Categorias: Outros, Ensaio, Dezires

22-08-2013

Link permanente 18:14:20, por José Alberte Email , 350 palavras   Português (GZ)
Categorias: Dezires

CANTA O MERLO: Teeram: os grupos terroristas usárom as armas químicas se de verdade fórom utilizados em Damasco-campo

http://sana.sy/spa/213/2013/08/22/498552.htm

O chanceler iraniano Mohammad Javad Zarif, afirmou que o "Governo sírio nom pode ser responsável polo possível ataque com armas químicas contra Damasco-campo ontem quarta-feira", assinalando que "se é verdade, fórom utilizadas armas químicas, seriam os grupos terroristas que os utilizárom"".

Zarif dixo numha conversaçom telefónica com o seu homólogo turco, Ahmet Davutoglu ontem à noite, que "no momento em que se encontram os inspectores da ONU em Damasco e os grupos terroristas sofrem derrotas, como se poderia recorrer à supracitada acçom"", afirmando que este acto criminal foi perpetrado por grupos terroristas porque os seus interesses estám na escalada da crise na Síria e a sua internacionalizaçom.

O chanceler iraniano agregou que "se o tema da utilizaçom de armas químicas na Síria foi verdadeiro, está claro que se utilizou polos grupos terroristas takfiríes porque esses grupos demonstrárom que som capazes de cometer semelhantes crimes".

Assim mesmo, assinalou que o governo sírio condenou este incidente e dixo: "A República Islâmica do Irám esta realizando contactos com o governo sírio para estudar as diferentes dimensons deste incidente".

O chefe da diplomacia iraniana fixo ênfase nas posturas cruciais do Irám em rejeiçom às armas de destruiçom maciça, assim como condenou firmemente o uso de qualquer tipo de armas químicas.

China exorta aos inspectores da ONU na Síria a ser imparciais ao investigar no suposto uso de armas químicas

China chamou aos inspectores da ONU na Síria a adoptar umha atitude imparcial e profissional, assim como a consultar plenamente com o Governo sírio ao investigar o uso de armas químicas que se produziu supostamente ontem quartas-feiras no campo de Damasco"

A Cancilhería chinesa citada por Reuters nesta quinta-feira, declarou que China adopta umha postura clara em contra do uso de armas químicas, independentemente de quem o cometeu.

A postura da China vem depois de que o Conselho de Segurança Internacional exigisse ontem num comunicado de imprensa emitido trás umha sessom a portas fechadas, que se desvele a verdade acerca de um suposto uso de armas químicas em Damasco-campo, acolhendo com beneplácito o início de umha investigaçom a respeito disso.

Fady M., Lynn A.

21-08-2013

Link permanente 23:13:32, por José Alberte Email , 2222 palavras   Português (GZ)
Categorias: Ensaio

CANTA O MERLO: A verdade proibida: Os EUA estão a canalizar armas química para a Al Qaeda na Síria

Por Prof Michel Chossudovsky

Estará o presidente Obama a preparar o cenário para uma “intervenção humanitária” ao acusar displicentemente o presidente sírio de matar o seu próprio povo?

“Na sequência de uma revisão deliberativa, nossa comunidade de inteligência estima que o regime Assad utilizou armas químicas, incluindo o agente de nervos sarin, em pequena escala contra a oposição múltiplas vezes durante o ano passado”

O vice-conselheiro de segurança nacional da Casa Branca, Ben Rhodes, afirmou numa declaração: “Nossa comunidade de inteligência tem alta confiança naquela estimativa devido a múltiplas e independentes fontes de informação”.

“Obama avisou o presidente Bashar Al Assad das “enormes consequências” de ter cruzado a “linha vermelha” ao alegadamente utilizar armas químicas.

Dinheiro e armas para a Al Qaeda

A saga das armas de destruição maciça (ADM) no Iraque, com base em provas falsificadas, está a desdobrar-se. Os media ocidentais em coro acusam implacavelmente o governo sírio de assassínio em massa premeditado, conclamando a “comunidade internacional” a vir resgatar o povo sírio.

“A Síria transpõe a “linha vermelha” sobre armas químicas. Como responderá Obama?

A “oposição” síria está clamar junto aos EUA e seus aliado para que implementem uma zona de interdição de voo (no fly zone).

A Casa Branca por sua vez reconheceu que a linha vermelha “fora cruzada”, enfatizando ao mesmo tempo que os EUA e seus aliados “aumentarão o âmbito e a escala da assistência” aos rebeldes.

O pretexto das armas químicas está a ser utilizado para justificar ainda mais ajuda militar aos rebeldes, os quais em grande parte foram liquidados pelas forças do governo sírio.

Estas forças rebeldes derrotadas – em grande parte compostas pela Al Nusrah, associada à Al Qaeda – são apoiadas pela Turquia, Israel, Qatar e Arábia Saudita.

Os EUA-NATO-Israel perderam a guerra no terreno. Seus combatentes da Frente Al Nusrah, os quais constituem a infantaria da aliança militar ocidental, não podem, sob quaisquer circunstâncias, serem repostos através de um fluxo renovado de ajuda militar dos EUA-NATO.

A administração Obama está num impasse: a sua infantaria foi derrotada. Uma “zona de interdição de voo”, nesta etapa, seria uma proposta arriscada dado o sistema de defesa aérea da Síria, o qual inclui o sistema russo S-300 SAM.

Os EUA-NATO estão a treinar rebeldes da “oposição” na utilização de armas químicas

As acusações de armas químicas são falsificadas. Numa ironia amarga, as provas confirmam amplamente que as armas químicas estão a ser utilizadas não pelas forças do governo sírio mas sim pelos rebeldes da Al Qaeda apoiados pelos EUA.

Numa lógica enviesada pela qual as realidades são invertidas, o governo sírio está a ser acusado pelas atrocidades cometidas pelos rebeldes associados a Al Qaeda patrocinados pelos EUA.

Os media ocidentais estão a introduzir desinformação nas cadeias de notícias, refutando despreocupadamente as suas próprias reportagens. Como confirmado por várias fontes, incluindo a CNN, a aliança militar ocidental não só disponibilizou armas químicas para a Frente Al Nusrah como também enviou empreiteiros militares (military contractors) e forças especiais para treinar os rebeldes.

O treino [em armas químicas], o qual está a ter lugar na Jordânia e na Turquia, envolve como monitorar e acumular stocks com segurança,além do manuseamento destas armas em sítios em materiais, segundo as fontes. Alguns dos empreiteiros estão sobre o terreno na Síria a trabalhar com os rebeldes para monitorar alguns dos sítios, segundo um dos responsáveis.

A nacionalidade dos treinadores não foi revelada, embora os responsáveis advirtam contra a suposição de que todos eles sejam americanos. ( CNN , 09/Dezembro/2012, ênfase acrescentada)

Se bem que as notícias e reportagens não confirmem a identidade dos empreiteiros da defesa, as declarações oficiais sugerem um estreito vínculo contratual com o Pentágono.

A decisão estado-unidense de contratar estranhos empreiteiros de defesa para treinar rebeldes sírios a manusearam stocks acumulados de armas químicas parece perigosamente irresponsável ao extremo, especialmente quando se considera quão inepta Washington foi até agora para garantir que apenas rebeldes laicos e confiáveis – na medida em que existam – recebam a sua ajuda e as armas que aliados nos estados do Golfo Árabe têm estado a fornecer.

Isto também corrobora acusações feitas recentemente pelo Ministério das Relações Exteriores sírio de que os EUA estão a trabalhar para compor o quadro de que o regime sírio como tendo utilizado ou preparado a guerra química.

“O que levanta preocupações acerca desta notícia circulada pelos media é o nosso sério temor de que alguns dos países apoiando o terrorismo e terroristas possam proporcionar armas químicas aos grupos terroristas armados e afirmar que foi o governo sírio que utilizou tais armas” , (John Glaser, Us Defense Contractors Training Syrian Rebels , Antiwar.com, December 10, 2012, ênfase acrescentada).

Não tenhamos ilusões. Isto não é um exercício de treino de rebeldes em não proliferação de armas químicas.

Enquanto o presidente Obama acusa Bashar Al Assad, a aliança militar EUA-NATO está a canalizar armas químicas para a Al Nusrah, uma organização terrorista na lista negra do Departamento de Estado.

Com toda a probabilidade, o treino dos rebeldes da Al Nusrah na utilização de armas químicas ficou a cargo de empreiteiros militares privados.

A Missão Independente das Nações Unidas confirma que forças rebeldes estão na posse do gás de nervos Sarin

Enquanto Washington aponta o dedo ao presidente Bashar al Assad, uma comissão de inquérito independente das Nações Unidas em Maio de 2013 confirmou que os rebeldes, ao invés do governo, têm armas químicas na sua posse e estão a utilizar gás de nervos sarin contra a população civil:

Investigadores de direitos humanos da ONU reuniram testemunhos das baixas da guerra civil da Síria e de equipes médicas indicando que forças rebeldes utilizaram o agente de nervos sarin, disse domingo um dos principais investigadores.

A comissão independente de inquérito das Nações Unidas sobre a Síria ainda não viu provas de que forças governamentais tenham utilizado armas químicas, as quais estão proibidas pelo direito internacional, disse Carla Del Ponte, membro da comissão. (ver imagem)

“Nossos investigadores estiveram em países vizinhos a entrevistas vítimas, médicos e hospitais de campo e, segundo o seu relatório da semana passada que vi, há fortes e concretas suspeitas, mas não ainda prova incontroversa, da utilização do gás sarin, a partir do modo como as vítimas foram tratadas “, disse Del Ponte numa entrevista à televisão suíça-italiana.

“Isto foi utilizado por parte da oposição, os rebeldes, não pelas autoridades governamentais”, acrescentou ela, a falar em italiano. (“ U.N. has testimony that Syrian rebels used sarin gas: investigator ,” Chicago Tribune, May, 5 2013, ênfase acrescentada)

Relatório da polícia turca: Terroristas do Al Nusrah apoiados pelos EUA possuem armas químicas

Segundo a agência de notícias estatal turca Zaman, o Diretorado Geral Turco de Segurança (Emniyet Genel Müdürlügü):

[A polícia] apreendeu 2 kg de gás sarin na cidade de Adana nas primeiras horas da manhã de ontem. As armas químicas estavam na posse de terroristas do Al Nusra que se acredita terem ido para a Síria.

O gás sarin é incolor, uma substância inodoro que é extremamente difícil de detectar. O gás é proibido pela Convenção das Armas Químicas de 1993.

A EGM [polícia turca] identificou 12 membros da célula terrorista Al Nusra e também apreendeu armas de fogo e equipamento digital. Esta é a segunda confirmação oficial importante da utilização de armas química por terroristas da Al Qaeda na Síria após recentes declarações da inspectora Carla Del Ponte confirmando a utilização de armas químicas pelos terroristas na Síria apoiados pelo Ocidente.

A política turca está actualmente a efectuar novas investigações quanto às operações de grupos ligados à Al Qaeda na Turquia. (Para mais pormenores ver Gearóid Ó Colmáin, Turkish Police find Chemical Weapons in the Possession of Al Nusra Terrorists heading for Syria, Global Research.ca, May 30, 2013 )

Quem cruzou a “Linha vermelha”? Barack Obama e John Kerry estão a apoiar uma organização terrorista na lista do Departamento de Estado.

O que se está a desenrolar é um cenário diabólico – o qual faz parte integral do planeamento militar dos EUA –, nomeadamente uma situação em que terroristas da oposição da Frente Al Nusrah aconselhados por empreiteiros ocidentais da defesa estão realmente na posse de armas químicas.

O Ocidente afirma que está vindo em resgate do povo sírio, cuja vidas alegadamente são ameaçadas por Bashar Al Assad.

Obama não só “Cruzou a linha vermelha” como está a apoiar a Al Qaeda. Ele é um Mentiroso e um Terrorista.

A verdade proibida, que os media ocidentais não revelam, é que a aliança militar EUA-NATO-Israel não só está a apoiar a Frente Al Nusrah como tambémestá a disponibilizar armas química para forças rebeldes da sua “oposição” proxy.

A questão mais ampla é: Quem constitui uma ameaça para o povo sírio? O presidente Bashar al Assad da Síria ou o presidente Barack Obama da América, que ordenou o recrutamento e treino de forças terroristas que estão na lista negra do Departamento de Estado dos EUA?

Numa ironia amarga, segundo o Bureau of Counter-terrorism do Departamento do Estado dos EUA, o presidente Obama e o secretário de Estado John Kerry, para não mencionar o senador John McCain, podiam ser considerados responsáveis por “conscientemente proporcionar, ou tentar ou conspirar para isso, apoio material ou recursos para, ou envolver-se em transacções com, a Frente al-Nusrah”.

O Departamento de Estado emendou o Foreign Terrorist Organization (FTO) e a Executive Order (E.O.) 13224 com as designações da al-Qaida no Iraque (AQI) a fim de incluir os seguintes novos pseudônimos: al-Nusrah Front, Jabhat al-Nusrah, Jabhet al-Nusra, The Victory Front, e Al-Nusrah Front for the People of the Levant. As consequências de acrescentar a Frente al-Nusrah como nova denominação para a Al Qaida incluem uma “proibição contra conscientemente proporcionar, ou tentar ou conspirar para proporcionar, apoio material ou recursos para, ou envolver-se em transacções com a Frente al-Nusrah, e o congelamento de toda propriedade e interesses na propriedade da organização que estão nos Estados Unidos, ou venham a estar dentro dos Estados Unidos ou controle de pessoas dos EUA. (ênfase acrescentada)

O conselho do Departamento de Estado reconhece que de Novembro de 2011 a Dezembro de 2012:

“A Frente Al-Nusrah reivindico aproximadamente 600 ataques – que vão de mais de 40 ataques suicidas a armas pequenas e operações com dispositivos explosivos improvisados – em centros de cidade principais incluindo Damasco, Alepo, Hamah, Dara, Homes, Idlib e Dayr al-Zawr. Durante estes ataques numerosos sírios inocentes foram mortos.

O conselho também confirma que “os Estados Unidos efectuam esta acção [de por a Frente Al Nusrah na lista negra] no contexto do nosso apoio geral ao povo sírio. …

O que se deixa de mencionar é que a administração Obama continua a canalizar dinheiro e armas para a Al Nusrah em desobediência flagrante da legislação contra-terrorismo dos EUA.

O “intermediário” de Washington: O general Salim Idriss

O “intermediário” de Washington é o Chefe do Supremo Conselho Militar da FSA, general de brigada Salem Idriss (v. foto), o qual está em ligação permanente com comandantes militares da Al Nusrah.

O secretário de Estado John Kerry reúne-se com representantes da oposição síria. Responsáveis dos EUA reúnem-se com o general Idriss. Este último, a actuar por conta do Pentágono, canaliza dinheiro e armas para os terroristas. Este modelo de apoio ao Al Nusra é semelhante àquele aplicado no Afeganistão pelo qual o governo militar paquistanês do general Zia Ul Haq canalizou armas para os jihadistas “Combatentes a liberdade” no auge da guerra soviética-afegã.

