13-07-2012

  10:52:13, por Corral   , 233 palavras  
Categorias: Dezires

CANTA O MERLO: O Estado espanhol alcança o maior índice de miséria da Europa

12/07/12.-Com umha média nacional que se situa em 26,4 por cento, Espanha alcançou o maior índice de Miséria de toda a Europa, assim o revelou nesta quinta-feira um estudo da Associaçom de Grandes Empresas de Trabalho Temporária (Agett). Apontado em diferentes meios nacionais e internacionais, a investigaçom, que cruza as taxas de desemprego e inflaçom para conhecer o deterioro dos níveis de vida dos espanhóis, destaca que a taxa de miséria incrementou-se 15,5 por cento em cinco anos, já que em 2007 calculava-se em 10,89 por cento.

O estudo também precisa que o crescimento do desemprego subiu case 16 pontos, enquanto que a inflaçom reduziu-se 0,47 por cento. Nesta linha, no último ano o índice avançou 1,62 por cento, porque o desemprego cresceu 3,15 pontos e a inflaçom caiu 1,53 por cento; destaca o estudo.

Dividida em comunidades, Andaluzia (sul) é a que regista umha maior taxa; na que case 35 por cento da populaçom vive na miséria. Seguidamente estám Estremadura (sudoeste) e Canárias (ilhas), com taxas superiores a 33 por cento. Em tanto, à beira oposto situa ao País Basco, onde a miséria afecta a 15 por cento dos cidadaos, case 10 pontos por baixo da média nacional.

"A situaçom também é mais favorável em Navarra (norte), Cantabria (norte) e Aragón (nordés)", agrega o texto do Agett que sustém que "evidentemente, as enormes diferenças que existem entre os Índices de Miséria entre umhas comunidades autónomas e outras consiste essencialmente no deterioro do mercado de trabalho".

12-07-2012

  16:29:26, por Corral   , 589 palavras  
Categorias: Ensaio

CANTA O MERLO: Eleições em Cuba: breve análise de um modelo de democracia

O sistema eleitoral cubano talvez seja um dos mais democráticosda atualidade. Seu estudo descortina um horizonte político desconhecido de muitos: a participação livre, o alto índice de comparecimento dos eleitores, a desvinculação ao modelo partidarista, a escolha dos candidatos pelos próprios eleitores, etc.Tudo isso desaguando num sistema misto de participação direta e indireta.

Por Gabriela de Souza Guedes*, em Solidários

O atual modelo foi instituído pela Reforma Constitucional de1975, após um período de transição sem eleições (1959-1975), considerado necessário para o amadurecimento do processo revolucionário, para as adaptações das instituições políticas e a contenção de uma forte resistência contrarrevolucionária.

Candidatos são indicados pelos eleitores, não pelos partido

O novo sistema reintroduziu a participação popular em novos moldes de representatividade e participação, desenvolvidos segundo as peculiaridades históricas, políticas e geográficas da ilha.

Atualmente em Cuba são realizadas eleições gerais a cada cinco anos e eleições parciais a cada dois anos e meio, visando preencher as vagas da Assembleia Nacional do Poder Popular (deputados/mandato 5 anos), das Assembleias Provinciais do PoderPopular (delegados/mandato de 5 anos) e das Assembleias Municipais do Poder Popular (delegados/mandato de 2,5 anos), sendo esta a base do sistema representativo.

Para a escolha dos delegados e deputados o voto é direto e a Assembleia Nacional do Poder Popular elege, dentre seus deputados, o Conselho de Estado, integrado por um presidente, um primeiro vice-presidente, cinco vice-presidentes, um secretário e vinte e três membros. O presidente do Conselho de Estado é Chefe de Estado e Chefe de Governo, cargo ocupado atualmente por Rául Castro.

Eleitores podem revogar mandatos

Uma característica importante desse sistema é que os mandatos podem ser revogados: o eleitor poderá destituir o delegado eleito, caso este descumpra as obrigações assumidas com sua base eleitora ou não preste contas devidamente. Destaca-se, também, que pode haver acumulação de cargos nas Assembleias, ou seja, a mesma pessoa pode exercer simultaneamente diversos cargos eletivos.

Com relação à remuneração, a Constituição (artigo 82) estabelece que durante o tempo em que desempenham suas funções políticas, os deputados recebem o mesmo salário de seu "posto de trabalho", mantendo o vínculo com este para todos os efeitos.

Com a Reforma Constitucional, a participação do eleitor apresentou-se pela forma do voto universal, secreto e livre, calcado somente na consciência política do cidadão, sendo que desde outubro de 1976 (primeira experiência do novo modelo) a participação do eleitorado sempre esteve acima de 96%.

Não há na Constituição de Cuba nem na Lei Eleitoral a referênciaà necessidade de se estar filiado a partido político para concorrer. Consequentemente, a eleição é feita pelo modelo majoritário, sendo necessária a obtenção de mais da metade do número de votos válidos na respectiva base eleitoral (Nacional, Provincial ou Municipal).

Um novo modelo de democracia

No atual sistema, as candidaturas para Assembleia Municipal do Poder Popular são indicadas pelo próprio eleitor em Assembleia criada para este fim. Esse mecanismo é coordenado pelas Comissões de Candidatura e todos os eleitores participantes têm direito a propor candidatos a delegados e resulta indicado aquele que obtiver maior número de votos.

O sistema eleitoral cubano apresenta inovações importantes sobre bases clássicas da ciência política, em um novo modelo democrático dentro de um governo socialista, demonstrando claramente que a democracia não está vinculada ao modelo capitalista. Porém, percebe-se que o conhecimento desta realidade somente está disponível para quem se dispõe a furar o bloqueio estadunidense, que muito além de econômico, atua incessantemente nas fronteiras da informação.

* Gabriela de Souza Guedes é especialista em História da América Latina pela URI - Campus Erechim, graduada em Direito e servidora da Justiça Eleitoral do Rio Grande do Sul (TRE-RS)

09-07-2012

  19:11:24, por Corral   , 1852 palavras  
Categorias: Ensaio

CANTA O MERLO: 17 golpes de estado na Europa Governo pelos bancos e para os bancos

MEE = 17 golpes de estado na Europa
Governo pelos bancos e para os bancos

por Ellen Brown [*]

Na sexta-feira, 29 de Junho, a chanceler alemã Angela Merkel aceitou mudanças num fundo permanente de salvamento da eurozona ? "antes a tinta estava seca", como se queixavam alguns críticos. Além de facilitar as condições em que os salvamentos seriam concedidos, as concessões incluíram um acordo em que fundos destinados a governos endividados poderiam ser canalizados directamente para bancos aflitos .

Segundo Gavin Hewitt , editor de Europa da BBC News, as concessões significam que:

O fundo de salvamento da eurozona (suportado pelo dinheiro dos contribuintes) estará a tomar uma participação em bancos fracassados.

O risco foi agravado. Os contribuintes alemães aumentaram os seus passivos. No futuro, um crash bancário já não cairá sobre os ombros de tesouros nacionais e sim sobre o Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE), um fundo para o qual a Alemanha contribui com a maior parte.

No curto prazo, estas medidas facilitarão a pressão nos mercados. Contudo, actualmente há apenas 500 mil milhões de euros assinalados para o MEE. Essa quantia ser engolida rapidamente e os mercados podem exigir mais. Ainda não está claro quão profundos são os buracos nos bancos da eurozona.

O MEE agora é um fundo de salvamento permanente para bancos privados, uma espécie de "previdência para os ricos". Não há tecto nas obrigações a serem subscritas pelos contribuintes, nem espaço para negociar e nenhum recurso a tribunal. Suas disposições amedrontadoras foram resumidas num vídeo do youtube de Dezembro de 2011, originalmente apresentado em alemão, intitulado "A verdade chocante do iminente colapso da UE!" (ver acima, legendado em português).

O tratado estabelece uma nova organização intergovernamental para a qual exigem-nos transferir activos ilimitado dentro de sete dias se for requerido, uma organização que pode processar mas está imune a qualquer forma de processo e cujos administradores desfrutam da mesma imunidade. Não há revisores independentes e não existem leis a aplicar. Os governos não podem actuar contra ele. Os orçamentos nacionais da Europa estão nas mãos de uma única organização intergovernamental não eleita.

Aqui estão algumas das disposições chave do MEE :

[Artigo 8]: "O capital autorizado será de ?700 mil milhões".

[Artigo 9]: "Os membros do MEE por este instrumento comprometem-se irrevogavelmente e incondicionalmente a pagar qualquer chamada de capital que lhes seja feita ... tal pedido será pago dentro de sete dias após o recebimento".

[Artigo 10]: "O Conselho de Governadores ... pode decidir mudar o capital autorizado e emendar o Artigo 8 ... em consequência".

[Artigo 32, parágrafo 3]: "O MEE, suas propriedades, fundos e activos ... desfrutarão de imunidade em relação a toda forma de processo judicial ..."

[Artigo 32, parágrafo 4]: "As propriedades, fundos e activos do MEE serão ... imunes a investigação, requisição, confisco, expropriação ou qualquer outra forma de captura, tomada ou arresto por acção executiva, judicial, administrativa ou legislativa".

[Artigo 30]: "... Governadores, Governadores suplentes, Directores, Directores suplentes, bem como o Director Administrador e outros membros do staff serão imunes a procedimentos legais quanto a actos desempenhados por eles na sua função oficial e desfrutarão de inviolabilidade em relação aos seus papeis e documentos oficiais".

E isto foi antes das recentes concessões de Merkel, a qual permitiu este endividamento ilimitado ser canalizado directamente para os bancos.

Por que Merkel cedeu?

"As reacções quanto voltou para casa foram devastadoras", relatou Der Spiegel. "A impressão era que [Merkel] fora manobrada pelo primeiro-ministro italiano Mario Monti e o primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy.

Até 21 de Junho, 13 dos 17 países ainda não haviam ratificado o MEE [NR] e a mais importante ratificação necessária era a da Alemanha, a maior economia na Eurozona. Anteriormente, Angela Merkel opusera-se a utilizar o fundo de salvamento para despejar dinheiro directamente dentro de bancos europeus aflitos. Mas na cimeira da UE que começou quinta-feira e arrastou-se até bem tarde da noite, ela finalmente aquiesceu. Na noite de sexta-feira passada, deputados alemães votaram por 493-106 a favor dos ?700 mil milhões do fundo de salvamento permanente.

O que levou Merkel a recuar? Segundo um artigo em The Economist, a última noite foi "preenchida com logros e fanfarronadas", nas quais

Mariano Rajoy, o primeiro-ministro espanhol ..., juntamente com Mario Monti da Itália, ameaçaram bloquear qualquer acordo na cimeira a menos que suas exigências fossem atendidas. O sr. Rajoy foi satisfeito, mas o mesmo não é verdadeiro em relação ao sr. Monti, que foi o mais inflexível dos dois.

O sr. Monti declarou-se satisfeito, mas provocou considerável irritação juntos aos parceiros. Dentre os acordos que ele bloqueou estava o "pacto de crescimento", um conjunto de medidas de estímulo.

O que Monti alcançou com esta manobr não ficou claro:

"Quem precisa de pacto de crescimento? Não a Alemanha", disse um participante perplexo. Os falcões fiscais da eurozona dizem que o mecanismo de compra de títulos será pouco diferente do sistema existente. "Mario Monti ergueu uma arma contra a cabeça e ameaçou atirar sobre si próprio". No fim, feriu-se no ombro", disse um diplomata desdenhoso.

Talvez. Ou talvez o mecanismo de compra de títulos não fosse realmente assim.

O golpe de estado italiano

Há razão para suspeitar que o "Super Mario" Monti pode ser a representar outros interesses diferentes daqueles do seu país. Ele subiu ao poder na Itália em Novembro último naquilo que certos críticos chamaram um "golpe de estado" engendrado por banqueiros e a União Europeia". Ele não foi eleito mas intrometeu-se depois de o primeiro-ministro Silvio Berlusconi renunciar sob coação.

Monti é não só um "conselheiro internacional" do Goldman Sachs, uma das mais poderosas firmas financeiras do mundo, como também um líder do Grupo Bilderberg e da Comissão Trilateral. Num artigo em The New American, Alex Newman chama estes grupos clandestinos de "duas das mais influentes cabalas hoje existentes". Monti está listado como membro do comité de direcção no sítio web oficial de Bilderberg e como o presidente do Grupo Europeu no sítio web da Comissão Trilateral.

A Comissão Trilateral como co-fundada em 1973 por David Rockefeller e Zbigniew Brzezinski, também participantes de Bilderberg. A Comissão Trilateral formou-se a partir da tese de 1970 de Brzezinski, Between Two Ages: America's Role in the Technetronic Era, de que era necessária uma política coordenada entre países desenvolvidos a fim de conter a instabilidade global que irrompia da crescente desigualdade económica. Ele escreveu no seu livro de 1997, The Grand Chessboard, que seria difícil alcançar um consenso sobre estas questões "excepto na circunstância de uma ameaça externa directa realmente maciça e amplamente percebida".

Naomi Klein chamou-o "a doutrina de choque" ? um desastre induzido forçando medidas de austeridade sobre países soberanos. Em desespero, eles obedeceriam, renunciando o direito soberano dos governos para um corpo não eleito de tecnocratas. E é isto que o MEE parece alcançar.

Rockefeller notoriamente escreveu na sua autobiografia de 2002: "Alguns acreditam mesmo que somos parte de uma cabala secreta a trabalhar contra os melhores interesses dos Estados Unidos, caracterizando minha família e eu como "internacionalistas" e de conspirar com outros por todo o mundo para construir uma estrutura política e económica global mais integrada ? um mundo, se você quiser. Se esta é a acusação, declaro-me culpado e estou orgulhoso disso".

A aplicar a Doutrina de Choque

Num outro golpe de banqueiros em Novembro último, Mario Draghi, o antigo executivo da Goldman Sachs, substituiu Jean-Claude Trichet como governador do Banco Central Europeu. O Mecanismo Europeu de Estabilidade seguiu-se rapidamente. Era um instrumento de resgate permanente destinado a substituir certos instrumentos temporários tão logo os estados membros o houvessem ratificado, o que deve ocorrer em 1 de Julho de 2012. O MEE foi submetido a uma votação inicial em Janeiro de 2012, quando foi aprovado na calada da noite mal havendo menção na imprensa.

As modificações recentes foram também acordadas na calada da noite, ostensivamente porque a Itália e a Espanha estavam aflitas onerosas altas taxas de juro. Mas há outras maneiras de deitar abaixo taxas de juro sobre dívida soberana além de impor a países inteiros pactos ilimitados para salvar bancos privados perpetuamente com somas ilimitadas, na esperança de que em troca os bancos possam salvar os governos.

O défice orçamental de 2012 dos Estados Unidos é significativamente pior do que o da Itália ou o da Espanha, mas de certo modo os EUA conseguiram gerir para manter as taxas de juro sobre a sua dívida em registos baixos. Como conseguiu?

Uma teoria é que US$57 milhões de milhões do JP Morgan em swaps de taxas de juro tem algo a ver com isso. Uma outra explicação, entretanto, é que o Fed simplesmente interveio como prestamista de último recurso e comprou qualquer dívida não vendida à baixa taxa de juro estabelecida pelo Tesouro, utilizando a "quantitative easing" (dinheiro criado num écran de computador). Entre Dezembro de 2008 e Junho de 2011, o Fed comprou colossais US$2,3 milhões de milhões de títulos dos EUA e duas rodadas de quantitative easing. Por que o Banco Central Europeu não pode fazer a mesma coisa? A resposta é que há regra em contrário, mas regras são apenas acordos arbitrários. Elas podem ser mudadas por acordo ? e muitas vezes isso tem acontecido , para salvar os bancos.

