Categoria: Morfossintaxe

"Gostaria de caminhar pola rua, mas algumha nom tem passeio"

25-04-2011

CONSULTA:

Tenho entendido que "beira-rua" é umha palavra 'inventada' modernamente. Gostaria saber qual é a forma mais correcta em galego.

Por outra parte, e a raiz da frase minha anterior, é mais correcta em galego a expressom "gostaria saber" ou "gostava de saber"?

Obrigada.

Rosa

RESPOSTA DA COMISSOM:

1. Questom sobre beira-rua

Com efeito, a voz beira-rua foi inventada polo Instituto da Lingua Galega, entidade codificadora isolacionista, no decénio de 1980 para preencher umha lacuna designativa do galego. Ora, tal invençom é por completo desnecessária e prejudicial para a nossa língua, dado que se revela antieconómico termos de aprender umha palavra nova, inventada, cujo uso acarreta isolamento a respeito das variantes geográficas socialmente normalizadas do galego, isto é, a respeito do lusitano e do brasileiro. Se tanto em galego como em lusitano e brasileiro se di rua, o lógico é que o galego coincida também com as suas variantes na designaçom do espaço lateral da rua destinado aos peons, isto é o passeio.

A norma geral, de senso comum, natural e económica para o galego que o Reintegracionismo e a Comissom Lingüística da AGAL proponhem aplicar a casos como este, em que se devem designar conceitos cuja apariçom é posterior ao início na Galiza dos Séculos Obscuros (séc. XV), consiste na coordenaçom lexical constante com os padrons lusitano e brasileiro e na simultánea expurgaçom dos castelhanismos suplentes (neste caso, *acera). No caso de se registar divergência lexical entre Portugal e o Brasil, como norma geral, e até nom se atingir umha efetiva unificaçom lexical, a Comissom Lingüística, atendendo à maior proximidade geográfica e sociocultural existente entre a Galiza e Portugal, propom adotar em galego a soluçom conhecida em Portugal.

Para findarmos o tratamento da questom relativa a *beira-rua, diga-se que esta voz inventada polo ILG, apesar de ter sido concebida num “laboratório”, nom se revela plenamente compatível com o léxico galego, já que nom se amolda bem ao modelo representado pola voz patrimonial galego-portuguesa beira-mar (ou, também, beira-rio). Observe-se, a este respeito, que a beira-mar nom fai parte do mar, mas o passeio sim fai parte da rua, polo que, se tivesse sido bem formada, a voz inventada teria adotado a forma beira-calçada! Em qualquer caso, por motivos de clara economia comunicativa e de solidariedade intrassistémica, sempre deveremos preferir em galego o uso de passeio.

2. Questom sobre o verbo gostar

O uso correto de gostar inclui a preposiçom de. Exemplos: Nom gosto de gelados. Gosto muito de ir à praia. Por outro lado, som construçons sinónimas e igualmente válidas Gostaria de saber e Gostava de saber, sendo esta última menos formal do que primeira.

Categoria(s): Léxico, Morfossintaxe
Chuza!
Tenho vontade de ir correr

30-03-2011

CONSULTA:

Queria saber se no galego está bem dito dizer "tenho ganas de ir correr" ou se pola contra é um cas-telhanismo e deveriamos usar coma no português a forma "ter vontade de"

Obrigada

RESPOSTA DA COMISSOM:

A origem castelhana da palavra "gana/s" é umha realidade admitida sem controvérsia, seguindo o que afirma Corominas: "GANA, palabra propia del castellano". De facto, se fosse um termo galego-português seria hoje "gá/gam/gã" (gót. GANON).

Nos dicionários (luso-brasileiros) ocorre com o significado de "GRANDE apetite ou desejo VEEMENTE de algo ou de fazer mal", e é com esse significado restrito que ocorre, só em tempos recentes -nom se conhecem exemplos antigos-, em Portugal e no Brasil. Por esta razom, nom consideramos oportuno banir tal uso entre nós, embora recomendemos com força o emprego de outras possibilidades.

Em definitivo, sendo óbvio que a expressom "ter gana/s de" com os mesmo valores do espanhol resulta da interferência desta última língua, pensamos que a alternativa à mesma mais adequada na nossa língua é, na maioria dos contextos, como afirma a consulente, "ter vontade de" (Tenho vontade de ir ao cinema; Tenho vontade de ir correr).

Porém, existem outras expressons com significado semelhante que amiúde traduzem melhor a força desta frase genuinamente espanhola:

Tenho vontade de ver-te.

Tenho saudades de ti/tuas.

Tarda-me ver-te.

Categoria(s): Léxico, Morfossintaxe
Chuza!
A grafia vido(ído)

19-02-2011

CONSULTA:

Teño visto pintado sobre os carteis de Biduído (Parroquia de Ames) "Vidoído". É a proposta da AGAL? Podo entender o da 'o' pero por que con V se ven supostamente de "Betu"?

