AUTHOR: eugeniote TITLE: Missão BASENAME: missao DATE: Sun, 24 Jun 2018 10:15:00 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Trabalhei no trabalho,
No meu sono eu dormi,
Morri na minha morte,
Já posso partir.

Deixa atrás a cobiça,
Deixa atrás o que sobra.
Cobiça no espírito,
Cobiça na cova.

Minha amada, sou teu,
Sempre fui, permaneço,
Do tutano até aos poros,
Desta pele ao desejo.

Agora que já acaba
Esta minha missão
Pela vida que tive
Pede o meu perdão.

Fui atrás do meu corpo
Que de mim veio atrás.
O meu desejo é um espaço,
Morrer é navegar.

Original do texto e do desenho em Book of Longing, Penguin Poetry, 2007. ISBN. 978-0-141-02756-2 .

(Leonard Cohen)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Festa da cerejeira em flor BASENAME: como-poderia-dormir-4 DATE: Sat, 23 Jun 2018 09:58:00 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Traduções CATEGORY: Ryôkan TAGS: ----- BODY:

Como poderia dormir
nesta noite de lua?
Venham amigos,
cantemos, dancemos
durante toda a noite.

Estiro o meu corpo
por baixo do céu imenso
levemente bêbado:
sonhos esplêndidos
por baixo da cerejeira em flor.

Colho rosas selvagens
em campos cheios
de rãs que coaxam.
Deixo-as a flutuar no saké
e desfruto de cada minuto.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA. O título é meu.

(Ryôkan)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: deseja-me sorte BASENAME: deseja-me-sorte-4 DATE: Fri, 22 Jun 2018 20:58:00 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Traduções CATEGORY: Leonard Cohen TAGS: ----- BODY:

uma teia de aranha recém feita
chamando
como uma vela
em meio da janela aberta
e cá está ele
o pequeno mestre
a navegar
num fio de leite
deseja-me sorte
almirante
há muito tempo que não
acabo nada

Original do texto e do desenho em Book of Longing, Penguin Poetry, 2007. ISBN. 978-0-141-02756-2 .

(Leonard Cohen)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Minho BASENAME: a-beira-do-minho-em-lugo DATE: Sun, 16 Apr 2017 11:31:00 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Herança CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

E qual o limite exato
que separa o rio da terra de que bebem
estas árvores refletidas na água?
Onde estão as raízes dos reflexos
destes amieiros e carvalhos
a beira-rio?

A gravitação dos astros, a rotação
da terra, o simples peso
da combinação infinita de duas partículas
de hidrogênio e apenas uma
de oxígeno
movem o fluxo de que bebem
os javalis e os olhos dos amantes.

À beira desta terra passa água.

Dizemos que o Minho corre para o mar.
Dizemos Mera, Parga, Ladra,
Narla, Rato...
Os nomes construíram geografias
em que habitamos,
mapas que desenhamos
no território de um país fantasma.

A fantasia de conhecer o espaço
modificou o mundo à nossa imagem.
Destes moinhos e caneiros
nasceram as barragens que assolagaram vidas,
e iluminaram noites.

À beira desta água nós passamos
vida ante vida.

Apesar dos mapas,
fluímos.

Diluídos no tempo
somos
o que fazem de nós as margens e os caneiros
que nos conduzem as águas.

Domesticamos as correntes mas ignoramos
o seu mistério.

O Minho não existe.
Os átomos não são certezas.
Água
é só um nome.
Nem sequer o reflexo
da rama a tremer na superfície
oferece uma ideia a que agarrar-se.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Poema de amor verdadeiro BASENAME: poema-de-amor-verdadeiro DATE: Mon, 16 May 2016 08:37:00 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Eu não te necessito.
Se não estás
estou sozinho ou com outras pessoas
e não se passa nada.
A tua ausência
não enche o coração de ausências,
porque a minha vida
não és tu.
O meu coração,
que tu tão bem conheces,
também não te pertence.
Afinal, estou a usá-lo
e necessito-o
também com outra gente.
Mas contigo estou melhor que sem ti.
Tu dás valor a coisas que antes nem considerava.
Há algumas que com mais ninguém
consigo compartir.
Contigo o coração é terno
mas não eterno.
Contigo é mais fácil sentir amor à vida
e talvez seja por isso
que a vida te ama
através de mim.
E isso
é
tudo.
E mais nada.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: A desfrutar de vinho de arroz com o meu irmão mais novo Yoshiyuki BASENAME: a-desfrutar-de-arroz-com DATE: Sat, 07 May 2016 21:35:00 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ryôkan CATEGORY: TAGS: arroz, comida, imãos ----- BODY:

O irmão mais velho e o mais novo outra vez juntos,
mas não somos os dois que temos densas sobrancelhas brancas.
É tempo de paz e de alegria no mundo,
e dia após dia embebedamo-nos como malucos!

****

Neste mundo
se um houvesse
com tal disposição -
podíamos passar a noite
a falar na minha cabana.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA. O título é meu.

(Ryôkan)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Maria BASENAME: maria-1 DATE: Wed, 20 Apr 2016 07:43:00 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Herança CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Nasceste comigo para nascer de mim
mas não consigo
parir-te.
Sinto que estás
dentro das tripas desejando
somente ser tocada.
E quando o ar dá carícias ao peito
por dentro da laringe e borboletas
saltitam na barriga como querendo
querer-me
sei que o faço.
Eu também queria que fosse mais.
Mas passo a vida a ignorar-te e a ignorar-me
guardando as borboletas com uma pedra no peito.
Como farei para querer-te
eu, que mal consigo querer-me?
Como farei para querer-me em ti?
Tu, mulher impossível no meu corpo, como?

* * *

Hoje começa a nossa história.
Hoje vou dar-te a mão e prometo
que não te solto. Hoje
vamos andar juntinhos
sentindo os corações unidos.
Hoje adormeço contigo nos meus braços.
E hoje apresento-te aos amigos,
que há gente que quero que conheças,
e já começa a ser tarde.
Dou-te um presente de anos,
que é simplesmente um nome,
e vamos juntos dançar
a vida.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Improvisação com rima BASENAME: improvisacao-com-rima DATE: Fri, 05 Feb 2016 22:30:00 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

deixar fluir o tempo com o tempo
a vida continua pelas mãos afora
e nada mais que o vento pelo vento
se deixa arrastar para o interior da porta
do peito deste peito dos seus peitos
gravados na memória da memória
e no ventre da deusa em que derreto
em carne e voz a diluir na boca
a sensação de polpa que um segredo
deixa na boca da boca dessa boca

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Para Keizan, abade de Ganjô-ji BASENAME: para-keizan-abade-de-ganjo-ji DATE: Wed, 06 Jan 2016 17:48:55 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ryôkan CATEGORY: TAGS: esmola, ganjo-ji, templo, vadio, vagabundo, , yahiko ----- BODY:

Ganjô-ji é a leste de Hokke-dô, um templo
isolado entre rocas e escondido por uma densa névoa.
No fundo vale, o musgo cresce desenfreado e poucas vezes se vê visita.
Os peixes dançam num estanque antigo.
Altos pinhos elevam-se até o céu azul
e entre eles avista-se um bocado do monte Yahiko.
Um dia brilhante de setembro, numa saída a pedir esmola,
tive um impulso e decidi bater à porta do templo.
Sou um vagabundo Zen de espírito livre
e o abade também tem muito tempo de sobra.
Estivemos juntos todo o dia, sem nada que nos preocupasse no mundo,
bebericando vinho, brindando às montanhas e rindo como parvos!

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA.

(Ryôkan)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Cristo BASENAME: cristo DATE: Fri, 21 Aug 2015 07:57:01 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Herança CATEGORY: TAGS: cristo, dor ----- BODY:

há quanto tempo levantaram
a tua dor aos céus
carpinteiro
da ironia celeste
nesse humor negro
de te pregar ao madeiro?

do Gólgota ao presente construíram
vaticanos inteiros em teu nome
monumentos de amor e medo
e mortes consentidas

atiraste as redes e pescaste isso

agora
a tua dor é a nossa nas alturas

mas abres os braços mortos
a olhar para cima como se não houvesse
ninguém por estes lados

tu já não podes abraçar e a distância
é demais para abraçar-te

o teu único consolo é a consciência
de estarmos juntos sem consolo

pescador pescado

filho de peixe

quem nos dirá agora
que quem sabe nadar não necessita
caminhar sobre as águas?

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Um homem às direitas BASENAME: um-homem-as-direitas DATE: Sun, 02 Aug 2015 18:51:59 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: Herança TAGS: ----- BODY:

Devia de ter eu os meus cinco ou seis anos. Naquela época os meus pais deixavam-me ficar em casa dos meus avós durante longas temporadas no verão, num tempo que eu desfrutava entre o mar e a pouca terra da Arousa, que parecia infinita sob os meus pés. Passava o tempo com amigos ou simplesmente seguindo o meu avô Francisco, o Samaro, nas suas caminhadas. Às vezes levava-me com ele pescar chopos, ou à batea, onde eu ficava maravilhado com a força infinita das suas mãos e braços, capazes de levantar cordas de ostras em peso.

As manhãs eram normalmente para passar o tempo em Pedra Serrada. Em casa dos meus avós, eu brincava com o cão, subia à figueira, ou acompanhava Francisco a fazer todo o tipo de trabalhos, de plantar ou colher batatas e milho a arranjar objetos trabalhando madeira. A minha avó, entretanto, limpava ou cozinhava dentro de casa, e não me queria lá dentro. Ela também plantava e colhia quando era o tempo, mas o que ela mais gostava era de falar com a vizinhança. A casa tinha um caminho que unia Pedra Serrada com a rua do cemitério, e ainda que era privado, era constantemente transido por pessoas que saudavam e davam uma conversa que a minha avó adorava. Por ali falava-se de tudo o que acontecia na Ilha, e dava-se opinião velada sobre a vida de todo o mundo. O meu avô, no entanto, gostava de estar sozinho, com o cão, e trabalhar com as mãos ou caminhar. E falava também com os vizinhos, é claro, mas assim que podia saía de casa para caminhar em silêncio.

Na parte de trás da casa, que agora já é parte de diante, tinham os meus avós um galinheiro. Eu não gostava muito das pitas, que achava bastante aborrecidas, ainda que me emocionava cada vez que encontrava um ovo por baixo do poleiro. Acho que era a minha avó que lidava mais com elas, e foi ela que descobriu nalguma ocasião que os pardais andavam a comer o grão. Depois de um tempo, decidiram pôr uma rede ao grande oco que as reixas deixavam pela parte de cima, e lá ficavam presos os pardais cada vez que tentavam chegar-se a comer.

A partir daí, o galinheiro ganhou interesse para mim. Subido à figueira, onde gostava de passar a maior parte do tempo, estava atento sempre por se nalguma ocasião caía um pardal. Quando acontecia, corria a buscar o meu avô, que, com aquelas mãos grandes, agarrava o pardal com cuidado e baixava-o para que eu visse de perto como era. Às vezes permitia-me segurá-lo eu próprio, mas sempre, sempre, o pardal voltava a ser ceivo.

Numa ocasião que o meu avô não estava em casa, vi de cima da figueira um pardal na rede, e fui correndo buscar a minha avó. Ela veio logo para fora, e descobriu que lá não havia um pardal, mas dois, e perante os meus olhos, apanhou-os um a um e retorceu-lhes o pescoço. Mentiria se dissesse que aquilo me resultou violento, mas evidentemente chocou-me a diferença na forma de agir. Por isso lhe perguntei:

Aquele dia a minha avó comeu um pardal e eu o outro, enquanto o meu avô engolia um grande prato de arroz com qualquer coisa. Eu gostei do sabor do passarinho, ainda que me resultou muito difícil de comer, porque havia muitos ossos e pouca carne. Mesmo assim o meu veredito era claro: o passarinho sabia bem.

Dias depois, estando eu brincando outra vez na figueira, enquanto o meu avô trabalhava no alboio, um novo pardal caiu na rede. A minha avó devia ter ido à vila para qualquer coisa, porque lembro que não estava em casa. Como era habitual, corri a buscar o meu avô, e ele veio e agarrou-o nas suas mãos enormes. Mas desta vez eu não tinha tanto interesse em ver o passarinho:

O meu avô ficou paralisado.

Então o meu avô Francisco, o Samaro, retorceu a cabeça do pardal com suas mãos enormes. Enquanto o fazia, o seu rosto desfigurou-se e as lágrimas saltaram-lhe nos olhos. Eu olhei para aquilo estupefacto e, ao pouco tempo, era eu quem chorava desconsoladamente. Então o meu avô disse-me algo irritado entre as suas próprias lágrimas:

E eu voltei a chorar ainda com mais força, porque era verdade.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: - BASENAME: morte-quotidiana DATE: Tue, 05 May 2015 10:46:11 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Herança CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

como dizer que morro em cada coisa?

que cada objeto é a medida dos limites
da própria vida

que em cada abraço morro nesses braços

que quando vejo morro e se sou visto mato

que a vida é sempre este morrer em tudo

que morro em cada flor e em cada flor renasço

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: eU. BASENAME: eu DATE: Wed, 04 Mar 2015 20:13:36 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Herança CATEGORY: TAGS: eu ----- BODY:

aqui e ali o incenso que se entranha na consciência do cheiro
as ondas no ventre levemente moles
a saliva na língua que lambe os dentes por dentro
cá dentro os chilreios dos passarinhos lá fora
- ou os passarinhos lá dentro ou nem dentro nem fora -
e o ruído dos carros longe cá no peito que sente
alguma dor ou nenhuma ou apenas as penas
sem um contexto ou causa apenas isto
a cor castanha clara do soalho da sala
confusamente refletida nos olhos
nebulosamente
nevoeiromente
mentemente
porque a mente mente

mas quem sou eu?
esta consciência que respira e não abarca o tempo
chega até às portas daquilo que se percebe
- -será que sou
a sensação de leveza das gemas dos polegares que se tocam
ou a firmeza do corpo apoiado no períneo?
serei o ar que entra ou o que sai?
e será que são ares diferentes?
serei o espelho do oceano em calma
ou a espuma da onda a centelhar na crista?
serei o espelho da partícula da espuma
ou o espelho do meu quarto a que não limpei o pó?

pairam no ar chilreios a sensação do corpo e a memória
inspiro o ar e espiro os pensamentos que se cruzam
a construir em mim um tu que observa esta existência que abarca
o que entra pela porta invisível mas que não te delimita

serei eu tu?
mas quem és tu?
quem que aprendeu a velear e até a tocar piano?
quem que põe o mandilão de capa
que segura o cigarro na mão que faz sonetos?
quem que vê as intervius de papá no falho?
- (quem é papá? quem é mamá? quem será o filho do filho?)
quem és que sobes à figueira para brincar de arqueiro
ou revolucionário em Santiago?
quem que foste ao mosteiro budista e não aprendeste nada
porque as perguntas crescem?
quem que respira o pó em partículas suspendidas no ambiente
e volta a sentir a gorja transitada de espaço?

se vês o espelho vejo um espelho que se vê no espelho
se deito a vista atrás e deito a vista atrás aonde
me vão os olhos que me olham?

como uma forma de nuvem que agora está e desaparece
existo em ti que não existes
visão quimérica que nunca foste

mas afinal quem vê?
quem é visto?
quem vê quem é visto?
quem vê quem vê quem é visto?
quem vê quem vê quem vê quem é visto?

continuo?

seguro a mão que segura a mão segura

aparto com um sopro o interrogante
e volto a respirar

(volto a ser respirado)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Ghenito BASENAME: ghenito DATE: Sat, 20 Dec 2014 07:41:54 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Herança CATEGORY: TAGS: , foto, ghenito, , pai, , poesia, tempo ----- BODY:

que escreve esta criança na carteira da escola?
que escreve esta criança no seu gabinete para fazer memória?
que contas faz de cabeça?

a contabilidade infinita dos anos até setenta
soma a tropa e os filmes
as associações de vizinhos e os partidos
o futebol e as fábricas de conserva
o carnaval, a tasca, o concelho
a padaria, a pensão de sara e a vida na alemanha
as horas de carro e a geografia inteira do mundo

a tua vida não cabe na memória

e no entanto mira esta foto

passaram os anos e ainda não se sabe
se a olhada é decidida e incisiva
ou simplesmente míope e forçada

és uma esfinge sui generis sem dúvida

mas vejo-te na carteira e não te distingo deste pai que tenho

passou o tempo
e pouco mais

os óculos abriram-te os olhos
e o cabelo abandonou a cabeça

aprendeste da vida mais que livros
e agora
o teu sorriso é como um livro aberto
que atravessa gerações e anos

homem pequeno
menino grande
avô
filho de alfonso que faz empadas em casa
sobrinho de juanito que escreve as crónicas da vida

o tempo não passou
está passando

escorre entre os dedos que pulsam teclas no computador
passa entre as mãos que tentam agarrá-lo com palavras
esvai-se como o mundo inteiro quando tiramos os óculos

o tempo é pouco e nunca para

igual que tu

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Beber em companhia BASENAME: beber-em-companhia DATE: Thu, 27 Nov 2014 23:16:35 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ryôkan CATEGORY: TAGS: , , , ----- BODY:

Pleno verão -
passeio com o meu bastão,
os velhos lavradores veem-me
e convidam-me a beber com eles.
Sentamo-nos nos campos
e usamos folhas como pratos.
Agradavelmente bêbado e feliz
adormeço em paz
desparramado num banco de folhas de arroz.

