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16-03-2013

Link permanente 19:42:44, por José Alberte Email , 4156 palavras   Português (GZ)
Categorias: Ensaio

CANTA O MERLO: Marx e a crise: os fantasmas, agora, são eles

por Mauro Luís Iasi [*]

http://www.resistir.info/crise/marx_crise_mar13.html

"Marx, hoje, volta a rondar a Europa, os EUA, a Ásia, nossa América Latina. Não somos mais um mero espectro. Somos cada vez mais de carne, osso, sangue e sonhos, enquanto eles se transformam a cada dia em fantasmas."

A atual crise do capitalismo mundial, além das graves consequências que traz para os trabalhadores, acabou por propiciar um efeito direto no debate teórico e acadêmico: uma retomada das ideias de Marx. Por que isso ocorre? Que tipo de previsão foi realizada por Marx que o faz tão maldito, perseguido e tão renitente em nascer e renascer cada vez que o julgam morto em definitivo?

Passamos, nós marxistas, pelas décadas de 1980 e 1990 resistindo no universo acadêmico como se fôssemos dinossauros anacrônicos, insistindo em teses que desmoronam diante das "evidências" pós-modernas, que afirmavam o fim da validade da teoria do valor, o fim da centralidade do trabalho, das classes e, por consequência, das formas organizativas e dos projetos políticos próprios da classe trabalhadora.

Karl Offe [2] chegou a afirmar que, depois das ideias de Touraine, Foucault e Gorz, o pensamento marxista não teria mais muita "respeitabilidade cientítico-social". O próprio Keynes, que alguns se preparam para resgatar como balsamo benígno contra os males da desregulação, sobre O Capital de Karl Marx decretou:

"Como posso aceitar uma doutrina que estabelece como bíblia, acima e além de qualquer crítica, um manual econômico obsoleto que reconheço não só como científicamente errôneo, mas também sem interesse ou aplicação para o mundo moderno?" [3]

Logo na sequência do mesmo texto, Keynes confirmará sua postura "científica" ao declarar preferir a burguesia que "apesar de suas falhas, representa a prosperidade" e certamente leva as "sementes de todo avanço humano", criticando aqueles que "preferem a lama ao peixe" e "exaltam o proletariado rude" contra a burguesia.

Parece que a burguesia continua, em sua incansável rota em direção ao avanço humano, cometendo "algumas falhas", que ameaçam a humanidade para garantir o avanço do capital. O proletariado rude, imerso na lama na qual tem que viver, mais uma vez tenta compreender a natureza da vaga que ciclicamente o afoga e, mais uma vez, o velho Karl Marx se levanta de seu descanso no cemitério de Londres para assombrar os respeitáveis senhores da ciência.

Qual seria o elemento teórico que encontramos em O Capital que permite que Marx seja ainda tão contemporâneo? Primeiro, poderíamos dizer que Marx era, de certa forma, mais anacrônico em sua época do que agora. Como pensa o capital como um conceito, um movimento do real que dialeticamente transita através de suas formas e, sendo histórico, nasceu, se desenvolveu e um dia irá ser superado, Marx projeta, pela análise precisa do ser do capital, aquilo que denomina de modo de produção especificamente capitalista, ou seja, um mundo subsumido inteiramente ao metabolismo do capital, no qual reina a subordinação real do trabalho ao capital, no qual a mercadoria e o dinheiro são realidades universais, subordinando o valor de uso ao valor de troca.

Ao projetar o capital maduro e completo é que Marx pode avaliar o processo possível de sua superação. Um procedimento que os antigos, antes que os pós-modernos convencessem o mundo acadêmico a aderir a um novo agnosticismo, chamavam de ciência. Ora, este capital maduro estava longe de corresponder à realidade de meados do século XIX; no entanto, para desespero da respeitável intelligentsia, o capitalismo contemporâneo se parece muito mais com a previsão de Marx do que com a projeção mítica anunciada pelos arautos do liberalismo e da economia política.

Apesar de autores como Boaventura de Souza Santos afirmarem que, considerando os três gigantes clássicos do pensamento social (Marx, Durkheim e Weber), Marx teria sido entre eles o que "errou de forma mais espetacular" [4] . Mas o desfecho do mundo burguês no inicio do século XXI se caracteriza inequivocamente por uma constatação: o mito liberal morreu!

Qual é a essência do mito liberal e como Marx se contrapôs a ele? O fundamento do mito liberal pode ser resumido da seguinte maneira: o capitalismo é um sistema virtuoso, pois permite que cada um, buscando seu próprio interesse egoísta, contribua para o estabelecimento do bem comum. Dessa maneira, é o único que pode articular de maneira eficiente os valores do indivíduo, da liberdade, da propriedade e da igualdade. O capitalista busca lucro, mas para obtê-lo produz mercadorias e para tanto gera emprego. O trabalhador quer pagar suas contas e viver e por isso vende sua força de trabalho. Com seu salário compra as mercadorias oferecidas pelos capitalistas e assim se fecha o ciclo. O burguês tem seu lucro, o trabalhador seu salário e a sociedade cada vez mais mercadorias com que satisfazer suas necessidades.

O sistema capitalista seria, ainda, virtuoso não apenas pelo equilíbrio entre interesses individuais egoístas e interesse geral, mas por sua dinâmica: quanto mais o capital produz mercadorias, mais contrataria, mais salários distribuídos intensificariam o consumo, que levaria a nova produção, mais contratações e novos salários que induziriam ao aumento do consumo e assim por diante, da melhor forma possível e no melhor dos mundos.

Recentemente, o presidente Lula conjurou o mito com todas suas letras ao afirmar que diante da crise os trabalhadores em vez de pedir aumento deveriam fazer com que suas empresas produzissem mais, para aquecer o Mercado, atender as necessidades do mercado consumidor e daí garantir, não apenas empregos como a possibilidade futura de melhores salários.

Apesar da fé consagrada de muitos ao mito, Marx escreveu O Capital para comprovar a falácia deste argumento central do pensamento burguês. Podemos resumir desta forma as principais conclusões do pensador alemão para contrapor uma visão científica à ideologia liberal: a) quanto mais cresce a concorrência entre os capitalistas, menor é a livre concorrência e maior é a tendência ao monopólio; b) nas condições de uma concorrência entre monopólios, os capitalistas tendem sempre a investir mais em capital constante (máquinas, instalações, novas matérias primas, etc) para aumentar a produtividade do trabalho, do que em capital variável (a compra da força de trabalho) alterando drasticamente a composição orgânica do capital em favor do trabalho morto; c) o resultado aparentemente paradoxal desse processo é uma tendência à queda na taxa de lucro, ou seja, quanto mais o capital cresce, maior é a produtividade do trabalho pela aplicação consciente da técnica e da ciência ao processo de trabalho, quanto mais o capital se torna monopolista e mundial, menor é a taxa de lucro.

Na verdade, a tautologia liberal afirma que quanto mais o capital cresce, mais ele cresce. O que Marx anunciou pela dialética do capital, compreendido pela minuciosa análise que se nega a permanecer na superfície aparente dos fenômenos, é que quanto mais o capital cresce, mais ele produz a crise que é própria à sua natureza, ou seja, de ser valor em constante processo de valorização, ou seja, uma crise de superacumulação que se combina de forma explosiva com manifestações de superprodução, subconsumo e queda tendencial da taxa de lucro.

O fato desconcertante para os adeptos dos planos de aceleração do crescimento, ou da irracionalidade exuberante como batizou Greenspan (ex-presidente do Banco Central norte-americano), é que o que causa a crise não é a carência, mas a abundância, a pletora. Um raciocínio típico de Marx, isto é, não argumenta com o adversário teórico pela negação de sua tese, mas pela suposição de sua plena realização. No caso concreto de nossa análise, afirma que a dinâmica do capital leva à aparente confirmação do mito liberal, levando a sociedade a uma espiral irresistível de produção, consumo e reinvestimento; no entanto este reinvestimento sempre se dá, pela própria concorrência, seja livre ou monopólica, alterando a composição orgânica em favor do capital constante e, portanto, alimentando a queda tendencial da taxa de lucro.

No momento agudo deste processo, o capital realizado ao final do ciclo, e que deveria voltar ao início como novo capital inicial, encontra todo o metabolismo do capital saturado de investimentos, muitos meios de produção instalados, muitos trabalhadores empregados, muitas mercadorias produzidas, e tudo isso com taxas de lucro menores. Em momentos normais, o capital migra para outra área, seja para produzir outro tipo de mercadoria, seja para outra região em busca de elementos que possam baratear seus custos com força de trabalho, matérias primas ou outros elementos do capital constante. No entanto, nas épocas que antecedem às crises, considerando o capital total, é como se o capital não encontrasse onde aportar e começa a parar.

Como o capital é, antes de qualquer coisa, movimento do valor em constante processo de valorização, sua crise ocorre quando este movimento se paralisa em algum ponto do ciclo do capital: como dinheiro que não consegue virar crédito, como capacidade instalada e ociosa, como força de trabalho contratada e impedida de trabalhar, como mercadoria produzida e que não encontra o consumo na proporção de sua oferta, ou ainda pior, como consumo realizado que alimenta a fogueira da superacumulação.

Para que possamos entender o desfecho da crise e, principalmente, os efeitos sobre a classe trabalhadora, é necessário recorrer a um raciocínio essencial que Marx desenvolve ao tratar de sua tese sobre a queda tendencial da taxa de lucro no Livro III de O Capital: as contratendências.

Marx precisava defender sua tese em um momento no qual o mito liberal esbanjava saúde. A primeira grande crise do capital, entre os anos 1870 e 1880, ofereceu para o autor os elementos centrais de sua afirmação. No entanto, o capital estava destinado a sair dessa crise e de outras. É preciso não confundir a teoria de Marx sobre a crise com qualquer afirmação messiânica sobre uma crise final catastrófica que levaria por si mesma ao fim do capitalismo [5] . Para o autor, o capital desenvolveria elementos contra-tendenciais que fariam da queda na taxa de lucro uma tendência e das crises uma realidade cíclica, ou seja, em outras palavras, não se trata de uma linha descendente que culmina no fim do poço, mas de um movimento de crescimento, auge, crise e retomada até novo ápice que leva a uma nova crise.

As chamadas contratendências [6] seriam todas as ações empreendidas pelo capital no sentido de se contrapor à queda na taxa de lucro. Podemos resumi-las da seguinte maneira: a) aumento do grau de exploração da classe trabalhadora, seja pelo aumento da jornada de trabalho, seja pela intensificação do trabalho; b) redução dos salários; c) redução dos preços dos elementos do capital constante, tais como buscar matérias-primas mais baratas, máquinas mais eficientes, subsídios para insumos e serviços essenciais como aço, mineração, energia, armazenamento, transporte e outros; d) formação de uma superpopulação relativa, ou seja, reunir um contingente de força de trabalho muito além das necessidades do capital e mesmo além do exército industrial de reserva como forma de pressionar o valor da força de trabalho para baixo; e) ampliação e abertura de mercado externo como forma não apenas de desovar o excedente produzido, como de encontrar fontes de matéria prima e recursos abundantes, barateando seus custos; d) o aumento do capital em ações, isto é, buscando compensar a queda na taxa de lucro com juros oferecidos pelo mercado de papéis oferecidos por empresas ou por títulos do Estado.

Notem que todas as contratendências escondem um sujeito oculto. Trata-se, já no final de O Capital, de mais um embate, este decisivo, contra a ideologia liberal. Quem administra os limites da exploração do trabalho, seja pelo tamanho da jornada, seja pelas condições gerais da contratação? Quem determina os limites legais da compra da força de trabalho e seu valor? Quem pode baratear os elementos do capital constante por meio de subsídios, créditos facilitados, isenções e outros meios conhecidos? Quem assume o custo de administração, manutenção e controle sobre uma superpopulação relativa cujo papel é nunca entrar no mercado e trabalho? Quem representa os interesses das corporações monopólicas na ampliação, conquista e manutenção de mercados em disputa com outros monopólios? Finalmente, quem se presta ao papel de oferecer títulos que remuneram com taxas de juros generosas sem se preocupar em perder dinheiro ou comprar de volta títulos podres e sem valor?

Esse sujeito, que mal se oculta, só pode ser o Estado! Eis que se desmorona a mãe de todos os mitos liberais: o Estado não deve intervir na livre concorrência entre os indivíduos pela disputa de riquezas e propriedades, resumido na tese da não intervenção estatal na economia. Para Marx, o Estado sempre foi um fator determinante no sociometabolismo do capital, em seu nascimento na acumulação primitiva de capitais, na garantia das condições gerais chamadas de extraeconômicas (garantia da propriedade, subordinação legal e institucional da força de trabalho ao capital, defesa da ordem, etc.) no período de ouro do liberalismo, na representação dos monopólios na partilha e repartilha do mundo, fazendo dos interesses das corporações o interesse nacional; e, por fim e mais importante, nos momentos de crise em que o custo da exuberância irracional, que levou à apropriação indecente da riqueza socialmente produzida na forma de acumulação privada, tem que ser socializado por toda a Nação.

