Categoria: PROSA

15-12-2008

GAMANÇOS, GALIZA, PROSA

Le Clézio, A Febre (Um dia de velhice), pp.213

Triunfo da dor. Traição dos olhos, dos ouvidos, da pele. É preciso caminhar, toda a vida, no meio deste deserto. Ver, ouvir. Ouvir, ver. Comer. Rir. Falar, fumar, beber. Cheirar. Procriar. Escrever. Respirar. Ter dores. Sangrar, tremer. Encolerizar-se. Sofrer. Gritar, dormir, esperar. O cansaço está em todo o lado. Não há meio, não, não há meio de lhe escapar. É preciso sofrer, ter calor, ter frio. Acariciar. Gozar. Compreender, compreender sem parar. Todos os dias. Assim, todos os dias, sem excepção. Urinar. Saborear. Deixar-se levar pelas palavras inúteis, adoptar os ritmos, os hábitos. Procurar as frases, estender os ouvidos e os olhos, estender a pele. Fingir amar, amar, talvez.

BLOGADO ÀS 12:48:38

10-11-2008

GAMANÇOS, PROSA

Cormac McCarthy, No Country for Old Men, pp. 27

He walked out slowly to where the other bodies lay. The shotgun was gone. The moon was already a quarter ways up. All but day bright. He felt like something in a jar.

BLOGADO ÀS 15:49:42

10-11-2008

GAMANÇOS, HUMOR, PROSA

Luís Fernando Veríssimo, Calçõezinhos

Felizmente, a tendência para encompridar, do futebol e do basquete, não chegou a outros desportos. Como o ténis feminino, onde acontece, abençoadamente, o contrário. Foi a eliminação dos saiões, substituídos pelas sainhas, que tornou possível o aparecimento das tenistas russas.

BLOGADO ÀS 15:43:58

27-09-2008

RECORRÊNCIAS, GAMANÇOS, PORTURARIDADE, PROSA

Teolinda Gersão, O Caval de Sol, pp. 108-109

Quando atravessou a sala, ela reparou que ele trazia um sobretudo vestido e um cachecol de lã em volta do pescoço e metia no bolso uma das mãos, porque na casa nunca se usava aquecimento. A tia achava que não eram saudáveis as variações de temperatura, era a mudança do calor para o frio que constipava. Era preferível por isso aguentar sempre o frio, ficava a gente mais rija, como ela mesma, que nunca adoecera toda a vida.

BLOGADO ÀS 17:20:12

16-08-2008

GAMANÇOS, PROSA

valter hugo mãe, o apocalipse dos trabalhadores, pp. 29

parou os olhos no ar expectante do desconhecido e respondeu, não me interessa o amor, isso é coisa de gente desocupada que não tem o que fazer.

BLOGADO ÀS 00:21:39

15-08-2008

GAMANÇOS, PROSA

Vladimir Nabokov, On a book entitled lolita

Teachers of literature are apt to think up such problems as «What is the author's purpose?» or still worse «What is the guy trying to say?» Now, I happen to be the kind of author who in starting to work on a book has no other purpose than to get rid of that book and who, when asked to explain its origin and growth, has to rely on such ancient terms as Interreaction of Inspiration and Combination-which, I admit, sounds like a conjurer explaining one trick by performing another.

BLOGADO ÀS 23:22:41

26-07-2008

GAMANÇOS, PROSA

Agustina Bessa-Luís, Fanny Owen, pp. 163

«Esta menina não sabe nada da vida. É um mau casamento. O que tarde se aprende não traz experiência, traz desilusão.»

BLOGADO ÀS 19:12:08

21-07-2008

GAMANÇOS, PROSA

Agustina Bessa-Luís, Fanny Owen, pp. 117

Mas era sobretudo ansioso de fazer-se acreditar como homem de letras; ao sentir que a paixão se apoderava de boa parte da sua força criadora, entregara-se ao trabalho com uma determinação quase assustadora. Não haveria lacunas para o amor, nem até para a amizade; e os seus desejos resumiam-se a um interesse sempre vivo por conhecimentos novos e a um apetite de corresponder ao que a vaidade o intimidava a ser: um príncipe, sem émulos à sua volta, só com súbditos mais ou menos convencidos e amordaçados.

BLOGADO ÀS 12:23:30

21-07-2008

GAMANÇOS, PROSA

Agustina Bessa-Luís, Fanny Owen, pp. 96

Porque as pessoas não se conformam em ser iludidas por elas mesmas; querem que os outros colaborem nessa ilusão.

BLOGADO ÀS 12:18:42

21-07-2008

GAMANÇOS, PROSA

Agustina Bessa-Luís, Fanny Owen, pp. 95-96

Um homem de carácter pode amar a insignificância; um cavalheiro educado no culto do extraordinário sente-se defraudado perante tudo o que não comporta uma legenda; boa ou má, a legenda é indispensável como excitante das pequenas opiniões.

