Leilám

17-01-2012

CONSULTA:

A minha dúvida é sobre a forma galega correta que se corresponde com o luso-brasileiro leilão ‘poja’. Tenho visto leilom, que acho deve ser umha regaleguizaçom errónea; o Prof. Garrido cita no seu Léxico Galego a forma leilám e no Estraviz aparece leilão. Também no Dicionário de Dicionários aparece quase sempre leilán, mas também umha abonaçom da expressom andar ó leilao.
Pode ser entom umha palavra do tipo irmão (que coexista com a forma irmám) ou é decididamente umha palavra do tipo capitám (sem o correspondente na Galiza da forma capitão)? Ou, dito de outra maneira, na padronizaçom da AGAL seria leilao ou leilám (supondo que nom tenha de ser leilom!)?

Cumprimentos e obrigado.

RESPOSTA DA COMISSOM LINGÜÍSTICA:

No galego (contemporáneo), com o sentido de ‘venda pública de objetos a quem oferecer maior lance’, isto é, com o sentido de ‘hasta, almoeda, arremataçom’, regista-se, com efeito, a forma leilám, harmónica com o correspondente étimo árabe (al-alam) e motivadora da forma de plural leiláns ou leilães, esta ainda hoje algumha vez registada, ao lado da esmagadoramente maioritária leilões, no ámbito luso-brasileiro. Por estes motivos, a forma padronizável na Galiza é leilám.

Categoria(s): Léxico
Chuza!
Os dias da semana em galego

10-01-2012

CONSULTA:

Boa tarde,

Devo traduzir um calendário num programa informático e tenho
dous problemas cos dias da semana.

O primeiro é que se é mais normal e preferível em Galiza os
dias luns, martes, mércores, joves e venres ou segunda feira,
terça feira, quarta feira, quinta feira e sesta feira.

E o segundo, dependendo do primeiro, como acostumbram-se a
abreviar os dias, se L M X J V S e D ou d'outra manera.

Muito obrigado pela sua atençom,

David

RESPOSTA DA COMISSOM LINGÜÍSTICA:

As denominaçons de origem cristá dos dias da semana, coincidentes com as portuguesas, conservam-se hoje em dia só entre pessoas de muita idade, nomeadamente na metade ocidental do país. Porém, elas som as tradicionais no conjunto da Galiza desde os primórdios da língua: domingo, segunda-feira, terça-feira, quarta-feira, quinta-feira, sexta-feira, sábado.

O que observamos na documentaçom medieval é que o sistema de origem pagá (que usa os astros como referência) estava já quase totalmente substituído polo cristao. Salvo em pequenas áreas do nordeste galego, quarta-feira, quinta-feira e sexta-feira já se tornaram sistemáticas, só sobrevivendo lûes e martes ao lado de segunda-feira e terça-feira. Este parece ser o retrato aproximado da situaçom medieval na Galiza e, segundo alguns dados, também em Portugal. Como noutros casos, por exemplo a adaptaçom da terminaçom -vel, estamos perante um processo que nom culminou, abortado pola interferência do castelhano.

Tampouco a distribuiçom dialetal dos restos das denominaçons cristás que ainda perduram nas diferentes falas galegas nos permitem duvidar quanto ao facto de serem os compostos com a palavra feira as formas galegas genuínas.

Porém, com a exceçom do primeiro (domingo) e do último (sábado) dia da semana (coincidentes em ambos os sistemas), todos os outros fôrom maioritariamente substituídos quer polas formas castelhanas (de origem pagá) quer, provavelmente, por adaptaçons morfológicas destas quando nom perduraram (como no caso do nordeste galego) desde a época medieval: lunes/luns/lus; martes; miércoles/mércoles/mércores; jueves/joves; viernes/vernes/venres.

Baseando-nos apenas no mapa dialetal galego, sabemos isto por três motivos:

1. As formas tradicionais que mais recuárom fôrom a segunda-feira e a terça-feira, empurradas ou substituídas polas formas lunes/luns/lus e martes respetivamente, isto é, aquelas da série castelhana que precisárom de menos transformaçons para se adaptarem ao sistema fonológico galego.

