatizar, em artigo no resistir.info , a importância do afundar do investimento na nossa evolução económica. Mas note-se que um dos "cancros" da nossa adesão ao Euro foi precisamente a quebra da FBCF, "formação bruta de capital fixo", na primeira década do século XXI. A baixa produtividade do nosso trabalho, obviamente (mas não é demais repetir), não é "mandrionice" dos nossos assalariados: é afundamento continuado da FBCF, com os recursos entretanto a fugirem sistematicamente para os sectores ditos "não-transacionáveis" (construção civil, restauração, sector financeiro…), ou seja, não sujeitos à concorrência internacional, e por isso sofrendo menos com a sobrevalorização cambial de que toda a economia portuguesa tem sido continuadamente vítima.

Tudo isso, ainda por cima, agravado pela orientação "rent-seeker" dos nossos patrões e dos nossos gestores, a qual entre outras coisas impede políticas visando, por exemplo, a redução do nosso défice energético, antes as reforça. Mas para tal, notemo-lo aqui também, seria preciso haver políticas económicas ativas neste país, políticas discricionárias, visando fazer o que o legislador ou o decisor político querem, não o que "o mercado" (mais ou menos "espontaneamente") prefere. Ora isso, também isso, ou sobretudo isso, leva a um conflito direto com outra das vacas sagradas da "construção europeia": a noção de que deve ser "o mercado" a decidir, não os políticos, não os eleitos pelos povos.

De resto, a própria noção "maastrichtiana" de que o défice orçamental deve ser tão reduzido quanto possível, visando uma inflação tão baixa quanto possível, para além de estar assente no pressuposto de que os tais "agentes racionais", face a uma inflação nula, procederiam da melhor maneira imaginável (o que, para além de grotescamente irrealista, é também manifestamente falso), assume igualmente, e de forma muitíssimo arrogante, que os bancos centrais estão e devem estar ao-abrigo-de-eleições; devem ser "independentes" no sentido de que não devem depender do sufrágio popular, o qual é explicitamente, para a mainstream economics (em particular, neste caso, a chamada escola da "teoria da escolha pública"), um estorvo a evitar, a contornar e, quando as outras opções forem inviáveis, a suprimir. Quanto a isto, atentar na arrepiante confissão cândida de Jacques Nikonoff, no debate com Annie Lacroix-Riz, aos minutos 1:03 e seguintes (ver aqui ). Há decerto muito a debater quanto à natureza social e nacional da "construção europeia"; aliás, ver também, de Annie Lacroix-Riz ( aqui ). Mas que um político oficialmente "de esquerda", um membro fundador e dirigente da ATTAC, como Nikonoff, assuma isto com esta tranquilidade constitui já, em si mesmo, um facto bastante perturbador e inquietante…

Dado que a trajetória em Portugal, já ao longo de toda a primeira década de vida do Euro (e não apenas nestes últimos anos de crise manifesta), foi a de dar cabo da chamada FBCF, e agora, como resultado da suposta terapia que seriam as medidas de "austeridade", é também a de dar cabo da procura efetiva global, com a produção dum tremendo "desemprego keynesiano" nos últimos meses (desemprego diretamente por falta de procura interna, ao que as exportações já não conseguem compensar, menos ainda estando nós amarrados ao Euro e com os outros europeus também a patinarem), estamos mesmo a seguir o rumo oposto em 180 graus ao que o Sapir sugere.

Em suma, estamos numa trajetória perigosíssima de "efeitos de bola de neve", de "causalidade circular cumulativa", ou em espiral, mas para baixo. Se saíssemos melhoraríamos sem dúvida a nossa situação. Ah, mas praticaríamos então uma desvalorização competitiva que seria danosa para os demais europeus, como alguns argumentam? Não! Nem isso, dado que, como Mark Weisbrot sublinha (ver infra), pelo caminho atual, lesando-se cada um a si mesmo, a verdade é que também estamos ipso facto a lesar os outros, porque cada país gera menos procura para os produtos dos demais.

Depois disso lá vem a tropa do costume (FMI, BCE, Comissão Europeia e tutti quanti ) dizer que "descobriu" que o "multiplicador da despesa pública", afinal, é não 0,5, mas 1,5. Dito de outro modo, por cada 100 unidades que o Estado gasta a menos, ou cobra a mais de impostos (ou um "mix" disso), supostamente para combater o défice orçamental, "consolidar as finanças públicas", etc., há um resultado que consiste em 150 unidades de PIB a menos. Se a isso aplicarmos uma taxa de incidência fiscal de 40 por cento, temos que o Estado, mantendo constante o quadro da fiscalidade, vai ter 60 unidades de receita fiscal a menos no período subsequente. Dito de outro modo: a maior parte do próprio resultado orçamental direto da terapia "austeritária" foge pelo ralo dos efeitos deprimentes que isso tem sobre o nível da atividade económica. A realidade económica, se se quiser, é de facto muito mais "keynesiana" do que "neoclássica". Mas muita atenção, que esse pessoal, ao contrário do que proclama, não "descobriu" nada, de facto soube-o ou deve tê-lo calculado desde o princípio, mas fez que não sabia. Essa malta não é parva; faz é de nós parvos, que é coisa diferente. E assim continuaremos, para falar com franqueza, enquanto continuarmos no Euro, e com medo de lá sair...

Face a isso, tem completamente razão Mark Weisbrot ao comparar (ver aqui ) o destino da Argentina, que "desdolarizou" e desvalorizou, e muito bem, com o da Grécia, e o nosso, continuando ligados ao Euro, e sendo pois empurrados, pela lógica da respetiva ação constritora, para o caminho da chamada "desvalorização interna": a inexorável "desvalorização interna" que está não só a destruir a vida dos assalariados e dos pensionistas dos países europeus periféricos, mas em boa verdade a destruir os países periféricos na sua totalidade, enquanto tais, enquanto sociedades politicamente organizadas, como estados-nação soberanos, etc., para além de, bem entendido, lesar os interesses dos próprios assalariados dos países centrais. (Mark Weisbrot depois equivoca-se, sim, ao atribuir ao Syriza uma atitude de mera prudência, ou de simples "pausa pedagógica", que lhe evitaria afastar-se demasiado da opinião maioritária dos eleitores gregos. Nesse ponto, é o próprio Weisbrot que é vítima duma ilusão. Mas esse é outro assunto. Quanto a isso, ver o meu comentário aqui .

E nisso, nessa trajetória de "desvalorização interna", sejamos claros duma vez por todas, são responsáveis, objetiva ou subjetivamente, são cúmplices, objetiva ou subjetivamente: já não apenas os partidos do "arco da Troika", todos eles (mais carta, menos carta) explicitamente "no bolso de Don Corleone", mas até mesmo (embora apenas passivamente) as oposições genuínas. E refiro-me quanto a isso aos que, seja por "europeísmo de esquerda" opiáceo-alucinado, como acontece com o BE, seja por conduta titubeante e evasiva, como aparentemente acontece com o próprio PCP, evitam apontar à opinião pública aquilo que são os traços fundamentais do diagnóstico que importa fazer. Diagnóstico que inclui antes de mais, numa caminhada para a qual importa construir consensos que rapidamente se tornem maioritários na sociedade portuguesa: sair do Euro e recuperar a nossa soberania monetária.

Trata-se de um projeto eminentemente popular, porque corresponde aos interesses da esmagadora maioria da população portuguesa; e eminentemente patriótico, porque na verdade se trata basicamente de salvar Portugal: de resgatar Portugal, reconciliando-o consigo mesmo.

Depois disso haverá decerto um oceano de problemas a resolver, de questões a debater. Claro que sim. Mas cada coisa de sua vez, e em tempo próprio. A vida é mesmo assim. Só nos cemitérios é que não há problemas e questões à nossa espera.
[*] Economista e sociólogo, jogra1958@netcabo.pt

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

27-02-2013

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CANTA O MERLO: Ferrín

Escassamente tinha dezoito anos quando encetei a minha andadura nos eidos da resistência cultural contra o nacional-catolicismo (franquismo) em parelho na política clandestina contra o mesmo; nessas regas conhecim a Ferrin. Ainda que nom estivemos militando na mesma organizaçom sempre mantivemos a nossa amizade e contactos abertos pola emancipaçom das classes populares galegas e a cultura galega. Assim quando estivo na cadeia no Penal de Santoña... e em outros que-fazeres da clandestinidade. Hoje, eu estou na corrente reintegracionista; Ferrin nom, mas o seu manantio segue a regar a Nossa Terra e a sua cultura, porque como vem dim os crioulos do Caribe, ninguém tem a deus agarrado polas bolas, e o importante nom é a tua nacente senom que as tuas augas construam o grande Orinoco. E a conduta cívica, política, e cultural de Ferrin ao longo da sua existência ajudárom e ajudam a construir a emancipaçom de Nós como povo e cultura, e a sua demissom como Presidente da Academia Galega é umha peja na nossa liberaçom como Naçom.

24-02-2013

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Categorias: Dezires

CANTA O MERLO: "O rei conhecia o golpe do 23F com antelaçom e brindou com champanha"

http://www.larepublica.es/2013/02/el-rey-conocia-el-golpe-del-23f-con-antelacion-y-brindo-con-champan/

"O rei conhecia o golpe do 23F com antelaçom e brindou com champanha"

Segundo o senador do PNV Iñaki Anasagasti, citando as supostas memórias de Sabino Fernandez Campo (entom Secretário da Casa do Rei), Juan Carlos I conhecia com antelaçom que se ia a produzir um golpe de estado o 23 de Fevereiro de 1981 e, aos poucos minutos de conhecer-se o assalto ao Congresso dos Deputados, chegou a brindar com champanha junto aos seus familiares.