****

Que sorte! Achei uma moeda no meu bolso!
Agora posso chamar o meu amigo a que chamam o Dragão Dorminhoco.
Há séculos que quero beber com ele
mas faltavam-me os meios até agora.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA. O título é meu.

(Ryôkan)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Poema intercambiado entre Ryôkan e o seu irmão Yoshiyuki BASENAME: poema-intercambiado-entre-ryokan-e-o-seu-irmao-yoshiyuki DATE: Wed, 10 Sep 2014 21:09:12 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ryôkan CATEGORY: TAGS: berlindes, bordel, , vacuidade, yoshiyuki ----- BODY:

"Ouvi dizer que jogas aos berlindes com as meninas do bordel"

O monge de kesa preto
a brincar com
as meninas do prazer -
O que será que há
no seu coração?
- Yoshiyuki

A brincar a brincar
enquanto passo por este mundo vácuo:
uma vez que estou aqui,
será que não é bom
espantar os pesadelos dos outros?
- Ryôkan

Esforçar-se a desfrutar
durante o trânsito neste mundo
talvez seja bom,
mas é que não pensas
no mundo que vem?
- Yoshiyuki

É neste mundo
com este corpo
que me esforço a desfrutar:
não é preciso pensar
no mundo que vem.
- Ryôkan

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA.

(Ryôkan)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Solidão do outono BASENAME: solidao-do-outono DATE: Thu, 10 Jul 2014 07:45:37 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ryôkan CATEGORY: TAGS: , outono, ----- BODY:

O ano acabará logo, mas eu continuo
aqui, na minha pequena cabana.
A chuva fria do outono cai tristemente
e as folhas amontoam-se nos degraus do templo.
Passo o tempo com a mente ausente
a ler sutras e entoar velhos poemas.
De súbito uma criança aparece e diz
'Anda, vamos juntos para a aldeia'.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA.O título é meu

(Ryôkan)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Um barulho de grilos BASENAME: grilos-ruidosos DATE: Tue, 20 May 2014 17:10:11 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ryôkan CATEGORY: TAGS: campo, ceifa, cidade, primavera, , sega ----- BODY:

Um barulho de grilos reina agora sobre os campos segados;
pacotes abrasadores de palha de arroz enchem a planície atordoada.
Os lavradores sentam-se ao pé dos seus lares a desfrutar das longas noites,
tiram o pó das esteiras e preparam-se para a primavera.
Quando as famílias de lavradores se reúnem e conversam
as palavras 'verdade' ou 'mentira' nunca são pronunciadas.
As pessoas da cidade não têm tanta sorte -
esses coitados têm de ajoelhar-se e dobrar o lombo todo o dia.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA.

(Ryôkan)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Poema velho escrito em Luz Serena BASENAME: poema-velho-escrito-em-luz-serena DATE: Thu, 10 Apr 2014 21:58:49 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: anotações mentais CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Partir para partir cruzando as pernas
realizando a dor deste universo
numa náusea respirada pouco a pouco
aparecida no interior dum respirar a modo.

Tenho nojo do nojo e medo a ver-me
tão fraco como sou, tão reticente,
longe de quê,
esse eu que se estende onde eu não chego.

Tenho nojo de quê.
O nojo é um medo a respirar o mundo
a dissolvê-lo com a força dos pulmões que empurram
para cima o coração e para baixo os intestinos.

Pernas de madeira a chiar na noite do cérebro.
Saltar para o outro lado do alento.
Respirar com as árvores de Luz Serena.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: A minha velha tigela de madeira BASENAME: a-minha-tigela-partida-de-madeira DATE: Sun, 23 Feb 2014 09:35:48 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ryôkan CATEGORY: TAGS: cuidado, , novo, , , tigela, velho ----- BODY:

Este tesouro foi descoberto numa moita de bambu -
lavei a tigela numa nascente e depois consertei-a.
Depois do zazen da manhã, tomo nela os meus purés;
à noite, serve-me a sopa guenmai.
Partida, gasta, roída pelo tempo e deformada,
mesmo assim ainda é um bem prezado!

Ao meu novo recipiente

A partir de agora
nem sequer serás molestada
por um pontinho de terra.
Noite e dia ao meu cuidado,
já nunca estarás só!

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA.

(Ryôkan)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Sete romãs de presente BASENAME: sete-romas-de-presente DATE: Sat, 22 Feb 2014 11:25:42 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ryôkan CATEGORY: TAGS: avidez, carta, , , umeboshi ----- BODY:

Dividi-las,
apartá-las,
parti-las:
comer, comer comer -
não deixar que saiam da minha boca!

Duas cartas-poema

O tempo está bom
e tenho muitas visitas
mas pouca comida.
Tens algum umeboshi
que não queiras?

Cresceu o frio
e o pirilampo
já não brilha.
Será que uma alma cândida
me trará água doirada?

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA.

(Ryôkan)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Um presente de umeboshis e batatas BASENAME: um-presente-de-umeboshis-e-batatas DATE: Fri, 21 Feb 2014 10:23:00 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ryôkan CATEGORY: TAGS: batatas, comida, presente, umeboshi ----- BODY:

Depois de procurar lenha nas montanhas
voltei à minha cabana
e encontrei umeboshis e batatas
que alguém deixou por baixo da janela.
As umeboshis embrulhadas em papel,
as batatas em folhas verdes
e um pedaço de papel com o nome de quem mo ofereceu.
No fundo das montanhas a comida não sabe a nada -
é sobretudo nabos e legumes -
assim que logo cozinhei o presente com molho de soja e sal:
enchi o meu estômago normalmente vazio
com três tigelas grandes.
Se o meu amigo poeta tivesse deixado algo de vinho de arroz
tinha sido um verdadeiro banquete.
Saboreei mais ou menos um quinto do presente, reservei o resto,
e, a dar palmadas à barriga cheia, voltei aos meus afazeres.
O Dia da Iluminação do Buda é daqui a seis dias
e ainda não sabia o que oferecer.
Mas agora tornei-me rico
e Buda vai deleitar-se com umeboshis e delicioso puré de batata.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA. O título é meu.

(Ryôkan)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Tigela cheia, tigela vazia BASENAME: tigela-cheia-tigela-vazia DATE: Thu, 20 Feb 2014 22:36:16 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ryôkan CATEGORY: TAGS: mendigar, , tigela ----- BODY:

Ao longo da sebe alguns ramos de crisântemos doirados.
Corvos de inverno pairam por cima do bosque espesso.
Mil picos fulguram brilhantes ao pôr do sol,
e este monge volta a casa com a tigela cheia.

-------

Hoje não houve sorte nas minhas saídas mendicantes.
De vila em vila, só consegui arrastar-me.
Ao pôr do sol, milhares de montanhas entre mim e a minha cabana.
O vento frio rasga o meu corpo débil,
e a minha minúscula tigela parece tão abandonada!

Mas este é o caminho que escolhi e que me guia
pela desilusão e a dor, o frio e a fome.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA. O título é meu.

(Ryôkan)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Ramón BASENAME: ramon DATE: Thu, 19 Dec 2013 00:02:35 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Herança CATEGORY: TAGS: amizade, dorna, , mar, poesia, ramon, tempo ----- BODY:

resta-nos tanto mar por engolir
amigo
tanta verdade de sangue descarnada
tanta brecha que coser
e velear à sua margem

resta-nos tanto mar por engolir

vemo-lo desta praia de pedrinhas e cunchas
que o tempo desfez

antes eram os cons de semuinho
ou o com de três pés
ou a punta cavalo

mas o farol fez-se areia
e como a areia
continuamos mareados

o tempo fez-se idade

embarcados nesta distância que nos une
esta dorna que é um presente de gerações e anos
dalguma maneira conseguimos viver sem recordar-nos

surpreende-nos um dia
o piano esquecido cujo pedal deixa ainda reverberar sakuras
ou um disco de tangos
e todos os recordos são presentes do passado

o tempo
vemo-lo agora
fez-se idade

o tempo
que será história

de nós
talvez nada se salve na memória
de todos

talvez lembranças baças ou só nomes em livros
que ninguém leia
- e se os lessem, sejamos sérios, o que leriam? -

talvez nada tenhamos feito quando o vento da história nos sobarde a nos rebentar a vela

talvez engulamos o mar de vaga em vaga
talvez não possamos mais coser a brecha
talvez só fique de nós esta verdade de sangue

nem somos nem seremos nada

mas ao enfrentar a morte
como a enfrentamos agora nestes versos
flutua ainda no mar uma certeza

que cada vento
que alguma vez navegámos juntos nesta dorna
foi para o mundo ser melhor
agora

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Outono florido BASENAME: outono-florido DATE: Tue, 15 Oct 2013 22:40:56 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ryôkan CATEGORY: TAGS: , mendigar, outono, ----- BODY:

Chuva na primavera,
dilúvios no verão,
e um outono seco:
será que a natureza nos sorri
e todos poderemos compartir o seu prémio?

Por favor não me confundas
com um passarinho
quando me atiro ao teu jardim
para comer as maçãs.

Fui lá para mendigar
um pouco de arroz,
mas o agasalho florido dos arbustos
por cima das rochas
fez-me esquecer a razão.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA. O título é meu.

(Ryôkan)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Oferenda BASENAME: oferenda DATE: Sun, 11 Aug 2013 08:15:44 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ryôkan CATEGORY: TAGS: , amores-perfeitos, , esquecimento, generosidade, oferenda, , tigela ----- BODY:

Para o nosso bem,
os moluscos e os peixes
oferecem-se
desinteressadamente
como comida.

-------

Na minha pequena tigela das esmolas,
amores-perfeitos e dentes-de-leão
à mistura
como uma oferenda
aos Budas dos Três Mundos.

A colher amores-perfeitos
à beira da estrada,
com a mente absorta,
deixo atrás a minha tigela.
Coitada!

Outra vez esqueci
a minha pequena tigela. ?
Ninguém vai apanhar-te,
certeza que ninguém vai apanhar-te,
triste tigela minha!

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA. O título é meu.

(Ryôkan)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Pedindo esmola BASENAME: pedindo-esmola DATE: Sat, 10 Aug 2013 20:33:28 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ryôkan CATEGORY: TAGS: agosto, esmola, mendigar, ----- BODY:

Cedo, o primeiro dia de agosto,
pego na minha cunca e dirijo-me à vila.
Nuvens de prata acompanham os meus passos,
uma brisa de ouro acaricia o sino do meu bastão.
Dez mil portas, mil cidades abertas para mim.
Deleito os meus olhos em bosques de bambu e bananeiras.
Mendigo cá e lá, ao leste e ao oeste,
parando também em lojas de saké e peixarias.
Uma olhada honesta pode desarmar uma montanha de espadas;
um passo calmo pode deslizar por cima do lume do inferno.
Esta foi a mensagem do Rei dos Mendigos
ensinada aos seus principais discípulos há por volta de vinte e sete séculos.
E eu ainda me comporto como um descendente de Buda!
Um tipo sábio disse uma vez há tempo:
'Quanto à comida, tudo é igual perante a Lei de Buda'.
Mantém essas palavras na cabeça
passem as eras que passarem.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA.

(Ryôkan)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Haikai BASENAME: haikai-2 DATE: Tue, 30 Jul 2013 11:02:49 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ryôkan CATEGORY: TAGS: ameixeira, bambu, cerejeira, corpo, flores, gansos, garoa, haikai, haiku, , lua, montanha, neve, pino, rouxinol, , ----- BODY:

Hei de ir lá ter hoje.
É amanhã que as ameixeiras
espalham as flores.

**********

Canta um rouxinol
que me traz de volta ao dia.
A manhã fulgura.

**********

Tenho um só desejo:
sob a flor da cerejeira
dormir uma noite.

**********

A aldeia no monte.
E totalmente a engolem
as rãs que coaxam.

**********

Primeira garoa
do outono. Que deliciosa
montanha sem nome!

**********

Passou o ladrão
e esqueceu roubar essa
lua da janela

**********

Agulhas de pino
atrás da porta fechada.
Sinto-me tão só...

**********

Estão a chamar-me,
voltando de noite a casa,
os gansos selvagens

**********

É o meu corpo velho
como este bambu enterrado
na neve fria.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA.

(Ryôkan)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Depois da chuva BASENAME: depois-da-chuva DATE: Tue, 23 Jul 2013 09:26:51 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ryôkan CATEGORY: TAGS: chuva, ermida, montanhas, primavera, , ----- BODY:

Um vento do leste trouxe a chuva necessária
que chorrou toda noite pelo telhado de colmo;
entretanto, a ermida dormitava aprazivelmente
imperturbada pela flutuante agitação do mundo.
Ao amanhecer, as montanhas verdes tomam banho
e os passarinhos da primavera cantam nas suas ramas.
Com pouca determinação, atravesso a porta -
riachos improvisados correm para vilas distantes,
maravilhosas flores decoram as ladeiras.
Descubro um lavrador a dirigir um boi
e um rapaz a levar uma enxada.
Os humanos têm de trabalhar em todas as estações, da noite ao dia.
Eu sou o único que não tem nada a fazer
aferrado com força à minha terra natal.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA. O título é meu.

(Ryôkan)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: fevereiro BASENAME: fevereiro DATE: Mon, 22 Jul 2013 11:09:29 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ryôkan CATEGORY: TAGS: cabana, fevereiro, inverno, lareira, neve, , vento ----- BODY:

A misturar-se com o vento
a neve cai;
a misturar-se com a neve
o vento sopra.
Junto à lareira
estico as pernas
deixando passar o tempo
confinado nesta cabana.
A contar os dias
reparo que também fevereiro
chegou e foi-se
como um sonho.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA. O título é meu.

(Ryôkan)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Uma noite de novembro amargamente fria BASENAME: uma-noite-de-novembro-amargamente-fria DATE: Sat, 20 Jul 2013 09:16:46 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ryôkan CATEGORY: TAGS: frio, neve, noite, novembro, ----- BODY:

Em silêncio, pelas cimeiras solitárias,
contemplo lá fora, com tristeza, o granizo que cai.
O grito dum macaco ecoa pelas colinas escuras,
um riacho frio murmura lá em baixo,
e a luz na janela parece solidamente gelada.
A minha pedra para a tinta também está fria como o gelo.
Hoje não vou dormir, escreverei poemas
aquecendo o pincel com o meu alento.

-------

Uma noite de novembro amargamente fria,
a neve caiu densa e rápida -
primeiro como grãos gordos de sal,
depois como suaves flores de salgueiro.
Os flocos assentaram-se silenciosos sobre o bambu
e empilharam-se agradavelmente nos galhos dos pinos.
Em lugar de me voltar para os velhos textos, a escuridão
faz com que prefira compor os meus próprios versos.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA. O título é meu. Ilustração de Darlene Kaplan

(Ryôkan)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: A lua de outono BASENAME: a-lua-de-outono DATE: Fri, 19 Jul 2013 10:33:16 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ryôkan CATEGORY: TAGS: , lua, noite, ----- BODY:

A lua sai em todas as estações, é verdade,
mas é claro que é melhor em outono.
Em outono as montanhas parecem maiores e a água corre mais clara.
Um disco brilhante atravessa flotando o céu infinito,
e não há sentido de luz e escuridão
porque tudo é permeado pela sua presença.
O céu ilimitado por cima, o frescor do outono na minha cara,
pego no meu bastão e passeio cá e lá pelas colinas.
Nem um pontinho da poeria do mundo à minha volta,
só os luminosos brilhos do luar.
Tenho a esperança que outros também estejam a desfrutar da lua desta noite,
e que ilumine todo o tipo de pessoas.
Outono após outono, a lua vem e vai-se
porque ela é eterna para o desfrute dos homens.
Os sermões de Buda, os ensinamentos de Êno,
certeza que aconteceram sob o mesmo tipo de lua.
Contemplo-a durante toda a noite,
enquanto o riacho se assenta e se poisam as gotas brancas de orvalho,
Que caminhante se deleitará mais tempo com a luz da lua?
A casa de quem será que beba mais raios da sua luz?

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA.

(Ryôkan)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Ao anoitecer do outono BASENAME: ao-anoitecer-do-outono DATE: Thu, 18 Jul 2013 08:32:57 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ryôkan CATEGORY: TAGS: bordo, kugami, montanha, outono, , veados ----- BODY:

Ao anoitecer
muitas vezes subo
ao pico de Kugami.
Os veados lá em baixo,
oiço as suas vozes
submersas
em montes de folhas de bordo
que descansam imperturbáveis
ao pé da montanha.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA. O título é meu.