Além do evidente papel do Estado no comando e gerenciamento das contratendências, fica evidente o caráter de classe destes mecanismos, o que nos ajuda a entender os efeitos que recairão sobre os trabalhadores. A intensificação da exploração, que leva ao aumento do desgaste da força de trabalho e à intensificação dos acidentes e das doenças profissionais; a redução de salários, assim como a precarização das condições de contratação, com relativização e perda de direitos; o aumento da superpopulação relativa, que tem por base a intensificação da expropriação dos camponeses e de todos que ainda conseguem manter seus meios diretos de trabalho, e que leva à explosão urbana com todas suas consequências conhecidas no campo da habitação, dos serviços essenciais como educação e saúde, mas também no que se refere a questão da violência e da criminalidade.

Mesmo as ações que aparentemente não se relacionam diretamente com o agravamento das condições de exploração e a precarização das condições de vida dos trabalhadores acabam por ter efeitos muito sérios sobre a vida de quem trabalha. Os subsídios e isenções ao capital, para baratear os elementos do capital constante ou ajudá-los a manter seus patamares de venda, só podem sair do fundo comum do Estado e, portanto, à custa de cortes dramáticos em serviços públicos duramente conquistados. Só em uma semana, o governo brasileiro gastou R$50 mil milhões para manter o valor do dólar, enquanto durante todo o ano anterior foram gastos um pouco mais de R$ 20 mil milhões com a saúde, apenas para ficar em um exemplo. As fortunas gastas para manter bancos em funcionamento só podem sair do recurso público numa clara expressão de privatizar a pequena parte da produção social da riqueza que ficou no espaço publico, sem que em nenhum momento se questione o volume da riqueza que no ciclo de crescimento permaneceu na esfera da acumulação privada.

Talvez o mais grave quanto aos efeitos da ação do Estado na gestão das contratendências para os trabalhadores e a própria humanidade seja um aspecto para o qual Marx não deu maior atenção: a expansão do mercado externo. Quando Marx escrevia o último livro de O Capital, a ordem monopolista mal fazia sua estreia histórica. Para o autor, tratava-se apenas de encontrar mercados para os produtos e encontrar fontes de matérias-primas. Ocorre que, com o pleno desenvolvimento dos monopólios, passa a ser decisivo, como estudou mais tarde Lenin, a exportação de capitais, e daí a necessidade de controle das áreas de influência, levando a constante partilha e repartilha do globo, primeiro entre os monopólios e depois entre as nações que os representam, levando à Guerra.

A fase imperialista e a prática da guerra, que lhe é inseparável, fizeram desta contratendência quase que a síntese da ação do Estado em defesa do capital e da manutenção de suas taxas de lucro contra a tendências das mesmas em cair. Não apenas pela enorme destruição material que a Guerra causa, abrindo campo para novas inversões em condições de lucratividade retomada em patamares aceitáveis para o capital, como pelo próprio estabelecimento de um complexo industrial-militar que vende ao Estado mercadorias que terão que ser substituídas quer sejam ou não usadas (como no caso do arsenal nuclear), como teorizou de forma precisa Mészáros.

Podemos resumir, afirmando que, na dinâmica das contratendências, as vítimas são os trabalhadores, os beneficiários a burguesia monopolista e o instrumento o Estado, não apenas como aparato técnico jurídico-adiministrativo, mas também e principalmente pela capacidade que lhe é própria de apresentar como universal um interesse que é particular. Nesse campo, o da luta política, a crise é o momento de retirar da gaveta do arsenal da política burguesa a tese do pacto social.

No momento da crise se reapresentam todas as alternativas em disputa. Podemos resumi-las em três posições: a) a afirmação de que tudo não passa de um incidente, mais ou menos grave, mas de qualquer forma um incidente que não compromete a estrutura do mito, ou seja, basta voltar a crescer que os empregos voltam, o consumo cresce, e tudo volta ao círculo virtuoso do capital; b) a retomada da crítica keynesiana, que aparece simultaneamente como afirmação da ordem do capital com todos os elementos que lhe são próprios (inclusive a livre concorrência), mas que afirmará a necessidade de retomar mecanismos de regulação, ou seja, não se trata de evitar a livre concorrência, mas de regular certos aspectos para que suas consequências inevitáveis não gerem condições catastróficas que possam levar ao questionamento do sistema; c) a alternativa socialista, ou seja, aquela que se fundamenta na afirmação sobre a necessidade da produção social da riqueza ser gerida também de forma social, levando à acumulação social da riqueza ser concebida como valor de uso e não mercadoria.

No presente quadro, a primeira, um pouco na defensiva e sem a arrogância que caracterizou o último ciclo, não desaparecerá. Ela se inscreverá na afirmação que basta o Estado dar os elementos para que o capital volte a crescer, sem que interfira na disputa econômica direta, por exemplo, através das estatizações. A segunda, de corte keynesiana, será a mais ativa e, portanto, mais enganosa e perigosa para os trabalhadores. Sob o manto de uma necessidade comprovada de maior regulação, que deverá se inscrever nos limites do mundo financeiro, pode chegar até a defender, como aliás já está acontecendo, algumas ações estatizantes. No entanto, esta opção mal esconde uma enorme luta política que marcou o século XX. Foi preciso ceder a determinadas demandas dos trabalhadores, por direitos e condições de vida, frente à ameaça de superação revolucionária da ordem, representada pelo advento da revolução Russa de 1917.

A solução keynesiana, que não se revestiu no século XX necessariamente com a forma de um Welfare State social democrata de perfil europeu, nos EUA prevaleceu com o New Deal, mantendo a base de uma economia de mercado fundada na livre concorrência, e na América Latina, por exemplo, a regulação estatal se deu na forma de ditaduras militares mais preocupadas com o Estado do que com o bem-estar. No quadro conjuntural atual, de inflexão política, de desmonte e isolamento das tímidas alternativas de transição socialista iniciadas no século XX, os regulacionistas tendem a se comportar mais como liberais contidos e responsáveis do que como social democratas.

Aos trabalhadores cabe uma outra ordem de tarefas. Primeiro: resistir, não aceitando que o ônus da crise recai sobre o setor que mais se penalizou no ciclo de crescimento. Não apenas lutando para que nenhum direito lhe seja retirado, como se recusando a proposta do tipo redução de jornada com redução de salário ou qualquer precarização de suas já precárias condições de contrato e de trabalho. Segundo: forçar o Estado para que se recuse a usar o recurso público para dirimir perdas ou incentivar produtividade de um setor da economia monopolizada, que lucrou fortunas e as acumulou privadamente. Enquanto o governo se regojiza com a informação de que os 20% mais pobres passaram de U$1,00 por dia para U$2,00 de maneira que saíram de uma posição que os colocava abaixo da linha da miséria para uma condição de dignidade duvidosa na linha da miséria, as 500 maiores empresas do Brasil, entre 2002 e 2007 viram seus lucros saltarem de R$ 2,9 mil milhões para R$43 mil milhões.

Em terceiro lugar, está na hora de a classe trabalhadora deixar de optar entre qual é a ortodoxia burguesa que mais lhe convém, se a liberal ou a keynesiana, e dizer a pleno pulmões que as previsões liberais ou regulacionistas, que prometiam que o crescimento econômico levaria a uma paulatina diminuição das desigualdades sociais e a um mundo justo e equilibrado, naufragaram triunfalmente. Depois os marxistas é que são acusados de "determinismo econômico"! O que é a tese de que os problemas sociais só se resolverão com o crescimento econômico de tipo capitalista senão a mais mecânica afirmação economicista?

O Brasil tinha como modelo os EUA e a Europa. Queríamos, na expressão de Galeano, ser como eles. Pois bem, já somos. Somos parte integrante do sistema capitalista mundial, no papel que nos cabe, como área de saque do imperialismo. Uma área especial que, devido ao grau de investimento imperialista dos grandes monopólios, constituímos como uma formação social com um capitalismo moderno e completo que inclusive ensaia seus primeiros movimentos no sentido do imperialismo tupiniquim, como tem teorizado Virgínia Fontes, sem, contudo, nunca sair de baixo das asas dos centros hegemônicos do imperialismo mundial.

Devemos recusar o papel miserável de entrar no debate que busca "como sair da crise". Devemos pautar o debate, o único que interessa aos trabalhadores, sobre qual forma de sociabilidade atende os interesses reais dos trabalhadores e da humanidade e pode, de quebra, evitar que ciclicamente todo o esforço produtivo seja destruído por uma nova crise que, para salvar o capital e suas taxas de lucro, destrói produtos, fábricas e seres humanos em uma escala genocida. Para nós, marxistas, existe essa alternativa: é necessário e urgente que a produção social da vida liberte-se das relações sociais de produção de tipo capitalista, superando a propriedade privada dos meios de produção e desenvolvendo as forças produtivas materiais como recursos coletivos e patrimônio da humanidade, e não propriedade dos monopólios burgueses, de maneira que possamos caminhar para a superação da forma mercadoria e afirmar a centralidade do valor de uso.

Nossa meta socialista pode ser compreendida por aqueles que nos interessam que a compreendam? Em grande parte esta é a arte da política, como disse Bourdieu: a política é a arte de "fazer crer que se pode fazer o que se diz" [7] . Nós acreditamos que sim e que podemos expressar os fundamentos de nossa proposta através de três afirmações muito simples: 1) ninguém pode se apropriar de recursos necessários à produção das condições que garantem a existência coletiva da humanidade; 2) ninguém pode se apropriar em caráter privado da força de trabalho humana, pois ela é a principal força de produção e o principal recurso comum da espécie para garantir sua existência, não podendo assumir a forma de uma mercadoria; e 3) a riqueza coletivamente produzida não pode ser acumulada privadamente.

Como dizia Brecht, "uma coisa muito simples, dificílima de ser feita". No entanto, nesse ponto a crise nos ajuda, Nunca ficou tão didático o caráter destrutivo da atual forma do capitalismo monopolista e imperialista, nunca ficou tão evidente a falácia do mito liberal, nunca foi tão urgente dotar a humanidade de uma alternativa para além da ordem do capital.

Os liberais, velhos, neos e recentes; os pós-modernos, pós-industriais, pós-socialistas; todos timidamente voltam ao "refugo das livrarias vermelhas", ao qual Keynes havia condenado a leitura marxista como nada tendo de aplicabilidade prática para os tempos modernos, para discretamente voltar a ler Marx e entender o que se passou e o que seus ideólogos não conseguem lhes explicar. Marx, hoje, volta a rondar a Europa, os EUA, a Ásia, nossa América Latina. Não somos mais um mero espectro. Somos cada vez mais de carne, osso, sangue e sonhos, enquanto eles se transformam a cada dia em fantasmas.
Notas

1 Apresentado inicialmente no Seminário sobre a Crise Econômica Mundial, promovido pelo PCB São Paulo em novembro de 2008 e modificado para a publicação.

2 Offe, Claus. Capitalismo desorganizado. São Paulo: Brasiliense, 1984, p. 195.

3 Keynes, John Maynard. A short view of Rússia [1925]. Apud Meszáros, Istvan. Para além do Capital. São Paulo: Boitempo, 2002, p. 16.

4 "Max Weber e Durkheim falharam menos estrondosamente que Marx nas suas previsões". (Santos, Boaventura de Souza. Pela mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade. São Paulo: Cortez, 1999, p. 34.) Do mesmo autor podemos citar a seguinte passagem: "Se o marxismo é uma ciência tem que se submeter à prova dos fatos e os fatos não vão no sentido previsto por Marx" (idem p. 25)

5 Para uma análise crítica sobre a tese da crise final, ver O encontro da revolução com a História, de Valério Arcary (São Paulo: Xamã/ Institute Rosa Sundermann, 2006)

6 Ver o capítulo XIV, do livro III, volume 4 de O Capital de Karl Marx.

7 Bourdieu, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertran Brasil, 1998, p. 185.

[*] Membro do Comitê Central do PCB .

O original encontra-se em pcb.org.br/...

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

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CANTA O MERLO: USA-Vaticano, o novo genocido programado

EEUU e Vaticano aliados contra a Nossa América Bolivariana

Carlos Antón e Carlos Vélez - www.aporrea.org
15/03/13 - www.aporrea.org/internacionales/a161448.html

No primeiro parágrafo do 18 Brumario, Marx expressa: "Hegel di em algumha parte que todos os grandes factos e personagens da história universal aparecem, coma se dixéssemos, duas vezes. Mas esqueceu-se de agregar: umha vez como tragédia e a outra como farsa".

Talvez na América Latina toca-nos viver duas vezes (ou mais) a tragédia.

A entronizaçom do cardeal de Bos Aires, Jorge Bergoglio como o papa Francisco, nom pode ser tomada "ainda polos cristaos católicos argentinos- com veemência chauvinista. Ao invés, o drama ao que assistimos é que, mais umha vez a maridagem CIA"Vaticano refunda-se para acometer com a sua fúria aos povos em revoluçom. A ALBA, a CELAC, a UNASUR, a revoluçom bolivariana estám na mira dos seus mísseis e da sua cruz. Como há 500 anos a espada e a cruz contra os povos.

EEUU-Vaticano um velho maridagem

A finais da Segunda Guerra Mundial, depois de invadir a Itália, aos EEUU criou-se-lhe um problema, como reconstruir o Estado italiano ao serviço do capital. O caso é que o único sector cujo prestígio era reconhecido polo povo italiano eram os comunistas. O PCI, que ganhara as suas medalhas na luta antifascista, ademais foram os que ajustiçárom a Benito Mussolini, il Ducce. E para complicar mais a questom estavam armados.