Segundo estes "recordos" de Fernández Campo desvelados agora polo parlamentar basco, foi o secretário geral dela Casa do Rei quem aconselhou ao Monarca de que devia condenar com rotundidade a tentativa que encabeçaram Alfonso Armada, Jaime Milans do Bosch e Antonio Tejero Molina, porque, ao invés, a Monarquia voltaria a desaparecer de Espanha.

Segundo este relato, que contradiria absolutamente a versom conhecida até agora daqueles acontecimentos, Fernández Campo quase chegou a gritar a Juan Carlos para que se desse conta da gravidade da situaçom: "Senhor!" Está vostede tolo" Estamos ao bordo do precipício e vostede brindando com champanha Senhor!, nom se dá conta de que a Monarquia está em perigo" Nom se dá conta que pode ser o final do seu reinado" Lembre o que lhe passou ao seu avô!!!"

17-02-2013

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Categorias: Ensaio

CANTA O MERLO: O Vaticano-A Corte do crimem e a corrupçom

Eduardo Febbro
Página/12

http://www.pagina12.com.ar/diário/elmundo/4-213961-2013-02-16.html

As verdadeiras razons da renúncia do papa Benedito XVI: Corrupçom, lavagem de dinheiro e as luitas internas mais ferozes

Um relatório elaborado por três cardeais terminou-o de convencer de que era impossível limpar o Vaticano, onde até a Cosa Nostra guarda os seus fundos. A abdicaçom como maneira de sacudir o tabuleiro na Igreja.

Os experto vaticanistas alegam que o papa Benedito XVI decidiu renunciar em Março do ano passado, depois de regressar da sua viagem a México e a Cuba. Nesse entom, o Papa que encarna o que o especialista e universitário francês Philippe Portier chama "umha continuidade pesada" com o seu predecessor, Joám Paulo II, descobriu a primeira parte de um informe elaborado polos cardeais Julián Herranz, Jozef Tomko e Salvatore de Giorgi. Ali estavam resumidos os abismos nada espirituais nos que caíra a Igreja: corrupçom, finanças escuras, guerras fratricidas polo poder, roubo maciço de documentos secretos, pugna entre facçons e lavagem de dinheiro. O resumo final era a "resistência na cúria à mudança e muitos obstáculos às acçons pedidas polo Papa para promover a transparência".

O Vaticano era um ninho de hienas excitadas, um pugilato sem limites nem moral algumha onde a cúria faminta de poder fomentava denúncias, traiçons, cambadelas, lavagem de dinheiro, operaçons de Inteligência para manter as suas prerrogativas e privilégios à frente das instituiçons religiosas e financeiras. Muito longe do céu e muito perto dos pecados terrestres. Baixo o mandato de Benedito XVI, o Vaticano foi um dos Estados mais escuros do planeta. Josef Ratzinger tivo o mérito de destapar o imenso buraco negro dos curas pedófilos, mas nom o de modernizar a Igreja e dar volta a página do legado de assuntos turvos que deixou o seu predecessor, Joám Paulo II.

Esse primeiro relatório do três cardeais desembocou, em agosto do ano passado, na nomeaçom do suíço René Brülhart, um especialista em lavagem de dinheiro que dirigiu durante oito anos a Financial Intelhigence Unit (FIU) du Liechtenstein, ou seja, a agência nacional encarregado de analisar as operaçons financeiras suspeitas. Brülhart tinha como missom pôr ao Banco do Vaticano em sintonia com as normas europeias ditadas polo GAFI, o grupo de acçom financeira. Desde logo, nom o pode fazer. O passado turvo fechou-lhe o passo.

Benedito XVI foi, como o assinala Philippe Portier, um continuador da obra de Joám Paulo II: "Desde 1981 seguiu o reino do seu predecessor acompanhando vários textos importantes que ele mesmo redigiu às vezes, como a Condenaçom das teologias da libertaçom dos anos 1984-1986, o Evangelium Vitae de 1995, adrede da doutrina da Igreja sobre temas da vida, ou Splendor Veritas, um texto fundamental redigido a quatro maos com Woxtyla". Estes dous textos citados polo experto francês som um compendio prático da visom reaccionária da Igreja sobre as questons políticas, sociais e cientistas do mundo moderno.

A segunda parte do relatório do três cardeais foi-lhe apresentada ao Papa em Dezembro. Desde entom, a renúncia expós-se de forma irrevogável. Em pleno marasmo e com umha cheia de corredores que conduziam ao inferno, a cúria romana actuou como o faria qualquer Estado. Buscou impor umha verdade oficial com métodos modernos. Para isso contratou ao jornalista norte-americano Greg Burke, membro do Opus Dei e ex membro da agência Reuters, a revista Time e a corrente Fox. Burke tinha por missom melhorar a deteriorada imagem da Igreja. "A minha ideia é achegar claridade", falou Burke ao assumir o posto. Demasiado tarde. Nada há de claro na cima da Igreja católica.

A divulgaçom dos documentos secretos do Vaticano orquestrada polo mordomo do papa, Paolo Gabriele, e muitas outras maos invisíveis foi umha operaçom sabiamente montada cujos recursos seguem sendo misteriosos: operaçom contra o poderoso secretário de Estado, Tarcisio Bertone, conspiraçom para empurrar a Benedito XVI à renúncia e pôr a um italiano no seu lugar, ou tentativa de frear a purga interna em curso e a avalanche de segredos, os vatileaks mergulharam a tarefa limpadora de Burke. Um inferno de paredes pintadas com anjos nom é fácil de redesenhar.

Benedito XVI foi esmagado polas contradiçons que ele mesmo suscitou. Estas som tais que, umha vez que fixo pública a sua renúncia, os tradicionalistas da Fraternidade de Som Pio X fundada por monsenhor Lefebvre saudaram a figura do Papa. Nom é para menos: umha das primeiras missons que empreendeu Ratzinger consistiu em suprimir as sançons canónicas adoptadas contra os partidários fascistoides e ultrarreaccionarios de monsenhor Lefebvre e, por conseguinte, legitimar no seio da Igreja essa corrente retrógrada que, de Pinochet a Videla, soubo apoiar a quase todas as ditaduras de ultradereita do mundo.

Philippe Portier assinala a respeito disso que o Papa "deixou-se exceder pola opacidade que se instalou sob o seu reino". E a primeira delas nom é doutrinal, senom financeira. O Vaticano é um tenebroso gestor de dinheiro e muitas das querelas que se destapárom no último ano tem que ver com as finanças, as contas maquilhadas e as operaçons ilícitas. Esta é a herança financeira que deixou Joám Paulo II e que para muitos especialistas explica a crise actual. O Instituto para as Obras de Religiom, é dizer o banco do Vaticano, fundado em 1942 por Pio XII, funciona com umha escuridade tormentosa. Em Janeiro, a pedido do organismo europeu de luta contra o branqueio de dinheiro, Moneyval, o Banco da Itália bloqueou o uso das cartas de crédito dentro do Vaticano devido à falta de transparência e a falha-las manifestas no controlo de lavagem de dinheiro. Em 2011, o cinco milhons de turistas que visitaram a Santa Sé deixaram 93,5 milhons de euros nas caixas do Vaticano, agora deverám pagar em mao. O IOR gere mais de 33.000 contas polas que circulam mais de seis mil milhons de euros. A sua opacidade é tal que nom figura na "lista branca" dos Estados que participam no combate contra as transacçons ilícitas.

Em Setembro de 2009, Ratzinger nomeou ao banqueiro Ettore Gotti Tedeschi à frente do Banco do Vaticano. Próximo do Opus Dei, representante do Banco de Santander na Itália desde 1992, Gotti Tedeschi participou na preparaçom da encíclica social e económica Caritas in veritate, publicada polo Papa em Julho. A encíclica exige mais justiça social e expom regras mais transparentes para o sistema financeiro mundial. Tedeschi tivo como objectivo ordenar as turvas águas das finanças vaticanas. As contas da Santa Sé som um labirinto de corrupçom e lavagem de dinheiro cujos origens mais conhecidas remontam-se a finais dos anos "80, quando a justiça italiana emitiu umha ordem de detençom contra o arcebispo norte-americano Paul Marcinkus, o chamado "banqueiro de Deus", presidente do Instituto para as Obras da Religiom e máximo responsável polos investimentos vaticanos da época.

Marcinkus era um adepto aos paraísos fiscais e muito amigo das máfias. Joám Paulo II usou o argumento da soberania territorial para evitar a detençom e salvar do cárcere. Nom estranha, devia-lhe muito, xá que nos anos "70 e "80 Marcinkus utilizara o Banco do Vaticano para financiar secretamente ao filho predilecto de Joám Paulo II, o sindicato polonês Solidariedade, algo que Woxtyla nom esqueceu jamais. Marcinkus terminou os seus dias jogando ao golfe em Arizona e no meio ficou um gigantesco buraco negro de perdas (3,5 mil milhons de dólares), investimentos mafiosos e também vários cadáveres

O 18 de Junho de 1982 apareceu um cadáver aforcado na ponte londrina de Blackfriars. O corpo pertencia a Roberto Calvi, presidente do Banco Ambrosiano e principal sócio do IOR. O seu aparente suicídio correu o lenço de umha imensa trama de corrupçom que incluía, ademais do Banco Ambrosiano, a logia massónica Propaganda 2 (mais conhecida como P-2), dirigida por Licio Gelli, e o mesmo Banco do Vaticano dirigido por Marcinkus. Gelli refugiou-se um tempo na Argentina, onde já operara nos tempos do general Lanusse mediante um operativo chamado "Gianoglio" para facilitar o retorno de Perón.

