Categorias: Outros, Ensaio, Dezires

15-03-2009

Link permanente 22:17:29, por José Alberte Email , 771 palavras   Português (GZ)
Categorias: Ensaio

Para que serve a OTAN?

por Serge Halimi

Le Monde Diplomatique

Nicolas Sarkozy queria que a sua presidência fosse uma ruptura com o «modelo social francês» que a falência do capitalismo financeiro à moda americana veio agora avivar. Terá ele então decidido acabar com uma outra tradição francesa, a da independência nacional? Embora durante a campanha eleitoral nunca tenha aludido a uma tal «ruptura», e que depois tenha feito depender o regresso da França ao comando integrado da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) de um reforço da defesa europeia, Sarkozy fez saber, no entanto, que a decisão do general De Gaulle tinha passado à história.

Ora, há quarenta e três anos, o fundador da V República retirou a França do comando integrado da OTAN numa altura em que a União Soviética mantinha sob a sua autoridade vários países da Europa. Podemos pois perguntar-nos por que motivo – ou na perspectiva de que guerras – deverá a França fazer marcha-atrás, hoje que o Pacto de Varsóvia deixou de existir e que muitos dos seus antigos membros (Polónia, Hungria, Roménia, etc.) aderiram à União Europeia e à Aliança Atlântica.

Será para dar emprego a oitocentos oficiais franceses em Norfolk, na Virgínia, no quartel-general da OTAN? Para agradar a industriais do armamento, amigos de Sarkozy, prevendo estes que o regresso da França às fileiras atlantistas lhes permitirá vender mais equipamentos militares? Para convencer os norte-americanos de que, deixando Paris de ficar fora da OTAN, poderiam autorizar Sarkozy a tornar-se um dos prescritores do seu círculo de influência? De forma mais verosímil, o Eliseu espera tirar partido da simpatia que o novo presidente dos Estados Unidos inspira, para acabar com a imperdoável excepção francesa. Essa que, na altura da guerra do Iraque, levou Paris a erguer-se contra todos os doutores Strangelove do «choque das civilizações». Coisa que provocou grande despeito em muitos dos actuais seguidores de Sarkozy – entre os quais Bernard Kouchner, seu ministro dos Negócios Estrangeiros.

A maior parte dos Estados membros da Organização das Nações Unidas (ONU) não pertence à OTAN nem à União Europeia. Seis dos países membros da União também não fazem parte da OTAN (Áustria, Chipre, Finlândia, Irlanda, Malta e Suécia). Apesar disso, tende a criar-se uma certa confusão entre estas três estruturas, visando alargar o perímetro geográfico da organização militar e atribuir-lhe missões de «estabilização» que estão muito para lá dos seus talentos e da sua jurisdição.

Uma pequena maioria de deputados europeus (293 votos contra 283), invocando a transformação do planeta numa «terra sem fronteiras», reclamou assim recentemente, no dia 19 de Fevereiro, que seja criada, em «âmbitos como o terrorismo internacional, (…) a criminalidade organizada, as ciber-ameacas, a degradação do ambiente, as catástrofes naturais e outras» [1], uma «parceria ainda mais estreita» entre a União Europeia e a OTAN. Recorrendo a uma elegante metáfora, a exposição dos motivos determina que «sem dimensão militar, a União não passa de cão que ladra mas não morde».

Decididamente desejosos de não nos pouparem a nenhum dos cordelinhos, os deputados apoiam a sua declaração num lembrete das «horas sombrias da nossa história», de Hitler, de Munique, sem sequer se esquecerem de acrescentar umas linhas sobre «Elie Wiesel, sobrevivente do Holocausto». «Não gostaríamos nós que alguém viesse socorrer-nos quando choramos?», defendem eles. Secar as lágrimas dos civis nunca foi o talento principal dos oficiais norte‑americanos. Nem durante a guerra do Kosovo nem durante a do Iraque, levadas a cabo em violação da Carta das Nações Unidas. Mas segundo os deputados europeus em questão, muitos Estados membros da ONU enganam-se quando se referem à «doutrina do não-alinhamento, herança da Guerra Fria, [o que] fragiliza a aliança das democracias»…

Já deu pois para perceber que a «futura defesa colectiva da Europa» a que aderiu o chefe de Estado francês se irá organizar unicamente no quadro da Aliança Atlântica. Misturando missões civis e militares, essa defesa não hesitará em mobilizar-se muito para lá da antiga «cortina de ferro», até aos confins do Paquistão. No próprio partido de Sarkozy, dois antigos primeiros-ministros, Alain Juppé e Dominique de Villepin, já começaram a alarmar-se com semelhante orientação. O que bem mostra o perigo da viragem que esta orientação apresenta.

sexta-feira 13 de Março de 2009

14-03-2009

Link permanente 23:21:34, por José Alberte Email , 2415 palavras   Português (GZ)
Categorias: Ensaio

A Grande Depressão do século XXI: Colapso da economia real

por Michel Chossudovsky
resistir.info

A crise financeira aprofunda-se, com o risco de interromper seriamente o sistema de pagamentos internacional.

Esta crise é muito mais séria do que a Grande Depressão. Todos os sectores importantes da economia global são afectados. Relatórios recentes sugerem que o sistema de Cartas de Crédito bem como a navegação internacional, a qual constitui a linha vital do sistema de comércio internacional, estão potencialmente ameaçados.

O proposto salvamento bancário sob o chamado Troubled Asset Relief Program (TARP) não é uma "solução" para a crise e sim a "causa" de mais um colapso.

O salvamento contribui para um novo processo de desestabilização da arquitectura financeira. Ele transfere grandes quantias de dinheiro público, a expensas dos contribuintes, para as mãos de financeiros privados. Isto leva a uma espiral de dívida pública e a uma centralização do poder bancário sem precedentes. Além disso, o dinheiro do salvamento é utilizado pelos gigantes financeiros para obter aquisições corporativas tanto no sector financeiro como na economia real.

Esta concentração sem precedentes de poder financeiro conduz sectores inteiros da indústria e dos serviços, um por um, à bancarrota, o que leva ao despedimento de milhares de trabalhadores.

As esferas superiores da Wall Street pairam sobre a economia real. A acumulação de grandes quantias de riqueza monetária por um punhado de conglomerados da Wall Street e seu hedge funds associados é reinvestida na aquisição de activos reais.

A riqueza de papel é transformado em propriedade e controle de activos produtivos reais, incluindo indústria, serviços, recursos naturais, infraestrutura, etc.

Colapso da procura do consumidor

A economia real está em crise. O consequente aumento do desemprego causa um declínio dramático nos gastos do consumidor o que por sua vez faz retroceder os níveis de produção de bens e serviços.

Exacerbada pela política macroeconómica neoliberal, esta espiral descendente é cumulativa, conduzindo finalmente a uma super-oferta de mercadorias.

As empresas não podem vender os seus produtos, porque os trabalhadores foram despedidos. Os consumidores, nomeadamente os trabalhadores, foram privados do poder de compra necessário para alimentar o crescimento económico. Com os seus magros rendimentos, eles não podem permitir-se adquirir os bens produzidos.

A superprodução dispara uma cadeia de bancarrotas

Os stocks de bens não vendidos acumulam-se. Finalmente, a produção entra em colapso. A oferta de mercadorias declina devido ao encerramento de instalações produtivas, incluindo fábricas de montagem de manufacturas.

No processo de encerramento da fábrica, muitos trabalhadores tornam-se desempregados. Milhares de firmas em bancarrota são expulsas do cenário económico, o que leva a um afundamento da produção.

A pobreza em massa e um declínio à escala mundial nos padrões de vida é o resultado de baixos salários e desemprego em massa. Isto é o resultado de uma anterior economia global de trabalho barato, em grande parte caracterizada pelos baixos salários das fábricas montadoras nos países do Terceiro Mundo.

A crise actual estende os contornos geográficos da economia do trabalho barato, levando ao empobrecimento de grandes sectores da população nos chamados países em desenvolvimento (incluindo as classes médias).

Nos EUA, Canadá e Europa Ocidental, todo o sector industrial está potencialmente ameaçado.

Estamos a tratar de um processo de reestruturação económica e financeira a longo prazo. Na sua fase primitiva, principiada na década de 1980 durante a era Reagan-Thatcher, empresas de nível local e regional, quintas familiares e pequenos negócios foram deslocados e destruídos. Um após o outro, o boom de fusões e aquisições da década de 1990 levou à consolidação simultânea de grandes entidades corporativos tanto na economia real como na banca e nos serviços financeiros.

Nos desenvolvimentos recentes, entretanto, a concentração de poder da banca foi a expensas dos negócios em grande escala (big business).

O que distingue esta fase particular da crise é a capacidade dos gigantes financeiros (através do seu controle decisivo sobre o crédito) não só para causar destruição na produção de bens e serviços como também para minar e destruir grandes entidades corporativas da economia real.

Bancarrotas estão a verificar-se em todos os principais sectores de actividade: Manufactura, telecoms, cadeias de lojas de bens de consumo, centros comerciais, companhias de aviação, hotéis e turismo, sem mencionar o imobiliário e a indústria da construção, vítimas do colapso das hipotecas subprime.

A General Motors confirmou que "poderia ficar sem cash dentro de uns poucos meses, o que poderia impelir a um dos maiores processos de bancarrota da história dos EUA" ( USNews.com , 11/Novembro/2008). Por sua vez isto afectaria uma série de indústrias relacionadas. Estimativas de perdas de emprego na indústria automobilística dos EUA vão de 30 mil até 100 mil postos. (Ibid)

Colapso do preço das acções da General Motors

Nos EUA, companhias de retalho ao consumidor estão em dificuldade: os preços das acções das cadeias de lojas de departamentos JC Penney e Nordstrom entraram em colapso. A Circuit City Stores Inc. pediu a protecção da concordata (Chapter 11). As acções da Best Buy, a cadeia de electrónica a retalho, mergulharam.
O Vodafone Group PLC, a maior companhia do mundo de telemóveis, para não mencionar InterContinental Hotels PLC, ficaram em dificuldades a seguir ao colapso do valor das suas acções. (AP, 12/Novembro/2998). À escala mundial, mais de duas dúzias de companhias de aviação vieram abaixo em 2008, somando-se a uma cadeia de bancarrotas de companhias de aviação no decorrer dos últimos cinco anos. ( Aviation and Aerospace News , 30/Outubro/2008). A segunda companhia aérea da Dinamarca, a Stirling, declarou bancarrota. Nos EUA, uma lista crescente de companhias imobiliárias já entrou com pedido de bancarrota.

Nos últimos dois meses tem havido numerosos encerramentos de fábricas por toda a América, levando ao despedimento permanente de dezenas de milhares de trabalhadores. Estes encerramentos afectaram várias áreas chave da actividade económica incluindo as indústrias química e farmacêutica, a indústria automóvel e sectores relacionados, a economia de serviços, etc.

