Categoria: NOVAS DA GALIZA

31-05-2009

LÍNGUA, NOVAS DA GALIZA

Guarda-redes vs Goleiro: uma eterna disputa

Se podemos afirmar que a cultura de um povo ou de uma comunidade se baseia na aceitação da sua especificidade, é também defensável que tanto a génese quanto a sobrevivência dessa cultura dependem do seu grau de xenofobia. Na palestra de aceitação do Booker de 1994, James Kelman reagia assim às críticas dirigidas ao seu livro (How late it was, how late): “Uma linha fina pode existir entre elitismo e racismo. Quando o tema é linguagem e cultura, a distinção pode simplesmente deixar de existir.” (trad. do autor) Sendo Kelman escocês e tendo transposto para o referido livro essa especificidade, afrontou a ira dos críticos londrinos com um ataque direto ao que realmente os unia contra o livro: não a sua qualidade, mas a sua especificidade. Não uma especificidade que os londrinos reconhecessem como sua, mas uma especificidade escocesa, estrangeira, estranha ao padrão de Londres.

Como este existem recorrentes exemplos da nossa incapacidade em assumir e aceitar a diferença, ou de como a nossa conceção do 'normal' está solidamente assente sobre preconceitos: nos atentados às Torres Gémeas e consequente 'Guerra ao Terror', toda a pista que levasse a fundamentalistas islâmicos era bem-vinda – árabes ou crentes do islão em geral eram inevitavelmente considerados culpados; na criminalidade – se envolve minorias étnicas (ciganos), comunidade emigrante (africanos, europeus de leste), então já é notícia, e nós regozijámos com a clareza do axioma; no futebol – qualquer vitória sobre a Inglaterra tem duplo prazer.

Todos estes exemplos, aparentemente avulsos, explicam os nossos preconceitos: preconceito de superioridade em relação a árabes e africanos, e de inferioridade em relação a britânicos. Podemos até acharmo-nos fora deste circo dos preconceitos, mas basta apenas que a realidade nos troque as voltas para percebermos todos os preconceitos que subsistem dentro de nós.

As discordâncias em relação ao Acordo Ortográfico em Portugal têm normalmente duas razões: a técnica, muito rara, e a motivada pela ignorância. É uma ideia assente que o AO não é mais que uma concessão ao Brasil, uma prenda política do Governo Português ao seu congénere brasileiro. Quando explico a estas pessoas a história verdadeira do AO, da sua assinatura em 1990, dos anteriores acordos da língua, da discordância entre normas que agora será sanada, etc., a grande maioria das pessoas reconsidera. Alguns tornam-se mesmo adeptos do AO.

Ainda assim, subsistem portugueses que não percebem que este é apenas um acordo gráfico: nem a fonia nem a cultura serão afetadas. De qualquer maneira, as telenovelas e a música brasileiras já há muitas décadas influenciaram o português de Portugal. A influência, boa ou má, já existe. O mal (ou o bem) já está feito. O que subjaz desta contestação, da recusa desta novidade, não é o AO em si, que pouco ou nada lhes interessa: é a negação de uma grafia ‘abrasileirada’. É um preconceito português em relação aos brasileiros, à sua cultura, à sua maneira de ser. É o ex-colonizador a tentar reforçar a sua soberania, já há muito desaparecida.



publicado no Novas da Galiza de Maio

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BLOGADO ÀS 23:04:56

11-02-2009

LÍNGUA, NOVAS DA GALIZA

Damorcracia

Frente à questão ‘qual a maior demonstração de amor?’, a cada um surgirão respostas específicas. O amor não descreve nada de concreto, mas antes uma ideia. Como carece de definição exata, tem em cada cabeça materialização própria. Se uns dirão que mostrar amor é apoiar a pessoa amada na doença, seja, é uma definição. Outros poderão dizer que o amor é arriscar a própria vida por essa pessoa especial. Ambos estão corretos, semelhantes no seu altruísmo. E se eu por norma considero o amor como sentimento egoísta, hoje vejo-o como coisa útil, desinteressada. Se me perguntarem qual o amor que mais invejo, eu respondo: é o seguir em frente. Não pura e simplesmente o esquecer, mas antes o respeitoso acatar da democracia. A aceitação da livre-escolha.

Com imagens, talvez. Imagine-se um casal intensamente apaixonado, que se separa por decisão da mulher. O homem, despeitado, continua insistindo por meses, mesmo percebendo que pouco ou nada resta do que os uniu – apenas o seu ‘amor’ por ela. Quando ela vai viver com outra pessoa o homem pára e percebe que tudo acabou. Mas o que fazer com o ‘amor’ que ainda pulsa dentro de si? É então que entende que o amor é ter, mas é também prescindir de. E não há maneira mais bela de demonstrar o amor que o ‘deixar seguir’.

Como nas relações, também os países deviam unir-se e separar-se por amor. Se a democracia não é amor, então é ódio e engano. A Alemanha voltou a ser uma. A Checoslováquia separou-se e o amor ficou. Na Iugoslávia o oposto. Não se separando por amor, a morte e a destruição tomaram-lhe a vez. Na Coreia, a separação pode tornar-se efetiva – e aí não haverá amor que os salve.
E por todo o mundo surgem laivos de esperança. Possibilidades de substituição da tecnocracia pelo amor. Na Dinamarca e no Canadá o divórcio (independência de regiões) é permitido, e os votos começam a falar por si. Talvez algum dia o Quebeque e a Gronelândia sejam países independentes. Diferentes línguas, culturas ou etnicidades poderão dar belos casamentos, mas também podem ser a causa de genocídios sem nome.

