Categoria: Fonética

Esgoto, sarjeta e bueiro

17-05-2012

De cima para baixo: esgoto, sarjeta, bueiros e valeta

CONSULTA:

Gostava de saber se os três termos são sinónimos: sarjeta, bueiro e esgoto.

Obrigado!

Paulo

RESPOSTA DA COMISSOM LINGÜÍSTICA:

Nom se trata de vocábulos estritamente sinónimos, polo menos quando referidos a um ámbito urbano, ou de obras públicas, atual (que supomos ser o foco de interesse do consulente). Assim, nesse contexto, o termo esgoto designa os canos ou condutas por onde correm líquidos, águas pluviais ou detritos de um aglomerado populacional (rede de esgoto(s)); por sua vez, o termo sarjeta refere-se a umha abertura situada no rebordo dos passeios das ruas ou das praças públicas para escoamento das águas da chuva; finalmente, bueiro denota um cano ou tubo que atravessa os muros ou paredes de sustentaçom de terreios ou estradas, para dar escoamento a águas pluviais, subterráneas ou de rios. Tenha-se em conta, além do mais, que valeta denota umha vala estreita e de pequena profundidade, de corte trapezoidal ou triangular, aberta em cada um dos lados das ruas ou das estradas para escoamento e drenagem das águas.

Categoria(s): Fonética
Chuza!
Soluço e soluçar

17-05-2012

CONSULTA:

Qual é o nome correto para designarmos a contração brusca do diafragma que causa um ruído caraterístico? Os dicionários portugueses e brasileiros dão como correta a forma soluço, mas o Estraviz regista também as formas salouco, impo, saluco, sotelo e salaio (parece que dando certa prioridade a salouco).

Obrigado.

Jon Amil

RESPOSTA DA COMISSOM LINGÜÍSTICA:

Em O Modelo Lexical Galego, documento (de próxima publicaçom) codificador do léxico da variedade galega do galego-português, a Comissom Lingüística da AGAL proporá como variante supradialetal na Galiza, no sentido aduzido polo consulente, o substantivo soluço (e o verbo soluçar).

Categoria(s): Fonética
Chuza!
Ordem de despejo

23-04-2012

CONSULTA:

Olá, gostaria de saber a origem e a validez da palavra desafiuzamento que empregan os meios em galego para se referir à expulsom de alguém da sua morada por impagamento (em castelhano, desahucio ou desalojo). Procurei-na tanto no Estraviz como nos dicionários da RAG e até no Priberam, mas em nengum apareceu dita palavra. Obrigado e parabéns por este serviço, do qual deveriam aprender algumhas instituçons que cobram do erário público.

Adrián

RESPOSTA DA COMISSOM LINGÜÍSTICA:

Infelizmente, nom é exata a informaçom de a voz desafiuzamento, com o sentido de ‘desocupaçom compulsória de um imóvel alugado, por decisom judicial’, nom ocorrer no dicionário da RAG, pois que a mais recente ediçom dessa obra regista desafiuzar no sentido jurídico apontado. Trata-se, claramente, de um decalque do cast. desahuciar, que contribui para reforçar a subordinaçom formal e funcional do galego ao castelhano e para isolar o galego das suas variantes geográficas plenamente estabilizadas (lusitano e brasileiro).

Por isso, para reforçar a personalidade e a utilidade social do galego, e em benefício da eficácia e da coerência do seu léxico, neste caso (como, em geral, em todos os casos em que no léxico galego se verifica estagnaçom e suplência castelhanizante: conceitos de surgimento posterior ao séc. XIV), a Comissom Lingüística da AGAL recomenda decididamente (cf. O Modelo Lexical Galego, de próx. publ.) aplicar de modo constante a coordenaçom neológica com o luso-brasileiro, de modo a obtermos aqui, no sentido jurídico indicado, despejar e despejo (açom de despejo, ordem de despejo, etc.).

Categoria(s): Fonética, Léxico
Chuza!
"Ocasiom" é um cultismo

16-03-2012

CONSULTA:

A que se deve o uso da única exceçom nas terminações -çom/-som como é «ocasiom»? Nom é um pouco contraproducente o seu uso, sobretudo tendo em conta que no galego medieval já se tende a perder o «i» e mesmo poderia passar por castelanismo?

RESPOSTA DA COMISSOM LINGÜÍSTICA:

O latim OCCASIONE(M) deu como resultado popular "(o)cajom" na Idade Média. A partir do séc. XIV surge a latinismo "ocasiom", que pola data de entrada na língua e carácter erudito mantivo o "i". Nunca existiu *ocasom.

Chuza!
A 'gheada'

09-01-2012

CONSULTA:

Segundo tenho lido a origem gheada tem várias hipóteses. As hipóteses defendidas comummente polo isolacionismo som a dumha suposta origem prerrománica ou umha evoluçom interna da língua galega. No entanto, o reintegracionismo parece optar por explicá-lo como um influxo do espanhol.