(Ryôkan)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Visita durante o outono ao Pico das Nuvens com o Sacerdote Tenge BASENAME: visita-durante-o-outono-ao-pico-das-nuvens-com-o-sacerdote-tenge DATE: Wed, 17 Jul 2013 09:05:06 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ryôkan CATEGORY: TAGS: cabana, , , , pico das nuvens, ----- BODY:

A existência humana neste mundo:
folhas de lentilhas de água boiando sem destino à superfície.
Quem pode sentir-se seguro?
Esta é a razão porque peguei
nas minhas coisas de monge, deixei os meus pais,
e ofereci um adeus aos meus amigos.
Um simples kesa remendado
e uma cunca mantiveram-me todos estes anos.
Gosto muito desta cabana pequena
e amiúde passo tempo aqui -
ela e eu somos espíritos parentes
e nunca nos importamos por quem é hóspede ou anfitrião.
O vento sopra entre os pinos altos,
a geada congela os crisântemos que restam.
De braço dado, estamos por cima das nuvens:
unidos como um, perambulando pelo além do além.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA.

(Ryôkan)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Uma noite de verão BASENAME: uma-noite-de-verao DATE: Tue, 16 Jul 2013 08:44:13 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ryôkan CATEGORY: TAGS: calor, , , ----- BODY:

A noite avança para o amanhecer.
O orvalho pinga do bambu à minha porta de palha.
O meu vizinho do oeste deixou de bater na argamassa.
O jardim da minha ermida cresce humidamente
enquanto as rãs coaxam perto e longe
e os vaga-lumes rodopiam acima e abaixo.
Totalmente acordado, não é possível dormir esta noite.
Aliso a minha almofada e deixo que os meus pensamentos corram.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA. Ilustração, «O dragão do fumo a fugir do Monte Fuji» de Katsushika Hokusai

(Ryôkan)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Uma visita ao casarão do Sr. Fuji BASENAME: uma-visita-ao-casarao-do-sr-fuji DATE: Mon, 15 Jul 2013 06:49:14 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ryôkan CATEGORY: TAGS: livros, natureza, poesia, , vila ----- BODY:

Está fora da vila, a alguns kilómetros de distância.
Caminhei até lá, na companhia de um lenhador,
um percurso sinuoso através de pinhais esverdeantes.
À nossa volta, no vale, rebentos selvagens de ameixeiras de perfume doce.
Cada vez que o visito ganho alguma coisa nova
e lá estou realmente à vontade.
Os peixes do estanque são grandes como dragões
e a floresta que o circunda é calma durante todo o dia.
O interior desta casa está cheio de tesouros:
volumes de livros espalhados por toda a parte!
Inspirado, abandonei o meu kesa, naveguei entre os livros
e compus os meus próprios versos.
Ao pôr do sol, caminho através do corredor do oeste
e sou deleitado de novo por um bando de pássaros primaveris.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA.

(Ryôkan)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: O que é esta minha vida? BASENAME: title-647 DATE: Sun, 14 Jul 2013 07:09:33 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ryôkan CATEGORY: TAGS: destino, escrita, lareira, poesia, ----- BODY:

O que é esta minha vida?
A vaguear, confio-me ao destino.
Às vezes risos, às vezes lágrimas.
Nem um laico nem um monge.
Uma chuva precoce de primavera garoa uma e outra vez,
mas os rebentos de ameixeira ainda não alegraram o ambiente.
Toda a manhã fico sentado junto à lareira,
sem ter com quem falar.
Procuro o meu caderno
e pincelo alguns poemas.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA. O título é meu.

(Ryôkan)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Pagamento diário BASENAME: bolas-de-tela DATE: Sat, 13 Jul 2013 07:06:58 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ryôkan CATEGORY: TAGS: bolas, , primavera, ----- BODY:

O meu pagamento diário: brincar com as crianças do vilarejo.
Sempre tenho umas bolas de tela enfiadas nas mangas:
não sou bom para muito mais.
Antes sei desfrutar a tranquilidade da primavera!

Esta bola de tela na minha manga vale mais de mil moedas de ouro.
Sou bastante bom a jogar a bola, estás a ver.
Se alguém quiser conhecer o meu segredo, cá está:
«Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete».

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA. O título é meu.

(Ryôkan)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Gato e rato BASENAME: gato-e-rato DATE: Thu, 11 Jul 2013 20:09:49 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ryôkan CATEGORY: TAGS: ermida, gato, pecado, rato, ----- BODY:

A minha ermida é a casa de um gato e um rato.
Os dois são animais peludos.
O gato é gordo e dorme a plena luz do dia.
O rato é magro e corre cá e lá durante toda a noite.
O gato tem a bênção do talento,
é capaz de agarrar com destreza seres vivos que comer.
O rato está maldito,
e só furta bocados pequenos de comida.
O rato pode danificar recipientes, é verdade,
mas os recipientes podem ser substituídos,
contrariamente aos seres vivos.
Se me perguntares qual das criaturas tem mais pecado
eu diria que o gato.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA. O título é meu.

(Ryôkan)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: O curso da natureza BASENAME: o-curso-da-natureza DATE: Thu, 11 Jul 2013 07:21:17 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ryôkan CATEGORY: TAGS: borboleta, flor, jardim, , satori, vento ----- BODY:

As plantas e flores
que cultivei à volta da minha cabana
agora rendo
à vontade
do vento

-------

A flor convida a borboleta sem pensamento;
a borboleta visita a flor sem pensamento.
A flor abre-se, a borboleta vem;
a borboleta vem, a flor abre-se.
Não conheço os outros;
o outros não me conhecem.
Por meio do não saber seguimos o curso da natureza.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA. O título é meu.

(Ryôkan)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: O trabalho do vento BASENAME: o-trabalho-do-vento DATE: Wed, 10 Jul 2013 07:25:58 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ryôkan CATEGORY: TAGS: , plantas, , vento ----- BODY:

No meu jardim
fiz crescer arbustos de trevos,
erva suzuki,
lilases, dentes-de-leão,
floridos árvores da seda,
bananeiros, glórias-da-manhã,
epatóriuns, asteres,
tradescantias, hemerocallis.
Noites e manhãs
a amá-las todas,
a regá-las, nutri-las,
a protegê-las do sol.
Toda a gente dizia que as minhas plantas
estavam no seu melhor.
Mas em vinte e cinco de maio,
ao pôr-do-sol,
um vento violento
soprou como louco,
batendo e arrancando as minhas plantas.
A chuva verteu-se,
machucando ramos e flores
contra a terra.
Foi doloroso,
mas como o trabalho do vento,
tenho que deixá-lo estar...

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA. O título é meu.

(Ryôkan)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Caso 3 - A doença do mestre Ba BASENAME: caso-3-a-doenca-do-mestre-ba DATE: Tue, 09 Jul 2013 08:28:38 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Crónicas da Falésia Azul CATEGORY: TAGS: baso doitsu, buda cara de lua, buda cara de sol, , mazu doiyi, mestre ba ----- BODY:

O Grande Mestre Ba estava doente de morte. O sacerdote-mor do templo perguntou-lhe: Como se tem encontrado estes dias, Mestre?

O Grande Mestre respondeu: Buda de uma era, buda de um dia.

Tradução do inglês a partir de um original descarregado do site da Fundação Sanbô Kyôdan. Ilustração do Colectivo Hoodie Monks, no seu site The Gateless Gate, representando Mazu Daoyi.

(Crónicas da Falésia Azul)

* * * * * * * * * * * *
NOTA DA TRADUÇÃO: De forma mais literal, a resposta do Mestre Ba (mais conhecido como Patriarca 'Mǎzŭ Dàoyī', em Japonês 'Bâso Doitsu'), era a famosa 'Buda cara de sol, Buda cara de lua'. Optei por uma tradução mais literária, que esclarecesse o significado, tal como eu o entendo. 'Buda Cara de Sol' é um Buda que dura 1800 anos, mais do que uma era, um eão. Optei pelo termo 'era' por me ter parecido mais compreensível para a maioria das pessoas. O 'Buda Cara de Lua', por sua vez, vive só 24 horas.
----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Caso 2 - A Via Suprema de Jôshû BASENAME: caso-2-a-via-suprema-de-joshu DATE: Mon, 08 Jul 2013 08:04:05 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Crónicas da Falésia Azul CATEGORY: TAGS: apego, , , , natureza luminosa, , shin jin mei, zhaozhou congshen ----- BODY:

Jôshû, leccionando à sangha, disse:

'A Via Suprema não é difícil: simplesmente evita o apego e o rechaço'. Mas se uma só palavra for acrescida, já será uma ação de rechaço ou apego à 'Natureza Luminosa'. Este velho monge não acredita na Natureza Luminosa. E vocês, monges, querem aferra-se a isto com tanta força?

Então um monge perguntou: Dizes que não acreditas na Natureza Luminosa. Assim sendo, que é isso a que poderíamos aferrar-nos?.

Jôshû disse: Também não sei.

O monge disse: Se tu, mestre, não sabes, como podes dizer que não acreditas na Natureza Luminosa?.

Jôshû disse: Vocês já perguntaram muito, agora façam uma reverência e vão-se.

Tradução do inglês a partir de um original descarregado do site da Fundação Sanbô Kyôdan. Ilustração: retrato de Zhaozhou Congshen (Jp. Jôshu Jûshin) datado em 1880.

(Crónicas da Falésia Azul)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Caso 1 - O 'clara e vazia' de Bodhidharma BASENAME: caso-1-o-clara-e-vazia-de-bodhidharma DATE: Sun, 07 Jul 2013 08:52:39 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Crónicas da Falésia Azul CATEGORY: TAGS: bodhidharma, , emperador bu, , ----- BODY:

O emperador Bu de Ryô perguntou ao grande mestre Bodhidharma

"Qual é o significado último da suprema realidade?"

Bodhidharma respondeu

"É clara e vazia, sem nada supremo."

O emperador disse

"Quem és tu, que estás à minha frente?"

Bodhidharma disse

"Não sei!"

O emperador não compreendeu.

Assim, Bodhidharma atravessou o rio Yangtse e foi-se ao reino de Gi. Um tempo mais tarde, o Emperador perguntou a Shikô a sua opinião.

Shikô disse:

"Sabe vossa magestade quem é esse homem?"

O emperador disse:

"Não sei!"

Shikô disse:

"Ele é o Mahasatva Avalokitesvara, que transmite o selo da Mente de Buda"

O emperador agradeceu e quis enviar um emissário para trazer de volta Bodhidharma. Mas Shikô disse:

"Magestade, não tente enviar um emissário que o traga de volta. Mesmo se todas as pessoas do país lhe fossem pedir, ele não voltaria".

Tradução do inglês a partir de um original descarregado do site da Fundação Sanbô Kyôdan. Ilustração: retrato de Bodhidharma do Mestre Hakuin Ekaku

(Crónicas da Falésia Azul)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Peónias selvagens BASENAME: peonias-selvagens DATE: Sun, 30 Jun 2013 08:50:05 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ryôkan CATEGORY: TAGS: , , , pinheiro, , satori ----- BODY:

Peónias selvagens
agora mesmo no seu ponto máximo
de gloriosa floração completa.
Demasiado preciosas para colhê-las.
Demasiado preciosas para não colhê-las.

Ó pinheiro solitário!
Dava-te de bom grado
o meu chapeu de colmo
e o meu casaco de palha
para te cobrires da chuva.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA. O título é meu.

(Ryôkan)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Bambu BASENAME: bambu DATE: Sat, 29 Jun 2013 10:18:36 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ryôkan CATEGORY: TAGS: bambu, honestidade, ----- BODY:

O denso arvoredo de bambu à volta da minha cabana
mantém-me cómodo e fresco.
Rebentos proliferam, bloqueando o caminho
enquanto os galhos velhos procuram o céu.
Anos de geadas dão espírito ao bambu;
são mais misteriosos quando embrulhados na névoa.
O bambu é resistente como o pino ou o carvalho
e mais subtil que a flor do pessegueiro e da ameixeira.
Cresce direito e alto,
oco por dentro, mas com raiz robusta.
Amo a pureza e honestidade do meu bambu,
e quero que cresça aqui para sempre.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA. Ilustração de: Jan Zaremba

(Ryôkan)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Lótus BASENAME: lotus DATE: Fri, 28 Jun 2013 07:33:15 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ryôkan CATEGORY: TAGS: flor, lagoa, , , ----- BODY:

Primeiramente florescido no Paraíso do Oeste,
o lótus tem-nos deleitado durante tempo infinito.
As suas pétalas brancas estão cobertas de orvalho,
as suas folhas verdes de jade espalham-se pela lagoa,
e a sua fragrância pura perfuma o vento.
Majestoso e calmo, surge das águas escuras.
O sol está a pôr-se por trás das montanhas
mas eu fico no escuro, demasiado cativado para me ir embora.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA. Ilustração de: Kazu Shimura

(Ryôkan)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Quando os pensamentos estão exaustos... BASENAME: quando-todos-os-pensamentos-estao-exaustos DATE: Thu, 27 Jun 2013 08:04:46 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ryôkan CATEGORY: TAGS: , pensamento, riacho, , ----- BODY:

Quando todos os pensamentos
estão exaustos,
adentro-me no bosque
e colho
um monte de prémios de pastor.

Como o pequeno riacho
faz o seu caminho
entre as fendas musgosas
também eu, em silêncio,
me torno claro e transparente.

-------

Orquídea

No fundo do vale, esconde-se uma beleza:
serena, sem igual, incomparavelmente doce.
Na sombra calma da moita de bambu,
parece que suspira pelo amante.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA. O título é meu.

(Ryôkan)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Montanha Fria BASENAME: montanha-fria DATE: Wed, 26 Jun 2013 07:36:06 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ryôkan CATEGORY: TAGS: lua, lua cheia, montanha, noite, poemas da montanha fria, , zazen ----- BODY:

À noite, no fundo das montanhas,
sento-me em zazen.
Os assuntos dos homens nunca chegam aqui:
tudo é tranquilo e vazio,
e o incenso já foi engolido pela noite sem fim.
O meu kesa tornou-se uma tela de orvalho.
Incapaz de dormir, saio a caminhar entre as árvores -
subitamente, por cima do pico mais alto, aparece a lua cheia.

------------

Na minha hermita, um volume dos Poemas da Montanha Fria -
é melhor do que qualquer sutra.
Copio os seus versos e penduro-os á volta
saboreando cada um, uma e outra vez.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA. O título é meu.

(Ryôkan)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: mina BASENAME: mina DATE: Thu, 16 May 2013 12:15:05 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Outros poemas CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

gostava de falar de corcoesto
cabana de bergantinhos
galiza
mas faltam-me palavras
para dizer
enchi
distrito aomin-suaman
ghana

quero falar de corcoesto
e chego definitivamente tarde
á floresta tropical

quantas palavras
já deitei na lixeira procurando o verso certo

quantas vezes busquei a informação precisa
para o verso preciso
que nunca chega

mas quero falar de corcoesto e enchi

debruço-me a esta janela que é um ecrã em branco
e deixo que as palavras digam
da ética do ganho por cima de qualquer coisa
o mundo à volta do lucro sem pensar na terra que vamos deixar aos filhos
os filhos e nós próprios a respirar arsénico ou cianeto
a facada à paisagem que nunca mais seremos
o ouro como metáfora do valor deslocado da realidade ao símbolo
a cegueira de uma promessa que são só palavras vazias de político medíocre

sinto-me intoxicado ao ver no ecrã da sala tanta mentira repetida uma e mil vezes

mentiras de ouro
mentiras de arsénico
mentiras de cianeto

então deito-me no sofá e fecho os olhos

e quero falar de enchi mas não sei que coisa seja corcoesto nem ghana
nem o cianeto nem o arsénico nem balsas

o ouro agarra-se-me aos dedos e não posso mover um músculo

o arsénico no cérebro faz que não respirem os neurónios
o cianeto envereda nos pulmões e mal respira o meu corpo

e logo a dor de cabeça os vómitos os desmaios
e acordo e fiz cocó sobre mim próprio
e acordo e fiz xixi sobre os meus versos
e acordo e fiz cagada sobre a paisagem de corcoesto
ghana cabana de bergantinhos enchi planeta galiza mundo

e então abro os olhos
e falo de corcoesto
e enchi

a mesma mina
a céu aberto
e coração fechado

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Bàrbara BASENAME: barbara DATE: Thu, 09 May 2013 14:21:48 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: Herança TAGS: ----- BODY:

as tuas fotos vêm comigo
de casa em casa
de escuro a escuro
esconderijo

nelas estás nua
e nelas
estamos nós
há tanto tempo
nus

tu tão bonita
eu
tão tristemente homem

aquela miúda que ficou comigo
no papel fotográfico
e na memória
também ficou na vida

às vezes penso como pude
conseguir que me amasse
tanta beleza

é claro que não pude

é um mistério de esfinge que me ames
como o teu corpo que produz orgasmos

no teu umbigo remoinham-se arrepios
da minha pele
xiqueta que sempre foste
e és

falta-me tantas vezes o teu corpo breve
quase apagado nos meus braços

os teus peitos que não se apartam dos meus olhos
o teu sexo
que consegue engolir-me inteiro apenas por um apêndice

hoje escrevo estas palavras na distância
amanhã
terei contigo

então verei a prova da constância
desta mente de mono enlouquecido

e oxalá possa abraçar-te intensamente
e aguentar no sofá durante horas
as séries de que gostas

e oxalá o teu cabelo não me moleste no nariz
e possa abraçar-te deitadinhos
tentando acalmar-te quanto possa
as dores menstruais

mas entretanto
estás aqui
nos meus dedos
feita papel
e cores

deusa dos meus instintos
senhora dos meus pecados

menina e moça desse olhar malandro
que me desperta ao coração do mundo

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Dois poemas para o meu amigo Bôsai BASENAME: dois-poemas-para-o-meu-amigo-bosai DATE: Thu, 21 Feb 2013 14:03:52 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ryôkan CATEGORY: Traduções TAGS: , espelho, natureza, poesia, , zen ----- BODY:

Pois é, sou realmente um asno
que mora entre árvores e plantas.
Não me perguntem sobre as ilusões e a iluminação -
este velhote só gosta de sorrir para si próprio.
Vagueio pelos riachos com as minhas pernas ossudas,
e levo comigo uma sacola no bom tempo da primavera.
Essa é a minha vida,
e o mundo nada me deve.

