Categoria: IR'05

26-06-2006

CADERNOS, IR'05, VIAGENS

29/11, 21h00, Pousada (Bordeaux)


O meu room-mate (o mesmo de ontem) foi lá baixo atender o telefone. Como ontem, às 20h30 já estava na cama. Por influência dele ou não, também me ando a deitar cedo. Hoje calha muito bem, amanhã tenho de acordar às 7h30. Não me posso esquecer, sabonete e caderno. Este já está a acabar.

Ela mandou-me um toque hoje. Já não dizia nada desde sábado (dia 26), e já me começava a preocupar. Também só hoje tive acesso ao meile, e li a resposta dela a outro meile que lhe tinha enviado. Seja por estes factores, seja porque o dia estava lindo, sorri muito, hoje. Mas talvez só depois de saber dela.

De manhã andei pela outra margem, a ver uma zona de edifícios novos. Descobri por lá o Jardim Botânico de Bordeaux. Vi pela primeira vez em construção um edifício com a estrutura toda em madeira. Quando passei por lá estava a levar o revestimento de vidro. Devia ser um futuro edifício de apoio ao Jardim, que se desenvolvia num rectângulo compridíssimo à frente. Os muros eram naquela madeira que se vê nas serrações, por cortar, mas escura, e empilhada como nas serrações. O Jardim, para começar a estranheza, era plano. Acho que nunca tinha visto nenhum assim. Dividia-se em várias zonas, e a que me impressionou mais foi a primeira, que mostrava (penso eu) a vegetação endógena da Aquitaine. A ideia que dava, assim à primeira, ao visitante, era que aquelas eram plantas e arbustos que já existiam naquele sítio, e que ao fazer-se o Botânico se tinha baixado o nível do terreno em todo o recinto, mas que se tinha deixado alguns pedaços à altura original. Assim, surgiam ‘pedaços’ das dunas, ‘pedaços’ dos pinhais, com terreno original e tudo. Lindíssimo.

Ainda na zona, descobri um bairro que desejaria um dia projectar. As casas eram em banda, e a rua era mínima. Mas por trás surgia um espaço comum imenso, a ligar todos os quintais. A completar tinha algumas casas geminadas, e dois edifícios de apartamentos a rematar o conjunto.

Toda a zona parecia equilibrada, com prédios baixos a deixar antever uma futura homogeneidade. Infelizmente, foi por esta altura que fiquei sem bateria na câmara, e não deu para tirar todas as fotos que queria.

Hmm. Dei-lhe um toque e ela respondeu.

O meu room-mate levantou-se só para verificar se a porta estava fechada.

Ao pequeno-almoço parecia a convenção dos cromos. O room-mate. Outro de meia-idade que demorou vários minutos a tirar de um saco todos os medicamentos que tinha de tomar. E eu, claro, que gozo com todos.

Hoje conheci uma portuguesa, a Ana. Eu tinha voltado à loja portuguesa para ver se não tinham jornais sem ser a Bola e o Record. Ela estava lá dentro, e saiu quando eu entrei. Entretanto perguntei à dona se não me vendia uma Super Bock, eu não queria levar seis, era só para matar a saudade. Ela escondeu-se atrás do balcão e trouxe-me uma mini, dizendo-me para a esconder no saco. Sorri, agradeci e fui-me. A palavra saudade abre muitas portas. Cá fora estava a Ana, como quem não quer a coisa. Trocámos três palavras e dois sorrisos e separámo-nos, eu tinha de ir comprar selos e envelopes (timbres et envelopes) para mandar postais (cartes postales). De seguida fui comprar um cadeado (cadenas), pró que desse e viesse. Já a chegar à estação encontrei-a de novo, na sua bicicleta. Mais uma curta conversa, e ela pareceu-me dizer adeus. Como já me mentalizei que vou fazer esta viagem sozinho e não quero forçar conhecimentos, fui-me embora. Ela apanhou-me logo a seguir, com uma conversa de que me conhecia e estava curiosa do que eu fazia por ali, Combinámos encontrarmo-nos em frente à estação, ela tinha de fazer compras e eu tinha de reservar bilhetes. Depois continuámos na direcção da Pousada, conversando. Como eu suspeitava, ela tinha vindo para a França por amor, era uma viajante (como eu) e estava em Bordeaux para dar aulas a putos duas vezes por semana. Era do Porto, assim como a dona da loja portuguesa, e vivia na ‘campagne’, perto de Limoges. Não consegui muito bem como é que alguém que estava em França apenas desde Abril já falava à avec. E separamo-nos, ela tinha um jantar combinado e eu tinha uma Super Bock à minha espera.