BLOGADO ÀS 12:15:43

21-07-2008

GAMANÇOS, PROSA

Agustina Bessa-Luís, Fanny Owen, pp. 93

A sua pureza, que não era ausência de desejos mas a profunda disponibilidade deles, revoltava-se com o que havia de fictício e grosseiro nessa história.

BLOGADO ÀS 12:12:43

16-07-2008

GAMANÇOS, PROSA

Agustina Bessa-Luís, Fanny Owen, pp. 55

-Quando se sofre na idade de ser feliz, nunca mais se acredita na felicidade; nem como acaso, nem como recompensa. Os nossos tormentos tornaram-se num hábito mais querido do que qualquer compensação.

BLOGADO ÀS 17:11:12

14-07-2008

GAMANÇOS, CADERNOS, FOTOS, IR'05, VIAGENS, IMAGENS, PROSA

5/12, 23h45, ICE para Manheim

É engraçado – todos os países que rodeiam a Suíça usam o euro. Como se sentirão os suíços?

Estou a bordo dum ICE, o comboio alemão de alta velocidade. O que posso dizer, assim à primeira, é que é espaçoso. Pera lá, os bancos mexem-se?


God keep me from ever completing anything. This whole book is but a draught – nay, but a draught of a draught. Oh, time, strength, cash and patience!

Herman Melville, Moby Dick, pp. 149






IR'05 é a transcrição do diário escrito durante uma viagem de comboio através da Europa entre Novembro e Dezembro de 2005. todas as entradas aqui

BLOGADO ÀS 01:05:10

10-07-2008

GAMANÇOS, PROSA

Agustina Bessa-Luís, Fanny Owen, pp. 20

-Esse rapaz tem demasiado coração para ter espírito.

BLOGADO ÀS 16:48:25

10-07-2008

GAMANÇOS, PROSA

Agustina Bessa-Luís, Fanny Owen, pp.10-11

A má memória é essencial para escrever romances e para os poder viver; na vida e nos romances, tudo se repete. Quando a boa memória existe em abundância tudo resulta em fracasso; porque o génio não convence se não estiver aturdido com certa dureza de espírito que não dá conta de quanto a fantasia é coisa venerável pela velhice que testemunha. Enfim, Camilo encontrou José Augusto e não simpatizou com ele.

BLOGADO ÀS 16:45:37

27-06-2008

GAMANÇOS, PROSA

CLARAH AVERBUCK, máquina de pinball, pp. 62

"O Horror. O Horror não são os erros, são os passos para trás ou as hesitações na hora de cruzar a rua. Se um carro me atropelar, vai ser porque não olhei para os lados, não porque resolvi atravessar.

BLOGADO ÀS 13:10:48

27-06-2008

GAMANÇOS, PROSA

CLARAH AVERBUCK, máquina de pinball, pp. 70-71

"Mas era. Se não tivéssemos nos encontrado naquele boteco sujo e me contassem da existência dele, eu ia rir. Mas nos encontramos e ele estava ali e era lindo. Não era real, não podia ser. Mas quando as coisas são boas demais, é melhor nem questionar e aproveitar enquanto a merda não vem. Porque a merda vem, ela vem invariavelmente e não há nada que se possa fazer para mudar isso.

BLOGADO ÀS 13:07:42

25-05-2008

GAMANÇOS, PROSA

julio cortázar

"..., no sentido em que não guardo uma recordação feliz da minha infância; demasiadas obrigações, uma sensibilidade excessiva, uma tristeza frequente, asma, braços partidos, primeiros amores desesperados.

BLOGADO ÀS 03:59:07

12-05-2008

GAMANÇOS, HUMOR, PROSA

Annie Choi, Happy birthday or whatever, pp. 35 (Spelling B+)

'Suddenly it occurred to me that she might want to see my quiz. I panicked and thought of excuses: I lost it; I left it at school; I gave it to a friend; the teacher put it up on the bulletin board because it was perfect. I clenched my jaw to prevent my heart from leaping out of my mouth. Why didn’t they teach lying at school? It was more useful than spelling.'

BLOGADO ÀS 21:00:20

08-05-2008

GAMANÇOS, HUMOR, PROSA

Annie Choi, Happy birthday or whatever, pp. 4 (Happy birthday or whatever)

'I dialed my mother first.

"Hello?"
"Hi, it's me. How are you?"
"Who's this?"'

BLOGADO ÀS 02:04:53

05-05-2008

GAMANÇOS, PROSA

gail jones, dreams of speaking, pp.83

'Over drinks in a small bar Alice told Mr Sakamoto of the incident in the Métro, of the journey to the bookshop. She told him about the woman with the tattooed arm. Then she said that although she was studying modernity, she had bought a novel by Henry James.