A Gotti Tedeschi encomendou-se-lhe umha missom quase impossível e só permaneceu três anos à frente do Instituto para as Obras de Religiom. Foi despedido de forma fulminante em 2012 por supostas "irregularidades na sua gestom". Entre outras irregularidades, a promotoria de Roma descobriu um giro suspeito de 30 milhons de dólares entre o Banco do Vaticano e o Credito Artigiano. A transferência fizo-se desde umha conta aberta no Credito Artigiano mas bloqueada pola Justiça por causa da sua falta de transferência. Tedeschi saiu do banco poucas horas depois de que se detivesse ao mordomo do Papa e justo quando o Vaticano estava a ser investigado por suposta violaçom das normas contra o branqueio de capitais. Em realidade, a sua expulsom constitui outro episódio da guerra entre facçons. Em canto fizo-se cargo do posto, Tedeschi começou a elaborar um relatório secreto onde consignou o que foi descobrindo: contas cifradas onde se escondia dinheiro suxo de "políticos, intermediários, construtores e altos funcionários do Estado". Até Matteo Messina Denaro, o novo chefe da Cosa Nostra, tinha o seu dinheiro no IOR. Ali começou o infortúnio de Tedeschi. Quem conhecem bem o Vaticano alegam que o banqueiro amigo do Papa foi vítima de um complô armado por conselheiros do banco com o respaldo do secretário de Estado, monsenhor Bertone, um inimigo pessoal de Tedeschi e responsável pola comissom cardinalicia que vigia o funcionamento do banco. A sua destituiçom veio acompanhada pola difusom de um "documento" que o vinculava com a fuga de documentos roubados ao Papa.

Mais que as querelas teológicas, é o dinheiro e as suxas contas do Banco do Vaticano o que parecem compor a trama da inédita renúncia do Papa. Um ninho de corvos pedófilos, complotistas reaccionários e ladrons, sedentos de poder, impunes e capazes de todo com tal de defender a sua facçom, a hierarquia católica haver deixado umha imagem terrível do seu processo de descomposiçom moral. Nada muito diferente ao mundo no que vivemos: corrupçom, capitalismo suicida, protecçom dos privilegiados, circuitos de poder que se auto-alimentam e protegem, o Vaticano nom é mais que um reflexo pontual da própria decadência do sistema.

23-01-2013

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Categorias: Dezires

CANTA O MERLO: Reino Boubónico-A lei para o parvo e o cárcere para o pobre

http://www.larepublica.info/

Ramón Jorge Rios Salgado, o “kamikaze” foi indultado polo ministro de Justiça do Reino Boubónico, A. Ruiz Gallardón O PP impediu ontem com os seus votos que o ministro de Justiça, Alberto Ruiz Gallardón, explicasse esta medida no Congresso.

Rios Salgado foi condenado a treze anos de prisom por causar a morte em Dezembro de 2003 a José Dolz Espanha, de 25 anos, e graves ferimentos à jovem que lhe acompanhava, ao estrelar o seu carro contra o do casal trás circular durante cinco quilómetros em sentido contrário por umha auto-estrada valenciana.

Gallardón, mudou esta pena por umha coima de 4.380 euros, que terá que pagar a razom de seis euros diários durante dous anos. Ante a indignaçom que causou o indulto, o Governo está molesto com a medida adoptada pelo seu ministro de Justiça.

O indultado foi defendido polo bufete de advogados no que trabalha o filho de Gallardón, um dos gabinetes mais caros do país e inacessível para a imensa maioria dos mortais. Ademais, o seu advogado defensor Esteban Artarloa, irmao do que fosse secretário de Estado de Segurança com Aznar, Ignacio Astarloa.

19-01-2013

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CANTA O MERLO: Sair do euro, a melhor opção

http://www.resistir.info/europa/sair_do_euro_pmontes.html

por Pedro Montes [*]
entrevistado por Miguel Riera

Entre os economistas começam a ouvir-se vozes que apresentam o abandono da moeda única como a única saída realista – e dolorosa – para a crise. Pedro Montes foi um dos primeiros, senão o primeiro, a advertir das graves consequências que a Espanha enfrentaria após a adopção do euro e a forma exclusivamente mercantil com que se estava a construir a União Europeia. Está à vista que a Europa constitui o nó da questão da complexa crise espanhola. Esta entrevista tem um carácter polémico, mas muito necessário.

Há anos, numa entrevista publicada na revista El Viejo Topo, assegurou que a Espanha se encaminhava ou para o caos ou para a catástrofe. Naquela época, num artigo, também utilizava a expressão "beco sem saída". Pergunto o que pensa agora a respeito. Caos, catástrofe, ou beco sem saída?

Não fazem tantos anos, Miguel, foi em Março de 2010. O que acontece é que a crise económica é voraz e anda muito depressa. Tentei dizer naquela ocasião que, tendo em conta a evolução da economia espanhola após a criação do euro, quando já se havia incorrido num défice enorme da balança de pagamento em conta corrente e, portanto, havia-se acumulado uma dívida externa insustentável, o país enfrentava um dilema: ou se mantinha no euro e encaminhava-se para o desastre ou assumia o passo convulsivo de se desligar da moeda única. Caos e catástrofe, ou catástrofe e caos. Dizer então que o país se encontrava num beco sem saída era uma forma de destacar a situação angustiante. É claro que as sociedades sempre encontram uma saída, por dramáticas que por vezes possam ser as soluções. O dilema continua em vigor, mas o seu carácter peremptório é mais agudo e agora tudo se clarificou. Em Maio de 2010, como toda gente sabe, Zapatero deu uma guinada radical na sua política, com cortes e ajustes, um reforma laboral e a frágil reforma das pensões, que contou, não se deve esquecer, com o apoio das direcções das Comisiones Obreras (COO) e da UGT. Posteriormente, e apenas em poucos meses, burlando os cidadãos, o governo do PP empreendeu um conjunto de reformas que, além de acentuar a política do PSOE, são de uma agressividade, poder-se-ia dizer crueldade, que dinamitaram o pacto social surgido da transição após a morte do ditador. Sobreveio um desastre económico, social e também político, de modo que a disjuntiva neste momento é se continuamos directos pelo caminho para o inferno, a Grécia já está nele, ou recuperamos uma moeda própria e um banco central próprio para enfrentar a crise. A UE traçou-nos uma rota sinistra que se a aceitássemos isso implicaria uma espécie de suicídio colectivo.

Vamos por partes. Parece evidente que as forças políticas maioritárias (para não dizer todas, porque ainda não se ouve nenhuma delas exigir a saída do euro) estão [dispostas] a engolir o que haja a engolir para se manter na moeda única. Se finalmente se decidir continuar na eurozona, que futuro fica reservado aos espanhóis? Quantos anos de sofrimento nos esperam?

Com efeito, há muitos dados, declarações e factos – não esqueçamos a nocturna e infame reforma da Constituição – que deixam assente que tanto o PP como o PSOE consideram o euro como irreversível, o que constitui o fundamento da estratégia política que seguem. É o acordo básico que compartilham entre si, ao qual se somam sem restrição alguma – fora das manobras políticas diante de tal ou qual assunto – a CiU e o PNV. A partir daí entramos num grande problema político: a posição da esquerda diante do dilema da crise. E digo da esquerda nela incorporando os sindicatos maioritários.

Nosso país não pode sobreviver no euro e, independentemente do que queira o centro direita e pense a maioria da esquerda e muitos dos seus dirigentes, a desvinculação da moeda única é inexorável.

Não se deram conta do que implicava, económica e socialmente, a moeda única e continuam sem querer saber as consequências que terá. Vivem a pensar que a crise actual é um acidente que terá pronto remédio, que o passado voltará e que tudo o que é necessário é aplicar-lhe um bocadinho de política social à política económica estrita necessária para diminuir o défice público, como se isso fosse a questão fundamental. A Izquierda Unida, que teve a honra de se opor a Maastricht com um debate muito dilacerador no seu seio, defende agora uma saída progressista para a crise. Mas permanece sem resposta, como aconteceu no debate da investidura, quando Rajoy contestou que está bem, mas que os investidores estrangeiros não nos emprestavam dinheiro se não efectuassem ajustes e recortes. Se a saída progressista da crise, que também desejam os sindicatos, fosse possível e simples de praticar, alguém pensa que o PSOE não a teria aplicado? E inclusive o PP, ainda que neste caso seja preciso introduzir outras considerações políticas? As perspectiva, do meu ponto de vista, são muito negras, ao ponto de que chegue a escrever um artigo afirmando que a crise ainda não começou.

Pois...

Estamos não à beira e sim a cair por um precipício cuja profundidade não se conhece. Não é possível fazer prognóstico sobre o tempo, de modo que todos os anúncios de rebentos verdes são mentira. Pois bem, tenho a convicção de que o nosso país não pode sobreviver no euro e que, independentemente do que queira o centro direita e pense a maioria da esquerda e muitos dos seus dirigentes, a desvinculação com a moeda única é inexorável. Como e quando se verificará, não sei. Já deixei de discutir se a alternativa melhor da esquerda é procurar uma Europa que corrija os principais defeitos e carências de Maastricht. A unidade construída não é reformável e as consequências que comportou não são superáveis. O tempo, creio que em breve, dirimirá a questão.

