CONSULTA:
A que se deve o uso da única exceçom nas terminações -çom/-som como é «ocasiom»? Nom é um pouco contraproducente o seu uso, sobretudo tendo em conta que no galego medieval já se tende a perder o «i» e mesmo poderia passar por castelanismo?
RESPOSTA DA COMISSOM LINGÜÍSTICA:
O latim OCCASIONE(M) deu como resultado popular "(o)cajom" na Idade Média. A partir do séc. XIV surge a latinismo "ocasiom", que pola data de entrada na língua e carácter erudito mantivo o "i". Nunca existiu *ocasom.
CONSULTA:
Bom dia,
Gostaria de saber cal é a ortografia correta em galego e a denominaçom correta para o que na norma RAG-ILG é conhecido como "zoca"
Gracinhas
Rudesindo Bombarral
RESPOSTA DA COMISSOM LINGÜÍSTICA:
Em contraste com o que acontece nas variedades lusitana e brasileira do galego-português, na variedade galega da língua, e de harmonia com o Prontuário Ortográfico Galego da Comissom Lingüística da AGAL (parágrafo 80), as palavras çoca, çoco e çoqueiro grafam-se com cê-cedilhado inicial (com esse inicial em lusitano e em brasileiro: soca, soco, soqueiro). Tal circunstáncia deve-se a que, na Galiza, a realizaçom do primeiro fonema dessas palavras (como também no caso de çanja) pode ser sigmatista (do grego, letra sigma: realizaçom com o fonema presente, por exemplo, no início da voz soar) ou tetacista (do grego, letra teta: realizaçom com o fonema inicial da voz inglesa think), e, para se reconhecer na escrita tais possibilidades, recorre-se ao grafema ç, que representa as duas realizaçons. Por outro lado, tenha-se em conta que çoco (com ó tónico aberto) também significa ‘base, pedestal, peanha’ (≈ cast. zócalo), enquanto soco (com ó tónico fechado) significa ‘pancada dada com a mao fechada, punhada, murro’.
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Categoria(s): Ortografia
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CONSULTA:
Queria saber qual é a forma culta galega, se existir, para o antónimo de "antano", equivalente, por exemplo, do castelhano "hogaño". Agradecia também umha explicaçom sobre a sua etimologia, se possível.
RESPOSTA DA COMISSOM:
Datada, segundo o dicionário brasileiro Houaiss, no século XIII, a forma 'ogano' é formada do latim 'hoc anno' ('este ano') é considerada arcaica em português, ficando normalmente fora dos dicionários e carente de uso nos padrons brasileiro e lusitano.
Na Galiza, continua a registar-se como uso vivo e sobretodo literário nos séculos XIX, XX e até a atualidade, incluindo-se também nos dicionários e tanto na proposta normativa isolacionista, quanto na reintegracionista, se bem grafada com agá inicial etimológico (Estudo Crítico, 1982).
Quanto ao seu contrário, 'antano' (do latim 'ante annu', 'antes deste ano'), fica fora dos dicionários portugueses e brasileiros, que registam a forma 'antanho', castelhanismo incorporado a Portugal no século XVI e com um uso vigente nos padrões lusitano e brasileiro.
Na Galiza, a forma 'antano' tem mantido um uso paralelo ao seu antónimo, permanecendo hoje nos dicionários e nos padrons isolacionista e reintegracionista (Estudo Crítico, 1982).
Estamos, portanto, diante de duas formas adverbiais diferenciais galegas no ámbito galego-luso-brasileiro-africano de expressom portuguesa. Como tais, ambas som tidas por legítimas e o seu uso considerado correto.
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Categoria(s): Ortografia, Léxico
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CONSULTA:
Tenho outra dúvida sobre topónimos modificados con pintura nos carteis na parroquia de Biduído (Vidoído, segundo vós), en Ames. Aparece trocado Bentín por Ventim e acho que nom é correcto, por proceder de maneira evidente na minha opiniom, do antropónimo Bento. Que me podedes dizer ao respeito? Obrigado.
Manoel
RESPOSTA DA COMISSOM:
A maior parte dos numerosos topónimos que possuem a terminaçom -im (Sendim, Marim, Lalim, Verim...), como outros acabados em -i (Sismundi), em -e (Urdilde) ou em -áns (Bertamiráns), tenhem origem em genitivos latinos aplicados a possessores de nome germánico ou galaico-romano na Alta Idade Média. Por exemplo, no caso de Sendim, é preciso supor umha forma antiga como (Vîllam) Sandîni, genitivo de Sandînus, que iria perder a primeira palavra “Vila” posteriormente, e que traduzida à linguagem dos nossos dias significaria 'vila ou terras de Sandino'.