De ali que os ianques conceberam um plano que descansou sobre três eixos: o Vaticano, a máfia e eles mesmos. Washington proveu o dinheiro, a máfia italiana os sicários para assassinar comunistas e semear o terror e o Vaticano santificou a cruzada à vez que rearmava a velha Democracia Cristá. Eram os tempos do papa Pio XII, também conhecido como o papa-nazista.

Anos mais tarde mais tarde, a fins dos anos ´70 chega ao Vaticano Joám Paulo II (1978) em tanto que Ronald Reagan o fai à presidência dos EEUU (1980).

A entronizaçom do cardeal polonés, foi um acto mais da Guerra Fria e da ofensiva ianque contra a Uniom Soviética e o comunismo. A aliança entre a CIA e o Opus Dei permitiu que, à morte de Paulo VIM depositassem a Karol Wojtyla -o homem que o Opus elegeu para ser papa- na "cadeira de Som Pedro". A tal ponto era um soldado fiel Karol Wojtyla, que na Vila Tevere, esquadra geral do Opus Dei em Roma baixou a rezar ante a tumba de monsenhor Escrivá de Balaguer (criador da ordem) antes de entrar no conclave do que sairia Papa.

A luta contra o comunismo de Joám Paulo II tivo um capítulo especial na América Latina. Por esses anos os sandinistas derrocaram ao dictador nicaraguano Anastasio Somoza, e contra todas as possibilidades da época erigírom um governo popular (1979) na Nicarágua de Sandino. No governo vermelho e preto, quatro sacerdotes católicos eram ministros. A influência da chamada igreja dos pobres, que se sustinha na Teologia da Libertaçom, cresceu por Centro América e o resto da América Latina.

Entom o Vaticano e Washington decidiram que algo havia que fazer.

Enquanto Reagan instalava aos contras na fronteira entre Honduras e Nicarágua para atacar aos sandinistas, o Vaticano organizou a viagem de Wojtyla a Nicarágua, como umha nova cruzada. Agora contra a heresia comunista. Muito já se escreveu sobre esses factos e deixamos aí a crónica.

Finalmente a igreja alcançou domesticar e emudecer aos curas dos pobres, em tanto um dos períodos mais reaccionários do século XX expandia-se sobre o planeta e a América Latina. A maridagem entre EEUU e o Vaticano, colheitava seus frutos.

Os povos latino americanos rebelam-se

Trás a denominada Década perdida os povos latino-americanos retomaram a iniciativa nas lutas sociais e políticas. Da pouco tenhem-se conformando governos populares, e em Venezuela um coronel do exército chegou à presidência. Com Hugo Chávez Frias, o continente encontrou um líder revolucionário, que sintetizou os sentimentos populares, inclusive os religiosos com a teoria do socialismo. E nasceu a revoluçom bolivariana cujo exemplo se expandiu polo continente e polo planeta.

Com altibaixo a revoluçom foi-se consolidando, mas o 5 de Março, sofremos um terrível golpe. Faleceu o comandante Chávez. E ainda que o povo venezuelano está galvanizado e se apresta a dar duras batalhas para fortalecer a revoluçom, todos fomos impactados por esta morte.

Na outra ponta do mundo, outra notícia comoveu à freguesia católica. O papa Benedito XVI, o cardeal Ratzinger (ex membro das mocidades hitlerianas nos anos ´40) renunciou ao papado.

Foi-se.

As razons ainda som motivo de especulaçom. Mas mais ali de qualquer que se poda esgrimir, o verdadeiro é que este bispo ultra conservador nom pudo suster a batalha contra os povos do Terceiro Mundo. Este mundo de indigentes e rebeldes continua tentando revoluçons.

Mudar o libreto e dar de novo

Como com Wojtyla, o Vaticano e o imperialismo jogam umha carta forte. Hoje acabam de eleger a um papa latino-americano, argentino. Jorge Bergoglio, arcebispo da Cidade Autónoma de Bos Aires, será o próximo em sentar na cadeira de Sam Pedro. A missom nom pode ser mais clara, a mesma que lhe encarregaram ao polonés: acabar com os comunistas latino-americanos.

E o novo papa tem currículo para mostrar neste caso. Pertence à ordem das jesuítas que durante a ditadura genocida foram cúmplices com as sucessivas Juntas Militares e fundamentalmente colaboraram com o almirante Emílio Massera. A Bergoglio imputa-se-lhe um papel especial no operativo militar que culminou com o seqüestro dos religiosos Orlando Yorio e Francisco Jalics, em maio de 1976, que foram presos-desaparecidos durante cinco meses. Junto a eles também fôrom seqüestrados quatro catequistas e dous dos seus esposos. Entre eles estavam Mónica Candelária Mignone, filha do fundador do CELS (Centro de Estudos Legais e Sociais), Emílio Mignone, e Maria Marta Vázquez Ocampo, (filha) da presidenta das Maes da Praça de Maio. Isto foi detalhado polo jornalista Horácio Verbitsky, em dous livros e vários artigos jornalísticos.

Com a volta à democracia, e durante o governo do presidente Cristina Fernández de Kirchner, o arcebispo portenho enfrontou medidas progressistas impulsionadas polo governo nacional como o casal igualitário e o aborto terapêutico. Com respeito ao primeiro ponto expressou: "Nom sejamos ingénuos: nom se trata de umha simples luta política é a pretensom destrutiva ao plano de Deus. Nom se trata de um mero projecto legislativo (este é só o instrumento) senom de umha "movida" do pai da mentira que pretende confundir e enganar aos filhos de Deus". Ao ser regulamentado o aborto nom punível na Cidade, o entom arcebispo de Bos Aires deu a conhecer um comunicado, expressando que "avança-se premeditadamente em limitar e eliminar o valor supremo da vida e ignorar os direitos das crianças por nascer".

Em tanto os jornalistas chauvinistas, afirmam que o Bergoglio é o homem mais importante da história argentina.

Um mar de mortos separam-nos. Enquanto de um lado está a Igreja católica e o papa Francisco -cúmplices e encobridores da ditadura genocida na Argentina- do outro está o povo, a classe trabalhadora e heróis verdadeiros da talha do Ché, Sam Martín, Mariano Moreno, Juana Azurduy e outros tantos e tantas que lutárom por umha pátria sem opressores.

Ninguém pode chamar-se a engano, Francisco será um papa reaccionário como o que mais e o seu papel é combater aos povos latino-americanos em revoluçom. O Vaticano tomou devida conta de que Chávez e a revoluçom bolivariana nom é o cuco comunista que "fusila curas" contra o que eles estavam acostumados combater. O chavismo -mais ali das crenças pessoais de cada pessoa- alcançou que o cristianismo seja visto novamente polos crentes como a religiom dos pobres, dos deserdados, dos que lutam pola sua redençom cá na terra apontando com a sua rebeldia aos poderosos e os capitalistas. Para o imperialismo e o Vaticano, isso é mais perigoso que o velho comunismo ateu ao que combateram por décadas.

Para os povos, os militantes, os revolucionários da América Latina nom pode haver confusom. O imperialismo vem por nós, vem exterminar as revoluçons em marcha, a esmagar toda a semente de rebeldia. Ademais da IV frota, as bases militares, a ONG desestabilizadoras, agora trai-se um papa debaixo do braço.

Fechar fila contra o imperialismo e os seus lacaios é consigna da hora.

Viveremos e venceremos

Até o socialismo sempre

*antonfoyel@gmail.com

14-03-2013

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CANTA O MERLO: Habemus Papam Criminalis

www.rebelion.org

Martin Bedrossian
Periódico Pachakutiq


Foi-se um criminoso que integrou as mocidades hitlerianas
, Ratzinger o papa xenófobo, homofobo e encobridor de pederastas, umha ofensa à figura -ao menos a idealizada polos crentes- de Jesus, que nom pode tampar os progressivos escândalos da maior organizaçom mafioso-terrorista de todos os tempos, filtrados graças à novas tecnologias de informaçom. A Igreja católica com os seus centros de doutrinaçom e lavagem político de cérebros, valeiradores de conteúdo, está presente a cada físgoa do planeta. Seguindo a mesma lógica nomeou-se a outro criminoso, Jorge Mário Bergoglio com o seu alter-ego Francisco, nome de origem germánico que poda se perceber seica como um continuismo simbólico com o seu antecessor, certamente aquilo que nom representa dúvida é o conservadorismo agoirento ideológico, posto que se fora de outra maneira a chegada às rendas da Igreja, os grupos de poder ocultos, ainda que cada vez menos, detrás do báculo papal, nom o deixariam chegar nem à porta de bronze do palácio pontifício.

O Bergoglio

já histórico, acusado de promover, ocultar e amparar desaparecimentos de pessoas, seqüestros, torturas inclusive de outros curas, de entregar fiéis ao Terrorismo de Estado para a sua posterior tortura e assassinato, de ser parte do mecanismo de roubo de bebés durante a ditadura, de operar como lobbista político em favor do stablishment e a oligarquia em particular, um fervente activista em contra de qualquer tipo de conquista no que a direito humano, chame-se este, casal igualitário, eutanásia, aborto, despenalizaçom de tenencia de estupefaciente, ou da tam esperada separaçom Estado-Igreja, uniom que nom está consentida na Constituiçom Nacional Argentina operando de facto, crego máximo desestabilizador trabalhando de modo conjunto com a gauchocracia abigetária e instigador golpista, ideólogo de campanhas mediáticas em contra de períodos democráticos, o seu passado perde-se na noite da história, amante das prebendas e privilégios dos que desfruta a Igreja à conta de um estado laico, extorsionário incansável perturbando o desenvolvimento e a implementaçom de políticas de inclusom social implacável opositor raivoso das democracias participativas todo o supracitado escudado numha imagem de conciliador e perdoador compulsivo.


O crego Bergoglio

exponente máximo da ultra-direita assassina vernácula, como vaticinavam alguns suspicazes analistas, ganhou, cientes da grande máfia eclesiástica, quiçais a mais grande organizaçom criminal indo desde convénios políticos para dar a verdadeiros giros históricos reaccionários a investidura moral para arrulhar dessa maneira as mentes dos membros do seu grei, isto último como o mais suave passando por lavagem de dinheiro, desvio de fundos, utilizaçom política do despropósito do poder real baseado na virtualidade de umha ficçom para influenciar quando nom extorsionar governos progressistas ou inclusive quaisquer que poda se achegar a estándares medianamente aceitáveis de democracia, sempre jogando a pontas diversas com a ambigüidade vouga da prosa clerical tam bem usufructada. Custando-lhe a vida a aqueles que se opugérom à desigualdade social, aos que lutaram polos direitos políticos, morrendo muitos por alçar a sua voz polos direitos humanos, nesse lavrar intenso da história encontra-se como contra-força as elites mundiais e na sua pata fundamental de dominaçom e doutrinamento, a igreja católica. Bergoglio é simplesmente o que devia ser, o que devia ocupar essa funçom do monopólio da fé.


O CÉU

O Vaticano nom se dorme, sabe perfeitamente quem é Bergoglio e justamente por isso é eleito para liderar a corporaçom eclesiástica. Em 2010 numha reportagem de Vertbitsky para Pagina/12 a Graciela e Rodolfo Yorio irmaos do crego do terceiro mundo Orlando Yorio quem foi seqüestrado polos grupos de tarefas do terrorismo de Estado durante ultima-a ditadura militar que durou de 76 ao 83, numha entregue do actual papa Francisco, para que o torturem. Por entom, Francisco, mantinha contactos estreitos e umha colaboraçom muito activa com os militares genocidas. Do mesma reportagem desprende-se que colegas jesuítas daquele Bergoglio elevárom ao Vaticano um dossier no que se plasmava o comportamento escuro do presbítero, com isso ilusoriamente sentiam seguros -nesse tempo- que umha personagem dessa laia jamais ocuparia um rol tam central para a religiom católica. Qualquer mortal com algumha leitura da realidade compreenderá que umha pessoa com esse arrojo perverso é cobiçada por qualquer organizaçom mafiosa, seja como elemento ofensivo que opera na clandestinidade, seja como líder.

Este crego devindo em sumo pontífice, a sua afinidade e contacto com os militares genocidas, o serviço secreto do Estado à vez que de tanto em tanto intercedia por algumha vítima seqüestrada pola ditadura, geralmente algum filho "transviado" de um poderoso, o que demonstra o seu total conhecimento do que nessa época acontecia à vez que o seu nível de contactos para o interior do averno militar, um uso de duplo cara que executou com mestria e que à luz do resultado do conclave, pode-se afirmar que ainda nom perdeu as suas manhas.

Maltrador profissional, fustigador daqueles que antepunham o social aos seus interesses imediatos, os seus vínculos com o desaparecimento forçado de pessoas vê-se reforçado por testemunhos como os da teóloga Marina Rubino quem denuncia a Bergoglio por despojar da protecçom que pretendia conceder o bispo de Morón Miguel Raspanti em 1976 aos curas dos pobres Orlando Yorio e Francisco Jalics, por que considerava que corriam perigo; ao pouco tempo foram seqüestrados e torturados. Marina Rubino estudou com os curas Yorio e Jalics e foi coordenadora no colégio Sacro Coraçom de Castelar, província de Bos Aires onde estava a religiosa francesa Leonie Duquet, desaparecida, torturada no centro clandestino de detençom ESMA e chimpada desde um aviom militar ao mar, o seu corpo logo atopado na costa de Santa Teresita. Naqueles sombrios momentos com um uso atroz de humor macabro que desgarra qualquer consciência, os oficiais torturadores adoptavam chamar "as monjas voadoras" às duas religiosas francesas torturadas e tiradas às águas desde as alturas, Leonie Duquet e Alice Domon. Bergoglio adoptava fazer insinuaçons e solapadas ameaças a maneira de conselhos para debilitar a membros de movimentos sociais dentro da Igreja, desbarata-los, como lembra Rodolfo Yorio algo que sentiu como umha ameaça "Vos cuida-te, porque à irmá de Fulano que nom tinha nada que ver seqúestrárom-na e a torturaram", cabe destacar que isto o dizia Francisco I em plena ditadura militar, quando parte da sociedade desconhecia as atrocidades e o carácter abominável da eliminaçom sistemáticas de pessoas, clandestinidade explorada polos genocidas de entom. Os curas seqüestrados, freqüentemente descreviam ao actual Francisco I como umha personagem "ávida de poder".