Como observou o cínico citado no artigo acima em The Economist, o mecanismo de compra de títulos para países sobre o MEE será pouco diferente do sistema existente. Mario Monti disse que o plano apoiará preços de títulos do governo "só em países que cumpram objectivos fiscais e que ele actuará como um incentivo para os governos seguirem políticas virtuosas". Isso significa evitar défices, mesmo que exija ainda mais medidas de austeridade e venda de activos. No nível público, isso poderia significar tesouros nacionais como a Acrópole. No nível privado, The New York Times informou sexta-feira que alguns desempregados europeus chegavam até a vender os seus rins para pagar despesas familiares. A doutrina de choque, parece, chegou à porta dos privilegiados ocidentais.

Os diplomatas alemães na negociação do MEE deixaram abertas algumas janelas de escape, incluindo um pedido ao mais alto tribunal da Alemanha para o presidente do país não assinar os tratados convertendo-o em lei até que uma revisão legal possa ser completada. Espera-se que pelo menos 12 mil queixas sejam apresentadas ao Tribunal Constitucional Federal quanto ao MEE e o seu impacto fiscal. A revisão legal poderia concluir que o MEE sequestra ilegalmente fundos dos contribuintes em proveito da banca privada.

Uma coisa é compartilhar recursos nacionais para salvar outros governos soberanos, outra muito diferente é preencher um cheque em branco para salvar os bancos privados perdulários que precipitaram a retracção global. A Europa tem uma forte tradição de bancos de propriedade pública. Se o povo deve arcar os custos, o povo deveria possuir os bancos e colher os benefícios.
02/Julho/2012

[NR] O parlamento português foi um dos primeiros. A Assembleia da República ratificou o Tratado do MEE em 13/Abril/2012, com os votos favoráveis dos deputados do PS, PSD e CDS. Não se sabe quantos desses deputados leram o tratado que aprovaram e, dos que leram, quantos o entenderam.

Da mesma autora em resistir.info:
O Mecanismo Europeu de Estabilização, ou como a Goldman Sachs capturou a Europa
Armas nucleares ou juros compostos?

[*] Autora de Web of Debt: the Shocking Truth About Our Money System e How We Can Break Free. Seu sítio web: http://www.webofdebt.com/

O original encontra-se em www.counterpunch.org/2012/07/02/government-by-the-banks-and-for-the-banks/

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

04-07-2012

  00:21:07, por Corral   , 1098 palavras  
Categorias: Ensaio

CANTA O MERLO: A saída de Espanha do euro

Vicenç Navarro ""Esta situaçom é insustentável e intolerável. Condena a várias geraçons a um futuro miserável. Por isso é polo que devesse considerar-se o até agora impensável: a saída de Espanha do euro. "" Quando se iniciará tal debate em Espanha?

Este artigo analisa as causas de que se estejam seguindo as políticas neoliberais que estám a danar de jeito cumprido o bem-estar das classes populares dos países da Eurozona e muito em particular dos países periféricos da Eurozona. Estas políticas estám a ser impostas polo Conselho Europeu, a Comissom Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional com o fim de debilitar ao mundo do trabalho e ao Estado do Bem-estar. Devido ao enorme domínio de tal pensamento nas estruturas da Eurozona, o artigo conclui com a necessidade de que se abra um debate em Espanha sobre se nom seria umha alternativa melhor à Recessom, e logo Depressom resultado das políticas neoliberais, a saída de Espanha do euro.

Vicenç Navarro
Estamos a ver durante estes anos de crises a tentativa mais intensa e maciço por parte das autoridades da eurozona "Banco Central Europeu (BCE), Conselho Europeu e Comissom Europeia" assim como do Fundo Monetário Internacional (FMI) de debilitar, em cada país da zona euro, o mundo do trabalho, a protecçom social e o Estado do bem-estar. A evidência disso é contundente. Recortes de direitos laborais e sociais e de gasto público social estám a ocorrer ao longo dos países da eurozona, dando-se com especial intensidade nos países da periferia da eurozona, conhecidos como os PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha). Nom passa dia sem que notícias sobre recortes e reduçom de direitos golpeiem as páginas das rotativas de maior difusom. A generalizaçom de tais medidas na maioria de países da eurozona apresenta-se como um indicador do seu inevitabilidade, é dizer, da necessidade de que levem a cabo para sair da crise.
A evidência que se haver ir acumulando amostra, contodo, que tais medidas nom só nom estám a contribuir à saída da crise e da recessom, senom que a estám piorando. Os dados reflectem claramente que tais políticas estám a reduzir ainda mais a demanda necessária para estimular a economia. E posto que a demanda gerada no sector privado está estagnada (resultado em Espanha do enorme buraco criado na economia polo estalido da borbulha imobiliária), o único sector que poderia estimular a economia é o sector e o gasto público. Por isso é polo que a reduçom de tal gasto público seja um grande erro, pois impossibilita a saída da crise. De novo, a evidência disso é abafadora. Só os economistas e políticos neoliberais, que dominam os meios de maior difusom, continuam repetindo a dogma neoliberal que está já profundamente desacreditado empiricamente.
Por que entom se estám impondo tais políticas" É mais que duvidoso que as autoridades da eurozona e do Fundo Monetário Internacional nom conheçam a abafadora evidência que mostra o insucesso de tais políticas. O facto de que, apesar de ser conscientes do dano de tais políticas ao bem-estar da maioria da cidadania e à própria economia, continuem impondo-as deve-se a que estám a utilizar esta situaçom de enorme crise (acentuando-a inclusive) o fim de forçar com maior contundência o que os grupos dominantes nestas instituiçons (o capital financeiro, é dizer, a banca e as grandes empresas transnacionais sempre desejaram: debilitar ao mundo do trabalho e ao Estado do bem-estar.
Mais e mais informaçom está a fazer-se pública mostrando o tipo de pressons que tais organizaçons (e, muito em especial, o BCE e o binómio Merkel-Sarkozy) estiveram realizando para que os governos recebam "ajudas" (ponho-o entre aspas porque umha percentagem de tais transferências está encaminhado a que os estados receptores podam pagar as suas dívidas públicas aos bancos alemás e franceses, entre outros). O Banco Central Europeu supedita estas ajudas "em forma de compra de dívida pública" a que fagam reformas que claramente debilitem o mundo do trabalho (tais como eliminar a indexaçom dos salários ou a descentralizaçom dos convénios colectivos) e reduzam os seus estados do bem-estar (tais como a privatizaçom das pensons ou dos serviços sanitários), todas é-las medidas que tem muito pouco que ver com a génese da crise ou com a saída dela. O argumento que utilizam para justificar a imposiçom de tais políticas é que aumentárom a competitividade da economia dos países PIIGS e com isso aumentárom as exportaçons, que devessem ser o motor do crescimento económico e a saída da crise.
De novo, a evidência existente (que é também bastante abafadora) questiona que os países PIIGS podam sair da crise a base de tais políticas, pois o maior problema que tem estes países nom é nem o seu inexistente elevado gasto público, incluído o social (que é dos mais baixos da UE), nem a falta de competitividade (as exportaçons continuaram crescendo em Espanha durante a crise), senom a sua escassísima demanda. Mas o facto de que a evidência mostre que este argumento é erróneo ou falso nom lhes trava para que continuem impondo tais políticas, admitindo, como fam os economistas Kenneth Rogoff e Cármen Reinhart, muito influentes no FMI, que o impacto de tais políticas supostamente positivas nom se verá por muito tempo, de dez a quinze anos a partir de agora...
Esta situaçom é insustentável e intolerável. Condena a várias geraçons a um futuro miserável. Por isso é polo que devesse considerar-se o até agora impensável: a saída de Espanha do euro. Nom há dúvida de que seria um passo difícil, mas nom necessariamente pior que o que se predizer para o próximos dez e quinze anos. Alternativas, em contra do que dizem Rogoff e Reinhart, existem. Salvando as diferenças (que as há) entre Argentina e Espanha, o facto é que Argentina em 2001, trás romper a paridade com o dólar e as políticas impostas polo FMI, baixo o Governo Kirchner, recuperou o seu próprio controlo do valor da moeda e do seu Banco Central, permitindo-lhe em três anos que o seu PIB fosse já o que existia antes da crise, sendo a partir de entom o país da América do Norte Latina que tivo maior crescimento económico. Letónia, em mudança, seguiu as políticas que está a impor o FMI e hoje o seu PIB é um 20% inferior ao que tinha ao iniciar-se a crise. É importante que para o bem das classes populares inicie-se um debate em Espanha sobre os excessivos custos de pertencer ao euro, e dos que a populaçom parece ser já consciente. Segundo um recente inquérito, 70% da populaçom espanhola tem maiores reservas para o euro. Quando se iniciará tal debate em Espanha?

http://www.larepublica.es/2012/07/salirse-del-euro/

02-07-2012

  19:31:19, por Corral   , 6999 palavras  
Categorias: Ensaio

CANTA O MERLO: Economia política do "sistema euro"

por Michel Husson [*]

1. Uma construção incoerente
2. Os determinantes da inflação estrutural
3. A balança corrente, primeira "variável de fuga"
4. As taxas de juro reais, segunda "variável de fuga"
5. A báscula alemã
6. Um indicador sintético de divergência
7. Da recessão à crise da dívida
8. A história do euro: uma história simplificada
9. O retorno do constrangimento externo
10. Face à derrocada
11. Uma crise do sistema euro, para além da crise das dívidas soberanas
12. Romper com o sistema euro em nome de um outro projecto europeu
Anexo 1 ? Custo salarial, parte dos salários e competitividade
Anexo 2 ? A equação de equilíbrio dos saldos
Referências

Este artigo procura mostrar como a crise actual da zona euro remete aos defeitos originais de concepção do "sistema euro" cujas contradições, reveladas pela crise financeira, são de natureza estrutural. Esta demonstração é efectuada utilizando uma metodologia estatística e analítica que dá a este estudo um carácter "técnico". Mas trata-se de uma etapa necessária para desembocar num diagnóstico mais sólido sobre as saídas possíveis da crise actual, ou antes da sua dimensão especificamente europeia. Esta crise tem raízes mais profundas que os sintomas na qual se encarna, ou seja, uma crise das dívidas soberanas. À partida, não existem senão duas saídas que proporcionem uma resposta adaptada à natureza estrutural da crise europeia: ou o rebentamento do sistema euro, ou a sua refundação radical. As outras limitam-se a adiar as contradições no tempo ou a programar uma regressão socialmente inaceitável.

O sistema euro designa aqui o conjunto constituído pela moeda única e as regras que tem acompanhado sua aplicação (das quais a maior parte referem-se ao conjunto da União Europeia), nomeadamente o pacto orçamental, as funções atribuídas ao Banco Central Europeu (BCE), a estreiteza do orçamento europeu e a recusa da harmonização.

A análise abrange onze países, a saber, os países membros da zona euro desde a sua constituição em 1999, dos quais se exclui o Luxemburgo e aos quais se acrescenta a Grécia, que a integrou em 2011 [1] . Distinguem-se dois grandes grupos de países [2] . O "Norte" agrupa cinco países: Alemanha, Áustria, Bélgica, Finlândia e Países Baixos. O "Sul" compreende a Espanha, a Grécia, a Irlanda, a Itália e Portugal. O décimo primeiro país é a França que se põe à parte na medida em que ocupa mais frequentemente uma posição intermediária.

1. Uma construção incoerente

A passagem ao euro era combinada com duas regras essenciais: a fixação de normas orçamentais (3% do PIB par o défice, 60% para incorrer da dívida) e as modalidades de funcionamento do BCE: independência, um único objectivo (o controle da inflação) e a proibição de financiar os défices públicos. Nestas condições, em que o instrumento da taxa de câmbio desaparecia, a única variável de ajustamento tornava-se o salário, e esta é a razão porque hoje se fala em "desvalorização interna" para designar as políticas de austeridade salarial.

Esta construção repousava sobre uma hipótese subjacente, que um certo número de economistas recusava na época e que muitos descobriram tardiamente. Esta hipótese era que as disciplinas orçamentais e salariais, decorrentes da liberalização dos movimentos de capitais, bastariam para assegurar a convergência das economias da zona euro.

As coisas não se passaram como previsto e o objecto deste artigo é compreender os encadeamentos que conduziram à crise actual que atinge os próprios fundamentos do sistema euro. Partir-se-á aqui de um aparente paradoxo: os países do Sul viram a sua competitividade-preço degradar-se, muito embora a parte dos salários tenha recuado nestes países. Esta constatação aponta um fenómeno maior que servirá de ponto de partida: as taxas de inflação não convergiram apesar de uma baixa generalizada da parte dos salários no valor acrescentado (Husson, 2010). Esta última tendência implica que os salários reais progrediram menos rapidamente que a produtividade do trabalho ou, dito de outra forma, que a competitividade medida pelos custos salariais não tem razão a priori para estar degradada devido a uma derrapagem dos salários. A disciplina salarial actuou efectivamente mas isso não bastou para assegurar a convergência das taxas de inflação.

Ora, a competitividade de um país pode degradar-se de duas maneiras: seja porque o custo salarial unitário [3] do país considerado aumenta mais rapidamente que o dos seus concorrentes, seja porque a inflação é mais rápida neste país, A primeira causa está excluída: em regra geral, o custo salarial unitário real manteve-se ou baixou devido à baixa da parte dos salários. Tomemos o exemplo da Grécia. Constata-se que a parte dos salários está orientada para a baixa desde meados dos anos 1980 e que continua a estar após a entrada no euro em 2001. Ela não recomeça a aumentar senão nos anos que antecedem a crise (gráfico 1). O mesmo gráfico permite constatar que a evolução do custo salarial unitário real apresenta uma evolução absolutamente semelhante.

Gráfico 1.

Nestas condições, a competitividade-preço da Grécia não pôde degradar-se devido a um crescimento excessivo do salário real ou, dito de outra forma, superior ao da produtividade. É preciso portanto inferir que ela resulta de uma alta mais rápida do nível dos preços. É o que permite verificar o gráfico 2: a perda de competitividade-preço relativamente à média da zona euro não resulta de uma deriva salarial mas, no essencial, de um aumento dos preços mais rápido.

Gráfico 2.

Esta primeira referenciação feita sobre o caso limite da Grécia pode ser generalizada ao conjunto da zona. Em todos os países, praticamente sem excepção, a configuração é semelhante: o custo salarial unitário real varia relativamente pouco, de tal modo que o essencial do aumento do custo salarial unitário expresso em euros correntes é imputável ao aumento dos preços. A comparação entre o Sul e o Norte revela dois fenómenos: no Sul, o custos salarial unitário real é praticamente constante, mas baixa no Norte, principalmente devido à política de congelamento dos salários efectuada na Alemanha. Mas, tudo o mais constante, os países do Sul são caracterizados por uma progressão mais rápida dos preços (gráfico 3).

Gráfico 3.

Este panorama permite reconciliar nossas duas observações iniciais. Ao longo da última década, a evolução da parte dos salários nos países da zona não mostra em parte alguma uma "derrapagem salarial". Dito de outra forma, os salários reais progrediram em fase com a produtividade do trabalho. Em contrapartida, as taxas de inflação muito diferenciadas ampliaram consideravelmente o leque dos custos salariais unitários que definem a competitividade de cada país.

Esta constatação sugere que se tome como ponto de partida da análise a existência de uma "inflação estrutural" própria de cada país. Uma tal abordagem inspira-se nomeadamente nos trabalhos de Jacques Sapir (Sapir, 2006 e 2001) e num estudo recente de dois investigadores do Asian Development Bank (Felipe, Kumar, 2011).

2. Os determinantes da inflação estrutural

O objectivo de uma união económica entre países com níveis de desenvolvimento diferentes é a priori conduzir a uma forma de harmonização e de convergência. Este processo de recuperação (rattrapage) implica um crescimento mais rápido dos países menos desenvolvidos, que geralmente é acompanhado por uma taxa de inflação mais elevada. Este enunciado contém igualmente uma contradição inicial quanto ao caminho escolhido: como conciliar o objectivo de convergência que é acompanhado por taxas de inflação diferenciadas e o estabelecimento de uma moeda única, que supõe implicitamente a convergência destas taxas de inflação?

