Tigela cheia, tigela vazia
Tigela cheia, tigela vazia

Ao longo da sebe alguns ramos de crisântemos doirados.
Corvos de inverno pairam por cima do bosque espesso.
Mil picos fulguram brilhantes ao pôr do sol,
e este monge volta a casa com a tigela cheia.

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Hoje não houve sorte nas minhas saídas mendicantes.
De vila em vila, só consegui arrastar-me.
Ao pôr do sol, milhares de montanhas entre mim e a minha cabana.
O vento frio rasga o meu corpo débil,
e a minha minúscula tigela parece tão abandonada!

Mas este é o caminho que escolhi e que me guia
pela desilusão e a dor, o frio e a fome.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA. O título é meu.

(Ryôkan)

Ramón
Ramón

resta-nos tanto mar por engolir
amigo
tanta verdade de sangue descarnada
tanta brecha que coser
e velear à sua margem

resta-nos tanto mar por engolir

vemo-lo desta praia de pedrinhas e cunchas
que o tempo desfez

antes eram os cons de semuinho
ou o com de três pés
ou a punta cavalo

mas o farol fez-se areia
e como a areia
continuamos mareados

o tempo fez-se idade

embarcados nesta distância que nos une
esta dorna que é um presente de gerações e anos
dalguma maneira conseguimos viver sem recordar-nos

surpreende-nos um dia
o piano esquecido cujo pedal deixa ainda reverberar sakuras
ou um disco de tangos
e todos os recordos são presentes do passado

o tempo
vemo-lo agora
fez-se idade

o tempo
que será história

de nós
talvez nada se salve na memória
de todos

talvez lembranças baças ou só nomes em livros
que ninguém leia
- e se os lessem, sejamos sérios, o que leriam? -

talvez nada tenhamos feito quando o vento da história nos sobarde a nos rebentar a vela

talvez engulamos o mar de vaga em vaga
talvez não possamos mais coser a brecha
talvez só fique de nós esta verdade de sangue

nem somos nem seremos nada

mas ao enfrentar a morte
como a enfrentamos agora nestes versos
flutua ainda no mar uma certeza

que cada vento
que alguma vez navegámos juntos nesta dorna
foi para o mundo ser melhor
agora

Outono florido
Outono florido

Chuva na primavera,
dilúvios no verão,
e um outono seco:
será que a natureza nos sorri
e todos poderemos compartir o seu prémio?

Por favor não me confundas
com um passarinho
quando me atiro ao teu jardim
para comer as maçãs.

Fui lá para mendigar
um pouco de arroz,
mas o agasalho florido dos arbustos
por cima das rochas
fez-me esquecer a razão.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA. O título é meu.

(Ryôkan)

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