As encomendas às fábricas dos EUA declinaram dramaticamente. A firma de inquéritos Autodata relatou em Outubro que as "vendas de carros e camiões leves em Setembro declinaram 27 por cento em comparação com o ano anterior". ( Washington Post, 03/Outubro/2008)

Desemprego

Segundo o US Bureau of Labor Statistics, mais 240 mil empregos foram perdidos só no mês de Outubro:
"O emprego assalariado não agrícola caiu em 230 mil em Outubro, e a taxa de desemprego aumentou de 6,1 para 6,5 por cento, relatou hoje o Bureau of Labor Statistics do Departamento do Trabalho. A queda de Outubro no emprego assalariado seguiu-se a declínios de 127 mil em Agosto e 284 mil em Setembro, conforme revisão. O emprego caiu em 1,2 milhão nos primeiros 10 meses de 2008; mais da metade da diminuição verificou-se nos últimos três meses. Em Outubro, as perdas de emprego continuaram na manufactura, na construção e em várias firmas que fornecem serviços à indústria...

Entre os desempregados, o número de pessoas que perderam o seu emprego não esperam ser recontratadas aumentou de 615 mil para 4,4 milhões em Outubro. Ao longo dos últimos 12 meses, a dimensão deste grupo aumentou em 1,7 milhão". ( Bureau of Labor Statistics , Novembro, 2008)

Os números oficiais não descrevem a seriedade da crise e o seu impacto devastador sobre o mercado de trabalho, uma vez que muitas das perdas de emprego não são relatadas.

A situação na União Europeia é igualmente perturbante. Um recente relatório britânico destaca o problema potencial do desemprego em massa no Nordeste da Inglaterra. Na Alemanha, um relatório publicado em Outubro sugere que 10-15% de todos os empregos automotivos na Alemanha poderia ser perdidos.

Cortes de empregos também foram anunciados nas fábricas da General Motors e da Nissan-Renault em Espanha. As vendas de carros na Espanha afundaram 40 por cento em Outubro, em relação às vendas no mesmo mês do ano anterior.

Bancarrota e arrestos:
Uma operação de circulação de dinheiro para os gigantes financeiros

Entre as companhias à beira da bancarrota há algumas altamente lucrativas. A pergunta importante: quem assume a propriedade das corporações industriais gigantes em bancarrota?

Bancarrotas e arrestos são uma operações de circulação de dinheiro. Com o colapso dos valores nos mercados de acções, as companhias ali listas experimentam um grande colapso do preço da sua acção, o que imediatamente afecta a sua credibilidade e a sua capacidade para tomar emprestado e/ou renegociar dívidas (as quais estão baseadas no valor cotado dos seus activos).

Os especuladores institucionais, os hedge funds et alii, aproveitam-se deste saqueio inesperado.

Eles disparam o colapso de companhias listas em bolsa através da venda à descoberto (short selling) e outras operações especulativas. Elas podem assim embolsar os seus ganhos especulativos em grande escala.

Segundo um relato no Financial Times, há prova de que o afundamento da indústria automobilística dos EUA foi em parte o resultado de manipulação. "A General Motors e a Ford perderam 31 por cento para US$3,01 e 10,9 por cento para US$1,80 apesar da esperança de que Washington pudesse salvar a indústria à beira do colapso. A queda verificou-se depois de o Deutsche Bank estabelecer um objectivo de preço zero para a GM ". ( FT, 14/Novembro/2008, ênfase acrescentada)

Os financeiros estão num passeio de compras. Os 400 multimilionários Forbes da América estão à espera na expectativa.

Depois de eles terem consolidado a sua posição na indústria bancária, os gigantes financeiros incluindo a JP Morgan Chase, Bank of America e outros utilizarão os seus ganhos inesperados de dinheiro e o dinheiro do salvamento proporcionado pelo TARP para uma extensão ulterior do seu controle sobre a economia real.

O passo seguinte consiste em transformar activos líquidos, nomeadamente riqueza monetária em papel, com a aquisição de activos da economia real.

Nesse aspecto, a Berkshire Hathaway Inc., de Warren Buffett, é um grande accionista da General Motors. Mais recentemente, a seguir ao colapso do valor das acções em Outubro e Novembro, Buffett aumentou a sua participação no produtor de petróleo ConocoPhillips, sem mencionar a Eaton Corp., cujo preço na Bolsa de Valores de Nova York afundou 62% em relação à cotação de Dezembro de 2008 (Bloomberg).

O alvo destas aquisições são as numerosas companhias industriais e de serviços altamente produtivas, as quais estão à beira da bancarrota e/ou cujas acções entraram em colapso.

Os administradores de dinheiro estão a escolher as peças.

Propriedade da economia real

Em resultado destes desenvolvimentos, os quais estão directamente relacionados com o colapso financeiro, toda a estrutura de propriedade dos activos da economia real está em perturbação.

A riqueza de papel acumulada através do comércio de iniciados e da manipulação do mercado de acções é utilizada para adquirir o controle sobre activos económicos reais, deslocando estruturas de propriedade pré existentes.

O que estamos a tratar é de um repugnante relacionamento entre a economia real e o sector financeiro. Os conglomerados financeiros não produzem mercadorias. Eles no essencial fazem dinheiro através da condução de transacções financeiras. Utilizam o dinheiro destas transacções para tomar o comando sobre corporações da economia real que produzem bens e serviços para consumo familiar.

Numa amarga distorção, os novos possuidores da indústria são os especuladores institucionais e os manipuladores financeiros. Eles estão a tornar-se os novos capitães da indústria, a deslocar não só estruturas de propriedade já existentes como também a instalar seus comparsas nas poltronas da administração corporativa.

Não é possível qualquer reforma sob o Consenso Washington-Wall Street

A Cimeira Financeira do G-20 de 15 de Novembro, em Washington, apoia o consenso Washington-Wall Street.

Apesar de formalmente apresentar um projecto para restaurar a estabilidade financeira, na prática a hegemonia da Wall Street permanece incólume. A tendência é para um sistema monetário unipolar dominado pelos Estados Unidos e apoiado pela sua superioridade militar.

Aos arquitectos do desastre financeiro, sob a lei de 1999 Gramm-Leach-Bliley (Financial Services Modernization Act, FSMA), foi confiada a tarefa de mitigar a crise — a qual foi criado por eles próprios. Eles são a causa do colapso financeiro.

A Cimeira Financeira do G-20 não questiona a legitimidade dos hedge funds e dos vários instrumentos de comércio derivativo. O comunicado final inclui um impreciso e opaco compromisso "para melhor regular os hedge funds e criar mais transparência em títulos relacionados com hipotecas como uma proposta para travar o deslizamento económico global".

Uma solução para esta crise só pode ser alcançada através de um processo de "desarmamento financeiro", tal como inicialmente formulado por John Maynard Keynes, o qual forçosamente desafia a hegemonia das instituições financeiras da Wall Street incluindo o seu controle sobre a política monetária. O "desarmamento financeiro" também exigiria o congelamento dos instrumentos de comércio especulativo e o desmantelamento dos hedge funds.

Obama endossa a desregulamentação financeira

Barack Obama abraçou o consenso Washington-Wall Street. Numa amarga meia volta, o antigo congressista Jim Leach, um republicano que patrocinou o FSMA de 1999 na Câmara dos Deputados, está agora a aconselhar Obama acerca da formulação de uma solução atempada para a crise.

Jim Leach, Madeleine Albright e o antigo secretário do Tesouro Larry Summers, que também tiveram um papel chave na promoção da legislação FSMA, compareceram à Cimeira Financeira do G-20, em 15 de Novembro, como parte da equipe de aconselhamento de Barack Obama:

"O presidente Barack Obama e o vice-presidente Joe Biden anunciaram que a antiga secretária de Estado Madeleine Albrith e o antigo congressista republicano Jim Leach estariam disponíveis para encontrarem-se com delegações na cimeira do G-20 em seu nome. Leach e Albright estão a manter reuniões não oficiais à procura de contribuições das delegações visitantes em nome do presidente eleito e do vice-presidente eleito. ( 15/Novembro/2008)

Link permanente 13:09:09, por José Alberte Email , 1510 palavras   Português (GZ)
Categorias: Ensaio

PODE OCORRER UM CONFLICTO INTERNACIONAL EM 2009? ANTECEDENTES HISTÓRICOS ( V)

Frederic F. Clairmont
Global Research

O índice do Big Mac

Para compreender, a meu julgamento, por que nom pode ter umha soluçom amigável da guerra comercial e a rivalidade chinês estadunidense, convém dizer umhas poucas palavras sobre a natureza dos mercados de mudança de divisas estrangeiras. É onde se compra e vende dinheiro e é objecto de umha feroz especulaçom nos mercados internacionais. Nom devemos esquecer que o dinheiro é a mercadoria das mercadorias. É o Rei dos produtos básicos. O mercado no que se realizam essas transacçons monetárias é o mercado Forex.

Em umha linguagem muito esclarecedora, mas nom técnico, percebemos que o índice de The Economist se baseia na ideia da paridade e de poder de compra (PPP por suas siglas em inglês). Diz que as divisas deveriam ser comercializadas a umha taxa que faz que o preço dos bens seja o mesmo em todos os países. O Big Mac [hambúrguer] que custa 3,54 dólares em EE.UU. converte-se no parâmetro para medir se outra moeda está infra ou sobre valorizada.

Na China, o preço do Big Mac é de 1,83 dólares. É um mais 40% barato. Em Suíça (usamos tipos de mudança prevalecentes em umha data determinada) custa 5,75 dólares, isto é um mais 60%. É a prova elementar de sobrevaloraçom ou infravaloraçom. Daí a conclusom que sacamos – (e repito que nom só é a base de comparaçom para medir disparidades de mudança de divisas estrangeiras, senom que é certamente a mais simples e a mais engenhosa) é que o renminbi ou yuan da China é um mais 40% elevado que o dólar, o que lhe outorga supostamente umha vantagem no comércio de exportaçom segundo o cálculo do Tesouro de EE.UU. O governo de EE.UU. já tem imposto impostos a China, e a acusa de manipulaçom cambial. Umha acusaçom que escutamos com cautela já que o governo de EE.UU. e todas suas actividades nunca têm sido custódios da moralidade.

O problema da vantagem competitiva da China vai, claro está, bem mais lá dos tipos de mudança. As taxas de salário dos operários nom som menos importantes. A taxa de salário na China para a manufactura é um 10% da de EE.UU. Mas nom nos encontramos só ante umha disparidade nos custos trabalhistas. Há que agregar que a productividade industrial da China tem sido notável.

China, como sabeis, está presente a todos os mercados mundiais e seu comércio exterior e investimento directo se dispararam na última década de um modo impressionante em Latinoamérica e África, na Austrália e em todos os mercados asiáticos, para nom falar da Rússia. Um sozinho exemplo confirma o que estou a dizer. O fundo de desenvolvimento económico chinês/venezuelano duplicar-se-á de 6.000 milhões de dólares a 12.000 milhões em só pouco mais de um ano. O papel da USCO, a UE e Japom, som de importância periférica em Venezuela. A conquista de mercados mundiais e de quota de mercado continua a velocidades incontidas. Os dez países capitalistas dominantes já estám em recessom. Que nom exista ambiguidade ao respeito. O objectivo dos planificadores políticos da China e seus capitalistas é o engrandecimento do mercado.