Tentemos ver do ponto de vista dos que querem continuar no euro. Imaginemos que fosse possível. Qual seria o custo? No fim, há que pagar as dívidas... Quanto nos tocaria por cabeça?

O núcleo do problema é o endividamento de todos os agentes económicos, ou o seu alto "alavancamento", como também se diz. As famílias devem muito em relação ao seu rendimento disponível. As empresas têm uma relação muito desequilibrada entre o seu capital próprio e alheio. A banca tem muitas dívidas contraída e seus activos, muito ligados à habitação, solo e promotores estão sobrevalorizados, são muito ilíquidos, têm pouca rentabilidade e seus prazos de amortização estão desajustados ao calendário dos seus passivos. As instituições públicas não têm rendimentos suficientes para cobrirem seus gastos e os compromissos das dívidas que contraíram. E o país no seu conjunto, resultado dos grandes défices da balança de pagamentos e de uma actividade financeira global disparata, tem um passivo frente ao exterior que superar os 2,3 milhões de milhões de euros, isto é, quase 2,3 vezes o PIB.

E como chegámos a isso?

A origem desta situação tem a ver com o euro. Uma vez implantado e conectados aos mercados financeiros obtinha-se financiamento em torrente nos mercados internacionais e a taxas de juro muito baixas, uma vez que todas as emissões faziam-se numa moeda comum que não fazia distinções por países, pois já não havia que cobrir os riscos de desvalorização das moedas dos países mais fracos. As taxas de juros da dívida pública alemã e da dívida pública espanhola eram parecidas. Esta situação durou até a explosão da grande crise financeira internacional que desencadeou a quebra do banco de investimentos norte-americano Lehman Brothers. Durante esse tempo ninguém deu atenção a que se estavam a verificar desequilíbrios muito profundos nas relações económicas dos países euro e, portanto, que alguns deles estavam a acumular dívidas insustentáveis. Os mais iludidos, e houve muitos, chegaram a pensar que com o euro havia-se inventado algo maravilhoso: podia-se crescer e acumular défices porque com a moeda comum não havia problemas de financiamento.

Havia-se encontrado a lâmpada de Aladim...

Tudo mudou radicalmente com a crise financeira. Os canais de financiamento fecharam-se, os mercados deixaram de operar, do clima de euforia passou-se a outro tormentoso e a situação de cada agente económico e de cada país passou a ser examinada à lupa. Os prémios de risco da dívida soberana dos países do euro começaram a ampliar-se, dependendo da solvência que os mercados atribuíam a cada um deles. E, naturalmente, os mais endividados tiveram a existência complicada, uma vez que lhes foi encarecido brutalmente o financiamento. Tudo é conhecido, Grécia, Portugal, Irlanda... Espanha. Há um momento na dívida dos devedores em que a dívida os devora. Por ser elevada e custa já não podem fazer-lhe frente e isto vale para famílias, empresas, bancos, Estados e países. Na minha opinião, nosso país já está devorado pela dívida e, por isso, não consigo imaginar que continuemos no euro com normalidade. Repare b em que para enfrentar a dívida externa, para pagá-la pouco a pouco seria preciso que o nosso país tivesse um excedente da balança de pagamento em conta corrente, e ainda temos um défice apesar do afundamento da economia e dos milhões de desempregados acumulados.

Do mesmo modo, o sector público para reduzir a sua dívida precisaria ter superávite e já se vê como é difícil reduzir o défice e o círculo vicioso em que se entra quando se impõem os ajustes e cortes, pois aprofunda-se a recessão e diminui-se a arrecadação fiscal. Agora, enganosamente, a política económica está destinada e equilibrar as contas públicas e contam-nos até à saciedade que a redução do défice é condição necessária para ultrapassar a crise e, como não, para começar a criar emprego. Digo enganosamente, porque sendo verdade que há problemas para financiar o défice e que enquanto existir se agrava o endividamento do sector público, as quantidades em que se pode reduzir são insignificantes em relação à dívida acumulada. O debate entre o governo da União Europeia quanto à fixação do montante do défice público uma décimas acima ou abaixo, que acabou por ficar nos 5,3% do PIB neste ano, é ridícula quando se pensa que o endividamento público equivale – mais ou menos, os números reais são um mistério – ao PIB anual. Algo assim como discutir de 10 mil euros quando se deve 1 milhão de milhões.

Tenho a impressão de que as pessoas sabem que estamos perante uma crise grave, mas que desconhecem a magnitude da tragédia

É evidente que se manipula a opinião pública e que se aproveita o problema marginal do défice público para justificar a brutal política de cortes que se está a executar e que é inútil porque deixa o problema de fundo intacto, se não agravado. Tudo isto que conto torna sem interesse a pergunta de quanto teremos que contribuir para a dívida, cada um de nós. A crise não é um quociente, com um numerador que, além disso, não saberíamos qual é: os passivos externos? a dívida pública? Isso do "per capita" em sociedades tão profundamente desiguais é uma enteléquia . . A crise é um clima, uma situação, onde o sofrimento pessoal atinge uma casuística tão enorme que não há comparações possíveis. Um desempregado pagará pouca dívida. Um despejado da sua casa é possível que se livre da hipoteca, mas ficou sem casa. Um imigrante irregular não teria que se preocupar com o défice público, mas pode morrer na rua sem assistência. Mais vale ver a crise com este prisma do que fazer operações aritméticas cujos resultados não dizem nada. Disseste-me antes isso de que afinal há que pagar as dívidas. A dívida abre questões cruciais nestes momentos, que certamente desejas que comentemos. Avanço já: as dívidas há que pagá-las se se puder.

Mas não se pode, isso depreende-se nitidamente do que acabas de dizer. Avance com essas questões cruciais...

Vejamos. A economia espanhola não pode gerar os recursos para fazer frente à sua posição devedora externa, já te indiquei que seria preciso registar superávite da balança de pagamentos. O Estado a duras penas corrige o seu défice e cada vez lhe é mais difícil encontrar financiamento para tapar os muitos buracos que deve cobrir para que o país não seja declarado em bancarrota (aí está o caso do Bankia e os 23 mil milhões, ou mais, para resgatá-lo). As emissões de muitas comunidades autónomas estão valorizadas como títulos lixo.

O sistema bancário está em quebra. A qualificação das emissões dos títulos e acções das empresas importantes rebaixa-se a cada dia. A mora cresce e os despejos também. Este é o quadro actual, mas longe de ser estático tende a piorar com a recessão e porque a desconfiança que a economia espanhola provoca é completa, dentro e fora do país. O prémio de risco da dívida pública cresce de forma incontível e com isso as taxas de juros aplicadas às empresas e entidades espanholas, que são as que suportam a maior parte da dívida externa. Dos 2,3 milhões de milhões que citei, 2 milhões de milhões cabem ao sector privado.

Com esta perspectiva, os defensores da permanência no euro, entre eles a cúpula do governo – para Rajoy o euro é irreversível, para o ministro das Finanças, Montoro, a solução é mais euro e mais Europa – , buscam desesperados fundos, pela Europa e agora também por Washington, para sustentar a situação. Mostram-se renitentes em utilizar a palavra resgate, mas no fundo sabem que qualquer contribuição financeira significa estar sob intervenção e submeter-se às directrizes que provenham dos prestamistas. De facto, desde Maio de 2010 a política económica depende das instituições europeias e das pressões dos mercados, e tudo indica que se acentuará no imediato. Sermos resgatados não é fácil pela enorme quantidade de euros que são precisos mas, fazendo da necessidade virtude, é possível, com o argumento de que a Espanha é demasiado grande para deixá-la cair, que transitoriamente se evite a catástrofe.

Transitoriamente?

Transitoriamente, porque a palavra “resgate” é enganosa ou, mais duramente, falsa. Aí está outra vez a Grécia como caso pioneiro. Quando "resgatam" um país não o salvam da sua precariedade e angústia, prendem-no, manietam-no, aprisionam-no e submetem-no a todo tipo de humilhações e barbaridades, inclusive a de passar por cima dele e desprezar as instituições democráticas. Sempre ameaçados, continuamente vigiados, os países resgatados vão-se afundando económica e socialmente num abismo que não parece ter fundo. Não terá que se diferente no caso da Espanha e cabe acrescentar uma nuance a esta degradação.

O melhor para o nosso país, para a imensa maioria dos cidadãos, seria desvincular-se do euro e recuperar soberania e instrumentos de política económica.

O país "resgatado" não se liberta das suas dívidas, que na verdade aumentam e tornam-se mais onerosas. O "resgate", por assim dizer, implica uma agonia sem fim. A outra alternativa, a de desligar-se do euro e recuperar muitos dos instrumentos com que historicamente contava a política económica para executar as políticas necessárias que pede a sociedade, sem dúvida alguma abalará o país.

É muito difícil calibrar todas as consequências que essa saída desencadeará, mas frente ao resgate, após um período difícil, muito difícil e complexo se se quiser, não podemos nos enganar, abrem-se todas as oportunidades para recuperar e refazer o país. Algum leitor sagaz perguntará imediatamente: e o que acontecerá com a dívida externa que além disso se elevará consideravelmente em termos da nossos nova peseta após a desvalorização que terá lugar? Pela minha parte, não posso afirmar outra coisa senão que a saída do euro implica inevitavelmente o não pagamento da dívida, com as nuances que possam incorporar-se. Palavras de peso, um grave problema, mas irresolúvel de outra forma.

E qual seria o impacto na UE de uma saída do euro por parte da Espanha? Seria seguida por outros países? Poderia significar o fim do euro?