A delaçom de Francisco

O sacerdote Alejandro Dausa seqüestrado a meses do golpe militar em 1976 que instaura a ditadura, é torturado durante seis meses pola polícia de Córdoba, soltam-no e alcança exiliarse nos EEUU onde se dá conta por organismos de direitos humanos que o cura Jalics reside nesse país, tem certo contacto e em cada oportunidade lembra Dausa: "Como é natural, conversamos sobre os seqüestros respectivos, detalhes, características, antecedentes, sinais prévios, pessoas involucradas, etc. Nessas conversaçons indicou-os que os entregou ou denunciado Bergoglio". Em cartapacio Nº 6328 da justiça sobre o cura Jalics reza: "Jalics, Francisco.- Sacerdote jesuíta, foi seqüestrado o 23 de Maio de de 1976 no Bairro Rivadavia (no limite com a vila do baixo Flores). Estivo prisioneiro em E.S.M.A. e posteriormente numha casa de Dom Torcuato. Foi liberado o 23 de Outubro de 1976 junto ao cregoYorio, sacerdote da mesma Comunidade. Saiu do país.".

A Igreja cúmplice

Francisco I, no ano 2006 edita o seu livro "Igreja e democracia em Argentina" onde prologou "nom devemos ter medo aos documentos", omitindo aspectos craves de um documento que esta guardado nos arquivos da cúria onde ele era arcebispo ao qual tivo acesso o jornalista Horacio Verbitsky; documentos com dimensom reveladora sobre a participaçom central da igreja durante a repressom di em algum das suas passagens "de nengumha maneira pretendemos expor umha posiçom de crítica à acçom de governo (militar)" dado que "um insucesso levaria, com muita probabilidade, ao marxismo", polo qual "acompanhamos ao actual processo de ré-organizaçom do país ("processo de reorganizaçom nacional": assim chamavam os ditadores ao terrorismo de estado)". Em forma explícita menciona a "adesom e aceitaçom" episcopal.

Desestabilizador profissional

Os meses prévios ao golpe de estado de 1976, começou-se gestando um lockout patronal, com a ideia efectiva de desestabilizar ainda mais o governo de Rega-Estela Martinez de Perón, o mesmo modus operandi executaram a direita e a igreja quando o governo nacional durante 2008 tentou aplicar segundo constava no seu plano de governo, a redistribuiçom da riqueza, atendendo à renda obscena que deixava sobretodo a exploraçom soiera e a modo também de reparaçom e ligeira compensaçom polo impacto que deixa o mono cultivo, o uso de agro químicos grandemente tóxicos e a brutal iniquidade estatística de 80% das terras mais produtivas em maos de um 20% concentrado e portanto muito rico. Francisco I, nesses dias, alinhar automaticamente, como era de esperar com o sector concentrado do "campo" escondendo-se detrás de um chamariz que o para passar como de "todo o campo", manipulando a opiniom publica a tal ponto que tivo em alvas ao governo democrático kirchnerista, seguido por cans ofegantes que pretendiam um golpe, talvez mas ao estilo destas épocas, um golpe cívico-eclesiástico- empresarial. Bergoglio reunia-se insistentemente com os representantes das patronais latifundiários, históricos golpistas e oligarcas, sob o nome de “Mesa de ligaçom" fazendo Francisco I as vezes de guia", enquanto por esse lockout dos pooles especuladores de semeia entrava num perigoso desabastecemento Argentina. Os seus sócios ou acólitos do campo VIP enquanto isso tiravam estrondosas quantidades de leite ao costado das estradas numha acçom ominosa pola fame mundial simultaneamente cortava-se o acesso das principais vias provocando falta de medicamentos nas cidades principais que custaram a vida de compatriotas.

Um papa terreal

Se se sustém ideais, costa com dureza reconhecer que a modo de espiral a verdade das cousas termina por cair num centro de gravidade que nom é outra cousa que o dinheiro. Este parágrafo serve de introduçom para o que se desvela ante os olhos como aquilo que em definitiva é do interesse das máfias, afinal de contas mencionar o poder em qualquer das suas formas é umha referência directa ou indirecta ao vil metal, ali, nesse lugar de submetemento simbólico sempre se chega seja um verduleiro ou papa, Bergoglio, Francisco I nom é a excepçom, a tal ponto que aquele que possui obsessivamente o poder à conta de dor de outros fai do pecúlio -sobretodo alheio- o leitmotiv da obra da sua vida. Os mafiosos de toda a raça amam esta lógica e sentem que lhes dá sentido. O ex monge da Companhia de Jesus Mom Debussy denunciou a Bergoglio em 1990 por um faltante de $ 6.000.000 (seis milhons de dólares) provenientes de achegues e doaçons durante a gestom deste como administrador dessa organizaçom católica que nom se registou em livros com a sobreentendida evasom impositiva. Mom Debussy caio no engano no que induzem muitas ordenes aos seus seminaristas, o acto solene do "voto de pobreza", para acentuar a coerência espera-se que os bens possuídos polos discípulos provenientes da sua vida mundana sejam entregues em oferenda, podem ser os que se originam no esforço do trabalho ou bens herdados; é o que lhe sucedeu a Debussy, com um passado familiar folgar herda do seu avô o equivalente a um departamento de três ambientes no selecto enclave de La Recoleta em Bos Aires, contado por ele mesmo: "Quando morreu o meu avô, a herança repartiu-se entre as minhas duas irmás e eu. Entreguei-lhe o meu parte a Bergoglio, no seu gabinete do Colégio Máximo, em bilhetes, e nem sequer deu-me um recebo", di. Quando se retirou da Companhia soubo polo provincial Zorzín que também nom o registou nos livros contáveis da Cúria Provincial. Entre 1988 e 1989, Zorzín devolveu-lhe 7300 dólares, em três entregas. O retorno ao mundo real de Debussy estivo infestado de privaçons quem tivo que oficiar de pintor, empregado, até chegar a hoje que vive em casal e trabalha como acompanhante terapêutico.

Di numha nota que lhe fizérom ao ex novicio: «No momento da demissom deveria restituir-se íntegro esse e qualquer outro dinheiro que fosse depositado na conta. "De saber a existência da conta e dos fundos, nom esperaria quase quatro anos para demitir", di Mom Debussy ... Bergoglio deixou umha contabilidade "infestada de omissons e ocultamentos de ingressos (doaçons de particulares e achegues da Cúria Geral da Companhia, da Igreja alemá e do Estado Nacional destinados ao sustimento dos noviços e estudantes jesuítas). Por auditorias internas e recolecçom de dados entre doadoras e aportantes, calculavam um faltante de quase seis milhons de dólares".»

Uns parágrafos adiante, um tanto mais desgarrador, Mom Debussy escreve que deveu suportar "opressom, falsidade e desprezo". O seu ingresso à Companhia e a sua ordenaçom sacerdotal foram erros influenciados “pola minha falta de liberdade e a opressom "paternal" e "lavagem de cérebro" provocados com o consentimento da minha debilidade, confusom e temor à soidade e o desprezo do p. Bergoglio", a quem "considero um doido no melhor dos casos e umha má pessoa em muitos outros". Depois de dous anos de afastamento, nos que "pudem conhecer-me melhor, sentir-me um ser humano e um ser livre", Mom Debussy di que "prefiro este mundo pecador, onde os corruptos nom passam por virtuosos, ou ao menos, buscando fama, dinheiro e poder, nom se escondem detrás de profissons de pobreza nem proclamam a virtude suprema da caridade, enquanto impunemente destroem a outros seres humanos, tam filhos de Deus como eles. Fora da ilha eclesiástica as cousas som chamadas polo seu nome e finalmente ninguém engana a ninguém".

Finaliza a nota com umha pérola numha sorte de síntese que descreve à personagem Francisco I: Quando Ubaldo Calabresi sucedeu como Núncio apostólico a Laghi, em 1981, Bergoglio levou-o ao Máximo e convidou-no a celebrar a missa em latim (em flagrante atitude conservadora e excluí-te). "Ninguém percebeu nada", di Mom Debussy. Quando o seu colega Jorge Seibold foi designado Reitor de Filosofia da sede Sam Miguel da Universidade do Salvador, Bergoglio fai-no se ajoelhar na capela do Máximo e dizer o juramento contra o modernismo que Pio X estabeleceu em 1910 e que estava em completo desuso. (O conteúdo desse juramento é muito similar aos questionamentos do cardeal António Caggiano ao Movimento de Sacerdotes para o Terceiro Mundo). "Bergoglio jactava-se de obrigá-lo a esse juramento, e um dos seus livros de cabeceira era O Príncipe de Maquiavelo", lembra Mom Debussy.

Um papa muito paternal

A trama de impunidade, cumplicidade e silêncios da Igreja com a ditadura nom é nengumha novidade, há pouco o próprio genocida Videla dava conta disso. Bergoglio, Francisco I, tivo que declarar como testemunha por pedido do Tribunal Oral e Federal polo plano sistemático de subtracçom de bebés que eram arrincados das suas maes em cativeiro as quais sofriam compridas sessons de tormentos próprios do medievo. Ainda que utilizou a prerrogativa que lhe dava o benefício como alto cargo da Igreja de nom fazê-lo nos julgados, o que constituiu um facto agre para a consciência colectiva sobre o terrorismo de estado. Foi convocado e declarou por escrito na sede da cúria da capital em qualidade de testemunha a partir do testemunho de Estela de la Cuadra, filha de umha das fundadoras de Aboas da Praça de Maio, quem ademais segue buscando à sua sobrinha, Ana. Francisco I estava ao tanto, conta Estela, quem o entrevistou para que intercedesse na procura da sua sobrinha nada num centro clandestino de detençom. Por escrito e desde um gabinete eclesiástico, o entom cardeal fujo assim mais umha vez da justiça. Os arquivos desclassificados complicam e implicam ao actual papa relacionando com o seqüestro dos seus discípulos jesuítas. Existe umha constelaçom de factos relacionados a Bergoglio e o seu escuro passado e presente, como o desaparecimento de sete catequistas militantes da Mocidade Peronista, entre os quais havia duas grávidas que passaram polo emblema da tortura, a ESMA.

Conclusom

Se queredes chegar a papa e ostentar poder sem arriscar um cêntimo, pois já sabedes filhos meus o que tendes que fazer.

Referências:

http://www.pagina12.com.ar/diário/ultimas/20-167837-2011-05-09.html

http://www.desaparecidos.org/arg/conadep/nuncamas/353.html

http://www.pagina12.com.ar/diário/elpais/1-144965-2010-05-02.html

http://tiempo.infonews.com/notas/revelam-que-ditadura-bergoglio-sábia-de-as-apropiaçoms-de-bebes

http://www.pagina12.com.ar/diário/elpais/subnotas/1-46189-2010-04-11.html

Fonte: http://pachakutiq.com.ar/notícias.php"ide=2017

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CANTA O MERLO: Um terrorista no Cortelho Vaticano

Um Ersatz

Por Horacio Verbitsky

http://www.pagina12.com.ar/diario/elpais/1-215796-2013-03-14.html

Entre as centenas de chamados telefónicos e correios recebidos, elejo um. "Nom o podo acreditar. Estou tam angustiada e com tanto boureio que nom sei que fazer. Alcançou o que queria. Estou a ver a Orlando na sala de jantar de casa, já há uns anos, dizendo "ele quer ser Papa". É a pessoa indicada para tampar a podremia. É o perito em tampar. O meu telefone nom para de soar, Fito falou-me chorando." Assina-o Graciela Yorio, a irmá do sacerdote Orlando Yorio, quem denunciou a Bergoglio como o responsável polo seu seqüestro e das torturas que padeceu durante cinco meses de 1976. O Fito que a chamou desconsolado é Adolfo Yorio, o seu irmao. Ambos dedicárom muitos anos da sua vida a continuar as denúncias de Orlando, um teólogo e sacerdote terceiro-mundista que morreu em 2000 sonhando o pesadelo que ontem se fixo realidade. Três anos antes, o seu incubo fora designado arcebispo coadjutor de Bos Aires, o qual pré-anunciava o resto.