Nas duas primeiras hipóteses, compreendo o processo e a identificaçom do 'gh' aspirado com o 'g' suave. Mas no caso da hipótese castelhanista nom acabo de compreender como o som do 'j' espanhol passa ao galego substituindo o fonema 'g' suave ('gato' -> 'ghato') em lugar de substituir o fonema 'sh' ('caixa' -> 'caigha') como pareceria natural.

Espero ter-me explicado bem. Entom a questom é essa, como se explica a origem da gheada se a considerarmos um castelhanismo?

Obrigado!

Jon Amil

RESPOSTA DA COMISSOM:

A gheada é um fenómeno que deveu abranger, de maneira irregular, o conjunto das falas galegas. Porém, só chegou a compactar-se na metade ocidental da Galiza, embora com diferentes realizaçons e nem sempre em todos os contextos fonéticos.

Segundo a teoria que comentas, teria origem na interferência do castelhano através de um processo que se repete com relativa freqüência nas variedades lingüísticas subordinadas (cf. ceceo andaluz; troca do bê polo vê do Norte de Portugal, etc.). O mecanismo que conduziria à substituiçom do fonema /g/ por outro com umha série de realizaçons que vam do [h] até o [k] mas cujo resultado final costuma ser o [x] da palavra castelhana mujer (mu[x]er) é aliás bem conhecido entre os professores de línguas estrangeiras, e a ele nos iremos remeter para facilitar a compreensom do surgimento da gheada galega segundo a tese que defende que houvo interferência do castelhano:

No ensino de línguas é habitual que as pessoas realizem aqueles fonemas mais 'difíceis' do novo código substituindo-os polos fonemas mais próximos da língua de partida. Por exemplo, para aprender o português lusitano, enquanto nom se domina o esse sonoro da palavra asa, o estudante galego costuma substituí-lo polo mesmo esse surdo que realiza habitualmente na sua língua materna. Numha segunda fase, após aprendido o novo fonema, também é habitual que os estudantes nom se limitem a pronunciá-lo na palavra asa, senom que o estendam a outras palavras (como assa) em que o esse deveria realizar-se surdo. Este mecanismo, chamado ultracorreçom, é considerado inevitável polo professorado de línguas estrangeiras e só é corrigido numha terceira fase da aprendizagem, nomeadamente quando existe um bom domínio da ortografia que serve de apoio à correta pronúncia.

A gheada seria o resultado de tentar incorporar ao sistema lingüístico galego o fonema /x/ do castelhano. Assim, numha primeira fase (provavelmente no século XVII ou XVIII), ao falarem espanhol ou ao tentarem espanholizar o seu galego, os falantes, incapazes de pronunciar o [x] do castelhano (por exemplo na palavra juventud) profeririam guventu, da mesma maneira que gato. Numha segunda fase, talvez já nas seguintes geraçons, aprendido o novo fonema, passariam a pronunciar [x]uventu, mas, por desconhecerem as regras de pronunciaçom da nova língua e até os limites ortográficos que elas imponhem, estenderiam a nova pronúncia a todas as palavras que antes pronunciavam com [g].

Este processo, que envolve confusons em duas direçons (gueada e gheada) tem sido identificado na documentaçom desde o século XVIII (e talvez XVII) e ainda na atualidade naquelas zonas em que a gheada nom está dialetalmente estável. Nestas, umha pessoa velha pode dizer garsei/guersei, bruga e gato enquanto umha nova [x]ersei/[x]arsei, bru[x]a e [x]ato, isto é, com umha pronúncia idêntica ou semelhante ao som que o espanhol representa com as letras jota ou, nalguns casos, guê.

Em muitos casos, a incorporaçom do novo fonema castelhano teria sido deficiente, dando por resultado umha enorme variedade de realizaçons do mesmo fonema que de qualquer modo praticamente todos os autores desde o século XVIII identificárom com o /x/ castelhano.

Na atualidade, o principal defensor desta tese é o gramático Xosé Ramón Freixeiro Mato, no volume dedicado à fonética e à fonologia da sua Gramática da Lingua Galega. Porém, historicamente, José Luís Pensado foi o lingüista que explicou esta teoria com mais detalhe.

Ao lado da gheada, como di o consulente, também teria havido outras tentativas de adaptar as incorporaçons de vocábulos do castelhano através de analogias do tipo:

caja > caixa
conejo > conexo

mujer > mulher
rodaja > rodalha

Estas adaptaçons podem ser mais antigas ou mais recentes (mesmo atuais), mas em princípio nom teriam nada a ver com o processo global que dá origem à gheada.

Categoria(s): Fonética
Chuza!

<< 1 2 3 >>