O processo de recuperação verificou-se. A análise do período 1990-2008 mostra que os países que tinham o PIB per capita mais baixos em 1990 registaram taxas de crescimento mais elevadas. Mas esta recuperação foi acompanhada de uma inflação mais elevada: entre 2000 e 2008, os preços aumentaram 18,2% na zona euro, mas 27% no Sul, contra 11,8% no Norte. A França situa-se na média (18,4%) e a Alemanha bem abaixo (8,3%).

Esta primeira explicação da inflação estrutural pode ser combinada com uma outra que remete a factores internos das economias consideradas. A primeira tem a ver com a dinâmica entre o sector manufactureiro e o resto da economia. De um modo geral, existe um diferencial de produtividade entre estes dois grandes sectores. Admitamos que o salário real seja indexado sobre a produtividade do trabalho que em regra geral é mais rápida no sector manufactureiro. Podem-se distinguir dois casos polares no resto da economia. Se o salário real for indexado a uma produtividade menos rápida, o diferencial de produtividade entre sectores é encontrado sob a forma de uma diferença na progressão dos salários. Mas pode também acontecer que o salário do sector manufactureiro sirva de motor e arraste os salários do resto da economia. Neste caso, esta progressão do salário que tende a ultrapassar o ritmo dos ganhos de produtividade resolve-se num suplemento de inflação. Existe uma vasta literatura sobre este assunto e as configurações podem ser mais complexas, fazendo intervir também os preços relativos entre sectores. Mas a ideia geral é bastante simples: a difusão, sob a forma de salários, dos ganhos de produtividade a partir dos sectores onde eles são mais elevados para o resto da economia é fonte de inflação. Para captar esta causalidade, pode-se utilizar um indicador simples, o diferencial salarial, calculado como o afastamento médio de crescimento do salário real entre o conjunto da economia e o sector manufactureiro no período 1995-2007. Verifica-se que existe uma ligação estreita e que discrimina claramente os dez países (Irlanda excluída, por falta de dados) dos Norte e do Sul.

A inflação pode também ser o produto de um conflito de repartição, tanto mais marcado quando o nível das desigualdades de rendimentos for elevado. Constata-se que esta ligação funciona de maneira convincente: a inflação é mais elevada nos países onde o coeficiente de Gini (um indicador sintético de medida das desigualdades de rendimento) for mais elevado.

Dispõe-se no total de três linhas de explicação da inflação estrutural:

- processo de recuperação (rattrapage): medido pelo nível de PIB per capita;
- dinâmica sectorial: medida pelo diferencial salarial entre o conjunto da economia e o sector manufactureiro;
- conflito de repartição: medido pelo coeficiente de Gini.

A análise econométrica verifica a validade desta abordagem e estabelece a significância das variáveis explicativas introduzidas (enquadrado 1). Podem-se então sintetizar como se segue as determinantes da inflação estrutural:

1. A inflação é mais elevada no país em que o crescimento for mais rápido devido a um processo de recuperação;
2. A inflação é tanto mais elevada quanto a progressão do salário médio for próxima da do salário no sector manufactureiro;
3. A inflação é mais elevada no país em que o grau de desigualdade mais elevada engendra conflitos de repartição mais assinaláveis.

Enquadrado 1
Uma modelização simples da inflação estrutural

Devido a colinearidades, efectuam-se duas estimativas separadas dão os resultados abaixo:

Equação 1
infla = + 1,164 difsal + 10,0 GINI - 0,62 R2=0,953
(6,1) (4,0) (0,8)

Equação 2
infla = + 1,005 difsal - 0,096 pibt + 4,10 R2=0,916
(3,0) (2,4) (6,0)

infla: taxa de inflação (2000-2008)
difsal: diferencial salarial (1995-2007)
pibt: PIB per capital médio (1991-2000)

A média das duas estimativas pode portanto ser escrita;
infla = + 1,084 difsal + 5,0 GINI -0,048 pibt+ 1,74
Ela conduz às estimativas traçadas no gráfico 4 abaixo.

Gráfico 4.

As diferenças na taxa de inflação estrutural não se reduziram Aquilo teria podido conduzir a um ajustamento salarial. Mas a moderação salarial não foi suficiente para compensar os diferenciais de inflação porque os países "em recuperação" puderam escapar a este constrangimento devido à existência de duas "variáveis de fuga".

3. A balança corrente, primeira "variável de fuga"

Se a moeda única não houvesse sido estabelecida, estas diferenças de inflação estrutural teriam sido geridas por ajustamentos da taxa de câmbio. Na ausência desta possibilidade, os défices comerciais puderam, até certo ponto, aumentar sem força em contrário uma vez que o défice não levava a por em causa a moeda nacional. Se, por exemplo, a Espanha houvesse conservado a peseta, ela não teria podido registar um défice externo que chegou a 10% do PIB em 2007: sua moeda teria sido atacada. Há ali uma primeira "variável de fuga" em relação à lógica de disciplina salarial e orçamental do sistema euro.

No período que antecedeu a introdução do euro, o comércio das duas grandes era aproximadamente equilibrado. Mas a divergência entrelaça-se muito rapidamente com um défice crescente no Sul e o aumento dos excedentes no Norte (gráfico 5). A França ocupa, como de costume, uma situação intermediária mas o aumento recente do seu défice fá-la progressivamente pender para o lado do Sul. Quanto à zona euro no seu conjunto, seu comércio externo está tendencialmente equilibrado.

Gráfico 5.

4. As taxas de juro reais, segunda "variável de fuga"

Uma das regras do sistema euro era liberlizar os movimentos de capitais, ao passo que a taxa de juro do BCE desempenhava um papel director. Esta regra funcionou bem e conduziu a uma equalização perfeita das taxas de juro (gráfico 6ª). Mas, na medida em que os afastamentos da taxa de inflação se mantinham, e mesmo aumentavam, esta uniformidade da taxa de juro nominal é acompanhada por um afastamento crescente das taxas de juros reais líquidas da inflação própria de cada país. A tendência geral era para a baixa, mas esta foi ainda mais marcada nos países do Sul onde a inflação era mais elevadas (gráfico 6B).

Gráfico 6.

Entre 2000 e 2007, a taxa de juro real foi assim em média de 2,7% nos países do Norte, mas só de 1,2% nos países do Sul. Estas fracas taxas de juro levaram a uma forte progressão da taxa de endividamento das famílias, de 36% no Sul, contra apenas 4% no Norte. Observa-se uma ligação significativa entre o nível médio da taxa de juro real e o crescimento do endividamento das famílias (gráfico 7). O crescimento mais elevado nos países do Sul foi portanto sustentado em parte por este processo de sobre-endividamento que a limentou as bolhas imobiliárias, nomeadamente em Espanha.

Gráfico 7.

5. A báscula alemã

A história do lugar ocupado pela economia alemã no mercado mundial pode ser contada a partir da do seu excedente comercial, medido pela sua balança corrente em proporção do PIB. Durante o período que separa as duas recessões generalizadas (1974-75 e 1980-81) o excedente anula-se progressivamente. A década de 1980 corresponde a um restabelecimento vigoroso, de tal modo que o excedente registado na véspera da reunificação é comparável àquele que se pode observar hoje. A reunificação de 1991 conduz a um desaparecimento quase instantâneo deste excedente, que permanece muito fraco durante toda a década de 1990. A viragem opera-se no princípio da década de 2000 e conduz a uma recuperação espectacular que eleva o excedente alemão até a 7% do PIB na véspera da crise (gráfico 8).

Gráfico 8.

Este restabelecimento do comércio exterior alemão foi obtido por uma verdadeira báscula salarial. Até o estabelecimento do euro, a maior parte dos países realizavam esforços de convergência, sob a forma de uma baixa do custo salarial unitário ou, o que equivale praticamente ao mesmo, de uma baixa da parte dos salários. Mas tudo muda na Alemanha a partir do princípio dos anos 2000: a parte dos salários põe-se a recuar, de maneira acelerada a partir de 2004. Em alguns anos, o custo salarial unitário real baixa cerca de 10%. No resto da zona euro, inclusive no Sul, o custo salarial unitário real (ou, dito de outra forma, a parte dos salários) não baixa mais senão a um ritmo muito lento (gráfico 9).

Gráfico 9.

Esta constatação é decisiva: a competitividade da Alemanha modificou-se brutalmente. E as taxas de inflação diferenciadas ainda agravam o afastamento. Entre 1998 e 2007, o custo salarial unitário nominal permaneceu constante na Alemanha, ao passo que aumentou 27% no Sul e 15% no conjunto constituído pela França e o Norte fora a Alemanha.

No entanto, estas modificações nas relações de competitividade não bastam para explicar a evolução das balanças comerciais. Há que acrescentar um outro elemento, em parte ligado ao anterior: o crescimento relativo da procura interna e em particular do consumo. Também aqui as diferenças de trajectória são consideráveis. Ao longo de dez anos, entre 1997 e 2007, o consumo aumentou em volume 28% na zona euro fora a Alemanha (do qual 30% pelo Sul) mas somente 9% na Alemanha. Este afastamento proporciona uma vantagem suplementar à Alemanha: o restabelecimento das margens e a quase estagnação do consumo permitem acrescer as suas capacidades produtivas. Pode-se verificar isso econometricamente (enquadrado 2): o custo salarial só por si não pode dar conta da evolução dos saldos comerciais, é preciso acrescentar um outro argumento, no caso o crescimento do consumo privado.

Enquadrado 2
Uma modelação dos saldos comerciais

A equação econométrica explica a variação do saldo comercial pelo crescimento do consumo e a do custo salarial unitário no sector exportador-manufactureiro. Ela é testada em 10 países (não há dados para a Irlanda) e dá uma estimativa de boa qualidade:

saldo = - 21,2 * consa - 15,8 * csumanuf + 41,7 R2 = 0,733
(2,4) (1,6) (4,0)

saldo: variação do saldo comercial taxa de inflação (1998-2008)
consa : crescimento do consumo privado (1998-2008)
csumanuf : crescimento do custo salarial unitário na indústria (1998-2008)

6. Um indicador sintético de divergência

Para melhor assinalar as diferenças de estrutura entre os países, construiu-se um indicador sintético de divergência a partir das quatro características seguintes definidas em relação à média da zona euro no período 2000-2007:

- crescimento: afastamento da taxa de crescimento média;
- inflação: afastamento da taxa de inflação média;
- défice público: afastamento do saldo médio (em % do PIB);
- balança comercial: afastamento do saldo médio (em % do PIB)

O indicador sintético é calculado como a média destes quatro indicadores elementares (após normalização em tomando as variáveis centradas reduzidas). O gráfico 10 permite ver a classificação dos países da zona conforme este indicador de divergência. Os países que divergem "positivamente" são aqueles que beneficiaram de um crescimento superior, acompanhada de uma inflação e de défices público e externo mais elevados. A correlação entre estas quatro tendências-tipo não é evidentemente total e é função do indicador sintético resumi-los numa grandeza única, definida forçosamente de maneira convencional.

A classificação dos países reflecte bem a partição entre o Norte e o Sul. Todos os países do Norte têm um indicador negativo, o que quer dizer que o seu crescimento é inferior mais "virtuoso" do ponto de vista dos défices e da inflação. Reciprocamente, o indicador relativo é positivo para todos os países do Sul. A França encontra-se como de costume em posição intermediária, ainda que ela "penda" um pouco do lado Sul e não esteja muito afastada da Itália.

Gráfico 10.

Pode-se verificar que este indicador sintético está bem correlacionado com outros indicadores sócio-económicos. Retiveram-se dois. O primeiro é a taxa de pobreza com a qual o indicador de divergência está correlacionado positivamente (gráfico 11A). Uma segunda ligação pode ser estabelecida com um indicador de democracia social construído como a média daqueles que Manfred Schmidt (2008) e Thomas Meyer (2011) elaboraram (gráfico 11B).

Gráfico 11.

Este indicador de divergência permite iluminar analiticamente a coerência sócio-económica de cada um dos países da zona euro que provocam diferenças estruturais profundas não mostrando, como se viu, nenhuma tendência clara para a convergência. Mas pode igualmente ser utilizado para explicar o impacto diferencial da crise económica sobre as finanças públicas.

7. Da recessão à crise da dívida

Toda recessão tem um impacto mecânico sobre o défice público. Mas se se relaciona o aumento do défice entre 2007 e 2009 com o recuo do PIB em 2009, constata-se uma diversidade muito grande na amplitude deste impacto (gráfico 12A). Globalmente, os países do Sul registam uma degradação do saldo orçamental de uma amplitude bem superior à dos países do Norte (gráfico 12B).

Gráfico 12.

Abstrair-se-ão aqui mediações explicando esta repercussão diferencial para relacioná-la às características estruturais de cada país, medidas pelo indicador de divergência definido acima. Testa-se uma nova equação econométrica que explica a degradação orçamental por duas variáveis: a amplitude da recessão e o indicador de divergência. Esta equação dá resultados significativos (enquadrado 3). Este resultado é importante, porque ele estabelece que amplitude da degradação orçamental pode ser conectada às especificidades das economias nacionais.

Enquadrado 3

Depois de ter verificado a pertinência deste indicador, ele é introduzido como variável explicativo do aumento do défice público na equação econométrica abaixo:

ddef = 1,07*recessão - 4,23*indic - 2,39 R2=0,782
(4,5) (4,2) (2,1)

ddef : variação do saldo orçamental 2008-2010
recessão : variação do PIB 2008-2009
indic : indicador divergência

Dito de outra forma, a crise das dívidas soberanas é a expressão de uma crise mais sistémica que resulta da heterogeneidade que existe entre os países membros da zona euro. Globalmente, o défice público é igualmente menos importante na zona euro que em outros grandes países capitalistas. No seu ponto mais baixo, em 2009, ele representava 6,4% do PIB, menos que o Japão (8,7%), o Reino Unido (11,0%) ou os Estados Unidos (11,6%). A amplitude particular da crise das dívidas soberanas resulta, mais uma vez, das regras específicas do sistema euro.

8. A história do euro: uma história simplificada

Os elementos de análise antecedentes mostram que os países da zona euro estão efectivamente polarizados, de tal modo que a distinção entre um "Norte" e um "Sul" é globalmente validada. Os países do Sul partilham características comuns dentre as quais a principal é uma inflação estrutural mais elevadas. Esta conduz a uma perda de competitividade e a um aumento dos défices correntes, apesar de uma baixa da parte dos salários semelhante à média da zona. Estes países registam no entanto um crescimento superior durante a década 1995-2005. Este desempenho é autorizado por duas "variáveis de fuga": as entradas de capitais cobrem os défices externos que, por definição, não põem em causa a moeda nacional; a baixa das taxas de juro reais (contrapartida da inflação estrutural mais elevada) favorece um crescimento puxado pelo endividamento.

Mas a crise vem atingir e por em causa esta configuração. O resultado mais importante desta análise é sem dúvida o seguinte: a crise das dívidas soberanas é o sintoma de uma crise específica do sistema euro. Esta não é, evidentemente, a única dimensão desta crise ? que, mais amplamente, põe em causa o funcionamento do capitalismo realmente existente ? mas é própria da zona euro e não se manifesta com a mesma acuidade nos outros países capitalistas: Estados Unidos, Reino Unido, Japão, etc. Ela resulta do modo de funcionamento frágil e incoerente da zona euro que pôde perdurar uma dezena de anos, mas na base de processos que não podiam ser prolongados indefinidamente.

Admitamos um instante que a crise das dívidas seja ultrapassada: as disfunções da zona euro não desapareceriam de todo, pois a zona euro continuaria a reunir no seio de uma moeda única países cujas características estruturais são diferentes, se nada está previsto para gerar esta situação ou para iniciar um processo de convergência.