Orlando Yorio nom chegou a conhecer a declaraçom de Bergoglio ante o Tribunal Oral Federal 5. Ali dixo que recentemente soubo da existência de bebés roubados depois de terminada a ditadura. Mas o Tribunal Oral Federal 6, que julgou o plano sistemático de roubo de filhos de presos-desaparecidos, recebeu documentos que indicam que já em 1979 Bergoglio estava bem ao tanto e intervéu ao menos num caso a solicitude do superior geral, Pedro Arrupe. Depois de escutar o relato dos familiares de Elena da Cuadra, seqüestrada em 1977, quando atravessava o quinto mês de gravidez, Bergoglio entregou-lhes umha carta para o bispo auxiliar da Prata, Mario Picchi, pedindo-lhe que intercedera ante o governo militar. Picchi pesquisou que Elena dera a luz umha menina, que foi presenteada a outra família. "Tem-na um casal bem e nom há voltada atrás", informou à família. Ao declarar por escrito na causa da ÉSMA, polo seqüestro de Yorio e do também jesuíta Francisco Jalics, Bergoglio dixo que no arquivo episcopal nom havia documentos sobre os presos-desaparecidos. Mas quem o sucedeu, o seu actual presidente, José Arancedo, enviou à juíza Martina Forns cópia do documento que publiquei aqui, sobre a reuniom do ditador Videla com os bispos Raúl Primatesta, Juan Aramburu e Vicente Zazpe, na que falaram com extraordinária franqueza sobre dizer ou nom dizer que os presos-desaparecidos foram assassinados, porque Videla queria proteger a quem os mataram. No seu clássico livro Igreja e ditadura, Emilio Mignone mencionou-o como paradigma de "pastores que entregaram as suas ovelhas ao inimigo sem defendê-las nem resgatá-las". Bergoglio contou-me que numha das suas primeiras missas como arcebispo divisou a Mignone e tentou se achegar para dar-lhe explicações, mas que o presidente fundador do CELS alçou a mao indicando-lhe que nom avançasse.

Nom estou seguro de que Bergoglio fosse eleito para tampar a podremia que reduziu à impotência a Joseph Ratzinger. As lutas internas da cúria romana seguem umha lógica tam inescrutável que os factos mais escuros podem atribuir ao espírito santo, já sejam os manejos financeiros polos que o Banco do Vaticano foi excluído do clearing internacional porque nom cumpre com as regras para controlar a lavagem de dinheiro, ou as práticas pedófilas em quase todos os países do mundo, que Ratzinger encobriu desde o Santo Oficio e polas que pediu perdom como pontífice. Nem sequer estranhar-me-ia que, brocha em maos e com os seus sapatos gastados, Bergoglio empreendesse umha cruzada moralizadora para branquear os sepulcros apostólicos.

Mas o que tenho por seguro é que o novo bispo de Roma será um Ersatz, essa palavra alemá à que nengumha traduçom fai honra, um sucedáneo de menor qualidade, como a água com farinha que as maes indigentes usam para enganar a fame dos seus filhos. O teólogo brasileiro da libertaçom Leonardo Boff, excluído por Ratzinger do ensino e do sacerdócio, tinha a ilusom de que fosse eleito o franciscano de devanceiros irlandeses Sean O'Malley, que carrega com a diocese de Boston, crebada por tantas indemnizaçons que pagou a crianças violados por sacerdotes. "Trata de umha pessoa muito vinculada aos pobres porque trabalhou muito tempo na América do Norte Latina e as Caraíbas, sempre no meio dos pobres. É um sinal de que pode ser um papa diferente, um papa de umha nova tradiçom", escreveu o ex sacerdote. Na Cadeira Apostólica nom sentará um verdadeiro franciscano senom umha jesuíta que se fará chamar Francisco, como o pobrinho de Agarrais. umha amiga argentina, escreve-me azorada desde Berlim que para os alemans, que desconhecem a sua história, o novo papa é terceiromundista. Miúda confusom.

A sua biografia é a de um populista reaccionário, como o fôrom Pio XII e Joám Paulo II: inflexíveis em questoes doutrinarias mas com umha abertura para o mundo, e sobretodo, para as massas despojadas. Quando reze a sua primeira missa numha rua do Trastevere ou na Stazione Termini de Roma e fale das pessoas exploradas e prostituídas polos poderosos insensíveis que fecham o seu coraçom a Cristo; quando os jornalistas amigos contem que viajou em subte ou colectivo; quando os fiéis escutem as suas homilias recitadas com os gestos de um actor e nas que as parábolas bíblicas coexistem com a fala chá do povo, haverá quem delirem pola almejada renovaçom eclesiástica. No três lustros que leva à frente da Arquidioceses portense fixo isso e bem mais. Mas ao mesmo tempo tentou unificar a oposiçom contra o primeiro governo que em muitos anos adoptou umha política favorável a esses sectores, e acusou-o de crispado e confrontativo porque para fazê-lo deveu lidar com aqueles poderosos fustigados no discurso.

Agora poderá fazê-lo noutra escala, o qual nom quer dizer que se esqueça da Argentina. Se Pacelli recebeu o financiamento da Inteligência estadounidense para apontoar à democracia cristá impedir a vitória comunista nas primeiras eleições da post-guerra e se Wojtyla foi o aríete que abriu o primeiro oco no muro europeu, o papa argentino poderá cumprir o mesmo rol em escala latino-americana. A sua passada militância em Guarda de Ferro, o discurso populista que nom esqueceu, e com o que poderia mesmo adoptar causas históricas como a das Malvinas, habilitam-no para disputar a orientaçom desse processo, para apostrofar aos explotadores e predicar mansidade aos explorados.

Link permanente 11:17:23, por José Alberte Email , 669 palavras   Português (GZ)
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CANTA O MERLO: O Vaticano, fonte do fascismo

Francisco vem disputar o consenso social
por Julio C. Gambina [*]

A Igreja é parte do poder mundial, e não só do poder económico. A Igreja disputa historicamente o consenso da sociedade. É uma realidade a considerar em tempos de crise capitalista, considerada também uma crise de civilização uma vez que esta civilização contemporânea está ordenada pelo regime do capital, ou seja, pela exploração do homem pelo homem, pela depredação da Natureza.

Quando o sistema mundial era desafiado pelo avanço dos povos e pelo socialismo (como forma que tentava ser alternativa da ordem mundial) abriu-se caminho a teologia da libertação, em aberta confrontação com o poder institucional de uma Igreja retrógrada. Assim, a Igreja dos pobres mostrava-se a partir do Sul do mundo, mais precisamente da Nossa América. A Igreja oficial não podia negar este rumo que abria passagem entre os padres de base e permitiu um grande debate mundial no seio da Igreja.

Os rumos da ofensiva popular batiam à porta da instituição. A resposta contemporânea da instituição Igreja foi acompanhando a ofensiva capitalista para recuperar o poder do regime do capital. Essa ofensiva materializou-se nos anos 80 contra o socialismo e os povos, abrindo o caminho ao poder reaccionário dos Ratzinger e dos Bergoglio.

Há 40 anos o neoliberalismo foi ensaiado em nossos territórios com as ditaduras e o terrorismo de Estado, para a seguir estender-se por toda a orbe. A Igreja da Argentina, salvo honrosas e escassas excepções, acompanhou a ditadura genocida nesse parto neoliberal, ainda que agora fale contra a pobreza e a ética.

Um PAPA polaco chegou à Igreja para acompanhar o princípio do fim da experiência socialista, ainda que se discuta o próprio carácter daquela experiência. O capitalismo mundial necessitava do Leste da Europa. A Alemanha assim o entendeu. Os EUA também. Sem o Leste da Europa, já abandonado o projecto socialista original, o mundo deixou de ser bipolar e constituiu-se o rumo unipolar do capitalismo, transnacional e neoliberal.

O rumo unipolar está a ser desafiado pela mudança política na Nossa América e o ressurgir do socialismo, seja pela mão da revolução cubana ou pelos processos específicos que emergem em alguns países (Venezuela ou Bolívia), inclusive em variados movimentos políticos, sociais, intelectuais, culturais, na nossa região.

Com a morte de Chávez e milhões mobilizados para constituírem-se em sujeitos pelo cumprimento do legado revolucionário e socialista de Hugo Chávez, a Igreja lança à arena o símbolo de um chefe da Igreja nascido no Sul e compenetrado com o projecto do Norte.

O PAPA argentino, Francisco, vem cumprir o projecto do poder mundial para disputar o consenso da sociedade, especialmente dos povos. Não só se trata de sustentar posições contrárias ao matrimónio igualitário, ou contra o aborto, amplamente difundidas pelo bispo Bergoglio, como de gestar uma consciência de disciplinamento para com a ordem contemporânea, reaccionária, de dominação transnacional.

Nossa América é hoje laboratório de mudança política. A Igreja instituição quer intervir neste processo – não para pressionar essas mudanças e sim para travá-las. A disputa é pelas consciências. É uma batalha de ideias, pela mudança, ou pelo retrocesso. Preocupa-os o efeito Chávez na região. Preocupa-os a sucessão política na Venezuela e a capacidade de estender o rumo socialista. Necessitam disputar o consenso.

Mas, apesar das tentativas institucionais para acompanhar a ofensiva do capital contra o trabalho, os trabalhadores e os sectores populares, incluída a igreja dos pobres, o movimento religioso popular, persiste na busca pela organização da sociedade do viver bem (Bolívia), do bom viver (Equador), do socialismo cubano, ou da luta pela emancipação social de grande parte da sociedade dos de baixo na Nossa América.

O PAPA Francisco I vem com a sua. Nós os povos devemos continuar nossa busca e experimentação em favor de uma nova sociedade, por outro mundo possível, esse que se constrói na luta contra a exploração, pela emancipação social, contra o capitalismo e o imperialismo, pelo socialismo.
13/Março/2013

Ver também:
juicioesma.blogspot.pt/2010/11/el-cardenal-bergoglio-que-tanto-sabe.html
www.infoeducasares.com.ar/?p=1223
www.taringa.net/...

[*] Presidente da Fundación de Investigaciones Sociales y Políticas, FISYP .

O original encontra-se em http://www.argenpress.info/2013/03/francisco-i-viene-disputar-consenso.html

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

02-03-2013

Link permanente 21:02:32, por José Alberte Email , 2667 palavras   Português (GZ)
Categorias: Novas, Ensaio

CANTA O MERLO: O crescimento e a inflação contra a dívida

por Jacques Sapir [*]

http://resistir.info/europa/sapir_10fev13_p.html

Não é preciso ser marxista para constatar que a pertença à zona Euro constitui uma grilheta que tolhe o desenvolvimento da maioria dos países europeus. Isso pode ser visto por qualquer economista sem viseiras, como é o caso do keynesiano Jacques Sapir. Neste artigo ele demonstra, e bem, que até mesmo a França seria beneficiada se abandonasse o euro e retornasse à sua antiga moeda nacional, o franco.

Se isto é verdadeiro até para a França, o que dizer em relação a Portugal? Galiza? Neste país submetido aos tratos brutais da troika FMI/BCE/UE, a recuperação da soberania monetária constituiria uma verdadeira libertação nacional. Esta é a condição necessária e indispensável (mas não suficiente) para o desendividamento e para qualquer desenvolvimento digno desse nome.
Quanto mais tarde isso for percebido e quanto mais tarde forem dados passos nesse sentido, mais escravizado e depauperado estará o país. Pretender um novo governo mas sem dar este passo fundamental – mesmo que o dito governo se diga "de esquerda" – é enganar os outros e enganarmos a nós próprios.
resistir.info

A questão da dívida pública é objecto de confusões importantes. Na realidade, ela gira inteiramente em torno da questão do crescimento nominal (crescimento real + taxa de inflação) e não da questão da pressão fiscal. A questão da pressão fiscal é importante para determinar o nível do défice orçamental que poderá ser aceitável.

Dívida e crescimento nominal

A fórmula utilizada para medir o peso da dívida ou Dívida/PIB contém já uma confusão. Compara um stock (a dívida) com um fluxo, a riqueza criada num período de referência (neste caso um ano) e medida pelo PIB (soma dos valores acrescentados). Uma medida mais coerente seria comparar a dívida com o stock das imobilizações e do capital (infra-estruturas) que o Estado possui. Este stock é largamente superior ao valor anual do PIB. Se conservarmos a fórmula Dívida/PIB , que é uma fórmula de análise estática, a fórmula dinâmica (derivada) escreve-se Défice Orçamental/Crescimento Nominal do PIB.

Sendo o défice orçamental (numerador) medido aos preços correntes, é preciso evidentemente que o denominador também o seja. Recorde-se que o crescimento nominal é o produto do crescimento do PIB em termos reais pela taxa de inflação. O nível do crescimento nominal depende pois daquilo a que chamamos "crescimento" (na realidade, o crescimento do PIB em termos reais) e do nível da taxa de inflação. O nível da taxa de inflação aceitável depende da competitividade da França em relação aos seus principais concorrentes. Marcaremos com (f) os números relativos à França e com (c) os que são relativos aos países concorrentes. Neste caso, e tudo o mais permanecendo igual, a competitividade é medida pelo diferencial da inflação (lf/lc) que mostra o crescimento comparado da produtividade do trabalho entre a França e os países concorrentes (Prodf/Prodc).

Temos portanto um limite fixado pelos ganhos de produtividade . Se a França tivesse ganhos muito grandes em relação aos dos países concorrentes, podia permitir-se ter uma inflação igualmente superior na mesma proporção. Quando isso não acontece, a taxa de inflação potencial é limitada pela competitividade. Mas, temos vindo a raciocinar até aqui com taxas de câmbio fixas. Quando um país (como o Japão) provoca uma depreciação da sua moeda em relação ao Euro, isso equivale a um ganho em produtividade aparente, e naturalmente o nível de inflação que o Japão pode suportar aumenta.