A beleza chiante deste mundo nada me diz -
os meus amigos mais próximos são as montanhas e o rios,
as nuvens engolem a minha sombra segundo vou passando.
Quando me sento nos penhascos, os pássaros pairam sobre a cabeça.
Calçando chinelos de palha para a neve, visito aldeias frias.
Vai tão fundo quanto puderes na vida,
e poderás esquecer-te até das flores.

* * * * * *

Um trilho solitário entre dez mil árvores,
um vale nevoento entre mil cimeiras.
Ainda não é outono, mas as folhas já estão a cair.
Por enquanto não chove, mas na mesma as rochas escurecem-se.
Com o meu cesto, procuro cogumelos;
com o meu balde, vou procurar água pura da nascente.
Se não te perderes de propósito,
nunca vais chegar tão longe.

Subo ao Corredor da Grande Compaixão
e olho para as nuvens e o nevoeiro.
Árvores antigas estiram-se para o céu,
e a brisa fresca fala de dez mil gerações.
Por baixo, a Nascente do Rei Dragão -
tão pura que podes ver o seu princípio.
Às pessoas que passam, grito
'Venham! Venham ver-se refletidos na água!'.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA. Ilustração de Kameda Bôsai no livro de pintura literária Kyochusai - (Montanhas do Coração)

(Ryôkan)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Zazen nocturno BASENAME: zazen-nocturno DATE: Thu, 14 Feb 2013 11:38:46 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Traduções CATEGORY: Ryôkan TAGS: kesa, , zazen, zen ----- BODY:

Na quietude através da janela vazia,
sento-me em zazen vestindo o meu kesa de monge.
Nariz e umbigo alinhados,
orelhas paralelas aos ombros.
A luz da lua inunda o quarto.
A chuva parou mas o beiral não deixa de pingar.
Perfeito este momento -
na vasta vacuidade, a minha compreensão faz-se mais funda.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA. O título é meu

(Ryôkan)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Às Vezes Vida BASENAME: as-vezes-vida-1 DATE: Wed, 13 Feb 2013 09:14:31 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Colaborações CATEGORY: TAGS: ----- BODY:
Para o Eugénio Outeiro.

Às vezes vida
sangrando na
palavra interior
das cosmologias,
ardendo na língua
extensa deste amor
que habita no vazio
e descobre a sua
densidade perfeita.
Somos verso sem
olhos alçando-se
em silêncio até
destruir as casas
feridas pelo medo,
extraviados dos
nossos corpos
como no início
de uma música
entre a luz e a
noite, infinita.

Fevereiro de 2013.
Poema de Ramiro Torres, a propósito do meu livrinho de poemas Às Vezes Vida

(Ramiro Torres)

----- COMMENT: AUTHOR: Ramiro [Visitante] DATE: Wed, 13 Feb 2013 14:37:14 +0000 URL:

Obrigado, Eugénio. Um prazer dialogar poeticamente!

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Cardos BASENAME: cardos DATE: Tue, 12 Feb 2013 16:29:34 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Traduções CATEGORY: Ted Hughes TAGS: cardo, natureza, ted hughes, wodwo ----- BODY:

Contra a língua de borracha das vacas e as mãos lavradoras dos homens
os cardos espicaçam o ar do verão
ou crepitam ao abrirem-se sob a pressão azul-escura.

Cada um deles um rebento vingativo
de ressurreição, um molho colhido
de armas estilhaçadas e gelo islandês atirado para cima

da sombra soterrada de um viking apodrecido.
São como o cabelo pálido ou o som gutural dos dialectos.
Cada um deles maneja uma pena de sangue.

Depois crescem a se tornar cinzentos, como os homens.
Ceifados, é uma batalha. Os seus filhos aparecem
rijos e armados, voltando para lutar no mesmo campo.

Original em Wodwo, Faber & Faber, 2006. ISBN. 9780571097142

(Ted Hughes)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: O Urso BASENAME: o-urso DATE: Sat, 09 Feb 2013 23:51:48 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Traduções CATEGORY: Ted Hughes TAGS: natureza, ted hughes, urso, wodwo ----- BODY:

No grande, espalmado, olho dormido da montanha
O urso é o brilho na pupila
Pronto para acordar
E focar num instante.

O urso está a fitar
Começando a acabar
Com fita de ossos de pessoas
No seu sonho.

O urso está a escavar
No seu sonho
Através do Muro do universo
Com um fémur de homem.

O urso é um poço
Demasiado fundo para brilhar
Em que o teu grito
Está a ser digerido.

O urso é um rio
Em que as pessoas que se chegam para beber
Se veem a si próprias mortas.

O urso dorme
Num reino de muros
Numa aranheira de rios.

Ele é o piloto da barca
Para a terra da morte

O seu preço é tudo.

Original em Wodwo, Faber & Faber, 2006. ISBN. 9780571097142

(Ted Hughes)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: wodwo BASENAME: wodwo DATE: Thu, 31 Jan 2013 21:46:55 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Traduções CATEGORY: Ted Hughes TAGS: , natureza, ted hughes, wild man, wodwo ----- BODY:

O que sou eu? A meter o focinho aqui, movendo as folhas
a seguir uma leve mancha no ar até à beira do rio
Entro na água. Quem sou eu para partir
o fio cristalino da água a olhar para cima vejo o leito
do rio sobre mim de cima para baixo muito claramente
O que é que faço pairando no ar? Porquê será que acho
esta rã tão interessante enquanto inspecciono o seu mais secreto
interior e o faço meu? Será que estas ervas daninhas
me conhecem e nomeiam umas às outras ter-me-ão
visto com antecedência será que tenho lugar no seu mundo? Pareço
separado do chão e sem raízes mas deixado cair
casualmente do nada não tenho fios
que me atem a nada posso ir a qualquer parte
Parece que me foi dada a liberdade
deste lugar o que serei portanto? E colectar
cascas de árvores desta estampa podre produz-me
prazer nenhum e é inútil então porque é que o faço
meu e fazendo-o já coincidi de forma tão estranha
Mas como devo ser chamado sou o primeiro
tenho um dono que forma tenho que
forma tenho por acaso sou grande se for
até ao fim deste caminho passasse essas árvores e passasse essas árvores
até ficar cansado isso é tocar numa parede minha
de momento se eu me sento em quietude igual que tudo
para de olhar para mim suponho que sou o centro exacto
mas está tudo isto o que é que é raízes
raízes raízes raízes e aqui está a água
outra vez muito estranha mas continuarei a olhar

Original em Wodwo, Faber & Faber, 2006. ISBN. 9780571097142

(Ted Hughes)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Morada BASENAME: morada DATE: Mon, 28 Jan 2013 11:26:47 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ryôkan CATEGORY: TAGS: casa, poesia, , zen ----- BODY:

Se alguém perguntar
pela minha morada
eu respondo:
'A beira Este
da Via Láctea'.

Como uma nuvem flutuante
atada a nada
tão só me deixo ir
abandonando-me
ao capricho do vento.

------

Esfarrapada e despedaçada, esfarrapada e despedaçada,
esfarrapada e despedaçada é a minha vida.
Alimento? Recolho-o da beira da estrada.
O mato e os arbustos ultrapassaram em muito o meu chapéu.
Muitas vezes eu e a lua sentamo-nos juntos durante toda a noite,
e mais de uma vez deixei-me perdido sobre as flores selvagens, esquecendo voltar a casa.
Não espanta que tenha deixado a vida em sociedade.
Como poderia um monge tão louco viver num templo?

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA. O título é meu

(Ryôkan)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Lar BASENAME: lar DATE: Mon, 21 Jan 2013 08:07:40 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ryôkan CATEGORY: TAGS: casa, poesia, , zen ----- BODY:

Quando era jovem deixei de lado os meus estudos
e aspirei a ser um santo.
Vivendo na austeridade, como monge mendicante,
vagueei por muitos lugares durante muitas primaveras.
Finalmente voltei a casa para me assentar sob um pico penhascoso.
Vivo em paz numa cabana de palha,
com os pássaros como toda música.
As nuvens são os meus melhores vizinhos.
Por baixo, uma pequena nascente em que refresco corpo e mente;
por cima, elevados pinheiros e carvalhos, que me fornecem sombra e palha.
Livre, tão livre, dia após dia -
não quero ir-me nunca!

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA. O título é meu

(Ryôkan)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Ao meu professor BASENAME: ao-meu-professor DATE: Sun, 20 Jan 2013 09:40:22 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ryôkan CATEGORY: TAGS: lagrimas, morte, poesia, professor, , zen ----- BODY:

Uma velha sepultura esquecida aos pés de uma colina deserta
coberta de erva daninha que foi crescendo ano após ano, sem ninguém cuidar dela;
não há mais ninguém para atender a tumba
e só ocasionalmente um lenhador passa por perto.
Em tempos fui o seu aluno, um jovem de cabelos desgrenhados,
e aprendi profundamente dele ao pé do Rio Estreito.
Uma manhã parti na minha viagem solitária,
e em silêncio passaram os anos entre nós.
Agora voltei para encontrá-lo aqui no seu descanso.
Como poderia eu honrar o seu espírito ido?
Verto um merlo de água pura sobre a sua lápide
e ofereço uma oração silenciosa.
O sol desaparece súbito por trás da colina
e sou envolvido pelo rugido do vento entre os pinos.
Tento tirar-me dali mas não consigo:
um fluxo de lágrimas ensopa as minhas mangas.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA.

(Ryôkan)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: De volta a casa BASENAME: de-volta-a-casa DATE: Sat, 19 Jan 2013 06:01:46 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ryôkan CATEGORY: TAGS: poesia, , volta a casa, zen ----- BODY:

Volto à minha aldeia depois de muitos anos de ausência:
doente, entro numa velha pousada e ouço a chuva.
Um kesa e uma cunca é tudo o que tenho.
Acendo incenso e esforço-me em sentar-me em meditação.
Durante toda a noite há uma garoa calma que cai além da janela escura
e dentro, pungentes lembranças destes anos de peregrinação.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA. O título é meu.

(Ryôkan)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Lembrança de Entsu-ji BASENAME: lembranca-de-entsu-ji DATE: Thu, 17 Jan 2013 10:36:04 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ryôkan CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Deitando a vista atrás, lembro os meus dias em Entsu-ji,
e o esforço solitário para encontrar a Via.
Carregar lenha fazia-me lembrar Layman-Ho;
quando polia arroz, o Sexto Patriarca vinha à minha mente.
Sempre era o primeiro da fila para receber os ensinamentos do mestre,
e nunca perdia uma hora de meditação.
Trinta anos passaram desde que
abandonei as verdes montanhas e o mar azul daquele lugar querido.
O que é que foi de todos os meus colegas discípulos?
Como poderia esquecer o meu amado mestre?
As lágrimas não param de fluir, confundidas com o riacho serpenteante da montanha.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA. O título é meu.

(Ryôkan)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Eihei Kôroku 11 BASENAME: eihei-koroku-11 DATE: Wed, 16 Jan 2013 15:15:41 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Dôgen Zenji CATEGORY: Traduções TAGS: ----- BODY:

A linhagem dos Budas enraíza nos seus condicionantes, o ensinamento dos Budas surge de iniciar o caminho. Uma vez que encontre boas condições, não deve deixá-las, e deve cultivar a prática. Na prática encontrará aceitação e rejeição.

Estando aqui, não deve tropeçar com o passado, deve encontrar o Caminho. Na busca do Caminho há prática, há esforço; se um dia atravessar o Caminho, todas as coisas serão completas, mas enquanto não o atravessar, todas as coisas estarão erradas.

Uma vez houve certo monge na sangha de um dos mestres clássicos, que estava a servir como superintendente no mosteiro.

Um dia o mestre perguntou-lhe: "Há quanto tempo estás aqui?"

O monge respondeu "Até agora três anos". O Mestre Zen perguntou de volta "És novo. Porque é que nunca fazes perguntas sobre os Ensinamentos?". O monge respondeu: "Não me atreveria a enganar-te: já consegui entender quando estive a servir outro mestre zen".

O Mestre Zen disse então "Por meio de que palavras o conseguiste?". O monge disse "Uma vez perguntei ao mestre 'Qual é a verdadeira natureza de quem estuda?'. O mestre disse-me 'O deus do lume vem procurando lume'".

Ao ouvir esta história, o Mestre Zen notou: "Essa é uma boa frase, mas receio que você não entendeu".

O monge disse: "O deus do lume é a natureza do lume; procurar lume com lume é como procurar o vazio com o vazio".

O Mestre Zen retorquiu: "Realmente você não entendeu. Se o Buda-dharma fosse dessa maneira, nunca teria chegado ao presente".

O monge foi-se embora cheio de raiva, mas enquanto saía pensou: "Este mestre tem mais de quinhentos discípulos. Deve de ter algo de razão na sua advertência de eu estar errado".

Assim, foi de volta para o Mestre Zen e desculpou-se. O mestre recomendou-lhe: "Faz-me a pergunta", e o monge perguntou: "Qual é a verdadeira natureza de quem estuda?". O mestre disse: "O deus do lume vem procurando lume!". Perante isto, o monge obteve uma grande iluminação.

Antes tinha sido "O deus do lume procurando lume" e depois também foi "O deus do lume procurando lume". Porquê a primeira vez caiu na compreensão inteletual, em lugar de ser iluminado? Porquê foi grandemente iluminado depois, abandonando o seu ninho de clichés?

Querem entender?

[Silêncio]

O deus do lume vem procurando lume;
quanta luz invejam as colunas e os candeeiros?
Enterrado nas cinzas, ainda que procure, não vê;
acendendo-o e assoprando-lhe
volta de novo à vida.
Tradução do inglês a partir do trabalho de Thomas Cleary. Rational Zen - The Mind of Dôgen Zenji, Shambala Dragon Editions, 1992, USA.

(Dôgen Zenji)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Juventude BASENAME: juventude DATE: Mon, 14 Jan 2013 10:33:01 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ryôkan CATEGORY: Traduções TAGS: juventude, poesia, , zen ----- BODY:

Quando eu era um rapaz
borboleteava pela cidade como uma lâmina alegre,
vestia a suavidade do entardecer como uma capa
e montava um esplêndido cavalo zaino.
Durante o dia, galopava à cidade.
À noite, embebedava-me sobre as pétalas de pessegueiro ao pé do rio.
Nunca me preocupou voltar a casa, e muitas vezes
acabei com um grande sorriso no pavilhão do prazer.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA. O título é meu A ilustração de Jan Zaremba.

(Ryôkan)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Corpo BASENAME: corpo-1 DATE: Thu, 08 Nov 2012 13:59:44 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: anotações mentais CATEGORY: intimidades TAGS: ----- BODY:

Este é o corpo real.

A nuvem louca.

A sensação eterna de queda
haja ou não haja queda.

O fluxo cego que gravita em torno à gorja.

Este é o corpo real
e do real.

O remoinho
de sensações em torno ao estômago.

Estômago o centro do mundo
digerindo
pedras nas tripas.

A segurança
do ar.

O vento.

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Poética BASENAME: poetica DATE: Sat, 03 Nov 2012 12:52:58 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ryôkan CATEGORY: TAGS: poesia, , , zen ----- BODY:

É pena um homem nobre a compor poemas em seu retiro refinado.
Modela o seu trabalho segundo os versos clássicos da China,
e os seus poemas são elegantes, cheios de frases preciosas.
Mas se não escrever de coisas do fundo do seu próprio coração,
de que serve atirar para fora tantas palavras?