Sem dúvida muito importante pelo peso económico e financeiro do nosso país. As peças do dominó não são todas iguais e, após a Grécia, Portugal e Irlanda, a queda da Espanha, seja na versão resgate seja com a saída do euro, abalaria os fundamentos da união monetária, tanto mais quando se sabe que quando o nosso caso for resolvido aguarda-se o da Itália. O disparatado projecto do euro ainda dará muitas dores de cabeça aos dirigentes europeus. Acabo de ler uma entrevista com Jacques Sapir , um crítico reconhecido da união monetária e um defensor da "desglobalização", cujas palavras a uma pergunta sobre se a crise financeira da UE poderia afectar a França podem ser compartilhadas e são as seguintes (resumo): "A crise financeira já contaminou a França. O prémio de risco com a Alemanha atinge agora mais de 1,3% ou 130 pontos básicos. É uma diferença idêntica, e inclusive superior, à que existia antes de ser criada a zona euro. De facto, a única vantagem do euro – poder pedir emprestado a taxas globalmente equivalente às alemãs – desapareceu.

A cadeia de contaminação da crise é bem conhecida. A situação na Grécia exerca uma influência directa sobre Portugal. Uma degradação da situação portuguesa tem consequências nefastas para a Espanha e isso implica a degradação da situação financeira da Itália. Contudo, as situações nesses países são muitos diferentes e essas diferenças fazem que, estruturalmente, não deveria haver contaminação porque os problemas dos países são diferentes, inclusive ainda que tenham a mesma origem: o euro. O euro foi o causador do facto de a Espanha se haver desindustrializado e especializado nos serviços e na construção; e de que a Itália padeça uma taxa de câmbio sobrevalorizada. As taxas de juros são importantes na Espanha e cruciais para a Itália. Por isso os mercados financeiros reagem, percebem essas diferenças e surge a cadeia de contaminação". Sapir conclui: "Está claro que quando a Espanha e a Itália tomarem dinheiro emprestado acima dos 6%, terá chegado o momento de questionar a França. Todos sabem, ainda que agora não se diga, que se a Espanha e a Itália se virem forçadas a sair da zona euro, a França tão pouco nela poderia permanecer". Creio que a pergunta fica assim respondida. Podem-se fazer muitas hipóteses sobre como decorrerão os acontecimentos, mas talvez a única coisa certa é que ninguém nem nenhum país está em condições de controlá-los e que com a tormenta desencadeada a zona euro não sobreviverá com a configuração actual, podendo chegar a desaparecer.

O desaparecimento do euro ou de uma eurozona não qual o Sul houvesse sido podado, que efeitos produziria no dólar e na economia estado-unidense?

Entramos num terreno mais especulativo e sigo uma regra que seria: quanto melhor vá o euro e as moedas mais fortes que o formam pior irá o dólar americano. Não é algo surgido de nenhuma lei mecânica e sim da interpretação de que o capitalismo está a sofrer um desequilíbrio económico-financeiro mundial que será resolvido por um reequilíbrio que terá consequências geopolíticas. Por outro lado, os Estados Unidos em particular, devido às enormes emissões de dívida pública financiadas pela Reserva Federal para enfrentar a crise terrível que a quebra do Lehman abriu nas finanças e na indústria do país, alimentou uma bolha dos seus títulos que em algum momento terá de explodir.

Dizendo isso de outra maneira, está pendente uma crise do dólar cuja explosão pode acontecer por diversos motivos, um dos quais naturalmente é como se resolva a crise do euro. Os Estados Unidos são de longe o primeiro país devedor externo líquido do mundo – o segundo, certamente, é a Espanha –, e quando se têm passivos brutos que superam os 18 milhões de milhões de dólares é para ficar intranquilo, eles como país e o resto do mundo pelos contágios possíveis.

Os principais credores externos líquidos do mundo são Japão, China e Alemanha, este último um país que, pela sua força económica, pode ter veleidades de todo tipo e não é descartável que o euro implique um estorvo para os seus planos, se bem que, como especulamos, haverá quem sustente que é o primeiro país interessado em manter o euro como uma moeda débil que facilite suas exportações e o excedente da sua balança comercial. Digo para concluir: havia uma corrida entre o euro e o dólar para ver a qual moeda a crise chegava antes e nós, os europeus, nos adiantámos. Alguns perversos opinam inclusive que os norte-americanos açulam a crise do euro – até se cita o professor Krugman pelas suas análises críticas sobre a união monetária – para distrair os mercados.

Voltemos às consequências de permanecer no euro. Os eurotítulos, a união bancária, a cessão de mais soberania, uma mudança na política do BCE, a concepção europeia de políticas de crescimento, o resgate bancário... Tudo isso seria suficiente para que a crise que atravessa a Espanha fosse resolvida a médio prazo?

Reafirmo minha opinião. Creio que o melhor para o nosso país, para a imensa maioria dos cidadãos, seria desligar-se do euro e recuperar soberania e instrumentos de política económica. Confio além disso em que isto acontecerá inevitavelmente e seria muito conveniente que a Izquierda Unida e os sindicatos maioritários adoptassem como estratégia essa alternativa. A sociedade tem muito medo, a opinião pública está muito manipulada, ao ponto de que, apesar dos grandes sofrimentos que já padecemos e das ameaças que se discernem no horizonte, ainda se sente pânico perante a ideia de abandonar, não a Europa e sim a união monetária. Passa-se aqui e está a passar-se na Grécia.

Contudo, os inquéritos já falam de quase um terço da população que culpa o euro pela crise e desejariam dele se desligar. Ninguém representa politicamente essa minoria significativa que poderia ampliar-se com facilidade com uma boa explicação do que acontecer e se se trabalhasse com seriedade nessa alternativa. Todos estamos a opinar acerca da crise europeia quando, nas actuais circunstâncias, seria conveniente e legítimo que nos dedicássemos a pensar, ainda que fosse como hipótese improvável, no cenário de não permanecer no euro. Quero acrescentar que o tempo é um dado da situação que é preciso levar em conta. Quanto mais se prolongue a queda nesta fase destrutiva do tecido produtivo, do desaparecimento de empresa, de ruína económica, de acumulação de desemprego – um problema terrível sob todos os pontos de vista – e de degradação social, será muito mais difícil e complicado de todos os pontos de vista recuperar o país e refazê-lo. Pois bem, esta é uma versão espanhola, considerando o mais desejável para o nosso país e nossa gente. Mas cabe perguntar o que pensa a Europa da crise do euro, dos perigos que a Espanha provoca e do que conviria fazer. Há muito ruído, propostas, ocorrências, disputas e controvérsias, o que prova que também há muito desespero e poucas ideias claras.

Queiramos ou não, a união monetária é formada por um conglomerado de países, com diferentes forças, interesses contrapostos, situações económicas, sociais e políticas muito diferentes e todos, em geral, com problemas sérios, cujas sociedades reclamam aos seus governos soluções que no fundamental respeitem os interesses nacionais. Acrescente-se que há regras, compromissos, pactos e quase uma constituição para compreender que nem tudo é possível e que algumas mudanças que se reclamam contradizem a essência do projecto de Maastricht, que é uma união monetária sem fiscalidade comum. O aparecimento de Hollande agravou os contrastes existentes e a divisão potencial entre França e Alemanha, se bem que possamos estar de acordo em que a quebra do euro seria um grande fracasso da burguesia "europeia" que está a apostar neste projecto da Europa há mais de 30 anos.

De modo que o fiasco é inevitável…

Sim. O fracasso abre uma variante especulativa na qual não entro. Mas apanha a Europa numa posição fraca perante as mudanças mundiais que se estão a verificar. Suponhamos, pois, que se quer conseguir com os meios disponíveis o "resgate" do nosso país, para além do actual resgate bancário. Isso significa que os países fortes estão dispostos a pagar os custos de "salvar-nos" nestes momentos.

Com os eurotítulos, para a Alemanha, o país em melhor posição, seriam encarecidas suas emissões actuais de dívida pública, coisa pela qual não sentem nenhuma paixão. E como se distribuem os fundos obtidos com os eurotítulos? Quanto para a Espanha, quanto para Portugal, quando para a França? E por que? Mais para a Espanha uma vez que o seu défice pública é maior porque os espanhóis em média pagam muito menos impostos que os franceses e os alemães? E se o BCE oferecer liquidez generosamente no estilo do Federal Reserve, ainda que contradizendo os fundamentos do Tratado de Maastricht e passando por cima da vontade da Alemanha, novamente: Que critérios se seguem ou que limites para cada país, tendo em conta que os mais incumpridores fiscalmente são os que mais necessitam ou que a banca espanhola alimentou uma bolha imobiliária disparatada que enriqueceu muitos, dentre outros os próprios bancos? Não continuo, isto é uma entrevista e não um livro.

Simplesmente direi que não sei em que consiste a "unidade bancária" e algo fundamental: mesmo que se superem estes momentos de extrema tensão em Espanha, se for resgatada, ainda assim o problema da sua enorme dívida como país permanece intacto e a dívida pública continuará a crescer na parte designada dos eurotítulos ou monetizada pelo BCE. Como vê, tudo muito simples, rápido e sem contra-indicações. Para terminar: isso da austeridade e do crescimento é outra ocorrência, um engana tolos: é impossível, com os brutais ajustes e cortes decretados e os que serão determinados para que a UE nos "resgate", pensar no crescimento. Exactamente ao contrário: os números do desemprego continuarão a aumentar de modo pavoroso durante muito tempo.

