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Tempos compostos

22-07-2015

CONSULTA

Olá! Desejo saber se existem tempos verbais compostos em galego, como existem em português. É estranho ver no paradigma verbal do galego oficial não aparecerem tempos como o pretérito perfeito (tenho cantado) ou o condicional composto (teria cantado). Assumindo que vocês utilizam o mais-que-perfeito simples (eu cantara), como exprimem os outros tempos? Trata-se duma menor riqueza verbal do galego face ao português? (Isso não seria nenhuma tragédia; há línguas românicas que têm simplificado muito o seu sistema verbal, por exemplo o francês e o romeno). No caso de vocês utilizarem tempos compostos, gostaria de saber que verbo utilizam como auxiliar (ter ou haver) e em que tipo de frases. Agradeceria muito me resolverem a minha dúvida.

RESPOSTA DA COMISSOM LINGÜÍSTICA:

Antes de mais, diga-se que para nós nom se trata de umha questom de gramática do galego face «ao português», mas antes de umha questom gramatical da variedade galega (do galego-português) em comparaçom com a variedade lusitana e com a variedade brasileira. Diga-se também à partida que a Comissom Lingüística da AGAL ainda nom se tem pronunciado de forma explícita e específica sobre a codificaçom gramatical ou morfossintática da variedade galega do galego-português (como si o tem feito nos campos da ortografia, da morfologia, do léxico), embora sim podamos oferecer agora umhas orientaçons gerais sobre a matéria por que se interessa o nosso consulente.
A resposta da CL-AGAL à questom posta é simples: se bem que no galego espontáneo, popular (multissecularmente sujeito a estagnaçom e erosom expressivas), os tempos verbais compostos, também designáveis como perífrases verbais aspetuais de estrutura «ter + particípio», sejam raros, a língua formal, culta, deve incorporá-los abertamente, conforme o modelo luso-brasileiro, para enriquecer a sua expressividade. Nomeadamente, polo que di respeito aos seguintes valores (consultem-se, a este respeito, as pág. 495–500 da segunda ediçom do Manual de Galego Científico, de Garrido e Riera [2011]):

• Perífrase aspetual perfectivo-reiterativa e atualizadora (de estrutura «ter [como presente do indicativo] + particípio»): «A nossa equipa de investigaçom tem feito a experiência com diversos animais de laboratório sem obter qualquer resultado significativo.»; «Como tés estado? Tenho estado muito mal, tenho estado doente.»

• Perífrase aspetual (puramente) perfectiva «ter + particípio»: «É curioso que nom tenham sido descobertos mais depósitos»; «Pensa-se terem sido os orientais os primeiros povos verdadeiramente entendidos na confeçom de medicamentos.».

Apenas duas restriçons, nom absolutas, à incorporaçom destes tempos verbais compostos, ou perífrases verbais aspetuais, ao galego formal: a) pola grande vitalidade e expressividade que mostra em galego o pretérito mais-que-perfeito (eu cantara), poderá limitar-se ou evitar-se na nossa variedade lingüística o uso da perífrase aspetual perfectiva «ter + particípio» em que o auxiliar surge em pretérito imperfeito. Assim, enunciados lusitanos ou brasileiros do tipo «Nunca antes tinha assistido a um congresso de Geofísica», em galego estám bem formulados, também na língua formal, com enunciados do tipo «Nunca antes assistira a um congresso de Geofísica»; b) a perífrase aspetual perfectiva pode construir-se em lusitano e em brasileiro com o auxiliar haver, em vez de ter, possibilidade realizada com certa freqüência na expressom formal; em galego, polo risco de tal proceder ficar associado a umha castelhanizaçom expressiva, recomendamos limitar ao mínimo, e sempre dentro da língua mais formal ou literária, essa possibilidade.

Categoria(s): Morfossintaxe
Chuza!
Tempos Compostos

03-12-2011

CONSULTA:

É correto o uso dos chamados tempos compostos em galego? Obrigado.