BLOGADO ÀS 04:09:45

20-06-2006

CADERNOS, IR'05, VIAGENS

29/11, 16h30, no 45 (Bordeaux)


“Então, já nevou este ano?”

BLOGADO ÀS 04:49:13

20-06-2006

CADERNOS, IR'05, VIAGENS

29/11, 16h00, no 45 (Bordeaux)


No ‘Cité Frugés’ (agora já sei o nome) estava o inevitável grupo de estudantes de arquitectura. O bairro é incrível, e aposto que muitos dos moradores sejam arquitectos. Pelo menos os dos donos das casas renovadas.

Estou a adorar estar em Bordeaux, mas acho que amanhã vou-me. Não é pressa, mas apenas a vontade de ir.

A minha mão começa a ficar rosa, não sei se por causa do frio, ou se do frio e do lápis (está rosa no ponto onde o apoio).

As francesinhas originais são bem melhores que as portuguesas.

Afinal voltei de autocarro. O tram ainda devia ser longe.

Incrível este vinhedo por onde passámos. Mesmo perto do centro de Bordeaux.

Hoje espreitei para dentro duma ‘Librairie Portugaise’, na esperança de encontrar algum jornal português. Só tinha a Bola e o Record e um qualquer jornal local.

BLOGADO ÀS 04:48:02

20-06-2006

CADERNOS, IR'05, VIAGENS

29/11, 14h45, no 45 (Bordeaux)


Apanhei o 45 para ir ao centro de Péssac. Ainda tentei procurar o bairro do Corbu na Rue de Péssac, mas não, aquela era apenas a rua que levava a Péssac (uma vila fora de Bordeaux). Cá vou eu para a periferia. Até dei um salto quando reparei, ao almoçar, que Péssac era em Bordeaux. Acabei o almoço rápido, e fui ver o tribunal do Rogers, e depois vim para aqui. Ainda deu para me rir um pouco da toga dos juízes e advogados, fugindo sempre dos olhares dos seguranças. Afinal isto é mesmo periferia. Já passámos campos e tudo. Vou voltar de tram, há uma linha até Péssac.

Hoje ouvi português duas vezes, uma numas obras (ver *10h30), e logo a seguir dois homens portugueses e a filha (talvez francesa), que falavam de apostas.

BLOGADO ÀS 04:45:39

08-06-2006

CADERNOS, IR'05, VIAGENS

29/11, 13h30, Pousada (Bordeaux)


Mas que merda. Comeram parte das coisas que deixei no frigorífico. Só para piorar o dia, andei a manhã toda a pensar em tirar poucas fotos para poupar bateria. Acabei por voltar à Pousada para carregar a câmara, e aproveitei para usar o metro, bem parecido com o nosso. Mas mais bonito.

Quando cheguei ao quarto, ontem à noite, já lá estava o meu room-mate. Dormia (às 20h30!) de bóxeres, com parte do rabo descoberto. Pelo que vi, não mudou de posição durante a noite, apenas ficou com o rabo todo à mostra. Acordou pela mesma hora que eu, 8h30. Porque se foi deitar tão cedo, então? Só sei que ressonava imenso.

BLOGADO ÀS 00:56:29

08-06-2006

CADERNOS, IR'05, VIAGENS

29/11, 10h30, outra margem (Bordeaux)


“Vai vai vai vai. Mais um bocadinho. Tem de ir para trás, pá!”

BLOGADO ÀS 00:55:50

08-06-2006

CADERNOS, IR'05, VIAGENS

28/11, 21h15, Pousada (Bordeaux)


Escrevi-lhe o primeiro postal, que deve ser o último, imagino que ela queira cortar relações comigo. Sinto-me mal, agora, mas não me arrependo do que lhe escrevi.