2. Das três restantes, quarta-feira (ou as suas variantes carta-feira/carta e corta-feira/corta) é a que chegou mais viva aos dias de hoje, sendo possível registá-la em todos os blocos dialetais galegos. No caso de quinta-feira (ou quinta), apesar de ter desaparecido em mais comarcas que a quarta-feira, a sua isoglossa nas zonas em que se conserva é idêntica à do quarto dia da semana, o que nos permite assegurar que outrora a extensom de ambas as denominaçons cristás teria sido semelhante ou idêntica.

3. Os três pontos em que se conserva a série completa dos dias tradicionais ficam em lugares tam afastados como o Baixo Minho, a Terra Chá e a Límia.

A origem híbrida das referidas adaptaçons morfológicas é provável nas comarcas em que as formas pagás tinham desaparecido completamente na Idade Média (a maior parte da Galiza), umha vez que numha mesma aldeia podem (ainda hoje) conviver as denominaçons tradicionais (nas pessoas mais velhas) com as adaptaçons morfológicas das formas castelhanas (entre pessoas menos velhas) e com as formas plenamente castelhanizadas (entre as pessoas mais novas). Nós próprios registamos isto em vários concelhos galegos mui afastados entre si: carta-feira > mércoles > miércoles (Ortigueira); sexta > vernes > viernes (Entrimo).

As adaptaçons morfológicas (luns/lus; mércores/mércoles; joves; vernes/venres) terám sido freqüentes na altura em que o galego contava com mais vitalidade (cf. ayuntamiento > ajuntamento). Porém, na língua contemporánea, até a incorporaçom do galego ao ensino, o mais habitual já era a penetraçom dos castelhanismos plenos (lunes, miércoles, jueves, viernes).

As abreviaçons mais usadas nos países lusófonos para a série completa dos dias da semana som: D, 2ª, 3ª, 4ª, 5ª, 6ª e S, com a palavra feira seguindo, às vezes, os numerais ordinais.

Categoria(s): Léxico
Chuza!
A 'gheada'

09-01-2012

CONSULTA:

Segundo tenho lido a origem gheada tem várias hipóteses. As hipóteses defendidas comummente polo isolacionismo som a dumha suposta origem prerrománica ou umha evoluçom interna da língua galega. No entanto, o reintegracionismo parece optar por explicá-lo como um influxo do espanhol.

Nas duas primeiras hipóteses, compreendo o processo e a identificaçom do 'gh' aspirado com o 'g' suave. Mas no caso da hipótese castelhanista nom acabo de compreender como o som do 'j' espanhol passa ao galego substituindo o fonema 'g' suave ('gato' -> 'ghato') em lugar de substituir o fonema 'sh' ('caixa' -> 'caigha') como pareceria natural.

Espero ter-me explicado bem. Entom a questom é essa, como se explica a origem da gheada se a considerarmos um castelhanismo?

Obrigado!

Jon Amil

RESPOSTA DA COMISSOM:

A gheada é um fenómeno que deveu abranger, de maneira irregular, o conjunto das falas galegas. Porém, só chegou a compactar-se na metade ocidental da Galiza, embora com diferentes realizaçons e nem sempre em todos os contextos fonéticos.

Segundo a teoria que comentas, teria origem na interferência do castelhano através de um processo que se repete com relativa freqüência nas variedades lingüísticas subordinadas (cf. ceceo andaluz; troca do bê polo vê do Norte de Portugal, etc.). O mecanismo que conduziria à substituiçom do fonema /g/ por outro com umha série de realizaçons que vam do [h] até o [k] mas cujo resultado final costuma ser o [x] da palavra castelhana mujer (mu[x]er) é aliás bem conhecido entre os professores de línguas estrangeiras, e a ele nos iremos remeter para facilitar a compreensom do surgimento da gheada galega segundo a tese que defende que houvo interferência do castelhano:

No ensino de línguas é habitual que as pessoas realizem aqueles fonemas mais 'difíceis' do novo código substituindo-os polos fonemas mais próximos da língua de partida. Por exemplo, para aprender o português lusitano, enquanto nom se domina o esse sonoro da palavra asa, o estudante galego costuma substituí-lo polo mesmo esse surdo que realiza habitualmente na sua língua materna. Numha segunda fase, após aprendido o novo fonema, também é habitual que os estudantes nom se limitem a pronunciá-lo na palavra asa, senom que o estendam a outras palavras (como assa) em que o esse deveria realizar-se surdo. Este mecanismo, chamado ultracorreçom, é considerado inevitável polo professorado de línguas estrangeiras e só é corrigido numha terceira fase da aprendizagem, nomeadamente quando existe um bom domínio da ortografia que serve de apoio à correta pronúncia.