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA.

(Ryôkan)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Autopoética BASENAME: autopoetica DATE: Sat, 03 Nov 2012 11:35:42 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ryôkan CATEGORY: TAGS: , poesia, , zen ----- BODY:

Quem diz que os meus poemas são poemas?
Os meus poemas não são poemas!
Quando conseguires compreender isto
poderemos falar de poesia!

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA.

(Ryôkan)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Eihei Kôroku 10 BASENAME: eihei-koroku-10 DATE: Fri, 19 Oct 2012 06:54:04 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Dôgen Zenji CATEGORY: TAGS: , , , zen ----- BODY:

Até desfazer estruturas fixadas é girar no fluxo do nascimento e da morte; até leccionar o caminho médio é ilusão e erro.

Se estudares assim, estudas acompanhado pelos Budas. Se o estudares de outra maneira, estás a estudar sozinho.

Estudar com os Budas ou estudares sozinho; leccionar um metro e leccionar um kilómetro; falar de dez ou falar de nove. São coisas diferentes.

Que significa 'de outra maneira'? És tu próprio. Que significa 'assim'? São os Budas.

Quando o grande Baso começou a dar ensinamentos, o seu mestre Nangaku disse ao seu próprio grupo 'Está Baso a dar ensinamentos às pessoas?' Disseram-lhe que estava e Nangaku disse 'Nunca vi ninguém dar notícia disso'. Ninguém teve uma resposta.

Assim que Nangaku enviou um monge junto a Baso, com as seguintes instruções: 'Quando Baso se levantar na sala de leituras para os ensinamentos, pergunta-lhe como é ele, lembra a resposta e vem de volta'.

O monge foi e fez o que lhe foi dito. Quando voltou, disse a Nangaku, "Baso disse 'desde a rebelião dos Bárbaros, nestes últimos trinta anos, não me tem faltado o sal e a sopa para as comidas"

Pego nesta história e faço uma bola com ela, que ofereço aos iluminados. Há três pessoas que o testemunham: um diz que estou a oferecer flores, outro que estou a oferecer um precioso incenso, outro que estou a oferecer a cabeça, os olhos, o tutano e o cérebro.

Deixando de parte o testemunho destas três pessoas, como poderia o testemunho de toda a comunidade supor uma explicação para as pessoas ordinárias?

"Nos milhões de anos desde a rebelião dos Bárbaros, nunca me tem faltado sal e vinagre".

Tradução do inglês a partir do trabalho de Thomas Cleary. Rational Zen - The Mind of Dôgen Zenji, Shambala Dragon Editions, 1992, USA.

(Dôgen Zenji)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Eihei Kôroku 9 BASENAME: eihei-koroku-9 DATE: Thu, 18 Oct 2012 12:32:03 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Dôgen Zenji CATEGORY: TAGS: , , , zen ----- BODY:

Uma única declaração desfaz a obstrução da fixação; uma única declaração enche todo o espaço. Diz-me: que declaração empregam os iluminados para ajudar as pessoas?

Sei uma declaração nova, que os iluminados nunca disseram, e que vou dizer-te agora.

Pronto.

Tradução do inglês a partir do trabalho de Thomas Cleary. Rational Zen - The Mind of Dôgen Zenji, Shambala Dragon Editions, 1992, USA.

(Dôgen Zenji)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Eihei Kôroku 8 BASENAME: eihei-koroku-8 DATE: Thu, 11 Oct 2012 07:48:52 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Dôgen Zenji CATEGORY: TAGS: , , ----- BODY:
Cultivando a prática por três eões imensuráveis,
o descanso não chega quando o objectivo se atinge.
A realização obtida num instante
não é atingida pela corrupção.

Um antigo disse: 'Entender o significado fundo procurando nas escrituras é contrário ao Buda de todos os tempos. Mas esquecer uma simples palavra das escrituras pode tornar a fala nalgo malicioso'.

Quando não dependemos das escrituras, mas não nos separamos delas, como é que praticamos?

[Levantando um batedor]

Este é o meu batedor. O que é que é a escritura?

O que segue é demorado. Deixo-o para outro dia.

Tradução do inglês a partir do trabalho de Thomas Cleary. Rational Zen - The Mind of Dôgen Zenji, Shambala Dragon Editions, 1992, USA.

(Dôgen Zenji)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Eihei Kôroku 7 BASENAME: eihei-koroku-7 DATE: Wed, 10 Oct 2012 13:16:27 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Dôgen Zenji CATEGORY: TAGS: , , ----- BODY:

Nem sequer agir dacordo com a visão do momento oportuno é uma boa técnica; enquanto continuares a te manejar a partir das manifestações físicas, não vou aceitá-lo.

É por isso que se diz 'Que coisa é essa, que chega dessa maneira?'.

Qual o princípio por trás de 'Que coisa é que chega'?

[Silêncio]

A verdade não esconde a falsidade, o torto não encobre o recto.

Tradução do inglês a partir do trabalho de Thomas Cleary. Rational Zen - The Mind of Dôgen Zenji, Shambala Dragon Editions, 1992, USA.

(Dôgen Zenji)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Eihei Kôroku 6 BASENAME: eihei-koroku-6 DATE: Fri, 07 Sep 2012 07:22:40 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Dôgen Zenji CATEGORY: TAGS: , , ----- BODY:

Eu não fui a muitos mosteiros, mas aconteceu-me ver o meu mestre e reparar logo que os meus olhos são verticais e o meu nariz horizontal. Assim que não estava para ser enganado por ninguém. É por isso que voltei com as mãos vazias, e não tenho nenhum Budismo em absoluto; passo o tempo a deixá-lo fluir. Todas as manhãs o sol sai no este e todas as noites a lua aparece no oeste. Quando as nuvens se vão, o espinhaço das montanhas vê-se nu; quando a chuva passou, as colinas em volta pairam baixinho. Afinal, como é isto? [Silêncio] Um ano bissexto depois de cada três; o galo canta ao amanhecer.

Tradução do inglês a partir do trabalho de Thomas Cleary. Rational Zen - The Mind of Dôgen Zenji, Shambala Dragon Editions, 1992, USA.

(Dôgen Zenji)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Eihei Kôroku 5 BASENAME: eihei-koroku-5 DATE: Thu, 06 Sep 2012 19:10:00 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Dôgen Zenji CATEGORY: TAGS: , , , zen ----- BODY:

Em tempos antigos, um homem que estava no topo de uma torre viu passar dois monges precedidos de dois deuses varrendo e semeando de flores o caminho por onde iam a passar.

Depois, quando os monges voltaram, havia dois demónios a gritar e cuspir, apagando as suas pisadas.

O homem desceu da torre e perguntou aos monges porque é que acontecia isso.

Os monges disseram: "Quando fomos, discutíamos sobre os princípios ensinados pelo Buda; quando voltámos falávamos de coisas triviais. Essa deve de ser a razão do fenómeno".

Os dois monges foram iluminados por este facto, arrependeram-se e foram-se embora.

Ainda que isto é uma objetivação grosseira, quando a examinas com cuidado reparas que é um assunto da maior importância para as pessoas que estudam a Via. Porquê? Simplesmente porque lá fora os objectos aparecem quando surgem pensamentos emotivos. Se os pensamentos não se formarem, não são objectos apreensíveis.

No caso desta velha estória, os deuses encontraram um caminho sobre o que deitar flores, e os demónios acharam um caminho que espezinhar: por isso as coisas aconteceram dessa maneira. Mas que acontece quando os deuses não acham um caminho sobre o que deitar flores e os demónios não acham um caminho que espiar?

Querem perceber? Estou para dizer agora o que ainda não tinha sido dito pelas gerações anteriores.

Os Budas não aparecem no mundo em virtude de experiências meditativas, poderes, ou conhecimentos ocultos. Simples pessoas ordinárias, mas com sabedoria, também realizam estas meditações, ainda que não se apercebam da sua pureza sem contaminação. Se o iluminado lhes explicasse, eles também realizariam a não-contaminação.

Tradução do inglês a partir do trabalho de Thomas Cleary. Rational Zen - The Mind of Dôgen Zenji, Shambala Dragon Editions, 1992, USA..

(Dôgen Zenji)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Eihei Kôroku 4 BASENAME: eihei-koroku-4 DATE: Wed, 05 Sep 2012 07:18:19 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Dôgen Zenji CATEGORY: TAGS: , , , zen ----- BODY:

A iluminação suprema não é para um próprio nem para os demais, nem para ganhar fama nem dinheiro. Procurar apesar disso a iluminação incomparável, com todo o coração e a mente, perseverando e sem dar passos atrás é chamado 'despertar a mente para a iluminação'.

Uma vez que consegues que apareça esta mente, nem sequer por amor à iluminação é que procuras a iluminação. Esta é a verdadeira mente do despertar. Sem esta mente, como poderás praticar o verdadeiro caminho à iluminação?

Aqueles que procuram a iluminação com decisão não devem cansar-se nesta busca; não devem abandonar. Aqueles que não conseguiram a mente do despertar têm de rezar aos Budas passados, e dedicar as suas boas ações à procura da mente do despertar.

Alguém perguntou uma vez a um grande mestre Zen: 'Todas as coisas voltam ao Um. Para onde volta o um?'.

Então o mestre Zen disse: 'Quando eu vivia em tal e qual lugar, fiz uma camisa que pesava três Quilos'.

Assim é que falavam os antigos iluminados. Se alguém me perguntasse 'Todas as coisas voltam ao Um. Para onde volta o um?' eu diria que à transcendência.

Se me perguntassem porque digo isso, diria que eu estou dentro, fazendo oferendas a biliões de Budas.

Tradução do inglês a partir do trabalho de Thomas Cleary. Rational Zen - The Mind of Dôgen Zenji, Shambala Dragon Editions, 1992, USA. Fotografia de National Geografic.

(Dôgen Zenji)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Eihei Kôroku 3 BASENAME: eihei-koroku-3 DATE: Tue, 04 Sep 2012 07:40:20 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Dôgen Zenji CATEGORY: TAGS: , , , zen ----- BODY:

Um praticante perguntou ao mestre zen: 'Em que estás a pensar tão intensamente?'

O mestre respondeu: 'Penso naquilo que não pode ser pensado'.

O praticante perguntou: 'Como podes pensar no que não pode ser pensado?'.

O mestre respondeu: 'Não o penso'.

Quando a mente já se foi
dizer 'sem mente' não consegue descrevê-lo.
Nesta vida
a pureza sempre vai por diante.

Tradução do inglês a partir do trabalho de Thomas Cleary. Rational Zen - The Mind of Dôgen Zenji, Shambala Dragon Editions, 1992, USA. Ilustração de John Daido Loori Roshi.

(Dôgen Zenji)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Eihei Kôroku 2 BASENAME: eihei-koroku-2 DATE: Mon, 03 Sep 2012 07:14:26 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Dôgen Zenji CATEGORY: TAGS: , , , zen ----- BODY:

O ditado de que não ter mente é Buda tem origem na Índia, o de que a própria mente é Buda na China.

Se compreenderes isto estarás tão longe como o céu está da terra.

Se não perceberes és só um de tantos.

Finalmente, que quer dizer isto?

No terceiro mês da primavera
a fruta está cheia na árvore da iluminação.
Uma noite a flor desabrocha
e todo o mundo é fragrância.

Tradução do inglês a partir do trabalho de Thomas Cleary. Rational Zen - The Mind of Dôgen Zenji, Shambala Dragon Editions, 1992, USA.

(Dôgen Zenji)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Eihei Kôroku 1 BASENAME: eihei-koroku-1 DATE: Sun, 02 Sep 2012 19:04:40 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Dôgen Zenji CATEGORY: TAGS: , , , zen ----- BODY:

Os anos de uma vida são o brilho instantâneo de um relâmpago. Quem se prende aos objetos? São totalmente vácuos. Mesmo se te preocupares pelo nariz pendurado diante da tua cara, toma cuidado e valoriza todo momento para trabalhar na iluminação.

Isto é um conselho para as pessoas que meditam. Que tal um conselho para os praticantes maduros da montanha?

As cores outonais dos mil picos
estão tingidas da chuva da estação;
como poderá a pesada rocha da montanha
ir-se embora com o vento?

Tradução do inglês a partir do trabalho de Thomas Cleary. Rational Zen - The Mind of Dôgen Zenji, Shambala Dragon Editions, 1992, USA. Ilustração de nkimadams.

(Dôgen Zenji)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Esqueletos BASENAME: esqueletos DATE: Fri, 03 Aug 2012 10:32:33 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: arquivos para descarga TAGS: descarga, esqueletos, ikkyu, morte, poesia, zen ----- BODY:

Clique aqui para descarregar o arquivo (.pdf)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Às Vezes Vida BASENAME: as-vezes-vida DATE: Fri, 27 Jul 2012 08:02:23 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: arquivos para descarga CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Às Vezes Vida, o meu primeiro livro de poemas. O original foi publicado pelo Ateneo de Pontevedra na primavera de 2002, com ilustrações de Elke Arfsen. A presente edição é de responsabilidade única do próprio autor, dez anos depois.

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Nela BASENAME: nelita DATE: Mon, 16 Jul 2012 11:58:17 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Herança CATEGORY: TAGS: , , , , nelita ----- BODY:

Penteaste-me os cabelos de espiga de milho,
menina triste na carteira da escola.
Lavaste-me o corpo todo e chupei nas tuas tetas
impossíveis de abranger.
Agora olhas pra mim desde esta foto
que atravessa o tempo
e o teu globo ocular é um mapa múndi.
Às vezes vejo-me eu próprio com o mesmo
medo com que me espreitas nesta imagem.
Às vezes busco em ti um começo de tudo
impossível no fundo.
Às vezes não vejo fundo nos teus olhos.
Mas tu seguras a carteira
como a buscar uma certeza a que agarrar-te
na vertigem do tempo.
Tu que confundes Viena com Veneza,
e tanto mundo correste,
és só uma menina agora na carteira da escola,
o corpo mais pequeno numa ilha pequena
em que me rebentou a vida.
Nem imaginas o que chegou depois da infância.
Quase nem eu, que sou depois de tudo, sei dizer-te
da irmã loirinha como uma boneca de verdade
que nunca deixaste de cuidar,
como entraste na fábrica e conheceste
um homem baixo e feio que te cativou
(é assim a vida)
e casaste e pudeste ver o mundo
dos mapas do teu pai.
Depois vieram filhos que cuidaste,
e tempos depois eu,
loirinho e lindo
como ninguém consegue imaginar-me.
O tempo passa assim mas tu nem sabes:
só pensas coisas tristes na carteira.
Talvez teu pai,
o rude marinheiro,
que vais saber depois cheio de sonhos,
te imponha medo.
Ou tua mãe a pobre esposa
que quer ser senhorita
fechada numa casa em Pedra Serrada.
Estás tão séria que não sei dizer-te
se foste feliz durante a infância.
Oxalá pudesse fazer-te coceguinhas
para te ver os dentes,
e pegar na tua mão dentro da minha
para levarmos os olhos de passeio.
Por isso passo os meus pelo mapa da vida,
e por isso te faço rir por minha boca
a cantar a tabuada.
Por isso seguro agora a tua mão que existe
dentro de mim:
a que abarca a minha nos momentos difíceis,
a que segura a carteira contra o tempo.
A mão que penteou o milho,
a tua irmã,
os teus filhos
e é a mesma
mão com que escrevo.

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Verso morto BASENAME: verso-morto DATE: Sat, 07 Jul 2012 07:05:37 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: ikkyu, , poesia, zen ----- BODY:

Neste vasto reino
quem entende o meu Zen?
Mesmo se o mestre Kidô aparecesse,
não valeria um céntimo!

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. Ilustração: Ikkyû crava os olhos nas montanhas, Ikkyu Shokoku Monogatari Zue. 1836.

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Auto-retrato BASENAME: auto-retrato DATE: Fri, 06 Jul 2012 07:49:47 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: auto-retrato, ikkyu, poesia, zen ----- BODY:

A longa espada lampeja contra o céu,
o meu esqueleto exposto para todos verem.
Sou elogiado como um general do Zen
que provou o sabor da vida e desfrutou o sexo a fundo!

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. Ilustração: retrato de Ikkyu pelo seu discípulo directo Bokusai.

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: A propósito de me tornar abade de Daitoku-Ji BASENAME: a-proposito-de-me-tornar-abade-e-daitoku-ji DATE: Thu, 05 Jul 2012 07:29:25 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: abade, daito, daitoku-ji, ikkyu, poesia, zen ----- BODY:

Os descendentes de Daitô quase extinguiram a sua luz;
Depois de uma noite tão longa e fria, será difícil derreter o frio, mesmo com as minhas canções de amor.
Durante cinquenta anos vadiei de agasalho e chapéu de palha-
e agora sou mortificado com um robe púrpura de abade.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA.