A ideia de sair do euro, contudo, provoca o pânico tanto entre a classe dirigente como na imensa maioria da população. Como seria preciso fazer, quais seriam os passos?

Sim, é verdade. Mas dá muito mais medo à classe dirigente do que aos cidadãos, como comentei ao referir-me aos inquéritos. E isto por vários motivos: tanto o PSOE como o PP fizeram e continuam a fazer do tema da Europa a espinha dorsal da sua política, sem nunca avaliar o seu significado e as suas consequências, quando estava claro que Maastricht era a chave de abóbada de um modelo neoliberal extremo da construção europeia. Competitividade sem limite e, ao mesmo tempo, sem taxa de câmbio para enfrentar as diferenças entre países, portanto condições imelhoráveis para cortar salários, desmontar o estado previdência... Enquanto o PP se sentia no seu meio natural, entende-se menor que o PSOE tenha acabado por estar abraçado com a mesma paixão à união monetária – daí a crise ideológica da social-democracia e o ridículo que acabar por fazer entre os eleitores.

As camadas dirigentes não se inclinam a reconhecer erros e menos ainda a desaparecer quando se equivocam tão radicalmente. Outro motivo está implícito no que acabo de comentar: que maravilha de projecto! Uma década a impor políticas regressivas no económico e no social para cumprir as condições de convergência e poder fazer parte da zona euro desde o princípio, a seguir a necessidade imperiosa de efectuar cortes para não perder competitividade e já com a crise o sonho tornado realidade, com o PP a travar uma guerra económica contra os trabalhadores e as camadas sociais mais desfavorecidas com laivos fascistas.

E todo o mundo calando...

Surpreende, certamente, o silêncio cúmplice que mantiveram muitos peritos e analistas perante o que ocorreu, bem como o pânico que se instalou na sociedade. Há uma covardia manifesta, como se não se quisesse afrontar a realidade e se preferisse descer aos infernos ao invés de parar e ver se há outra alternativa. Todos os que compõem a ordem estabelecida – as tertúlias são um bom indicador – falam da necessidade inevitável dos ajustes e da redução do défice público como se fossem obrigações impostas pela natureza, como se o mundo acabasse onde eles conseguem ver, quando basta só olhar um pouco e compreender que há outra opção que consiste em voltar à situação anterior ao euro tal como a conhecíamos há apenas 14 anos.

Tenho confiança em que a luta e a necessidade de oferecer uma alternativa acabem por tornar evidente que romper com a união monetária é inevitável. Estamos na barbárie.

Não é a volta à idade média nem à autarquia. Posso reconhecer que as mudanças verificadas complicam essa volta, mas não ao ponto de que a sociedade se condene a um período indefinido de sacrifícios e desolação por não querer rectificar uns passos em falso. A complexidade técnica disso é inegável, mas do mesmo modo que as dificuldades técnicas não impediram de adoptar o euro, tão pouco agora poderiam impedir a implantação da peseta. A nova moeda teria que sofrer uma desvalorização e o Banco da Espanha poderia recuperar o seu prestígio perdido voltando às suas velhas tarefas de emitir e distribuir a moeda nacional. Se a Grécia tiver sorte, sempre poderá servir-nos de modelo.

Ao passar do euro para a peseta, as dívidas em euros cresceriam devido à desvalorização?

Sim, a montanha da dívida aí está e vejo dois problemas fundamentais. Um é se poderá fazer frente à dívida externa que tem fundamentalmente o sector privado da economia – ainda que também haja uns 300 mil milhões de euros de dívida pública em mãos de estrangeiros –, sobretudo depois de o seu montante ser elevado com a desvalorização indicada da peseta. Os euros que se devem valerão mais peseta. Não será possível e aqui, numa economia de mercado, cada credor e devedor terá que incorrer com as consequências de suas decisões no passado. Haverá muita agitação nos mercados, desconfiança generalizada no país e sem dúvida muitos não pagamentos, razão pela qual se pensa que o nosso país não a deixará cair.
19/Julho/2012

Acerca da saída do euro, ver também:
Que alternativa à não saída do euro? , Octávio Teixeira
Os Hamlets portugueses e a saída do euro , João Carlos Graça
Acerca dos custos e benefícios da saída do euro , Jorge Figueiredo
A armadilha do crescente endividamento do Estado, das empresas e do país com o governo PSD/CDS e com a "troika", e a opção de sair do euro , Eugénio Rosa
Sair do euro é preciso , Octávio Teixeira
O euro e as escolhas , Daniel Vaz de Carvalho
Ficar ou sair da zona euro? , Daniel Vaz de Carvalho
Sair do euro – e depois? , Rudo de Ruijter
Um espectro assombra a Europa: a saída do euro! , Jacques Nikonoff

[*] Economista, catalão, foi membro do Serviço de Estudos do Banco de Espanha, autor de Historia inacabada del Euro e de Pero…no seria millor sortir de l'euro? . Actualmente é presidente de SocialismoXXI . O original encontra-se em http://www.espai-marx.net/admin?id=7384

Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info/ .

07-01-2013

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Categorias: Novas

CANTA O MERLO: Para dominar-te melhor - Controlam-te: O teu pior inimigo é a tua cabeça

http://www.iarnoticias.com/2012/secciones/contrainformacion/0030_para_dominarte_mejor_18dic2012.html

Todos os dias, durante as 24 horas, há um exército invisível que aponta ao teu cérebro: nom utiliza tanques, avions nem mísseis, senom informaçom direccionada e manipulada por meio de imagens e intitulares. Nom o sabes, nem sequer o suspeitas, mas estás metido dentro de umha guerra. Invisível, cruenta, devastadora, silenciosa, que todos os dias converte-te em vítima e em victimário de um sistema que já nom necessita matar fisicamente para dominar.

Por Manuel Freytas (*)
manuelfreytas@iarnoticias.com

Vigiam-te, a tua conduta está a ser chequada, monitorizada, e controlada por peritos. Bombardeiam-te, a diário, nom para matar-te senom para colonizar os teus pensamentos e as tuas emoçons. Nom o sabes, mas és o novo soldado, e por sua vez o branco táctico das operaçons psicológicas pensadas para vender produtos, és o indivíduo-massa da ideologia consumista nivelada planetariamente como estratégia de mercado polas transnacionais capitalistas. Vigiam-te, manejam as tuas emoçons por controlo remoto, vendem-te desde adrenalina e pensamento positivo até produtos e entretenimento pola tela de TV. Fam-te sentir livre roubando a tua liberdade. És um branco telemóvel, querem exterminar o teu cérebro, querem castrar a tua capacidade reflexiva, querem matar o teu pensamento crítico, querem blindar a tua liberdade de eleger, converter-te num consumidor mudante.

Nom o sabes, mas estás em guerra, e as batalhas já nom se desenvolvem em espaços afastados, senom na tua própria cabeça. O objectivo já nom é matar-te, senom controlar-te para converter-te num zombie da sociedade de consumo. As balas já nom apontam ao teu corpo, senom às tuas contradiçons e vulnerabilidades psicológicas. Os intitulares, as imagens direccionadas, a informaçom manipulada, som os mísseis de última geraçom que as grandes correntes mediáticas e a publicidade disparam com demolidora precisom sobre o teu cérebro convertido em teatro de operaçons da sociedade de consumo. Buscamos protecçom, buscamos informaçom, eles controlam, manejam satélites, tecnologia informática, manejam a imagem, manejam o poder, imponhem a sua visom coma se fosse a do conjunto, vendem a sua realidade coma se fosse o teu, o mundo é este, as tuas percepçons som falsas, consome, a tecnologia ama-te.

És rastejado e espiado a diário, buscam as tuas pegadas para conhecer-te, exploram as tuas emoçons, os teus medos, buscam pontos débis, querem implantar-te o seu mundo coma se fosse o teu, converter-te num cobaia domesticada da sua sociedade de consumo. Despiam-te, rastéjam-che, som os vigilantes do cíberespacio, podem-te fazer umha foto por satélite a dous mil quilómetros com se estivessem a um metro teu. O planeta é umha grande prisom controlada polas suas computadoras, a tua vida nom tem secretos, devem saber como pensas, para converter-te num cidadao politicamente correcto, num pacifista tolerante que só relata e consome a verdade oficial.

Nom o sabes, mas quando consumes sociedade de consumo por coaçom psicológica convertes-te num indivíduo-massa, convertes-te num "soldado cooperante" dos planos de domínio e controlo social estabelecidos polo capitalismo transnacional que se inventou umha "civilizaçom" só para vender produtos. Nom o sabes, mas és o branco de operaçons psicológicas extremas que buscam converter-te num alienado programado (AP), cujo cérebro nom está desenhado para pensar senom para consumir. Compra, compra, eles necessitam vender para seguir dominando, compra, compra, se o teu nom compras, se o teu nom consumes eles nom existem. No capitalismo todo compra se e vende-se, mesmo o teu cérebro, que tem um valor de mercado nas estatísticas do controlo mental.
Estás no meio de umha guerra e és o branco principal, mas nom o sabes. As operaçons já nom se traçam a partir da colonizaçom militar para controlar um território, senom a partir da colonizaçom mental para controlar as tuas emoçons e direccionar a tua conduta.

