Poema velho escrito em Luz Serena

Partir para partir cruzando as pernas
realizando a dor deste universo
numa náusea respirada pouco a pouco
aparecida no interior dum respirar a modo.

Tenho nojo do nojo e medo a ver-me
tão fraco como sou, tão reticente,
longe de quê,
esse eu que se estende onde eu não chego.

Tenho nojo de quê.
O nojo é um medo a respirar o mundo
a dissolvê-lo com a força dos pulmões que empurram
para cima o coração e para baixo os intestinos.

Pernas de madeira a chiar na noite do cérebro.
Saltar para o outro lado do alento.
Respirar com as árvores de Luz Serena.

A minha velha tigela de madeira
A minha velha tigela de madeira

Este tesouro foi descoberto numa moita de bambu -
lavei a tigela numa nascente e depois consertei-a.
Depois do zazen da manhã, tomo nela os meus purés;
à noite, serve-me a sopa guenmai.
Partida, gasta, roída pelo tempo e deformada,
mesmo assim ainda é um bem prezado!

Ao meu novo recipiente

A partir de agora
nem sequer serás molestada
por um pontinho de terra.
Noite e dia ao meu cuidado,
já nunca estarás só!

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA.

(Ryôkan)

Sete romãs de presente
Sete romãs de presente

Dividi-las,
apartá-las,
parti-las:
comer, comer comer -
não deixar que saiam da minha boca!

Duas cartas-poema

O tempo está bom
e tenho muitas visitas
mas pouca comida.
Tens algum umeboshi
que não queiras?

Cresceu o frio
e o pirilampo
já não brilha.
Será que uma alma cândida
me trará água doirada?

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA.

(Ryôkan)

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