9. O retorno do constrangimento externo

A profundidade desta crise pode ser medida pormenorizando de maneira mais precisa a ligação existente entre o défice orçamental e o défice comercial de cada país. Há que partir aqui desta relação fundamental [5] :

Necessidade de financiamento público = poupança privada + entrada de capitais

Esta igualdade contabilística enuncia que a necessidade de financiamento público (positiva se o orçamento estiver em défice) é afinal de contas coberta por duas fontes possíveis: pela poupança privada nacional (empresas e famílias) e/ou pelas entradas de capitais correspondentes ao défice da balança corrente. Esta relação é contabilística, o que quer dizer que sempre se verifica. Dito de outra forma, a variação de um dos seus termos é forçosamente compensada por uma variação dos dois outros, mas isso nada diz quanto aos mecanismos de ajustamento que garantem a sua realização.

Esta relação proporciona uma grelha de leitura que permite mais uma vez distinguir claramente os países do Norte e do Sul. Até à crise, a necessidade de financiamento público evolui de maneira relativamente semelhante nos dois grupos de países. Mas as suas contrapartidas fazem surgir duas configurações inversas. No Norte, a taxa de poupança nacional aumenta fortemente após o estabelecimento do euro, ao passo que as exportações de capitais, contrapartida dos excedentes comerciais, aumentam tendencialmente: as entradas líquidas de capitais tornam-se negativas (gráfico 13 A).

No Sul, a configuração é inversa e faz surgir uma periodização muito marcada. Antes do estabelecimento do euro, os países do Sul reduzem seus défices orçamentais de modo a satisfazer os critérios, com uma entrada suplementar de capitais como contrapartida para compensar uma baixa da poupança privada. Até à crise, os défices públicos não aumentam mas, a partir de meados dos anos 2000, retorna-se pouco a pouco à configuração que prevalecia antes do euro: os défices externos aumentam, levando a entradas de capitais que compensam o recuo da poupança privada. A explosão da crise traduz-se por um forte aumento dos défices públicos. Ao mesmo tempo, os défices externos reduzem-se e portanto as entradas de capitais. O bloqueio faz-se por uma baixa muito forte da taxa de poupança privada (gráfico 13B).

Gráfico 13.

É aqui que intervém um elemento fundamental da crise: ela põe fim à entrada de capitais quase automática que prevalecia até então. Dito de outra forma, os países do Sul, os mais atingidos pela crise da dívida devem igualmente reduzir seu défice comercial. Isso não é possível senão aumentando a poupança nacional. Mas este modo de ajustamento não é compatível senão com um crescimento notavelmente reduzido. Existe com efeito uma ligação muito estreita, nos países do Sul, entre a taxa de crescimento e as variações da taxa de poupança privada.

A conclusão desta análise é clara: os países do Sul registaram certamente um crescimento superior àquele dos países do Norte entre 1995 e 2005 (gráfico 14A) mas este crescimento não era sustentável porque repousava sobre uma baixa da taxa de poupança nacional (gráfico 14B).

Gráfico 14.

Esta "poupança negativa" (désépargne) nos países do Sul tinha como contrapartida uma entrada crescente de capitais, favorecida pela desregulamentação financeira e pala convergência das taxas de juro. Mas a partir do momento em que estas entradas de capitais enfraquecem, a equação de equilíbrio dos saldos põe-se a funcionar de outra forma: a necessidade de financiamento público já não pode ser coberta senão por um aumento considerável da taxa de poupança nacional ? da ordem de 10% do PIB ? que por sua vez pesa sobre o crescimento (gráfico 14B acima).

Esta nova configuração está destinada a durar e a possibilidade de reatar o crescimento será tanto mais reduzida nos países do Sul. Estes últimos acumularam com efeito um enorme défice em termos de haveres externos líquidos: representa cerca de 60% do PIB, ao passo que os países do Norte dispõem de haveres externos líquidos positivos, equivalentes a cerca de 35% do PIB (gráfico 15).

Gráfico 15.

10. Face à derrocada

O verme estava na fruta, por uma razão de fundo que era possível antecipar: "nada, nem na teoria nem na prática, permite sustentar o postulado segundo o qual o constrangimento monetário permitiria forçar a convergência real dos países europeus" (Husson, 1996). A moeda única "postula a realização de um espaço homogéneo para o qual ela supostamente contribui" (Husson, 2001).

Com o recuo do tempo, o estabelecimento do sistema euro surgirá provavelmente como um erro terrível que remete a uma cegueira dogmática, mesmo neurótica, e de qualquer forma a uma incompreensão total dos desafios de uma verdadeira construção europeia. Hoje, a zona euro tornou-se o elo fraco da economia mundial e pode-se mesmo dizer que a Europa está em vias de devorar os seus próprios filhos.

As políticas conduzidas ao nível europeu parecem uma cega fuga para a frente que engolfa toda a zona na espiral infernal austeridade/recessão. O desemprego incrusta-se a um nível sem precedentes e a única saída é uma terapia de choque cujo alvo é a desconstrução do modelo social.

O debate recente sobre o aspecto crescimento que seria preciso "acrescentar" à acumulação dos pactos de austeridade impostos sob pretexto de saneamento orçamental está completamente falsificado, uma vez que o "crescimento" mencionado deveria encontrar a sua fonte miraculosa nas "reformas de estrutura" que não podem senão afundar a zona euro na recessão. Há nisso uma nova forma de obstinação dogmática que ignora totalmente a questão dos ritmos sem efectuar qualquer distinção entre as alavancas de uma recuperação conjuntural e um relançamento do "crescimento potencial" cujos efeitos hipotéticos, de qualquer forma, não poderiam ser sentido senão médio-longo prazo. Diante de uma tal loucura, há razões para estar não só "amedrontado", tal como numerosos economista em França, como muito simplesmente aterrorizado.

Seria vão pretender reescrever a história e mais vale examinar os meios possíveis que permitam sair deste verdadeiro impasse. Podem-se distinguir vários cenários possíveis: gestão ao sabor da corrente, ajustamento estrutural, saída do euro e refundação radical da construção europeia (+ moeda comum). Nenhum deles entretanto traça um caminho real.

A política europeia oscila entre o ajustamento estrutural e a gestão ao sabor da corrente. Um dia, jogo óleo sobre o fogo, depois acciona o extintor no dia seguinte. A história recente da Europa é uma alternância entre o reforço dos mecanismos de austeridade e o salvamento da situação à beira do abismo. A incoerência destas decisões sucessivas, a incapacidade total para antecipar as evoluções, é o sinal de um dilema profunda: como retornar ao business as usual, quando foi ele próprio que levou à crise? Estas oscilações em torno de uma trajectória impossível contribuem para desenhar o que se pode chamar de uma "regulação caótica (Husson, 2009)", que é o horizonte do capitalismo após a crise. A menos que nos resignemos a um afundamento na regressão social, há que encarar vias alternativas.

A primeira em que se pensa é a saída do euro: uma vez que o sistema euro não é viável, há que desfazê-lo. Mas esta lógica simplista esquece que durante uma década acumularam-se as contradições e elas conduziram a uma acumulação de dívidas públicas e privadas inextricavelmente misturadas no cerne do sistema bancário. A saída do euro não seria em si mesmo um retorno ao ponto de partida. Muitos argumentos têm sido trocados acerca desta questão, em particular, evidentemente, sobre o caso grego. O principal é que o retorno a uma moeda nacional autorizaria uma desvalorização competitiva permitindo restabelecer o comércio externo e o financiamento défice pelo Banco Central. Mas uma tal medida não resolveria por si mesma o problema da carga da dívida já adquirida e conduziria de facto a uma austeridade comparável àquela do ajustamento estrutural [6] . A nova moeda estaria exposta sem protecção à especulação generalizada que encadearia um ciclo sem fim de desvalorização/inflação. Uma saída generalizada ou, dito de outra forma, uma explosão total da zona euro, não constitui, evidentemente, uma solução cooperativa à escala da Europa: ela conduziria a uma guerra comercial caótica. Mais genericamente, a estratégia de saída do euro tende a transformar a questão social em questão nacional, como mostram com mais pormenor três economistas gregos, aliás membros do Syriza (Laskos, Milios, Tsakalotos, 2012). A ameaça de uma saída do euro pode entretanto contribuir para a construção de uma correlação de forças enquanto instrumento de dissuasão: uma saída de um país do euro teria com efeito repercussões importantes sobre os outros países.

11. Uma crise do sistema euro, para além da crise das dívidas soberanas

Se o retorno ao passado não é uma solução viável e se o sistema euro actual é incoerente, é preciso pois visar uma refundação da construção europeia. Tendo em conta a análise anterior, é entretanto necessário distinguir dois objectivos em que a realização de cada um implica uma ruptura com o sistema euro tal como ele funciona actualmente.

O primeiro objectivo consiste em reabsorver o peso das dívidas acumuladas que entrava qualquer retomada da actividade e qualquer reorientação do modo de desenvolvimento. Isso implica soluções radicais, a saber: a reestruturação das dívidas e a socialização dos bancos. Esta radicalidade não é ditada por uma vontade de ultrapassagem, mas por uma necessidade de coerência.

A alternativa tem a ver com o modo de reabsorção das dívidas: ou são reabsorvidas pouco a pouco, à tarifa actual, mas ao preço de pelo menos uma década de regressão e dos sobressaltos económicos, sociais e políticos que a acompanhariam, ou as dívidas são brutalmente reestruturadas ou anuladas, de maneira a repor as contas a zero. Nesta lógica, a socialização dos bancos é necessária por uma razão de certa forma técnicas, porque é o único meio de desenredar o novelo das dívidas, uma vez que as dívidas soberanas são em grande possuídas pelos bancos. É o que mostram os exemplos do Bankia em Espanha ou do Crédit Agricole em França e, mais ainda, este paradoxo absurdo que faz com que o BCE ajude maciçamente os bancos (1000 milhares de milhões de euros) ao invés dos Estados em dificuldade. Finalmente, o terceiro aspecto deste tríptico é a possibilidade para o Banco Central Europeu de financiar directamente os Estados.

Faz-se tudo evidentemente para avançar soluções de fuga. Poder-se-ia efectivamente mobilizar um arsenal keynesiano: aumento de capital do BEI (Banco Europeu de Investimento) e dos seus empréstimos (60 mil milhões de euros); mobilização dos fundos estruturais não utilizados (82 mil milhões): tributação das transacções financeiras (50 mil milhões por ano); project bonds (obrigações de projecto) para financiar grandes investimentos. Poder-se-ia alongar ? e isto provavelmente será feito ? o calendário do retorno ao equilíbrio orçamental. Antes de lhes emprestar cegamente somas consideráveis, mais valeria mutualizar o apoio aos bancos. O FESF (Fundo Europeu de Estabilidade Financeira) ou a seguir o MEE (Mecanismo Europeu de Estabilidade) poderiam ser utilizados para recapitalizar directamente os bancos em dificuldade e completados por um sistema comum de garantia de depósitos. Baixa da cotação do euro, dose de inflação, recuperação dos salários na Alemanha, todos estes factores poderiam apoiar as políticas "ao sabor da corrente", mas apenas modificariam marginalmente o calendário do ajustamento.

12. Romper com o sistema euro em nome de um outro projecto europeu

Se se recusa o ajustamento estrutural e a saída do euro, a única via coerente é a da harmonização cooperativa. Ela repousaria sobre um orçamento europeu alimentado por um imposto unificado sobre os rendimentos do capital que financiaria as transferências necessárias (fundos de harmonização) e os investimentos social e ecologicamente úteis. Este "federalismo" é no fundo o complemento indispensável à existência de uma moeda única e à construção de uma espaço económico comum. Imaginemos um instante um país como a França onde cada uma das 21 regiões devesse assegurar o equilíbrio das suas finanças e dos seus intercâmbios "externos", enquanto o orçamento nacional seria limitado a 1% do PIB. Vê-se bem o absurdo de uma tal construção, que está no entanto no fundamento do sistema euro.

Mas a objecção é que este projecto "europeísta" seria angélico e de qualquer forma fora do alcance no contexto actual. Não haveria portanto nenhuma via de saída: nem nacional, nem europeia. Se tal fosse o caso, mais uma vez, a única orientação restante seria modular os programas de austeridade a fim de os alongar no tempo, esperando que isso possa permitir torná-los compatíveis com uma retomada do "crescimento", seja qual for o conteúdo concreto. Mas isto seria, então, uma austeridade sem fim. Patrick Artus mostra que, no caso da Espanha, as evoluções necessárias (desendividamento, redução do défice público, criação de empregos novos) "levarão talvez décadas" (Artus, 2012). E isto é lógico: várias décadas de desequilíbrios acumulados e convertidos em dívida conduzem outras tantas décadas de desendividamento.

Para sair deste impasse, existe um atalho que é, para resumir, uma ruptura unilateral com a Europa realmente existente em nome de um outro projecto para a Europa. Pode-se falar aqui de um programa de transição que combina a recusa das regras do sistema euro com uma vontade de generalização da experiência alternativa ao conjunto da zona. Não se espera o surgimento miraculoso de uma "boa" Europa e adopta-se um "proteccionismo de extensão" que consiste em proteger a experiência de transformação social propondo sempre a sua extensão (Husson, 2011, 2012). É este projecto que propunha o plano de urgência do Syriza para as eleições gregas de 17 de Junho de 2012. Ele avançava nomeadamente estes três pontos [7] : 1. Anulação do memorando, de todas as medidas de austeridade e das contra-reformas do trabalho; 2. Nacionalização dos bancos; 3. Moratória sobre a dívida para identificar e anular a dívida ilegítima.

A principal conclusão desta análise é que a crise das dívidas soberanas revela uma crise mais profunda, a do sistema euro. A crise do capitalismo veio impactar um projecto incoerente: reunir numa união monetária países diferentes, recusando-lhes todos os meios de assegurar a sua convergência ou de organizar as suas relações. A necessária refundação europeia não pode ganhar corpos senão por uma recusa assumida de regras inadaptadas, que não fizeram senão cavar o afastamento entre os países da zona euro. Mas ela não se reduz a este objectivo: a alternativa exige outras rupturas e, nomeadamente, uma outra repartição das riquezas, necessária à sua coerência. Uma ruptura com o sistema euro não encontrar sua legitimidade senão numa ruptura com o capitalismo neoliberal e um projecto de extensão cooperativa. Os princípios de uma Europa solidária são com efeito incompatíveis com uma pura lógica capitalista. É o que torna o futuro tão incerto e exigente.

Anexo 1
Custo salarial, parte dos salários e competitividade

A parte dos salários (PSAL) pode ser definida simplesmente como a relação entre as remunerações salariais (REM) e o PIB (pQ), ou seja: PSAL = REM/pQ. As remunerações (incluindo contribuições sociais) podem ser decompostas em salário por cabeça (w) e efectivos assalariados (N). Tem-se pois REM=Nw e pode-se reescrever a parte dos salários de modo a fazer surgir o salário real (w/p) e a produtividade (Q/N): PSAL = (w/p) / (Q/N)

O custo salarial unitário (CSU) representa o custo salarial por unidade produzida. A um nível muito global, ele pode ser calculado dividindo as remunerações totais pelo PIB em volume: CSU = REM/Q

O custo salarial unitário real representa o custo salarial real por unidade produzida. Ele se escreve: CSUR = REM/pQ

Reencontra-se portanto a expressão definindo a parte dos salários, que é portanto um indicador muito próximo do custo salarial unitário real. As duas grandezas diferem pelo jogo dos preços relativos (o salário real é calculado tomando o preço no consumo ao invés do preço do PIB)

Reencontra-se pois a expressão que define a parte dos salários, que é portanto um indicador muito próximo do custo salarial unitário real. As duas grandezas diferem pelo jogos dos preços relativos (o salário real é calculado tomando o preço no consumo ao invés do preço do PIB) e devido à correcção necess´ria para considerar os não-assalariados no cálculo da produtividade.