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Despedida da Dama Mori BASENAME: despedida-da-dama-mori DATE: Wed, 04 Jul 2012 08:09:06 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: amor, despedida, ikkyu, mori, poesia, zen ----- BODY:

Há dez anos, por baixo dos rebentos de flores, selamos uma aliança perfumada.
Cada passo que demos foi uma delícia, cheio de paixão infinita.
Que doloroso é não voltar a usar a tua coxa de almofada.
Fazendo o amor docemente, prometemos estar juntos para sempre.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. Ilustração: Road to interior de Wang Nong

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: À minha filha BASENAME: a-minha-filha DATE: Tue, 03 Jul 2012 07:30:18 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: amor, filha, ikkyu, poesia, zen ----- BODY:

Incluso entre as belezas ela é a minha pérola preciosa:
uma linda princesa neste mundo de sofrimento.
Ela é o resultado inevitável do amor verdadeiro
e nem sequer um mestre Zen será suficientemente bom para ela.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA.

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: À dama Mori, com a mais funda gratidão BASENAME: a-dama-mori-com-a-mais-funda-gratidao DATE: Mon, 02 Jul 2012 07:05:33 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: amor, , ikkyu, mori, poesia, zen ----- BODY:

A árvore murchou todas as folhas mas tu trouxeste uma nova primavera.
Longos brotos de ramas, flores verdejantes, promessas frescas.
Mori, se alguma vez esqueço a profunda gratidão que te devo,
que arda no inferno para sempre.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. Ilustração: Jeff Langevin

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: '....um homem da Via não busca fama nem fortuna...' BASENAME: title-515 DATE: Sun, 01 Jul 2012 06:11:11 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: ikkyu, orgasmo, poesia, , samadhi, zen ----- BODY:

Ao pé do mar ou na montanha
um homem da Via não busca fama nem fortuna.
Noite após noite, como dois pássaros, nós aninhamos em samadhi,
submersos nos galanteios, nas conversas íntimas e a felicidade do orgasmo.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. Ilustração: Enso de Kanjuro Shibata XX. O título é meu.

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: O lugar escuro da minha amada é uma flor de narciso BASENAME: o-lugar-escuro-da-minha-amada-e-uma-flor-de-narciso DATE: Sat, 30 Jun 2012 07:36:31 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: cunnilingue, flor, ikkyu, jardim, mori, narciso, poesia, sexo, zen ----- BODY:

Vivo apaixonado pela belíssima Mori do jardim celestial.
Deitados nas almofadas, com a língua no estame da sua flor,
a minha boca enche-se do perfume puro das águas do riacho.
Chega o ocaso, depois a noite sombria, enquanto nós cantamos canções frescas de amor.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA.

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Uma flor de junquilho BASENAME: uma-flor-de-junquilho DATE: Fri, 29 Jun 2012 08:32:29 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: amor, flor, ikkyu, junquilho, narciso, noite, poesia, sexo, zen ----- BODY:

O perfume do seu narciso faz com que o meu gomo flore e sele o nosso pacto de amor.
A delicada fragrância da flor do desejo.
Como uma ninfa flutuante, leva-me ao porto dos jogos amorosos,
noite após noite, por um mar de esmeralda, sob o céu de safira.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA.

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Uma chegada vagarosa BASENAME: chegada-vagarosa DATE: Thu, 28 Jun 2012 07:04:29 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: amor, aurora, , ikkyu, inverno, lua, poesia, zen ----- BODY:

Morreu o inverno, mas a nossa poesia brilha;
bêbados após esvaziar cálice após cálice.
Há muitos anos que desfruto este doce jogo de amor.
Desaparece a lua, rompe a aurora, mas quase nem nos apercebemos.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. Ilustração: Jan Zaremba. O título é meu.

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: 'O nosso jogo de amor' BASENAME: o-nosso-jogo-de-amor DATE: Wed, 27 Jun 2012 07:04:32 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: amor, ikkyu, mori, poesia, zen ----- BODY:

No teu dormitório, emoções para uma cascata de poemas.
No meio das flores cantamos e dançamos cheios de felicidade,
a fazer exercício como patos mandarins. -
O nosso jogo de amor eleva-se a alturas inimagináveis!

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. O título é meu.

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: A Dama Móri em Palanquim BASENAME: a-dama-mori-em-palanquim DATE: Tue, 26 Jun 2012 06:55:41 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: amor, ikkyu, mori, palanquim, poesia, primavera, zen ----- BODY:

O meu amor cego vai de palanquim quando sai na primavera.
Quando estou totalmente à rasca levanta o meu desânimo.
É tudo a rir-se de nós, mas eu adoro
olhá-la fixamente na sua elegante beleza.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. Ilustração de Kitagawa Utamaro.

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: O toque talentoso da Dama Mori BASENAME: o-toque-talentoso-da-dama-mori DATE: Mon, 25 Jun 2012 07:13:06 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: ikkyu, mori, poesia, sexo, zen ----- BODY:

A minha mão não é comparável à de Mori.
Ela é a mestra inigualável do jogo do amor.
Quando o meu talo de jade desfalece, consegue fazê-lo florir!
Como desfrutamos o nosso pequeno círculo amoroso.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. Ilustração: Jovens Amantes, de Katsushika Hokusai

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: O amor da Cega Mori BASENAME: title-508 DATE: Sun, 24 Jun 2012 09:32:48 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: amor, ikkyu, mori, , poesia, primavera, zen ----- BODY:

Todas as noites, a Cega Mori acompanha-me a cantar.
Por baixo dos lençóis, dois patos mandarins sussurram-se um a outro.
Prometemos estar juntos para sempre,
mas este velhote já está a desfrutar uma pimavera eterna.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. O título é meu.

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: À dama Mori BASENAME: a-menina-mori DATE: Sat, 23 Jun 2012 08:35:21 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: ikkyu, macieiras, mori, , poesia, zen ----- BODY:

A mais bonita e verdadeira de todas as mulheres;
as suas músicas a fresca e pura melodia do amor.
Uma voz e um sorriso doce que me rasga o coração -
Estou numa floresta primaveril de deliciosas macieiras vermelhas.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA.

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: O pau do Zen BASENAME: o-pau-do-zen DATE: Fri, 22 Jun 2012 08:29:03 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: alegria, amor, dor, ikkyu, poesia, sexo, zen ----- BODY:

O amor sexual pode ser muito doloroso quando é fundo
e fazer-te esquecer a melhor poesia e prosa.
Porém estou a experimentar uma alegria natural desconhecida até agora:
o delicioso som do vento a acalmar os meus pensamentos.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. Ilustração: caligrafia de um Kyosaku por Hakuin Ekaku.

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Por baixo dos beirais olorosos BASENAME: por-baixo-dos-beirais-olorosos DATE: Thu, 21 Jun 2012 08:49:15 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: bambu, ikkyu, jovem, poesia, sexo, zen ----- BODY:

A moita de bambu teve alguns brotos novos.
Este velho monge volta a sentir-se jovem.
A minha beleza só tem trinta e seis anos.
A brisa fresca atravessa os muros despedaçados.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. Ilustração: broto de bambu por Henri.

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Três poemas de amor e nostalgia BASENAME: tres-poemas-de-amor-e-nostalgia DATE: Wed, 20 Jun 2012 09:07:35 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: amor, flores, ikkyu, mulheres, nostalgia, nuvens, poesia, zen ----- BODY:

Nem de dia nem de noite consigo esquecer-te
e afundo-me na nostalgia desta cama vazia e escura.
Sonho que nos damos as mãos e trocamos palavras de amor,
mas o sino da aurora arranca-me o coração, fazendo em cacos o meu sonho.

* * *

Mulheres, flores que floram e logo se esvaecem;
caras de flores, cheias de rubor, adoráveis como sonhos.
Quando as flores desabrocham, rebentam com força e paixão,
mas depois de caídas, já ninguém volta a falar nelas.

* * *

Mesmo se eu fosse um Deus ou Buda, ter-te-ia na mente.
Sento-me sob a lâmpada: um monge raquítico a entoar canções de amor.
A força do vento de outono quase me faz voar
e o meu coração engasgou-se com as nuvens grossas.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA.

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: 'Trinta mil grupos de nuvens' BASENAME: trinta-mil-grupos-de-nuvens DATE: Tue, 19 Jun 2012 12:10:45 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: amor, escuro, ikkyu, montanha, poesia, vento, zen ----- BODY:

Durante mais de dez anos estive a pregar em casas do prazer.
Agora estou totalmente só no vale escuro da montanha.
Trinta mil grupos de nuvens moram entre mim e o lugar que amo
e só o som do vento melancólico a soprar no pinos chega ao meu ouvido.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA.

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: O mestre do Dharma do Amor BASENAME: o-mestre-do-dharma-do-amor DATE: Mon, 18 Jun 2012 07:46:20 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: amor, fio vermelho, ikkyu, nuvem louca, poesia, sexo, zen ----- BODY:

A minha vida tem sido dedicada à devoção ao amor.
Não tenho remorsos de me ter emaranhado de pés a cabeça no fio vermelho,
nem vergonha de ter passado os meus dias como uma Nuvem Louca-
Mas não gosto mesmo nada deste longo, longo outono sem bom sexo!

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. Ilustração de bettinaminamino em Devianart

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Remininiscências BASENAME: remininiscencias DATE: Sun, 17 Jun 2012 06:36:58 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: amor, dor, ikkyu, poesia, samsara, zen ----- BODY:

Lembranças e fundos pensamentos de amor doem no meu peito.
Esqueci a poesia e a prosa, já não restam palavras.
Há um caminho à iluminação, mas o meu coração perdeu-o de vista.
Hoje ainda estou afogando no Samsara.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA.

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Depois da partida BASENAME: depoi-da-partida DATE: Sat, 16 Jun 2012 06:14:31 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: amor, ikkyu, , poesia, zen ----- BODY:

Quando partimos, isso rompeu o meu coração.
As suas faces com pó de arroz eram mais belas que as flores da primavera.
Agora a minha menina adorada está com outrem
a cantar a mesma canção de amor, mas com outra melodia.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. Ilustração: Hasegawa Settei. O título é meu.

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Poema oferecido à minha amiga Ako na Primavera Quente BASENAME: poema-oferecido-a-minha-amiga-ako-na-primavera-quente DATE: Fri, 15 Jun 2012 19:39:02 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: ako, banho, ikkyu, poesia, zen ----- BODY:

É agradável dar uma olhadela a uma menina que toma banho-
Esfregaste a tua cara de flor e limpaste o teu lindo corpo
enquanto este velho monge se sentava na água quente,
sentindo-se mais abençoado que o próprio emperador da China.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. Ilustração: Goyō Hashiguchi.

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: A propósito da história do monge e a velha BASENAME: a-proposito-da-historia-do-monge-e-a-velha DATE: Fri, 15 Jun 2012 09:24:56 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: ikkyu, menina, monge, poesia, salgueiro, sexo, velha, zen ----- BODY:

Há muito tempo houve uma velha que sustentou um monge ermitão durante vinte anos, e encarregara uma menina de dezasseis para lhe levar as comidas. Um dia, a velha deu instruções à jovem de abraçar o monge e perguntar-lhe 'Como te sentes agora mesmo?'. A menina fez como lhe foi dito e a resposta do monge foi 'Sou uma velha árvore murcha numa falésia frígida no dia mais frio do inverno'. Quando a jovem voltou e repetiu as palavras do monge à velha, esta exclamou 'Tenho estado a alimentar este estúpido durante vinte anos!'. Depois expulsou o monge e pôs lume à ermita.

A velha senhora tinha um coração tão grande
que honrou o monge com uma menina com que fazer casal.
Esta noite, se houvesse uma beleza que me abraçasse,
a minha rama de velho salgueiro murcho atiraria um novo rebento!

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. Ilustração: Jan Zaremba. O título é meu.

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Elogio de Kannon como vendedeira de peixe BASENAME: elogio-de-avalokiteshvara-como-vendedeira-de-peixe DATE: Thu, 14 Jun 2012 11:41:46 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: avalokiteshvara, , ikkyu, kannon, peixeira, poesia, zen ----- BODY:

Faces rosadas, cabelo embranquecido, cheia de compaixão e amor.
Perdido num jogo de amor, contemplo a sua beleza.
Os seus mil olhos de grande piedade veem tudo, e tudo é para ela redenção.
Esta deusa bem poderia ser a mulher de um pescador, ao pé do mar ou do rio, cantando a salvação.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA.

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: "Com uma jovem beleza..." BASENAME: com-uma-jovem-beleza DATE: Tue, 12 Jun 2012 07:48:13 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: beleza, ikkyu, inferno, poesia, sexo, zen ----- BODY:

Com uma jovem beleza, exercitando o jogo do amor fundo;
sentamo-nos no pavilhão, a menina do prazer e este monge Zen.
Extasiado pelos beijos e os abraços,
não me parece nada que vá arder no inferno.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. O título é meu. Ilustração de Kitagawa Utamaro.

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Rebentos secretos BASENAME: rebentos-secretos DATE: Mon, 11 Jun 2012 08:26:57 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: celibato, ikkyu, poesia, zen ----- BODY:

Segue cegamente a regra do celibato e não passarás de um parvo;
rompe-a e só serás um humano.
O espírito do Zen manifesta-se de tantas maneiras como as areias do Ganges.
Todo o recém nascido é a consequência da união conjugal.
Por quantas eras têm estado a germinar e desaparecer rebentos secretos?

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. O título é meu.

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: A flor de lótus BASENAME: a-flor-de-lotus DATE: Sun, 10 Jun 2012 07:22:44 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: , ikkyu, lama, orvalho, poesia, zen ----- BODY:

A flor de lótus
não é manchada pela lama;
esta gota de orvalho,
tal como é,
manifesta o verdadeiro corpo da verdade.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. O título é meu.

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Um monge que adora sexo BASENAME: um-monge-que-adora-sexo DATE: Sat, 09 Jun 2012 06:59:00 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: ikkyu, , poesia, sexo, zen ----- BODY:

Um monge que adora sexo, objectarás!
Apaixonado e de sangue quente, totalmente excitado.
Mas lembra que a luxúria pode consumir toda paixão
tornando o metal comum em ouro puro.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. O título é meu. Ilustração de Hishikawa Moronobu.
----- COMMENT: AUTHOR: Sexo [Visitante] DATE: Sat, 30 Jun 2012 05:20:50 +0000 URL: http://www.filhadaputa.tv

tornando o metal comum em ouro puro

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: "...um santo puritano não está nem perto de um Buda" BASENAME: um-santo-puritano-nao-esta-nem-perto-de-um-buda DATE: Fri, 08 Jun 2012 06:27:20 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: amor, ananda, bordel, grande sabedoria, ikkyu, manjusri, parjnna paramita, poesia, zen ----- BODY:

Surgido da imundície do mundo, um santo puritano não está nem perto de um Buda.
Entra uma vez num bordel e a Grande Sabedoria vai explodir debaixo do teu nariz.
Manjusri devia ter deixado Ananda desfrutar numa casa de putas -
agora já nunca vai conhecer os praceres do elegante jogo do amor.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. Ilustração: Ishikawa Toyunobu. O título é meu.

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: "Bons amigos do Dharma" BASENAME: bons-amigos-do-dharma DATE: Thu, 07 Jun 2012 05:58:34 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: bordel, ikkyu, monges, orgulho, poesia, prostitutas, , zen ----- BODY:

Koans artificiais e respostas intrincadas é tudo o que os monges têm,
e entregam-se uma e outra vez a políticos e patronos.
Bons amigos do Dharma, tão orgulhosos, deixem que vos diga:
qualquer menina de bordel com brocados doirados merece mais do que vocês.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. O título é meu.

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Uma noite de amor BASENAME: os-discipulos-de-linji-yixuan DATE: Wed, 06 Jun 2012 07:16:08 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: amor, asno cego, ikkyu, linji yixuan, outono, poesia, rinzai, sexo, zen ----- BODY:

Os discípulos de Linji Yixuan nunca entenderam a mensagem do Zen,
mas eu, o Asno Cego, conheço a verdade:
o jogo do amor pode fazer-te imortal.
A aragem outonal de uma só noite de amor
é melhor que cem mil anos de estéril meditação sedente...

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. O título é meu.

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Um sexo de mulher BASENAME: um-sexo-de-mulher DATE: Tue, 05 Jun 2012 09:05:32 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: buda, ikkyu, mulher, poesia, sexo, vulva, zen ----- BODY:

Tem a boca original, mas não diz uma palavra.
Está rodeada por uma magnífica colina de pêlos.
Os seres viventes podem perder-se totalmente nela
mas também é o lugar de nascimento de todos os Budas dos dez mil mundos.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA.