O apoio dos EUA a terroristas é enviado sempre através de um intermediário de confiança. Segundo um responsável da administração Obama: “Se bem que os Estados Unidos possam ter influência sobre o general Idris, não têm capacidade para controlar alguns jihadistas – como a Frente Nusra, a qual também está a combater forças do governo sírio”. ( New York Times, May 23, 2013 )

John McCain entra na Síria, em mistura com terroristas patrocinados pelos EUA

Enquanto isso, o senador John McCain “entrou na Síria [no princípio de Junho] a partir da fronteira turca do país e permaneceu ali por várias horas … McCain encontrou-se com líderes reunidos de unidades do Free Syrian Army tanto na Turquia como na Síria”. Ver imagem de John McCain junto com o general Salem Idriss).

O papel contraditório do Conselho de Segurança das Nações Unidas

No fim de Maio de 2013 o Conselho de Segurança da ONU acrescentou a Al Nusrah à Lista de sanções da Al Qaida do UNSC. Mas ao mesmo tempo, a decisão do Conselho de Segurança despreocupadamente descartou o facto, amplamente documentado, de que três membros permanentes do Conselho, nomeadamente a Grã-Bretanha, a França e os EUA, continuam a proporcionar ajuda militar à Frente Jabbat Al Nusrah, em desafio ao direito internacional e à Carta das Nações Unidas.

ANEXO 1
THE TERRORIST DESIGNATION OF AL NUSRAH BY THE US STATE DEPARTMENT
U.S. DEPARTMENT OF STATE
Office of the Spokesperson December 11, 2012
STATEMENT BY VICTORIA NULAND, SPOKESPERSON
Terrorist Designations of the al-Nusrah Front as an Alias for al-Qa’ida in Iraq

ANEXO 2
UNITED NATIONS SECURITY COUNCIL
Department of Public Information • News and Media Division • New York
Security Council Al-Qaida Sanctions Committee Amends Entry of One Entity on Its Sanctions List

ANEXO 3
TRANSCRIPT OF STATE DEPARTMENT PRESS BRIEFING CONCERNING AL NUSRAH
Senior Administration Officials on Terrorist Designations of the al-Nusrah Front as an Alias for al-Qaida in Iraq
Special Briefing Senior Administration Officials
Via Teleconference
Washington, DC
December 11, 2012

Ver também:

Deleted Daily Mail Online Article: “US Backed Plan for Chemical Weapon Attack in Syria to Be Blamed on Assad”

O original encontra-se em www.globalresearch.ca/…

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

07-08-2013

Link permanente 16:45:36, por José Alberte Email , 1795 palavras   Português (GZ)
Categorias: Ensaio

CANTA O MERLO: O mundo sob a vigilância do governo estado-unidense e dos bancos

O mundo sob a vigilância do governo estado-unidense e dos bancos

por Valentin Katasonov [*]

O mundo financeiro como sistema de informação

O mundo contemporâneo das finanças é sobretudo acerca da informação, os dados sobre clientes de bancos, companhias de seguros, pensões e investimentos, bem como outras entidades que tratam de negócios financeiros, devem ser recolhidos, armazenados, processados e utilizados. As várias peças e informações esparsas de diferentes fontes são reunidas. No caso de indivíduos tudo se reduz a dinheiro, propriedade, trabalho, saúde, parentes e condições de vida. No caso de entidades legais a esfera de interesse abrange fundos e acordos de negócios, historial de crédito, investimentos planeados, principais líderes, accionistas e administradores, contratos, fundos de capital de companhias, etc. Estas são as coisas para as quais os bancos e outros agentes financeiros têm os seus próprios serviços. Além disso, as estruturas de informação incluem gabinetes de crédito, agências de classificação e informação especial. Alguns bancos ou firmas podem criar centrais (pools) de informação que armazenam a informação sobre clientes. Bancos centrais tornaram-se poderosas agências de informação, os quais executam funções de supervisão bancária, aproveitam o acesso praticamente ilimitado aos dados dos bancos comerciais. Além disso, alguns bancos centrais reúnem informação por sua própria iniciativa. O Banco da França, por exemplo, monitora empresas manufactureiras sob o pretexto da necessidade de aperfeiçoar sua política de crédito. Fluxos portentosos de informação financeira e comercial passam através de terminais de pagamentos, os quais são constituídos por sistemas de telecomunicações que transmitem dados. Sistemas de informação separados, mas estreitamente entrelaçados e inter-actuantes, fiscalizam vastas quantidades de fluxos de informação.

O grosso dos bancos e companhias financeiras opera seus próprios serviços de segurança. Formalmente sua missão é proteger a informação, a qual é propriedade das empresas. Não oficialmente muitos serviços obtêm informação adicional acerca de clientes e rivais. Naturalmente isso pressupõe que efectuem actividades encobertas utilizando equipamento técnicos especial e inteligência humana (HUMINT).

A informação recolhida é confidencial e exige procedimentos legais para a ela ter acesso. O facto de adquirirem informação confidencial e desfrutarem de independência significativa do estado traz os bancos mais perto de serviços secretos. Realmente, a cúpula da vigilância global da informação é operada em conjunto por bancos e serviços especiais. De facto, a fusão orgânica dos serviços especiais ocidentais e do sector financeiro e bancário aconteceu resultando num sombrio Leviatã gigante com vastos recursos financeiros e de informação para controlar todos os aspectos da vida humana.

O SWIFT como "cúpula" da vigilância financeira e de informação global

Estou certo de que a sigla SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication) é algo de novo para muitos. Trata-se de uma cooperativa possuída por membros do mundo financeiro que efectua suas operações de negócios. Mais de 10 mil instituições financeiras e corporações em 212 países confiam nela diariamente para intercambiar milhões de mensagens financeiras padronizadas. Esta actividade envolve o intercâmbio seguro de dados do proprietário enquanto assegura formalmente sua confidencialidade e integridade. Do ponto de vista legal é uma sociedade anónima (joint-stock company) constituída por bancos de diferentes países. Foi fundada em 1973 por 240 bancos de 15 Estados para enviar e receber informação acerca de transacções financeiras num ambiente seguro, padronizado e confiável. A Sociedade tem estado a funcionar desde 1977. O US dólar é utilizado para o grosso das transacções SWIFT. O SWIFT é uma sociedade cooperativa sob o direito belga e é possuído pelas suas instituições financeiras membro. Tem escritórios por todo o mundo. A sede do SWIFT, desenhada pelo Gabinete de Arquitectura Ricardo Bofill, está em La Hulpe, Bélgica, próximo de Bruxelas. O organismo governante máximo é a Assembleia-Geral. A decisão é tomada na base de "uma acção, um voto". Os bancos europeus ocidentais e estado-unidenses dominam os gabinetes de direcção. Os EUA, Alemanha, Suíça, França e Grã-Bretanha são os principais accionistas e decisores. As acções são distribuídas de acordo com o volume do tráfego transportado.

Qualquer banco que desfrute do direito de efectuar operações bancárias internacionais de acordo com a lei nacional pode aderir ao SWIFT. Desde o fim do século XX o SWIFT tornou-se indispensável no caso de alguém que queira enviar dinheiro para outro país. Uma vez que a fatia de leão das transacções internacionais era feita em dólares, todos os pagamentos foram-no através de contas abertas em bancos dos EUA, os quais, por sua vez, têm contas no Federal Reserve System (FRS). Portanto, sendo um organismo internacional, o SWIFT está atado ao FRS, mesmo que os bancos dos EUA não tenham qualquer controle accionário. Os servidores do SWIFT estão situados nos Estados Unidos e na Bélgica. Em meados da década passada a Sociedade serviu 7800 clientes em 200 países. O fluxo financeiro diário é de 6 milhões de milhões (trillion).

O SWIFT como empreendimento conjunto do FRS e da CIA

No Verão de 2006 aconteceu o SWIFT estar no centro de um escândalo sumarento provocado pelos jornais New York Times, Wall Street Journal e Los Angeles Times.

Eis como foi a história. Os acontecimentos do 11/Set estimularam a ideia de colocar sob controle todas as transacções financeiras dentro do país, especialmente aquelas transnacionais. Formalmente, o objectivo era impedir o financiamento de organizações terroristas. Quase de imediato a CIA estabeleceu contactos com o SWIFT para vigiar informação de pagamentos indo e vindo. A agência não tinha base legal para isso. Mesmo seus antigos empregados não estavam conscientes destas actividades. Houve uma tentativa para de certo modo justificar as operações, de modo que em 2003 a Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication e algumas agências estatais dos EUA, FBI e CIA inclusive, bem como o FRS (o seu presidente, Alan Greenspan, estava ali), mantiveram conversações sobre a questão em Washington.

As partes concordaram em continuar a cooperação sob a condição de que Washington observaria algumas regras. Consideraram que os EUA fortaleceriam o controle sobre a parte do Departamento do Tesouro e limitariam as actividades exclusivamente às actividades financeiras suspeitas de terem relação com o financiamento ao terror. Os Estados Unidos prometeram manter-se afastados de outros pagamentos, incluindo aqueles relacionados com evasão fiscal e tráfico de droga.

Nas conversações os EUA avançaram o argumento de que formalmente o SWIFT não era um banco mas sim uma ligação entre bancos. Assim, o acesso aos seus dados não era uma violação das leis estado-unidenses do segredo bancário. Foi afirmado que os bancos centrais da Grã-Bretanha, França, Alemanha, Itália, Bélgica, Holanda, Suécia, Suíça e Japão estavam informados acerca das práticas da CIA. O Banco Central da Rússia não foi incluído na mencionada lista dos que estavam cientes...

Em alguns casos a informação do SWIFT e sua cooperação com os EUA era classificada e aos bancos centrais não era permitido que dessem conhecimento ao público, ao governo e ao parlamento (ainda que conscientes, eles nunca deixariam transpirar). Foi assim na Grã-Bretanha. No Verão de 2006 o Guardian publicou a notícia contando que o SWIFT partilhava com a CIA a informação relacionada com milhões de transacções bancárias. Segundo o Guardian, a partilha de dados classificados é uma violação do direito do Reino Unido e europeu (em particular, a convenção europeia sobre direitos humanos).

Um porta-voz do director de informação contou ao Guardian que a questão da privacidade estava a ser tomada de modo "extremamente sério". Se a CIA havia acessado dados financeiros pertencentes a indivíduos europeus então isto era "provavelmente uma quebra da legislação de protecção de dados da UE2, disse ele, acrescentando que as leis de protecção de dados do Reino Unidos também podem ter sido infringidas se transacções bancárias britânicas houvesse sido entregues [à CIA]. O director requereu mais informação do SWIFT e de autoridades belgas antes de decidir como proceder.

O Banco da Inglaterra, um dos 10 bancos centrais com assento no conselho de administração do SWIFT, revelou ter informado o governo britânico acerca do programa no ano de 2002. "Quando descobrimos informámos o Tesouro e passámos o caso para eles", disse Peter Rogers do Banco. "Também dissemos ao SWIFT que tinham de falar eles mesmo ao governo. Isto nada tem a ver connosco. Era um assunto de segurança e não de finança. Era uma questão entre o SWIFT e o governo".

Numa resposta parlamentar por escrito, Gordon Brown confirmou que o governo estava consciente do esquema. Contudo, mencionando a política do governo de não comentar sobre "questões de segurança específicas", o chanceler recusou-se a dizer se haviam sido tomadas medidas para "assegurar a privacidade de cidadãos do Reino Unidos que possam ter tido suas transacções financeiras visionadas como parte das investigações de contra-terrorismo dos EUA em conjunto com o SWIFT". Ele também se recusou a dizer se o programa SWIFT fora "legalmente reconciliado" com o Artigo 8 da Convenção Europeia de Direitos Humanos.

Finanças, a "cúpula" da informação hoje

Realmente não sabemos nada acerca da cooperação entre o SWIFT e os serviços especiais dos EUA. A questão parece ser mantida fora do conhecimento dos media. As apostas são altas e ainda estão em curso, suponho. Pelo menos, os Estados Unidos têm tudo o que precisa para fazê-lo (um dos dois servidores está localizado em solo estado-unidense). Há muitos sinais indirectos de que o SWIFT, uma entidade formalmente não estatal, está sob forte pressão de Washington. Um dos exemplos recentes foi a expulsão do Irão em 2012. É de conhecimento comum que a decisão foi tomada sob a pressão dos EUA.

Finalmente, utilizar o SWIFT não é o único meio de exercer controle sobre fluxos financeiros internacionais. O US dólar é a principal divisa internacional. Isto significa que todas as transacções se verificam através de contas baseadas nos EUA, mesmo se entidades legais e individuais estão situadas fora do país. Os dados são acumulados por bancos comerciais e pelo Federal Reserve System dos EUA.

A criação da base de informação consolidada, enorme e pormenorizada, do Departamento do Tesouro dos EUA está a aproximar-se da fase final. Ela utilizará a informação de bancos, companhias de seguros, fundos de pensões e outras organizações financeiras dos EUA. No princípio de 2003 os media informaram que todos os serviços especiais dos EUA, incluindo a Central Intelligence Agency, o Federal Bureau of Investigation, a National Security Agency e outros, teriam acesso a esta base de dados para proteger a segurança e os interesses nacionais.

O ritmo acelerado da criação da base de dados de informação para servir os banksters e os serviços especiais dos EUA faz com que outros países procurem protecção em relação ao controle invasivo exercido pelo Big Brother... Nos dias de hoje fala-se muito acerca da conveniência de comutar as transacções internacionais do US dólar para outras divisas. Normalmente isto é encarado como o meio para escapar da dependência financeira e económica dos Estados Unidos. Trata-se da coisa certa a fazer porque esta mudança também criará uma alternativa a confiar na informação controlada pelos EUA.

16/Julho/2013
[*] Economista, presidente da S.F. Sharapov Russian Economic Society

O original encontra-se em www.strategic-culture.org/...

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

28-06-2013

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CANTA O MERLO: Mafioso financista do Vaticano detido

http://www.aporrea.org/internacionales/n231630.html

Detenhem a Monsenhor Nunzio Scarano, funcionário do Vaticano que tratou de introduzir ilegalmente ao país 26 milhons de dólares

Nunzio Scarano, funcionário do Vaticano foi arrestado pola polícia italiana por presumivelmente tratar de introduzir ilegalmente ao país 20 milhons de Euros ($ 26 milhons) em efectivo desde Suíça num jet privado. O Fiscal Nello Rossi disse que Monsenhor Nunzio Scarano está acusado de corrupçom e calunias derivadas da trama e encontra-se preso numha prisom de Roma. Solicitou a uns amigos trazer de volta o dinheiro que lhe foi entregado ao financista Giovanni Carenzio na Suíça. Scarano supom-se que lhe pediu a Giovanni Maria Zito, um oficial militar e agente do serviço secreto italiano, que trouxesse o dinheiro num aviom desde Suíça, evitando a alfandega.
Scarano supostamente tinha que pagar-lhe a Zito umha comissom de 600.000 euros polo trabalho. Somente deu-lhe um pago inicial de 400.000 euros antes de ser preso. Carenzio e Zito também foram arrestados

Monsenhor Nunzio Scarano, já estava sob investigaçom pola suposta participaçom do Banco do Vaticano, no branqueio de dinheiro. Está acusado de fraude, corrupçom e calunia.

