Ignominiosa morte de Manuel do Rio Mandaio

Ignominiosa morte de Manuel do Rio Mandaio

10-10-2009

À memória de Pilar Nabeira Golám, falecida o dia de ontem aos 99 anos

Manuel do Rio Mandaio procedia das Juventudes Socialistas, quando passou a militar no PSOE. Tratava-se de um homem de ideias moderadas, seria hoje um bom social-democrata. Crê-se que nem sequer andou armado. Embora formasse parte do Comité da Frente Popular de Ordes. Como conseqüência tinha a convicçom de que nada mau lhe podia ocorrer, que nom havia que temer umha represália contra a sua pessoa porque ele nom cometera nunca um acto violento ou indigno. Por isso nom escapou.

Continua:

Nos dous primeiros meses do movimento militar, assassinava-se indiscriminadamente. Nom obstante Manuel nom foi molestado por ninguém, durante um corto período de tempo. De pronto umha tarde, a tranquilidade interrompe-se. O esbirro de “El Ventorrilla” apresenta-se no seu domicílio para dizer-lhe que o Sr. Pe Pérez queira falar-lhe. Manuel que estava em casa descansando em companhia da sua mulher e filhos ao ver que tinha que acompanhar a tal personagem, conhecida por toda a vila como sicário do guarda civil Pe Pérez. A família do Rio assustou-se e num princípio Manuel resistiu-se a sair da sua casa, mas houvo de ceder perante a ameaça de “El Ventorrilla” de que se nom o acompanhava viria o resto do grupo e levariam-no à força, com o que o risco seria maior. Que do único que se tratava é de que tinha que conduzi-lo ao quartel da guarda civil, onde Pe Pérez o estava esperando, para fazer-lhe umhas perguntas, um mero trámite, e nada mais. Manuel já nom se fijo o renuente, senom ao contrário, dispujo-se docilmente a seguir ao “El Venturrilla”, embora com muito medo, dada a catadura do indivíduo que o levava. Pilar, a sua esposa, fica desesperada em casa, e sumamente desconfiada. Pensava no pior.

Quando Manuel chega ao quartel, ali estava Pe Pérez esperando-o, e já preparado para iniciar o “hábil interrogatório”. Manuel do Rio Mandaio mostrou-se submisso, em concordáncia com o seu carácter aprazível e bondadoso. Pressentia a tragédia. Ao começar o interrogatório, compreendeu que as horas que lhe ficavam de vida eram mui poucas, o desenlace fatídico ia ser iminente.

Ao dar-lhe a primeira “passada” já nom oferecia dúvida de que o momento do seu sacrifício chegava asinha, nom havia alternativa. Sopravam ventos de morte na sua contra. Depois dos “repassos” contínuos, da cruel tortura padecida por Manuel, perde o conhecimento. Recuperam-lho e metem-no num turismo, de um elemento da vila, que se identificava com o grupo de Pe Pérez, ao que já lhe tinha prestado vários serviços “fúnebres”. Manuel Foi “passeado” na madrugada do dia 5 de Outubro de 1936. Enterrárom-no em Boisaca, numha das muitas fossas comuns que já estavam abertas em espera dos seus “inquilinos” forçosos, e numha delas posteriormente fôrom enterrados também os fusilados de Ordes, condenados à última pena no Conselho de Guerra.

Manuel do Rio Mandaio e os demais de Ordes, estám todos enterrados nessa ampla zona de Boisaca, sem que se poda determinar o lugar exacto. A zona porém está sinalizada por uns marcos.

Pilar Nabeira, a esposa de Manuel do Rio Mandaio, que ficara tam preocupada quando o seu marido marchou da casa com o “El Ventorrilla”. As mulheres som mais intuitivas que os homens, e dada a sua sensibilidade, pressagiam melhor os acontecimentos, tenhem dotes premonitórias. Deu-se conta no momento de sair Manuel da casa que já nom volveria. Decide-se a jogar a única baça que lhe quedava, a última oportunidade. Existia pois ainda umha leve esperança.