Se passarmos a raciocinar considerando que a França recupera a sua soberania monetária, uma desvalorização do franco em relação às moedas dos países que são nossos concorrentes permitiria ter uma taxa de inflação superior à desses países.

O nível de inflação natural da França

Publicámos um " working paper " sobre este assunto em Junho de 2012. [1] Nele demonstra-se que em TODAS as inflações há uma componente monetária e uma componente real, a que chamamos taxa de inflação "natural". Os determinantes dessa inflação "real" devem ser procurados nas estruturas económicas. Esses determinantes decompõem-se em factores "estruturais-técnicos", em factores "institucionais" e em factores "sociais" (ver a tabela 1). Um dos principais resultados demonstrados foi que toda a política que visa aproximar a inflação do zero, teria um efeito tanto mais deletério sobre o crescimento económico quanto mais alta fosse a inflação "natural" dessa economia.

Tabela 1- Elementos da taxa de inflação dita "natural"
Determinantes

Categoria

Elementos de activação
(1) Mudanças internas no seio do aparelho produtivo tornando necessárias variações dos preços e dos rendimentos relativos. Estrutural - Técnica - Progresso técnico e tecnológico, ritmo da inovação
- Introdução de novos métodos de gestão e de organização
- Mudanças institucionais
(2) Desequilíbrio forte entre a estrutura técnica necessária do capital produtivo e a estrutura presente que pode necessitar uma recuperação de investimento. Estrutural - Técnica - Ruptura importante nos equilíbrios entre diversas tecnologias
- Inovação radical
- Atraso acumulado do investimento em períodos anteriores
(3) Forte rigidez das estruturas de consumos intermédias ligada à forte especificidade dos activos Estrutural - Técnica - Aumento acentuado dos custos de consumos intermédios (preço da energia e das matérias-primas).
(4) Forte dependência das fontes internas de financiamento devido tanto ao mau estado das instituições financeiras como a assimetrias de acesso a estas instituições. Institucional - Alta acentuada das necessidades de investimentos para enfrentar uma grande mutação ou uma forte expansão da procura.
- Deterioração no acesso às fontes externas de financiamento devido tanto a uma crise das instituições financeiras como a assimetrias fortes induzidas pelo racionamento do crédito.
(5) Comportamentos de curto-prazo privilegiando a maximização do rendimento imediato e a detenção da liquidez. Institucional - Agravamento brutal da incerteza institucional e contextual.
- Erros e perversõos da política monetária
(6) Conflito de repartição Trabalhadores/Gestores ou Gestores/Proprietários Social - Existência de desequilíbrios na repartição do rendimento nacional
- Crise de legitimidade das formas de repartição devido às condições de formação de certos rendimentos
(7) Desequilíbrio entre consumo e poupança na procura nacional ou no próprio interior da estrutura de consumo Social - Bloqueios no acesso dos agentes nacionais aos bens de consumo e apoios da poupança.
- Incerteza grave sobre o futuro, criando um pico contextual na necessidade de financiamento.

No caso da França, os factores ditos "estruturais-técnicos" desempenham um papel evidente, assim como alguns dos factores sociais. É pois lógico que a taxa de inflação em França seja mais elevada do que em determinados países vizinhos. Os economistas do BCE afirmam há muito que a melhor taxa de inflação é a mais baixa possível. Sustentam este objectivo com a afirmação de que os agentes económicos não são minimamente sensíveis à ilusão nominal. Por outras palavras, que os agentes estão plenamente conscientes das modificações presentes e futuras dos preços de todos os produtos e de todos os activos, e que determinam a sua atitude em relação à sua riqueza real. Recordemos que era a mesma hipótese que um dos pais teóricos do Euro, Mundell, tinha mobilizado. Em meados dos anos 90, George Akerlof e os investigadores da Brookings Institution nos Estados Unidos demonstraram a persistência dessa ilusão nominal tão referida nos escritos monetaristas. [2] Isso levou-os a reconhecer que era necessária uma certa inflação para o desenvolvimento económico. Deduziram que a importância da rigidez resultante do sector real e das instituições económicas tinha consequências importantes sobre a taxa de inflação. Esta rigidez traduz a individualidade da trajectória social e histórica de cada país. [3] Ora, constata-se que, mesmo com uma política monetária uniforme (levada à prática pelo BCE), as diferenças de taxas de inflação entre os países da zona Euro não são negligenciáveis.

Tabela 2- Variação das taxas de inflação médias nos países da zona Euro

Média 2001-2007

Média 2007-2011
Áustria 1,7 1,4
Bélgica 2,2 1,7
Dinamarca 2,2 2,0
Finlândia 1,2 1,8
França 2,1 1,4
Alemanha 1,1 1,2
Grécia 3,2 2,7
Irlanda 3,2 -1,1
Itália 2,6 1,9
Luxemburgo 3,6 1,8
Países Baixos 2,6 1,4
Portugal 3,0 1,5
Espanha 4,1 1,4
Zona Euro 2,2 1,4
Total OCDE 2,6 1,8
Fonte : OCDE via J. Sapir, Faut-il sortir de l'Euro , Le Seuil, Paris, 2012.

Um estudo realizado sobre as dinâmicas da inflação nos países da zona Euro reveste-se aqui duma importância especial. [4] O trabalho de Christian Conrad e Menelaos Karanasos, com data de 2004, demonstra dois resultados essenciais. Primeiro, não há uma dinâmica única da inflação no seio da zona Euro e esta não influencia sempre negativamente o crescimento económico. Estamos na presença de dinâmicas diferenciadas e, em certos casos, a inflação aparece mesmo como necessária ao crescimento. Segundo, o trabalho deles mostra que a heterogeneidade dos sistemas produtivos e das estruturas sociais se reflecte nas dinâmicas monetárias. A moeda é um espelho, ou mesmo uma lente de aumentar, das dinâmicas do mundo real. Podemos pois pensar que uma taxa de inflação correspondente àquela a que chamamos inflação "natural", ou seja, uma taxa não penalizadora do crescimento e correspondente à maximização do crescimento potencial (com um "intervalo de crescimento" ou output gap nulo), seria para a França na ordem dos 3%, e isso sem um choque inflacionista exógeno.

Os factores de crescimento

É necessário determinar agora quais são os factores que influenciam mais o crescimento. O investimento, em capital fixo, em infra-estruturas, mas também na educação, determina globalmente o crescimento potencial máximo. O crescimento também é sensível, sabe-se, a uma sobrevalorização ou a uma desvalorização da moeda em relação às divisas dos países concorrentes (efeito de competitividade). Finalmente, está ligado a curto prazo à evolução da procura tanto no interior do país como no exterior. Mas estes diferentes factores são interdependentes. Uma subvalorização da moeda e o crescimento da procura interna aumentam o nível dos investimentos, o que se traduz depois de um certo prazo num aumento do potencial de crescimento a longo prazo. Inversamente, se a procura se contrai e se a taxa de câmbio é sobrevalorizada durante um período relativamente longo, isso arrasta uma baixa do investimento e portanto uma baixa do crescimento potencial. É de resto o que observamos actualmente em Espanha, em Itália e em França. Os factores sobre os quais podemos agir imediatamente são o valor da moeda e a procura. Diversos estudos feitos, em particular no INSEE, mostram que uma variação de 10% na taxa de câmbio (neste caso a taxa de câmbio do Euro) arrasta uma flutuação em sentido inverso do crescimento real de 0,6% no primeiro ano e de 1,2% no segundo ano. Há a tendência para considerar actualmente que estes números até estão subavaliados porque a procura interna está relativamente deprimida, o que aumenta a importância potencial da procura externa (as exportações).

Se supusermos, no quadro de uma saída do Euro, uma desvalorização do franco de 20% em termos reais, isso implica um crescimento suplementar de 1,2% no primeiro ano e de 2,4% no segundo ano. Mas a desvalorização implica também um choque inflacionista, que pode ser estimado, neste nível de desvalorização, em 5% no primeiro ano e em 3% no segundo ano. O ganho de competitividade assim conseguido pode ser mantido se o Banco da França adoptar uma política direccionada para uma taxa de câmbio de referência. Mas, para tal, serão certamente necessários controlos de capitais .

Movimentos da dívida em simulação

Vamos agora comparar as trajectórias da dívida seguindo, por um lado, as hipóteses do governo e, por outro lado, considerando a hipótese da saída do Euro. Na hipótese H1, supomos a saída do Euro, acompanhada por uma desvalorização de 28%. O impacto desta desvalorização sobre a dívida será limitado aos 14% desta última que estão sob contratos de direito estrangeiro. O défice [orçamental] é de 3,7% do PIB no primeiro ano, de 3,5% nos dois anos seguintes e de 3% no resto do período. O crescimento real é estimado em +1,2% no primeiro ano, +2,4% no segundo ano e mantém-se em 2% nos anos seguintes. Isto provavelmente é pessimista, porque subavalia o impacto do choque de competitividade na economia francesa. Adoptemos então uma hipótese H1' que tem em conta um efeito positivo mais importante da desvalorização sobre o crescimento e uma taxa de crescimento residual de 2,3% no final do período. Quanto à taxa de inflação supõe-se que ela se mantém constante em 3% por ano (taxa natural) à qual se junta um choque de 5% no primeiro ano e de 3% no segundo ano para ter em conta os efeitos da desvalorização. Supõe-se que o Banco de França deixa deslizar cerca de 2% por ano o valor do franco durante dois anos para manter o efeito positivo da desvalorização.

Na hipótese H0, o défice atinge 3,7% no primeiro ano, 3,5% nos dois anos seguintes e seguidamente estabiliza em 3% do PIB. O crescimento é nulo no primeiro ano (o que actualmente parece ser optimista), depois é igual a 0,5% nos três anos seguintes e a 1% no resto do período. A taxa de inflação é de 1,4% ao ano o que corresponde à média do período 2007-2011. Segundo esta hipótese, o endividamento da França continua a aumentar.

Constata-se no gráfico 1 a divergência das trajectórias. Aquela que corresponde às hipóteses do governo mostra-se incapaz de travar o movimento da dívida. Quando muito, atrasa-o. As hipóteses H1 e H1' permitem verificar ao longo de 10 anos o decrescimento do peso da dívida relativamente ao PIB e isso sem ter em conta hipóteses especiais sobre a dimensão do défice.

A evolução do défice orçamental

Constatamos que seria possível atingir um decrescimento da dívida expressa em percentagem do PIB sem mobilizar novas hipóteses quanto ao défice orçamental e sem aplicar à França um choque fiscal demasiado forte. Mas se observarmos as receitas, as despesas e os benefícios fiscais e parafiscais, constata-se que:

(i) Há cerca de 75 mil milhões (3,75% do PIB) em "nichos fiscais" diversos. Uma série deles estão ligados à necessidade de a França compensar o seu diferencial de competitividade com os outros países. No caso de uma forte desvalorização, uma parte destes nichos fiscais torna-se supérflua. O ganho estimado é de 25 mil milhões de Euros (orçamento de 2012), ou seja, de 1,25% do PIB.

(ii) O crescimento implica automaticamente uma subida das receitas fiscais (em especial via IVA). A diferença entre o crescimento na hipótese H0 e a hipótese H1 é em média de 1,5 pontos do PIB para os primeiros 4 anos e de 1 ponto para os anos seguintes. Isso implica um ganho de 0,67 pontos do PIB em receitas suplementares nos primeiros 4 anos e de 0,45 pontos do PIB nos anos seguintes.

(iii) Com o regresso a um crescimento superior a 1,5%, como se simulou nas trajectórias H1 e H1', observa-se uma descida do desemprego e portanto uma baixa dos encargos ligados aos subsídios de desemprego. A recuperação desses encargos pelas empresas e assalariados poderá ser equivalente a 0,2% de crescimento suplementar a partir do terceiro ano.

Chegamos pois, no quadro da hipótese H1 a um crescimento suplementar e a receitas de 1,92 pontos do PIB para os primeiros quatro anos [isto é, 1,25 da alínea i, mais 0,67 de ii] e de 1,7 pontos para os anos seguintes. Se aplicarmos estas vantagens na trajectória H1, chamando H2 à nova trajectória, constata-se uma baixa muito mais acentuada do peso da dívida pública.

Conclusão

Não há qualquer necessidade de considerar hipóteses extremas do ponto de vista das receitas e das despesas fiscais para obter uma baixa do peso da dívida pública. A variável principal é o crescimento nominal. Deste ponto de vista, uma saída do Euro acompanhada por uma forte desvalorização dá já resultados importantes. Se juntarmos a esta hipótese o efeito fiscal do crescimento reencontrado, supondo ajustamentos marginais (1/3 dos "nichos fiscais), os efeitos, bem entendido, multiplicam-se. Podemos assim fazer baixar a dívida pública para menos de 65% do PIB sem exigir sacrifícios suplementares aos contribuintes e diminuindo o desemprego.
1. Jacques Sapir, Inflation monétaire ou inflation structurelle? Un modèle hétérodoxe bi-sectoriel, FMSH-WP-2012-14, juin 2012. URL: http://russeurope.hypotheses.org/61
2. G. A. Akerlof, W. T. Dickens et G. L. Perry, "The Macroeconomics of Low Inflation" in Brookings Papers on Economic Activity, n°1/1996, pp. 1-59.
3. B.C. Greenwald e J. E. Stiglitz, "Toward a Theory of Rigidities" in American Economic Review, vol. 79, n°2, 1989, Papers and Proceedings, pp. 364-369. J.E. Stiglitz, "Toward a general Theory of Wage and Price Rigidities and Economic Fluctuations" in American Economic Review, vol. 79, n°2, 1989, Papers and Proceedings, pp. 75-80.
4. C. Conrad e M. Karanasos, "Dual Long Memory in Inflation Dynamics Across Countries of the Euro Area and the Link between InflationUncertainty and Macroeconomic Performance", Studies in Nonlinear Dynamics & Econometrics, vol. 9, n°4, nov. 2005 (publicado por The Berkeley Electronic Press e consultável em http://www.bepress.com/snde )
10/Fevereiro/2013
Do mesmo autor em resistir.info:
Flexibilidade e desvalorização interna: Ideias perigosas na moda , 24/Jan/13

[*] Doctorat d'État em economia, autor de Faut-il sortir de l’euro? e de La Démondialisation . Actualmente dirige o Centre d'Études des Modes d'Industrialisation (CEMI-EHESS).

