A 'gheada'

09-01-2012

CONSULTA:

Segundo tenho lido a origem gheada tem várias hipóteses. As hipóteses defendidas comummente polo isolacionismo som a dumha suposta origem prerrománica ou umha evoluçom interna da língua galega. No entanto, o reintegracionismo parece optar por explicá-lo como um influxo do espanhol.

Nas duas primeiras hipóteses, compreendo o processo e a identificaçom do 'gh' aspirado com o 'g' suave. Mas no caso da hipótese castelhanista nom acabo de compreender como o som do 'j' espanhol passa ao galego substituindo o fonema 'g' suave ('gato' -> 'ghato') em lugar de substituir o fonema 'sh' ('caixa' -> 'caigha') como pareceria natural.

Espero ter-me explicado bem. Entom a questom é essa, como se explica a origem da gheada se a considerarmos um castelhanismo?

Obrigado!

Jon Amil

RESPOSTA DA COMISSOM:

A gheada é um fenómeno que deveu abranger, de maneira irregular, o conjunto das falas galegas. Porém, só chegou a compactar-se na metade ocidental da Galiza, embora com diferentes realizaçons e nem sempre em todos os contextos fonéticos.

Segundo a teoria que comentas, teria origem na interferência do castelhano através de um processo que se repete com relativa freqüência nas variedades lingüísticas subordinadas (cf. ceceo andaluz; troca do bê polo vê do Norte de Portugal, etc.). O mecanismo que conduziria à substituiçom do fonema /g/ por outro com umha série de realizaçons que vam do [h] até o [k] mas cujo resultado final costuma ser o [x] da palavra castelhana mujer (mu[x]er) é aliás bem conhecido entre os professores de línguas estrangeiras, e a ele nos iremos remeter para facilitar a compreensom do surgimento da gheada galega segundo a tese que defende que houvo interferência do castelhano:

No ensino de línguas é habitual que as pessoas realizem aqueles fonemas mais 'difíceis' do novo código substituindo-os polos fonemas mais próximos da língua de partida. Por exemplo, para aprender o português lusitano, enquanto nom se domina o esse sonoro da palavra asa, o estudante galego costuma substituí-lo polo mesmo esse surdo que realiza habitualmente na sua língua materna. Numha segunda fase, após aprendido o novo fonema, também é habitual que os estudantes nom se limitem a pronunciá-lo na palavra asa, senom que o estendam a outras palavras (como assa) em que o esse deveria realizar-se surdo. Este mecanismo, chamado ultracorreçom, é considerado inevitável polo professorado de línguas estrangeiras e só é corrigido numha terceira fase da aprendizagem, nomeadamente quando existe um bom domínio da ortografia que serve de apoio à correta pronúncia.

A gheada seria o resultado de tentar incorporar ao sistema lingüístico galego o fonema /x/ do castelhano. Assim, numha primeira fase (provavelmente no século XVII ou XVIII), ao falarem espanhol ou ao tentarem espanholizar o seu galego, os falantes, incapazes de pronunciar o [x] do castelhano (por exemplo na palavra juventud) profeririam guventu, da mesma maneira que gato. Numha segunda fase, talvez já nas seguintes geraçons, aprendido o novo fonema, passariam a pronunciar [x]uventu, mas, por desconhecerem as regras de pronunciaçom da nova língua e até os limites ortográficos que elas imponhem, estenderiam a nova pronúncia a todas as palavras que antes pronunciavam com [g].

Este processo, que envolve confusons em duas direçons (gueada e gheada) tem sido identificado na documentaçom desde o século XVIII (e talvez XVII) e ainda na atualidade naquelas zonas em que a gheada nom está dialetalmente estável. Nestas, umha pessoa velha pode dizer garsei/guersei, bruga e gato enquanto umha nova [x]ersei/[x]arsei, bru[x]a e [x]ato, isto é, com umha pronúncia idêntica ou semelhante ao som que o espanhol representa com as letras jota ou, nalguns casos, guê.

Em muitos casos, a incorporaçom do novo fonema castelhano teria sido deficiente, dando por resultado umha enorme variedade de realizaçons do mesmo fonema que de qualquer modo praticamente todos os autores desde o século XVIII identificárom com o /x/ castelhano.