Dinâmica da sobreproduçom

Umha das características da actual deflaçom/estancamento, e nom exagero quando o digo, significa que há demasiados bens à procura de demasiados poucos compradores; demasiado dinheiro à procura de poucos investimentos lucrativos; demasiados operários a procura-a de poucos postos de trabalho; demasiados bancos a procura-a de poucos poupadores e depositantes empobrecidos, etc. É nom vale só para a actual queda cíclica do capitalismo senom se aplica a todas as facetas da crise. A essência da crise do capitalismo é a sobreproduçom. Ou a sobre-acumulaçom.

Que é a sobreproduçom? Quais som suas propriedades? Em que etapa do ciclo de acumulaçom do capital emerge? Qual é sua duraçom cíclica? Qual é seu papel no ciclo económico do capitalismo?
Milton Friedman, um dos principais propagandistas do fundamentalismo de livre mercado e um vulgar apólogo do capitalismo, o disse de modo sucinto quando jogou a um lado a panaceia da responsabilidade social por parte do capitalista: “a única responsabilidade de umha companhia é aumentar os benefícios para os accionistas.” O capitalismo define a relaçom entre a classe possuidora/explotadora cujos rendimentos som ganhos, dividendos e rendas, e umha classe explotada sem propriedades cujos rendimentos som os salários.

Define a relaçom entre o opressor e o oprimido. Daí que o objectivo supremo do capitalismo, a sua alfa e sua omega, e a dos donos do capital, nom seja o fornecemento de bens e serviços aos trabalhadores que expolia. É um fenómeno superficial. É um fetichismo. O objectivo da acumulaçom de capital é expandir e assegurar umha massa de benefícios em contínuo aumento para umha classe de proprietários adinheirados. O objectivo supremo é o benefício e a maximizaçom dos benefícios. A sobreproduçom nom é portanto umha aberraçom do sistema senom é inerente ao seu jeito de operar. E isto data de começos da primeira Grande Depressom do capitalismo de 1873, como o assinalam os Comissionados Reais em seu relatório final em palavras que som grandemente relevantes ao crac de 1929 e a nosso desabamento actual:
“Pensamos que… a sobreproduçom tem sido umha das características mais destacadas do desenvolvimento do comércio durante os últimos anos; e que a depressom baixo a qual sofremos actualmente pode ser explicada parcialmente por este facto… A característica notável da situaçom actual, e a que a nosso julgamento a distingue de todos os anteriores períodos de depressom, é a quantidade de tempo que tem durado esta sobreproduçom… Estamos convencidos de que nos últimos anos, e mais particularmente nos anos durante os quais tem prevalecido a depressom do comércio, a produçom de bens em general, e a acumulaçom de capital neste país, têm estado ocorrendo a um ritmo mais rápida que o aumento de populaçom.”
A lucidez destas conclusons sublinha nom só a natureza, génesis e base lógica do ciclo económico que exploraremos em conferências subsequentes, senom seu relevância e afinidade com outras grandes depressons que têm devastado o capitalismo mundial como ser a Grande Depressom de 1929 e a actual depressom económica. É importante que se recordem as consequências dessa grande depressom que durou, com suas altas e baixas, até o começo dos anos noventa do Século XIX.

A emergência do monopólio e seus envolvimentos

O capitalismo e seu governo de classe som um sistema impulsionado pola concorrência. Vale para todas as fases de seu crescimento. O período de 1873 a 1914 que trouxe consigo as grandes matanças e presencio as mudanças estruturais do capitalismo desde sua fase competitiva à monopolista. A concorrência mata à concorrência. Ou, como o tem falado Marx, um capitalista mata a outro capitalista. A Grande depressom impulsionou a concentraçom e centralizaçom do capital que Marx tinha analisado com tanta penetraçom. Viu a ascensom dos trust e dos cartéis. Os nomes de Rockefeller, Buchanan – o rei do fumo, Krupp, Vanderbilt, Morgan, Carnegie encarnárom a cara do capital.
Nom eram simplesmente os que o presidente Theodore Roosevelt qualificou de “delinqüentes da Grande Riqueza.” Tratava-se da nova fase do capitalismo monopolista originado na concorrência acelerada dentro e entre Naçons-Estado, e a queda da taxa de benefício. Mais e mais concorrência conduziu ao excesso de capacidade e seu corolário de preços destructivos, umha queda nos preços por atacado e menor, descritiva da etapa deflacionaria. Isto abriu a procura beligerante de esferas privilegiadas de investimento e comércio exterior. O capitalismo monopolista alimentou o impulso para o imperialismo.
Esse período abriu as esclusas para o que George Bernard Shaw chamou, nos dias da Guerra Bóer, a era de “Os comerciantes da morte.” Recordareis o que o presidente Eisenhower qualificou em seu discurso de despedida de Complexo Militar/Industrial e que gerou umha quantidade enorme de literatura. As fórmulas eram inovadoras mas nom sua substância. A realidade desse fenómeno esteve vigorosamente presente a sua forma concentrada nas décadas anteriores à Grande Guerra. Fabricantes de armas como Krupp e Siemens e Mercedes Benz na Alemanha, Vickers-Armstrong e Rolls Royce no Reino Unido, Creusot-Schneider na França e Mitsubishi no Japom simbolizaram os vínculos dos Comerciantes da Morte e do Poder Estatal. Quase um 70% de todas as peças de artilharia e projétis utilizados polo exército do Káiser, para nom falar do aço que se usou no em massa fortalecimento da Armada alemã desde 1890, foram produzidos por Krupp. A Casa de Krupp se emaranhou com os Hohenzollern através de laços de casal. Tal era o músculo da interconectividade matrimonial imperialista.

07-03-2009

Link permanente 22:31:23, por José Alberte Email , 1364 palavras   Português (GZ)
Categorias: Ensaio

PODE OCORRER UM CONFLICTO INTERNACIONAL EM 2009? ANTECEDENTES HISTÓRICOS ( IV)

Frederic F. Clairmont
Global Research

China e EE.UU.

Antes de continuar, no entanto, para ver se as crescentes tensons comerciais e de pagamentos poderiam levar a umha mortífera confrontaçom militar, deveríamos recordar a natureza das rivalidades comerciais e as armas despregadas nessas guerras económicas nos anos trinta. O discurso do presidente chinês ao arremeter contra EE.UU. em Davos, como o fez Putin, é indicativo da tendência da guerra económica.

Davos é o centro da globalizaçom. É a cabina de pilotagem do poder corporativo, dos dirigentes do mundo e dos aspirantes a dirigentes. Davos sublinhou a mísera fragilidade das instituiçons financeiras que costumavam ser vistas como o fundamento do sistema.
Palavras como estabilidade e confiança têm sido apagadas do seu quadro-negro. A debâcle de UBS e da City de Londres e os contínuos tremores em Wall Street, vam acompanhados por vigaristas espectaculares como Madoff e Stanford. O cólera já nom pode ser dissimulada, e também nom pode ser ocultada nas em massa manifestaçons de trabalhadores em Paris e em todas as cidades francesas e na neocolonia de Guadalupe. As tensons aumentam. Vam para além das políticas de ‘despojar a teu vizinho’ criadas primeiro por Joan Robinson da Universidade Cambridge nos anos trinta.

Ninguém bosquejou com mais clareza a natureza desses conflitos que Sir Percy Bates, presidente de Cunard Steamship Company (abril de 1935) em um momento no que dominava a Grande Depressom. Seu relevância em nossos dias é extraordinariamente óbvia:

“Estamos a passar por umha guerra… As armas que som empregadas nom som couraçados, exércitos, avions, senom impostos, quotas e moedas. Nom se reconhece nenhum regular monetário internacional, e a cada vez que varia um imposto, umha quota ou umha moeda, um se vê enfrentado a umha manobra, umha manobra hostil, umha manobra bélica. O pior de tudo é a recusa para admitir oficialmente a existência de um estado de guerra.”

Enquanto a crise actual segue-se arrastando o capitalismo já nom é capaz de galgar-se para sair de seu poço de deflaçom e estancamento. Um predicamento que piora com a cada hora que passa. A guerra polos mercados mundiais e por quotas de mercado continua a um ritmo nom diminuído. Isto se reflecte no rendimento económico relativo de EE.UU. e China que se converteu no centro da manufactura do mundo. A USCO ao invés está presa no meio da acumulaçom de capital e de umha base industrial que languidece rapidamente. Quanto ao Reino Unido, sua base industrial outrora poderosa tem sido esvaziada. Joguemos umha mirada a essas cifras para compreender suas divergências que destacam as tensons que poderiam levar à guerra.
O que dizem as cifras: Estas cifras comparativas som indicativas. Há que recordar que China tem deslocado a Alemanha nas tabelas de avaliaçom do PIB do mundo para se converter no terceiro país do mundo por seu tamanho. Precedido por Japom e EE.UU. Com o derrube do capitalismo endividado do Japom que se move a taxas de crescimento zero China está decidida a deslocar a Japom para os remansos da história. Primeiro vejamos alguns dos principais indicadores (2008) de EE.UU. e comparemo-los com os da China:
EE.UU.: PIB (0,9%);
Balança comercial (– 833.000 milhons de dólares);
Balança em Conta corrente (– 697.000 milhons de dólares);
Produçom industrial: (– 7,8%)
CHINA: PIB (9,1%
Balança Comercial ( 295.000 milhons de dólares);
Balança em Conta corrente ( 37.000 milhons de dólares);
Produçom industrial: ( 5,7%)
Estas cifras destacam seus crescentes disparidades económicas. Tenho que confessar neste ponto que nom estou seguro de que no futuro próximo o abismo possa ser superado em algum dia. Concentremo-nos simplesmente no sector do comércio exterior. As importaçons de EE.UU. crescem mais rápido que suas exportaçons. O capitalismo de EE.UU. vai em umha espiral deflacionaria descendente que tem similitudes com a assim chamada “década perdida” do Japom nos anos oitenta. É verdade que o crescimento da China é afectado negativamente pola recessom mundial, mas cresce várias vezes mais rápido que EE.UU. As taxas de crescimento composto som ao mesmo tempo forças construtivas e destructivas. Neste ponto recordareis o que assinalasse em minha discussom da balança de pagamentos de EE.UU. em meu livro sobre Cuba e sugeriria que voltásseis a consultar essa secçom. A razom importaçons:exportaçons é de perto 1:5.
Essa brecha é insuperável. Por isso a USCO deve pedir prestado para financiar suas importaçons. Pedir prestado significa dívida. E a dívida deve ser paga com taxas de juro composto ou nom ser paga. China recicla sua superavit comercial comprando valores estadunidenses e bonos do Tesouro. É umha história familiar. Segue sendo problemático se a elite política China continua reciclando seus rendimentos em divisas estrangeiras para suster déficits estadunidenses.

O capitalismo estadunidense tem sido o maior devedor do mundo durante mais de duas décadas. Seu maior credor é China. A dimensom das cifras é importante. Os quase 2.000.000 milhons de dólares em reservas em divisas estrangeiras da China som as maiores do mundo. Grande parte dessas reservas estám a ser dirigidas a compra-a de bonos do Tesouro de EE.UU. Segundo estimaçons de Brad Selser a cifra real é mais próxima aos 2.300.000 milhons de dólares ou o equivalente de 1.600 dólares pola cada cidadám chinês.