BLOGADO ÀS 00:54:58

08-06-2006

CADERNOS, IR'05, VIAGENS

28/11, 20h15, Pousada (Bordeaux)


Estive nos copos com os asiáticos. Suro, japonês, e o Won, coreano. Bebemos do meu Bordeaux, depois do Bordeaux do Surom e depois da minha Chimai. Como o Suro serve vinhos num restaurante em Yokohama, o Bordeaux dele era melhor que o meu. Maldito! Para não variar, o japonês não pescava nada de inglês, mas o Won safava-se bastante bem.

BLOGADO ÀS 00:54:16

08-06-2006

CADERNOS, IR'05, VIAGENS

28/11, 15h45, T.E.R. Aquitaine (França)


Só se vêem pinheiros lá fora, e algumas casinhas de permeio. Agora pararam os pinheiros e surgiu um campo imenso, regado por um daqueles aquedutos metálicos com rodas. Hoje não devem regar, está de chuva.

Gostei de estar na Pousada em Donostia. A distância que tinha de percorrer até ao centro vai-me ficar gravada nos pés, tenho a certeza, mas era bonita de se fazer, sempre pela marginal.

Tenho pena de não ter tirado uma foto com os americanos. Eram “majos”, como dizia a rapariga da recepção. O Joel era formado em agricultura com especialização em ‘turf management’. Acho que era algo assim. Tinha tomado conta da relva dos Bóston Red Sox durante dois anos. Tinha a barba grande e era anafado, sem chegar a ser gordo. O Aaron, que não tinha feito nenhuma licenciatura, achava que a sua vocação era ajudar crianças, depois de já ter experimentado lavar carros e servir à mesa. Esteve cinco meses no Peru, a ajudar crianças de rua. Chegou a levar as crianças a ver aselecção peruana a jogar, acto que ele referiu como um dos momentos marcantes da sua vida. Estiveram ambos a trabalhas numa Pousada em Amsterdam, durante seis meses, e estavam agora a acabar três meses de viagem pela Europa. Foi em Amsterdam que o Aaron conheceu a namorada, e já tinha comprado o bilhete para ir ter com ela à Nova Zelândia. “E quando voltas?” “Não sei, talvez esteja lá um ano a trabalhar.” O Joel tinha deixado a namorada nos Estados Unidos, e acho que ainda não a viu desde que veio para a Europa.

A rapariga sentada no lugar oposto a mim está a escrever num papel. Será que é sobre mim?

BLOGADO ÀS 00:53:24

02-06-2006

CADERNOS, IR'05, VIAGENS

28/11, 15h15, T.E.R. Aquitaine (França)


Se o outro era um Alfa, este é um pouco como um Intercidades. Dormitei na estação, sem nunca conseguir dormir mais de cinco minutos. Vou chegar a Bordeaux daqui a pouco, ainda não tenho nada marcado mas tenho a morada dum Aubergue de Jeunesse. Ainda não marquei porque não vi qualquer referência na Internet, não sei o que esperar e prefiro apenas pedir quarto à vista.

O primeiro contacto com portugueses foi um “quer-se dizer” apanhado a meio duma ponte em Dax. Já sabia que os ia encontrar, e não fiquei surpreso quando o ouvi. Na vinda descobri, perto da estação, duas lojas portuguesas. A primeira topei-a pela bandeira. Vendia especialidades portuguesas, vinhos e tal, e Sagres. Do outro lado da rua havia o “LA MESA GRANDE”, que vendia as mesmas coisas mas em vez de Sagres vendia Super Bock. Apesar do nome espanholado, acho que preferi a segunda. Pena é estar tudo fechado, talvez tenha mais sorte em Bordeaux.

No hotel do Nouvel, perguntei à senhora da recepção se podia visitar as instalações, pois era arquitecto, e tinha vindo a Dax expressamente para ver aquele edifício. Ela respondeu-me que não, porque era altura de “soins” (ignoro o que seja), e que havia visitas só às três e meia da tarde (depois do meu comboio). De seguida, inquiri sobre tirar fotos no vestíbulo. De tudo o que me respondeu, apenas percebi que a razão para não puder tirar fotos era porque não era o rei. Devo ter percebido mal.