Rudesindo Bombarral

RESPOSTA DA COMISSOM LINGÜÍSTICA:

Embora a Comissom Lingüística da AGAL ainda nom se tenha manifestado especificamente sobre questons de morfossintaxe normativa, como a que aqui levanta o nosso consulente, nesta altura, de modo tentativo, e baseando-nos nas consideraçons tecidas no Manual Galego de Língua e Estilo (pág. 165–168) e na segunda ediçom do Manual de Galego Científico (pág. 496–500), podemos oferecer as seguintes orientaçons sobre o emprego em galego dos tempos verbais compostos.
Em primeiro lugar, leve-se em conta que na atual língua espontánea (meramente coloquial), os tempos compostos legítimos, genuínos, tenhem umha representaçom pequena, limitada basicamente à perífrase aspetual perfectivo-reiterativa “ter [como presente do indicativo] + particípio”, que indica repetiçom de umha açom no passado (ex.: «O aviom tem chegado atrasado todos os dias.», «Tenho falado muito com ela.»), e à perífrase aspetual perfectiva “ter [quase sempre como infinitivo] + particípio”, que indica umha açom única concluída no passado (ex.: «Nom fum a Ourense e sinto nom ter ido.»).
Ora, para ganharmos expressividade, eficácia comunicativa, na língua formal galega é necessário enriquecermos este quadro de usos dos tempos compostos, incorporando novos matizes semánticos e possibilidades combinatórias, através de um alargamento natural feito de harmonia com as variedades socialmente estabilizadas do galego (lusitano e brasileiro). Nesta linha, recomendamos para o galego culto o seguinte quadro de usos das formas verbais compostas:
1. Perífrase aspetual perfectivo-reiterativa e atualizadora “ter [como presente do indicativo, como pretérito imperfeito do indicativo, como presente do conjuntivo ou como gerúndio] + particípio”. Para além do significado perfectivo-reiterativo (ex.: «A nossa equipa tem feito a experiência com diversos animais de laboratório sem obter qualquer resultado significativo.»), esta perífrase poderá também utilizar-se com um valor atualizador, i. é, para indicar processos ou estados iniciados no passado cuja duraçom ou cujos efeitos se prolongam até ao presente e ainda podem, porventura, continuar no futuro. De facto, em muitos casos, poderá verificar-se confusom de ambos os valores desta perífrase. Ex.: «O aviom tem estado parado.», «Como tens estado? Tenho estado muito mal, tenho estado doente.», «Ultimamente a resposta de hipersensibilidade tem sido considerada como exemplo da morte celular programada.», «O carvom tem sido empregado desde há muito tempo na geraçom de energia.».
2. Perífrase aspetual perfectiva “ter [como infinitivo invariável ou flexionado / gerúndio / futuro do indicativo (com freqüente valor de hipótese sobre o passado) / pretérito imperfeito do indicativo (sobretodo na Galiza, em concorrência com o pretérito mais-que-perfeito) / pós-pretérito (com freqüente valor de hipótese sobre o passado) / pretérito do conjuntivo / futuro do conjuntivo / presente do conjuntivo] + particípio”, para indicar umha açom única concluída no passado. Exemplos: «Animais lentos e sem defesas eficazes, os megatérios podem ter sido abatidos polo home e por grandes carnívoros.», «Pensa-se terem sido os Orientais os primeiros povos verdadeiramente entendidos na confeçom de medicamentos.», «Tendo concluído a primeira fase da experiência, começárom a segunda.», «As altas temperaturas terám retardado a solidificaçom da lava.», «Nunca antes tinha assistido a um congresso de Geofísica.» (= «Nunca antes assistira a um congresso de Geofísica.»), «Os Chineses teriam realizado os primeiros foguetes em 1100.», «Se tivesses estudado, terias aprovado!», «Quando tu tiveres completado a primeira fase da investigaçom, eu já terei concluído a terceira!», «É curioso que nom tenham sido descobertos mais casos como esse.».

Categoria(s): Morfossintaxe
Chuza!