Tags: pronúncia

Çoco e soco

18-11-2011

CONSULTA:

Bom dia,
Gostaria de saber cal é a ortografia correta em galego e a denominaçom correta para o que na norma RAG-ILG é conhecido como "zoca"

Gracinhas

Rudesindo Bombarral

RESPOSTA DA COMISSOM LINGÜÍSTICA:

Em contraste com o que acontece nas variedades lusitana e brasileira do galego-português, na variedade galega da língua, e de harmonia com o Prontuário Ortográfico Galego da Comissom Lingüística da AGAL (parágrafo 80), as palavras çoca, çoco e çoqueiro grafam-se com cê-cedilhado inicial (com esse inicial em lusitano e em brasileiro: soca, soco, soqueiro). Tal circunstáncia deve-se a que, na Galiza, a realizaçom do primeiro fonema dessas palavras (como também no caso de çanja) pode ser sigmatista (do grego, letra sigma: realizaçom com o fonema presente, por exemplo, no início da voz soar) ou tetacista (do grego, letra teta: realizaçom com o fonema inicial da voz inglesa think), e, para se reconhecer na escrita tais possibilidades, recorre-se ao grafema ç, que representa as duas realizaçons. Por outro lado, tenha-se em conta que çoco (com ó tónico aberto) também significa ‘base, pedestal, peanha’ (≈ cast. zócalo), enquanto soco (com ó tónico fechado) significa ‘pancada dada com a mao fechada, punhada, murro’.

Categoria(s): Ortografia
Chuza!
Mais sobre o trema

03-04-2011

CONSULTA:

Não entendo o porquê de se manter o trema no título, acima, do Consultório: Linguístico, não Lingüístico, em conformidade com o Acordo ortográfico que une os países de Língua Oficial Portuguesa. Por que não tirar ele daí??

Julio

RESPOSTA DA COMISSOM:

A esmagadora maioria dos falantes de galego-português que vivem na atual Galiza, culturalmente subordinados ao castelhano, proferem mal, à castelhana, todas aquelas seqüências galego-portuguesas integradas por gê mais u e por quê mais u que se revelam divergentes a respeito do castelhano, como, por exemplo, anguiforme (por eles pronunciada /gi/), delinquir (por eles pronunciada /ki/), equidade (por eles pronunciada /ki/), equino ‘relativo ao cavalo’ (por eles pronunciada /ki/), tranquilo (por eles pronunciada /ki/); essas pessoas, além disso, ignoram a pronúncia de tal seqüência quando ocorre em eruditismos galego-portugueses que nom existem em castelhano, como liquefazer.

Para fazer face a este problema, com intuito pedagógico, a Comissom Lingüística da AGAL decidiu manter na sua norma ortográfica, após a sua incorporaçom ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, a utilizaçom do trema (como que a “prorrogar” na Galiza o que foi feito no Brasil até 2010: cf., p. ex., dicionário Houaiss). Deste modo, os galegos ficam mais facilmente a saber, quando lem um texto escrito com esta ortografia galego-portuguesa, que o u deve soar, por exemplo, em angüiforme, delinqüir, eqüidade, eqüino e tranqüilo, mas nom em liquefazer.

De resto, como já explicámos numha resposta anterior (q.v.), tal alvitre gráfico, peculiar da Galiza, nom levanta qualquer obstáculo significativo à unidade ortográfica galego-portuguesa.

Categoria(s): Ortografia
Chuza!
O Trema

09-02-2011

CONSULTA:

O trema ou diérese foi eliminado da escrita do português por causa do Acordo. Por que, então, na revisão da ortografia AGAL se decidiu manter e, porém, simplificar os grupos cultos -cc- e -ct-? Não teria sido mais efetivo um achegamento mais firme e decidido, embora se mantivesse a terminação -om? Muito obrigado!