(Ikkyu Sojun)

----- COMMENT: AUTHOR: Sexo [Visitante] DATE: Sat, 30 Jun 2012 05:34:20 +0000 URL: http://www.filhadaputa.tv

Tem a boca original

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: A raiz de um homem BASENAME: a-raiz-de-um-homem DATE: Mon, 04 Jun 2012 07:18:47 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: fio vermelho, fundoshi, ikkyu, poesia, , sexo, zen ----- BODY:

Vinte centímetros de força, é a minha coisa favorita.
Se estou sozinho à noite, abraço-a totalmente.
Há anos que não é tocada por uma mulher formosa.
Dentro das minhas cuecas existe um universo inteiro!

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. Ilustração: .

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Sexo BASENAME: sexo DATE: Sun, 03 Jun 2012 07:35:01 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: ikkyu, poesia, sexo, zen ----- BODY:

Exausto do prazer homossexual, abraço a minha mulher.
O caminho estreito do ascetismo não é para mim;
a minha mente corre na direção oposta.
É fácil ser superficial no Zen - só vou calar a boca
e continuar a jogar ao amor o resto do dia.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. Ilustração de Leonard Cohen. Original em Book of Longing, Penguin Poetry, 2007. ISBN. 978-0-141-02756-2.

(Ikkyu Sojun)

----- COMMENT: AUTHOR: Vídeos de Sexo Grátis [Visitante] DATE: Thu, 02 Aug 2012 16:43:06 +0000 URL: http://www.filhadaputa.tv

Só vou calar a boca.

----- COMMENT: AUTHOR: Sexo [Visitante] DATE: Sat, 30 Jun 2012 05:33:34 +0000 URL: http://www.filhadaputa.tv

É fácil ser superficial no Ze

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: haikai BASENAME: haikai-1 DATE: Sun, 03 Jun 2012 06:45:19 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Conceito haikai CATEGORY: TAGS: carvalheira, chill-out, , drogados, ----- BODY:

Na carvalheira
entre as árvores quietas
dançam drogados

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: O som de sonho da Sakuhachi de Bokushitsu acordou-me de um sonho fundo numa noite de lua cheia BASENAME: o-som-de-sonho-da-sakuhachi-de-bokushitsu-acordou-me-de-um-sonho-fundo-numa-noite-de-lua-cheia DATE: Sat, 02 Jun 2012 10:09:12 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Uma linda noite de outono, fresca e brilhante;
por cima do eco da música e os tambores de uma aldeia distante
o simples tom limpo de uma Sakuhachi traz uma cheia de lágrimas -
e arranca-me de um fundo sonho melancólico.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. Ilustração: Monges errantes (komusō) tocando a frauta Shakuhachi

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: À maneira da natureza BASENAME: a-maneira-da-natureza DATE: Fri, 01 Jun 2012 07:15:07 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Os sábios selvagens não sabem nada:
só mantêm a sua mente sempre focada na Via.
Na natureza não há budas de alto gabarito
e dez mil sutras resumem-se numa única música.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. Ilustração: Jan Zaremba

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Haikai BASENAME: haikai DATE: Thu, 31 May 2012 07:59:47 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Conceito haikai CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Ribeira do Úmia
misturado no rio
o coro das rãs

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Rouxinol BASENAME: rouxinol DATE: Thu, 31 May 2012 07:28:22 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Um pássaro também canta sutras de salvação
enchendo a floresta de músicas maravilhosas:
as flores da árvore são como bodisattvas
à volta de um pequeno pássaro Buda.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. Ilustração: Jan Zaremba

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Honorável da Floresta BASENAME: honoravel-silvestre DATE: Wed, 30 May 2012 07:15:20 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: ikkyu, morte, pardal, poesia, silvestre, zen ----- BODY:

Criei um pequeno pardal que amava profundamente. Um dia morreu subitamente e, atingido pela tristeza, decidi fazer um funeral ao meu pequeno companheiro, mesmo como se fosse um ser humano. Ao princípio chamei-o de Discípulo Pardal mas, mais ou menos quando morreu, decidi mudar-lhe o nome para Buda Pardal. Finalmente, dei-lhe o título budista póstumo de 'Honorável da Floresta'. Compus este poema em sua memória.

Um corpo de dezasseis pés de púrpura e dourado
jaz entre as árvores gémeas do Nirvana.
Agora libertado da falsidade, além da vida e da morte,
porém presente em mil montanhas, dez mil árvores, centos de primaveras.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. Ilustração: Keisai Kuwagata (1764-1824)

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Uma refeição de polvo fresco BASENAME: uma-refeicao-de-polvo-fresco DATE: Tue, 29 May 2012 08:16:39 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: comida, ikkyu, kannon, poesia, polvo, preceitos, zen ----- BODY:

Muitos braços, como Avalokiteshvara sacrificado a mim
e temperado com limão. Perante ele me inclino!
Este sabor a mar é simplesmente digno de deuses!
Sinto-o, Buda, mas este é mais um preceito que não posso seguir.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA.

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Só em sentir-se BASENAME: so-em-sentir-se DATE: Mon, 28 May 2012 10:40:00 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: buda, sentir-se, sino, , , vazio, zen ----- BODY:

Depois de superar cansaços e percorrer quilómetros
toco o sino de dharma para o ar vazio.
Só a estátua do Buda se sentou comigo
e me acompanha a respirar as dores.

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: A adubar o meu pequeno arvoredo de bambu com estrume de cavalo BASENAME: a-adubar-o-meu-pequeno-arvoredo-de-bambu-com-estrume-de-cavalo DATE: Mon, 28 May 2012 07:03:03 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: andorinhas, bambu, corvos, ikkyu, linji yixuan, , pardais, pinheiros, poesia, pombos, , rinzai, zen ----- BODY:

Olha, vê como alimento esta minha mente de fénix:
andorinhas, pardais, pombos, corvos, todos os pássaros são aqui bem-vindos.
Linji Yixuan plantou pinheiros, Ikkyu cultiva bambu -
as gerações vindouras vão elogiar-nos por termos feito realmente alguma coisa.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. Ilustração: retrato de Linji Yixuan, chamado no Japão Rinzai Gigen.

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: A pergunta de Layton BASENAME: a-pergunta-de-layton DATE: Sun, 27 May 2012 18:55:00 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Leonard Cohen CATEGORY: TAGS: incorreto, irving layton, leonard cohen ----- BODY:

Cada vez que lhe digo
o que tenciono fazer a seguir,
Layton solenemente inquire:
Leonard, tens certeza
que estás a fazer o incorreto?

Ilustração: retrato do poeta Irving Layton por Leonard Cohen. Original do texto e do desenho em Book of Longing, Penguin Poetry, 2007. ISBN. 978-0-141-02756-2 .

(Leonard Cohen)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: A riqueza de um cavalheiro BASENAME: a-riqueza-de-um-cavalheiro DATE: Sun, 27 May 2012 11:08:43 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: ameixieira, estudante, frio, ikkyu, lua, neve, orvalho, poesia, poeta, primavera, zen ----- BODY:

A riqueza de um poeta consiste em palavras e frases;
os dias e noites de um estudante são perfumados por livros.
Para mim os rebentos de ameixeira na moldura da janela são um prazer insuperável;
um estômago apertado pelo frio, mas ainda fascinado com a neve, a lua e o orvalho.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. Ilustração de Weeping Plum - Sumie artists of Canada.

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Impermanência BASENAME: impermanencia DATE: Sat, 26 May 2012 07:19:25 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: dharma, ikkyu, , poesia, zen ----- BODY:

Tufões e cheias fazem sofrer toda a gente,
e esta noite não se vai dançar e cantar.
O Dharma flore e murcha, as idades chegam e vão-se:
tão certo mas tão triste - a lua põe-se por trás do Pavilhão do Oeste.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. O título é meu.

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Fugindo de Mika-no-Hara a Nara para evitar a guerra BASENAME: a-fugir-de-mika-no-hara-a-nara-para-evitar-a-guerra DATE: Fri, 25 May 2012 15:49:41 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: china, du fu, guerra, ikkyu, poesia, zen ----- BODY:

O caminho que percorro é duro, muito duro, e conheço cada passo.
Estas montanhas e rios devem ser como aquelas da China.
Depois de atravessar inumeráveis ligas e desbravar inumeráveis pergaminhos,
aprendi a saborear a poesia de Du Fu.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. Ilustração: retrato de Du Fu.

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: A conta BASENAME: a-conta DATE: Thu, 24 May 2012 08:11:08 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: carne, , conta, fama, fortuna, ikkyu, morte, poesia, vida, zazen, zen ----- BODY:

Se o teu zazen não trabalha o assunto da vida e a morte
a fama e a fortuna vão cativar-te por completo.
O ser humano tem uma conta mista que pagará com certeza:
às vezes um delicioso estufado de carne, às vezes um chá fraco de casca de citrino.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. O título é meu.

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Um poema de protesto BASENAME: um-poema-de-protesto DATE: Wed, 23 May 2012 07:36:03 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Uma e outra vez
tirando e tirando
desta mesma aldeia.
Se matares os camponeses de fome
como vais viver?

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. Ilustração: fotograma d'Os 7 Samurais, de Akira Kurosawa.

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Cancelar as dívidas BASENAME: cancelar-as-dividas DATE: Tue, 22 May 2012 07:34:07 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: ikkyu, , , moedas, poesia, riqueza, zen ----- BODY:

Os ladrões não roubam em casa dos pobres.
Os bens privados não beneficiam o povo.
A calamidade tem origem na acumulação de riqueza por uns poucos
que perdem a alma por dez mil moedas.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. A ilustração, evidentemente, é minha.

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Em agradecimento de uma oferta de molho de soja BASENAME: em-agradecimento-de-uma-oferta-de-molho-de-soja DATE: Mon, 21 May 2012 07:28:28 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: comida, fome, ikkyu, molho, poesia, soja, , , zen ----- BODY:

Livre e sem obstáculos durante trinta anos
Nuvem Louca pratica a sua própria escola Zen.
Centos de sabores condimentam a minha simples bucha:
esta farinha e este chá de raminhas fazem parte da Verdadeira Transmissão.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA.

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Diversão BASENAME: diversao DATE: Sun, 20 May 2012 06:25:22 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Leonard Cohen CATEGORY: TAGS: deus, leonard cohen, poesia, teologia ----- BODY:

É muito mais divertido
acreditar em D_us.
Tens que experimentar alguma vez.
Tenta agora
e descobre se sim
ou não
D_us quer que tu
acredites nele.

Original em Book of Longing, Penguin Poetry, 2007. ISBN. 978-0-141-02756-2

(Leonard Cohen)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Poema trocado por comida BASENAME: poema-trocado-por-comida DATE: Sat, 19 May 2012 07:12:20 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: comida, fome, ikkyu, litchi, poesia, zen ----- BODY:

Mais uma vez vou errando pela Montanha do Este, faminto.
Quando tens tanta fome, uma cunca de arroz vale um milhar de moedas de ouro.
Um digno antepassado deu a sua sabedoria em troca de umas nozes de litchi,
mas eu não posso refrear-me de cantar odes ao vento e à lua.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA.

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Teologia BASENAME: teologia DATE: Fri, 18 May 2012 18:24:24 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ted Hughes CATEGORY: TAGS: , eva, serpente, ted hughes, teologia ----- BODY:

Não é verdade: a serpente
Não aliciou Eva com a maçã.
Tudo isso é apenas
A corrupção dos factos.

Adão comeu a maçã.
Eva comeu Adão.
A serpente comeu Eva.
Isto é o intestino escuro.

A serpente, entretanto
Dorme a comida no Paraíso -
Sorrindo ao ouvir a chamada
Lamuriante de Deus.

Original em Wodwo, Faber & Faber, 2006. ISBN. 9780571097142

(Ted Hughes)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: A minha cavana BASENAME: a-minha-cavana DATE: Fri, 18 May 2012 07:08:25 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: cavana, corpo, ikkyu, poesia, zen ----- BODY:

O mundo que há perante os meus olhos está gasto e fraco como eu.
A terra é decrétipa, o céu de tormenta, toda a relva murcha.
Nem uma aragem primaveril sopra sequer a estas alturas,
apenas nuvens de tormenta a engolir o meu pequeno chapéu de juncos.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. Ilustração original de Van Gogh, depois de uns quantos filtros no GIMP

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Poema inscrito numa pintura de Bodhidharma BASENAME: poema-inscrito-numa-pintura-de-bodhidharma DATE: Thu, 17 May 2012 19:00:22 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: bodhidharma, ikkyu, poesia, zen ----- BODY:

Ele não se deita, ele não se levanta.
Ele não pensa sobre as coisas.
Ele não sabe,
e se lhe perguntares vai dizer mu!
Mesmo que não perguntes
ele vai dar-te um mu!
Com perguntas ou sem elas,
ele não tem palavras a dizer.
Honorável Bodhidharma -
que devemos guardar nos corações?

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. Ilustração de Hakuin Ekaku

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Presente BASENAME: presente DATE: Tue, 15 May 2012 16:51:53 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: ikkyu, poesia, presente, zen ----- BODY:

Gostava de
oferecer-te alguma coisa
que te ajudasse
mas no budismo Zen
não há nada que nos pertença!

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA.O título é meu

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Ensô BASENAME: enso DATE: Mon, 14 May 2012 11:07:32 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: caveira, , ikkyu, poesia, zen ----- BODY:

Chegar em solidão,
partir em solidão,
as duas coisas são falsas.
Deixa-me mostrar-te
como não partir nem chegar.

De todas as coisas do mundo
nada mais há
de que congratular-se
que uma velha caveira
gasta pelo tempo.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA.O título é meu

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Verdadeira morada BASENAME: verdadeira-morada DATE: Sun, 13 May 2012 06:59:43 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: ikkyu, morada, poesia, zen ----- BODY:

A minha verdadeira morada
não tem alicerces
nem teto
por isso a chuva não pode molhá-la
nem o vento deitá-la abaixo

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA.O título é meu

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Iluminação e engano BASENAME: iluminacao-e-engano DATE: Sat, 12 May 2012 06:55:11 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: budeidade, ikkyu, , mente original, poesia, zen ----- BODY:

Sem princípio nem fim esta única mente nossa.
A Mente Original não pode tornar-se Natureza de Buda.
A Budeidade Original é só conversa maliciosa de Buda.
A Mente Original dos seres que sentem não é senão ilusão.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA.

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Relatividade BASENAME: relatividade DATE: Fri, 11 May 2012 08:28:30 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: buda, ikkyu, poesia, primavera, zen ----- BODY:

Buda morreu mesmo quando a natureza voltava à vida.
Uma espada separa limpamente alma e corpo.
É difícil obter a budeidade que nem nasce nem morre.
Flores aparecem e desaparecem incesantemente na primavera.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA.

(Ikkyu Sojun)

----- COMMENT: AUTHOR: Ibson Lyra [Visitante] DATE: Mon, 27 Apr 2015 23:50:32 +0000 URL:

Essa passagem me tocou profundamente. Gratidão.

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Flores geladas BASENAME: flores-geladas DATE: Thu, 10 May 2012 06:17:20 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: ameixieiras, caligrafia, ikkyu, poesia, primavera, zen ----- BODY:

Encaixado no chapéu cantando versos por trás de uma simples lanterna.
Um monge poeta simplesmente segue a natureza, sem um caminho marcado.
A chegada da primavera aquece a minha melancolia, mas a noite ainda é tão fria
que até congela os rebentos de ameixieira do meu papel de caligrafias.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA.O título é meu

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Crisântemos vagarosos no jardim sul BASENAME: crisantemos-vagarosos-no-jardim-sul DATE: Wed, 09 May 2012 07:04:54 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Os últimos crisântemos do fim do outono esvaecem-se ao longo da sebe do este;
encaro as montanhas do sul, com os meus pensamentos demasiado longe.
Nada sei dos Três Essenciais ou os Três Mistérios do Zen.
Em lugar disso deleito-me na elegância dos versos de Yuang-ming.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA.

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Mortos BASENAME: mortos DATE: Tue, 08 May 2012 10:29:49 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Herança CATEGORY: TAGS: , mar, mortos, poema ----- BODY:

Se abríssemos os olhos lá estariam
feitos maré.

Ondas do mar do tempo que nos leva,
sal da vida à mistura: nós os peixes
feitos de mar.

Mas pesam-nos moedas sobre os olhos
para pagar barqueiros.

Morremos nos vivos que nos seguram,
e nascemos dos mortos que nos levam.

Temos medo do mar que nos envolve
e somos nós;
movimento ondular que perpetua a vida.

No fundo,
as moedas enterram-se na areia
porque nada há a pagar.

Não há barqueiro.

Apenas mar.

Isso enterramos.