Agora que noto, este comboio é mesmo igual ao Intercidades. Devem ser do mesmo modelo.

BLOGADO ÀS 00:00:07

01-06-2006

CADERNOS, IR'05, VIAGENS

28/11, 13h00, Dax (França)


Os relvados, segundo a minha perspectiva de viajante, continuam a ser o melhor local de engate. Se eu estivesse à procura de alguém (ou se gostasse de jovens com 16 anos), este era o sítio.

Dax é uma terrinha bem desinteressante. Não fosse o hotel do Nouvel e era mesmo mau. Acho que vou aproveitar para ler mais um pouco o Moby Dick, o TGV para Bordeaux é só às 15h08.

BLOGADO ÀS 23:58:47

01-06-2006

CADERNOS, IR'05, VIAGENS

28/11, 11h00, TGV (França)


Comecei mal as minhas deambulações pela língua francesa. Deixei cair o lápis entre a cadeira e a parede, e a única maneira de o tirar de lá foi empurrá-lo para os pés das francesinhas atrás de mim. Aí disse “J’ai tombez mon lápis.” Ora, se bem me lembro das aulas de francês, seria qualquer coisa como “J’ai laissez tomber mon crayon.”

O tempo melhorou. Já posso usar os meus óculos de sol outra vez.

BLOGADO ÀS 23:58:05

22-05-2006

CADERNOS, IR'05, VIAGENS

28/11, 10h45, TGV (Hendaye)


O TGV arrancou e nem reparei. Não anda muito rápido, talvez por causa da linha. É um pouco como o nosso Alfa, um pouco mais rápido talvez.

BLOGADO ÀS 02:45:24

22-05-2006

CADERNOS, IR'05, VIAGENS

28/11, 10h30, TGV (Hendaye)

Isto não é bem o TGV que esperava, apesar de o piloto o confirmar nas colunas. Ah, já estou na França.

BLOGADO ÀS 02:44:49

22-05-2006

CADERNOS, IR'05, VIAGENS

28/11, 09h45, Euskotren (Euskal Herria)

Este é um mundo bem mais civilizado, a que me poderia habituar facilmente. A rapariga da Pousada vai todos os dias de comboio até Donostia, e da estação até à Pousada leva a bicla (bici). “E quando chove, como fazes?”, e ela mostrou-me a capa, e a sub-capa para as pernas. Acho que quem quer usar biclas não pode usar a desculpa da chuva. Em Portugal, se não é a chuva são as colinas, ou então a ladroagem ou as más bicicletas. Humpf! Ainda assim não vi muita gente de bicla, talvez por causa da chuva. Mas uma cidade como esta, ordenada, controlada, merece que tudo lhe corra bem. Há semáforos em quase todos os cruzamentos, e existe sempre a passadeira desnivelada. As pequenas escadas têm sempre uma rampinha, e nas grandes escadarias cheguei a ver a calha para as biclas. As ciclovias são omnipresentes, assim como as passadeiras e semáforos para bicicletas. Inclusive, as ciclovias tinham indicação para a velocidade!

Incrível. Agora estamos a andar literalmente entre as casas. Vêem-se as salas dos prédios a não mais que três metros.

As pessoas são já diferentes. Não se vê grandes confusões nem ninguém a falar alto. Gostei de
ver, numa frutaria do centro, a dona a indicar às pessoas que deviam estar a fazer fila.

Encontrei as clementinas hoje de manhã. Fiquei a pensar que mas tinham roubado na Pousada.

Ainda mal reparei nas mulheres por cá. Talvez seja porque não queira…

Estes gajos conseguiram conservar os montes! Apesar das imensas áreas industriais, apesar do subúrbio Porque não é assim no Minho?

Não percebo bem os brincos em homens. Por aqui, até o segurança bigodudo tem um. Obviamente que a conotação entre brincos e homens me confunde. Sou mesmo português.