RESPOSTA DA COMISSOM:

Com efeito, a recente aplicaçom no Brasil do Acordo Ortográfico de 1990 tem acarretado o desaparecimento do trema na ortografia da variedade americana do galego-português, a qual o mantinha tempo depois de ele ter sido suprimido da ortografia lusitana. No caso da variedade galega, a CL-AGAL decidiu manter o uso do trema por motivos pedagógicos, já que a utilizaçom deste sinal é importante na atual Galiza para fomentar a correta pronúncia de determinadas vozes de prosódia contrastante com o castelhano, ao mesmo tempo que tal uso nom representa umha quebra especialmente grave da unidade das convençons gráficas da Lusofonia. Assim, por exemplo, escrevermos na atual Galiza eqüino, sangüíneo ou tranqüilizante com tremas (frente a, p. ex., questom), em vez de equino, sanguíneo e tranquilizante, acarreta mais vantagens, no campo prosódico, do que desvantagens (no campo gráfico).

Por outro lado, é evidente que a incorporaçom da Galiza ao Acordo Ortográfico de 1990 patrocinada pola CL-AGAL deve incluir a simplificaçom gráfica de muitas seqüências consonánticas etimológicas -cc-, -ct-, -pc- e -pt-, polas claras vantagens a ela associada: fomenta notavelmente a coesom ortográfica no seio da Lusofonia e favorece (como acontece no caso do trema) a correta realizaçom fónica de numerosas vozes na atual Galiza. Quanto aos receios de algumhas pessoas no relativo à pretensa timidez da atualizaçom do padrom ortográfico da CL-AGAL conforme o Acordo Ortográfico de 1990, o amável consulente pode ficar tranqüilo, porque, na realidade, a adesom da CL-AGAL a tal processo unificador tem sido verdadeiramente decidida e, de facto, nalguns aspetos, mais coerente ou valente que a protagonizada em Portugal e no Brasil: veja, a esse respeito, como na Galiza se padronizam como formas únicas, no capítulo das seqüências consonánticas, as variantes prosódicas e ortográficas comuns a Portugal e ao Brasil, enquanto que nestes dous países nom se priorizam tais formas comuns.

Categoria(s): Ortografia
Chuza!
Pronúncia do cê(-cedilhado) e do zeta

02-02-2011

CONSULTA:

Antes de mais, gostaria de parabenizar a Comissom Lingüística da AGAL por se situar, mais umha vez, na vanguarda da filologia e a lingüística galega. A minha pergunta é de ordem fonética ou fonológica, mas espero que poda ser resolvida. Qual a opiniom que o Presidente da Comissom e o resto de membros tenhem acerca do sesseio e da pronúncia do c? Seria esta pronúncia do c um castelhanismo, já que nom existe no resto da lusofonia, ou seria um fonema legítimo? Com relaçom à anterior pergunta, gostaria de saber se a CL-AGAL tem pensado estabelecer no curto ou meio prazo um estándar fonético para a variedade galega (creio que é mui necessário tratar os aspetos orais, que acho ficárom um pouco abandonados pola AGAL), e além disso, se também tem pensado num futuro realizar qualquer tipo de estudo sobre as diferentes prosódias galegas nom castelhanizadas. Parabéns outra vez. Adiante CL-AGAL!!! Obrigado.

RESPOSTA DA COMISSOM:

A CL-AGAL agradece as amáveis palavras encorajadoras do consulente e a seguir expom com brevidade o seu parecer sobre a questom fonológica por ele formulada.
Com efeito, é desejo da CL-AGAL iniciar em breve prazo, após a publicaçom de um contributo de codificaçom lexical que agora está numha fase avançada de elaboraçom, trabalhos conducentes a oferecer orientaçom sobre certas questons de interesse para configurar um modelo prosódico culto na variedade galega do galego-português.
Entre as questons que abordará tal texto orientador da CL-AGAL, encontrará-se, sem dúvida, umha recomendaçom sobre a realizaçom fónica no galego culto da letra z e das seqüências ça, ce, ci, ço e çu. No entanto, a CL-AGAL nom pode antecipar nesta altura, antes de realizar os pertinentes estudos e deliberaçons, qual será a sua posiçom a esse respeito, se bem que ela poda manifestar agora, em resposta à pergunta do amável consulente, que a correspondente recomendaçom prosódica nom se identificará com o modelo de completo tetacismo que hoje, por influência do castelhano, predomina nos falares galegos. (Tetacismo: articulaçom com o fonema /θ/, o inicial da voz cinco no castelhano de Castela ou da voz think em inglês).

Exemplo de ausência de tetacismo (com pronúncia dental tanto de s/ss como de c/ç e z):
Categoria(s): Fonética
Chuza!