27-06-2013

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CANTA O MERLO: O Vaticano: A corte dos pedófilos

http://actualidad.rt.com/actualidad/view/98499-igreja-catolica-pedofilia-curia-romana

Um novo escândalo de pedofilia sacode à cúria romana depois de abrir-se umha investigaçom contra um ex carabineiro que supostamente organizou umha rede de exploraçom sexual infantil para oferecê-la a clérigos.

O denunciante, o ex sacerdote Patrizio Poggi, afirma que no mínimo nove prelados católicos, entre eles o secretário de um bispo, "compravam os serviços" de menores por 150-500 euros cada visita. Supostamente, os encontros realizavam nas igrejas do norte de Roma.

Segundo o diário italiano 'Correr della Sera', a Promotoria de Roma abriu a investigaçom, mas os prelados acusados ainda nom foram interrogados e somente falaram três acodes que oficialmente nom tem vínculos com a Igreja católica.

O próprio Poggi assegura que decidiu denunciar os factos por "ser consciente dos incidentes graves que pom em perigo a integridade e as normas canónicas". Segundo as declaraçons de Poggi, os organizadores da rede recrutavam a crianças e jovens "com os olhos belos" nas ruas, piscinas públicas e agências de modelos.

Ademais da rede de exploraçom sexual, o ex carabineiro acusado também estava "involucrado no comércio ilegal de hóstias consagradas, adquiridas por membros de seitas satânicas", assegura Poggi.

Enquanto isso, os médios italianos nom confiam muito nas suas palavras, já que em 1999 foi condenado por violar a dous adolescentes de 14 e 15 anos na sua igreja de Santo Filipe Neri no norte de Roma. Trás cumprir a sua condenaçom, o sacerdote tentou voltar ao Vaticano, mas foi-lhe recusado o reingresso.

19-06-2013

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CANTA O MERLO: O aprendiz de "Harry Potter" e a Turquia

http://pt.kke.gr/news/news2013/2013-06-10-harry-potter-turkey/

O "treino intensivo" que o partido da "oposição oficial" (SYRIZA) efectuou ao longo dos últimos meses continua a um ritmo frenético. Neste, a dita esquerda "governamental" está a prometer tirar a Grécia da crise capitalista, sem perturbar a participação do país no Euro, na UE, na NATO, sem perturbar os monopólios e o seu poder.

Toda a linha de argumentação recorda-nos a do homem que prometia fazer uma omeleta sem partir quaisquer ovos! Bom material para os aprendizes de Harry Potter desta "esquerda" governamental! O SYRIZA aumentou o seu "contacto" não só com círculos da Federação Helénica de Empresas (SEB) como também com os chamados "think tanks", os quais tem sede nos EUA. Numa recente conferência sobre energia, o representante do SYRIZA admirou-se: "É curioso que companhias estado-unidenses estejam mais interessadas na independência da Europa em relação ao gás natural russo do que a própria Europa". Em suma, ele tomou o lado dos americanos contra o capital russo-alemão-italiano com o qual o gasoduto deveria ser construído na nossa região. Por outras palavras, quanto mais o SYRIZA cheira o poder governamental, mais abana a sua cauda.

Mas a própria vida, que é claramente mais risca do que a imaginação humana, provoca os seus próprios... acontecimentos "não previstos" durante este processo. Foi isto o que aconteceu quanto à posição dos partidos gregos em relação às grandes mobilizações populares que estão a ocorrer na Turquia contra o governo Erdogan.

O que é que o SYRIZA dizia até hoje? Vamos ver algumas das declarações de Rena Dourou, um dos quadro do SYRIZA responsáveis pela política externa:

"Graças ao primeiro-ministro Erdogan, que fez um grande progresso ao criar um novo modelo político, não é de estranhar que hoje o povo no Egipto, Tunísia e Líbia estejam a sonhar com o modelo turco" (entrevista no ano passado em Zaman ).

"O partido governamental teve uma importante vitória, a terceira seguida, pois obteve 50% dos votos: a falta de desgaste num partido no poder impressiona. Resumidamente, os elementos deste desempenho excepcional estão relacionados com a democratização que tem sido promovida pelo governo, seu desempenho económico (o crescimento está em dois algarismos), bem como sua ousada e multi-facetada política externa, a qual estabelece pontes com o mundo árabe, o qual por sua vez, após os levantamentos democráticos da Primavera, considera ser a Turquia um modelo a imitar" (jornal Epohi, 20/6/2011).

"A Turquia hoje possui todas as pré-condições para constituir um modelo para os povos da "Primavera Árabe" " ( Modern Diplomacy, 30/12/2011).

Naturalmente, as manifestações populares em massa e militantes na Turquia, bem como a posição do KKE, que imediatamente tomou o lado da luta do povo turco e dos comunistas da Turquia, puderam mudar um bocadinho a postura do SYRIZA quanto à sua posição de admiração, mantida no período anterior, quanto ao "milagre" da Turquia e do seu primeiro-ministro R. T. Erdogan. Assim, o SYRIZA condenou a violência por parte do governo Erdogan, enquanto o quadro acima mencionado exprimia "questões legítimas acerca das suas reais intenções em relação a que modelo de sociedade o primeiro-ministro turco quer impor". Ou seja, se bem que tantas coisas tenham acontecido nos últimos dias a "esquerda governamental" ainda procura descobrir as intenções e o "modelo" de Erdogan e pede-lhe para preencher os "critérios de acesso à UE" como uma... solução. A UE, que é uma união do capital, um união que demonstrou ser uma "cova de leões" para direitos e liberdades do trabalho e do povo.

Na Grécia dizemos: "não se pode esconder a tosse ou o amor". E, realmente, o amor que o SYRIZA tem pela UE e também por Erdogan não pode ser escondido...
[*] Secção de Relações Internacionais do CC do KKE,

12-06-2013

Link permanente 16:33:24, por José Alberte Email , 8233 palavras   Português (GZ)
Categorias: Ensaio

CANTA O MERLO: Reflexões sobre a crise

Um dos erros mais frequentes nas interpretações habituais da crise actual é que seria uma crise financeira que contaminaria a esfera real da economia. Na verdade, é uma crise do capital

http://www.terraetempo.com/artigo.php?artigo=3033&seccion=6

Por Rémy Herrera

I. Introdução

Um dos erros mais frequentes nas interpretações habituais da crise actual é que seria uma crise financeira que contaminaria a esfera real da economia. Na verdade, é uma crise do capital, em que um dos fenómenos mais visíveis e mediatizados surgiu na esfera financeira devido à extrema financiarização do capitalismo contemporâneo. Vemo-la como uma crise sistémica, que afecta o próprio coração do sistema capitalista, o centro de poder das altas finanças, que controla a acumulação há mais de três décadas. Não é um fenómeno conjuntural e sim estrutural. A série de repetidas crises monetário-financeiras que golpeou sucessivamente diferentes economias desde há 30 anos faz parte da mesma crise – desde o "golpe de Estado financeiro" dos Estados Unidos em 1979: o México em 1982, crise da dívida nos anos 80, Estados Unidos em 1987, União Europeia, incluindo a Grã-Bretanha, em 1992-1993, México, em 1994, Japão, em 1995, a chamada Ásia "emergente" em 1997-1998, Rússia e Brasil, em 1998-1999, bem como a Costa do Marfim nesse mesmo momento, novamente os Estados Unidos em 2000, com o estouro da bolha da "nova economia", depois a Argentina e Turquia em 2000-2001... Crise que se agravou recentemente, especialmente desde 2006-2007, a partir do centro hegemónico do sistema, e que se generalizou como uma crise multidimensional; sócio-económica, energética, política, climática, alimentar, inclusive humanitária e, claro, também financeira: na Islândia, na Grécia, na Irlanda, em Portugal ... Não é o " beginning of the end of crisis " entendido pelos conselheiros do presidente Barack H. Obama. Não é uma crise de crédito normal e corrente, nem tão pouco uma crise de liquidez passageira, mediante a qual o sistema encontraria o modo de se recompor, reforçar-se-ia e recomeçaria "normalmente" – com um novo auge das forças produtivas e no quadro das relações sociais modernizadas. Tudo isto parece mais grave, realmente muito mais grave...

II. Parte Um: a referência a Marx

A. Começo por dizer que, para analisar esta crise capitalista em particular, assim como as crises capitalistas em geral, a referência a Marx continua a ser, hoje, absolutamente fundamental.

1. Porque o marxismo, ou os marxismos (incluindo certas mesclas marxizantes), nos fornecem para esta análise, ferramentas, conceitos, métodos, teorias, assim como soluções políticas muito poderosas – e isto apesar das dificuldades e incertezas. É o quadro teórico mais poderoso e mais útil para compreender e analisar a crise e, especialmente, para apreender as transformações actuais do capitalismo e tentar explicar as transições pós-capitalistas que se abrem e iniciam – pelas razões e nas condições que aqui mencionarei.

2. Para aquelas e aqueles que – num determinado seminário – tiveram o desplante de não se convencerem e também de tratarem os marxismos como coisa pouca, acrescentaria que pouca coisa é melhor do que nada; porque o facto (incrível) é que não existe uma teoria da crise na corrente actualmente dominante em economia, ou seja, a mainstream neoclássica. Ou pior: para esta, a crise não existe como elemento da teoria. É tão verdade que a maioria das grandes enciclopédias "ortodoxas" não têm nem capítulo nem nenhuma entrada para "crise". Na teoria (para a economia padrão: formalização matemática) ou no empirismo (para esta mesma economia padrão: a econometria), o tema da crise pouco interessa: têm-lhes dedicado muito poucos trabalhos académicos da corrente neoclássica – incluídasas suas fronteiras (internas) "neo- keynesianas".

Para a corrente mainstream , a moeda não está integrada no circuito, nem na dinâmica de reprodução do capital: valor igual a preço; taxa de lucro igual à taxa de juros; em microeconomia, não existe moeda no equilíbrio geral versão Arrow-Debreu; em macroeconomia, a moeda em geral é considerada como neutra, de modo que o equilíbrio é automático e a crise está proibida por definição. É importante, pois, reter no espírito, e desde o início, que a ideologia científica do capitalismo não toma a crise como objecto de estudo e, portanto, não pode entender a crise do capitalismo realmente existente. Isso não quer dizer que, sobre este ou aquele assunto, certas análises neo-neoclássicas, não sejam, infelizmente, melhores do que as marxistas, pois, sobre estes pontos, os ortodoxos podem entender melhor o que se passa (por exemplo: quanto às transmissões dos efeitos da esfera financeira para a esfera real), ou inclusive em finanças [finanças matemáticas], onde os marxistas estão pouco presentes).

Portanto, há que ler Marx para não nos desconectarmos, mas, igualmente, há que ler a literatura dos nossos inimigos, incluindo a imprensa do establishment , e ainda mais quando as fracções das classes dominantes discutem entre si, como se os povos não estivessem ali ou não entendessem nada, e quando, ao contrário da maioria das direcções partidárias e sindicais "de esquerda", não abandonaram a defesa das suas posições de classe, nem uma certa solidariedade internacional (digamos antes, inter-imperialista).

Mas, como a crise é um facto muito difícil de negar na prática, aqueles dentre os neoclássicos que se interessam por ela, analisam-na a partir de factores externos aos mercados e perturbadores dos mecanismos automáticos de correcção pelos preços: as intervenções do Estado, os "bugs" informáticos (visto que a maioria das ordens de transacções financeiras passam por computadores, com tempos de reacção medidos em micronésimos de segundo (em nano-segundos), ou os excessos no comportamento de determinados agentes (as fraudes Ponzi estilo Madoff ou o buraco do Sr.Kerviel).

Mas, de facto, a especulação não é um excesso ou um erro da corporate governance ; é uma poção mágica contra o mal estrutural do capitalismo, um remédio para contrabalançar a tendência à queda da taxa de lucro e proporcionar saídas para as massas de capital que já não consideram rentável o investimento na produção – sendo a explosão das "bolhas" o preço a ser pago (ou seja, que os povos têm de pagar). Na visão ortodoxa, a concentração da propriedade privada e a lógica de maximização do lucro individual não são considerados problemáticos. A concepção neoclássica do Estado é a de uma entidade separada da esfera económica e não dominada pelos interesses do capital. Existem sindicatos, pelo menos em teoria, mas não a luta de classes.

Obviamente temos de nos afastar de tais interpretações, porque sabemos que as crises fazem parte integrante da dinâmica contraditória da reprodução ampliada do capital.

3. Provoquemos um pouco: as heterodoxias voltam a ganhar força logo que regressam a Marx. É o caso de Keynes. Na sua crítica aos neoclássicos, Keynes extraiu algumas das suas ideias de um fundo teórico comum a Marx. Os dois se encontram numa rejeição comum da Lei de Say. Keynes, em certo sentido, volta a uma teoria do valor-trabalho, mas sem a desenvolver, nem falar de exploração. Inclusive chega a retomar, no Treatise on Money , os esquemas de reprodução do Livro II (provavelmente sem o saber, porque na verdade nunca leu Marx, mas conhecia o russo Tugan-Baranovsky especialmente a sua Crises industriais na Inglaterra ), para abordar o problema da crise sob o ângulo monetário, à maneira das teorias do ciclo de negócios da época (e, portanto, de uma maneira muito diferente de Marx), e tudo para concluir que é a insuficiência do investimento (e não da poupança) que gera a crise.

Tal como Marx, Keynes vê o capitalismo desembocar num colapso por razões endógenas ao sistema. E olhando um pouco mais de perto, a causa última da crise, segundo Keynes, confirma a análise marxista: o que explica a crise para além da insuficiência do investimento (devido a uma diminuição na eficácia marginal do capital, ela própria ligada à obsolescência do capital e eventualmente acentuada pelo aumento da taxa de juros) é, em última análise, a concorrência capitalista – ou seja, o que Marx chamou as contradições internas do capitalismo. Em Keynes, a definição do lucro é muito mais próxima de Marx do que dos neoclássicos, num esquema em que, se o lucro baixa, as antecipações degradadas fazem baixar o investimento (Kalecki teria tido razão em corrigir dizendo: as antecipações fazem baixar os planos de investimento), que é o que faz entrar a economia em crise, a qual é caracterizada por um equilíbrio sem pleno emprego e sem mecanismos de ajuste espontâneo do mercado.

Portanto, convém ir mais além do exame da questão da repartição do valor adicionado (entre salários e lucros), tal como faz a maioria dos –verdadeiros ou falsos – keynesianos.