E isto tudo por causa do Estado espanhol e da (imbecil) proibição do referendo autonomista basco. O Governo de Madrid considera-o inconstitucional e, consequentemente, proibido. O que têm de perceber é muito simples: quando acaba o amor, o ódio pode muito bem surgir em seu lugar. E permanecer.


publicado no Novas da Galiza de Janeiro

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BLOGADO ÀS 16:38:18

23-09-2008

LÍNGUA, GALIZA, ACORDO ORTOGRÁFICO, NOVAS DA GALIZA

Português Padrão

Perdoem-me desde já a prosa. Não será minha intenção castigar os já saturados cérebros galegos: Hablar español, falar galego, falar galego assim ou assado, escrevê-lo de unha maneira ou à portuguesa. As opções são, à partida, demasiadas para um qualquer, e avassaladoras para os mais conscientes. Sem querer confundi-los a um nível ainda mais esquizofrénico, informo-vos que eu, humilde cronista, não vos escrevo numa língua diferente da vossa, honoráveis leitores. Não utilizo a norma do Português da Galiza, nem tampouco do Português de Portugal, nem mesmo a norma brasileira da língua. Escrevo-vos, isso sim, no futuro Português Padrão (PP).

Ao ratificar o Segundo Protocolo Modificativo, o Estado Português tornou o Acordo Ortográfico (AO) oficial na Comunidade dos Países de Língua oficial Portuguesa.

O período de moratória instituído significa que o Português Europeu demorará ainda seis anos a imergir-se no PP. O que quer dizer que, até lá, até 2014, me sentirei um pouco mais galego. Tanto um galego que regista as suas ideias em galego ‘oficial’ (ILG-RAG) ou um galego que utiliza o galego-português (AGAL) enfrenta dúvidas semelhantes. O primeiro, que com alguma inconsciência mas com a melhor das intenções procura grafar à espanhola a fala dos seus pais, enfrenta certamente a perplexidade dos seus pares, dominantemente castelhanófonos, ou mesmo galegófonos em part-time. O segundo, mais ou menos lusista, certamente mais reintegracionista que o anterior, enfrenta a perplexidade de todos, castelhanófonos ou galegófonos. Mesmo um português avulso que calhe de ler os seus escritos acusará semelhante perplexidade, ignorante da realidade em que tal se insere.

Eu escrevo, de há uns meses para cá, segundo o AO. Às vezes, muito raramente, tenho de alterar alguma palavra. No meu blogue ou em público, sempre que os meus amigos me permitem tais divagações, defendi o AO acerrimamente. Tirando os amigos que não opinam sobre o assunto, quase todos os outros se declararam, com maior ou menor esclarecimento, contra o AO. O argumento é invariável: declaram-me, com certeza assustadora, que este Acordo é uma rendição incondicional ao Brasil e à sua fonética. Alguns, raiando o limiar da pura ignorância, afiançam-me mesmo que o vocabulário português será corrompido pelo samba brasileiro, de ritmo inebriante. Matraquilhos transformar-se-ão em pimbolim, guarda-redes passará a goleiro, autocarro será ônibus, etc.

Para quem realmente acredita nisto, não tenho muito mais a acrescentar. E, até 2014, terei de os aturar ao escrever em PP. Depois, inevitavelmente, todos me darão razão.

(nota: apesar de estar redigido segundo o AO, este texto não exigiu nenhuma alteração em relação à norma ‘atual’ vigente em Portugal. bem, antes era ‘actual’, agora é ‘atual’. e nada mais.)



Publicado no Novas da Galiza e no Portal Galego da Língua.

BLOGADO ÀS 20:26:05

02-04-2008

LÍNGUA, GALIZA, NOVAS DA GALIZA

crónica

E para fechar em beleza o 'dia da Galiza', publico o último texto que enviei para o Novas. Normalmente escrevia notícias uma vez por mês, mas eles assediaram-me (sabiamente) a escrever crónica de quando em vez. Nem sabem o bem que me fizeram.



aguarda que verás

Cá pelo Norte todos sabemos o que é Santiago de Compostela. Cidade, estrangeiro, Espanha. Alguns dirão Galiza. Alguns. Muitos (se não todos) falarão d’A Coruña, e não estranharão se a virem grafada à portuguesa (Corunha, sem o artigo). Vigo sempre foi Vigo e Lugo sempre foi Lugo, mas poucos perceberão que Ponte Vedra se refere à espanholíssima Pontevedra. Para muitos, minha mãe incluída, Ourense nunca deixou de ser Orense. De nada adiantou a galeguização de La Guardia para A Guarda; mesmo dizendo-lhes que a Guarda galega é como a Guarda beirã, eles não deixam de desconfiar. É que a galega é A Guarda! Logo, tem um A antes, é totalmente diferente da portuguesa. Que diferença faz a sonoridade e grafia mais portuguesas, se estamos a falar de España? De facto, nenhum português cruza a fronteira a Norte para que lhe digam que não está en España. Vai-se lá para falar español, comprar recuerdos e comer hamburguesas. Para portuguesismos chega-lhes bem Portugal.

Imaginem então que os convencemos que o artigo A é um espanholismo, uma reminiscência do La castelhano que invade abruptamente a grafia natural dos topónimos galegos. Que se por cá fizéssemos igual teríamos de grafar Porto como O Porto, ou como muitos fazem agora para agradar à ignorância inglesa (Oporto). Se por momentos os convencêssemos que Gondomar, Póvoa e Viana existem dos dois lados da fronteira, o que conseguíamos? No máximo, um sorriso. Tendo prestado muita ou pouca atenção, o que se aprendeu na escola é lei. Galiza é Espanha. Deste lado somos portugueses, do outro espanhóis. E tudo o resto é ruído.'

BLOGADO ÀS 02:02:04
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