A competitividade-custo de um país resulta da comparação entre o seu custo salarial unitário (CSU) e o dos seus concorrentes. Na generalidade, é preciso introduzir a taxa de câmbio para efectuar esta comparação, mas isso é evidentemente supérfluo no interior da zona euro. Considerando as definições recordadas acima, o custo salarial unitário pode ser simplesmente decomposto da seguinte maneira: CSU = p. PSAL

Esta decomposição mostra que a competitividade-custo de um país pode degradar-se de duas maneiras:
- seja porque o custo salarial unitário do país considerado aumenta mais rapidamente que o dos seus concorrentes;
- seja porque a inflação é mais rápida neste país.

Anexo 2
A equação de equilíbrio dos saldos

O ponto de partida é uma contabilidade nacional simplificada. Ela comporta quatro "agentes" ou "sectores institucionais": as famílias, as empresas, o Estado e o exterior (o resto do mundo). A primeira linha do quadro de conjunto abaixo descreve as diversas contribuições dos agentes para o PIB. As três linhas seguintes registam as operações que ligam estes agentes entre si: os salários, os impostos, as operações financiamento. À esquerda figuram os empregos, à direita os recursos. Cada linha está equilibrada: o total dos empregos é igual ao total dos recursos.

As famílias tiram o seu rendimento apenas dos salários (SAL). Elas os utilizam para consumir (C), para pagar impostos (T) e resta-lhe uma poupança (S). Os empregos são iguais aos recursos: SAL = C + T + S

As empresas realizam um valor acrescentado (PIB) e completam este recurso pelo endividamento (END). Do lado dos empregos, elas transferem salários às famílias (SAL) e ao investimento (I): PIB + END = I + SAL

O Estado arrecada impostos (T) e realiza despesas públicas (G). A diferença entre os dois é o saldo orçamental (D): D = T- G

A conta do exterior descreve as relações comerciais do país, ou seja, suas exportações (X) e suas importações (M), a diferença representando a balança comercial (B): B = X ? M

Como este quadro contabilístico está completamente equilibrado, passa-se o mesmo para a linha baptizada "financiamento". Obtém-se pois esta igualdade contabilística fundamental:

- D = (S ? END) ? B

(S ? END) representa a poupança líquida do sector privado que reúne as famílias e as empresas. D é o saldo orçamental (positivo em caso de excedente) e ?D representa portanto a necessidade de financiamento público. B é o saldo comercial (positivo em caso de excedente) e ?B corresponde às entradas de capitais. Consequentemente, a relação pode ser assim reformulada:

Necessidade de financiamento público = poupança privada + entrada de capitais

Referências
Artus P. (2012), " Combien de temps pour un retour à la normale en Espagne?", Flash Economie n°437, Natixis, 17 juin.
Felipe J., Kumar U. (2011), " Unit Labor Costs in the Eurozone : The Competitiveness Debate Again ", Levy Economics Institute, Working Paper n°651, February.
Husson M. (1996), "Les mystères de Maastricht", 1996.
Husson M. (2001), "Paradoxes et incertitudes de l'euro", dans: Fondation Copernic, Un social-libéralisme à la française ? La Découverte, 2001.
Husson M. (2009), "Capitalisme: vers une régulation chaotique".
Husson M. (2010), "Le partage de la valeur ajoutée en Europe", La Revue de l'Ires n°64.
Husson M. (2011), "Euro: en sortir ou pas", Inprecor n°575/576, 2011.
Husson M. (2012), "A radical strategy for Europe", dans: E. Chiti, A.J. Menéndez, P. Teixeira (eds), The European rescue of the European Union? , RECON Report 2012.
Laskos C., Milios J., Tsakalotos E., Communist Dilemmas on the Greek Euro-Crisis: To Exit or Not to Exit? mai 2012.
Meyer T. (2011), Theorie der Sozialen Demokratie , VS Verlag für Sozialwissenschaften, Wiesbaden.
Sapir J. (2011), La démondialisation, Le Seuil.
Sapir J. (2006), "Articulation entre inflation monétaire et inflation naturelle: un modèle hétérodoxe bi-sectoriel", communication au séminaire Franco-russe, Stavropol, Octobre.
Schmidt M. (2008), Demokratietheorien, VS Verlag für Sozialwissenschaften, Wiesbaden.
Syriza (2012), Mesures d'urgence et Manifeste sur les politiques sociales et économiques. Junho/2012

Notas
1. Deixam-se assim de lado os cinco países que integraram posteriormente a zona euro: a Eslovénia em 2007, Chipre e Malta em 2008, a Eslováquia em 2009 e a Estónia em 2011.
2. Os dados referentes ao Norte e ao Sul são obtidos por agregação ou por ponderação conforme o peso económico medido pelo PIB. Em proporção ao total da zona euro (11 países), o Norte pesa 43,4% (Alemanha: 28,3%; Áustria : 3,0 % ; Bélgica : 3,8 % ; Finlândia : 1,9 % Países Baixos: 6,4 %). O Sul pesa 35,3 % (Espanha: 11,0 % ; Grécia: 2,3 % ; Irlanda: 1,9 % ; Itália: 18,0 % ; Portugal: 1,9 %). A França representa 21,3%. A validade desta partição, definida a priori, foi testada numa fase preliminar do estudo.
3. Ver o anexo 1 para a definição do custo salarial unitário.
4. Salvo menção em contrário, os dados provêm da base de dados Ameco produzida pela Comissão Europeia.
5. Ver o anexo 2 para a sua construção.
6. Sobre a questão da saída do euro, ver Husson, 2011 e 2012.
7. Impressiona constatar que a imprensa internacional tudo fez para apresentar a saída do euro como a aposta principal deste debate, apesar de esta perspectiva não fazer parte do programa do Syriza.

[*] Estatístico e economista. Trabalha no Institut de Recherches Economiques et Sociales ( IRES ), criado por centrais sindicais francesas.

O original encontra-se em http://hussonet.free.fr/eceurow.pdf

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

  19:29:41, por Corral   , 1406 palavras  
Categorias: Ensaio

CANTA O MERLO: Crise na Zona Euro

por Jorge Figueiredo

Crisis in the Euro Zone [1] de Costa Lapavitsas e outros, é um livro notável e fundamental para a compreensão do que está a acontecer e das opções a tomar (e das opções que estão a tomar em nosso nome). Trata-se, na boa tradição marxista, de uma análise abrangente da economia política da zona euro. Isto, por si mesmo, já é um feito científico notável. Mas os autores vão mais além pois examinam um a um os desenlaces possíveis para a crise que abala os fundamentos da UE, da União Monetária Europeia e da sua moeda mal concebida.

Após as enxurradas de desinformação, ideias confusas e tentativas de instilar o medo despejadas diariamente por comentaristas da televisão e dos jornais, este livro surge como oásis de lucidez e clareza. Ele só poderia ter saído do ambiente intelectual da School of Oriental e African Studies (SOAS) da Universidade de Londres. Ali, a vasta experiência dos autores em relação ao que já acontece há décadas em países do terceiro mundo, a par do rigor conceptual, serviu de base para evidenciar o que se está a passar na Europa de hoje.

Até recentemente havia o trabalho de Varoufakis acerca do metabolismo, ou melhor, da falta dele, no interior da UE. A sua análise, em O Minotauro Global [2] é poderosa. Ali se mostra a inanidade do FEEF e do MEE (independentemente dos montantes com que forem dotados) e avança propostas de solução. Mas por muito perfeitos que sejam os diagnósticos de Varoufakis, as terapias do Plano A que preconiza são reformistas e a UE não é reformável (talvez por isso Varoufakis mencione um Plano B, que é a saída da zona euro). No mesmo pecado não incide Lapavitsas e sua equipe.

Como todos sabem, a presente crise começou no sector imobiliário dos EUA, transmutou-se numa crise do sistema bancário (estado-unidense e europeu) e acabou por cristalizar em crises de dívidas soberanas europeias. Esta crise veio revelar os males inerentes ao grande projecto das classes dominantes europeias: a criação de uma moeda capaz competir com o dólar e promover o sub-imperialismo europeu. Já se pode dizer que este projecto fracassou e a razão para isso está na própria concepção do mesmo. A crise de 2008-09 apenas tornou isso evidente.

E agora, quais as saídas? Diante da crise que se abate sobre a UE e ameaça desagregá-la, o livro disseca as opções políticas que se apresentam aos países periféricos da UE. Elas vão desde saídas regressivas ? que estão agora a ser impostas aos países da periferia ? até uma possível saída progressista. A preferida do capital financeiro europeu é a que está agora a ser adoptada nos países submetidos a troikas: é a austeridade com o corte de salários e pensões, aumentos de impostos, reformas ditas "estruturais" para flexibilizar o mercado de trabalho, privatizações, etc. Em suma, transferir o fardo do ajustamento para as costas dos trabalhadores. A segunda alternativa seria reformar a zona euro. Todos reconhecem que política monetária unitária e política fiscal fragmentada constituem uma mistura não funcional e tentar-se-ia consertar estas mazelas sem desafiar as questões fundamentais contidas no Tratado de Maastricht, no Pacto de Estabilidade e Crescimento e no Tratado de Lisboa. Ou seja, tentar-se-iam soluções que mantivessem o conservadorismo inerente à eurozona. Esta segunda alternativa, também chamada a estratégia do "bom euro" está certamente fadada ao insucesso pois falta à UE um estado unitário ou federal e não há perspectiva de o mesmo concretizar-se no futuro próximo.

Finalmente, surge a terceira alternativa: a da saída da eurozona. Mesmo aqui, contudo, há duas variantes alternativas. Uma é a "saída conservadora", que é muitas vezes discutida na imprensa anglo-saxónica. O objectivo da mesma é simplesmente desvalorizar a moeda do país que saiu. Alguns dos custos do ajustamento seriam transferidos para o exterior e as exportações ganhariam novo impulso. A desvalorização da nova moeda seria provavelmente acompanhada de medidas de austeridade para os trabalhadores.

A outra variante é uma "saída progressista" da zona euro, a qual exige uma mudança do poder económico e social favorável aos trabalhadores dos países periféricos. Nesta variante, haveria desvalorização da moeda acompanhada por uma cessação de pagamentos e uma reestruturação da dívida pública. Para impedir o colapso do sistema financeiro seria preciso a nacionalização da banca, com a criação de um sistema de bancos públicos. Também teriam de ser impostos controles na conta de capital a fuga impedir a fuga do mesmo. E para proteger a produção e o emprego, finalmente, seria necessário expandir a propriedade do sector público sobre áreas chave da economia como utilities, transporte e energia. Sobre esta base seria possível desenvolver uma política industrial que combinasse recursos públicos com crédito público.

"Uma política de saída progressista para países periféricos teria evidentes custos e riscos. As vastas alianças políticas necessárias para apoiar uma tal mudança ainda não existem no presente", reconhecem os autores. E acrescentam: "Esta ausência, a propósito, não é necessariamente devida à falta de apoio popular para a mudança radical. O mais importante é que até agora nenhuma força crível na Europa teve a coragem de se opor à austeridade".

Até agora os povos europeus têm sido submetidos a campanhas maciças para inculcar o medo de uma saída do euro. A saída é assunto tabu e quando os fazedores de opinião chegam a falar nisso é para apresentá-la como coisa terrífica, verdadeira fonte de horrores. Durante mais de 20 anos martelaram na cabeça das pessoas que o euro é o apogeu da unidade europeia e assim uma moeda cujo objectivo é servir os interesses dos grandes bancos e do capital monopolista foi apresentada como se se tratasse de um projecto social-democrata.

Mas e as forças consideradas progressistas e que são supostas defender os trabalhadores, onde estão elas e o que dizem quanto à saída da zona euro? Muitas delas estão coniventes com essa mistificação. É o caso dos integrantes do Partido de Esquerda Europeu (PEE), que aceitaram de facto não por em causa o capitalismo nem a Europa dos monopólios. É o caso do seu representate em Portugal, o BE. O seu líder, Francisco Louçã, faz discursos grandiloquentes sobre os malefícios do programa imposto pela troika ? mas defende a permanência na zona euro a todo custo. Outros partidos, por timidez ou por cálculo eleitoral, não se atrevem a preconizar a saída progressista da zona euro. Eles condenam-se assim a uma actuação ineficaz pois não têm propostas sérias para combater a austeridade que esmaga os países da periferia da Europa e ameaça transformar os seus povos em servos do capital financeiro.

Como diz, e bem, Lapavitsas: "O apoio para a união monetária da esquerda europeia tem afectado decisivamente o desenvolvimento político da crise. Muitos tem falado voluvelmente acerca das iniquidades do capitalismo, a natureza desastrosa do neoliberalismo, o absurdo da austeridade, o veneno da desigualdade e assim por diante. Mas sempre que a discussão se vira para o euro, o qual, afinal de contas, tem sido o ponto focal da crise, grande parte da esquerda tem procurado simplesmente mudar de assunto. Ou tem apresentado propostas com impecáveis credenciais da ciência económica corrente, incluindo a emissão de eurobonds e o empréstimo pelo Banco Central Europeu aos estados membros". Realmente, é muito estranha essa esquerda respeitosa para com o capital financeiro. Será ainda esquerda? Não é casual que em França a sra. Le Pen tenha tido a votação que teve: foi o único candidato que defendeu a saída da zona euro ? indica apoio popular à ideia. A esquerda encolhida não foi capaz disso.

Na verdade, um radicalismo que não está preparado para contemplar o abandono da divisa comum pouco tem para contribuir para o debate público ou para a luta política que actualmente se verifica na Europa. Os dias de hoje vão definir os destinos desta e de futuras gerações. Se a resposta conservadora prevalecer, o futuro será sombrio. O capital financeiro e oligopolista imporá uma solução regressiva que condenará o povo trabalhador a rendimentos estagnados, alto desemprego e estados previdência enfraquecidos. Direitos democráticos ficarão em causa e o continente mergulhará no declínio. Se, em contrapartida, as forças progressistas prevalecerem o equilíbrio poderia ser mudado contra o capital e a favor do trabalho e assim as sociedades europeias seriam rejuvenescidas do ponto de vista económico, ideológico e político.
[1] Crisis in the Euro Zone , Costas Lapavitsas et al., Verso, Londres, 2012, 243 p.

[2] Ver capítulo "O Minotauro global" em Ascensão e queda do euro , Ed. Chiado, Lisboa, 2012, 351 p.

Esta resenha encontra-se em http://resistir.info/ .

30-06-2012

  06:19:12, por Corral   , 1400 palavras  
Categorias: Dezires

CANTA O MERLO: Espanha: Um mau resgate que nos empurrará para o abismo

por Juan Torres López

Por fim verificou-se o que Rajoy, como outras tantas coisas que negou, assegurou que nunca se verificaria. Numa carta, praguejada de erros e com redacção deplorável, a Espanha entrega-se uma vez mais aos poderes financeiros e submete-se a um desígnio que imola os interesses nacionais no altar dos mesmos grandes banqueiros que provocaram o dano que sofremos.

O que Rajoy e os seus ministros negavam que fossem acontecer, já havíamos antecipado com precisão, Vicenç Navarro, Alberto Garzón e eu, no nosso livro Lo que España necesita [1] . Uma réplica com propostas alternativas à política de cortes do PP que já está na livraria publicado por Deusto Ediciones. Na sua página 96 escrevemos:

"Nesta situação, aos bancos credores, principalmente alemães, a única coisa que lhes interessa é salvar seus móveis, ou seja, que se garanta que os bancos espanhóis vão pagar sua dívida para com eles. Por isso, com o apoio dos seus governos, pressionam o espanhol para que tome medidas que garantam o saneamento dos seus balanços e o pagamento da dívida. Já não lhe importa que ao dar prioridade a isto deteriore-se cada dia mais a economia porque essa é a desculpa perfeita que teriam para intervir e "resgatar" a Espanha, ou seja, para obrigá-la a subscrever empréstimos vultuosos que seriam dedicados directamente a refinanciar os bancos espanhóis para que estes por sua vez devolvesse a dívida aos seus credores".