BLOGADO ÀS 02:37:33

19-05-2006

CADERNOS, IR'05, VIAGENS

28/11, 09h30, Estação Amar (Donostia)


Os comboios parecem pontuais (espero bem que o sejam, tenho apenas onze minutos para trocar para o TGV em Hendaye). Não parecem grandes chaços, mas isso não será assim tão importante. São apenas suburbanos.

É engraçada a sinalética bilingue. A maior parte das vezes, o eukera é primeiro. Também já vi sinalética apenas em euskera, para além das normais apenas em castelhano. Isto apesar de quase nunca se ouvir ninguém a falar euskera. A única pessoa que se dirigiu a mim em euskera era um adepto da Real Sociedad, que depois nos perguntou se éramos de Madrid. “Não, somos turistas.” Que idiotice de resposta, mesmo se fosse de Madrid não deixava de ser turista.

É melhor tirar as coisas do banco, algum velhote pode querer sentar-se. Ah, eis o comboio!

BLOGADO ÀS 04:58:11

19-05-2006

CADERNOS, IR'05, VIAGENS

27/11, 23h00, Pousada (Donostia)


Foi uma boa ideia comprar os calentadores. Apesar de ter as sapatilhas encharcadas, mantive os pés quentes.

BLOGADO ÀS 04:48:46

19-05-2006

CADERNOS, IR'05, VIAGENS

27/11, 16h15, Pousada (Donostia)


Ainda estou no início da viagem, e já tenho dificuldade em imaginar como vou aguentar a próxima semana, quanto mais o próximo mês. Argumentos contra estão sempre a surgir, mas não me imagino a voltar. Não ia trabalhar, isso é certo. E nem é do frio - habituas-te, isso não é nada - também não é a falta de luz - é só adequares o teu horário - é mesmo a chuva que me assusta agora. Ontem nem foi muito mau, aguentou-se bem. Mas hoje quase não parou de chover, e se continuar até à noite, ir ao futebol vai ser heróico. Há autocarro até lá, as bancadas devem ser cobertas - e se não forem? E se os nossos bancos ficarem no limite entre o molhado e o seco?

Continuo a pensar nela. E parece-me que, faça ela o que fizer (ou não fizer), vou ainda pensar nela por muito tempo. E que, independentemente do futuro, ela tocou-me. Abriu-se para mim, deixou que eu entrevisse um pouquinho mais dela do que ela mostra aos outros. Isso foram bons momentos. No dia seguinte já nem a conseguia encarar outra vez - eu já tinha voltado ao esquema de trabalho original - trabalho, horário, trabalho - ou ela é que ganhou medo?

Já está. Bastou pensar numa coisa que me faz sentir ainda pior do que esta viagem e assim, a viagem já não me parece tão má.

BLOGADO ÀS 04:46:33

18-05-2006

CADERNOS, IR'05, VIAGENS

25/11, 21h15, Kursaal (Donostia)


Estou um pouco arrependido da mensagem que lhe mandei. Mas ficaria sempre um pouco arrependido. Isto é, até ela me responder.

Aí, se a mensagem despoletou uma reacção, e o que escrevemos na mensagem era algo de genuíno, que nos custou a sair mas saiu com força e vida, já não nos arrependemos de nada.

Acho que dormir na ópera nunca foi mau ou invulgar. Agora dormir e não se fazer a mínima ideia do que trata a ópera, isso já é mau. Não percebo como nunca durmo no cinema, e fora dele durmo sempre.

Quase que me sinto um previlegiado. Esta ópera não é dobrada, mas as legendas são tão rápidas que não se percebe mesmo nada. Será que um italiano percebe? Não me parece.

Que ideia os excita agora? Que súbito câmbio de humor!

Só me arrependeria se não acreditasse no que escrevi. O que não é o caso.

BLOGADO ÀS 21:06:00

18-05-2006

CADERNOS, IR'05, VIAGENS

25/11, 20h00, Kursaal (Donostia)

Link: http://www.fotolog.com/circodofuturo/17278911


Por um qualquer hábito burguês anacrónico, há nas senhoras uma ideia de que a ida à ópera é sinónimo de apronto. Usam um decote, um vestido quase de gala, passam os cabelos pelo cabeleireiro. Em Wien (ou em Budapeste, já nem sei, já se passaram muitos anos) não me deixaram entrar por estar de calções. Estava a mostrar as pernas, fizeram bem em não me deixar entrar. Se eu fosse o Figo, tudo bem. Ou se fosse uma mulher e estivesse a mostrar os seios com um decote, já não havia problema.