B. Que interpretação marxista da crise?

1. A crise em termos marxistas interpreta-se como uma crise de sobre-acumulação de capital. Desde há vários anos, alguns de nós têm sustentado a inevitabilidade de uma desvalorização do capital (brutal e de grande amplitude). Esta crise tinha que chegar... Fundamentalmente, pode ser explicada por uma sobre-acumulação de capital decorrente da própria anarquia da produção, que leva a uma pressão para a baixa tendencial da taxa de lucro quando as contra-tendências (incluindo as novas contra-tendências, ligadas, como se verá, aos novos instrumentos financeiros) acabam por se esgotar. E esta sobre-acumulação manifesta-se através de um excesso da produção vendável, não por causa de uma escassez de pessoas com a necessidade (ou o desejo) de consumir, mas porque a concentração das riquezas tende a excluir da possibilidade de aquisição de bens a uma proporção cada vez maior da população. Mas em vez de as vermos como uma superprodução padrão de mercadorias, o auge do sistema de crédito permite ao capital acumular-se sob a forma de capital-dinheiro, o qual pode apresentar-se sob formas cada vez mais abstractas, irreais, fictícias.

2. O conceito de "capital fictício" parece-me ser o mais importante para a análise da crise. Tanto o seu princípio básico – a capitalização de rendimentos decorrentes de uma mais valia a receber – como algumas formas sob as quais pode ser encontrado (capital bancário, acções da bolsa, dívidas públicas ...) já foram identificados por Marx na sua época. Marx esboçou o seu estudo, relacionado com os do capital portador de juros e o do desenvolvimento do sistema de crédito capitalista, na secção 5 do Livro III de O Capital , especialmente a partir do capítulo XXV, e especialmente no capítulo XXIX ("componentes do capital bancário "), e até ao capítulo XXXIII.

As ideias não estão acabadas – nunca estão. Apesar dos trabalhos dos grandes autores; as coisas mudaram muito (a moeda mudou de forma para se tornar ainda mais imaterial; o mercado de câmbios ou divisas expandiu-se extraordinariamente num regime desligado do ouro). Mas Marx deixou-nos elementos que permitem apreender os movimentos fictícios do capital, que integram o sistema de crédito e o capital monetário, cuja análise conduz aos da reprodução ampliada em estreito contacto com o desenvolvimento exorbitante de formas cada vez mais irreais do capital, enquanto fontes de valorização autonomizadas, aparentemente separadas da mais-valia, ou apropriadas sem trabalho, como "por artes mágicas". Marx falará aqui de capital a funcionar como um "autómato" – talvez se pudesse dizer como um "autocrata" – tal como disse [Marx entenda-se], em outro lado, sobre a máquina do Estado.

O lugar de formação por excelência do capital fictício situa-se no sistema de crédito, que liga a empresa capitalista ao Estado capitalista; e o que se encontra nesta intersecção são as bolsas, os bancos, mas também os fundos de pensões, fundos de investimento especulativos (ou hedge funds , localizados em paraísos fiscais) e outras entidades similares. Os actuais vectores privilegiados do capital fictício são a titularização (que transforma activos [por exemplo, créditos] em títulos financeiros) e os intercâmbios de produtos derivados, que são "potências" do capital fictício.

3. Porém, aqui, temos que resolver muitos e delicados problemas teóricos e empíricos. Problemas teóricos. Exemplos: distinguir as várias fontes de capital fictício, segundo o seu suporte e grau de desvinculação da esfera real. Ou para mostrar que os benefícios de capital fictício também são reais. Ou mostrar que os lucros do capital fictício também são reais. Ou mostrar como estes "lucros fictícios" (reais) podem ser assimilados à acção de uma contra-tendência à queda da taxa de lucro. Problemas empíricos: demonstrar igualmente a origem dos lucros fictícios. Ou chegar a recalcular as taxas de lucro e saber qual é o lugar do capital fictício na correcção das taxas de lucro. Ou como é repartida a mais-valia entre as diferentes fracções capitalistas...

O capital fictício é de natureza complexa, dialéctica, ao mesmo tempo real e irreal. A sua natureza é em parte parasitária, mas este capital beneficia de uma distribuição de mais valia (a sua liquidez dá ao seu titular o poder de convertê-la, sem perda em capital, em moeda, a "liquidez por excelência"). E este capital alimenta uma acumulação de capital fictício adicional como meio da sua própria remuneração.

De um modo mais geral, um dos problemas mais graves a este respeito é a quase impossibilidade de formalização (seja-se marxista ou não em economia), sem se ser forçado a separar as esferas real e financeira; o que, na verdade, não é muito satisfatório. Mesmo que seja verdade que a forma-mercadoria e a forma-moeda devem ser separadas para acabar por tornarem-se inseparáveis. Voltemos às origens da crise ...

III. Parte dois: origens, manifestações e efeitos da crise

1. As origens da crise A. As origens financeiras

a) A crise que eclodiu no sector subprime do mercado imobiliário dos EUA havia sido preparada por décadas de super-acumulação de capital fictício. É necessário apreender esta crise numa perspectiva de longo prazo no agravamento das disfunções dos mecanismos de regulação do sistema mundial sob a hegemonia dos Estados Unidos, pelo menos desde a sobre-acumulação de capital-dinheiro dos anos 1960, ligada ao défice dos EUA (causado, em parte, pela Guerra do Vietname), até às insustentáveis tensões sofridas pelo dólar e a multiplicação de eurodólares (depois petrodólares) nos mercados interbancários.

b) Neste processo, certos acontecimentos tiveram um papel fundamental, entre os quais podemos encontrar, no mercado de câmbios, o desmantelamento dos acordos de Bretton Woods com a decisão dos Estados Unidos em 1971-1973 de não os respeitar mais, abandonar a conversibilidade do ouro e desmonetizar o ouro, portanto, desmantelar o sistema do padrão-ouro no tempo de Nixon (e Paul Volcker, hoje conselheiro do presidente Barack Obama), e flexibilizar os regimes de taxas de câmbio.

Daí as grandes ondas de desregulamentação dos mercados monetários e financeiros do final dos anos 70, especialmente com a "liberalização" das taxas de câmbio e taxas de juros. A crise da dívida dos países do Sul resulta da subida das taxas de juro por parte do Fed em 1979, o "golpe de Estado financeiro", pelo qual as altas finanças, principalmente norte-americana voltam a tomar o poder da economia do mundo.

Nas origens profundas da crise estão actuando todos estes processos de desregulamentação (e, portanto, de re-regulação pelos oligopólios financeiros) e de integração dos mercados financeiros no seio de um mercado globalizado, os quais deslocarão o centro de gravidade do poder mundial para a alta finança, e lhe permitem impor os seus ditames a toda a economia.

c) Nesta nova era "neoliberal", os mercados financeiros foram modernizados, particularmente através do desenvolvimento de instrumentos de cobertura; instrumentos que se fizeram necessários devido à flexibilização dos intercâmbios e das taxas de juro nos mercados cada vez mais integrados. Quero mencionar aqui os produtos mundiais derivados, ou seja, de contratos que suportam transacções, sejam contratos firme (organizados a longo prazo [os futures ]), de contratação directa, ou contratos de comum acordo ou por adiantado [os forwards ]), por intercâmbio de fluxo, ou seja, contratos de permuta financeira [os swaps ] ...), sejam opcionais, e que fixam os futuros fluxos financeiros em função das variações de preço dos activos subjacentes, que podem ser uma taxa de câmbio, uma taxa de juros, o curso de acções ou de matérias-primas, ou um evento futuro probabilizável. São ferramentas de cobertura ( hedge em inglês), mas que de facto servem, na maioria das vezes, como estratégias de especulação, jogando com o "efeito de alavanca" ao correr riscos a partir de investimentos conjuntos limitados; especialmente quando se trata de híbridos e dão lugar a vendas a descoberto sem contrapartidas (ou short sells ) – em teoria, as operações mais arriscadas podem levar a perdas matematicamente infinitas (por exemplo, com opções de venda ou put ).

De onde se depreende que os montantes correspondentes à criação desse capital fictício superaram muito depressa e amplamente os destinados à reprodução do capital produtivo. Exemplo: em 2006, o valor anual das exportações era igual a três dias de intercâmbios de OTC ou over-the-counter, contratos " off-exchange " negociados sem intermediários com antecedência, portanto fora da bolsa – 420 mil milhões de dólares intercambiados diariamente. Este valor não significa nada, ou pelo menos, não nos diz nada. Mas estes 4,2 teradólares são movimentados por um número muito restrito de oligopólios financeiros, os primary dealers a que o Fed chama o G15: Morgan Stanley, Goldman Sachs e outros 13.

São, acima de tudo, o que se chama de desvios de crédito, com montagens muito complexas de tipo swaps de dívida de crédito (CDS) ou dívidas ligadas a activos (CDO), que levantaram problemas, transformando completamente a visão tradicional do crédito e pondo em jogo vários graus ou vários "potências" de capital fictício [as CDO de CDO ou CDO²]) ?– problemas dos quais, obviamente, ainda não saímos uma vez que uma das últimas e mais recentes inovações em finanças tem sido as CDO de CDO ², ou seja, as CDO ao cubo; as quais, obviamente, vão ser trocadas fora da bolsa, registadas fora do balanço e criadas quase sem regras prudenciais.

B. As origens reais

a) Mas, também e acima de tudo, convém entender a crise na articulação das esferas financeira e real: a longo prazo, as contradições que revelou mergulham as suas raízes no esgotamento dos motores de expansão após a Segunda Guerra Mundial, que trouxe consigo estas profundas transformações financeiras. Na esfera real, as formas de extracção de mais-valia e de organização da produção haviam chegado aos seus limites e tiveram que ser substituídas por novos métodos (do tipo Kanban) e re-impulsionadas pelo progresso tecnológico (informática, robótica), que transformou profundamente as bases sociais da produção – sobretudo, por uma substituição do trabalho pelo capital. Após a longa sobre-acumulação cada vez mais concentrada na esfera financeira, sob a forma de capital-dinheiro, o excesso de oferta acentuou a pressão para a baixa da taxa de lucro observada desde final dos anos 1960.

b) E para tentar resolver – na ficção – este problema, nos EUA, o Fed, onde dominavam as teorias monetaristas, aumentou as suas taxas de juros de forma unilateral nos finais dos anos 1970, marcando a entrada na chamada era do "neoliberalismo" (que continua a ser uma palavra vazia se não estiver dotada com um conteúdo de classe e relacionada com o poder dos oligopólios das altas finanças modernas).

Alguns dos principais factores da crise são de natureza "real" e estão ligados à austeridade: a crise das subprimes , pela qual muitas famílias pobres se depararam com dívidas impagáveis, também se explica pelas políticas neoliberais levadas a cabo desde há mais de 30 anos e agora crescem com todo o seu rigor, desfazendo os salários, flexibilizando o emprego, massificando o desemprego, degradando as condições de vida; políticas que têm destruído a procura e accionado as molas que a tornam artificial e insustentável.

c) Portanto, o crescimento no regime neoliberal só pode ser mantido estimulando fortemente a procura do consumo privado e disparando ao máximo as linhas de crédito – e é este pico exorbitante do crédito que acaba por revelar a crise de super-acumulação na sua versão actual. Numa sociedade em que massas de indivíduos cada vez mais numerosas são excluídas e sem direitos, a ampliação de saídas proporcionadas aos proprietários do capital só pode retardar a desvalorização do excedente dos capitais colocados nos mercados financeiros, mas certamente não pode evitá-la.

É no centro da lógica da dinâmica da economia dos EUA que nasce a crise. Por um lado, com um realinhamento dos equilíbrios internos e externos realizado por drenagem de capitais sustentáveis estrangeiros, o que pode ser interpretado como uma punção operada pelas classes dominantes dos Estados Unidos sobre as riquezas do resto do mundo. Por outro lado, no interior dos Estados Unidos, a mais forte concentração de riqueza desde há um século. Alguns dados: a parte de rendimentos apropriados pelos 1% mais ricos no produto total era de 10% há 30 anos, hoje é de 25%; a parte dos que estavam entre os 10% dos mais ricos era de um terço em 1979, hoje é de 50%. Tudo isso, devido ao extraordinária inchaço de benefícios financeiros (do capital fictício) das classes dominantes que distorcerá macroscopicamente a economia dos Estados Unidos, particularmente a taxa de poupança que se torna negativa pouco antes da crise. Desta forma, via esfera real, a actual catástrofe.

Como se manifesta?

2. As manifestações da crise

A. As manifestações financeiras e reais

a) A primeira manifestação da crise foi uma brutal destruição de capital fictício: até 2008, a capitalização total das bolsas mundiais passou de 48,3 para 26,1 milhões de milhões de dólares. Esta espiral descendente no valor dos activos é acompanhada por uma perda de confiança e falta de liquidez no mercado interbancário, num mundo que, no entanto, seria super-líquido, sendo o cenário mais provável o de uma insolvência de numerosos bancos.

Consequentemente, num contexto em que os títulos compostos e os riscos que os caracterizam estão cada vez pior avaliados (uma vez que não são mensuráveis – para não falar das aberrações de funcionamento de agências de notação tipo Moody's), os problemas deslocaram-se do compartimento subprimes para o dos créditos de créditos imobiliários (capital fictício de grau um para capital fictício de segundo grau), e depois para os créditos solventes (os primes ), antes que a implosão da bolha de instrumentos ligados a hipotecas de casas chegasse a contaminar os outros segmentos dos mercados financeiros e, a partir daí, o mercado monetário propriamente dito.

E foi então que todo o sistema de financiamento da economia ficou bloqueado.

b) A desvalorização do capital teve uma dimensão real, por via do credit crunch , pelo desaparecimento do crédito, principalmente empréstimos ao consumo. As economias entraram em depressão, conjunturalmente desde 2007, mas também estruturalmente, num mundo em que caem a pique alguns recursos estratégicos naturais (petróleo em primeiro lugar) e em que a busca de novas fontes de energia estabelece limites objectivos para o crescimento – e introduz pressões para entrar em guerra.

Resultado: os indicadores económicos são desregulamentados: queda das taxas de crescimento, dos intercâmbios comerciais, do consumo das famílias, perdas operacionais de empresas industriais, desemprego, perda de moradia, de poupança ...

c) Finalmente, uma dimensão extremamente preocupante desta crise é o endividamento dos poderes públicos, em particular dos Estados (que, em parte, "nacionalizaram" a dívida privada), e as dificuldades consequentes em matéria de finanças públicas, até em instituições locais, especialmente no que diz respeito aos gastos sociais (educação, saúde, pensões) ...

Daí as reestruturações (através de resgate-reagrupamento) das dívidas soberanas que se discutem actualmente.