Até dá vergonha escrever de novo para antecipar ? como vêem fazendo economistas críticos desde há anos ? o que vai ocorrer nos próximos meses, mas é que não é difícil prever e é preciso combater a mentira contínua dos nossos governantes. Já foram "resgatados" desta forma outros países e em outros lugares, de modo que sabemos quase como ciência certa o que vai acontecer connosco quando nos aplicarem o mesmo protocolo.

A primeira coisa que sabemos é que não nos entregamos a almas beatíficas, que saibam qual é a cura de que os nossos males precisam e que tenham os meios para evitá-los, como nos fazem crer. As autoridades a que recorremos para que nos salvem são aquelas que tomaram as decisões que nos levaram à situação em que estamos e aquelas que se mostram totalmente incompetentes e incapazes de retirar os países europeus da crise. São aquelas que olharam para o outro lado quando os bancos alemães e europeus em geral financiavam a bolha e quando carregavam os seus balanços de lixo financeiro, levando assim a que se afundassem as economias. E são aquelas que já dedicaram vários milhares de milhões de euros a salvá-los sem conseguir, no entanto, que voltem a financiar a actividade e o emprego, que é o que deveriam ter conseguido para que a economia voltasse a andar. Pomo-nos, pois, nas mãos de incompetentes que vêm tomando decisões em virtude de um fundamentalismo ideológico que ao invés de salvar outros países os afundou ainda mais depois de resgatá-los. Assim, é demasiado ingénuo, ou uma verdadeira loucura, acreditar que quando o fizerem connosco vão ter um súbito ataque de sabedoria e lucidez que os levem a tomar as decisões correctas que até agora não souberam adoptar com nenhum país.

Sabemos que este resgate é um resgate dos bancos e que nem sequer isso vai funcionar bem. O resgate que se prepara não vai resolver os problemas do sector bancário porque é adoptado sem atreverem-se a por preto sobre o branco a verdadeira situação patrimonial de cada um deles, para evitar assim o escândalo de mostrar as barbaridades que cometeram os banqueiros espanhóis (e alemães, não esqueçamos) à custa do afundamento da economia. Não vai funcionar e não vai servir para tranquilizar os mercados, para utilizar a expressão com que referem os investidores especulativos que fazem o seu negócio com a incerteza, e o prémio de risco continuará desavergonhado porque ninguém acredita nos resultados das auditorias privadas que realizaram para justificar o pedido de resgate. Suas estimativas baseiam-se na concepção sem fundamento científico algum de cenários que nunca acertaram previsões e referem-se ao sistema na sua totalidade e não em concreto às entidades que necessitam mais ou menos capital, o que teria sido o necessário. O resgate da banca que se prepara tão pouco salva o sector financeiro espanhol como tal, porque este tipo de operações não é feito conseguir que o crédito volte a fluir, que é o que faz um sistema são, e sim para recapitalizar discrecionalmente as entidades e ajudá-las a que melhorem suas contas de resultados, o que é outra coisa. Assim, o resgate não vai restaurar a solidez do sector e nem salvará o sistema bancário em geral ou todas as entidades que o integram ? na verdade, só conseguirá por na bandeja dos grandes o resto do mercado.

Este resgate, é claro, não salva a economia espanhola e irá, sim, afundá-la mais por várias razões. Porque vai acompanhado de condições que vão aguçar a paralisação da actividade, uma vez que não rompem com a tónica da austeridade e descapitalização pública que a vem provocando. Porque não contempla os males de fundo que produziram a deterioração estrutural da nossa economia: a especialização perversa; a desigualdade; a venda a mau preço de activos vinculados ao nosso mercado interno e a perda de fontes de rendimentos endógenos; a diminuição da capacidade aquisitiva dos assalariados, dos trabalhadores autónomos e dos pequenos e médios empresários; o mau funcionamento da nossa administração pública e o gasto desnecessário e a corrupção de muitos dos nossos administradores e grandes empresários; a fraude e a iniquidade fiscal e a carência de políticas redistribuitivas poderosas que ajudem, como nos países mais avançados, a que a actividade seja mais sustentável económica, ecológica e socialmente e mais competitiva. E porque, ao invés de reforçar as necessárias fontes de valor que são necessárias para que uma economia progrida com bem-estar (conhecimento, inovação, espírito empresarial, sinergias e criação de redes...) vai destruí-las por muitos anos.

E o resgate não nos vai permitir avançar porque tão pouco aborda o dano que faz à nossa economia a pertença a uma união monetária mal concebida, sem molas de reequilíbrio e sem as instituições que a teoria económica mais elementar nos ensinou que se deve possuir para não ser um mecanismo diabólico de geração de instabilidade, de desigualdade e de problemas de eficiência de todo tipo.

Sem abordar estes assuntos, e incidindo nos que, pelo contrário, afundam nas nossas carência, podemos prever que a economia espanhola vai piorar imediatamente depois de este resgate se por em andamento. Um resgate à custa de todos os cidadãos que pode dar um alívio a alguns grandes banqueiros, que terão mais probabilidade de ficarem com todo o mercado, mas que nos colocará directamente na antecâmara de outro novo, agora já de toda a economia e que igualmente podemos antecipar que tão pouco servirá para nada, porque é impossível que a Espanha pague a dívida acumulada e aquela que se vai continuar a acrescentar cada vez mais vertiginosamente, como tão pouco poderão pagá-la os demais países europeus.

A ESCRAVIZAÇÃO DOS POVOS

Nossos governantes empenham-se inutilmente em fazer a quadratura do círculo e assim introduziram-nos numa espiral armadilhada da qual só se pode sair através de meios heróicos. É materialmente impossível fazer frente à dívida do modo como querem fazê-lo as autoridades europeias e o governo espanhol, supondo que este saiba o que quer. As políticas europeias contra o défice não aliviam a dívida e são, sim, sua fonte de crescimento inesgotável. E ocultam que a dívida não só tem causas como também propósitos: a escravização dos povos e o maior negócio dos banqueiros. As políticas e resgates, como o de agora na Espanha, que dizem que se adoptam para diminuí-la simplesmente a aumentam e situam-nas na antecâmara de medidas ainda mais drásticas para avançar rumo aquilo que realmente procuram: impor um novo modelo que lhes proporcione lucros com base no empobrecimento da população para competir em baixa com o resto do mundo, eliminando para isso todo resto de estado de bem-estar social e de justiça fiscal ou económica.

O tempo se encarregará, mais cedo do que tarde, de assinalar quem tem ou não razão.
27/Junho/2012

[1] Vicente Navarro, Juan Torres López e Alberto Garzón Espinosa, Hay alternativas: Propuestas para crear empleo y bienestar en España , 224 pgs., PDF, 1,7 MB. Para descarregar clique com o botão direito do rato e faça Save As....

O original encontra-se em juantorreslopez.com/...

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

24-06-2012

  01:00:29, por Corral   , 1879 palavras  
Categorias: Ensaio

CANTA O MERLO: A crise sistémica global - Alerta vermelho para Setembro-Outubro/2012

Crise sistémica global
Alerta vermelho para Setembro-Outubro/2012:
Quando as trombetas de Jericó soarão sete vezes
por GEAB

A evolução dos acontecimentos mundiais desenrola-se conforme as antecipações elaboradas pelo LEAP/E2020 durante trimestres recentes. A Eurolândia está finalmente a sair do seu torpor político e do curto-prazismo desde a eleição de François Hollande [1] à presidência da França e o povo grego acaba de confirmar a sua vontade de resolver os seus problemas no seio da Eurolândia [2] [NR] , desmentindo assim todos os "prognósticos" dos media anglo-saxónicos e dos eurocépticos. A partir de agora, a Eurolândia (de facto a UE menos o Reino Unido) vai portanto pode avançar e dotar-se de um verdadeiro projecto de integração política, de eficácia económica e de democratização para o período 2012-2016, como o LEAP/E2020 antecipou em Fevereiro último (GEAB nº 62). É uma notícia positiva mas, nos próximos semestres, este "segundo Renascimento" do projecto europeu [3] constituirá mesmo a única boa notícia a nível mundial.

Todas as outras componentes da situação global estão efectivamente orientadas num sentido negativo, mesmo catastrófico. Aqui, mais uma vez, os media dominantes começam a reflectir uma situação antecipada desde há muito pela nossa equipe para o Verão de 2012. Com efeito, de uma forma ou de outra, mais frequentemente em páginas internas do que em grandes manchetes (monopolizadas há meses pela Grécia e o Euro [4] ), doravante encontra-se os 13 temas seguintes:

Recessão global (mais nenhum motor de crescimento em parte alguma / fim do mito da "retomada estado-unidense") [5]
Insolvência crescente, e doravante parcialmente reconhecida como tal, do conjunto do sistema bancário e financeiro ocidental.
Fragilidade crescente dos activos financeiros chave como as dívidas soberanas, o imobiliário e os CDS na base dos balanços dos grandes bancos mundiais.
Queda do comércio internacional [6]
Tensões geopolíticas (nomeadamente no Médio Oriente) que se aproximam do ponto de explosão regional
Bloqueio geopolítico global duradouro na ONU
Colapso rápido de todo o sistema ocidental de aposentadoria por capitalização [7]
Fracturas políticas crescentes no seio de potências "monolíticas" mundiais (EUA, China, Rússia)
Ausência de soluções "milagrosas", como em 2008/2009, devido à impotência crescente de vários grandes bancos centrais ocidentais (Fed, BoE, Boj) e ao endividamento dos Estados
Credibilidade em queda livre para todos os Estados que tenham de assumir o duplo encargo de um endividamento público e de um endividamento privado excessivos.
Incapacidade para dominar/atenuar a progressão do desemprego em massa e de longa duração
Fracassos das políticas de estímulos monetaristas e financeiras assim como das políticas de austeridade "pura"
Ineficácia doravante quase sistemática dos grupos fechados internacionais alternativos ou recentes, G20, G8, Rio+20, OMC, ... sobre todos os temas-chave do que já não é de facto uma agenda mundial [8] dada a ausência de qualquer consenso: na economia, finanças, ambiente, resolução de conflitos, combate contra a pobreza...

. Segundo o LEAP/E2020, e conforme suas antecipações já antigas, assim como aquelas de Franck Biancheri desde 2010 no seu livro "Crise mondiale: En route pour le monde d'après", este segundo semestre de 2012 vai realmente assinalar um ponto de inflexão importante da crise sistémica global e das respostas que lhe são dadas.

Ele será caracterizado por um fenómeno de facto muito simples de compreender: se a Eurolândia está hoje em condições de abordar este período de modo prometedor [9] é porque atravessou nestes últimos anos uma crise de intensidade e profundidade sem igual desde o arranque do projecto de construção europeia após a Segunda Guerra Mundial [10] . A partir do fim deste Verão de 2012 serão todas as outras potências mundiais, Estados Unidos à cabeça [11] , que deverão enfrentar um processo idêntico. É a este preço, e só a este preço, que elas estarão a seguir, em alguns anos, em condições de encetar uma lenta reascensão para a luz.

Mas hoje, depois de terem tentado retardar o fracasso por todos os meios, chega a hora da factura. E como em tudo, a capacidade retardar o inevitável paga-se com um custo extra, a saber o agravamento do choque de ajustamento à nova realidade. Trata-se de facto do fim de jogo para o mundo de antes da crise. Os sete clarins das trombetas de Jericó que assinalarão o período Setembro/Outubro 2012 provocarão a derrocada dos últimos pedaços do "Muro Dólar" e das muralhas que protegeram o mundo tal como o conhecemos desde 1945.

O choque do Verão de 2008 parecerá um pequeno furacão estival em comparação com aquele que vai afectar o planeta dentro de alguns meses.

O LEAP/E202 jamais constatou a convergência temporal de uma tamanha série de factores explosivos, e de factores tão fundamentais (economia, finanças, geopolítica, ...), desde 2006, data do início dos seus trabalhos sobre a crise sistémica global. Logicamente, na nossa modesta tentativa de publicar regularmente uma "meteorologia da crise", devemos portanto emitir para os nossos leitores um "alerta vermelho" pois é realmente a esta categoria que pertence o fenómeno que se prepara para impactar o sistema mundial em Setembro/Outubro próximo.

.

Neste GEAB nº 66 desenvolvemos nossas antecipações em relação a sete factores chave deste choque de Setembro-Outubro 2012, os sete clarins das trombetas de Jericó [12] que marcam o fim do mundo de antes da crise. Trata-se de quatro factores geopolíticos no Médio Oriente e de três componentes económicos e financeiros no cerne do choque que vem aí:

Irão/Israel/EUA: A guerra supérflua verificar-se-á
A bomba assíria: o fósforo israelense-americano-iraniano no paiol Síria-Iraque
O caos afegão-paquistanês: o exército dos EUA e da NATO, reféns de uma saída de conflito cada vez mais difícil
O Outono árabe: os países do Golfo lançados na tormenta
Estados Unidos: o "Armagedão fiscal" começa a partir do Verão de 2012 ? A economia estado-unidense em queda livre no Outono.
A grande insolvência bancária chega em Setembro-Outubro/2012: Bankia versão City-Wall Street
A insustentável leveza das Quantitative Easing do Verão de 2012 ? os bancos centrais americano, britânico e japonês fora de jogo.

Desenvolvemos igualmente recomendações precisas sobre a maneira de minimizar o impacto do choque em preparação sobre a sua própria situação, quer seja um simples particular ou um decisor em empresas ou instituições públicas. Apresentamos igualmente o GlobalEurope Dollar Index do mês.

Finalmente, o LEAP/E2020 anuncia a retomada das suas formações em antecipação político, no próximo Outono, que doravante serão efectuadas on line a fim de responder aos pedidos chegados dos quatro cantos do planeta. Se o GEAB é um "peixe", um produto acabado da antecipação, com estas formações esperamos ensinar um número crescente de pessoas as "pescar" o sentido nas águas turvas do futuro. Pois se se deseja que o fim de jogo do mundo de antes da crise desemboque na construção de um mundo melhor após a crise, parece-nos essencial desenvolver as capacidades de antecipação do maior número de pessoas. Foi de facto esta ausência de antecipação que em grande parte provocou os erros na origem da crise actual.

Estas formações serão organizadas em parceria com a fundação espanhola não lucrativa FEFAP (Fundacion para la Educacion y la Formación en Anticipación Política) criada recentemente graças a uma doação de Franck Biancheri [13] .
Notas

(1) Doravante os debates, saudáveis sobretudo se forem francos e amplos, preocupam-se com o médio-longo prazo, a integração políticas e as novas instituições necessárias. Daqui até o fim do Verão, a evidência de que a dimensão da Eurolândia é central impor-se-á e permitirá contornar a dificuldade das instituições a 27 membros que estão hoje num estado ruína e da omnipresença britânica a qual não permite nesta fase confiar-lhe uma tarefa importante para estabelecer a governação da Eurolândia. A problemática Hollande-Merkel tem a ver muito mais com esta realidade do que com uma divergência "instituições comuns" ou "abordagem intergovernamental". As instituições de Bruxelas também pertencem ao mundo anterior à crise e são inaptas a fundar a Europa do pós crise. Fontes: Deutsche Welle, 11/06/2012; Spiegel, 06/05/2012; El Pais, 10/06/2012; La Tribune, 10/06/2012

(2) Que em contrapartida vai tornar mais tolerável o difícil ajustamento do país após 30 anos perdidos no seio da UE, perdidos pois desperdiçados sem qualquer modernização do Estado grego. Fonte: YahooNews, 18/06/2012

(3) MarketWatch de 14/06/2012 chega mesmo a prever para a Suíça uma inevitável integração na Eurolândia... como já havia feito do LEAP há algum tempo.

(4) Estratégia de diversão obriga!