O topónimo Ventim também pertence ao grupo que tem origem num antropónimo, mas este relaciona-se com o atual Valentim e nom com Bento, devendo escrever-se portanto com v. De facto, assim aparece documentado já na época medieval repetidamente, altura em que também conheceu a forma prévia Vaentim/Vaintim, como mostramos abaixo num documento latino de 1156. Sem ser um topónimo freqüente, regista-se também, para além de Ames, nos concelhos de Fornelo de Montes, Muros, Maçaricos, Ribeira, Pol, Touro e Caniça.
1156, maio, 12.
Nuno Páez, juntamente com os seus filhos, vende ao mosteiro de Sam Justo [de Tojos-Outos] a sua propriedade (que é a duodécima parte, que herdou dos seus antepassados) do chamado «casal de Anaia», no lugar de Serres (da freguesia de Sam Joám [de Serres, no atual concelho de Muros]), por um potro de boa qualidade.
Tombo de Tojos-Outos, fólios 54v-55r.«Carta de Munio Pelaiz de hereditate de Serres».
In Dei nomine.
Ego Munio Pelaici et filii mei vobis senioribus Sancti Iusti, in Domino salutem.
Placuit michi et mea est voluntas ut facerem vobis kartam vendicionis de hereditate mea propria quam habeo de subcepcione avorum meorum et parentum in villa Serres, sub aula Sancti Iohannis, sub monte de Tixia et de Cavalengo, discurrente fluvio Sirria, et per terminos de Vaintim et de Peda Mala et per certos terminos antiquos de illa hereditate de illo casale de Serres supra nominato, qui apellatur «casale de Anaia».
Do vobis duodecimam partem, quietam et absque calumpnia, pro quo accepi de vobis unum poldrum obtimum; quod mihi et vobis bene complacuit, et de precio nichil remansit in debito. Habeatis eam, cum omnibus suis directuris, per ubi eam potueritis invenire, et faciatis de illa que vestra fuerit voluntas.
Sed si aliquis homo contra hanc scripturam venerit, vel venero, pariat illam hereditatem duplatam, et insuper solidos XXX.
Facta karta venditionis IIIIº idus maii, era Iª Cª LXLª IIIIª [= millesima centesima nonagesima quarta = era 1194 = ano 1156].
Ego Munio in hac karta manus.
Qui presentes fuerunt: Petrus, ts.; Pelagius, ts.
Munio qui notuit.(Informaçom proporcionada por José Martinho Montero Santalha)
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Categoria(s): Ortografia, Morfossintaxe
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CONSULTA:
Não entendo o porquê de se manter o trema no título, acima, do Consultório: Linguístico, não Lingüístico, em conformidade com o Acordo ortográfico que une os países de Língua Oficial Portuguesa. Por que não tirar ele daí??
Julio
RESPOSTA DA COMISSOM:
A esmagadora maioria dos falantes de galego-português que vivem na atual Galiza, culturalmente subordinados ao castelhano, proferem mal, à castelhana, todas aquelas seqüências galego-portuguesas integradas por gê mais u e por quê mais u que se revelam divergentes a respeito do castelhano, como, por exemplo, anguiforme (por eles pronunciada /gi/), delinquir (por eles pronunciada /ki/), equidade (por eles pronunciada /ki/), equino ‘relativo ao cavalo’ (por eles pronunciada /ki/), tranquilo (por eles pronunciada /ki/); essas pessoas, além disso, ignoram a pronúncia de tal seqüência quando ocorre em eruditismos galego-portugueses que nom existem em castelhano, como liquefazer.
Para fazer face a este problema, com intuito pedagógico, a Comissom Lingüística da AGAL decidiu manter na sua norma ortográfica, após a sua incorporaçom ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, a utilizaçom do trema (como que a “prorrogar” na Galiza o que foi feito no Brasil até 2010: cf., p. ex., dicionário Houaiss). Deste modo, os galegos ficam mais facilmente a saber, quando lem um texto escrito com esta ortografia galego-portuguesa, que o u deve soar, por exemplo, em angüiforme, delinqüir, eqüidade, eqüino e tranqüilo, mas nom em liquefazer.
De resto, como já explicámos numha resposta anterior (q.v.), tal alvitre gráfico, peculiar da Galiza, nom levanta qualquer obstáculo significativo à unidade ortográfica galego-portuguesa.
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Categoria(s): Ortografia
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