Os mártires de Arjám (Messia)

Os mártires de Arjám (Messia)

29-01-2010

No passado 12 de Fevereiro cumpriu-se o bicentenário do fusilamento na capela de Arjám (Messia, comarca de Ordes) de doze vizinhos retaliados polo exército francês, poucos dias depois da batalha de Elvinha, que transcorreu entre o 16 e o 18 de Janeiro de dito ano. Sobre estes factos —situados no contexto das guerras ibéricas, durante as quais a Galiza foi na realidade um estado independente durante os anos da contenda, com embaixada em Inglaterra e Portugal, para além de organismos fiscais, militares e de governo próprios— escreveu o pároco de Sam Cristovo de Messia no livro de defunçons:

Continua:

“No dia 13 de Fevereiro (segunda-feira de Carnestolendas) do ano de 1809, dentro da Capela da Nossa Senhora de Arjám, situada na paróquia de Sam Cristovo de Messia, com só um responso a cada um, e todos juntos numha, polo raro, e apertado do caso, deu-se sepultura aos cadáveres de Mateu Sanches, marido de Luzia Boga, José Pardo, marido de Andreia Branco; Joám Quindimil, viúvo de Dona Sanches; Tomás Quindimil, marido de Josefa Lopes; Francisco Quindimil, filho deste último; Tomás Mendes, marido de Maria de Castro; Francisco Branco, marido de Joana Rodrigues; Pedro Mira, viúvo de Dominga Sanches, António Vereia, marido de Vicenta Rodrigues; António Gondim, solteiro, filho de Melchor; António Fandinho, também solteiro, criado de Jacinta Mosqueira: todos onze vítimas do furor francês, destinado a queimar, matar e asolar a mencionada paróquia; mortos fusilados na imediaçons da mencionada Capela, e a maior parte junto o Cruzeiro dela, sem que lhes pudesse preparar, nem botar outra mortalha, que as ordinárias vestimentas com as que caírom mortos o Domingo anterior pola manhá, nem menos conduzir-se à Igreja paroquial por falta de gente, que se disperasara, nem se acercava cheia de pavor e espanto: Todos eram vizinhos da mesma freguesia e eu dom Gregório Pelágio Vasques Cabanas, cura pároco da de Sam Miguel de Filgueira, considerando a ausência do actual cura ecónomo, e movido de um nom sei quê superior ao medo que concebera, prestei-me ao socorro espiritual de aqueles infelizes e assistim aos referidos enterros, ponho-o por assento e assino estando na sacristia da repetida igreja paroquial de Messia, onde se achou este livre a vinte dias do mês e ano tu supra.”

Remata com a sua assinatura:

“Gregorio Pelagio Vázquez Cabanas [sinatura]. En catorce de febrero de mil ochocientos y nuebe, dentro de la Yglesia parroquial de S. Christoval de Mesía y fila de seis reales se dio sepultura al cadaver de Isidro Lata, marido de Thomasa Pita, muerto igualmente por los franceses, y sin mortaja particular con el ofº de sepultura, que yo el infraescrito Cura de Filgueira por ausencia del economo le hice, y que conste lo firmo a veinte del mismo.”

O relato nom fala das causas do fusilamento, mas todo parece indicar que foi um acto de repressália dos franceses por umha operaçom da guerrilha galega de tremenda importáncia. Trata-se da misteriosa desapariçom de dous esquadrons do trem de artilharia voante do exército francês que pertencia ao sexto corpo do mando do Duque de Elchinge. Em total uns 200 homens e 200 cavalos, estabelecido nas imediaçons do antigo caminho inglês, polo qual os peregrinos de Irlanda chegavam a Compostela após atravessar as terras da Marinha e Ordes. Este remontava o rio Mero, cruzando as paróquias de Cós, Meangos, Culhergondo, Cutiám, Carres, Figueiredo, Paderne, Provaos e Visantonha face o Hospital de Bruma, umha “ilha” de Messia dentro do concelho de Ordes.

Na primeira semana de Fevereiro de 1809, estes 200 homens e 200 cavalos franceses, situados no médio de quatro brigadas, desaparecêrom como por arte de mágia, sem haver tropas galegas do exército regular num rádio de umhas vinte léguas. Só houvo um supervivente, um cabo polo que se soubo da emboscada, que chegou com notícias de que os seus companheiros foram degolados polos aldeanos. Na altura os vizinhos pertenciam à província de Betanços, e alertados polas ordens francesas de saqueio, incéndio e extermínio das aldeias próximas à Corunha, determinárom levar a cabo umha acçom de castigo contra o exército invasor.