(5) Fontes: Bloomberg, 15/06/2012; Albawaba, 12/06/2012; ChinaDaily, 05/06/2012; CNNMoney, 11/05/2012; Telegraph, 04/06/2012; MarketWatch, 05/04/2012

(6) Fontes: IrishTimes, 12/04/2012 ; CNBC, 08/06/2012

(7) Fontes: WashingtonPost, 11/06/2012; Telegraph, 11/06/2012; The Australian, 15/06/2012; Spiegel, 06/05/2012; ChinaDaily, 15/06/2012

(8) Em dois anos houve realmente uma deslocação da agenda diplomática mundial.

(9) A este respeito, o LEAP/E2020 antecipa a entrada das questões de defesa no cerne do debate sobre a integração política. Assim como o Euro foi criado no âmbito de um acordo complexo implicando um forte apoio francês à unificação alemã contra a mutualização do Deutsche Mark, a integração política que se perfila vai implicar a mutualização da "assinatura alemã" em contrapartida de uma forma de mutualização (pelo menos para o núcleo da Eurolândia) da dissuasão nuclear francesa. Os dirigentes franceses vão assim descobrir três coisas: que a questão da segurança/defesa preocupa muito seus parceiros da Eurolândia contrariamente às aparências (devido nomeadamente à perda de credibilidade rápida da protecção estado-unidense); que não há razão para que um debate complexo e difícil seja provocado por esta nova fase de integração unicamente na Alemanha (a França também vai ter de envolver) e finalmente que as opiniões públicas não são contra este tipo de abordagem muito concreta ao contrário dos tratados jurídicos incompreensíveis (como em 2005). Em matéria de defesa, assiste-se já a uma evolução importante: a França afasta-se silenciosamente de toda parceria significativa com o Reino Unido para se recentrar na cooperação com a Alemanha e os países do continente. O facto de o Reino Unido sempre prometer e nunca cumprir seus compromissos em matéria de defesa europeia (último até à data: o desenvolvimento comum de porta-aviões é posto em causa pela decisão britânica de não adaptar seu porta-aviões para receber os aparelhos franceses) foi finalmente analisado pelo que é, ou seja, uma tentativa ininterrupta de impedir a emergência de uma defesa europeia. E a redução drástica da capacidade de defesa britânica, por razões orçamentais, tornaram-no de facto um parceiro cada vez menos atractivo. Fontes: Monde Diplomatique, 15/05/2012; Telegraph, 06/06/2012; Le Point, 14/06/2012

(10) Choque ampliado na psicologia colectiva europeia e mundial pela incapacidade dos europeus durante este período de impedir serem instrumentalizados pela City e a Wall Street em matéria mediática, a fim de, por um lado, desviar a atenção das suas próprias dificuldades e, por outro, tentar "partir" esta Eurolândia em emergência que balouça a ordem estabelecida após 1945.

(11) País que viu a riqueza dos seus habitantes ser reduzida em 40% entre 2007 e 2010 segundo um estudo recente realizada pela Reserva Federal dos EUA. Permitimo-nos lembrar que quando em 2006 indicávamos, desde os primeiros números do GEAB, que esta cria ia provocar uma baixa de 50% da riqueza das famílias americanas, a maior parte dos "peritos" consideravam esta antecipação como totalmente aberrante. E o estudo vai só até 2010. Como indicámos, ainda há pelo menos 20% de baixa que aguarda as famílias dos EUA. Este recordatório visa sublinhar que uma das maiores dificuldades do trabalho de antecipação é a imensa inércia das opiniões e a falta de imaginação dos peritos. Cada uma reforça a outra para fazer crer que nenhuma mudança negativa importante está ali na esquina. Fonte: WashingtonPost, 11/06/2012; US Federal Reserve, 06/2012

(12) Para saber mais sobre o mito das trombetas de Jericó: Wikipedia

(13) Ele deve ser um dos muito poucos operadores a terem feito entrar dinheiro no sistema bancário espanhol nestas últimas semanas. Prova de convergência entre análise e acção.
18/Junho/2012
[NR] Ao publicar um texto resistir.info não tem de concordar com todo o seu conteúdo.

O original encontra-se em www.leap2020.eu/...

Este comunicado público encontra-se em http://resistir.info/ .
22/Jun/12

21-06-2012

  23:20:58, por Corral   , 1101 palavras  
Categorias: Dezires

CANTA O MERLO: A NATO prepara uma vasta operação de intoxicação

por Thierry Meyssan

Os estados membros na NATO e do CCG preparam um golpe de Estado e um genocídio sectário na Síria. Caso pretendam opor-se a estes crimes, ajam quanto antes; façam circular estes artigo na Net e alertem os vossos conhecidos.

Dentro de poucos dias, talvez a partir de sexta-feira 15 de Junho ao meio dia, os sírios que pretenderem ver as cadeias de televisão nacionais terão estas substituídas nos écrans por televisões criadas pela CIA. Imagens realizadas em estúdio mostrarão cadáveres imputados ao governo, manifestações populares, ministros e generais apresentarão a sua demissão, o presidente el-Assad tratando de fugir, os rebeldes reunindo-se no coração das grandes cidades e um novo governo instalando-se no palácio presidencial. Esta operação, diretamente monitorizada a partir de Washington por Ben Rhodes, conselheiro adjunto da segurança nacional dos Estados Unidos, visa desmoralizar os sírios e preparar um golpe de Estado. A NATO, que esbarrou no duplo veto da Rússia e da China, conseguiria assim conquistar a Síria sem ter de a atacar ilegalmente. Qualquer que seja o julgamento sobre os atuais acontecimentos na Síria, um golpe de Estado poria fim a toda a esperança de democratização.

De maneira absolutamente formal, a Liga Árabe pediu aos operadores de satélite Arabsat e Nilesat para cortarem a transmissão dos media sírios, públicos e privados (Syria TV, Al-Ekbariya, Ad-Dounia, Cham TV, etc.). Existe um precedente, dado que a Liga Árabe tinha já procedido à censura de televisão líbia de forma a impedir os dirigentes da Jamahiriya de comunicarem com o seu povo. Não existe rede hertziana na Síria, onde as televisões são exclusivamente captadas por satélite. Mas este corte não deixaria os écrans apagados. De facto, esta decisão é apenas a parte emersa do iceberg. Segundo informações de que dispomos, diversas reuniões internacionais foram levadas a cabo na semana passada para coordenar a operação de intoxicação. As duas primeiras, de natureza técnica, tiveram lugar em Doha (Qatar), a terceira, política ocorreu em Riade (Arábia Saudita).

Uma primeira reunião juntou os oficiais de guerra psicológica ?embedded? em certas cadeias de satélite, entre as quais Al-Arabiya, Al-Jazeera, BBC, CNN, Fox, France 24, Future TV, MTV. Sabe-se que desde 1998 os oficiais da United States Army?s Psychological Operations Unit (PSYOP) foram incorporados na redação da CNN; a partir daí, esta prática foi estendida pela NATO a outras estações estratégicas. Redigiram antecipadamente falsas informações, segundo um ?storytelling? elaborado pela equipa de Ben Rhodes na Casa Branca. Um procedimento de validação recíproca foi posto em marcha, cada media devendo citar os outros de forma a contribuir para torná-los credíveis aos ouvidos dos telespectadores. Os participantes decidiram igualmente requisitar não apenas as cadeias da CIA para a Síria e o Líbano (Barada, Future TV, MTV, Orient News, Syria Chaab, Syria Alghad), mas também outras quarenta cadeias religiosas wahhabitas, as quais apelarão ao massacre confessional aos gritos de ?Os cristãos para Beirute, os alauitas para o túmulo!?

A segunda reunião juntou engenheiros e realizadores, visando planear a fabricação de imagens de ficção, misturando uma parte em estúdio a céu aberto e uma parte de imagens de síntese. Os estúdios foram arranjados durante as últimas semanas na Arábia Saudita, de modo a reconstituir aos dois palácios presidenciais sírios e os principais lugares de Damasco, Alepo e Homs. Já havia estúdios deste tipo em Doha, mas eram insuficientes.

A terceira reunião agrupou o general James B. Smith, embaixador do EUA, um representante do Reino Unido e o príncipe Bandar Bin Sultan (a quem o presidente George Bush pai designou como seu filho adotivo, ao ponto de a imprensa norte-americana o ter designado como ?Bandar Bush?). Tratava-se de coordenar a ação dos media e a do ?Exército Sírio Livre?, do qual os mercenários do príncipe Bandar formam o grosso dos efetivos.

A operação, em gestação desde há meses, foi precipitada pelo conselho de segurança nacional dos EUA, depois de o presidente Putin ter notificado a Casa Branca de que a Rússia se oporia pela força a toda a intervenção militar ilegal da NATO na Síria.

Essa operação compreende dois vetores simultâneos: por uma lado, diversificar as falsas contrainformações; por outro lado, censurar toda e qualquer a possibilidade de lhes responder.

A interdição das TVs por satélite como forma de conduzir uma guerra não é uma novidade. De facto, sob pressão de Israel, os EUA e a União Europeia impuseram sucessivas interdições a cadeias libanesas, palestinianas, iraquianas e líbias. Nenhuma censura foi imposta a cadeias de satélite provenientes de outras partes do mundo.

Tão-pouco a difusão de notícias falsas constitui uma estreia. Entretanto, quatro novos passos significativos foram dados na arte da propaganda durante o decurso das últimas décadas:
- Em 1994 uma estação de música Pop, a ?Radio Libre des Mille Collines? (RTML) deu o sinal para o genocídio no Ruanda apelando a ?Matar as baratas!?.
- Em 2001 a NATO utilizou os media para impor uma interpretação dos atentados de 11 de Setembro e justificar os ataques ao Afeganistão e ao Iraque. Nesta altura, já Ben Rhodes tinha sido encarregue pela administração Bush de redigir o relatório da Comissão Kean/Hamilton sobre os atentados.
- Em 2002 a CIA utilizou cinco cadeias, Televen, Globovision, Meridiano, ValeTV et CMT, para fazer crer que manifestações monstruosas tinham forçado o presidente eleito da Venezuela, Hugo Chávez, a demitir-se, dado que tinha sido vítima de um golpe de Estado.
- Em 2011, aquando a batalha de Trípoli, a NATO fez realizar em estúdio e difundir pela Al-Jazeera e pela Al-Arabiya imagens de rebeldes líbios entrando na praça central da capital enquanto eles realmente ainda se encontravam longe da cidade, de forma que os habitantes, persuadidos de que a guerra estava perdida, cessaram toda a resistência.

Doravante, os media já não se contentam em apoiar a guerra, eles praticam-na diretamente.

Este dispositivo viola os princípios básicos do direito internacional, a começar pelo artigo 19 de Declaração Universal dos Direitos do Homem relativo ao facto de ?receber e difundir, sem consideração de fronteiras, as informações e as ideias por qualquer meio de informação?. Sobretudo, ele viola também as resoluções da Assembleia Geral da ONU, adotadas no final da Segunda Guerra Mundial, para evitar as guerras. As resoluções 110, 381 e 819 interdizem ?os obstáculos à livre troca de informações e de ideias? (no caso vertente, o corte das cadeias sírias) e ?a propaganda de natureza a provocar ou encorajar toda a ameaça à paz, rotura da paz ou outro ato de agressão?.

No direito, a propaganda da guerra é um crime contra a paz, o mais grave dos crimes, dado que ele torna possíveis os crimes de guerra e os genocídios.
Thierry Meyssan
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Tradução João Carlos Graça
Thierry Meyssan

20-06-2012

  12:24:22, por Corral   , 3482 palavras  
Categorias: Novas, Dezires

CANTA O MERLO: "A Grécia tem de sair do euro e declarar a moratória da dívida"

por Costas Lapavitsas [*]
entrevistado por João Alexandre Peschanski

Um quarto dos trabalhadores gregos estão desempregados ? um índice que atinge 50% quando considerados apenas a população economicamente ativa com menos de 25 anos, de acordo com dados oficiais. O Fundo Monetário Internacional e a União Europeia adotaram medidas para supostamente resgatar a economia grega, cujo Produto Interno Bruto (PIB) caiu quase 7% em 2011, que pioraram a situação social. Há protestos diários na capital Atenas, muitos dos quais acabam em confrontos violentos com a polícia.

Para resolver a crise econômica e social, a Grécia tem de "tomar as rédeas de seu próprio futuro". A opinião é do economista grego Costas Lapavitsas, professor da Universidade de Londres e coordenador do grupo de economistas políticos Pesquisa sobre Dinheiro e Finanças (RMF, na sigla em inglês), que se tornou uma das principais referências acadêmicas na análise das causas e consequências da recessão global iniciada em 2007. Segundo ele, o futuro soberano da Grécia passa necessariamente pela moratória da dívida e a saída da zona do euro.

Lapavitsas sugere, nesta entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, concedida em 25 de abril, durante uma visita aos Estados Unidos para uma série de conferências sobre a crise europeia, que as políticas e instituições da zona do euro intensificaram o impacto da recessão na Grécia e no que ele chama de países periféricos do bloco, como Espanha, Portugal e Irlanda. Para sair da crise, diz Lapavitsas, a Grécia precisa adotar medidas de resgate de sua soberania nacional e de desenvolvimento industrial.

Brasil de Fato ? Por que a zona do euro esteve tão vulnerável à crise imobiliária e financeira, que se iniciou nos Estados Unidos, em 2007?

Costas Lapavitsas ? Essa fragilidade à crise global foi causada por fatores relacionados à estrutura interna da zona do euro. É porque a zona do euro é ela mesma problemática, porque ela criou tensões profundas dentro de si. Posso ser mais preciso: a zona do euro criou dentro de si mesma uma oposição entre um centro e uma periferia. A periferia é provavelmente a Grécia, a Espanha, o Portugal, a Irlanda; a Itália está na fronteira. A periferia se tornou periferia porque perdeu competitividade em relação ao centro, desenvolvendo enormes déficits, tanto em transações quanto no saldo comercial, o que levou a uma multiplicação de suas dívidas. Ou seja, à medida que a periferia foi perdendo poder econômico, gerou-se uma dívida, interna e externa, privada e pública. Quando a crise atinge a zona do euro, a dívida que havia sido acumulada na periferia se tornou a principal causa de sua fragilidade, colocando a zona do euro em uma situação muito problemática.

Por que esses países que se tornaram periféricos perderam competitividade?

Vale notar que não se trata de periferia e centro no sentido clássico da teoria do desenvolvimento, em que se opõem Primeiro e Terceiro Mundo. O capitalismo produz continuamente essa distinção entre periferia e centro, uma dimensão combinada de desenvolvimento desigual. A zona do euro fez a mesma coisa, do seu próprio modo, que tem a ver com a formação do euro. A moeda, usada globalmente, foi criada para competir com o dólar, oferecendo a bancos e corporações uma forma de dinheiro confiável para manter suas reservas e organizar transações. Para criar essa forma de dinheiro, os países europeus tiveram de criar um sistema para mantê-lo, que tem vários elementos. Essa variedade é um reflexo do fato de esses países serem 17 Estados. O sistema que foi criado foi pensado para estabelecer um sistema monetário comum, um banco central. Mas, aí começa o problema, há uma variedade de políticas fiscais, já que são 17 Estados, 17 classes dominantes, e, portanto, uma variedade de práticas bancárias. Apesar de haver um sistema monetário comum, há 17 tipos de bancos nacionais na zona do euro. Esse sistema com moeda comum e variedade de bancos, rigidez fiscal com limites, fez com que fosse necessário ter flexibilidade em alguma área: o mercado de trabalho. O que aconteceu então na zona do euro foi uma competição para baixar os custos de trabalho. Aí, a Alemanha ganhou, sem ter realmente um competidor no mesmo nível. A Alemanha manteve congelados os custos de trabalho por quase duas décadas, agora. Os países periféricos tiveram menos êxito; custos de trabalho congelados na Alemanha e custos da unidade de trabalho em alta em outros países levaram-nos a serem menos competitivos. Isso criou um abismo no mercado e os países periféricos não puderam equilibrar a perda de competitividade com desvalorização monetária ou com outras políticas econômicas, já que isso fazia parte do sistema comum.