A gheada seria o resultado de tentar incorporar ao sistema lingüístico galego o fonema /x/ do castelhano. Assim, numha primeira fase (provavelmente no século XVII ou XVIII), ao falarem espanhol ou ao tentarem espanholizar o seu galego, os falantes, incapazes de pronunciar o [x] do castelhano (por exemplo na palavra juventud) profeririam guventu, da mesma maneira que gato. Numha segunda fase, talvez já nas seguintes geraçons, aprendido o novo fonema, passariam a pronunciar [x]uventu, mas, por desconhecerem as regras de pronunciaçom da nova língua e até os limites ortográficos que elas imponhem, estenderiam a nova pronúncia a todas as palavras que antes pronunciavam com [g].

Este processo, que envolve confusons em duas direçons (gueada e gheada) tem sido identificado na documentaçom desde o século XVIII (e talvez XVII) e ainda na atualidade naquelas zonas em que a gheada nom está dialetalmente estável. Nestas, umha pessoa velha pode dizer garsei/guersei, bruga e gato enquanto umha nova [x]ersei/[x]arsei, bru[x]a e [x]ato, isto é, com umha pronúncia idêntica ou semelhante ao som que o espanhol representa com as letras jota ou, nalguns casos, guê.

Em muitos casos, a incorporaçom do novo fonema castelhano teria sido deficiente, dando por resultado umha enorme variedade de realizaçons do mesmo fonema que de qualquer modo praticamente todos os autores desde o século XVIII identificárom com o /x/ castelhano.

Na atualidade, o principal defensor desta tese é o gramático Xosé Ramón Freixeiro Mato, no volume dedicado à fonética e à fonologia da sua Gramática da Lingua Galega. Porém, historicamente, José Luís Pensado foi o lingüista que explicou esta teoria com mais detalhe.

Ao lado da gheada, como di o consulente, também teria havido outras tentativas de adaptar as incorporaçons de vocábulos do castelhano através de analogias do tipo:

caja > caixa
conejo > conexo

mujer > mulher
rodaja > rodalha

Estas adaptaçons podem ser mais antigas ou mais recentes (mesmo atuais), mas em princípio nom teriam nada a ver com o processo global que dá origem à gheada.

Categoria(s): Fonética
Chuza!
O jogo do 'pai-filho-mae'

09-01-2012

CONSULTA:

Gostava de saber se é correta ou existe nalguma parte da Galiza ou da Lusofonia esta expressão para oa jogo que, em espanhol, chamam de "tres en raya".

Quando eu criança, no colégio, os alunos (curiosamente castelhanofalantes todos) davam este engraçado nome à brincadeira).

Obrigado de antemão (com esta fico à espera de respostas das que já perdi a conta, embora outras me foram de grande ajuda).

Bom ano.

Paulo

RESPOSTA DA COMISSOM LINGÜÍSTICA:

Com efeito, o jogo que em castelhano de Espanha recebe o nome de tres en raya, denomina-se no Brasil jogo da velha; em Portugal, jogo do galo, e, na Galiza, pai-filho-mae (cf. Wikipédia).

Categoria(s): Léxico
Chuza!
'Mais (do) que' e 'Antes (do) que'

27-12-2011

CONSULTA:

Como se diz: «Mais do que bilingüe sou analfabeto» ou «mais que bilingüe sou analfabeto»?

RESPOSTA DA COMISSOM:

Com o valor de ‘mais para umha cousa do que outra’ ou ‘de preferência, melhor’, deve utilizar-se em galego-português o advérbio antes. Assim, o exemplo aduzido polo nosso consulente pode construir-se da seguinte maneira: «Antes (do) que bilingue [ou bilíngüe], som [ou sou] analfabeto!».

Categoria(s): Morfossintaxe
Chuza!

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