Aqueles dias Manuel, na sua condiçom de acreditado ebanista, estava realizando uns trabalhos na casa de dom Arturo Peres Loureiro, um Tenente Coronel do Exército, que o 14 de Setembro de 1936, fora nomeado Presidente da Cámara Municipal e Delegado Civil. Do Rio Mandaio levava anos fazendo-lhe trabalhos profissionais a D. Arturo e consideravam-no e apreciavam-no bastante. Ou polo menos isso cria o matrimónio Manuel e Pilar.

Ao ver que Manuel tardava em regressar, suspeitando o pior, Pilar toma a resoluçom de ir ver a D. Arturo Peres Loureiro e referir-lhe o ocorrido com o seu marido. Recebêrom-na amavelmente e dona Glória, a esposa do presidente, mostrou-se doce e compreensiva com Pilar. Dona Glória era, em verdade, umha mulher boa e encantadora.

Pilar na entrevista conta-lhes com todo detalhe os factos. Que ignorava onde se poderia encontrar naquele momento, mas que devia estar no quartel da guarda civil, e se se intervinha pronto, quiçá ainda era possível salvá-lo.

D. Arturo mostrou-se evasivo, dixo que ele nom podia fazer nada sobre estes assuntos, que nom queria, aliás, imiscuir-se em nada relacionado com a guarda civil. Eram nada mais que desculpas. D. Arturo era entom o homem com mais poder da vila, o que tivo ocasiom de demonstrar depois e com demasiado rigor. A sua influência era enorme. Fora designado Presidente e Delegado Civil por ordem expressa e directa da cúpula militar.

Porém dona Glória, sim lhe prometeu a Pilar, que convenceria ao seu marido para que intervisse imediatamente a favor do seu, Manuel do Rio Mandaio. Antes de marchar, o Presidente manifestou-lhe a Pilar que ia a interceder por Manuel mas que nom lhe podia garantir nada. Que dentro de um par de horas volvesse a vê-lo para dar-lhe o resultado das suas gestons.

Duas horas. Umha eternidade. A angústia. A esperança. A desesperança. Um inferno. Umha luz no céu. As trevas. Duas horas de contradiçons.

Pilar volve a casa de D. Arturo Peres Loureiro e este comunica-lhe, hipocritamente compungido, que o assunto do seu marido era mui comprometido, que estava mui mal, que nada se podia fazer.

Estas palavras do Presidente nom as tragou Pilar, nem as pudo crer ninguém, pois era do domínio público que dom Arturo tinha um carácter forte e autoritário e que nem a guarda civil lhe negava nada. Em suma que o Presidente e Delegado Civil, pudo e deveu apresentar-se no quartel da guarda civil e sacar de ali a Manuel do Rio Mandaio, sem dificuldade nengumha, e salvá-lo da morte. Pudo incluso responder por ele para jamais o molestassem. Sabe-se de pessoas que incluso levavam um salva-conduto do Presidente, para que todo o mundo as respeitasse. A verdade, a triste e asquerosa realidade, é que D. Arturo nom se preocupou por nada. Quiçá um telefonema sem interesse. Sobre a consciência de aquele militar retirado, em grande parte, há que cargar a morte do infortunado Manuel do Rio Mandaio. Se o remordimento existe nesta classe de pessoas, desde entom nom pudo ter dormido tranquilo. Embora ocorre com demasiada freqüência! Que Deus deve andar “despistado”, porque em ocasions se dedica a premiar aos maus e a castigar os bons. E pode resultar que todo seja umha metáfora.

Fragmento de: ASTRAY RIVAS, Manuel. Síndrome del 36. La IV Agrupación del Ejército Guerrillero de Galicia. Sada, Ediciós do Castro, 1992, pp. 91-94.

Escrito às 18:37:52 nas castegorias: Nom categorizado, MEMÓRIA, Documentos
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