Manoel

RESPOSTA DA COMISSOM:

O topónimo Vidoído consta da base vido- e do sufixo -ido. O componente vido- corresponde-se com as palavras da língua comum vidoeiro ou vido, que designam a árvore de casca branca, freqüente na Galiza, que os biólogos adscrevem ao género Betula. Aqui, o sufixo -ido (concorrente com -edo: vidoedo) é de caráter abundancial, de modo que Vidoído significa, etimologicamente, ‘lugar de muitos vidoeiros ou vidos’.

As denominaçons vernáculas galego-portuguesas da árvore em causa, quando escritas com ortografia galego-portuguesa (nom com a castelhanizante da rag-ilg), levam, portanto, um uvê, apesar de o correspondente étimo (latino) começar por bê (betula). A razom para tal discordáncia gráfica com o étimo é que a ortografia galego-portuguesa nom é puramente etimológica, mas de índole mista, histórico-etimológica, de modo que, nalguns (poucos) casos, por causa da evoluçom interna das palavras, a grafia atual se separa daquela que mostrava o étimo correspondente.

Observe-se que grafarmos hoje em galego a palavra vido(eiro) com uvê nom acarreta qualquer desvantagem (nom se distorce a pronúncia galega, por exemplo), e sim, polo contrário, umha evidente vantagem: há cerca de douscentos milhons de pessoas no mundo que, chamando vidoeiro ao vidoeiro, hoje se reconhecem na grafia vidoeiro (e na de coruja, jeito, minhoca, etc.).

Categoria(s): Ortografia, Léxico, Morfossintaxe
Chuza!
Saudaçom

19-02-2011

CONSULTA:

Queria saber se na nossa normativa seria permitido o uso da forma "saúdo", nom existente no resto da lusofonia ou unicamente seria válida a forma saudaçons ou saudaçoes, dependendo da zona da Galiza.Por exemplo no final de umha missiva.
Cumprimentos e parabéns por este serviço tam útil e necessário.

Aniceto Pinilla Nunes

RESPOSTA DA COMISSOM:

A voz saúdo pertence ao ámbito da língua culta e forma parte das fórmulas de cortesia. Desde o século XVI a única língua que na Galiza se arrogou o direito de se chamar culta foi o castelhano e, portanto, qualquer expressom que manifestasse respeito devia de se fazer nessa língua, de tal maneira que as fórmulas de cortesia que se impugérom, mesmo falando galego, fôrom as castelhanas: grácias/graças, vostede/vostê/ostê, adiós, mi padre/mi madre, mi amo/mi senhor e, também, saúdo. Este último termo, ainda que morfologicamente se pudesse justificar como umha formaçom autóctone, é claro que deve o seu uso e ampla difusom ao castelhano, como o demonstra o facto de a voz saudaçom estar documentada desde o século XIII, e saúdo apenas no galego moderno.

Conseqüentemente, deve evitar-se o substantivo saúdo e utilizar no seu lugar saudaçom, saudaçons ou cumprimentos para nos referir à açom ou efeito de saudar.

Categoria(s): Léxico, Morfossintaxe
Chuza!
Agra-Fojo

16-02-2011

Fojo para o lobo na serra da Peneda

CONSULTA:

Agrafoxo, Agrafojo, Agrafogo?

Este apelido é típico da zona da costa corunhesa, entre Noia e Ribeira, só que nom sei qual seria a forma escrita correta.

Aloia Fernández-Sampedro Carvalhido

RESPOSTA DA COMISSOM:

Como ocorre com outros muitos, Agrafojo é um apelido de origem toponímica, composto de dous elementos transparentes: agra + fojo.

A forma correta de grafar o segundo elemento é Fojo, substantivo que deriva do latim popular foveu (latim clássico fovea): ‘cova, buraco, furna’ (Cf. o castelhano «hoyo»).

Um fojo é (ou antes era) uma armadilha para apanhar lobos. Consistia numha cova funda e redonda tapada com ramos, amiúde parcialmente rodeada dum muro de calhaus. Muitas vezes no fundo do fojo era colocada uma infeliz ovelha tinhosa para que servisse de engodo à voracidade do lobo, como nos recorda Camilo Castelo Branco numha das suas célebres Novelas do Minho.

Como topónimo é abundante na Galiza e nas terras minhotas e trasmontanas, nom raro associado, como era de esperar, ao lobo: Fojo do Lobo, Fojo Lobal, etc.

Nota:
Enquanto topónimo, é melhor escrever "Agra-Fojo" (cf. apêndice toponímico do Prontuário Ortográfico Galego e o programa Topogal da CL-AGAL), grafia que torna clara a composiçom semántica da denominaçom e que harmoniza com o uso habitual em Portugal ("Vila Cova", por exemplo) e que, convenientemente, contraria o hábito espanhol hoje mimeticamente adotado na Galiza polas instituiçons galegas ("Vilaboa").

Categoria(s): Ortografia, Léxico, Morfossintaxe
Chuza!

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