Dessa soma, uns 1.700.000 milhons estám investidos em activos em dólares, convertendo a China no maior credor do capitalismo estadunidense e o maior comprador de bonos do Tesouro de EE.UU. EE.UU. é um adicto total e dependente do dinheiro chinês. Nunca em sua história a USCO tem dependido em tal medida de algum credor estrangeiro. A oposiçom dentro dos níveis dirigentes da elite do poder da China é consciente de que semelhantes fluxos em massa de capital para umha economia doente, que está na ombreira de umha crise em contínua profundizaçom e com activos em dólar de baixo rendimento, som perigosos. China já tem perdido milhares de milhons de dólares. E isto tem lugar ante o dólar em depreciaçom por seu crescente nível de endividamento, baixas poupanças, taxas de juro zero, e um PIB que se move ao redor de zero. Sem essa avalanche de dinheiro chinês, a USCO nom poderia manter sua expansom militarista no estrangeiro.

Mas podemos dizer é que é óbvio que o status do dólar como moeda de reserva do mundo que tem conferido um poder extravagante (foi a designaçom de De Gaulle) ao imperialismo de EE.UU. nom pode durar. Os receios chineses estám presentes mas têm feito um pacto com o diabo e podem fazer pouco por mudar este estado de coisas. “Que se pode ter se nom som bonos do Tesouro de EE.UU.?” pergunta Luo Ping, director geral da Comissom Regulatoria Bancária da China. “Nom se possuem bonos do Governo japonês, ou bonos do Reino Unido. Os bonos do Tesouro de EE.UU. constituem o refúgio. Para todos, incluída China, é a única opçom.” A meu julgamento essa é a tragédia da elite do poder da China, que preside sobre umha economia capitalista que tem abandonado toda a pretensom de ser socialista.

É umha eleiçom política deliberada que revela sua alienamento de classe e ideológico. Já tem pago um preço terrível por sua decisom política de ser o salvador e o supremo benfeitor do capitalismo estadunidense. Enquanto a crise do capitalismo geme em sua agonia e o dólar cai continuamente, os custos para os trabalhadores e camponeses chineses, aos que a elite China deixou de representar faz muito tempo, aumentam a níveis ainda maiores. Para dizê-lo em gíria nom-técnica, os donos do peto China têm tanto dinheiro que nom sabem onde o investir salvo em bonos do Tesouro de EE.UU. de um rendimento miseravelmente baixo.

A batalha polos tipos de troco é livrada nos campos da morte dos mercados de troco de divisas estrangeiras.

06-03-2009

Link permanente 22:38:55, por José Alberte Email , 2285 palavras   Português (GZ)
Categorias: Ensaio

SINAIS DE IMPLOSOM: Rumo à desintegração do sistema global

por Jorge Beinstein

resistir.info

Setembro de 2008 foi um ponto de inflexão no processo recessivo que se iniciara nesse ano nos Estados Unidos: estalou o sistema financeiro e a recessão começou a estender-se rapidamente a nível planetário. Ao mesmo tempo, evidenciavam-se sintomas muito claros de transição global para a depressão e a sua chegada começou a ser admitida em princípios de 2009.

Agora assistimos a um encadeamento internacional de quedas produtivas e financeiras. Ele é acompanhado por uma mistura de pessimismo e impotência diante da provável transformação da onda depressiva em colapso geral, ao mais alto nível das elites dirigentes.

As declarações de George Soros e Paul Volkcker na Universidade de Columbia a 21 de Fevereiro de 2009 assinalaram uma ruptura radical [1] , muito mais séria do que a de Alan Greenspan dois anos atrás quando anunciou a possibilidade de os Estados Unidos entrarem em recessão. Volcker admitiu que esta crise é muito mais grave que a de 1929. Isso significa que a mesma carece de referências na história do capitalismo. O desaparecimento de paralelismos em relação a crises anteriores refere-se também (e principalmente) aos remédios conhecidos. Porque 1929 e a depressão que se seguiu estão associados à utilização com êxito dos instrumentos keynesianos, à intervenção maciça do Estado como salvador supremo do capitalismo. E o que estamos a presenciar agora é a mais completa ineficácia dos Estados dos países centrais para superar a crise. Na realidade, a avalanche de dinheiro que eles lançam sobre os mercados para auxiliar bancos e algumas empresas transnacionais não só não trava o desastre em curso como também está a criar as condições para futuras catástrofes inflacionárias, as próximas bolhas especulativas.

IMPLOSÃO CAPITALISTA?

Soros, por sua vez, confirmou aquilo que já era evidente: o sistema financeiro mundial desintegrou-se, ao que acrescentou a descoberta de semelhanças entre a situação actual e aquela vivida durante o derrube da União Soviética. Quais são esses paralelismos? Como sabemos, o sistema soviético começou a desmoronar-se em fins dos anos 1980 para finalmente implodir em 1991. O fenómeno foi geralmente atribuído à degradação da sua estrutura burocrática o que o tornava em princípio intransferível para o capitalismo que também alberga uma vasta burocracia (ainda que não hegemónica como no caso soviético). Mas existe um processo, uma doença que não é património exclusivo dos regimes burocráticos, que se desenvolveu no capitalismo tal como nas civilizações anteriores à modernidade: trata-se da hipertrofia parasitária, do domínio esmagador de formas sociais parasitárias que depredam as forças produtivas até um ponto tal em que o conjunto do sistema fica paralisado, não pode reproduzir-se mais e finalmente morre afogado no seu próprio apodrecimento.

Ao longo do século XX o capitalismo impulsionou estruturas parasitárias como o militarismo e sobretudo as deformações financeiras que marcaram a sua cultura, seu desenvolvimento tecnológico, seus sistemas de poder. As últimas três décadas assistiram à aceleração do processo — adornado com o discurso da reconversão neoliberal, do reinado absoluto do mercado. Talvez o seu ponto mais alto tenha sido alcançado durante o último lustro do século XX, em plena expansão das bolhas bursáteis e quando o poder militar dos Estados Unidos parecia ser imbatível.

Mas na primeira década do século XXI começou o desmoronamento do sistema. O Império afundou no pântano de duas guerras coloniais, sua economia degradou-se velozmente e bolhas financeiras de todo tipo (imobiliárias, comerciais, de endividamento, etc) povoaram o planeta. O capitalismo financiarizado havia entrado numa fase de expansão vertiginosa esmagando com o seu peso todas as formas económicas e políticas. Em 2008 os Estados centrais (o G7) dispunham de recursos fiscais num montante da ordem de 10 milhões de milhões de dólares contra 600 milhões de milhões em produtos financeiros derivados registados pelo Banco da Basiléia (BIS), ao que é necessário acrescentar outros negócios financeiros. Segundo alguns peritos, actualmente a massa especulativa global supera os 1000 milhões de milhões (cerca de 20 vezes o Produto Bruto Mundial).

Essa montanha financeira não é uma realidade separada, independente da chamada economia real ou produtiva. Foi engendrada pela dinâmica do conjunto do sistema capitalista: pelas necessidades de rentabilidade das empresas transnacionais, pelas necessidades de financiamento dos Estados. Não é uma rede de especuladores autistas lançados numa espécie de auto-desenvolvimento suicida e sim a expressão radicalmente irracional de uma civilização em decadência (tanto a nível produtivo como político, cultural, ambiental, energético, etc). Há mais de quatro década o capitalismo global com eixo nos países centrais suporta uma crise crónica de superprodução, acumulando sobrecapacidade produtiva perante uma procura global que crescia mas cada vez menos. A droga financeira foi a sua tábua de salvação, melhorando lucros e impulsionando o consumo nos países ricos, ainda que a longo prazo tenha envenenado totalmente o sistema.

Foi posto em moda lançar a culpa da crise nos chamados especuladores financeiros. Segundo nos explicam altos dirigentes políticos e peritos mediáticos, as turbulências chegarão ao seu fim quando a "economia real" impuser a sua cultura produtiva submetendo às regras do bom capitalismo as redes financeiras hoje fora de controle. Contudo, em meados da década actual, nos Estados Unidos mais de 40% dos lucros das grandes corporações provinha dos negócios financeiro [2] . Na Europa a situação era semelhante. Na China, no momento do maior auge especulativo (fins de 2007), só a bolha bursátil movia fundos quase equivalentes ao PIB desse país [3] , alimentada por empresários privados e públicos, altos burocratas, profissionais, etc. Não se trata por conseguinte de duas actividades, uma real e outra financeira, claramente diferenciadas, e sim de um só conjunto heterogéneo, real, de negócios. É esse conjunto que agora está a desinchar velozmente, a implodir depois de haver chegado ao seu máximo nível de expansão possível nas condições históricas concretas do mundo actual. Sob a aparência imposta pelos meios globais de comunicação de uma implosão financeira que afecta negativamente o conjunto das actividades económica (algo assim como uma chuva tóxica a atacar as pradarias verdes) surge a realidade do sistema económico global como totalidade a contrair-se de maneira caótica.

SINAIS

As declarações de Soros e Volcker foram efectuadas poucos dias antes de o governo norte-americano ter dado a conhecer os números oficiais definitivos da queda do Produto Interno Bruto no último trimestre de 2008 em relação a igual período de 2007: a primeira estimativa oficial que fixara a referida queda em 3,8% verificou-se ser uma mentira grosseira. Agora verifica-se que a contracção chegou aos 6,2% [4] — isso já não é recessão e sim depressão. O Japão por sua vez teve no mesmo período uma descida do PIB da ordem dos 12% e em Janeiro de 2009 as suas exportações caíram 45% em comparação com o mesmo mês do ano anterior [5] . Na Europa a situação é semelhante ou talvez pior. Após o derrube financeiro da Islândia, a ameaça da bancarrota económica em vários países da Europa do Leste como a Polónia, Hungria, Ucrânia, Letónia, Lituânia, etc, ameaça de maneira directa os sistemas bancários credores da Suíça e da Áustria, que poderiam fundir-se como o da Islândia. Enquanto isso, os grandes países industriais da região, como Alemanha, Inglaterra ou França, vão passando da recessão à depressão. Os prognósticos sobre a China anunciam para 2009 uma redução da sua taxa de crescimento à metade do de 2088. Suas exportações de Janeiro foram 17,5% inferiores às de Janeiro do ano anterior [6] . Esta brusca deterioração do centro vital do seu sistema económico não tem perspectivas de recuperação enquanto durar a depressão global, pelo que o seu ritmo de crescimento geral continuará a descer.

Que Soros e Volcker abram a expectativa de um colapso do sistema económico mundial não significa que o mesmo se produza de modo inevitável. Afinal de contas, uma das principais características de uma decadência civilizacional como a que estamos a presenciar é a existência de uma profunda crise de percepção nas elites dominantes. Contudo, a acumulação de dados económicos negativos e a sua projecção realista para os próximos meses estão a indicar que a grande catástrofe anunciada por eles tem probabilidades de realização muito altas. Para esse desenlace contribuem a impotência comprovada dos supostos "factores de controle" do sistema (governos, bancos centrais, FMI, etc) e a rigidez política do Império. Ao ampliar, por exemplo, a guerra no Afeganistão — preservando assim o poder do Complexo Industrial Militar, gigante parasitário cujos gastos reais actuais (aproximadamente pouco mais de um milhão de milhões de dólares por ano) equivale a 80% do défice fiscal dos Estados Unidos.