B. E depois há a guerra ...

a) Crise e guerra estão interligadas. Primeiro, economicamente, porque a guerra está integrada no ciclo, como uma forma de destruição de capital, mas também politicamente, para a reprodução das condições de manutenção e continuidade na liderança das fracções dominantes das classes dominantes – as altas finanças – sobre o sistema global.

Durante a Guerra Fria, o desenvolvimento das forças produtivas deu um grande impulso aos EUA. Em parte, deveu-se a gastos militares e ao complexo militar-industrial, através da corrida armamentista e aos progressos técnicos induzidos (sistemas informatizados, robôs dirigidos por computadores, internet ...). Hoje, os gastos militares continuam sendo consideráveis (um quinto do orçamento federal, mais de metade dos gastos militares globais, com mais de mil bases no mundo) e o complexo militar-industrial continua a desempenhar um papel fundamental, mas agora sob o controlo das finanças. A influência das finanças sobre as empresas de armas dos EUA está a crescer e manifesta-se sob a forma da tomada de controlo da estrutura de propriedade do seu capital por investidores institucionais, aí colocados pelos grandes monopólios financeiros: no início dos anos 2000, essa proporção chegou a 95% do capital da Lockheed Martin, a 75% da General Dynamics, a 65% da Boeing... Igualmente para as empresas militares privadas, passando uma parte cada vez maior delas para as mãos das finanças, à medida que o Estado "externaliza" as suas actividades de defesa: a MPRI foi resgatada pela L-3 Communications, a Vinnell pela Carlyle, a DynCorp pela Veritas ...

b) Num contexto em que o uso da força armada é a estratégia imposta ao mundo pela alta finança norte-americana como condição para sua reprodução, e em que a militarização é um modo de existência do capitalismo, em que o papel do Estado (neoliberal) é fundamental para o capital (já que é o Estado que vai para a guerra por conta do capital, e são as agências governamentais as que atribuem as quantias astronómicas de contratos militares às firmas transnacionais de armamento, através de lobbying: General Electric, ITT ...), neste contexto, então, os gastos militares tornam-se uma importante fonte de rentabilidade para o capital. E, por acréscimo, pode ainda aumentar mais o capital fictício, sobretudo quando está financiado pela dívida pública.

c) Deve-se assinalar além disso, que as guerras no Afeganistão e no Iraque foram lançadas num tempo muito preciso – numa altura que já era de crise: a partir de 2001 (como 1913 e 1938 também foram anos de crise), crise que já havia surgido no momento das mudanças na política monetária nos EUA, em consequência do agravamento dos défices internos e externos no país – o primeiro por causa da necessidade de financiamento associada, em grande parte, às guerras imperialistas; o segundo, também em grande parte devido ás deslocalizações, especialmente para a China.

Assim, como resultado da redução do crescimento em 2000, o Fed reduziu muito fortemente a sua taxa de juros (6,5% em Dezembro de 2000 para 1,75% em Dezembro de 2001 e para 1%, em meados de 2003), e manteve-o neste nível baixo até meados de 2004. É precisamente durante este período, um período em que as taxas de juros reais se tornaram negativas, que se localizam os mecanismos da crise das subprime , correndo riscos cada vez maiores, especialmente no sector imobiliário. Devido ao peso do esforço de guerra, em particular, mas também, principalmente, o Fed foi obrigado a elevar a taxa de juros a partir de 2004, ou seja, um ano após o início da guerra do Iraque, para 5,5% em meados de 2006. E um pouco mais tarde, desde o final de 2006, os devedores começaram a interromper em massa os pagamentos dos empréstimos hipotecários – vendo-se agravado o número de não pagamentos pela contracção do crescimento e a estagnação dos salários.

E o Fed manteve essa taxa bem alta, acima de 5%, até meados de 2007, quando já surgiam todos os sinais da crise. Será só depois de 2007, portanto, muito tardiamente, que o Fed começa a fornecer aos bancos quantidade de crédito a taxas reduzidas, muito perto de 0% — sem, por outro lado, evitar os pânicos financeiros (pânicos modernos, não de gritos dos traders financeiros, mas dos seus ratos de computador). E a crise explode quando uma massa critica de devedores encontra dificuldades para reembolsar os empréstimos; o que foi o caso desde o fim do ano de 2006, depois de o Fed ter voltado a subir a sua taxa de juros para atrair capitais destinados a financiar os orçamentos militares dilatados pelas novas guerras imperialistas. E tudo isso sem a vitória militar dos Estados Unidos, nem reactivação da acumulação pelas destruições levadas a cabo por estas guerras imperialistas. E o prosseguimento destas guerras exacerba ainda mais as contradições capitalistas...

3. Quais são os efeitos da crise?

A. No Norte

a) Primeiro, num ambiente de grande incerteza, a criação maciça de moeda e a fixação de taxas de juro pouco acima de zero, por um lado; a erosão do défice orçamental (cerca de 10% do produto interno bruto nos Estados Unidos), por outro lado; e o desmedido crescimento da dívida pública, provocaram uma depreciação do dólar e uma "guerra de moedas".

Guerra monetária ganha por agora (mas por quanto tempo?) pelo dólar, pela simples razão de que os Estados Unidos dispõem de uma arma extraordinária, uma arma "de destruição em massa": o seu banco central pode criar – sem limites – moeda que é aceite por todos os outros países, porque o dólar continua a ser a reserva de valor internacional, o que permite aos Estados Unidos impor ao mundo os termos de uma capitulação que o obriga (ao mundo) a continuar com as políticas neoliberais, mas também a aumentar a taxa de câmbio do dólar que melhor convenha à estratégia de dominação dos EUA, mesmo que isso signifique uma forte desvalorização das reservas cambiais em poder das autoridades monetárias de outros países, entre os quais a China.

Os Estados Unidos acreditam que um dólar desvalorizado reabsorverá o seu défice comercial e estimulará a sua produção interna. Isso é um erro, pois que desde há vários anos que se observa que essas variáveis reagem muito pouco e cada vez menos, às baixas do dólar. O resultado é, na verdade, um crescimento muito fraco para os Estados Unidos, que estão numa quase estagnação. Mas poderá dizer-se: o crescimento do regime neoliberal já era de baixa intensidade; é verdade, mas a situação agrava-se, porque as causas agora são devidas a problemas do conjunto de todo o sistema de financiamento das economias.

Em paralelo, outra perturbação induzida opera sobre os mercados de matérias-primas, e, muito particularmente, sobre o do petróleo, sobre o fundo de esgotamento de reservas energéticas mundiais, que provoca o aumento disparado das cotações.

b) Sabe-se que as piores consequências dos efeitos reais da crise são suportadas pelos mais pobres entre as classes populares, com danos enormes, incluindo os Estados Unidos, que são sempre a primeira economia do mundo, mas com muito maus indicadores sociais em comparação com outros países ricos do Norte (no que respeita à expectativa de vida, à taxa de mortalidade infantil, ao direito à saúde ou mesmo á educação).

Os danos incluem, igualmente, no Norte, o mal-estar generalizado, particularmente em relação ao trabalho (aqueles que ainda o têm ...), incluindo fenómenos individuais de depressões psicológicas, constatados especialmente pela medicina do trabalho, chegando até ao suicídio. Quero falar aqui dos efeitos combinados da ameaça de desemprego e dos métodos de avaliação individual, que envolvem a competitividade entre os trabalhadores dentro da mesma unidade de produção. Daí a quebra dos laços de respeito, lealdade, solidariedade, convivência, daí a desconfiança entre os trabalhadores, a vigilância, o auto-controle, o medo do trabalho, o surgimento de patologias da solidão, acompanhada por sentimentos de traição moral a si próprio, a tomada de consciência da mentira da qualidade total e a certificação pelo mercado, em universos onde se reduzem os espaços colectivos para pensar e actuar em conjunto, a perda de sentimentos morais, a perda do sentido de responsabilidade, e para recuperar os instrumentos de transformação das relações com o trabalho. Assim se chega a depressões, já não económicas, mas psicológicas – nas fronteiras da psicanálise.

c) E no plano político, creio verdadeiramente não ter necessidade de insistir nos riscos da ascensão das extremas direitas, nas suas diversas variantes, assumindo um aspecto desde o religioso até ao neo-fascismo, passando pelas derivas da chamada direita "tradicional". E tudo isso sem excluir, infelizmente, o risco de novas guerras...

B. Efeitos da crise no Sul.

a) Em primeiro lugar, o agravamento de transferências do Sul para o Norte, através dos vários canais conhecidos: repatriamentos de lucros sobre investimentos directos ou de carteira, pagamento da dívida externa, conversão das reservas cambiais em empréstimos (concedidos em seguida aos Estados Unidos), mas também intercâmbio desigual, fugas de capital, etc. E essas transferências para o Norte vão ter, mais uma vez, que se acelerar para tentar financiar o salvamento do sistema capitalista central – sabendo que a hegemonia dos EUA dispõe da divisa chave do sistema internacional e do arsenal militar que o acompanha, para impor esta drenagem de capitais do resto do mundo. Até hoje, os Estados Unidos foram capazes de o impor a todos, tanto os seus parceiros imperialistas como potenciais rivais (especialmente a China) – mas por quanto tempo?

b) Os efeitos da crise são variáveis, dependendo das características das economias do Sul e da sua inserção no sistema mundial. Alguns países estão tão excluídos deste sistema global e afogados na miséria que a crise parece não os tocar. Mas tocará a todos eles, sejam "emergentes" ou não.

O sector agrícola, por exemplo, deve ser levado muito em conta na maioria das economias; mas as disfunções e paradoxos neste sector são gravíssimas: na verdade, três mil milhões de pessoas sobre a Terra padecem de fome ou carências alimentares, enquanto que a produção agrícola excede em muito (pelo menos em 50%) as necessidades alimentares (também aí há crise de superprodução). Por outro lado, três quartos dessas pessoas são também agricultores. A expansão das áreas cultivadas em todo o mundo é inversamente proporcional ao retrocesso das populações rurais em relação ao das cidades. Uma proporção crescente de terras é cultivada por transnacionais que não destinam a produção ao consumo, mas a saídas industriais ou energéticas. Na maioria dos países do Sul que estão excluídos dos benefícios da "globalização", um dinamismo "relativo" das exportações agrícolas derivadas das culturas comerciais, coexiste com importações de produtos alimentares de base.

E até mesmo sugeriria aqui interpretar (sem, é claro, querer reduzir a sua complexidade) os acontecimentos que estão abalando o mundo árabe-muçulmano, à luz de um capitalismo que destrói as suas estruturas a longo prazo e na forma neoliberal deste capitalismo que colocou, sob a alçada de uma good governance , as bases da explosão social actual; particularmente com o aumento dos preços dos produtos alimentícios – e durante todo esse tempo, o imperialismo anda à espreita.

c) Mas acima de tudo, parecem criadas as condições para que uma das principais consequências da crise seja o confronto Norte-Sul, apesar das cooptações dos 'G20'. Confronto Norte-Sul num mundo onde os níveis de contradições se tornam mais complexos: contradições entre as classes dominantes e as classes dominadas, contradições entre as diferentes classes dirigentes que dirigem os Estados, contradições entre os próprios países do Sul...; mas com uma predominância relativa das contradições entre as classes dirigentes, ligadas ao surgimento dos chamados países "emergentes".

A via interna dirigida por uma grande maioria dessas classes dirigentes é o caminho capitalista, ou alguma das variantes da via capitalista. Mas esta via, não só não tem saída, pois a resolução das contradições produzidas pelo capitalismo é absolutamente impossível no Sul, como também leva a entrar em conflito com as potências imperialistas do Norte. Assim, um dos riscos que pesa sobre as lutas populares no Sul é o de ver as suas resistências confiscados, neutralizadas, transformadas em forças pro-sistémicas pelas classes dirigentes; mesmo quando estas classes dirigentes do Sul, especialmente aquelas cuja estratégia é mais coerente e consequente (como na China), provavelmente, não chegarão a avançar sem transformações internas, no sentido de uma modificação na relação de forças a favor das classes populares.

E isso vale para a América Latina – na Venezuela bolivariana, por exemplo.

IV. Terceira parte: Quais têm sido, são e serão as políticas anti-crise?

A. Críticas das políticas ortodoxas

1. As políticas anti-crise, acima de tudo, têm consistido em coordenar as acções dos bancos centrais para injectar liquidez no mercado interbancário pela criação de moeda "primária", oferecer linhas de crédito especiais aos bancos e reduzir as taxas de juros. Na verdade, o objectivo era evitar o afundamento total do sistema, e também limitar a desvalorização do capital fictício, travando a queda dos mercados (em especial para que os derivados fossem pagos o mais próximo possível do seu valor facial), mas isso não resolveu nenhuma das contradições fundamentais do sistema.

Um momento crucial foi, como se sabe, a não intervenção das autoridades monetárias – neoliberalismo obriga... – quando da quebra do Lehman Brothers em meados de Setembro de 2008. Obviamente, ainda não se mediram as implicações deste imobilismo, pelo menos não em termos de redução dos riscos de desestabilização de todo o sistema, incluindo através da dívida do Estado.

Daí, em poucas horas, a mudança de direcção de 180º do Tesouro e do Banco Central: várias instituições financeiras em risco (como a seguradora AIG) foram nacionalizadas (geralmente sem direito a voto ou novos critérios de controle); as short sells foram temporariamente suspensas; depois o Fed abriu linhas de crédito para primary dealers em condições especiais (a taxas de juros próximas de zero); o Estado ajudou estes dealers na montagem de resgates aos grupos em quebra e recapitalizou-os – ou seja, susteve, e muito fortemente, o processo de hipercentralização do poder dos oligopólios financeiros em estruturas de propriedade do capital cada vez mais concentradas (o Lehman Brothers foi retomado pelo Citigroup, o Merrill Lynch pelo Bank of America, o Washington Mutual pelo Morgan ...); criava-se uma estrutura de "despoupança", uma separação de activos contaminados para fornecer uma garantia do Estado aos títulos "tóxicos"; e, medida crucial, em Outubro de 2008, o Fed estendeu o seu dispositivo de swap lines (ou "acordos temporários recíprocos sobre divisas") aos bancos centrais do centro e dos principais países do Sul, tornando-os quase "ilimitados" ...

Em seguida, houve os planos 1 e 2 de Paulson e os planos de apoio generalizado à economia (incluindo o da General Motors e outros, sem impedir os despedimentos maciços...), aliás, com recapitalizações do Fed, que já estava sem fôlego. E, finalmente, no início de 2011, o presidente do Fed preveniu o Tesouro de que não continuaria a financiar os défices públicos, que era necessário voltar ao rigor, que havia que aumentar as taxas de juro; com dois grandes riscos aqui: que nos EUA o fardo da dívida pública se tornaria ainda mais pesado; e, para o resto do mundo, que os fluxos de capital iriam servir de novo para financiar os défices dos EUA, e permitir-lhes novamente voltar a viver acima das suas possibilidades...

E tudo isso sob o olhar dos povos, que compreendem não só que o Estado se voltou contra os serviços públicos, mas que também os faz pagar o resgate das altas finanças – que dominam tudo.

