Categoria: Morfossintaxe

Saudaçom

19-02-2011

CONSULTA:

Queria saber se na nossa normativa seria permitido o uso da forma "saúdo", nom existente no resto da lusofonia ou unicamente seria válida a forma saudaçons ou saudaçoes, dependendo da zona da Galiza.Por exemplo no final de umha missiva.
Cumprimentos e parabéns por este serviço tam útil e necessário.

Aniceto Pinilla Nunes

RESPOSTA DA COMISSOM:

A voz saúdo pertence ao ámbito da língua culta e forma parte das fórmulas de cortesia. Desde o século XVI a única língua que na Galiza se arrogou o direito de se chamar culta foi o castelhano e, portanto, qualquer expressom que manifestasse respeito devia de se fazer nessa língua, de tal maneira que as fórmulas de cortesia que se impugérom, mesmo falando galego, fôrom as castelhanas: grácias/graças, vostede/vostê/ostê, adiós, mi padre/mi madre, mi amo/mi senhor e, também, saúdo. Este último termo, ainda que morfologicamente se pudesse justificar como umha formaçom autóctone, é claro que deve o seu uso e ampla difusom ao castelhano, como o demonstra o facto de a voz saudaçom estar documentada desde o século XIII, e saúdo apenas no galego moderno.

Conseqüentemente, deve evitar-se o substantivo saúdo e utilizar no seu lugar saudaçom, saudaçons ou cumprimentos para nos referir à açom ou efeito de saudar.

Categoria(s): Léxico, Morfossintaxe
Chuza!
Agra-Fojo

16-02-2011

Fojo para o lobo na serra da Peneda

CONSULTA:

Agrafoxo, Agrafojo, Agrafogo?

Este apelido é típico da zona da costa corunhesa, entre Noia e Ribeira, só que nom sei qual seria a forma escrita correta.

Aloia Fernández-Sampedro Carvalhido

RESPOSTA DA COMISSOM:

Como ocorre com outros muitos, Agrafojo é um apelido de origem toponímica, composto de dous elementos transparentes: agra + fojo.

A forma correta de grafar o segundo elemento é Fojo, substantivo que deriva do latim popular foveu (latim clássico fovea): ‘cova, buraco, furna’ (Cf. o castelhano «hoyo»).

Um fojo é (ou antes era) uma armadilha para apanhar lobos. Consistia numha cova funda e redonda tapada com ramos, amiúde parcialmente rodeada dum muro de calhaus. Muitas vezes no fundo do fojo era colocada uma infeliz ovelha tinhosa para que servisse de engodo à voracidade do lobo, como nos recorda Camilo Castelo Branco numha das suas célebres Novelas do Minho.

Como topónimo é abundante na Galiza e nas terras minhotas e trasmontanas, nom raro associado, como era de esperar, ao lobo: Fojo do Lobo, Fojo Lobal, etc.

Nota:
Enquanto topónimo, é melhor escrever "Agra-Fojo" (cf. apêndice toponímico do Prontuário Ortográfico Galego e o programa Topogal da CL-AGAL), grafia que torna clara a composiçom semántica da denominaçom e que harmoniza com o uso habitual em Portugal ("Vila Cova", por exemplo) e que, convenientemente, contraria o hábito espanhol hoje mimeticamente adotado na Galiza polas instituiçons galegas ("Vilaboa").

Categoria(s): Ortografia, Léxico, Morfossintaxe
Chuza!
Fui ou fum?

14-02-2011

CONSULTA:

Seria aceite na escrita, é só uma particularidade dialetal ou uma outra coisa?

Fui - Fum
Colhi - Colhim

Pablo César Galdo Regueiro

RESPOSTA DA COMISSOM:

Como é bem sabido, o galego perdeu de maneira muito maioritária a nasalaçom vocálica fonologicamente rendível que existiu na etapa medieval e que ainda existe em Portugal, Brasil e restantes países de língua portuguesa, ao ponto de ser considerado esse um traço caraterístico do português. Referimo-nos a formas como 'irmão', 'cães' ou 'canções'. Entretanto, na Galiza produziu-se também umha curiosa generalizaçom do traço consonántico nasal velar nas primeiras pessoas dos pretéritos perfeitos da segunda e terceira conjugaçons fracas e na mesma pessoa de todos os pretéritos perfeitos fortes, tal como se vê no exemplos colocados pola pessoa que nos fai esta consulta.

É verdade que existem ainda pontos no leste do nosso país (Portelas, Ancares...) onde se conserva a forma original nom anasalada. No entanto, é evidente o caráter muito maioritário da forma inovadora, provavelmente resultado da extensom analógica do -m presente noutras terminaçons do mesmo tempo. Esse fator, junto à inquestionável natureza endógena do fenómeno (o espanhol coincide aí com o resultado antigo galego e com o atual luso-brasileiro) tornam recomendável a padronizaçom das formas com nasalaçom, quer dizer, as segundas dos pares que figuram no enunciado da consulta. É isso que fam o Estudo Crítico e o Prontuário Ortográfico da AGAL desde as suas primeiras ediçons, de 1983 e 1985, respetivamente.

Categoria(s): Morfossintaxe
Chuza!
A mesóclise

11-02-2011

CONSULTA:

Exemplos de mesóclise pronominal são os seguintes: Convidar-me-ão para a festa. Convidar-me-iam para a festa. Penso que maioritariamente, como fazem também no Brasil, optamos por outras fórmulas para estes tempos verbais: Vão me convidar para a festa (Brasil). Vão-me convidar para a festa. Vão convidar-me para a festa. Neste caso, que seria o mais correto?

Pablo César Galdo Regueiro

RESPOSTA DA COMISSOM:

Fora da linguagem escrita ou de estilos orais de algumha formalidade, a mesóclise pronominal está em boa medida ausente da  oralidade portuguesa e já é totalmente desconhecida na do Brasil, estando praticamente ausente do galego contemporáneo, quer oral, quer escrito. No quadro da configuraçom de um modelo morfossintático culto, poderá ser conveniente a introduçom de pronomes mesoclíticos em galego, se bem que, à vista da diminuiçom do uso de tal estrutura em lusitano e brasileiro e  do recuo de outros traços morfossintáticos fundamentais na língua hoje  cultivada na Galiza (genuína colocaçom proclítica/enclítica dos pronomes átonos, infinitivo flexionado, futuro do conjuntivo, nexos  das cláusulas de relativo...), à CL-AGAL nom pareça necessário prescrever nem promover em galego a colocaçom mesoclítica do pronome.

Categoria(s): Morfossintaxe
Chuza!
'Já lhe-lo dixem' ou 'Já lho dixem'?

10-02-2011

CONSULTA:

No padrão português não existe diferenciação no número de destinatários de uma ação, enquanto nas variantes dialetais da Galiza esta diferenciação manifesta-se: Dar a ele ou ela: Dar-lho, dar-lha, dar-lhos, dar-lhas; dar a eles ou elas: dar-lhe-lo, dar-lhe-la, dar-lhe-los, dar-lhe-las; são corretas estas expressões que escrevi? Obrigado.

Pablo César Galdo Regueiro

RESPOSTA DA COMISSOM:

Conforme os falares galegos, a correspondente soluçom é lho ou lhe-lo. A CL-AGAL, no Estudo Crítico (p. 221), admite as duas  soluçons, priorizando a forma comum com o lusitano e brasileiro  (-lho).

Categoria(s): Morfossintaxe
Chuza!

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