Tags: manual de galego científico

Tempos Compostos

03-12-2011

CONSULTA:

É correto o uso dos chamados tempos compostos em galego? Obrigado.

Rudesindo Bombarral

RESPOSTA DA COMISSOM LINGÜÍSTICA:

Embora a Comissom Lingüística da AGAL ainda nom se tenha manifestado especificamente sobre questons de morfossintaxe normativa, como a que aqui levanta o nosso consulente, nesta altura, de modo tentativo, e baseando-nos nas consideraçons tecidas no Manual Galego de Língua e Estilo (pág. 165–168) e na segunda ediçom do Manual de Galego Científico (pág. 496–500), podemos oferecer as seguintes orientaçons sobre o emprego em galego dos tempos verbais compostos.
Em primeiro lugar, leve-se em conta que na atual língua espontánea (meramente coloquial), os tempos compostos legítimos, genuínos, tenhem umha representaçom pequena, limitada basicamente à perífrase aspetual perfectivo-reiterativa “ter [como presente do indicativo] + particípio”, que indica repetiçom de umha açom no passado (ex.: «O aviom tem chegado atrasado todos os dias.», «Tenho falado muito com ela.»), e à perífrase aspetual perfectiva “ter [quase sempre como infinitivo] + particípio”, que indica umha açom única concluída no passado (ex.: «Nom fum a Ourense e sinto nom ter ido.»).
Ora, para ganharmos expressividade, eficácia comunicativa, na língua formal galega é necessário enriquecermos este quadro de usos dos tempos compostos, incorporando novos matizes semánticos e possibilidades combinatórias, através de um alargamento natural feito de harmonia com as variedades socialmente estabilizadas do galego (lusitano e brasileiro). Nesta linha, recomendamos para o galego culto o seguinte quadro de usos das formas verbais compostas:
1. Perífrase aspetual perfectivo-reiterativa e atualizadora “ter [como presente do indicativo, como pretérito imperfeito do indicativo, como presente do conjuntivo ou como gerúndio] + particípio”. Para além do significado perfectivo-reiterativo (ex.: «A nossa equipa tem feito a experiência com diversos animais de laboratório sem obter qualquer resultado significativo.»), esta perífrase poderá também utilizar-se com um valor atualizador, i. é, para indicar processos ou estados iniciados no passado cuja duraçom ou cujos efeitos se prolongam até ao presente e ainda podem, porventura, continuar no futuro. De facto, em muitos casos, poderá verificar-se confusom de ambos os valores desta perífrase. Ex.: «O aviom tem estado parado.», «Como tens estado? Tenho estado muito mal, tenho estado doente.», «Ultimamente a resposta de hipersensibilidade tem sido considerada como exemplo da morte celular programada.», «O carvom tem sido empregado desde há muito tempo na geraçom de energia.».
2. Perífrase aspetual perfectiva “ter [como infinitivo invariável ou flexionado / gerúndio / futuro do indicativo (com freqüente valor de hipótese sobre o passado) / pretérito imperfeito do indicativo (sobretodo na Galiza, em concorrência com o pretérito mais-que-perfeito) / pós-pretérito (com freqüente valor de hipótese sobre o passado) / pretérito do conjuntivo / futuro do conjuntivo / presente do conjuntivo] + particípio”, para indicar umha açom única concluída no passado. Exemplos: «Animais lentos e sem defesas eficazes, os megatérios podem ter sido abatidos polo home e por grandes carnívoros.», «Pensa-se terem sido os Orientais os primeiros povos verdadeiramente entendidos na confeçom de medicamentos.», «Tendo concluído a primeira fase da experiência, começárom a segunda.», «As altas temperaturas terám retardado a solidificaçom da lava.», «Nunca antes tinha assistido a um congresso de Geofísica.» (= «Nunca antes assistira a um congresso de Geofísica.»), «Os Chineses teriam realizado os primeiros foguetes em 1100.», «Se tivesses estudado, terias aprovado!», «Quando tu tiveres completado a primeira fase da investigaçom, eu já terei concluído a terceira!», «É curioso que nom tenham sido descobertos mais casos como esse.».

Categoria(s): Morfossintaxe
Chuza!
Chave de parafusos

07-02-2011

CONSULTA:

Que palavra seria a mais correta para designar o instrumento que serve para apertar e afrouxar parafusos?
Na Wikipédia lusófona falam indistintamente de "chave de fenda" e "chave de parafusos", mas procurando pola Internet vejo que os termos "desaparafusador" e "desparafusador" não são estranhos fora da Galiza. Mesmo tenho visto usarem "aparafusadora" para falarem duma chave de parafusos elétrica.

A propósito, muitos parabéns polo consultório, já se vinha sentindo a falta de algo assim.

Saudinha!

RESPOSTA DA COMISSOM:

1. Infelizmente (porque se contraria a economia comunicativa), é grande o número de termos sinónimos que em galego-português designam a ferramenta que serve para apertar e afrouxar parafusos. Na internet registamos, por ordem alfabética, aparafusador, aparafusadora, chave de fenda(s), chave de parafuso(s), desandador e desaparafusador. Polo que di respeito à distribuiçom geográfica destes termos, cabe resenhar que desandador é exclusivo de Portugal e que, enquanto no Brasil se preferem, nos casos de chave de fenda(s) e chave de parafuso(s), as variantes que apresentam no singular o segundo componente nominal, em Portugal regista-se preferência polas que o apresentam no plural.

2. Ora, de todos esses termos, os únicos que, em geral, registam os dicionários lusitanos e brasileiros, tanto os da língua comum como os da língua especializada, som chave de fenda(s), chave de parafuso(s) e desandador. Umha consulta no motor de pesquisa internética “Google” permite verificar que, tanto em Portugal como no Brasil, chave de parafuso(s) apresenta um uso algo mais freqüente que chave de fenda(s), ocupando desandador o terceiro posto em Portugal. Do resto de sinónimos supracitados, apenas aparafusadora apresenta um uso, conforme testemunha a internet, considerável. O termo aparafusadora usa-se em Portugal —mas nom, em geral, no Brasil— como sinónimo (preferente) de chave de parafusos/fendas elétrica.

3. É importante termos em conta que, em sentido estrito, os termos chave de parafuso(s) e chave de fenda(s) nom som sinónimos entre si, já que chave de parafuso(s) é termo de significaçom mais ampla (hiperónimo) que chave de fenda(s) (hipónimo). Com efeito, chave de fendas designa apenas aquelas chaves de parafusos destinadas a apertar e afrouxar parafusos cuja cabeça apresenta umha fenda, existindo, no entanto, outros tipos de parafusos, que requerem de outros tipos de chaves de parafusos (por exemplo, os denominados parafusos Phillips som apertados e afrouxados com chaves de parafusos de estrela).

4. Se aceitarmos o critério geral exposto no Manual de Galego Científico de preferirmos para a Galiza as soluçons lusitanas nos casos de divergência terminológica entre Portugal e o Brasil, podemos adotar em galego o seguinte esquema designativo para significarmos a ferramenta que serve para apertar e afrouxar parafusos: priorizaremos decididamente chave de parafusos (ou, no seu caso, chave de fendas) sobre desandador e, em relaçom à chave de parafusos elétrica, junto com este termo, também utilizaremos aparafusadora.

Categoria(s): Léxico
Chuza!