No Boletim da Real Academia Galega, do ano 1910, conta Adriano Lopes Morillo: “Posto de acordo por médio dos maiordomos pedáneos e curas das aldeias, numha noite e numha hora convida, dérom morte a todos os oficiais e tropa imperial, enterrando-os com o armamento e afectos, sendo já de dia, no interior dos frondosos pinheirais.” E continua relatando como os cavalos fôrom na mesma noite conduzidos até Rivadávia, coraçom da resistência galega, e depois entregados ao Marquês da Romana (que na altura liderava o exército galego que se retirava face Portugal). Fauque “o Marquês nom fazia mais do que santiguar-se quando lhe referiam o facto”.

O General francês Jomini, por entom Chefe do Estado Maior do 6º Exército Francês, narra na sua obra Estratégia o seguinte: “Quando o corpo de Ney reemprazou ao de Soult na Corunha, acantonei entre esta e Betanços dous esquadrons do trem de artilharia, em médio de quatro brigadas, que distavam de aquele ponto umhas duas léguas, sem que num rádio de ourtas vinte se soubesse de ditos esquadros, sem que pudêssemos averiguar o caminho que levárom, até que por um cabo ferido, que puido escapar, se soubo que foram degolados polos aldeanos dirigidos por clérigos e frades.”

No Anuario Brigantino escreveu Alfredo Erias Martínez o artigo “A Invasom Francesa de 1809 vista de Betanços (I)” onde conta:

“É evidente que nom foi umha emboscada, como romanticamente poderia pensar-se, posto que isso seria mui arriscado. Os documentos nom dam detalhes, mas sabemos que os soldados estavam, como era tradicional desde o antigo ao passo de qualquer exército, vivendo nas casas dos campesinhos: polo tanto, dispersos. Seguramente o seu comportamento seria insultante para as famílias, sobretodo no que atingia às mulheres e, por conseguinte, nom deveu ser difícil para a igreja (quiçá na misa dos Domingos e, em qualquer caso, com a coordenaçom de curas e frades) desenhar umha acçom surpresiva e necessariamente nocturna que devia realizar cada campesinho com o francês ou franceses que estavam na sua casa. Quiçá esse campesinho puido ter algumha ajuda quando houver mais de um soldado. Foi umha acçom desde logo mui bem medida, que tinha referências na historiografia clássica (Massacre de la Saint-Barthélemy no contexto das Guerras de Religiom francesas, quando os católicos aniquilárom os hugonotes, protestantes, na noite do 23 de Agosto de 1572 e dias que seguírom) que sem dúvida conheciam os eclesiásticos. Por outra parte, qualquer dos nossos paisanos sabe perfeitamente desde neno qual é a maneira de que o porco quando o matam nom berre: cortando-lhe a gorja. E isso foi o que se passou, nom há dúvida: matárom-nos enquanto durmiam, cortando-lhes a gorja. Por isso somentes se salvou um, de miragre: viu morrer os companheiros com os que estava numha casa e logrou escapar, sem poder dizer que passou com os demais de outras casas e de outras paróquias.”

Após as numerosas investigaçons e interrogatórios, os mariscais Soult e Ney, atrapador pola fúria, impugérom à cidade de Betanços umha sançom de nove milhons de reais, sob a ameaça de que perante o impago a cidade e vilas da província seriam queimados; e dispugérom que umha forte coluna percorresse as aldeias onde desapareceram soldados, ordenando queimar as mesmas e fazendo que violassem, no adro das igrejas, às mulheres que nom pudessem fugir, sem respeitar idades.

Também se fusilárom um grande número de campesinhos em Betanços, tendo-se constáncia das partidas de defunçom das paróquias de Santiago de Betanços, de 8 aldeanos, dous deles de Sam Vicente de Carres (Cesuras), apressados polos franceses e fusilados publicamente o 11 de Fevereiro de dito ano, a véspera do fusilamento de Arjám, Messia, na comarca de Ordes.

Na citada paróquia de Carres, fôrom também fusilados 8 homens o 11 de Fevereiro do mesmo, entre eles o maiordomo da paróquia.

A cidade de Betanços, ao intentar reduzir a sançom, escudava-se em que os factos nom se produziram na sua província, senom em Messia, o que foi aceitado polo exército francês reduzindo a contribuiçom imposta a quatrocentos reais.

Nom estranha, que desde aqueles tempos, polos nomes de Soult (Sul) e Ney (Nei) atendam muitos cans da zona.

Tirado do portal galizalivre.org: http://www.galizalivre.org/index.php?option=com_content&task=view&id=2255&Itemid=48

Página web da Associaçom de Amigos da Capela Nossa Senhora de Arjám, responsável da recuperaçom destes acontecimentos históricos: http://www.arxan.org/

Escrito às 15:32:54 nas castegorias: Documentos, HISTÓRIA
por foucelhas Email , 1362 palavras, 480 visualizaçons   Português (GZ)   Chuza!

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