O original encontra-se em http://russeurope.hypotheses.org/855 . Tradução de Margarida Ferreira.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

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CANTA O MERLO: A necessária saída da zona euro

– Ler Sapir para entender porque é preciso sair

por João Carlos Graça [*]

http://www.resistir.info/europa/ler_sapir_26fev13.html

Ler Jacques Sapir – o "indispensável" Jacques Sapir, como lhe chama, e bem, o João Rodrigues nos Ladrões de Bicicletas – constitui cada vez mais uma forma de "lavar a alma", permitindo-nos ver um pouco mais além daquilo que as viseiras estreitas do europeísmo, incluindo o "europeísmo de esquerda", nos autorizam e se autorizam. Para não ser repetitivo em relação ao que já escreveu Octávio Teixeira , permitam-me que trate agora de sublinhar, no artigo do Sapir publicado por resistir.info :

1) A assunção, da escola dita das "expectativas racionais", em que está fundada a União Económica e Monetária (UEM). Ou seja, e nas palavras de Sapir: "Os economistas do BCE afirmam há muito que a melhor taxa de inflação é a mais baixa possível. Fundam este objetivo na afirmação de que os agentes económicos não seriam de todo sensíveis à ilusão nominal. Por outras palavras, que os agentes estariam plenamente conscientes das modificações presentes e futuras dos preços de todos os produtos e de todos os ativos, e que determinariam a sua atitude reportando-se à sua riqueza real".

Deve destacar-se que, para além de profundamente irrealista, esta assunção é quintessencialmente constitutiva da oposição de direita ao keynesianismo, ou ao Estado social. Trata-se de reaganomics em estado puro: Robert Lucas, Robert Barro e afins, os restauradores "água doce" da ortodoxia neoclássica na mainstream economics, e assumidamente à custa do keynesianismo. Face a isto, e desde logo, a presença mesmo de uma "oposição de esquerda" adentro do "europeísmo realmente existente" torna-se de todo em todo irrelevante. Noutros termos, os economistas do Bloco de Esquerda e do Syriza, precisamente em virtude do seu "europeísmo" (e mesmo sendo ele oficialmente "crítico"), estão constitucionalmente à direita e mesmo muito à direita de Lord Keynes.

Isto não é um acidente de percurso. Não estamos perante um "oops!", uma coisa que até teria sido bem-intencionada, apenas depois um pouco menos bem esgalhada na prática. Não se trata aqui do dito de que "de boas intenções está o Inferno cheio", de que "a vida é bela, os homens é que dão cabo dela", ou coisa semelhante. Não, nada disso! O "projeto europeu" é, já ao nível mesmo das intenções conscientes, um projeto constitucionalmente visando comprimir o montante da intervenção estatal na economia, o nível geral da incidência fiscal, a progressividade desta e, naturalmente, junto com tudo isso, também o nível dos salários. É um projeto não de "salários mínimos" internacionais, ou transnacionais, mas pelo contrário de "plafonamento" dos salários, de compressão e indução generalizada da baixa destes. É também um projeto de "plafonamento do Estado", de compressão da intervenção económica deste último através da concorrência fiscal, e naturalmente de ampliação da esfera dita "do mercado", isto é, dos lucros, e sobretudo dos lucros financeiros. A "Europa social" nunca acontecerá! – como aliás parece ter compreendido bem o João Rodrigues (aqui) .

2) Depois, vale também a pena destacar, no artigo do Sapir , a noção da importância dos "efeitos em cascata" nos processos de crescimento, e em particular a do investimento. O crescimento, "Finalmente, está ligado a curto prazo à evolução da procura tanto no interior do país como no exterior. Mas estes diferentes fatores são interdependentes. Uma subvalorização da divisa e um aumento da procura interna vão aumentar o nível dos investimentos, o que vai traduzir-se depois de um certo período num aumento do potencial de crescimento a longo prazo".

Este aspeto merece ser sublinhado. O Eugénio Rosa, por exemplo, tem toda a razão ao enfatizar, em artigo no resistir.info , a importância do afundar do investimento na nossa evolução económica. Mas note-se que um dos "cancros" da nossa adesão ao Euro foi precisamente a quebra da FBCF, "formação bruta de capital fixo", na primeira década do século XXI. A baixa produtividade do nosso trabalho, obviamente (mas não é demais repetir), não é "mandrionice" dos nossos assalariados: é afundamento continuado da FBCF, com os recursos entretanto a fugirem sistematicamente para os sectores ditos "não-transacionáveis" (construção civil, restauração, sector financeiro…), ou seja, não sujeitos à concorrência internacional, e por isso sofrendo menos com a sobrevalorização cambial de que toda a economia portuguesa tem sido continuadamente vítima.

Tudo isso, ainda por cima, agravado pela orientação "rent-seeker" dos nossos patrões e dos nossos gestores, a qual entre outras coisas impede políticas visando, por exemplo, a redução do nosso défice energético, antes as reforça. Mas para tal, notemo-lo aqui também, seria preciso haver políticas económicas ativas neste país, políticas discricionárias, visando fazer o que o legislador ou o decisor político querem, não o que "o mercado" (mais ou menos "espontaneamente") prefere. Ora isso, também isso, ou sobretudo isso, leva a um conflito direto com outra das vacas sagradas da "construção europeia": a noção de que deve ser "o mercado" a decidir, não os políticos, não os eleitos pelos povos.

De resto, a própria noção "maastrichtiana" de que o défice orçamental deve ser tão reduzido quanto possível, visando uma inflação tão baixa quanto possível, para além de estar assente no pressuposto de que os tais "agentes racionais", face a uma inflação nula, procederiam da melhor maneira imaginável (o que, para além de grotescamente irrealista, é também manifestamente falso), assume igualmente, e de forma muitíssimo arrogante, que os bancos centrais estão e devem estar ao-abrigo-de-eleições; devem ser "independentes" no sentido de que não devem depender do sufrágio popular, o qual é explicitamente, para a mainstream economics (em particular, neste caso, a chamada escola da "teoria da escolha pública"), um estorvo a evitar, a contornar e, quando as outras opções forem inviáveis, a suprimir. Quanto a isto, atentar na arrepiante confissão cândida de Jacques Nikonoff, no debate com Annie Lacroix-Riz, aos minutos 1:03 e seguintes (ver aqui ). Há decerto muito a debater quanto à natureza social e nacional da "construção europeia"; aliás, ver também, de Annie Lacroix-Riz ( aqui ). Mas que um político oficialmente "de esquerda", um membro fundador e dirigente da ATTAC, como Nikonoff, assuma isto com esta tranquilidade constitui já, em si mesmo, um facto bastante perturbador e inquietante…

Dado que a trajetória em Portugal, já ao longo de toda a primeira década de vida do Euro (e não apenas nestes últimos anos de crise manifesta), foi a de dar cabo da chamada FBCF, e agora, como resultado da suposta terapia que seriam as medidas de "austeridade", é também a de dar cabo da procura efetiva global, com a produção dum tremendo "desemprego keynesiano" nos últimos meses (desemprego diretamente por falta de procura interna, ao que as exportações já não conseguem compensar, menos ainda estando nós amarrados ao Euro e com os outros europeus também a patinarem), estamos mesmo a seguir o rumo oposto em 180 graus ao que o Sapir sugere.

Em suma, estamos numa trajetória perigosíssima de "efeitos de bola de neve", de "causalidade circular cumulativa", ou em espiral, mas para baixo. Se saíssemos melhoraríamos sem dúvida a nossa situação. Ah, mas praticaríamos então uma desvalorização competitiva que seria danosa para os demais europeus, como alguns argumentam? Não! Nem isso, dado que, como Mark Weisbrot sublinha (ver infra), pelo caminho atual, lesando-se cada um a si mesmo, a verdade é que também estamos ipso facto a lesar os outros, porque cada país gera menos procura para os produtos dos demais.

Depois disso lá vem a tropa do costume (FMI, BCE, Comissão Europeia e tutti quanti ) dizer que "descobriu" que o "multiplicador da despesa pública", afinal, é não 0,5, mas 1,5. Dito de outro modo, por cada 100 unidades que o Estado gasta a menos, ou cobra a mais de impostos (ou um "mix" disso), supostamente para combater o défice orçamental, "consolidar as finanças públicas", etc., há um resultado que consiste em 150 unidades de PIB a menos. Se a isso aplicarmos uma taxa de incidência fiscal de 40 por cento, temos que o Estado, mantendo constante o quadro da fiscalidade, vai ter 60 unidades de receita fiscal a menos no período subsequente. Dito de outro modo: a maior parte do próprio resultado orçamental direto da terapia "austeritária" foge pelo ralo dos efeitos deprimentes que isso tem sobre o nível da atividade económica. A realidade económica, se se quiser, é de facto muito mais "keynesiana" do que "neoclássica". Mas muita atenção, que esse pessoal, ao contrário do que proclama, não "descobriu" nada, de facto soube-o ou deve tê-lo calculado desde o princípio, mas fez que não sabia. Essa malta não é parva; faz é de nós parvos, que é coisa diferente. E assim continuaremos, para falar com franqueza, enquanto continuarmos no Euro, e com medo de lá sair...

Face a isso, tem completamente razão Mark Weisbrot ao comparar (ver aqui ) o destino da Argentina, que "desdolarizou" e desvalorizou, e muito bem, com o da Grécia, e o nosso, continuando ligados ao Euro, e sendo pois empurrados, pela lógica da respetiva ação constritora, para o caminho da chamada "desvalorização interna": a inexorável "desvalorização interna" que está não só a destruir a vida dos assalariados e dos pensionistas dos países europeus periféricos, mas em boa verdade a destruir os países periféricos na sua totalidade, enquanto tais, enquanto sociedades politicamente organizadas, como estados-nação soberanos, etc., para além de, bem entendido, lesar os interesses dos próprios assalariados dos países centrais. (Mark Weisbrot depois equivoca-se, sim, ao atribuir ao Syriza uma atitude de mera prudência, ou de simples "pausa pedagógica", que lhe evitaria afastar-se demasiado da opinião maioritária dos eleitores gregos. Nesse ponto, é o próprio Weisbrot que é vítima duma ilusão. Mas esse é outro assunto. Quanto a isso, ver o meu comentário aqui .

E nisso, nessa trajetória de "desvalorização interna", sejamos claros duma vez por todas, são responsáveis, objetiva ou subjetivamente, são cúmplices, objetiva ou subjetivamente: já não apenas os partidos do "arco da Troika", todos eles (mais carta, menos carta) explicitamente "no bolso de Don Corleone", mas até mesmo (embora apenas passivamente) as oposições genuínas. E refiro-me quanto a isso aos que, seja por "europeísmo de esquerda" opiáceo-alucinado, como acontece com o BE, seja por conduta titubeante e evasiva, como aparentemente acontece com o próprio PCP, evitam apontar à opinião pública aquilo que são os traços fundamentais do diagnóstico que importa fazer. Diagnóstico que inclui antes de mais, numa caminhada para a qual importa construir consensos que rapidamente se tornem maioritários na sociedade portuguesa: sair do Euro e recuperar a nossa soberania monetária.

Trata-se de um projeto eminentemente popular, porque corresponde aos interesses da esmagadora maioria da população portuguesa; e eminentemente patriótico, porque na verdade se trata basicamente de salvar Portugal: de resgatar Portugal, reconciliando-o consigo mesmo.

Depois disso haverá decerto um oceano de problemas a resolver, de questões a debater. Claro que sim. Mas cada coisa de sua vez, e em tempo próprio. A vida é mesmo assim. Só nos cemitérios é que não há problemas e questões à nossa espera.
[*] Economista e sociólogo, jogra1958@netcabo.pt

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

24-02-2013

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CANTA O MERLO: "O rei conhecia o golpe do 23F com antelaçom e brindou com champanha"

http://www.larepublica.es/2013/02/el-rey-conocia-el-golpe-del-23f-con-antelacion-y-brindo-con-champan/

"O rei conhecia o golpe do 23F com antelaçom e brindou com champanha"

Segundo o senador do PNV Iñaki Anasagasti, citando as supostas memórias de Sabino Fernandez Campo (entom Secretário da Casa do Rei), Juan Carlos I conhecia com antelaçom que se ia a produzir um golpe de estado o 23 de Fevereiro de 1981 e, aos poucos minutos de conhecer-se o assalto ao Congresso dos Deputados, chegou a brindar com champanha junto aos seus familiares.