2. Face a isso, uma parte – minoritária, mas significativa – das correntes liberais continua radicalizando-se, na direcção das teses ultra-liberais inspirada em Hayek, Mises e Rothbard. As suas análises da crise, por exemplo, por Rockwell e Rozeff do Instituto von Mises, baseiam-se numa fé reafirmada na natureza automática do reequilíbrio dos mercados.

Obviamente são aborrecidas para os neoliberais, na medida em que defendem que a crise viria do excessivo intervencionismo e que o Estado não tem que salvar os bancos e empresas em dificuldades. O que deveria ser feito, dizem, é acabar com os regulamentos estatais que limitam a liberdade dos agentes no mercado. Exemplo: enquanto as políticas públicas de habitação pretendiam que todos os cidadãos tivessem acesso ao imobiliário, os mercados (que não são "populistas") têm mostrado que não. Estes ultraliberais estão, portanto, contra todo o plano anti-crise, e em particular contra qualquer regulamentação das taxas de juro pelo banco central.

Os mais extremistas chegam inclusive a reclamar a abolição pura e simples das instituições do Estado – incluindo a militar – bem como a privatização da moeda. Naturalmente que eles estão conscientes de que estas medidas levariam o capitalismo ao caos, mas pensam que, graças aos mecanismos de mercado, este caos seria benéfico para o capital e que o capitalismo se reconstruiria mais rápidamente e melhor do que através de intervenções do Estado em forma de ajuda pública artificial a empresas que de qualquer forma estariam condenadas à falência.

3. E as posições reformistas? A gravidade da crise levou a um retorno das teses de Keynes: "Keynes está agora, mais do que nunca, na ordem do dia", escreve Paul Krugman – que é um economista neoclássico! Na verdade, mesmo que se oponham aos neoclássicos tradicionais no que respeita às intervenções do Estado, as interpretações keynesianas participam da mesma matriz teórica, diríamos, "burguesa".

Mesmo os mais avançados entre eles, apesar de nuances, variações, subtilezas, não formulam senão visões apenas "reformistas", que consistem em introduzir modificações mínimas no funcionamento do capitalismo para sobreviver o máximo de tempo possível.

O relatório da Comissão Stiglitz pode dar-nos uma boa ilustração disso. O documento final, elaborado em 2009 a pedido do presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas, não questiona de forma alguma a ideologia dominante. As velhas certezas neoliberais estão justamente em revisão, mas não para abandono: as taxas de câmbio devem ser flexíveis, reafirmam-se as virtudes do livre comércio versus "proteccionismo"; as falhas da corporate governance estão por corrigir, mas a gestão de riscos continua sendo confiada aos oligopólios financeiros e a regulação do sistema mundial permanece sob a hegemonia do dólar dos EUA.

Estamos muito longe da rejeição da liberalização financeira globalizada expressa por cada vez mais países do Sul – e, não sem contradições, é verdade – da China popular e da Venezuela bolivariana ...

B. Keynes

1. Sejamos claros: as políticas anti-crise não são keynesianas. Embora sejam perceptíveis medidas "keynesianas" – desde o plano de G.W. Bush em 2008 (com reversões de uma parte dos impostos, por exemplo) e, principalmente, com o programa do presidente Barack H. Obama (com obras de infra-estrutura, etc.) –, a prevalência é ainda para o neoliberalismo para salvar o máximo de capital fictício sobre-acumulado. A conversão de emergência de planos de resgate do capital num intervencionismo dos Estados accionados de maneira tão perfeitamente antidemocrática pelos governos do Norte não pode servir de ilusão. As políticas anti-crise e os seus iniciadores não foram extraídos dos dogmas da ortodoxia.

O Fed e outros bancos centrais do Norte continuam a criar moeda primária maciçamente, como muito recentemente, com o quantitative easing 2. Mas essa política monetária "keynesiana" aparentemente afundou-se na realidade numa "armadilha de liquidez", de onde a estratégia de redução de taxas de juros reais não ser capaz de redireccionar a eficácia marginal do capital e transferir capital monetário da esfera financeira para a esfera da produção.

Daí a preocupação actual nos Estados Unidos desde o início de 2011, que é o endividamento do Estado: do Tesouro, do estado Federal, mas também dos Estados federados e das colectividades locais. O presidente do Fed (Bernanke) advertiu recentemente o ministro das Finanças (Geithner) e o Congresso que era chegada a hora do ajuste orçamental; é claro, que tinha que fazer exactamente o oposto do que Keynes defendia, quer dizer "limpar a casa": reabsorver o défice aumentando os impostos e reduzindo os gastos, através de cortes de pessoal e de salários; ou seja, voltar a carregar todo o peso sobre os trabalhadores – incluindo a via saúde, as reformas, etc. Idem para nós na Europa.

Não há, portanto, retorno a políticas "keynesianas", nem nos Estados Unidos nem na Europa, e a concepção dominante do Estado continua a ser a do Estado neoliberal, ao serviço do capital, particularmente no que diz respeito ao sistema de crédito.

2. E mesmo se houvesse (o que é muito improvável) um "retorno a Keynes" não desapareceriam os problemas.

Em primeiro lugar, os problemas teóricos. Não há em Keynes uma teoria "geral da crise "; há numerosos elementos teóricos dispersos, parciais, muitas vezes opostos e que muitas vezes têm dado lugar a confusões e mal-entendidos por alguns comentadores ou seus discípulos – começando pelo conceito, complexo, de "procura efectiva" (que melhor seria entender como uma oferta, enquanto valor esperado das vendas). Keynes sobretudo procurou uma estratégia de saída da crise para tentar salvar o capitalismo, encontrando o segredo de um "capitalismo sem crises", regulamentado, onde a solução é a criação de uma procura efectiva através de um factor exógeno, o Estado, cuja intervenção poderia, nas fases de contracção dos ciclos, minimizar o impacto da crise. Ele compreendeu, tal como também alguns outros, nomeadamente Schumpeter, que o curso da história ia no sentido da superação do capitalismo. Mas a sua teoria era confrontada com as dificuldades em lidar com a moeda e o sistema financeiro em particular.

Estes limites de Keynes para entender a crise, quero dizer, limites em relação a Marx, foram observados por alguns keynesianos lúcidos e honestos, como o genial Joan Robinson, que cito aqui: "a teoria keynesiana elabora inúmeros refinamentos e complexidades negligenciadas por Marx, mas o essencial encontra-se na análise marxista do investimento como "compra sem venda" e da poupança como uma "venda sem compra." Ao que Keynes teria respondido, quando Joan Robinson tentou aproximá-lo de Marx num ensaio publicado em 1942, que: seria inútil "querer dar um significado aquilo que não o tem".

Mas, acima de tudo, é a propriedade fundamental da moeda para funcionar como capital, analisada por Marx, que não figura de uma maneira desenvolvida, nem sequer clara, em Keynes – e obviamente, ainda menos, na teoria quantitativa da ortodoxia.

3. Esta análise limitada do sistema de crédito em Keynes, e a falta de diferenciação entre moeda estatal e moeda de crédito, levou logicamente – mas também abusivamente – a atribuir demasiada importância à moeda, mas especialmente uma responsabilidade excessiva ao Estado na determinação das taxas de juro. Segundo ele, o banco central reduz a taxa de juro graças ao aumento da oferta de dinheiro, pela via da criação "primária" de moeda para estimular o investimento nos activos onde a eficácia marginal do capital é mais elevada – e isso, até, supostamente, fazer desaparecer o que chamam os "aspectos mais chocantes do capitalismo" (o desemprego, as desigualdades, etc.). Ora bem, sabemos que a política monetária aplicada pelos bancos centrais, cujos objectivos são estabilizar a moeda e a luta contra a inflação, subverteu completamente o processo pelo qual se determinava a taxa de juros no mercado. Usam a taxa de juros como instrumento principal, com efeitos financeiros e reais sobre toda a economia. E sabemos que a taxa de juros do banco central é influenciada principalmente pelas taxas fixadas pelos grandes oligopólios financeiros sobre cada um dos segmentos de mercado nos quais dispõem de uma posição dominante.

Daí, problemas ou ilusões políticas transmitidas pela concepção do Estado de Keynes – a crença keynesiana numa capacidade todo-poderosa do Estado, muito diferente da de Marx. Pois, apesar dos limites da teoria marxista do Estado, mesmo aí, ela é superior à de Keynes.

O que é hoje o Estado? Não é suportado pelo capital através da dívida pública, por exemplo? A criação monetária não é, essencialmente, de origem privada? As taxas de juros do Fed não dependem em grande medida das determinadas pelos oligopólios? Será que o próprio Fed não é penetrado pelos interesses particulares dos oligopólios? Não é o Estado que concede contratos militares a empresas controladas pelas finanças? Não é o Estado neoliberal tanto ou mais activo do que se estivesse submetido á alta finança?

Em suma, o Estado keynesiano é uma ficção! E o seu "reformismo" não faz senão espalhar ilusões, falsas esperanças.

Então, quais são as alternativas?

V. Conclusão

A probabilidade de um agravamento da crise actual, enquanto crise sistémica do capital, é hoje extremamente elevada, dado que se reúnem todas as condições para tal agravamento. Recentemente as finanças inventaram as CDOs de CDOs de CDOs ou CDO 3 – mas este jogo de elevações ao cubo vai afundar-se. Vimos já que a unidade de medida, aqui, é o milhão de milhões de dólares ou teradólar (10 12 ); penso que "tudo isso vai acontecer" e chegará antes do petadólar (10 15 ) ! O capitalismo está em perigo e, especialmente, no centro do sistema. Dirão: houve outras crises, muitas outras, e o capitalismo sempre saiu delas, mais reforçado, mais monstruoso, mais monstruosamente concentrado. Sim, também houve, antes do capitalismo crises pré-capitalistas. Não estou anunciando o fim do mundo. É uma ilusão, talvez devido à impaciência, acreditar que o capitalismo entrará em colapso sob o efeito da actual crise: o monstro vai sobreviver e vai prosseguir matando mais ainda.

Ao longo da história, especialmente desde a Grande Depressão dos anos 30, o capital foi capaz de forjar instituições e instrumentos de intervenção pública, essencialmente ligados às políticas dos bancos centrais, permitindo, em alguma medida, "gerir" as crises e mitigar seus efeitos mais devastadores, pelo menos no Norte, no centro do sistema mundial; mas sem que nunca estas reorganizações de dominação do capital suprimissem as suas contradições. Portanto, ainda vamos sofrer por um longo tempo, até envelhecer, os males do capitalismo e, no Sul, o " silencioso genocídio dos mais pobres", do qual este é responsável...

Eu diria, antes, que a situação actual se parece, não com o início do fim da crise, mas com o início de um longo período de colapso do actual estádio do capitalismo, oligopolista e financeirizado. E esse processo de afundamento abre amplas perspectivas de transição, em que a luta de classes vai endurecer e complicar-se; obrigando-nos a repensar as alternativas de transformações sociais pós-capitalistas – porque somos cada vez mais, para lá das nossas diferenças, no querer socialista (e, como se diz, ainda mais... se há afinidades).

Ora bem, se o problema estrutural para a sobrevivência do capitalismo é uma pressão descendente sobre a taxa de lucro e se, para ele, a financeirização não é uma solução sustentável, a única coisa que este sistema vai oferecer, até à sua agonia, é o agravamento da exploração da força de trabalho.

Para chegar a reactivar um ciclo de expansão no centro do sistema mundial, a crise que vivemos deveria destruir quantidades absolutamente gigantescas de capital fictício, extraordinariamente parasitário; mas as contradições do sistema capitalista mundial tornaram-se agora tão profundas e difíceis de resolver que tal desvalorização correria o risco de o empurrar para o fundo.

Por outro lado, alguns ortodoxos acreditam que a actual crise vai levar ao colapso do capitalismo, por exemplo, os analistas de conjuntura do GEAB ou Global Europe Anticipation Bulletin, cujas previsões de agravamento da situação desembocam num deslocamento geopolítico no sistema, no colapso do dólar, no desaparecimento das bases do sistema financeiro globalizado; ou as previsões da Money & Markets nos Estados Unidos, que também prevêem o próximo agravamento da crise mas por encadeamentos muito mais tradicionais: o agravamento do défice orçamental, o aumento da dívida pública, uma def

09-06-2013

Link permanente 21:38:38, por José Alberte Email , 791 palavras   Português (GZ)
Categorias: Ensaio

CANTA O MERLO: O que se discutirá à porta fechada? Quem assiste à reunião de Bilderberg?

http://www.odiario.info/?p=2900

Todos os anos o encontro de Bildergberg reúne membros destacados da elite financeira e empresarial, políticos, técnicos, jornalistas e cientistas cuidadosamente seleccionados.

É uma reunião anglo-ocidental – europeia e norte-americana, com participantes de 21 países ocidentais (Europa Ocidental, EUA e Canadá). Com excepção do ministro das Finanças polaco, Jacek Rostowski, nascido na Grã-Bretanha, não há participantes da Europa Oriental, das Balcãs, da Ásia, América latina, África e Médio Oriente (com excepção da Turquia [1]). Há 14 mulheres entre os 140 participantes.

O sítio oficial do Bilderberg descreve a reunião como «um fórum de discussões informais, extra-oficiais, sobre mega-tendências e os principais temas que o mundo enfrenta ».

Prevalece um semi-segredo: enquanto têm lugar negociações cruciais que levam a decisões transcendentais, primeiros-ministros e ministros das finanças participam individualmente: não informam os gabinetes nem os órgãos legislativos.

A reunião deste ano, a 61ª, deve ter lugar no Grove Hotel, cerca de Watford, Hertfordshire, Reino Unido, de 6 a 9 de Junho de 2013.

Vários temas da Nova Ordem Mundial incluindo a crise económica global, as guerras do Médio Oriente, a biotecnologia, a ciberguerra e a segurança interna serão discutidas à porta fechada.

«Graças à natureza privada da conferência, os participantes não estão limitados por convenções, cargos ou posições previamente acordadas. Assim, podem gastar o tempo necessário para pensar, reflectir e acumular perspectivas.

Não há uma ordem do dia detalhada, não se propõem resoluções, não se realizam votações, e não se emitem declarações políticas» (www.bilderbergmeetings.org/)

A reunião agrupará 140 participantes que incluem George Osborne, ministro da Economia do Reino Unido, Henry Kissinger, Timothy Geithner, ex-secretário do Tesouro dos EUA, Gen. David Petraeus, ex-chefe da CIA, Christine Lagarde, Presidenta do Fundo Monetário Internacional, Richard N. Perle, destacado conselheiro do governo Bush filho, Jeff Bezos, fundador e director executivo de Amazon.com, Eric Schmidt, de Google, dois ex-presidentes do Banco Mundial, James D. Wolfensohn e Robert B. Zoellick, entre outros.