Na atualidade, o principal defensor desta tese é o gramático Xosé Ramón Freixeiro Mato, no volume dedicado à fonética e à fonologia da sua Gramática da Lingua Galega. Porém, historicamente, José Luís Pensado foi o lingüista que explicou esta teoria com mais detalhe.

Ao lado da gheada, como di o consulente, também teria havido outras tentativas de adaptar as incorporaçons de vocábulos do castelhano através de analogias do tipo:

caja > caixa
conejo > conexo

mujer > mulher
rodaja > rodalha

Estas adaptaçons podem ser mais antigas ou mais recentes (mesmo atuais), mas em princípio nom teriam nada a ver com o processo global que dá origem à gheada.

Categoria(s): Fonética
Chuza!
O jogo do 'pai-filho-mae'

09-01-2012

CONSULTA:

Gostava de saber se é correta ou existe nalguma parte da Galiza ou da Lusofonia esta expressão para oa jogo que, em espanhol, chamam de "tres en raya".

Quando eu criança, no colégio, os alunos (curiosamente castelhanofalantes todos) davam este engraçado nome à brincadeira).

Obrigado de antemão (com esta fico à espera de respostas das que já perdi a conta, embora outras me foram de grande ajuda).

Bom ano.

Paulo

RESPOSTA DA COMISSOM LINGÜÍSTICA:

Com efeito, o jogo que em castelhano de Espanha recebe o nome de tres en raya, denomina-se no Brasil jogo da velha; em Portugal, jogo do galo, e, na Galiza, pai-filho-mae (cf. Wikipédia).

Categoria(s): Léxico
Chuza!
'Mais (do) que' e 'Antes (do) que'

27-12-2011

CONSULTA:

Como se diz: «Mais do que bilingüe sou analfabeto» ou «mais que bilingüe sou analfabeto»?

RESPOSTA DA COMISSOM:

Com o valor de ‘mais para umha cousa do que outra’ ou ‘de preferência, melhor’, deve utilizar-se em galego-português o advérbio antes. Assim, o exemplo aduzido polo nosso consulente pode construir-se da seguinte maneira: «Antes (do) que bilingue [ou bilíngüe], som [ou sou] analfabeto!».

Categoria(s): Morfossintaxe
Chuza!
'Gostava de saber' ou 'Gostaria de saber'?

26-12-2011

CONSULTA:

Como se diz: > 3."Gostava mesmo de aprender" ou "Gostaria mesmo de aprender"?

RESPOSTA DA COMISSOM LINGÜÍSTICA:

Gostava de aprender / Gostaria de aprender

Esta questom já foi respondida pola Comissom (“Gostaria de caminhar pola rua, mas algumha nom tem passeio”) […som construçons sinónimas e igualmente válidas Gostaria de saber e Gostava de saber, sendo esta última menos formal do que primeira.]

Pode, porém, acrescentar-se o seguinte:

Um dos usos do modo condicional (seria) é atenuar umha afirmaçom ou a expressom de um desejo (condicional de cortesia). Exemplos:

Poderia ajudar-me?
Seria necessário vires mais cedo.
Gostaria de saber quem cho dixo.

Num registo corrente, o condicional de cortesia pode ser substituído polo imperfeito do indicativo (era), sendo nesse caso, a atenuaçom menor. Assim:

Podia ajudar-me?
Era necessário vires mais cedo.
Gostava de saber quem cho dixo.

O consulente poderá encontrar mais informaçom no Civerdúvidas da Língua Portuguesa: “Imperfeito e condicional de cortesia”.

Categoria(s): Morfossintaxe
Chuza!
'Ter que sair' ou 'Ter de sair'

26-12-2011

CONSULTA:

Como se diz: "Temos de arranjar isso" ou "Temos que arranjar isso"?

Temos de arranjar isso / Temos que arranjar isso

Ambas as locuçons verbais (ter de/que + infinitivo) som usadas e estám corretas. Todavia, é de notar que:

a) ter de é a construçom mais tradicional e castiça.
b) ter que sublinha mais a obrigaçom ou o propósito do que ter de.

De referir ainda a locuçom ter a + infinitivo, usada mormente com verbos como dizer para atenuar a intençom. Exemplo:

Tenho a dizer-vos que nom concordo convosco.

Categoria(s): Morfossintaxe
Chuza!

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