A estes sintomas económicos e políticos devemos acrescentar a crise energética e alimentar dela derivada, que certamente voltarão a manifestar-se mal se detenha o processo inflacionário (e talvez antes). Tudo isso num contexto de crise ambiental que passou a ser um factor actual de crise (já não é mais uma ameaça quase intangível localizada num futuro longínquo). E por trás dessas crises parciais encontramos a presença da crise do sistema tecnológico moderno, incapaz de superar – como componente motriz da civilização burguesa – os bloqueios energéticos e ambientais criados pelo seu desenvolvimento depredador.

DESINTEGRAÇÃO, IMPLOSÃO E DISJUNÇÃO

A desintegração-implosão do sistema global não significa a sua transformação num conjunto de subsistemas capitalistas ou blocos regionais com relações mais ou menos fortes entre si, alguns prósperos, outros declinantes (a unipolaridade estado-unidense convertendo-se em multipolaridade, "disjunção" ordenada em torno de novos ou velhos pólos capitalistas). A economia mundial está altamente transnacionalizada, forma um denso emaranhado de negócios produtivos, comerciais e financeiros que penetra profundamente as chamadas "estruturas nacionais", investimentos e dependências comerciais atam-nas de maneira directa ou indirecta aos núcleos decisivos do sistema global.

Em termos gerais, para um país ou uma região, a ruptura dos seus laços globais ou o seu enfraquecimento significativo implica uma enorme ruptura interna, o desaparecimento de sectores económicos decisivos com as consequências sociais e políticas que daí decorrem.

Além disso, até agora o sistema global estava organizado de maneira hierárquica tanto no seu aspecto económico como político-militar (unipolaridade) devido ao fim da Guerra Fria e da transformação dos Estados Unidos no senhor do planeta. Não só no espaço de concentração das decisões comerciais e financeiras (isso já ocorria há mais de seis décadas) como também das grandes decisões políticas.

O afundamento do centro do mundo [7] em meio à depressão económica internacional significa o desencadear de uma cadeia global de crises (económicas, políticas, sociais, etc) de intensidade crescente.

Recentemente Zbigniew Brzezinski pôs de lado as suas tradicionais reflexões sobre política internacional para alertar acerca da possibilidade de agravamento dos conflitos sociais dentro dos Estados Unidos que, segundo ele, poderia derivar em distúrbios violentos generalizados [8] . Por sua vez, e a partir de uma perspectiva ideológica oposta, Michael Klare descreveu o mapa dos protestos populares que atravessa todos os continentes, países ricos e pobres, do Norte e do Sul, iniciados em 2008 como consequência da crise alimentar num amplo leque de países periféricos mas que começam a desenvolver-se globalmente em resposta ao agravamento da depressão económica [9] : a multiplicação de crises de governabilidade aguarda-nos a curto prazo.

A hipótese da implosão capitalista abre o espaço para a reflexão e a acção quanto ao horizonte pós capitalista, onde se misturam velhas e novas ideias, ilusões fracassadas e densas aprendizagens democráticas do século XX, travões conservadores legitimando ensaios neocapitalistas e visões renovadas do mundo a pressionar grandes inovações sociais.

A agonia da modernidade burguesa com os seus perigos de barbárie senil — mas ruptura de bloqueios ideológicos, de estruturas opressivas e de esperança na regeneração humanista das relações sociais.
02/Março/2009
Notas
(1) "Soros sees no bottom for world financial 'collapse' ", Reuters. Sat Feb 21, 2009. David Randall and Jane Merrick, "Brown flies to meet President Obama for economy crisis talks" , The Independent , Sunday, 22 February 2009.
(2) US Economic Report for the President, 2008.
(3) Em Agosto de 2007 a capitalização das bolsas chinesas superava o valor do Produto Interno Bruto do ano 2006. Dong Zhixin, "China stock market capitalization tops GDP", Chinadaily ( http://www.chinadaily.com.cn/china/2007-08/09/content_6019614.htm )
(4)Cotizalia.com, 27 febrero 2009, "El PIB de EEUUse hunde un 6,2% en el cuarto trimestre".
(5) BBC News, 25-2-2009, "Japan exports drop 45 % to new low".
(6) "China's export down 17.5% in January", Xinhua, 2009-02-11.
(7) Jorge Beinstein, "El hundimiento del centro del mundo. Estados Unidos entre la recesión y el colapso". Rebelión, 8-5-2008 ( http://www.rebelion.org/noticia.php?id=67099 ).
(8) "Brzezinski: 'Hell, There Could Be Even Riots' ", FinkelBlog – 20/02/2009 - brzezinski-hell-there-could-be-even-riots ).
(9, Michael Klare, "A planet at the brink?", Asia Times, 28 de Fevereiro de 2009.

Link permanente 22:03:23, por José Alberte Email , 774 palavras   Português (GZ)
Categorias: Ensaio

PODE OCORRER UM CONFLICTO INTERNACIONAL EM 2009? ANTECEDENTES HISTÓRICOS ( I I I)

Frederic F. Clairmont
Global Research

Israel e Oriente Próximo

Suspeito que alguns têm razom quando presuponhem que Gaza é umha área demasiado pequena para ser considerada como o detonador provável de um conflito mundial maior. O tamanho, no entanto, nom é o único parâmetro. Sérvia em 1914 também era umha área geo-demográfica muito exígua. Mas forneceu o detonador e por isso nom é o único factor em jogo; som as forças maiores que som postas em movimento. Gaza e Israel som segmentos de um império maior que se retorce em seu apoplexia final. O objectivo do ataque de EE.UU e Israel é obliterar a Hamás, como seu ataque no Líbano foi eliminar a Hezbolá. Fracassárom miseravelmente. Os cidadans do Estado siofascista aplaudírom a violaçom da gente de Gaza. E aqui chegamos nom a forças abstractas senom ao papel dos indivíduos na história. Netanyahu é um exponente directo do implacável exterminismo de árabes que tem conseguido subir polo poste engraxado dum Estado fendido por divisons étnicas e de classe.

Seu discurso em Davos, como o de Olmert, é mais que o uivo de um político teimudo em destruir aos árabes, e ao que os seus sequazes fascistas chamam Hamastán. As suas expressons, como as de Lieberman, poderiam ser convertidos em realidade. Netanyahu/ Lieberman poderiam demolir todo Oriente Próximo e isso inclui ao Estado hebreu. E com isso quero dizer que poderia levar ao desmantelamento do senhor Obama e, me atrevo a dizer, a sua destruiçom política em vista do alcance indiscutível dos grupos de pressom sionistas. O senhor Obama é um político frágil e as indómitas convulsons capitalistas, nacional e internacionalmente, empurrám-no para furiosas contracorrentes.

Sabemos o que é o dúo Netanyahu/Lieberman. Nom há nada nebuloso em seus planos. “Minha maior prioridade” vocifera Netanyahu “é o Irám”. Há que dizer algo mais? Tem sondado Obama o significado dessa declaraçom? Nom há nada críptico nela. A posiçom sem rival do duo nos grupos de pressom sionista e nas esferas dominantes da USCO é impressionante. Por isso nom podemos ignorar a possibilidade de que em seu desespero poderiam provocar umha guerra mais ampla. Um rumo semelhante nom poderia ser limitado à regiom.

O objectivo do imperialismo de EE.UU., combinado com o de Israel, é a destruiçom do Irám, aliado de Hamás e Hezbolá. Nom é especulaçom. É política declarada. O premiê iraniano tem movido seus peons. O jogo tem começado. O lançamento de seu satélite ao espaço inyecta a nossos cálculos variáveis novas e terríveis.

Pode reconciliar-se Israel com a coexistência, com Hamás e com um mundo anti-estadunidense e anti-sionista a cada vez mais militante? A mudança de tom no mundo árabe visto no artigo inequívoco de um membro da família real saudí – e um poderoso intelecto – em The Financial Times – sugere umha mudança da maré. A rua árabe é umha realidade. Está mais e mais furiosa com a cada dia que passa. Está sem trabalho. Está empobrecida, mas chega-lhe Ao Jazeera com 140 milhons de televidentes. Um fantoche como Mahmud Abbas é um fantasma e seu poder está anulado. Também esteve em Davos e seu discurso, como o de Karzai, foi escrito por seus revendedores estadunidenses. A direcçom israelita sondou a Bush (cujo governo os recusou) para voar sobre Iraque e bombardear as instalaçons nucleares do Irám.

Apareceu em The New York Times. Fôrom recusados pola cabala de Bush nom por razons humanitárias senom porque compreendeu excepcionalmente o grande alcance das consequências. Também recordareis que a actual dona do Departamento de Estado, H. Clinton teve, durante suas justas eleitorais, a ousadia de proclamar que aniquilaria a Irám. Nom é o momento de discutir os envolvimentos desse projecto genocída. A posiçom de Bush e Obama sobre o ataque contra Irám é idêntica.

Irám tem deixado em claro que se propom seguir adiante com o enriquecimento nuclear com fins civis e Rússia completará neste ano a construçom da instalaçom nuclear em Bushehr. Em xadrez, nom basta com decidir o que se vai fazer, senom há que prever o que vai fazer teu oponente. Passemos a um ponto álgido nom menos importante. A relaçom entre China e EE.UU. tem escalado a novas alturas de tensons comerciais apesar do treijeiteiro papo sobre o contrário. O proteccionismo, ou chamem-no nacionalismo económico se preferis, está omnipresente em umha multiplicidade de medidas. E disso falarei agora mesmo.

05-03-2009

Link permanente 18:43:04, por José Alberte Email , 852 palavras   Português (GZ)
Categorias: Outros, Ensaio

PODE OCORRER UM CONFLICTO INTERNACIONAL EM 2009? ANTECEDENTES HISTÓRICOS ( I I)

Frederic F. Clairmont
Global Research

A carreira armamentista

Muitos de vocês tendes sublinhado que é provável que a USCO eleve as despesas para compensar a queda em demanda no sector privado, aumentando assim o nível de emprego. Nom é umha receita nova, mas a tese tem um defeito no contexto actual das relaçons internacionais. A USCO já gasta em armas mais do duplo ou o triplo que o resto do mundo. O SIPRI [Instituto Internacional de Estocolmo de Investigaçom para a Paz] em Estocolmo, que encontrareis em Internet, fornece as cifras exactas. Mas polo momento nom ocupar-me-ei dessas cifras.

A USCO e os seus lacaios militares têm estado em guerra sem parar desde 1945. E isso inclui seu papel na Guerra Civil China que terminou em 1949, em Indochina desde 1945, na Coreia, em Iraque – duas vezes – etc. Suas guerras coloniais, livradas exclusivamente contra povos de cor têm levado à economia de EE.UU. a um estado de bancarrota.

Segundo a última conta, EE.UU. tem 250 bases militares fora do seu território. Gasta mais do que ganha. É o maior mendigo do mundo. Gasta o dinheiro prestado de outros. Só em Iraque, segundo as cifras de Stiglitz, a cifra é de 3,5 bilions de dólares e as guerras ainda nom terminam. Nessas guerras tem massacrado a milhons. Está a livrar guerras em Iraque, Afeganistám, Paquistám e o ataque de Israel contra Gaza, como no Líbano, foi inconcebível sem apoio de EE.UU. É umha banalidade. Há que dizer que as bombas de fósforo usadas em Gaza foram feitas em Virgínia. Os projétis de artilharia de urânio empobrecido fôrom fabricados em Tennessee. Os bombardeiros eram F-18 de fabricaçom estadunidense. Gaza foi um campo de prova mais para suas armas de matança em massa. Com isso som quatro guerras. Há quem tem razom quando sublinha que as guerras, os preparativos para guerras, impulsionam a produçom e o emprego. O que importa aqui é a natureza da produçom e o impacto relacionado no emprego. É improdutivo e nom agrega à capacidade produtiva.