Na formação do euro, houve acordos para manter em equilíbrio o mercado de trabalho. Por que esses acordos não foram respeitados, já que foram respeitados os acordos monetários e fiscais?

A atitude da zona do euro em relação ao mercado de trabalho é contraditória. Por um lado, há uma proteção de direitos trabalhistas e sindicais, que garantem benefícios reais aos trabalhadores; por outro lado, há uma pressão contínua para baixar os custos salariais. Nesse espaço de contradição, houve por parte de todos os Estados um esforço para produzir competitividade com flexibilização no mercado de trabalho, removendo rigidez. Isso ficou claro no Tratado de Lisboa, no Tratado de Nice e outros acordos. Há, portanto, uma pressão uniforme para baixar os custos de trabalho, por mais que de fato haja algum acordo mínimo em relação a direitos trabalhistas. É a diferente capacidade de ter êxito em baixar os custos de trabalho que levou a resultados divergentes, à criação do centro e da periferia.

Como a Alemanha conseguiu surgir como o país europeu dominante?

A Alemanha manteve seus trabalhadores sem aumento salarial por duas décadas. Conseguiu fazê-lo ao se aproveitar da estrutura de negociação trabalhista tripartite que existe há tempo por lá. Sentam para negociar todo acordo trabalhista empregados, empregadores e representantes do Estado. Após a reunificação das Alemanhas, foram adotadas políticas públicas, muitas vezes com a conivência dos sindicatos, para congelar os custos de trabalho e enfraquecer o sindicalismo. A Alemanha oriental não tem sindicatos fortes; há áreas da Alemanha ocidental que perderam representatividade sindical. Claro que tudo isso foi costurado pelo partido social-democrata alemão, sob o governo de Gerhard Schroeder. Só um partido com origem de esquerda poderia ter imposto esse tipo de situação, finalmente instrumentalizada pelas classes dominantes alemãs, em detrimento dos trabalhadores europeus como um todo.

Como a crise iniciada em 2007 acentuou a vulnerabilidade da periferia da zona do euro?

A crise imobiliária dos Estados Unidos transformou-se numa crise do sistema bancário global, a partir do momento em que os títulos podres vinculados às hipotecas foram vendidos como legítimos. Entrou-se numa recessão global: os bancos globais enfraqueceram-se em termos de liquidez e solvência, incluindo os bancos europeus. Especialmente em 2008 e 2009, a recessão global fez com que os Estados tivessem de intervir para apoiar suas economias internas. Obviamente a capacidade de arrecadação e os rendimentos dos Estados foram reduzidos, pois as economias internas se contraíram. Para os países periféricos, que já tinham dívidas enormes, o resultado foi catastrófico. Não conseguiram recuperar vigor, já que o que conseguiam acumular eram mais dívidas. Haviam perdido competitividade, tinham grande déficits públicos, perdiam capacidade de arrecadação tributária. Mesmo se tentassem manter suas economias internas com algum equilíbrio, o sistema financeiro global não tinha interesse em emprestar mais, quando percebeu que a dívida grega não era a mesma coisa que a dívida alemã, isto é, quando percebeu que a dívida da Grécia e do Portugal, por mais que fosse em euro, não seria bancada pela Alemanha. Daí, a fraqueza desses países periféricos ficou totalmente exposta e o impacto da crise foi muito mais severo. Quando ficou claro que os países periféricos estavam em crise, os bancos começaram a sentir novas pressões da crise, já que os bancos haviam emprestado a esses Estados. A crise começou como uma crise bancária, tornou-se uma recessão, foi para os Estados e, daí, ameaçou voltar aos bancos. Foi quando a crise ameaçou voltar aos bancos que a União Europeia interveio; interveio para resgatar os bancos e, ainda agora, é esse o sentido da intervenção.

As políticas de austeridade adotadas em toda a Europa, mas especialmente nos países que você caracteriza como periféricos, são expressões dessa lógica de intervir para resgatar os bancos?

Os parâmetros que têm direcionado a intervenção da União Europeia são, primeiro, o resgate dos bancos e a transferência dos custos da crise para outros setores, especialmente os assalariados, os trabalhadores. Em segundo, a intervenção quis evitar os custos nacionais, mas daí se deparou com o problema próprio à constituição da zona do euro. Como eu disse antes, não existe algo como um banco europeu, existem bancos nacionais, espanhóis, portugueses, gregos. A zona do euro até se mobilizou para resgatar os bancos, mas não pode fazê-lo de modo geral, tem de resgatar bancos nacionais. O mecanismo para resgatar os bancos teve de ser o Estado. Isso criou mais um problema: por que o Estado alemão resgataria bancos espanhóis? Isso jamais aconteceria. Os alemães disseram: é o Estado espanhol que tem de resgatar os bancos espanhóis. Mas na perspectiva do Estado espanhol só pode fazê-lo com ajuda de outros Estados, especialmente a Alemanha. Aí voltamos aos problemas da construção da zona do euro, que não é homogênea, está cheia de contradições. Além disso, não é uma aliança, construiu-se como um mecanismo hierárquico, com alguns países no topo, que não estão preparados para assumir as perdas dos bancos, economias e Estados periféricos.

A dívida grega era em grande parte com bancos de outros países europeus, especialmente a Alemanha. Não ajudar o Estado grego pode levar ao colapso do sistema bancário alemão.

Claro, e isso tem sido um dos pontos em relação aos quais os políticos europeus têm realmente brigado. Há uma interdependência da crise, clara desde os primeiros sinais de vulnerabilidade, que, além do mais, não tem como ser resolvida. E é um problema muito sério: se os bancos começarem a entrar em colapso, a própria zona do euro vai desaparecer. Isso não é algo que a classe dominante alemã e francesa queira. Mas, ao mesmo tempo, não quer dar dinheiro para a periferia para salvar o sistema e não quer transformar a zona do euro de maneira drástica, pois o modelo europeu atual, por mais contraditório que seja, é positivo para as grandes corporações. A falta de solução da crise europeia não tem a ver com a incompetência dos políticos europeus, o que muita gente costuma dizer ? "a Angela Merkel não é boa", "o Nicolas Sarkozy é ruim". Esses políticos são geralmente muito melhores do que a média dos jornalistas ou analistas econômicos: se houvesse algo a ser feito, a Merkel e o Sarkozy saberiam. O problema é estrutural; tem a ver com os interesses e os mecanismos em jogo na zona do euro. Todos sabem que há um problema, mas não têm como adotar uma medida comum, como a do governo estadunidense. Há um mosaico de intervenções, que não atingem de maneira sistêmica a fonte da crise.

Diante da incapacidade de uma solução conjunta, no nível da zona do euro, os países periféricos têm de tomar medidas de proteção de sua soberania para sair da crise e, especialmente, impedir que seus efeitos continuem tendo impactos tão negativos em suas populações.

Os países periféricos não serão capazes de resolver suas crises, de maneira a atender aos interesses de suas populações, de suas sociedades, a não ser que tomem as rédeas de seu próprio futuro. As decisões que estão sendo tomadas no centro da União Europeia e impostas à periferia são estritamente do interesse do centro. O que tem de acontecer no centro é mais complexo; não está tão claro quanto o que tem de acontecer na periferia. Vale ressaltar que, quando isso acontecer com os países periféricos, eles têm de evitar um nacionalismo econômico cego e autodestrutivo. Tomar as rédeas de seu futuro, assumir o comando de suas políticas públicas para proteger suas populações, não é a mesma coisa do que assumir uma atitude de nacionalismo econômico, por mais que possa levar a isso. O verdadeiro desafio de fazer políticas públicas progressistas, para a esquerda, é conseguir adotar um programa que não fique preso ao nacionalismo econômico.

Você está sugerindo que a Grécia saia da zona do euro? Quais as consequências disso?

Os problemas da dívida e do euro estão inextricavelmente relacionados. A Grécia tem de sair do euro e declarar a moratória da dívida. Não existe um sem outro. Para a Grécia, não pagar a dívida significa algo diferente do que para outros países periféricos, como Espanha e Portugal. Nos últimos dois anos, a dívida grega tornou-se uma dívida pública; antes, os credores eram bancos, agora são instituições internacionais. A natureza da dívida se modificou, a natureza da moratória grega será diferente, quando vier, porque virá. A dívida é insustentável. Mas será mais difícil nessas condições declarar moratória, levando a mais tensões interestatais. Isso é culpa dos políticos europeus, que têm administrado o controle dessa crise desde 2010. A moratória da dívida é necessária e tem de ser soberana, iniciada pela Grécia, não pelos credores, e democrática, com uma comissão auditora, examinando a legitimidade dos empréstimos, prestando contas de maneira democrática, para que se possa descobrir como e por que o país se endividou tanto. Toda dívida é uma questão de classe e tem de ser examinada dessa maneira, ou seja, com participação da sociedade civil, dos trabalhadores, para que se chegue a uma solução de defesa da soberania popular. A moratória é necessária agora e a saída da zona do euro deveria acontecer ao mesmo tempo. Isso será um choque enorme, maior agora do que teria sido há dois anos, porque a economia está mais enfraquecida, após dois anos do que chamaram de resgate da Grécia. Mas não há escolha.

O que acontece depois?

As condições que serão estabelecidas serão de emergência. A melhor forma de lidar com elas é com mobilização social e política. Os trabalhadores têm de ter o controle e administrar essas condições de emergência, de maneira coletiva, coerente e organizada. Haverá problemas monetários, já que tem de se criar um sistema para a circulação de uma nova moeda, que tem de ter câmbio e outros mecanismos para funcionar. A intervenção do Estado é necessária para controlar os problemas monetários e assegurar que a nova moeda se torne viável e dominante. Haverá problemas com bancos, que não conseguirão lidar com a confusão de ter obrigações em euro e atender aos requisitos para a circulação da nova moeda. Os bancos terão de ser nacionalizados, colocados sob um sistema de propriedade pública. Haverá um período sem funcionamento bancário. O controle de capital tem de ser imposto imediatamente. Tem de se iniciar um processo de reestruturação dos bancos, criando instituições que possam estimular o desenvolvimento com preocupação social. Haverá problemas comerciais, de acesso a mercadorias. No médio prazo, a saída da zona do euro será positiva, porque a nova moeda será desvalorizada e, portanto, haverá mais produção interna e um mercado interno revigorado. Isso pode levar ao renascimento do emprego. A dependência atual da Grécia em relação aos produtos de fora é ridícula e isso poderá reverter essa situação. As exportações também podem ser beneficiadas.

Os efeitos positivos serão vistos em um ano. Mas no curto prazo haverá problemas de acesso a mercadorias básicas, em relação às quais o país tem um déficit, o que inclui alimentos, medicamentos e petróleo. Para lidar com isso, será preciso adotar medidas administrativas, condições de guerra para falar francamente, com intervenção do Estado, nacionalização e direção do consumo, para garantir que os mais vulneráveis estejam protegidos, que haja justiça em como as mercadorias são distribuídas, que crianças tenham acesso ao que precisam, até que a situação seja normalizada, o que é uma questão de tempo. Tudo isso soa como algo muito duro e difícil, mas tudo isso já está acontecendo na Grécia agora, com desemprego, cortes salariais, falta de acesso a bens de consumo. Mas isso está acontecendo atualmente de maneira desigual, sem atingir quem tem mais e devastando a maioria da população. Medidas administrativas do tipo que estou sugerindo garantem que o sacrifício seja partilhado, até que o país esteja melhor.

Essas são medidas de reorganização econômica após uma eventual saída da zona do euro. O que precisa ser feito para tirar o país da crise?

Essas medidas não são a resposta toda para solucionar a crise, são apenas os primeiros passos para que a Grécia e os outros países periféricos saiam da armadilha na qual estão atualmente. Essas medidas têm de servir para a apresentação de um amplo programa de transformação social e econômica. A Grécia precisa de reformas profundas, colocando sua economia em outro rumo, reforçando o Estado, adotando uma nova política industrial.

Você diz que a moratória da dívida é necessária, inevitável, mas o que garante que o governo grego, que aceitou os planos de austeridade e reprime duramente manifestações populares, vai declará-la?

Não haverá moratória e saída da zona do euro, se não se discutir democracia e soberania nacional para a Grécia. A União Europeia não é um mecanismo para proteger a democracia, contém em si vários mecanismos para suprimir a democracia, impondo medidas e práticas antidemocráticas de fora, mesmo em países grande, como a Itália. Isso é muito perigoso. Há obviamente interesses poderosos na Grécia que se alinham com a União Europeia, porque acreditam que sua posição econômica está protegida. É um tipo de aliança com a presença externa imperialista. Mas a população grega não aceita isso nem a negação da democracia. Precisa restabelecer a democracia e a saída da zona do euro pode trazer as condições para isso. Está relacionado a isso o fato de a Grécia ter perdido soberania nacional, tornando-se rapidamente uma neocolônia, sob condições de protetorado, que a classe dominante aceita, mas a população grega não. A moratória da dívida e a saída da zona do euro podem ser mecanismos para resgatar a soberania nacional.

Você parece esperar que medidas emergenciais levem a práticas democráticas, mas geralmente são um contexto para regimes autoritários.

Não acho que haja o risco de um golpe militar na Grécia, agora. Há uma noção geral no exército de que o sistema vigente não funciona, não tem interesse em manter a situação. O exército tem sofrido ele mesmo com os planos de austeridade, tanto com cortes em gastos militares quanto em salários. O exército considera que o problema é profundo e complexo e que uma ditadura militar não conseguiria responder a isso. O problema não é o mesmo do passado, comunismo ou anticomunismo, mas muito mais profundo, relacionado à estrutura econômica, à direção social do país, e o exército grego não tem nenhum projeto para solucioná-lo. E acredito que os oficiais sabem disso. É mais provável que testemunhemos muita repressão policial, o mecanismo repressivo do Estado, por mais que a fachada democrática seja mantida. Mas isso ainda tem que ser visto, pois a própria polícia sofreu com as políticas de austeridade. Não será possível manter um alto nível de repressão por muito tempo.

Há um movimento crescente de extrema direita na Grécia.

Por enquanto, são os principais beneficiários das políticas de austeridade. Isso é péssimo, por mais que seja compreensível. É reflexo da inabilidade da esquerda de formular uma alternativa coerente. Alguns setores da esquerda têm sido muito críticos em relação ao que está acontecendo, mas defendem uma alternativa que mantenha a Grécia na zona do euro. Outros setores rejeitam todas as políticas europeias, mas não sentem que haja uma solução no presente. Diante dessa inabilidade da esquerda de ter uma alternativa coerente, muitos movimentos de direita, que têm um discurso de confrontação e nacionalismo agressivo, têm crescido e isso polariza a política grega. Mas, para fora da disputa partidária, há realmente muito acontecendo nos protestos, algo que se pode chamar de unidade classista das ruas, pois toda uma variedade de pessoas não aceita o que está acontecendo e luta contra as imposições da austeridade sem parar há dois anos. Ainda não se conseguiu fazer dessa unidade na luta uma frente coerente, que leve a uma alternativa política. Mas sou otimista, pois a crise não está solucionada, deve até piorar, as condições de vida das pessoas são insustentáveis e, principalmente, as pessoas não enxergam um futuro para a Grécia e suas vidas dentro do quadro político e econômico atual. As pessoas conseguem suportar todo tipo de problemas, se imaginam que sua situação vai melhorar no futuro. Isso não é o caso na Grécia. Nessas condições, a luta vai continuar, assim como a busca por uma alternativa viável e realizável.
15/Maio/2012

Do mesmo autor:
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Ruptura ? Uma via para sair da crise da Eurozona
"O BCE não é a solução mágica para a crise da eurozona"

[*] Professor de Economia da School of Oriental and African Studies (SOAS), membro do Research on Money and Finance , autor de Crisis in the Euro Zone .

O original encontra-se em http://www.brasildefato.com.br/node/9579

Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info/ .

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