BLOGADO ÀS 21:05:11

18-05-2006

CADERNOS, IR'05, VIAGENS

25/11, 18h15, Pousada (Donostia)


Ao almoço, pedi uma caneta porque não sabia do lápis, e descobri-o antes de me trazerem a caneta. Por cortesia (e vergonha), aceitei a caneta.

Foi incrível hoje o espectáculo das ondas. E só vendo-as é que percebi porque as pessoas arriscavam a molhar-se. Vi um homem (que devia ser da terra) a ser atingido por uma vagazita, mas que o molhou de alto a baixo. Impassível, bateu no impermeável para o secar ligeiramente e seguiu caminho, como se nada tivesse acontecido. Já reparei que por aqui anda tudo de impermeável, como se já contassem com a onda matreira. E os corredores de calças de licra? São às centenas, e numa cidade assim piquena, espanta mesmo.

BLOGADO ÀS 20:14:09

18-05-2006

CADERNOS, IR'05, VIAGENS

25/11, 14h45, Bar Txoco (Donostia)


Pedi Txipirones a la Plancha. Não faço a mínima do que seja, mas pareceu-me muito típico, o nome aparece em todo lado. Já vieram. São lulas!

Apesar de ainda serem duas, já fiz imenso hoje. Vi o nascer do sol no Kursaal, conheci dois americanos, o Noel e o Aaron, comprei bilhetes para a ópera no Kursaal e para o futebol. Parece que joga amanhã o Real contra a Real Sociedad, os americanos queriam ver. São lugares atrás da baliza, não interessa muito, interessa é ver as estrelas. Os americanos riem-se muito, mas são o.k. Apesar do Noel ter votado no Bush. É o que ele diz, o Kerry não era melhor (mas não era o Bush).

Já sabia que ia ser mais ou menos assim. Vi-os de manhã, quando fui procurar dormida à Pousada. Também contava encontrá-los no autocarro para o estádio, pois foram eles que perguntaram à recepcionista como ir lá ter. Depois de comprarmos o bilhete, ainda andámos mais um pouco juntos, a ver horários de comboio e tal. Quando me despedi deles para ir ao Kursaal comprar bilhetes para o Rigoletto, já contava encontra-los, antes ou depois de subir o monte. Acabei por encontrar o Noel sentado junto à escultura do Oteíza, enquanto o Aaron estava junto às ondas, a ver se as conseguia enganar.

BLOGADO ÀS 20:13:31

18-05-2006

CADERNOS, IR'05, VIAGENS

25/11, 10h15, Pousada (Donostia)


Os americanos vão falando e não me consigo concentrar. Vêm de Marrocos e passaram por Portugal. Em Lagos, ficaram num sítio chamado Rizing Cock. Comida barata, muito bom. Encontraram australianos que estavam lá para surfar. O que está sozinho é canadiano. Chegou um arrrrrábe de Marselha, perguntou aos americanos de onde eram, tirou um café e foi-se meter com as raparigas lá fora.

Que frio faz aqui. Vê-se a neve a cobrir os topos das montanhas próximas, mas por cá só chove.

BLOGADO ÀS 20:12:42

18-05-2006

FOTOS, IR'05

Donostia


No primeiro plano está um dos americanos que me acompanhou em Donostia. Chamava-se Noel. Votava Bush.

BLOGADO ÀS 02:14:12

16-05-2006

CADERNOS, IR'05, VIAGENS

25/11, 07h30, Kursaal (Donostia)


Já parou de chover. Nada é certo, ainda. Quantas pessoas mais, por todo o mundo, esperam o sol nascer? Quantos casais se abraçam e se cobrem do frio a ver outros nasceres-do-sol? O sol está sempre a nascer, não só em Timor mas por toda a esfera azul. É um acto contínuo por todo o mundo, e há sempre pessoas que param uma hora para ver o sol nascer.