Foi certamente o caso no Terceiro Reich de Hitler no que as despesas em armas forneceram um impulsor que eliminou as bolsas dos desocupados. E, por verdadeiro, os desocupados sempre puderom encontrar postos posteriormente na Wehrmacht [exército alemám], convertidos em carne de canhom. Assim foi no Reino Unido desde 1937. As mudanças conseguidas polo Novo Trato de Roosevelt, admiráveis mas ilusórios de muitas maneiras, nom reduziram a Grande Depresión. Conseguiram-no as despesas em massa do sector público na guerra financiados pola dívida.

Quero repetir que o que terminou a diabólica queda em recessom detonada em 1929 foi a chegada da Segunda Guerra Mundial. Pode sugerir-se portanto que a guerra e os preparativos para a guerra oferecêrom umha ‘soluçom final’ para conseguir o pleno emprego? No caso do capitalismo de EE.UU., a resposta é inequivocamente nom. As despesas de guerra – financiados com empréstimos estrangeiros e buracos de dívida em contínuo aumento – preparam a cena para a corrupçom endémica, o endividamento e a bancarrota nacional e todos seus inumeráveis corolários tóxicos. As dívidas do capitalismo estadunidense – federal, corporativo e doméstico – nunca serám pagas. Nom podem ser pagas. Com a implosom diária da economia a USCO nom tem os recursos para pagar suas dívidas. Os Frankensteim dos nom cumprimentos de pagamentos estám à volta da esquina.

Pode-se afirmar que a guerra aumenta os rendimentos dos produtores de armas. Em que sectores corresponde à realidade? Em que empresas individuais é assim? Se um se esforça por examinar os preços das acçons de todos os grandes fabricantes de armas, por exemplo Lockheed em Standard & Poor's e no Dow Jones Industrial Average (DJIA) ver-se-á que seus rendimentos e benefícios se derrubaram, bem como os preços de suas acçons.

Ante a intensidade do uso de capital na produçom moderna de armas, reduz-se fortemente a participaçom trabalhista requerida, o que quer dizer que se reduz fortemente o emprego. A produtividade [a razom entre os recursos investidos e a produçom obtida], aumentou de jeito considerável, o que tem levado a umha reduçom nos requerimentos trabalhistas com quedas colaterais nos salários. Acho que encontrareis que em sua maior parte seus balanços têm sido maltratados, ainda que talvez nom tanto como os do sector financeiro. A conclusom parece óbvia: planos de estímulo, ou bombear a taxa preferencial como diziam dantes, obviamente nom conseguirá o que faz falta. Volto de novo aos cálculos de Stiglitz. Só em Iraque, se gastam 3.5 bilions de dólares. De onde sai o dinheiro? De empréstimos. Como tenho dito repetidamente nestas conferências, a economia capitalista mundial tem entrado em umha fase deflacionaria de estancamento, of ‘defastag’ como a chamei. A USCO vive de tempo prestado e do dinheiro prestado de outra gente, umha farra parasítica que é sustentada por um 70% das poupanças do mundo, palpavelmente insustentável inclusive em curto prazo.

04-03-2009

Link permanente 14:53:41, por José Alberte Email , 802 palavras   Português (GZ)
Categorias: Outros, Ensaio

PODE OCORRER UM CONFLICTO INTERNACIONAL EM 2009? ANTECEDENTES HISTÓRICOS ( l )

Frederic F. Clairmont
Global Research

Entre estas conferências aventurar-me-ei a responder a responder a algumhas das dúvidas expressadas sobre a perspectiva de umha guerra maior. As notas para estas conferências fôrom feitas com o passar do tempo num recuncho da sala de estar.
Há dois grandes lustres de pé que alumiam o caderno que uso para escrever estas linhas. A delgada pluma negra desliza-se facilmente sobre o papel. É um de meus colegas inseparáveis. Está Feita na China’, bem como o caderno quadriculado.

Um de meus colegas introduziu o tema a outra noite: existe algum produto manufacturado que o capitalismo estadunidense possa produzir que China nom pode produzir melhor, em maiores quantidades e bem mais barato?

Nom é umha especulaçom quimérica. Daí resulta se o capitalismo estadunidense em seu actual estado de endividamento, empobrecimento em massa e desintegraçom financeira poderá competir internacionalmente. Ou, para dizer de outra maneira: como e com que meios pagará por suas importaçons, polo que consome? Poderá – segundo a evidência actual nom podê-lo-á – recortar e finalmente eliminar seu déficit comercial exportando mais do que importa? Ademais, pode o dólar ser um médio de pagamento e mudança aceitável em vista da surra à que tem sido submetido incessantemente durante muitos anos? A observaçom de Mahmud Ahmadineyad do Irám de que o dólar vale menos que papel higiénico usado é pouco elegante, mas é compartilhada por muita gente grande poder no mundo do capitalismo financeiro.

Em conferências subseqüentes exploraremos as ramificaçons desses temas. Baste dizer que é cousa de vida ou morte que nos conduz às contradiçons conflictivas dentro do capitalismo mundial e do imperialismo letal que apresentarei para dar mais que umha ideia do que se quer dizer quando dizemos que China se converteu no centro industrial de nosso planeta; bem como umha ideia do que queremos dizer quando falamos de desequilíbrios financeiros. Mais disso adiante.

As ramificaçons

Alguns de vocês tendes evocado a possibilidade de um conflito mundial durante 2009. Nom direi que essa prediçom seja ilógica ou remota. Sem dúvida, muitos dentre vocês nom quereis dizer um conflito regional em Osetia ou em Gaza. Também nom excluo a possibilidade de EE.UU./Israel contra Iram. Na gestaçom de umha guerra, a demência nunca se pode excluir a demência. Recordemos que a oligarquía de casta de EE.UU. (USCO) e seu apéndice militarista de bilions de dólares está em guerra em várias frentes em áreas que compreendem dezenas de milhares de quilómetros. Mantém umha guerra em Gaza através de sua sustituto; continua umha guerra em Iraq; e, por verdadeiro, está a escalar seu esforço militar no Afeganistám; tem estendido seus campos da morte a Paquistám. Há que recordar que Paquistám tem umha fronteira de 2.500 quilómetros com Afeganistám.
Nom se pode ignorar umha possibilidade semelhante. Como enfocamos o tema? Qual é o método mais apropriado? Sou consciente de que particularizar os pontos álgidos potenciais nos proporciona os pontos individuais, mas os pontos nom estám ligados. Seguem separados e nom podem fornecer umha perspectiva do detonador. Compreendo vossa especulaçom. O historiador deve seleccionar seus factos. Trata-se de um assunto de eleiçom pessoal. Mas como e com que propósito a cada qual selecciona seus factos prove de seu princípio de selectividade, que faz parte de um processo de abstracçom.
Sua selecçom e sua interpretaçom dos eventos estám portanto condicionadas polas suas preferências ideológicas e filosóficas. As suas afiliaçons de classe. A sua experiência pessoal. Pode-se particularizar umha lista, mas particularizar eventos isolados nom nos dá um instrumento para compreender esses fenómenos complexos. O assassinato do príncipe herdeiro Francisco Fernando por um jovem nacionalista serbio foi certamente o detonador, mas diz-nos muito pouco sem desemaranhar o complexo de convulsons nacionalistas e rivalidades económicas e dinásticas que rasgaram os órgaos vitais da economia mundial. Também nom podemos ignorar o incremento militar naval do império alemám que desafiou a supremacia centenária da Royal Navy britânica. Como assinalasse David Lloyd George – o mais sagaz dos artesans do Império e supremo encarregado do trabalho sujo na Grande Guerra: “se 1914 nom houvesse tido lugar quando passou, teria ocorrido inevitavelmente mais tarde.” As palavras cruciais som ocorrido mais tarde’. O que tinha em mente Lloyd George era que a política de poder do capitalismo financeiro e do imperialismo, e o talho que incubava de modo irreprimível, eram inerentes à evoluçom do capitalismo mundial em vista de sua arremetida incessante em procura de campos engrandecimento territorial e financeiro. E suas guerras confirmaram-no.

28-02-2009

Link permanente 23:31:04, por José Alberte Email , 308 palavras   Português (GZ)
Categorias: Ensaio

O SONHO DE OBAMA: 715.000 milhons $ para as guerras militares e as políticas de ocupaçom

iar.noticias

Finalmente o "sonho americano" de Obama materializou-se em números: O orçamento destinado à área da Defesa (Pentágono) que inclui as guerras militares e as políticas de ocupaçom abarcam US$ 715.000 milhons para o exercício fiscal 2009.

O presidente Barack Obama pedirá mais de US$ 200.000 milhons para fazer frente às despesas de guerra que tem EEUU no próximo ano e médio, segundo um relatório difundido nesta quinta-feira pola televisom norte-americana CNN, que cita fontes de defesa.

A petiçom de Obama inclui US$75.500 milhons em 2009 para poder enviar mais tropas estadunidenses a Afeganistám.

As despesas bélicos no Iraque e Afeganistám para o ano fiscal 2010, o qual começa em outubro, serám incluídos no orçamento geral que Obama destinará ao Pentágono, que se espera seja anunciado nesta quinta-feira, agregou CNN.

O orçamento militar para o ano fiscal 2009 (excluindo as guerras no Iraque e Afeganistám) atinge o US$ 515.000 milhons, informou o Pentágono.

O presidente Barack Obama pedirá mais de US$ 200.000 milhons para fazer frente às despesas de guerra de ocupaçom que tem EEUU no Iraque e Afeganistám no próximo ano e médio.

Quando se agrega o custo estimado de ambas guerras de ocupaçom, as despesas totais de defesa rondam os 715.000 milhons para o ano fiscal 2009.

Para ter uma ideia aproximada da cifra total destinada à Defesa USA em 2009, a mesma equivale a mais de duas vezes o PBI (produçom anual) de um país petroleiro como Venezuela, a mais de três vezes o PBI de Chile, e a quase 20 vezes o de Bolívia.

Mas há uma comparaçom que enche de pesadelos: O que solicita a ONU para "combater a fame" no mundo (US$ 700 milhons) equivale a só o 1% do orçamento para a Defesa USA.

Link permanente 22:17:11, por José Alberte Email , 4138 palavras   Português (GZ)
Categorias: Ensaio

A LINGUAGEM DO SAQUEIO: O que realmente significa "nacionalizar bancos" e "mercado livre" nos dias de hoje

resistir.info
por Michael Hudson

Professor investigador na Universidade do Missouri, Kansas City (UMKC)

Como é que Alan Greenspan, lobbista do livre mercado para a Wall Street, anunciou recentemente ser favorável à nacionalização de bancos dos EUA – e sobretudo os maiores e mais poderosos? Será que o antigo discípulo de Ayn Rand se tornou subitamente um Vermelho? Com certeza que não.

