Uma olhada da Torre de Morgade: irmandinhos, guerrilheiros e grevistas

Uma olhada da Torre de Morgade: irmandinhos, guerrilheiros e grevistas

17-03-2010

C. C. V. / Se sairmos da Corunha cara ao sul, a primeira zona alta é o Mesão do Bento, onde se encontram os concelhos de Carral, Avegondo, Messia, Ordes e Cerzeda. Perto, ainda na paróquia de Ardemil, está Morgade. A povoação é antiga, pois a atual aldeia nasce à beira do castro da Torre de Morgade, denominado assim por acolher uma fortaleza medieval, propriedade dos Altamira. Construída no século XIV, quando Lopo Peres de Moscoso consegue licença do Arcebispo de Compostela, será derribada em finais do século XV pola Revolução Irmandinha, que também acaba com o vizinho castelo de Messia.

Continua:

Polo que nos conta um vizinho, já se perdeu a memória de que lá houvesse uma torre, só se fala do castro. “Valia a pena sachar nele -explica-nos-, porque dim que tem uma trave de ouro do tempo dos mouros. Na cima há uma pedra enorme, que tapa um buraco que vai dar ao rio. Diz-que nesse buraco anda um animal, uma cabra”. Entre dous fundos vales, o local está bem protegido, e só priva de umas vistas privilegiadas a invasão de eucaliptais e a onipresente central de Meirama, a deitar o seu alento de lignito no outrora fertilíssimo Vale do Várzea.

O castro estava unido com o das Travessas, situado a poucos quilómetros no concelho de Carral, justo ao lado da sub-central eléctrica, uma enorme cratera lunar incrustada numa paisagem pós-industrial. Mais adiante, em Viçonho, está o terceiro: o Castro Maior. Os três uniam-se por uma corredoira “estreitinha, de pouco mais de um metro mas mui funda, a de anos que teria!”, que “foi todo esbarrancado, entre estradas e concentração parcelar não fica nada; e total, levamos mais de vinte anos com a concentração...” O senhor casou para Morgade, mas é natal do Hospital de Bruma, uma ilha do concelho de Messia dentro do de Ordes; a pouca distância e na mesma linha que unia os três assentamentos castrejos. Ainda está em pé o posto de socorro que atendia os peregrinos que chegavam por mar, assim como a capelinha da aldeia.

Perguntamos-lhe polos guerrilheiros locais e tampouco duvida: “Sim, ho, os foucelhas”. E fala-nos de João Couto Sanjurjo “Simeão”, de Mámoas, outra aldeia de Ardemil. “Foi o último em cair, no ano 1952; o último que colheram vivo. Agarraram-no na casa de Lino em Visantonha. O seu grupo pediu-lhe para dormir no palheiro, mas ele pechou-nos e foi avisar à guarda civil, que daquela tinham um posto nas terras do Marquês de Oblea. Mas estivo pouco tempo preso”. Partilhou cadeia, de facto, com Benigno Andrade “Foucelhas” na Corunha. “Levaram a sua fotografia polas aldeias para que a gente o reconhecesse como criminal e ninguém o fez. Ele perdera um olho num tiroteio. Quando saiu trabalhou de "conserje" no Laboral do Burgo, e jubilou-se ali”.

Na véspera do 14 de Abril de 1946, para comemorar a data da proclamação da República, Couto recruta uma dúzia de pessoas da sua confiança na sua zona natal, para ajudarem à sabotagem que prepara com os guerrilheiros ordenses Manuel Ponte, António Nouche, José Ramunhão, Manuel Pena, etc. Gomes Gaioso e António Seoane chegaram recentemente à Terra para formarem a nova direção do Exército Guerrilheiro da Galiza. A ação levou-se a cabo no Canedo, última aldeia de Ordes antes de entrar na comarca da Corunha. Cortam 16 postes da Telefónica, 14 da Telegráfica e voam com dinamita dous postes de alta tensão situados entre os quilómetros 23 e 24 da estrada geral da Corunha a Vigo. Entre os vizinhos que recrutou “Simeão” conta-se Saúl Mendes Maio, vizinho de Olas (Messia), que com o tempo será chefe da II Agrupação. Outros cinco serão detidos e condenados a quatro anos de cadeia.

Ao passar polas Travessas, pode-se olhar no horizonte a enorme quinta, hoje convertida em eucaliptal, que em outro tempo fora a granja da Propecsa. Nela trabalhara durante vinte anos o nosso informante, antes de ser expropriada numa trama empresarial do “socialismo” espanhol. “Era a melhor "finca" de Galiza; chegou a haver quatrocentas porcas paridas, e centos de vacas. À terra nunca se lhe botou adubo porque chegava com o que produziam os animais. Os pastos alternavam-se e sempre havia erva, sem falta de trazer rações de fora. Todos tinham água natural. É um pecado ter isso assim, a monte, e mais neste tempo de crise”. Em finais da década de 1980, desatou-se uma greve perante o abandono das instalações polos seus anteriores donos. “Éramos quase mil trabalhadores, estivemos dous anos sem cobrar, mas os animais não os podias deixar morrer de fome”.

Conta como intentaram sequestrar o chefe da empresa que, num descuido, conseguiu escapar do cerco. Coincidira com o ano das "tractoradas", que lhe bloqueiam a fugida. É, contudo, capaz de entrar numa furgoneta da empresa, após abandonar o seu carro, com a qual chega à aldeia de Pepim, na paróquia ordense de Mercurim. Ali tem que baixar dela e seguir a pé, até Queixas, já no concelho de Cerzeda. Chega à estação do trem (vítima, por certo, do AVE), e pede na taberna que o agachem, ao qual se negam os donos. Ali volve a ser capturado polos trabalhadores que o levam de volta para as instalações da empresa. “Depois chegaram ónibus cheios de anti-distúrbios, deviam ser quinhentos, e nós éramos mil. Apanharam o chefe, escoltaram-no e levaram-no. Nunca por aqui voltou”, conta-nos este homem com uma nostalgia alegre. Ele é de ideias conservadoras, mas sabe bem que “conservadores” não são quem deixaram esmorecer aquela quinta, “a melhor da Galiza”; e que dos que mandam nunca se pode fiar um.

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Escrito às 10:38:07 nas castegorias: HISTÓRIA
por foucelhas Email , 922 palavras, 482 visualizaçons   Português (GZ)   Chuza!

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