"So what is the problem?" he asked. "You are large enough to contain contradictions. We are large enough - are we not? - to contain contradictions."'

BLOGADO ÀS 02:24:30

02-05-2008

GAMANÇOS, PROSA

Gail Jones, Dreams of Speaking, pp.76

'Hiroshi Sakamoto began travelling again, sliding in jet planes from country to country. Whenever he went he telephoned Uncle Tadeo every day, often speaking in sunlight to his uncle at breakfast. The size and rotation of the planet did not interfere with their daily conversations. Words sped over mountains and rivers and ignored whole continents. Only on the telephone could Hiroshi utter his truths. Only there did he find expression and relief.'

BLOGADO ÀS 01:49:03

20-03-2008

GAMANÇOS, LÍNGUA, PROSA

José Cardoso Pires, O Delfim, pp. 215-216

'Não - reconsidero. Como slogan, é desastrado, como são desastrados quase todos os slogans na nossa língua. Custa-me dizer isto porque bem sei quanto sofrem os criadores de frases para consumo dos mercados e também porque não quero ofender os incansáveis catalogadores do português legítimo. Nunca, Regedor. Temos um valioso tesouro que, se Deus nos der vida e saúde, havemos de conservar intacto, porque a língua pátria que herdámos é, como não se ignora, uma das mais ricas do mundo. Está cheia de bengalas por dentro e carregada de palavras a mais.'

BLOGADO ÀS 20:48:21

05-03-2008

GAMANÇOS, PROSA

Doris Lessing, The Golden Notebook, pp. 561-562

'She was alone in the enormous flat. She should move to a smaller one. She did not want to let rooms again, the idea of another experience like the one with Ronnie and Ivor frightened her. And it frightened her that it frightened her - what was happening to her, that she shrank from the complications of people, shrank from being involved? It was a betrayal of what she felt she ought to be. She compromised: she would stay in the flat another year; she would let a room; she would look around for a suitable job.

BLOGADO ÀS 03:25:34

29-02-2008

GAMANÇOS, PROSA

Doris Lessing, The Golden Notebook, pp. 491

'At last he came and put his arms around me and said: 'We're both lonely people, let's be good to each other.'

BLOGADO ÀS 03:03:11

29-02-2008

GAMANÇOS, PROSA

Doris Lessing, The Golden Notebook, pp. 488

'I said it was a pity to come all the way to Europe and use the defences of America. he said I was right, but that it was hard for him to adjust, and we began talking about politics. He's the familiar mixture of bitterness, sadness and a determination to keep some sort of balance that we all are. I went to bed deciding that to fall in love with this man would be stupid. I was lying in bed examining the phrase 'in love' as if it were the name of a disease I could choose not to have.'

BLOGADO ÀS 03:01:12

29-02-2008

GAMANÇOS, PROSA

Doris Lessing, The Golden Notebook, pp. 488

'Then I tidied the place up and sat on the floor in my room, and tried 'the game'. I failed. It then occurred to me I was going to fall in love with Saul Green. I remember how I first ridiculed the idea, then examined it, then accepted it: more than accepted it - fought for it, as for something that was my due.'

BLOGADO ÀS 02:55:45

29-02-2008

GAMANÇOS, PROSA

Doris Lessing, The Golden Notebook, pp. 485

'Spent today playing the game. Towards afternoon reached the point of relaxed comprehension I was aiming for. It seems to me that if I can achieve some sort of self-discipline, instead of aimless reading, aimless thinking, I can defeat my depression. Very bad for me, Janet's not being here, no need to get up in the morning, no outer shape to my life. Must give it an inner shape. If the 'game' doesn't work, get a job, I must anyway, for financial reasons. (Find myself not eating, watching pennies, I hate the idea of working so much.) I'll find some sort of welfare work - it's what I'm good at.'

BLOGADO ÀS 02:52:14

19-02-2008

GAMANÇOS, PROSA

Doris Lessing, The Golden Notebook, pp. 435

'I haven’t had the dream again. But two days ago I met a man at Molly’s house. A man from Ceylon. He made overtures, and I rejected them. I was afraid of being rejected, of another failure. Now I am ashamed. I am becoming a coward. I am frightened because my first impulse, when a man strikes a sexual note, is to run, run anywhere, out of the way of hurt.'

BLOGADO ÀS 23:21:54

18-02-2008

GAMANÇOS, PROSA

Doris Lessing, The Golden Notebook, pp. 416

'But sometimes I meet people, and it seems to me the fact they are cracked across, they're split, means they are keeping themselves open for something.'

BLOGADO ÀS 02:34:18

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