A resposta é que a retórica dos "mercados livres", "nacionalização" e mesmo "socialismo" (como em "socializar as perdas") tornou-se a linguagem do engodo para ajudar o sector financeiro a mobilizar o poder do governo a fim de apoiar os seus privilégios especiais. Tendo minado a economia como um todo, os think tanks de relações públicas da Wall Street estão agora a desmantelar a própria linguagem.

O que é que significa exactamente "um mercado livre"? Será aquilo que os economistas clássicos advogavam – um mercado livre do poder monopolista, da fraude nos negócios, de acordos com iniciados políticos e privilégios especiais para os interesses especiais – um mercado protegido pelo surgimento da regulação pública através da lei Sherman Anti-Trust de 1890, do Glass-Steagall Act e de outras legislações do New Deal? Ou será um mercado livre para os predadores explorarem as suas vítimas sem regulamentação pública ou policiamento económico – a espécie de mercado livre para todos que o Federal Reserve e a Security and Exchange Comission (SEC) criaram ao longo da última década? Parece incrível que o povo devesse aceitar a ideia neoliberal de hoje de "liberdade de mercado" no sentido de esterilizar os cães de guarda do governo, estilo Alan Greenspan, deixando Angelo Mozilo no Countrywide, Hank Greenberg na AIG, Bernie Madoff, Citibank, Bear Stearns e Lehman Brothers saquearem sem obstáculo ou sanção, mergulharem a economia na crise e a seguir utilizarem o dinheiro do salvamento do Tesouro para pagarem os mais altos salários e bónus da história dos EUA.

Expressões que são a antítese de "mercado livre" também estão a ser transformadas no oposto do que historicamente haviam significado. Tomem-se as discussões de hoje acerca da nacionalização dos bancos, por exemplo. Durante mais de um século nacionalização significou a tomada pública de monopólios ou outros sectores a fim de operá-los no interesse público ao invés de deixá-los aos interesses especiais. Mas quando os neoliberais utilizam a palavra "nacionalização" eles querem dizer um salvamento, uma dádiva governamental para os interesses financeiros.

O duplo pensar e a dupla conversa em relação a "nacionalizar" ou "socializar" os bancos e outros sectores é um travesti da discussão política e económica verificada desde o século XVII até meados do século XX. A gramática básica do pensamento da sociedade, o vocabulário para discutir tópicos políticos e económicos, está a ser completamente invertido num esforço para evitar a discussão das soluções políticas apresentadas pelos economistas clássicos e os filósofos políticos que fizeram da civilização ocidental "o Ocidente".

O choque de civilização de hoje não é realmente com o Oriente; é com o nosso próprio passado, com o próprio Iluminismo e a sua evolução dentro da economia política clássica e das reformas sociais da Era Progressista destinadas a libertar a sociedade das peias sobreviventes do feudalismo europeu. O que estamos a ver é propaganda destinada a enganar, a distrair as atenções da realidade económica de modo a promover a propriedade e os interesses financeiros de cujas garras predatórias os economistas clássicos começaram a libertar o mundo. O que está a ser tentado é nada menos do que uma tentativa de destruir o edifício intelectual e moral que levou oito séculos para desenvolver na civilização ocidental, desde as discussões dos escolásticos do século XII acerca do Justo Preço até a teoria clássica do valor do século XIX e XX.

Qualquer ideia de "socialismo a partir de cima", no sentido de "socializar o risco", é oligarquia à moda antiga – estatismo cleptocrático vindo de cima. A nacionalização real ocorre quando os governos actuam no interesse público ao tomar a propriedade privada. O programa do século XIX para nacionalizar a terra (era a primeira plataforma do Manifesto Comunista) não significava nem remotamente algo como o governo tomar propriedades, pagar as suas hipotecas a expensas públicas e dá-las de volta aos antigos senhorios livres e limpas de embaraços e de impostos. Significava levar a terra e as rendas do seu rendimento para o domínio público, e arrendá-la a um utilizador mediante uma taxa que ia desde o custo operacional real a uma taxa subsidiada ou mesmo gratuita, como no caso das ruas e estradas.

Nacionalizar os bancos de acordo com estas linhas significaria que o governo atenderia às necessidades de crédito do país. O Tesouro tornar-se-ia a fonte de novo dinheiro, substituindo o crédito dos bancos comerciais. Presumivelmente este crédito seria emprestado para finalidades economicamente e socialmente produtivas, não meramente para inflacionar preços de activos enquanto carregam de dívidas as habitações e os negócios como tem ocorrido sob as políticas de empréstimos da banca comercial de hoje.

Como os neoliberais falsificam a história política do Ocidente

O facto de os neoliberais de hoje afirmarem serem os descendentes intelectuais de Adam Smith faz com que seja necessário restabelecer uma perspectiva histórica mais exacta. O conceito deles de "mercados livres" é a antítese do de Smith. É o oposto dos economistas políticos clássicos, desde John Stuart Mill, Karl Marx e as reformas da Era Progressista que procuraram criar mercados livre das rendas extractivas reclamadas pelos interesses especiais cujo poder institucional pode ser rastreado até à Europa medieval e remonta à era da conquista militar.

Os escritores económicos desde o século XVI até o XX reconheceram que mercados livres exigiam supervisão do governo para impedir a fixação monopolista dos preços e outros encargos impostos pelos privilégios especiais. Em contraste, os ideólogos neoliberais de hoje são advogados de relações públicas para os interesses adquiridos que pintam um "mercado livre" que é livre da regulação do governo, "livre" da protecção anti-truste e mesmo da protecção contra a fraude, como se evidenciou na recusa da SEC em actuar contra Madoff, Enron, Citibank et allii). A ideia neoliberal de mercados livres é portanto basicamente aquela de um ladrão de banco ou um de um gatuno, desejoso de um mundo sem polícia de modo a poder ficar suficientemente livre para sugar o dinheiro de outras pessoas sem constrangimento.

Os Chicago Boys no Chile perceberam que mercados livres para finanças predatórias e privatizações de iniciados só podiam ser impostos a ponta de armas. Estes defensores do mercado livre fecharam todos os departamentos económicos no Chile, todos os departamentos de ciências sociais fora da Universidade Católica onde os Chicago Boys dominavam. A Operação Condor prendeu, exilou ou assassinou dezenas de milhares de académicos, intelectuais, líderes trabalhistas e artistas. Só pelo controle totalitário sobre o curriculum académico e os media públicos apoiados por uma polícia secreta e um exército activos os "mercados livres" em estilo neoliberal puderam ser impostos. A resultante privatização a ponta de armas tornou-se um exercício do que Marx denominou "acumulação primitiva" – captura do domínio público por elites políticas apoiadas pela força. É um mercado livre de Guilherme o Conquistador ou Yeltsin – estilo cleptocrata, com a propriedade entregue aos comparsas do líder político ou militar.

Tudo isto foi exactamente o oposto da espécie de mercados livres que Adam Smith tinha em mente quando advertia que os homens de negócios raramente se reúnem a fim de conspirar meios de arranjar os mercados em seu benefício. Isto não é um problema que perturbe o sr. Greenspan ou os editorialistas do New York Times e do Washington Post . Não há realmente nenhuma afinidade entre os seus ideais neoliberais e aqueles dos filósofos políticos do Iluminismo. Para eles, promover uma ideia de mercados livres como algo "livre" para iniciados políticos arrancarem o domínio público para si próprios é baixar uma Cortina de Ferro intelectual sobre a história do pensamento económico.

Os economistas clássicos e os Progressistas Americanos consideravam os mercados livres de renda económica e de juros – livre de encargos rentistas e de preços cinzelados por monopólios, e livre de impostos para suportar uma oligarquia. Os governos deveriam basear os seus sistemas fiscais na arrecadação do "almoço gratuito" da renda económica, encabeçada por aqueles das localizações favoráveis proporcionadas pela natureza e o valor de mercado dado pelo investimento público nos transportes e outras infraestruturas, não pelos esforços dos próprios proprietários.

A argumentação entre reformadores da Era Progressista, socialistas, anarquistas e individualistas voltou-se então para a estratégia política destinada a melhor libertar os mercados de dívida e de renda. Onde eles discordavam era sobre os melhores meios políticos para alcançar isto, acima de tudo quanto ao papel do Estado. Havia um vasto consenso de que o Estado estava controlado por interesses adquiridos herdados das conquistas militares da Europa feudal e do mundo que fora colonizado pela força militar europeia. A questão política na viragem do século XX era se reformas democráticas pacíficas poderiam ultrapassar a resistência política e mesmo militar exercida pelo Velho Regime utilizando a violência para reter os seus "direitos". As revoluções políticas decorrentes foram fundamentadas no Iluminismo, na filosofia legal de homens tais como John Locke, economistas políticos como Adam Smith, John Stuart Mill e Marx. O poder deveria ser utilizado para libertar os mercados da propriedade predatória e dos sistemas financeiros herdados do feudalismo. Os mercados deveriam estar livres de privilégios e de almoços gratuitos, de modo a que as pessoas obtivessem rendimento e riqueza apenas pelo seu próprio trabalho e iniciativa. Isto era a essência da teoria do valor trabalho e do seu complemento, o conceito de renda económica como o excesso de preço de mercado sobre o valor-custo socialmente necessário.

Embora agora saibamos que mercados e preços, renda e juro, formalidades contratuais e aproximadamente todos os elementos da empresa económica tiveram origem nas "economias mistas" da Mesopotâmia no quarto milénio AC e continuaram através das economias mistas público/privadas da antiguidade clássica, a discussão era então tão politicamente polarizada que a ideia de uma economia mista com sistemas de restrições (checks and balances) recebeu escassa atenção um século atrás.

Os individualistas acreditavam que toda aquela retracção de governos centrais retrairia o mecanismo de controle pelos quais os interesses adquiridos extraíam riqueza sem trabalho ou iniciativa próprias. Os socialistas viam que um governo forte era necessário para proteger a sociedade das tentativas da propriedade e das finanças para utilizarem os seus ganhos a fim de monopolizar o poder económico e político. Ambos os extremos do espectro político pretendiam o mesmo objectivo – trazer os preços para baixo, para os custos reais de produção. O objectivo comum era maximizar a eficiência económica de modo a transferir os frutos das Revoluções Industrial e Agrícola para a população como um todo. Isto exigia bloquear a classe rentista dos intermediários de se apropriar do domínio público e do controle da distribuição de recursos. Os socialistas não acreditavam que isto pudesse ser feito sem tomar o poder político e legal do Estado nas suas mãos. Os marxistas acreditavam que era necessária uma revolução para recuperar a renda da propriedade para o domínio público, e permitir aos governos criarem o seu próprio crédito ao invés de tomarem emprestado a juros dos banqueiros comerciais e ricaços detentores de títulos. O objectivo não era criar uma burocracia e sim libertar a sociedade do poder de proprietários absentistas sobreviventes, dos interesses adquiridos e dos interesses financeiros.