Destacados membros do establishment financeiro anglo-estadunidense que inclui David Wright, vice-presidente do Barclays, J. Michael Evans, vice-presidente do Goldman Sachs, Douglas J. Flint, presidente do grupo HSBC, Kenneth M. Jacobs, presidente e director executivo da Lazard, Peter D. Sutherland, presidente de Goldman Sachs International, Edmund Clark, presidente e director executivo de TD Bank Group, do Canadá. O establishment banqueiro suíço, que supervisiona milhares de milhões de dólares em «contas bancárias cifradas», é representado por Dr. Thomas Jacob Ulrich Jordan, o recentemente nomeado presidente do conselho de administração do Schweizerische Nationalbank (Banco Nacional Suiço).

Alguns jornalistas do establishment (Washington Post, Finantial Times, Economist), professores de economia, representantes de think-thanks empresariais incluindo o American Institute, Carnegie e o Conselho de Relações Externas também assistirão.

Da indústria petrolífera, Simon Henry, principal responsável financeiro da Royal Dutch Shell e Robert Dudley, chefe executivo da BP, estão na lista de participantes.

O Primeiro-ministro de Saskatchewan, Brad Wall, também estará presente. O Canadá é o segundo produtor mundial de urânio e a maior parte desta actividade é em Saskatchewan. O urânio é um importante componente da produção de ogivas nucleares.

A ordem do dia também inclui importantes ramos da investigação médica. Destacados dirigentes da indústria farmacêutica como Mark C. Fisman, presidente do Instituto Novartis para a investigação biomédica, juntamente com o Dr. John Bell, Professor de Medicina em Oxford, uma importante autoridade em biotecnologia que trabalha em estreita cooperação com a grande indústria farmacêutica.

Os Bilderberg confirmaram que se discutirão os bancos de dados globais pertencentes á segurança interna sob o título de «grandes dados» e que Eric Schmidt, da Google, falará sobre este tema.

A lista oficial não está completa. É muito provável que os nomes de vários destacados participantes não sejam sequer divulgados.

Um informe anterior de Infowars.com citando «fontes bem informadas» afirmou que as discussões sobre a guerra do Médio Oriente concentrar-se-ão «no prolongamento da guerra contra a Síria, através do armamento de elementos contra Asad», assim como a destruição das instalações nucleares do Irão num futuro próximo de 3 anos.

De acordo com o sítio dos Bilderberg na web, serão discutidos os seguintes tópicos vagamente definidos:

• Podem os EUA e a Europa crescer mais rapidamente e criar postos de trabalho?
• Empregos, titularidade e dívida.
• Como os grandes dados estão mudando quase tudo.
• Nacionalismo e populismo.
• Política externa dos EUA.
• Desafios em África.
• Ciberguerra e proliferação de ameaças assimétricas.
• Importantes tendências da investigação médica.
• Educação em linha: promessa e impactes.
• Os acontecimentos no Médio Oriente.
• Temas de actualidade.

A lista completa de participantes e do Comité de Direcção do Bilderberg encontram-se em http://www.bilderbergmeetings.org/governance.html

Nota do tradutor:
[1] A Turquia é membro da NATO, organização internacional militar de agressão ao serviço do imperialismo norte-americano.

Este texto foi publicado em www.globalresearch.ca/who-will-be-attending-the-bilderberg-meeting-what-will-be-discussed-behind-closed-doors/5337453

* Michel Chossudowsky é Professor da Universidade de Otawa, e amigo e colaborador de odiario.info.

Tradução de José Paulo Gascão

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CANTA O MERLO: História Criminal do Cristianismo - Umha enxurrada de sangue

Diálogo com Grabriele Röwer sobre a obra de Karlheinz Deschner, autor da "História criminal do cristianismo" (10 volumes)
“Fio vermelho" Nom, enxurrada de sangue!

Stefan Huth
Die Junge Welt

Traduzida em castelá para Rebeliom por Mikel Arizaleta.

Gabriele Röver (nada em 1944) trás estudar teologia evangélica saiu da Igreja, logo estudou filosofia, filologia germânica e psicologia, realiza em Maguncia umha actividade pedagógico-terapeuta. Desde 1977 colaboradora com Karlheinz Deschner.
***

Nom há muito Joseph Ratzinger renunciou a seguir sendo o papa Benedito XVI. Olhando a história dos papas, um crítico da Igreja como Karlheinz Deschner onde situaria nela ao papa Benedito XVI?

Como expom Deschner na sua obra de mais de 1000 páginas "Die Politik der Päpste im 20. Jahrhundert" (A política dos papas no século XX) [i] , os papas mais importantes do S. XX fôrom Leom XIII (1878-1903, muito marcado politicamente ""Ergo sum Petrus, "eu quero pilotar umha grande política"), os papas fascistas Pio XI e Pio XII e ultimamente Joám Paulo II. O seu sucessor, Joseph Ratzinger, antes professor em Tubinga de dogmática e teologia fundamental, logo prefeito da congregaçom da fé (em tempos "a santa Inquisiçom"), como papa, Benedito XVI, nom seguiu a política imperialista dos seus predecessores. Mais bem buscou mediante a sistematizaçom e consolidaçom do corpus dogmático erigir-se em baluarte contra o perigo de erosom crescente na sua Igreja, que na Europa ocidental haver ir perdendo cada vez mais membros a favor de correntes seculares e que no resto do mundo tenhem ido engrossar sobretodo as filas evangélicas.
Em vao tentou conjurar o primeiro perigo mediante o projecto da "unidade de razom e fé", naturalmente com o primado da fé. Ao começo a tam ansiada "nova evangelizaçom da Europa" fracassou ante a grande secularizaçom existente, difamada por Benedito como "ditadura do relativismo" ou também "cultura da morte" (pola regulaçom da natalidade e a eutanásia), a difamaçom da homossexualidade e da emancipaçom das mulheres, sobretodo no sacerdócio. A conseqüência foi que a Igreja continuou perdendo imagem no nosso mundo. Em mudança este papa sim pode actuar em contra da marcha triunfal dos evangélicos em todos os continentes, sobretodo na América do Norte do Norte e do Sul (que nom por casualidade prove de aqui o novo papa) reclamando para a sua Igreja em grande parte as suas posiçons ideológicas (a confiança na Bíblia, o pecado mortal do ateísmo que o invade todo, a salvaçom mediante a missom e a vida em comunidade).
Mas com a sua negativa a modernizar a Igreja desde dentro, sem dúvida mais previdente que os seus críticos, porque toda a modernizaçom segundo Deschner a longo prazo aceleraria mais que reteria ou pararia o derrubamento desta instituiçom.
Polo que sabemos Benedito XVI fracassou ante a prepotência dos funcionários da Igreja, que boicotárom propostas prudentes sobre umha maior transparência na explicaçom dos escândalos dentro da Igreja nos últimos tempos, em primeiro lugar sobre os abusos sexuais (sobretodo em USA) e as finanças da Igreja. A dimensom de conflito pugeram às descoberto publicaçons como Vatileaks, provavelmente o motivo decisivo da sua renúncia.

Karlheinz Deschner acaba de finalizar o seu "História criminal do cristianismo" em dez tomos. Que fontes utilizou? Tivo acesso aos arquivos eclesiásticos?

Um dos reproches mais frequentes contra o trabalho de crítica à Igreja de Deschner aponta à sua suposta "falta de método científico" e a que "nom é aceite polo mundo científico" por carecer de umha análise própria das fontes. À parte de que ele as utiliza na medida em que estas estám disponíveis e acessíveis para ele sobretodo nas bibliotecas universitárias, este reproche nom tem em conta a realidade da investigaçom. E é que se ele mesmo tivesse que levar a cabo em cada tema umha análise profunda das fontes com segurança que nom passaria do primeiro volume da "História do cristianismo". Um trabalho sério de investigaçom é também aquele que é capaz de valorizar, analisar e recolher com objectividade os resultados de modo amplo e substancioso de outros, em especial as análises critico-históricos das fontes dos demais, e sabe-los transmitir ao leitor. Professores de teologia evangélica e católica, que merecem grande respeito polo seu trabalho, documentam-se ademais dentre outras muitas opinions também na sua página Web. Pars pro Toto, neste ponto poderia-se citar o parecer do professor doutor D. Julius Groos: "O que se negou aos nossos livros científicos, bem pudesse alcançá-lo a sua obra: Dar a conhecer à massa de intelectuais os resultados da investigaçom moderna sobre o cristianismo". Também um transmissor, um mediador dos resultados da investigaçom de outros pode ser de grande ajuda para estes, admitido que também a sua linguagem serve para o que a Deschner seja reconhecido a miúdo mesmo até polos seus inimigos "isso sim, freqüência e acto seguido acusa-lo por esta linguagem, de ser a sua escrita demasiado emotiva, de escrever "cum ira et studio"-, o seu trabalho seria espelho da sua óptica uni-dimensional, historicamente subjectiva. Coma se existisse a objectividade pura na classificaçom e valoraçom da história, crítica levada por Deschner ad absurdum na sua introduçom ao tomo I da "História criminal do cristianismo".

Uni-dimensional? Subjectivo, parcial? Analisemos este veredicto que quer ser demonstraçom da sua "falta de método científico". Deschner nom escreve e pensa mais subjectiva e unilateralmente que os incontáveis apologistas do poder eclesial no grémio da história eclesial. A eles contrapom Deschner desde o inicio a sua visom desde abaixo. Com o pároco pacifista Johannes Ude, que reconhecia "nom poder suportar a injustiça", Deschner elegeu sofrer empáticamente, sofrer desde a perspectiva das vítimas, dos que padecem todo o tipo de barbaridades: dos milhons de pagaos,de bruxas, dos milhons de indianos, dos milhons de africanos, dos milhons de cristaos, até dos 700 000 ortodoxos sérvios que fôrom enterrados, queimados, crucificados vivos ainda nos nossos dias, na Croácia católica fascista sob Ante Pavelic, e todo isso com ajuda de umha clerezia muito activa, que ela mesma matava e descabeçar os franciscanos!, e isso com a bençom e o consentimento de Eugénio Pacelli, desde 1939 Pio XII, aquele papa de figura tam ascética, tam seráfica, tam venerada, tam endeusada.

Umha nova ediçom da obra de Deschner "A política dos papas" aparece proximamente na editora Alibri. Que relaçom tem esta obra com a História criminal do cristianismo?

Os nom bem intencionados acusam agora a Deschner, trás a apresentaçom do tomo 10, o último da sua História criminal, de nom penetrar no S. XIX e XX, portanto nom poderia cumprir o seu propósito. A nova ediçom actualizada da "Política dos papas em tempos das Guerras Mundiais" de 1982/83 e 1991 agora na editora Alibri com um epílogo extenso de Michael Schmidt-Salomon, porta-voz da fundaçom Giordano Bruno, a cujo valente editor Gunnar Schedel e ao sua equipa só cabe agradecer-lhes por este imenso trabalho, empalma de algumha maneira ali onde termina o tomo 10, no âmbito da Revoluçom francesa. Deschner considera esta obra o tomo 11 da sua História criminal do cristianismo, ainda que de modo nom oficial. Em mais de 1000 páginas constata, demonstra e comprova no S. XIX e XX o vê-lho emaranhamento conhecido do papado nom tanto com os poderes do mais ali quanto com os deste mundo, sempre adornado e debruado de transcendência e em clara contradiçom com a ética da paz e da pobreza do Jesus sinóptico. A cima desta hipocrisia alcança no S. XX com o pontificado de Pio XI e Pio XII.

Deschner ocupou-se muito intensamente do papel da Igreja no fascismo "agora apareceu umha nova ediçom do seu memorável livro de 1965 "Mit Gott und dêem Fachisten" (Com Deus e os fascistas), no que detalha e demonstra, como ninguém depois de 1945, a colaboraçom do papa Pío XI e Pío XII com os fascistas daqueles anos na Itália, Alemanha, Espanha e Croácia. Sobre Pío XII escreveu noutro lugar: "Sim, nom faltou um (um") no patíbulo de Nuremberg"" Nom se deu um escândalo jurídico?

Nom! As suas palavras pronunciadas na Meistersingerhalhe de Nuremberg fôrom motivo para incoar querela por "injuria à Igreja", desistida em 1971 "por insignificancia". A terrível contradiçom entre o ideal do cristianismo primigénio e a realidade clerical foi o tema desta conferência, do mesmo modo que foi de quase todo o que ele vem escrevendo desde há meio século contra a Igreja. Nos inícios da História criminal do cristianismo rondou-lhe a ideia de intitular a obra "Deus caminha nas sandálias do demónio". Nom polas palavras senom polas obras mede ele aos "representantes de Deus": "Deverdes conhecer-los polos seus frutos". Frase que é guia nos seus trabalhos.

A frase "História criminal do cristianismo" supom algo assim como continuidade, realmente constitui esta actuaçom criminal umha espécie de linha vermelha através da história da Igreja?

Linha vermelha" Deschner diria que mais bem constitui "umha cascata de sangue", umha verdadeira cascata de sangue que roda e precipita polos reinos cristaos através do século; observe-se, como o autor desta História criminal, que as linhas directrizes dos apoderados da Igreja determinam a política e nom o protesto daqueles que se alçam contra ela mesmo jogando-se a vida, mais tarde utilizada como folha de parra para tampar os crimes cometidos e abençoados polos clérigos. E que som legiom. Cito aqui frases daquele discurso de Deschner em Nuremberg: "A linha central: com Deus o Senhor" Com Deus contra os pagás, contra os judeus, com Deus contra os lombardos, os sajones, os sarracenos, os húngaros, os ingleses, os poloneses; com Deus contra os albigenses, os valdenses, os Stedinger, contra os husitas, os Gueux, os hugonotes, os camponeses, com Deus na Primeira Guerra Mundial, com Deus na Segunda, e com Deus seguro também na Terceira; festas ecuménicas de matança sem igual.

Objecto fundamental das análises de Deschner é a Igreja católica. Em que medida tem em conta também os crimes do protestantismo?

Nos assassinatos maciços desde a Reforma -pense-se tam só nas guerras camponesas, na Guerra do Trinta Anos que Deschner documenta muito detidamente- participárom também os protestantes, mas em conjunto nom se pode comparar com o poder e a influência do império da Igreja católica, ainda que dispunham de um grande património e governavam numha série de países. O capítulo mais escuro da história protestante sem dúvida escreveu-o a sua colaboraçom dos cristaos alemáns com os nacional-socialistas. Nom esqueçamos, os inícios da Igreja protestante, na Reforma iniciada por Martim Lutero -cujos 500 ano vai ser celebrado com profussom- arrojam muitas sombras, cujos traços mais característicos estám expostos no capítulo 12 do volume 8 da História criminal do cristianismo, recopilado num dos seus aforismos: "Martim Lutero desmascarou as lendas como contos, mas Lutero aferrou-se às lendas da Bíblia, também à crença do demónio, também ao delírio das bruxas, também à eliminaçom dos hereges, também ao anti-semitismo, ao serviço da guerra, à escravatura, aos príncipes. E a isto chama-se Reforma".