Os objectivos já nom som militares: Na guerra em que estás metido, já nom se se peleja por territórios senom por mercados. O teu cérebro é a matéria prima. E quem se apodera dos cérebros, apodera-se dos comprados. O planeta já nom se divide por fronteiras territoriais, senom por fronteiras comerciais. Compra, compra, controlam-te para que consumas, enquanto o sistema engorda, nutre-se do que o ti consumes. Se o ti nom compras, se o ti nom votas periodicamente, se ti nom legitimas a sua sociedade de consumo, derruba-se o seu império, derrubam-se os seus bancos, estouram as suas corporaçons, ficam sem gasolina os seus tanques, avions e submarinos, paralisam-se as suas metrópoles, colapsam as suas sociedades de consumo, derruba-se a sua decadente civilizaçom da compra e venda. Consome, consome, o teu cérebro nom está programado para pensar senom para consumir.

Os donos do manicómio capitalista vigiam-te, doutrinam-che sem que te dês conta, imponhem os seus objectivos coma se fossem os teus, a sua sobrevivência depende de que estejas adoutrinado, com o teu cérebro lavagem, que compres segurança e adrenalina coma se fossem o teu alimento diário. Controlam-te, compra, compra, eles vendem e o teu compras, desde produtos até a sua visom macrocósmica do mundo que luzes coma se fosse tua. És um branco telemóvel da sociedade de consumo, da sobredose de informaçom e entretenimento orientados a reduzir cérebros e a engordar a rendabilidade das grandes corporaçons que a diário te convertem num nicho de oferta e demanda, num segmento mais do comprado.

A equaçom é simples, o teu compras e eles vendem. Para isso devem sobre-imprimir o seu programa na tua mente, devem re-desenhar a tua psicologia, as tuas crenças, as tuas emoçons, devem converter-te num zombie saturado de tecnologia digital. Nom deves pensar, só consumir, consumir, programas, música fashion, presidentes, sabons, ídolos mediáticos que te doutrinem, que te reafirmem na manda, és um zombie, a tua liberdade nom existe, estás sob controlo. Compra, compra, essa é a ideia força que a "sociedade da informaçom" imprimiu na tua psicologia ao nascer. Eles nom te necessitam para que penses senom para que consumas, produtos, teorias de domínio brando, democracia, presidentes, necessitam o teu cérebro, para consumir a tempo completo, até que substituam-te definitivamente por um microchip.

Nom o sabes, nem sequer o suspeitas, mas estás metido dentro de umha guerra. Invisível, cruenta, devastadora, silenciosa, que todos os dias converte-te em vítima e em victimário de um sistema que já nom necessita matar fisicamente para dominar. A máxima conspiraçom histórica fixo-se realidade: O dominador desapareceu de cena, podes fazer o que queiras, a tua prisom é a tua própria liberdade.

Nom o sabes, mas estás metido dentro da Guerra de Quarta Geraçom. Bem-vindo ao mundo Orwell.

(*) Manuel Freytas é jornalista, investigador, analista de estruturas do poder, especialista em inteligência e comunicaçom estratégica. É um dos autores mais difundidos e referenciados na Web.
Ver os seus trabalhos em Google e em IAR Notícias

31-12-2012

Link permanente 23:02:03, por José Alberte Email , 2611 palavras   Português (GZ)
Categorias: Ensaio

CANTA O MERLO: O enganoso abismo fiscal dos EUA

http://www.resistir.info/crise/hudson_28dez12.html

Como a austeridade orçamental de hoje recorda os mal entendidos económicos da I Guerra Mundial

O enganoso abismo fiscal de 2012 dos EUA

por Michael Hudson

Quando a I Guerra Mundial estalou em Agosto de 1914, economistas de ambos os lados previram que as hostilidades não poderiam perdurar mais do que cerca de seis meses. As guerras haviam-se tornado tão caras que o dinheiro dos governos rapidamente ficaria esgotado. Parecia que se a Alemanha não pudesse derrotar a França na Primavera, as potências aliadas e central teriam as suas poupanças esgotadas e atingiriam o que hoje é chamado de precipício orçamental (fiscal cliff) e seriam forçadas a negociar um acordo de paz.

Mas a Grande Guerra arrastou-se durante quatro anos destrutivos. Os governos europeus fizeram o mesmo que os Estados Unidos após o estalar da Guerra Civil em 1861, quando o Tesouro imprimiu o papel-moeda, os chamados greenbacks . Eles pagavam por mais combate simplesmente com a impressão da sua própria moeda. Suas economias não cederam e não houve grande inflação. Isso aconteceu só após o término da guerra, devido à tentativa da Alemanha de pagar reparações em divisas estrangeiras. Foi o que provocou o afundamento da sua taxa de câmbio, elevando preços de importação e portanto preços internos. A culpa não foi da despesa do governo com a própria guerra (muito menos com programas sociais).

Mas a história é escrita pelos vitoriosos e a última geração assistiu à emergência dos bancos e do sector financeiro como os grandes vitoriosos. Mantendo os 99% da base em dívida, os 1% do topo estão agora a criar uma teoria económica enganosa para persuadir os eleitores a seguirem políticas que beneficiam o sector financeiro a expensas do trabalho, da indústria e do governo democrático tal como o conhecemos.

Os lobbystas da Wall Street atribuem a culpa do desemprego e da perda de competitividade industrial aos gastos do governo e aos défices orçamentais – especialmente com programas sociais – e à reivindicação do trabalho em participar da produtividade crescente da economia. O mito (talvez devêssemos chamá-lo teoria económica lixo) é que (1) governos não deveriam incidir em défices (pelo menos, não através da impressão da sua própria moeda), porque (2) a criação de moeda pública e impostos elevados (pelo menos sobre a riqueza) provoca ascensão de preços. Eles dizem que a cura para o mal-estar económico (o qual foi provocado por eles próprios) é menos despesa pública, bem como mais cortes fiscais para a riqueza, a qual eufemizam como "criadores de emprego". Reivindicando excedentes orçamentais, lobbystas dos bancos prometem que estes proporcionarão à economia bastante poder de compra para crescer. Então, quando isto acaba em crise, eles insistem em que a austeridade pode espremer suficiente rendimento para permitir que dívidas do sector privado sejam pagas.

A realidade é que quando bancos sobrecarregam a economia com dívida isto deixa menos para gastar com bens e serviços internos ao mesmo tempo que conduz para a alta os preços da habitação (e portanto o custo de vida) com criação imprudente de crédito em condições de empréstimo frouxas. Mas no topo desta deflação da dívida, os lobbystas dos bancos pressionam por deflação fiscal: excedentes orçamentais ao invés de défices com a criação de frentes de trabalho. O efeito é mais uma vez reduzir a procura de mercado do sector privado, contraindo mercados e emprego. Os governos caem mais profundamente em aflições e dizem-lhes então para liquidar ao desbarato terras e recursos naturais, empresas públicas e outros activos. Isto cria um mercado lucrativo para empréstimos bancários financiarem privatizações a crédito. O que explica porque os lobbystas financeiros apoiam os direitos dos novos compradores a elevarem os preços que cobram por necessidades básicas, criando uma frente unida para endossar a extracção de renda. O efeito é enriquecer o sector financeiro possuído pelos 1% de maneiras que endividam e privatizam a economia como um todo – indivíduos, negócios e o próprio governo.

Esta política foi denunciada como destrutiva no fim dos anos 1920 e princípio da década de 1930 quando John Maynard Keynes, Harold Moulton e alguns outros contestaram as afirmações de Jacques Rueff e Bertil Ohlin de que dívidas de qualquer magnitude podiam ser pagas se os governo impusessem austeridade e sofrimento suficientemente profundos. Esta é a doutrina adoptada desde a década de 1960 pelo Fundo Monetário Internacional para ser imposta sobre devedores do Terceiro Mundo e pelos neoliberais europeus que defendem credores impondo austeridade à Irlanda, Grécia, Espanha e Portugal.

Tal mitologia pró austeridade destina-se a desviar o público a fim de que não pergunte porque em tempo de paz os governos não podem simplesmente imprimir o dinheiro de que precisam. Dada a opção de imprimir dinheiro ao invés de tributar, por que tantos políticos só criam novos gastos com o objectivo de travar guerra e destruir propriedade, não para construir ou reparar pontos, estradas e outras infraestruturas públicas? Por que deveriam os governos tributar empregados para futuros pagamentos de aposentações, mas não a Wall Street por comissões e seguros financeiros a fim de construir um fundo para pagar por futuras crises de empréstimos excessivos dos bancos? A propósito, por que o Governo dos EUA não imprime o dinheiro para pagar a Segurança Social e cuidados médicos, da mesma forma como criou nova dívida no montante de US$13 milhões de milhões (trillion) após o salvamento bancário de 2008? (Voltarei a esta questão mais abaixo).

A resposta a estas questões tem pouco a ver com mercados, ou com teoria monetária e fiscal. Os banqueiros afirmam que se têm de pagar mais comissões de utilizador para pré-financiar futuras reclamações por maus empréstimos e seguros de depósito para poupar o Tesouro ou os contribuintes de serem cravados pela conta, terão de cobrar mais aos clientes – apesar dos seus presentes historiais de lucros, que parecem agarrar tudo quanto podem. Mas eles apoiam um duplo padrão quando se trata de tributar o trabalho.