Toda esta história do pensamento económico foi expurgada a fundo do curriculum académico de hoje, assim como da discussão popular. Poucas pessoas recordam-se do grande debate na viragem do século XX. Iria o progresso do mundo de modo razoavelmente rápido das reformas da Era Progressista para o socialismo completo – propriedade pública da infraestrutura económica básica, monopólios naturais (incluindo o sistema bancário) e da própria terra (e, para os marxistas, do capital industrial também)? Ou poderiam os reformadores liberais da época – individualistas, tributadores da terra, economistas clássicos na tradição de Mill e institucionalistas americanos tais como Simon Patten – reter a estrutura básica e a propriedade privada do capitalismo? Se pudessem assim fazer, eles reconheciam que isto teria de ser no contexto da regulação de mercado e da introdução de tributação progressiva da riqueza e do rendimento. Isto era a alternativa à propriedade "estatal" completa. A ideia extrema de "mercado livre" de hoje é uma caricatura simplificada desta posição.

Todas as partes consideravam o governo como o "cérebro" da sociedade, o seu órgão de planeamento prospectivo. Dada a complexidade da tecnologia moderna, a humanidade moldaria a sua própria evolução. Ao invés de a evolução verificar-se pela "acumulação primitiva", ela poderia ser deliberadamente planeada. Os individualistas contestavam que nenhum planeador humano era suficientemente imaginativo para administrar a complexidade dos mercados, mas endossavam a necessidade de eliminar todas as formas de rendimentos não resultantes do trabalho. Isto envolvia regulamentação do governo para moldar os mercados. Um "mercado livre" era uma criação política activa e exigia vigilância regulamentar.

Tal como os relações públicas que advogam em favor dos interesses adquiridos e dos privilégios rentistas especiais, os advogados "neoliberais" de hoje dos "mercados livres" procuram maximizar a renda económica – o almoço gratuito do excesso de preço do valor-custo, não libertar os mercados dos encargos rentistas. Uma história tão enganadora só podia ser atingida pela supressão absoluta do conhecimento daquilo que Locke, Smith e Mill realmente escreveram. Tentativas para regular "mercados livres" e limitar o preço de monopólio e os privilégios são amalgamadas com "socialismo", mesmo com burocracia de estilo soviético. O objectivo é desviar a análise daquilo que um "mercado livre" realmente é: um mercado livre de custos desnecessários tais como rendas de monopólio, rendas de propriedade e encargos financeiros por créditos que os governos podem criar livremente.

A reforma política para alinhar os preços de mercado com o valor-custo socialmente necessário era a grande questão económica do século XIX. A teoria valor-custo intrínseco encontrava a sua contrapartida na teoria da renda económica: renda da terra, preço de monopólio amanhado, juros e outros retornos a privilégios especiais que aumentavam os preços de mercado apenas pelos reclamos da propriedade institucional. A discussão remonta aos clérigos medievais que definiam o Preço Justo. A doutrina foi aplicada originalmente às comissões adequadas que os banqueiros podiam cobrar, mais tarde foi estendida à renda da terra e depois aos monopólios que os governos criavam e vendiam aos credores numa tentativa de se livrarem de dívidas.

Os reformistas e os seus afins mais radicais, os socialistas, procuravam libertar o capitalismo das suas chocantes injustiças, acima de tudo da sua herança da Idade Média europeia de conquista militar quando senhores da guerra invasores capturavam terras e impunham uma classe de proprietários da terra a receberem o rendimento da renda, o qual era utilizado para financiar guerra para novas aquisições de terra. Como se verificou, as esperanças de que o capitalismo industrial pudesse reformar-se a si próprio de acordo com linhas progressistas a fim de purgar-se da sua herança feudal fracassou. A I Guerra Mundial atingiu a economia global como um cometa, empurrando-a para uma nova trajectória e catalisando a sua evolução numa forma inesperada de capitalismo financeiro.

Isto foi em grande medida inesperado porque a maior parte dos reformadores gastava tanto esforço a advogar políticas progressistas que ignoraram aquilo a que Thorstein Veblen chamava os interesses adquiridos (vested interests). O seu Contra-Iluminismo está a criar um mundo que teria sido considerado uma distopia um século atrás – algo tão pessimista que nenhum futurólogo ousou descrever um mundo dirigido por banqueiros venais e corruptos, a protegerem como seus clientes primários os monopólios, os especuladores imobiliários e os hedge funds cuja renda económica, jogos financeiros e inflação do preços dos activos é transformado num fluxo de juros na economia rentista de hoje. Ao invés de o capitalismo industrial aumentar a formação de capital estamos a ver o capitalismo financeiro esvaziar o capital, e ao invés do mundo prometido de laser estamos a ser arrastados para uma escravidão pela dívida (debt peonage).

O travesti financeiro de democracia

O sector financeiro redefiniu democracia com reivindicações de que a Reserva Federal deve ser "independente" de representantes eleitos democracticamente, a fim de actuar como o lobbista da banca em Washington. Isto torna o sector financeiro isento do processo político democrático, apesar do facto de que o planeamento económico de hoje está agora centralizado no sistema bancário. O resultado é um regime de negócios de iniciados e oligarquia – dominada por uns poucos ricos.

A falácia económica em vigor é que o crédito bancário é um verdadeiro factor de produção, uma fonte quase fisiocrática de fertilidade sem a qual o crescimento poderia não se verificar. A realidade é que o direito monopolista a criar crédito bancário com juros é uma transferência gratuita da sociedade para uma elite privilegiada. A moral é que quando vemos um "factor de produção " que não tem um real custo-trabalho de produção, isto é simplesmente um privilégio institucional.

Assim, isto traz-nos para o mais recente debate acerca de "nacionalizar" ou "socializar" os bancos. O Programa de Alívio para Activos em Perturbação (Troubled Asset Relief Program, TARP) até agora foi usado para as seguintes utilizações que penso poderem ser consideradas verdadeiramente anti-sociais, não "socialistas" sob qualquer ponto de vista.

No fim do ano passado, US$20 mil milhões foram utilizados para pagar bónus e salários a administradores financeiros que se comportaram mal, apesar do mergulho dos seus bancos na situação líquida negativa. E para proteger os seus interesses, estes bancos continuaram a pagar comissões de lobbying a fim de persuadir os legisladores a lhes darem ainda mais privilégios especiais.

Enquanto o Citibank e outras das grandes instituições ameaçavam deitar o sistema financeiro abaixo por serem "demasiado grandes para falir", mais de US$ 100 mil milhões de fundos TARP foram utilizados para torná-lo ainda maior. Bancos já cambaleantes compraram filiadas que haviam crescido através de empréstimos irresponsáveis e absolutamente fraudulentos. O Bank of America comprou a Countrywide Financial de Angelo Mozilo e oa Merrill Lynch, ao passo que o JP Morgan Chase comprou o Bear Stearns e outros grandes bancos compraram o WaMu e o Wachovia.

A política de hoje é "resgatar" estes conglomerados gigantes da banco permitindo-lhes que "ganhem" a sua saída da dívida – pela venda de ainda mais dívida a uma economia estado-unidense já super endividada. A esperança é re-inflacionar o imobiliário e os preços de outros activos. Mas será que realmente queremos deixar os bancos "onerarem os contribuintes" empenhando-se em práticas financeiras ainda mais predatórias em relação à economia como um todo? Isto ameaça maximizar a margem do preço de mercado sobre os custos directos de produção, ao construírem encargos financeiros mais elevados. Isto é simplesmente a política oposta a tentar alinhar os preços da habitação e infraestrutura aos custos tecnologicamente necessários. Certamente não é uma política destinada a tornar a economia dos EUA globalmente mais competitiva.

O plano do Tesouro para "socializar" bancos, companhias de seguros e outras instituições financeiras é simplesmente intervir para retirar os maus empréstimos da sua contabilidade, comutando a perda para dentro do sector público. Isto é a antítese da verdadeira nacionalização ou "socialização" do sistema financeiro. Os bancos e as companhias de seguros rapidamente recuperaram-se do seu medo reflexivo inicial de que um salvamento governamental verificar-se-ia em termos que liquidariam a sua má administração, juntamente com os accionistas e detentores de títulos que a apoiaram. O Tesouro assegurou a estes delapidadores que "socialismo" para eles é uma prenda gratuita. O primado das finanças sobre o resto da economia será afirmado, deixando as administrações nos lugares e dando aos accionistas uma oportunidade para se recuperarem ganhando mais da economia como um todo, com ainda mais favoritismo fiscal. (Isto significa que impostos ainda mais pesados serão transferidos para os consumidores, aumentando o seu custo de vista correspondentemente.)

O grosso da riqueza sob o capitalismo – tal como sob o feudalismo – sempre veio basicamente do domínio público, a começar pela terra e as antigas empresas de serviços públicos, culminando mais recentemente no poder de criação de dívida do Tesouro. Com efeito, o Tesouro cria um novo activo (US$11 mil milhões de novos títulos e garantias do Tesouro, por exemplo, os US$5,2 milhões de milhões para a Fannie e o Freddie). Os juros sobre estes títulos têm de ser pagos através de novos gravames sobre o trabalho, não sobre a propriedade. Isto é o que supõe que vá re-inflacionar os preços da habitação, das acções e dos títulos – o dinheiro libertado da propriedade e dos impostos corporativos estará disponível para ser capitalizado em ainda novos empréstimos.

Assim, o rendimento até agora pago como impostos de negócios será ainda pago – na forma de juro – ao passo que os antigos impostos serão colectados, mas do trabalho. O fardo fiscal-financeiro será então duplicado. Isto não é um programa para tornar a economia mais competitiva ou elevar padrões de vida para a maior parte do povo. Trata-se de um programa para polarizar a economia dos EUA ainda mais, com finanças, seguros e imobiliário (FIRE) no topo e o trabalho na base.

As denúncias neoliberais da regulamentação pública e da tributação como sendo "socialismo" são realmente um ataque à economia política clássica – o liberalismo "original" cujo ideal era libertar a sociedade dos legados parasitários do feudalismo. Uma política do Tesouro realmente socializada seria no sentido de os bancos emprestarem para finalidades produtivas que contribuíssem para o crescimento económico real, não simplesmente para aumentar encargos e inflacionar preços de activos o suficiente para extrair encargos de juros. A política fiscal destinar-se-ia a minimizar ao invés de maximizar o preço da propriedade habitacional e da feitura de negócios, baseando o sistema fiscal na colecta da renda que agora está a ser paga como juro. Comutar o fardo fiscal para fora dos salários e dos lucros e em direcção às rendas e aos juros foi o núcleo da economia política clássica nos séculos XVIII e XIX, bem como na Era Progressista e dos movimentos social-democratas de reforma nos Estados Unidos e na Europa antes da I Guerra Mundial. Mas esta doutrina e o seu programa de reforma foram enterrados pela cortina de fumo retórico organizada pelos lobbystas financeiros que procuram turvar as águas ideológicas suficientemente a fim de atenuar a oposição popular ao poder hoje apresado pelo capital financeiro e o capital monopolista. A sua alternativa à verdadeira nacionalização e socialização das finanças é a escravidão pela dívida, a oligarquia e o neo-feudalismo. Eles chamaram a isto programa de "mercados livres".

<< 1 ... 49 50 51 52 53 54 55 56 57 58 59 ... 83 >>

Outubro 2014
Seg Ter Qua Qui Sex Sab Dom
 << <   > >>
    1 2 3 4 5
6 7 8 9 10 11 12
13 14 15 16 17 18 19
20 21 22 23 24 25 26
27 28 29 30 31    

Busca

Feeds XML

Ferramentas do usuário

multiblog engine