O azul carregado passou para uma barra a encimar o horizonte, e, clareando, foi-se espalhando, em azul celeste. E o mar sempre a ribombar, BABOUM, BABOUM, desenhando acordes ao longo do muro da marginal.

BLOGADO ÀS 18:56:49

16-05-2006

CADERNOS, IR'05, VIAGENS

25/11, 07h15, Kursaal (Donostia)


Já sabia que ia chegar a Donostia de madrugada, durante o caminho ainda pensei que ia estar nevado. Pensando bem, só agora cheguei ao mar, andei sempre pelo interior, e aqui deve nevar bem menos.

A cidade, para já, parece-me encantadora. Os semáforos de bicicletas são um must. É mesmo a Europa civilizada. Já vejo uma variação no céu, um azul carregado a contrastar com as nuvens cinzento preto. Arranjei aqui um cantinho do Kursaal virado para o mar, para nascente, abrigado da chuva. Espero que o sol nasça antes que os seguranças me levem daqui.

BLOGADO ÀS 18:55:53

16-05-2006

CADERNOS, IR'05, VIAGENS

25/11, 05h40, SudExpress (Espanha)

Link: http://www.fotolog.com/circodofuturo/16916878


Que saudades dela! Estou praqui a remoer como posso ter saudades de alguém que ainda mal conheço, que ainda me deu tão pouca atenção. Estarei embruxado por ela? Que sentido faz vir para um inter rail obcecado por uma mulher que, aparentemente, tem outro, e quase tudo que fez em relação a mim foi afastar-me? Será que foi a noite em que falámos cinco horas seguidas, entre messenger e café, e onde ela, pela primeira vez, se soltou? Será que ela olhou para mim de outra maneira do que apenas como amigo?

Outra vez a dormir, os gajos. Daqui a nada é Irun e eles nem notaram. Dá mesmo vontade de lhes gritar ao ouvido IRUN IRUN IRUN!

‘Asseguriak’. ‘Ambulantzia’. Duas notas desde já. Os seguros parecem omnipresentes por aqui. O Cervantes referiu numa parte do Quixote os amanuenses (acho que seria uma profissão assim) biscaínos, e alguma personagem louvou-os. Devem ser os netos desses amanuenses biscaínos que levam agora as seguradoras. E as ambulâncias só querem dizer uma coisa, já chegámos à Europa.

Passou um tipo com uma sineta. São seis horas, não sei se será o sinal horário, ou… Ah, ok, abriu o serviço de bar. Afinal, também o gajo é português, e não só o sino (nota mental, quando usar outra vez ‘afinal’, não esquecer de dar palmada na cabeça).

BLOGADO ÀS 18:54:55

16-05-2006

CADERNOS, IR'05, VIAGENS

26/11, 04h45 (HCE), SudExpress (Espanha)


“Donostia! San Sebastian! Pamplona! Irun!” Foda-se, não me acredito! “Donostia! San Sebastian! Irun!” Parece que é mesmo verdade. O gajo deve mesmo pensar que Donostia e San Sebastian são cidades diferentes. Que broco! Porque é que eles não saíram em Gasteiz? Porquê? Assim tinha o compartimento só para mim, podia dormir deitado hora e meia. Há gente muito estúpida. Não sabiam pôr um despertador, como eu pus?

A ideia de chegar a uma cidade que não conheço às seis da matina, com neve a cobrir tudo, e sabendo que ainda me resta um mês de viagem, começa a assustar-me. Se me sinto assim agora, como me sentirei em quinze dias?

BLOGADO ÀS 18:51:04

16-05-2006

CADERNOS, IR'05, VIAGENS

25/11, 21h00, SudExpress (Portugal)


Japonesas brasileiras? Por esta não estava à espera.

Vou chegar a Donostia às seis e meia. O sol ainda não deve ter nascido, então. Será que o vou ver a nascer entre as colinas, numa das baías? Talvez alguma delas seja virada a nascente.

As japonesas brasileiras passaram outra vez, desta vez perdidas de riso, tão perdidas que uma até se atirou para o chão. Qual será a piada?

BLOGADO ÀS 18:43:10

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