A comutação do fardo fiscal para o trabalho e a indústria é conseguida mais facilmente através do corte nas despesas públicas para os 99%. Aqui está a raiz do confronto de Dezembro de 2012 sobre as políticas anti-défice propostas pela comissão Bowles-Simpson de cortes orçamentais que o presidente Obama nomeou em 2010. Derramando lágrimas de crocodilo sobre o fracasso do governo em equilibrar o orçamento, os bancos insistem em que os 15,3% de hoje de retenção salarial do FICA (Federal Insurance Contributions Act) seja elevado – como se isto não elevasse o custo de vida e não drenasse a economia do consumidor de poder de compra. Ao patronato e sua força de trabalho dizem para poupar antecipadamente para a Segurança Social ou outros programas públicos. Isto é um imposto sobre rendimento disfarçado sobre os 99% da base, cujas receitas são utilizadas para reduzir o défice orçamental de modo a que possam ser cortados impostos sobre as finanças e os 1%. Para parafrasear um dito de Leon Helmley, de que "Só o povo miúdo paga impostos", a palavra de ordem pós 2008 é de que só os 99% têm de sofrer perdas, não os 1% quando a deflação da dívida afunda os preços do imobiliário e do mercado de acções para inaugurar uma economia de Situação Líquida Negativa (Negative Equity) enquanto as taxas de desemprego levantam voo.

Não há mais necessidade de poupar antecipadamente para a Segurança Social do que há para poupar antecipadamente para pagar uma guerra. Vender títulos do Tesouro para pagar pensões tem efeito monetário e fiscal idêntico de vender títulos recém impressos. Trata-se de uma farsa – para comutar o fardo fiscal para cima do trabalho e da indústria. Os governos precisam proporcionar à economia dinheiro e crédito para expandir mercados e emprego. Eles fazem isso incidindo em défices orçamentais e isso pode ser feito pela criação da sua própria moeda. É a isto que os bancos se opõem, acusando-os de levar à hiper-inflação ao invés de ajudar as economias a crescerem.

A sua motivação para esta acusação errada é em causa própria e a sua lógica é enganadora. Banqueiros sempre combateram a fim de impedir governos de criarem a sua própria moeda – pelo menos em condições normais de paz. Durante muitos séculos, títulos governamentais foram o maior e mais seguro investimento para as elites financeiras que possuíam a maior parte das poupanças. Banqueiros de investimento e correctores monopolizaram as finanças públicas, com comissões substanciais de subscrição. O mercado para acções e títulos corporativos era abundante em fraudes, dominado por iniciados (insiders) ao serviço das ferrovias e grandes trusts organizados pela Wall Street e empreendimentos de canais organizados por correctores franceses e britânicos.

Contudo, quando os custos de travar uma guerra internacional excediam muito o volume da poupança nacional ou a receita fiscal disponível, havia pouca alternativa para governos senão criarem a sua própria moeda. Esta necessidade óbvia aplacava a oposição habitual levantada pelos banqueiros a fim de limitar a opção monetária pública. O que mostra que governos podem fazer mais sob condições de emergência de force majeur do que sob condições normais. E a crise financeira de Setembro de 2008 proporcionou uma oportunidade para os governos estado-unidense e europeus criarem nova dívida para salvamentos bancários. Isto revelou-se ser tão caro quanto travar uma guerra. Era na verdade uma guerra financeira. Os bancos já haviam capturado as agências reguladoras para entrarem em empréstimos temerários e numa onda de fraude e corrupção nunca vista desde a década de 1920. E agora eles estão a manter economias reféns de uma ruptura na cadeia de pagamentos se não forem salvos dos seus jogos especulativos, das suas hipotecas lixo e do seu fraudulento empacotamento de empréstimos.

A primeira vitória foi neutralizar a capacidade – ou pelo menos a vontade – do Tesouro, da Reserva Federal e do Controlador da Moeda (Comptroller of the Currency) de regular o sector financeiro. A Goldman Sachs, o Citicorp e seus companheiros gigantes da Wall Street mantinham poder de veto na nomeação de administradores chave destas agências. Eles utilizaram esta cabeça de ponte para eliminar candidatos que pudessem não favorecer os seus interesses, preferindo desreguladores ideológicos do tipo de Alan Greenspan e Tim Geithner. Como disse satiricamente John Kenneth Galbraith, uma pré condição para obter um posto num banco central é visão em túnel quando chega a entender que governos podem criar o seu crédito tão prontamente quanto os bancos o fazem. O que é necessário sã lealdades políticas para deitarem-se na cama com os bancos.

Na ruína financeira pós 2008 bastou apenas uma série de toques no teclado do computador para o governo dos EUA criar US$13 milhões de milhões de dívida a fim de salvar bancos de sofrerem perdas com os seus empréstimos imobiliários imprudentes (os quais modelos de computadores pretendiam que tornariam os bancos tão ricos que poderiam pagar aos seus administradores enormes salários, bónus e opções de acções), apostas em seguros que resultaram más (subvalorizando o risco para ganhar negócios a fim de pagar aos seus administradores enormes salários e bónus), jogos de arbitragem e fraude absoluta (dar a ilusão de rendimentos que justificassem enormes salários, bónus e opções de acções). Os US$800 mil milhões do Troubled Asset Relief Program (TARP) e os US$2 milhões de milhões dos swaps "caixa por lixo" ("cash for trash") do Federal Reserve permitiram aos bancos continuar a sua remuneração de executivos e possuidores de títulos sem um soluço – enquanto os rendimentos e a riqueza afundavam para os 99% restantes dos americanos.

Uma nova expressão, Capitalismo de Casino, foi cunhada para descrever a transformação do capitalismo financeiro que estava na era da desregulamentação pós 1980 que abriu as portas a bancos para fazerem o que governos até agora faziam em tempo de guerra: criar moeda e nova dívida pública simplesmente "imprimindo-o" – neste caso, electronicamente nos seus teclados de computador.

Levar as agências de financiamento hipotecário Fannie Mae e Freddie Mac, insolventes, para o balanço público por US$5,2 milhões de milhões representou mais de um terço do salvamento de US$13 milhões de milhões. Isto salvou os possuidores dos seus títulos de terem de sofrer perdas com as avaliações fraudulentas das hipotecas lixo com as quais o Countrywide, Bank of America, Citibank e outros bancos "demasiado grandes para falir" as haviam entupido. Este enorme aumento de dívida foi feito sem elevar impostos. De facto, a administração Bush cortou impostos, efectuando os maiores cortes para os mais altos rendimentos e escalões de riqueza que foram os seus grandes contribuidores de campanha [eleitoral]. Privilégios fiscais especiais foram dados a bancos de modo a que eles pudessem "ganhar o seu caminho para sair da dívida" (e, na verdade, da situação líquida negativa). [1] O Federal Reserve deu uma linha gratuita de crédito (Quantitative Easing) ao sistema bancário a apenas 0,25% de juro anual em 2011 – ou seja, um quarto de um ponto percentual, sem perguntar questões acerca da qualidade das hipotecas lixo e outros títulos penhorados como colateral ao seu valor facial pleno, o qual estava muito acima do preço de mercado.

Esta criação de uma dívida de US$13 milhões de milhões (trillion) para salvar bancos a fim de que não sofressem perdas não foi acusada de ameaçar a estabilidade económica. Ela permitiu [aos banqueiros] continuar a pagar salários e bónus exorbitantes, bem como dividendos a accionistas e pagar também contrapartes nas apostas de arbitragem do casino capitalista. Estes pagamentos ajudaram os 1% a receberem uns confirmados 93% dos ganhos em rendimento desde 2008. O salvamento portanto polarizou a economia, dando ao sector financeiro mais poder sobre o trabalho e os consumidores, sobre a indústria e o governo do que até então desde a Era Dourada do século XIX.

Tudo isto torna a guerra financeira de hoje muito semelhante ao período pós I Guerra Mundial e a incontáveis guerras anteriores. O efeito é empobrecer os perdedores, apropriar activos até então públicos em benefício dos vitoriosos e impor serviço de dívida e impostos pela tributação. "As crises financeiras têm sido tão devastadoras economicamente quanto uma guerra mundial e podem ser ainda um fardo para os nossos netos", observou recentemente Andrew Haldane, responsável do Banco da Inglaterra. "Em termos de perda de rendimento e produção, isto é tão mau quanto uma guerra mundial", disse ele. A ascensão da dívida governamental estimulou apelo à austeridade – sobre a parte daqueles que não receberam a dádiva. "Seria espantoso se o povo não estivesse a formular grandes questões acerca de onde é que as finanças deram para o torto" [2] .

Mas enquanto o sector financeiro estiver a vencer a sua guerra contra a economia como um todo, ele prefere que as pessoas acreditem que Não Há Alternativa. Tendo capturado a teoria económica dominante (mainstream) bem como a política governamental, as finanças procuram dissuadir estudantes, eleitores e os media de perguntarem se o sistema financeiro realmente precisa ser organizado do modo como é. Uma vez que uma tal linha de questionamento seja empreendida, o povo pode perceber que os sistemas bancário, de pensões, de Segurança Social e de financiamento do défice público não têm de ser organizados do modo como são agora. Há melhores alternativas à estrada actual para a austeridade e a servidão da dívida.

A continuar.
Notas
[1] Tais benefícios não foram concedidos aos proprietários de casas cujo valor imobiliário caiu em situação líquida negativa. Para os poucos que receberam amortizações parciais (write-downs) de dívida para o valor corrente de mercado, o crédito foi tratado como rendimento normal e tributado!
[2] Philip Aldrick, " Loss of income caused by banks as bad as a 'world war' , afirma BoE's Andrew Haldane," The Telegraph, December 3, 2012. O sr. Haldane é o director executivo do banco para a estabilidade financeira.

[*] O livro The Bubble and Beyond resume as teorias económicas de Michael Hudson. O seu livro mais recente é Finance Capitalism and Its Discontents . Ele contribuiu para Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion , publicado pela AK Press. mh@michael-hudson.com

O original encontra-se em http://www.counterpunch.org/2012/12/28/americas-deceptive-2012-fiscal-cliff/ . Tradução de JF.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

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