Nom só os escândalos de abusos sexuais, também o despedimento de umha mulher de Colónia violada por clínicas católicas enfadou à opiniom pública, há príncipes da Igreja que se sentem expostos a umha espécie de progrom. Tenhem razom"

Como historiador crítico da Igreja e autor de umha História sexual do cristianismo ""Dás Kreutz mit der Kirche", 1974 (Em castelhano: História sexual do cristianismo) [ii] , Deschner vê os casos nomeados, do mesmo modo que todos aqueles numerosos casos de maes solteiras, massacradas há tempo em todos os sítios, como foram afogadas ou elas mesmas afogárom no contexto de umha repressom sexual de séculos da massa dos crentes, sem prejuízo de um em todos os sentidos libertinagem desbocado por parte dos seus governantes de dentro e fora das Igrejas. Já este contraste amostra para que serviu de facto a moral sexual especificamente cristá e a inimizade do prazer: como afirma Deschner nom tanto para a protecçom da vida embrionária, como afirmam "que umha vez desenvolvida termina sendo carne de canhom-, quando como criaçom e canteira de súbditos. Freud pode confundir-se gravemente neste sentido, o verdadeiro é que se se embrida e reprime este impulso elementar prazenteiro da vida, si se o difama, si se tacha de animal, si se endemoninha e se envolve e besunta desde pequeno com um sentimento de culpabilidade -sabem-no todos os ditadores do mundo terreno e espiritual- encarcera-se e embrida à pessoa, impede-se o seu desenvolvimento e assim se conseguem súbditos submissos, dispostos e capazes de humilhar-se ante os de arriba e a patear aos de abaixo, assim se acreditem combatentes fanáticos sobretodo na guerra, esse sempre "Deus connosco": Também, segundo Deschner, é o que se busca com a congestom e repressom do impulso dos celibatários, que tem que terminar buscando umha válvula de escape.

Que reacçons deram nos círculos eclesiais sobre a obra de Karlheinz Deschner"

Muito diferentes como mostra já o tomo de cartas "Vostede chefe dos demos". Desde a teologia da Igreja tentou-se ignorá-la, nom falar do seu trabalho, e na imprensa conservadora despachou-no com os "argumentos" antes mencionados (subjectivo, pouco científico). Um simposium em 1993 na academia católica Schwerte para demonstrar a falta de seriedade da "Criminalizaçom do cristianismo" por “entendidos” nom encontrou o amplo eco esperado. Na obra extensa de um só como ele, sem equipa colaborador, obrigado ademais a dar conferências para assegurar-se o sustento vital e à ajuda de amigos como Herbert Steffen, o fundador do GBS, sem dúvida que sempre se encontram algumhas falhas de detalhes. Mas o decisivo é que foi confirmado até o dia de hoje por teólogos e historiadores da Igreja, mas nom excessivamente submissos à mesma, o valor científico do aproveitamento dos estudos de fontes assim como a legitimaçom da sua crítica de domínio referida às vítimas, e isto é a regra geral e nom a excepçom.

Deschner foi educado nas salas de aulas de um convento católico, que lhe empurrou a se dedicar de cheio à história da Igreja"

Entre os seus 50 livros existem alguns de muito outro conteúdo, ademais da crítica literária e a poesia paisagista cabe destacar sobretodo o seu amor polos animais, aos que começaria de novo a dedicar toda a sua capacidade de escritor. O que sacrificasse à crítica da Igreja por volta de 50 anos da sua vida em nada corresponde, como afirma, a umha infância ou mocidade eclipsada ou obscurecida por influências eclesiais, em privado tivo por entom as melhores experiências com representantes de Igreja local. Separou-se religiosamente da fé muito pronto, sendo aluno, pola leitura de Schopenhauer e Nietzsche, mais tarde de Kant e Lichtenberg, cortando o cordom umbilical emocional com o catolicismo tradicional da sua terra mediante um estudo autodidacta de cinco anos dos fundamentos do cristianismo, e com a sua primeira crítica da Igreja "Abermals krähte de Hahn" (E de novo cantou o galo) em 1962 rematou totalmente o tema Igreja e fé para sim pessoalmente. Desde entom agnóstico com sempre crescente dúvida metódica frente a perguntas sem resposta para nós, impulsionou-lhe a seguir no tema sobretodo um sentimento arraigado pola verdade e a justiça, expressado e manifestado já como crítico literário e agora como historiador: a denúncia da profunda contradiçom entre as altas exigências morais dos "representantes de Cristo" e a sua praxe verdadeiramente lamentável, desprezadora dos direitos humanos com palavras embelecidas, e mais tarde negada mesmo por historiadores submissos.

Que espera Karlheinz Deschner do papa Francisco que saiu elegido?

Deschner pessoalmente nada, vê no papado umha instituiçom totalmente superada. O que nom exclui que como sempre se aferre ao poder sobretodo coligándosse em política e economia com aqueles poderes terrenais dos que espera vantagens, sobretodo em luta conjunta e já experimentada através dos séculos contra todo que seja crítico. Nom nos devem enganar nem os anúncios de Francisco de um feche do Instituto per le Opere di Religione (IOR), conhecido como Banco Vaticano "umha reacçom às acusaçons de lavagem de dinheiro- nem as afirmaçons de estar perto dos pobres seguindo o exemplo do patrom do seu nome, Francisco de Agarrais, com censuras aos super-ricos. Francisco como papa será, como já o foi antes como Jorge Mario Bergoglio, sacerdote, cardeal e arcebispo de B. Aires "nos anos 70 provincial dos jesuítas, ordem que segue dispondo de um enorme capital e de pacotes de acçons em empresas multinacionais. Possivelmente queira perceber por estar perto dos pobres o que já percebeu no seu dia Leom XIII na seu "encíclica aos trabalhadores", com a que esperava durante a industrializaçom ganhar de novo para a Igreja a aquelas massas que ameaçavam com ir aos socialistas e comunistas, sempre hostilizadas polos gerifaltes da Igreja. Também Francisco é possível que perceba por estar "perto dos pobres" ser caritas, sedante da miséria de massas num mundo com cada vez mais partes depauperadas em lugar de comprometer-se em luta eficaz e combativa contra as causas desta crescente depauperaçom. Mas isto exige mudanças estruturais numha economia orientada exclusivamente ao benefício sem o qual nom pode haver um mínimo de justiça nem nacional nem globalmente. Por suposto, com as organizaçons argentinas de direitos humanos e familiares bem inter-comunicadas Deschner nom descarta que Francisco frente aos governos de esquerda latino-americanos pudesse jogar um papel semelhante ao jogado polo papa polonês Joám Paulo II face a representantes do socialismo real. O cepticismo de Deschner frente à ofensiva de atracçom dos coraçons de muitas gentes por parte do novo papa e as suas numerosas promessas de reforma será que basicamente na Igreja católica todo seguirá sendo como sempre foi, sobretodo essa hierarquia rígida. Porque Francisco, apesar do novo grémio de cardeais assessores, segue sendo o pontifex maximus, é dizer em todas as decisons tem a última palavra. Lembra Deschner que na sua crónica crítica do Vaticano durante os Séculos XIX e XX escreveu sobre as bases religiosas podrecidas deste império: "Se este instituto de quase dous mil anos de crimes um dia, polas razons que fora, nom só predicasse a paz senom que mesmo a praticasse, e se para isso padecesse, perdesse poder e minguasse seguiria sendo desprecíavel porque dogmaticamente é mentira. umha Igreja edificada na fraude e a mentira jamais se mostrará como eticamente servível.

Notas:

[i] Publicado em castelhano em dous tomos pola editora zaragozana Yalde e magnificamente traduzido por Anselmo Sanjuán Nájera.

[ii] Publicada pola editora Yalde

13-05-2013

Link permanente 18:17:39, por José Alberte Email , 1096 palavras   Português (GZ)
Categorias: Ensaio

CANTA O MERLO: "Em Cuba a palavra desafiuzamento nom existe, e tem um desemprego de 3,8 por cento "

http://www.publico.es/internacional/455097/el-desahucio-no-existe-en-cuba
Sergio León
Público.es

Umha delegaçom cubana atende ao diário "Público" para falar dos avanços económicos na ilha. Rejeitam que o socialismo cubano haja fracassado e destacam que a política do Governo de Raúl Castro enfoca-se em modernizar as conquistas da revoluçom.

Eles também estám de passagem por Espanha, ainda que a sua visita nom fai parte de nengumha gira mundial. O Congresso dos Deputados nom abrirá as suas portas para receber-lhes. Nom se farám fotos com segundo que personalidades. Mas nem falta que fai. "Nom vamos seguir os passos dessa personagem".

Quem fala é Iroel Sánchez, engenheiro e jornalista cubano autor do blogue "A Pupila Insomne" e do livro "Suspeitas e dissidências" que apresenta estes dias em Espanha. Junto ao doutor em economia e vice-presidente da Associaçom de Economistas e Contadores de Cuba, Hugo Pons, percorreram Barcelona, Valencia e Madrid para realizar umha série de encontros para falar sobre a ilha. Viajaram acompanhados de Mirtha Rodríguez, mae de um do Cinco e que leva a história do seu filho por todo mundo, e do alto funcionário Alberto González.

A embaixada cubana na capital recebeu a "Público" para charlar de todo um pouco e, sobretodo, das mudanças que se estám produzindo no país caribenho. Mudanças, sim, mas concretizam: "Cuba nom muda, Cuba muda-se".

Há dous anos, o Governo de Raúl Castro começou a implementar novas medidas económicas: desde a concessom de créditos para criar e fomentar novos negócios e a promoçom do trabalho autónomo e cooperativista, passando pola cessom de terrenos agrícolas para incrementar a produçom e o levantamento da proibiçom de compra-a-venda de casas e automóveis. Passos significativos para modernizar e fazer sustentável num novo contexto internacional os sucessos e conquistas alcançadas com a revoluçom, defende Sánchez.

Ambos destacam os resultados conseguidos até agora, ainda que também som conscientes de que o caminho é comprido e o processo, lento. O economista pom 2030 como "horizonte temporário" para a transformaçom das actividades económicas que, em nengum caso, destaca, esqueceram-se de apoiar um gasto social orientado a garantir o bem-estar da populaçom. Pons sublinha que "a primeira directriz -termo empregue para as medidas económicas- que aparece aí, que é trabalhar em funçom da construçom do socialismo, nom se modificou. O objectivo segue sendo o mesmo. Poderá-se falar de umha falência do socialismo na Europa, mas o socialismo cubano aí está".

Sánchez fai finca-pé aqui na utilizaçom que se fai deste processo em alguns médios para anunciar a quebra do sistema cubano. Di-o alto e claro: "Cuba nom vai para o capitalismo". O economista alarga: "Cuba nom está a entregar a propriedade das terras, nom as está entregando, as propriedades e serviços seguem sendo públicos. Entrega-se a gestom. O peso fundamental da actividade económica cubana vai seguir sendo a empresa estatal. umha cousa é que se privilegie a actividade cooperativa, que é colectiva, nom privada, e que se alargue o trabalho por conta própria como umha forma de soluçom. Aí é onde entra a deturpaçom".

Pons, neste ponto, fai umha defesa das políticas cubanas, e nom só as actuais: "Em 2008, num contexto de crise financeira, a economia de Cuba seguia crescendo. Nom é magia, é o fruto do desenho de umhas políticas que, ainda que, nom alcança os níveis de eficiência que potencialmente poderiam ter, sim chega a oferecer umha melhora relativa do estándar de vida da populaçom".

Os dous celebram o reconhecimento que o director geral da ONU para a Alimentaçom e a Agricultura (FAO) fixo do trabalho realizado na ilha para erradicar a fame. José Graziano da Silva felicitou por carta ao ex-presidente Fidel Castro e ao povo cubano por "o importante sucesso" ao cumprir de maneira antecipada a meta traçada de reduzir à metade o número de pessoas desnutridas em cada país antes de 2015. "Cuba, com as suas políticas, alcançou bem mais que outros países que nom tenhem bloqueio, que tenhem petróleo, que som grandes produtores de alimento, que tenhem boas condiçons climatológicas" Segundo UNICEF, Cuba é o único país que acabou com a desnutriçom infantil", acrescenta Sánchez.

"Nom quer dizer que os cubanos comam o que quereriam comer. Quando Cuba compra arroz, fá-lo para 11 milhons de pessoas. Nom é umha realidade paradisíaca, mas também nom é a realidade que se fabrica nos laboratórios da guerra psicológica de EEUU", continua. Reconhecem que nada é perfeito. E Cuba, com todos os seus problemas, tampouco. "Há muitas cousas que resolver. É necessário elevar os níveis de produçom alimentícia para reduzir as importaçons. Na medida que se consiga, esse financiamento, que em 2011 supom 1.500 milhons de dólares, pode ser utilizada para outro tipo de investimentos, para, em definitiva, melhorar a qualidade de vida da populaçom", assinala Pons.

Lento, mas seguro. Tanto o economista como o bloguero defendem que é a forma para sentar as bases desta transformaçom económica, para que permaneça e seja sustentável. E de fundo, nom esquecer nunca a política social. Num panorama no que Ocidente se afoga na crise financeira e na política de recortes, Cuba, tem um desemprego de 3,8 por cento. A palavra desafiuzamento nom existe, e nom só que nom exista, senom que também nom fai parte do seu marco regulatório". Sánchez incide no tema dos desaloxos com umha frase singela, mas clarificadora: "Nom podem botar-te da tua casa, os cubanos nom o percebem porque isso nom fai parte da sua cultura".

É inevitável que, durante a conversaçom, EEUU e o seu embargo à ilha apareça de forma assídua. A chegada de Barack Obama em 2008 à Casa Branca fixo pensar que a situaçom pudesse mudar. Mas nada mais longe da realidade. "Obama é o presidente que mais travas impujo ao levantamento do bloqueio". Sánchez critica ao mandatário estadounidense e a sua imagem oferecida de "aparente abertura", por nom ser conseqüente com as promessas fixo quando era senador. "Cuba já demonstrou a sua disponibilidade a sentar a discutir. Nom é só o bloqueio, é um problema que transcende as relaçons bilaterais", assinala, por sua parte, Pons.

O ferrolhamento custou-lhe a Cuba dezenas de milhares de milhons de euros. A ilha necessita que o seu sistema seja mais eficiente, aponta o economista. Por isso expôs-se a necessidade de pôr em marcha novas medidas económicas. Sánchez destaca que essas directrizes fôrom fruto do consenso de um amplo debate da populaçom cubana. "Cuba muda para adaptar-se, mas sem esquecer da justiça social e a preservaçom da sua soberania. As mudanças levaram-se a cabo com a presença da geraçom histórica da revoluçom para dar-lhes sustentabilidade". E quando Raul Castro retire-se" "As instituiçons som mais importantes que as pessoas. O povo cubano é o que garante os objectivos", conclui o bloguero.

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