Segundo estes "recordos" de Fernández Campo desvelados agora polo parlamentar basco, foi o secretário geral dela Casa do Rei quem aconselhou ao Monarca de que devia condenar com rotundidade a tentativa que encabeçaram Alfonso Armada, Jaime Milans do Bosch e Antonio Tejero Molina, porque, ao invés, a Monarquia voltaria a desaparecer de Espanha.

Segundo este relato, que contradiria absolutamente a versom conhecida até agora daqueles acontecimentos, Fernández Campo quase chegou a gritar a Juan Carlos para que se desse conta da gravidade da situaçom: "Senhor!" Está vostede tolo" Estamos ao bordo do precipício e vostede brindando com champanha Senhor!, nom se dá conta de que a Monarquia está em perigo" Nom se dá conta que pode ser o final do seu reinado" Lembre o que lhe passou ao seu avô!!!"

17-02-2013

Link permanente 13:12:09, por José Alberte Email , 1636 palavras   Português (GZ)
Categorias: Ensaio

CANTA O MERLO: O Vaticano-A Corte do crimem e a corrupçom

Eduardo Febbro
Página/12

http://www.pagina12.com.ar/diário/elmundo/4-213961-2013-02-16.html

As verdadeiras razons da renúncia do papa Benedito XVI: Corrupçom, lavagem de dinheiro e as luitas internas mais ferozes

Um relatório elaborado por três cardeais terminou-o de convencer de que era impossível limpar o Vaticano, onde até a Cosa Nostra guarda os seus fundos. A abdicaçom como maneira de sacudir o tabuleiro na Igreja.

Os experto vaticanistas alegam que o papa Benedito XVI decidiu renunciar em Março do ano passado, depois de regressar da sua viagem a México e a Cuba. Nesse entom, o Papa que encarna o que o especialista e universitário francês Philippe Portier chama "umha continuidade pesada" com o seu predecessor, Joám Paulo II, descobriu a primeira parte de um informe elaborado polos cardeais Julián Herranz, Jozef Tomko e Salvatore de Giorgi. Ali estavam resumidos os abismos nada espirituais nos que caíra a Igreja: corrupçom, finanças escuras, guerras fratricidas polo poder, roubo maciço de documentos secretos, pugna entre facçons e lavagem de dinheiro. O resumo final era a "resistência na cúria à mudança e muitos obstáculos às acçons pedidas polo Papa para promover a transparência".

O Vaticano era um ninho de hienas excitadas, um pugilato sem limites nem moral algumha onde a cúria faminta de poder fomentava denúncias, traiçons, cambadelas, lavagem de dinheiro, operaçons de Inteligência para manter as suas prerrogativas e privilégios à frente das instituiçons religiosas e financeiras. Muito longe do céu e muito perto dos pecados terrestres. Baixo o mandato de Benedito XVI, o Vaticano foi um dos Estados mais escuros do planeta. Josef Ratzinger tivo o mérito de destapar o imenso buraco negro dos curas pedófilos, mas nom o de modernizar a Igreja e dar volta a página do legado de assuntos turvos que deixou o seu predecessor, Joám Paulo II.

Esse primeiro relatório do três cardeais desembocou, em agosto do ano passado, na nomeaçom do suíço René Brülhart, um especialista em lavagem de dinheiro que dirigiu durante oito anos a Financial Intelhigence Unit (FIU) du Liechtenstein, ou seja, a agência nacional encarregado de analisar as operaçons financeiras suspeitas. Brülhart tinha como missom pôr ao Banco do Vaticano em sintonia com as normas europeias ditadas polo GAFI, o grupo de acçom financeira. Desde logo, nom o pode fazer. O passado turvo fechou-lhe o passo.

Benedito XVI foi, como o assinala Philippe Portier, um continuador da obra de Joám Paulo II: "Desde 1981 seguiu o reino do seu predecessor acompanhando vários textos importantes que ele mesmo redigiu às vezes, como a Condenaçom das teologias da libertaçom dos anos 1984-1986, o Evangelium Vitae de 1995, adrede da doutrina da Igreja sobre temas da vida, ou Splendor Veritas, um texto fundamental redigido a quatro maos com Woxtyla". Estes dous textos citados polo experto francês som um compendio prático da visom reaccionária da Igreja sobre as questons políticas, sociais e cientistas do mundo moderno.

A segunda parte do relatório do três cardeais foi-lhe apresentada ao Papa em Dezembro. Desde entom, a renúncia expós-se de forma irrevogável. Em pleno marasmo e com umha cheia de corredores que conduziam ao inferno, a cúria romana actuou como o faria qualquer Estado. Buscou impor umha verdade oficial com métodos modernos. Para isso contratou ao jornalista norte-americano Greg Burke, membro do Opus Dei e ex membro da agência Reuters, a revista Time e a corrente Fox. Burke tinha por missom melhorar a deteriorada imagem da Igreja. "A minha ideia é achegar claridade", falou Burke ao assumir o posto. Demasiado tarde. Nada há de claro na cima da Igreja católica.

A divulgaçom dos documentos secretos do Vaticano orquestrada polo mordomo do papa, Paolo Gabriele, e muitas outras maos invisíveis foi umha operaçom sabiamente montada cujos recursos seguem sendo misteriosos: operaçom contra o poderoso secretário de Estado, Tarcisio Bertone, conspiraçom para empurrar a Benedito XVI à renúncia e pôr a um italiano no seu lugar, ou tentativa de frear a purga interna em curso e a avalanche de segredos, os vatileaks mergulharam a tarefa limpadora de Burke. Um inferno de paredes pintadas com anjos nom é fácil de redesenhar.

Benedito XVI foi esmagado polas contradiçons que ele mesmo suscitou. Estas som tais que, umha vez que fixo pública a sua renúncia, os tradicionalistas da Fraternidade de Som Pio X fundada por monsenhor Lefebvre saudaram a figura do Papa. Nom é para menos: umha das primeiras missons que empreendeu Ratzinger consistiu em suprimir as sançons canónicas adoptadas contra os partidários fascistoides e ultrarreaccionarios de monsenhor Lefebvre e, por conseguinte, legitimar no seio da Igreja essa corrente retrógrada que, de Pinochet a Videla, soubo apoiar a quase todas as ditaduras de ultradereita do mundo.

Philippe Portier assinala a respeito disso que o Papa "deixou-se exceder pola opacidade que se instalou sob o seu reino". E a primeira delas nom é doutrinal, senom financeira. O Vaticano é um tenebroso gestor de dinheiro e muitas das querelas que se destapárom no último ano tem que ver com as finanças, as contas maquilhadas e as operaçons ilícitas. Esta é a herança financeira que deixou Joám Paulo II e que para muitos especialistas explica a crise actual. O Instituto para as Obras de Religiom, é dizer o banco do Vaticano, fundado em 1942 por Pio XII, funciona com umha escuridade tormentosa. Em Janeiro, a pedido do organismo europeu de luta contra o branqueio de dinheiro, Moneyval, o Banco da Itália bloqueou o uso das cartas de crédito dentro do Vaticano devido à falta de transparência e a falha-las manifestas no controlo de lavagem de dinheiro. Em 2011, o cinco milhons de turistas que visitaram a Santa Sé deixaram 93,5 milhons de euros nas caixas do Vaticano, agora deverám pagar em mao. O IOR gere mais de 33.000 contas polas que circulam mais de seis mil milhons de euros. A sua opacidade é tal que nom figura na "lista branca" dos Estados que participam no combate contra as transacçons ilícitas.

Em Setembro de 2009, Ratzinger nomeou ao banqueiro Ettore Gotti Tedeschi à frente do Banco do Vaticano. Próximo do Opus Dei, representante do Banco de Santander na Itália desde 1992, Gotti Tedeschi participou na preparaçom da encíclica social e económica Caritas in veritate, publicada polo Papa em Julho. A encíclica exige mais justiça social e expom regras mais transparentes para o sistema financeiro mundial. Tedeschi tivo como objectivo ordenar as turvas águas das finanças vaticanas. As contas da Santa Sé som um labirinto de corrupçom e lavagem de dinheiro cujos origens mais conhecidas remontam-se a finais dos anos "80, quando a justiça italiana emitiu umha ordem de detençom contra o arcebispo norte-americano Paul Marcinkus, o chamado "banqueiro de Deus", presidente do Instituto para as Obras da Religiom e máximo responsável polos investimentos vaticanos da época.

Marcinkus era um adepto aos paraísos fiscais e muito amigo das máfias. Joám Paulo II usou o argumento da soberania territorial para evitar a detençom e salvar do cárcere. Nom estranha, devia-lhe muito, xá que nos anos "70 e "80 Marcinkus utilizara o Banco do Vaticano para financiar secretamente ao filho predilecto de Joám Paulo II, o sindicato polonês Solidariedade, algo que Woxtyla nom esqueceu jamais. Marcinkus terminou os seus dias jogando ao golfe em Arizona e no meio ficou um gigantesco buraco negro de perdas (3,5 mil milhons de dólares), investimentos mafiosos e também vários cadáveres

O 18 de Junho de 1982 apareceu um cadáver aforcado na ponte londrina de Blackfriars. O corpo pertencia a Roberto Calvi, presidente do Banco Ambrosiano e principal sócio do IOR. O seu aparente suicídio correu o lenço de umha imensa trama de corrupçom que incluía, ademais do Banco Ambrosiano, a logia massónica Propaganda 2 (mais conhecida como P-2), dirigida por Licio Gelli, e o mesmo Banco do Vaticano dirigido por Marcinkus. Gelli refugiou-se um tempo na Argentina, onde já operara nos tempos do general Lanusse mediante um operativo chamado "Gianoglio" para facilitar o retorno de Perón.

A Gotti Tedeschi encomendou-se-lhe umha missom quase impossível e só permaneceu três anos à frente do Instituto para as Obras de Religiom. Foi despedido de forma fulminante em 2012 por supostas "irregularidades na sua gestom". Entre outras irregularidades, a promotoria de Roma descobriu um giro suspeito de 30 milhons de dólares entre o Banco do Vaticano e o Credito Artigiano. A transferência fizo-se desde umha conta aberta no Credito Artigiano mas bloqueada pola Justiça por causa da sua falta de transferência. Tedeschi saiu do banco poucas horas depois de que se detivesse ao mordomo do Papa e justo quando o Vaticano estava a ser investigado por suposta violaçom das normas contra o branqueio de capitais. Em realidade, a sua expulsom constitui outro episódio da guerra entre facçons. Em canto fizo-se cargo do posto, Tedeschi começou a elaborar um relatório secreto onde consignou o que foi descobrindo: contas cifradas onde se escondia dinheiro suxo de "políticos, intermediários, construtores e altos funcionários do Estado". Até Matteo Messina Denaro, o novo chefe da Cosa Nostra, tinha o seu dinheiro no IOR. Ali começou o infortúnio de Tedeschi. Quem conhecem bem o Vaticano alegam que o banqueiro amigo do Papa foi vítima de um complô armado por conselheiros do banco com o respaldo do secretário de Estado, monsenhor Bertone, um inimigo pessoal de Tedeschi e responsável pola comissom cardinalicia que vigia o funcionamento do banco. A sua destituiçom veio acompanhada pola difusom de um "documento" que o vinculava com a fuga de documentos roubados ao Papa.

Mais que as querelas teológicas, é o dinheiro e as suxas contas do Banco do Vaticano o que parecem compor a trama da inédita renúncia do Papa. Um ninho de corvos pedófilos, complotistas reaccionários e ladrons, sedentos de poder, impunes e capazes de todo com tal de defender a sua facçom, a hierarquia católica haver deixado umha imagem terrível do seu processo de descomposiçom moral. Nada muito diferente ao mundo no que vivemos: corrupçom, capitalismo suicida, protecçom dos privilegiados, circuitos de poder que se auto-alimentam e protegem, o Vaticano nom é mais que um reflexo pontual da própria decadência do sistema.

23-01-2013

Link permanente 21:45:41, por José Alberte Email , 183 palavras   Português (GZ)
Categorias: Dezires

CANTA O MERLO: Reino Boubónico-A lei para o parvo e o cárcere para o pobre

http://www.larepublica.info/

Ramón Jorge Rios Salgado, o “kamikaze” foi indultado polo ministro de Justiça do Reino Boubónico, A. Ruiz Gallardón O PP impediu ontem com os seus votos que o ministro de Justiça, Alberto Ruiz Gallardón, explicasse esta medida no Congresso.

Rios Salgado foi condenado a treze anos de prisom por causar a morte em Dezembro de 2003 a José Dolz Espanha, de 25 anos, e graves ferimentos à jovem que lhe acompanhava, ao estrelar o seu carro contra o do casal trás circular durante cinco quilómetros em sentido contrário por umha auto-estrada valenciana.

Gallardón, mudou esta pena por umha coima de 4.380 euros, que terá que pagar a razom de seis euros diários durante dous anos. Ante a indignaçom que causou o indulto, o Governo está molesto com a medida adoptada pelo seu ministro de Justiça.

O indultado foi defendido polo bufete de advogados no que trabalha o filho de Gallardón, um dos gabinetes mais caros do país e inacessível para a imensa maioria dos mortais. Ademais, o seu advogado defensor Esteban Artarloa, irmao do que fosse secretário de Estado de Segurança com Aznar, Ignacio Astarloa.

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