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Um ermitão solitário nas montanhas BASENAME: um-ermitao-solitario-nas-montanhas DATE: Mon, 07 May 2012 07:56:02 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: ikkyu, poesia, zen ----- BODY:

Gosto mais quando ninguém vem.
Prefiro a companhia das folhas caídas e as espirais de flores.
Simplesmente um velho monge Zen, vivendo como devia:
ameixeira murcha a que brotam cem rebentos súbitos.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. Ilustração de Kazu Shimura

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: O meu mosteiro na montanha BASENAME: o-meu-mosteiro-na-montanha DATE: Sat, 05 May 2012 20:47:04 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: ikkyu, poesia, zen ----- BODY:

Um telhado de colmo sobre três quartos é melhor que sete grandes salas.
Nuvem Louca está aqui recluído, longe do mundo.
A noite faz-se funda e eu fico dentro, sozinho,
única luz a iluminar a longa noite de outono.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA.

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Um outono sem lua BASENAME: um-outono-sem-lua DATE: Sat, 05 May 2012 20:25:45 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: ikkyu, poesia, zen ----- BODY:

Sem lua no melhor dia para ver a lua.
Sento-me só ao pé do castiçal e canto velhas canções pelo baixo -
os melhores poetas amaram estas noites
mas eu só oiço o ruído da chuva
e lembro as emoções deste últimos anos.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA.

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Zen vivo BASENAME: zen-vivo DATE: Sat, 05 May 2012 20:17:47 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: ikkyu, poesia, zen ----- BODY:

Quem precisa o Budismo dos mestres oxidados?
Eu passei três décadas só nas montanhas
e resolvi ali todos os meus koans,
vivendo o Zen com os pinos e o vento.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA.O título é meu

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Demónio na linhagem BASENAME: title-485 DATE: Thu, 03 May 2012 08:40:51 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: ikkyu, poesia, zen ----- BODY:

Nuvem Louca é um demónio na linhagem de Daitô
mas odeia as disputas do inferno.
O que há de bom em velhos koans e tradições esquecidas?
Não voltar a fazer uso das queixas, simplesmente
vou manter-me nos meus tesouros internos.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA.O título é meu

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Um pescador BASENAME: um-pescador DATE: Wed, 02 May 2012 08:17:28 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: ikkyu, poesia, zen ----- BODY:

Estudar textos e meditar rigidamente podem fazer com que percas a tua Mente Original.
Mas o cantar solitário de um pescador pode ser um tesouro inestimável.
Chuva crepuscular no rio, a lua espia de dentro e de fora das nuvens;
elegante além das palavras, ele canta a sua música noite após noite.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA.

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Agasalho e chapéu de palha BASENAME: agasalho-e-chapeu-de-palha DATE: Tue, 01 May 2012 06:35:20 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: ikkyu, poesia, zen ----- BODY:

Lenhadores e pescadores só sabem como usar as coisas.
O que fariam eles com cadeiras elegantes e plataformas de meditação?
Com chinelos de palha e uma bengala de bambu percorro três mil mundos
e moro junto à água, faço banquetes com vento, ano após ano.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA.

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Simplesmente BASENAME: o-monge-ganto-praticou-o-zen-a-remar-num-bote DATE: Mon, 30 Apr 2012 09:11:39 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: ikkyu, poesia, zen ----- BODY:

O monge Gantô praticou o zen a remar num bote;
O monge Chin recolhia folhas de palma para fazer chinelos.
Eu sempre predico a grande utilidade dum agasalho e um chapéu de palha -
mas quem haverá que aprecie a sua verdadeira elegância?

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. O título é meu.

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Teisho interrompido BASENAME: teisho-interrompido DATE: Sun, 29 Apr 2012 08:31:21 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: ikkyu, poesia, zen ----- BODY:

Nuvem Louca fala da insuperável genialidade de Daitô
mas é abafado pelo ruído de carroças reais às portas do templo:
já ninguém ouve as histórias dos longos anos do Patriarca
com fome e sem abrigo sob a ponte de Gojô.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. O título é meu.

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Odeio Incenso BASENAME: odeio-incenso DATE: Sat, 28 Apr 2012 08:37:49 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: ikkyu, poesia, zen ----- BODY:

O trabalho manual de um mestre não pode ser medido,
mas na mesma os sacerdotes mexem as línguas a explicar 'A Via' e balbuciam sobre o 'Zen'.
Este velho monge nunca se importou com falsas piedades
e arruga o nariz com o cheiro escuro do incenso perante o Buda.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA.

(Ikkyu Sojun)

----- COMMENT: AUTHOR: rudrakshincense [Visitante] DATE: Mon, 11 Jun 2012 09:41:33 +0000 URL: http://www.rudrakshincense.in/

Padma Perfumery Works is a leading manufacturer, supplier and exporter of premium quality incense sticks & agarbatti from India. Our product catalog includes Stress Relief Aroma Sticks, Citronella Incense Sticks, Stimulation Incense Sticks, Eucalyptus Incense Sticks (Sino Relief), Incense Agarbatti (Relaxation), Sandal Agarbatti (Peace), etc

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----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Voltar das montanhas à cidade BASENAME: voltar-das-montanhas-a-cidade DATE: Sat, 28 Apr 2012 07:50:05 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: ikkyu, poesia, zen ----- BODY:

A Nuvem Louca levada por quem sabe que vento selvagem.
Nas montanhas durante o dia, na cidade durate a noite.
Grito katsu e manejo o bastão quando calha.
Nem Rinzai nem Tokusan fariam par comigo!

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. Ilustração de Hisashi Sakaguchi.

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Sair do templo BASENAME: sair-do-templo DATE: Wed, 25 Apr 2012 08:52:17 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: ikkyu, poesia, zen ----- BODY:

Dez dias neste templo e a minha mente cambaleia!
Entre as minhas pernas o fio vermelho estica e estica.
Se vieres outro dia e perguntares por mim,
procura antes numa banca de peixe, uma loja de saquê, ou num bordel.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. O título é meu. Ilustração de Hishikawa Moronobu.

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Flores da poesia BASENAME: frutos-da-poesia DATE: Wed, 25 Apr 2012 08:05:18 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: ikkyu, poesia, zen ----- BODY:

Alegria e tristeza, amor e ódio, luz e sombra, calor e frio, goce e irritação, eu e o outro.
Desfrutar da beleza poética pode facilmente levar para o inferno.
Mas olha o que achamos espargido ao longo de todo o nosso Caminho:
rebentos de ameixeira e flores de pessegueiro!

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. O título é meu

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Poetas BASENAME: poetas DATE: Wed, 25 Apr 2012 04:50:19 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: ikkyu, poesia, zen ----- BODY:

Nos nossos dias os monges estudam duramente para dar a volta
a uma frase e ganharem fama como poetas de talento.
Não existe tal talento sob o chapéu de Nuvem Louca, mas ele serve o sabor da verdade
a cocer arroz num velho caldeirão que cambaleia.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. O título é meu

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Cartas de amor BASENAME: cartas-de-amor DATE: Tue, 24 Apr 2012 10:15:57 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: ikkyu, poesia, zen ----- BODY:

Todos os dias, os sacerdotes examinam ao minuto o Dharma
e sem parar cantam sutras complicados.
Antes deviam aprender a ler as cartas de amor
que mandam o vento e a chuva, a neve e a lua.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. O título é meu

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Caminhos selvagens BASENAME: caminhos-selvagens DATE: Mon, 23 Apr 2012 11:25:18 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: ikkyu, poesia, zen ----- BODY:

A floresta e os campos, as pedras e as ervas - a minha verdadeira companhia.
Os caminhos selvagens da Nuvem Louca nunca vão mudar.
As pessoas acreditam que sou louco, mas não me importo.
Sendo um diabo nesta vida, não há razão para ter medo do além.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. O título é meu

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Nuvem Louca BASENAME: nuvem-louca DATE: Fri, 20 Apr 2012 08:12:07 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: ikkyu, poesia, zen ----- BODY:

Uma Nuvem Louca, a esvoaçar no aberto fora,
varrida loucamente pelo ar, tão selvagem como lhe der.
Quem sabe onde irá esta nuvem? Onde será que vai parar o vento?
O sol levanta-se do mar de oriente e brilha sobre a terra.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. O título é meu

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Uma breve pausa BASENAME: uma-breve-pausa DATE: Thu, 19 Apr 2012 07:43:13 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Ikkyu CATEGORY: TAGS: ikkyu, poesia, zen ----- BODY:

Uma breve pausa entre
esta estrada aqui que vaza água
e aquele Caminho ali que nada vaza.
Se chover, é deixar que chova.
Se houver tormenta, que haja!

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA

(Ikkyu Sojun)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: LS BASENAME: ls DATE: Sun, 18 Mar 2012 17:58:49 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

(...)
Pernas de madeira a chiar na noite do cérebro.
Saltar ao outro lado do alento.
Respirar com as árvores de Luz Serena.

(Luz Serena, agosto de 2011)
----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Samaro BASENAME: samaro-1 DATE: Thu, 08 Mar 2012 12:22:57 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Herança CATEGORY: TAGS: , , samaro ----- BODY:

Tocavas o mar quando cantavas
e levou-te a maré
dentro da terra.
Velha estátua de salitre escondida à memória.
Restos num nicho absurdo com teu nome na porta
- Francisco Lojo Ouvinha -
esse que nunca foste.
Meu querido Samaro.
Ainda busco em ti alguma coisa que me diga.
Como busquei em tempos reflectir-me nos barcos
dos piratas dos filmes busco às cegas
em ti uma força maruja que me levante a vida.
Gostava tanto de dizer que a tenho.
Mas tiro a cabeça pela borda e só vejo água salgada
e a imagem de uma gaivota reflectida,
sem rasto da minha cara.
Francisco o Samaro.
Não te chamar avô traz-te de volta de uma forma nova:
único como foste,
tão pouco eu.
Simplesmente o Samaro,
o que passeava com o cão e sem pessoas;
o que mal conseguia compartir uma bóia;
o que guardava alguma coisa dentro
que não sabias nomear
mas que buscavas
como nos mapas a geografia do mundo que não viste.
De todas as vidas que me precederam em ti vejo
clara a minha ferida.
Na superfície em ondas da tua cara arrugada,
nos olhos vidrosos quando falava contigo e tentavas
ser um herói,
tu que já naufragaras e mal podias ter-te
de pé.
Gostavas tanto de mim.
Sinto isso ainda
como uma facada na garganta,
a mesma que tenta ser a tua,
se alguma vez canto.
Esta ferida limpa numa forma de dorna,
que me aperta as cordas vocais
agora.

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Laru BASENAME: laru DATE: Tue, 24 Jan 2012 12:09:27 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Herança CATEGORY: TAGS: , , laru ----- BODY:

Mal consigo lembrar-te:
aquele homem
de chapéu e de fato incompreensíveis
e a careca que tenho.
Não me vem à memória mais que a imagem
de um velho elegante no sofá da casa
de meus tios:
um homem alto, dignamente assentado
nos seus noventa anos. Tinhas
aquela idade e um sorriso
que para si queriam as crianças.
Mas mal consigo lembrar-te.
Imagino-te a vida
de olhada alegre e incisiva.
Talvez seja um recordo reflectido
nas pregas da cara de meu pai
que falam de ti.
Sofreste mas não soube. Papá
contou-me anos depois dos ideais políticos.
Da padaria ao mundo havia um passo
que não hesitaste em pedalar.
Deveste rolar muito de fato e bicicleta.
Lembro sim quando morreste: havia
uns bons meses que não ia visitar-te
e a notícia caiu como uma lousa.
Não fiquei triste por ti, mas por um fim
de semana perdido num enterro:
fervilhava-me a vida na cabeça
e faltava-me perspectiva.
Agora és-me só um recordo vago.
Quando penso em ti vem-me à memória
o espaço diáfano do lar de dia
a que ias jogar dominó.
E reconheço nas caras da família
a tua cara de alegria
quando há alegria.
Mais nada.
Que ferida
me tens deixado é um mistério.
Mas receio que um dia hei de encontrá-la
ao me apalpar a pele escorregadia
da cabeça sem pêlos.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: minutos BASENAME: minutos DATE: Sun, 11 Sep 2011 10:46:00 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: anotações mentais CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

cinco minutos

tensão nos pés que alastra
à respiração

respiração de aço
em corpo de veludo
totalmente acordado

o mar no estômago constrói as pontes


cinco minutos

depois o mundo

(loto, perna direita)
----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Patika Samuppada BASENAME: patika-samuppada DATE: Mon, 16 May 2011 16:29:49 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: anotações mentais CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

no princípio é a ignorância um vácuo a fome de ser
depois a separação do tudo a consolidar a existência dalguma coisa a buscar outra
a seguir é o corpo-mente já separado da existência num espaço-tempo
a que logo nascem olhos ouvidos nariz língua pele e consciência
onde chega o contacto com o ser que ficou de fora e se reflecte na mente
que as classifica segundo goste ou não goste ou simplesmente ignore
e em consequência deseja interagir com elas
apega-se ou rejeita criando a mentira da duração no tempo
de um fragmento do tudo que foi trazido a ser sentido e portanto à impermanência
e o desejo frustrado dá lugar ao sofrimento que ofusca a consciência
e cria a ignorância um vácuo a fome de ser e portanto
a separação do ser em relação ao tudo que quer ser uno e busca
ser buscador aqui e agora criado pela própria busca
e tem consciência de si próprio porque tem sentidos e sabe
que os sentidos lhe dão notícia daquilo que busca
e às vezes gosta ou não gosta daquilo que lhe dizem
e quer ficar com isso ou fugir-lhe a pensar mesmo
que poderão manter-se porque quer que se mantenham
mas as coisas não respondem ao que quer e por isso
nasce a dor que lhe apaga a vista e volta de novo a não saber
que foi separado por uma existência não completa
que se buscava a si própria e nessa busca condicionou o ser-se
que originou a consciência sobre o próprio corpo aqui e agora
e aguça os sentidos ao ganhar a consciência dos sentidos
que claramente trazem uma impressão do mundo
e vê as sensações que se colam à impressão e apesar delas
mantém-se neutro sem lhe fugir nem agarrá-las
deixando apenas que durem a duração no tempo
sentindo a dor sabendo a dor e quem padece renascerá de novo
na própria existência iluminada do tempo unificado

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: 牛鬼 BASENAME: a-29275-a-39740 DATE: Sun, 24 Apr 2011 19:00:51 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: anotações mentais CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Às vezes o medo ao fracasso. Às vezes
o medo ao sucesso.

Sempre
a vertigem do salto
para o outro lado de um próprio.

Às vezes um monstro que atormenta.
Às vezes um espelho que te chama estúpido.

Sempre
o medo.

Saltá-lo é
fitá-lo nos olhos
e esperar que se esboroe.

Às vezes desaparece mesmo. Às vezes
persiste em perseguir-te.

Mas sempre
mede.

O medo.

(meio loto, pé esquerdo)
----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: u BASENAME: u-1 DATE: Sun, 24 Apr 2011 17:26:21 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: anotações mentais CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

no início é tudo tenso nos nervos da madeira

depois é tudo mar contra uma rocha
alçada ao pé do umbigo

rangem as ramas quando o vento sopra
e oscila a árvore

mas despregamos pulmões
retesando a espinha
que indica o azimute do universo

e navegamos o intestino
sobre a barca das pernas

até voltarmos a porto inadvertidamente

(meio loto, perna direita)
----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: u. BASENAME: u DATE: Sun, 17 Apr 2011 11:18:59 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: anotações mentais CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

na corrente de sangue o meu nariz procura
o lugar natural do seu alento

nervos de formigueiro a percorrer as pernas
e uma força inconsciente a me arquear os braços
que respiro pra fora inadvertidamente

tudo longe daqui onde o silêncio
se faz por baixo do umbigo

aqui
é tudo

e o vento espana a palavra
em que se inscreve o mundo circundante

(meio loto, perna direita)
----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: U. BASENAME: ushi-1 DATE: Sat, 16 Apr 2011 07:34:23 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: anotações mentais CATEGORY: TAGS: ----- BODY:
----- -------- AUTHOR: admin TITLE: zazen prosaico BASENAME: title-377 DATE: Fri, 01 Apr 2011 11:15:53 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: anotações mentais CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

em cima do travesseiro enrolado
o rabo a esvarar molezas
equilibra o castelo de cálices
o corpo
enrolado também luta
pela expansão das costas que mal podem
procurar o equilíbrio e a vertigem
de respirar para o abismo

(quarto de loto, pé esquerdo - com travesseiro por zafu)
----- -------- AUTHOR: admin TITLE: corpo BASENAME: corpo DATE: Thu, 10 Mar 2011 19:46:57 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: anotações mentais CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

as brasas no interior do vento
apagou-as a tensão da madeira

na solidez da veta mais escura
borboletava a dor
contida
da moleza do umbigo

essência de ar lateja ainda
no ventre do sino
contendo as vozes do metal fundido

ómega
om
sineta

e corpo saranam gachamin
no coração do medo

(meio loto, perna esquerda)
----- -------- AUTHOR: admin TITLE: pêndulo quieto BASENAME: pendulo-quieto DATE: Mon, 14 Feb 2011 19:25:34 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: anotações mentais CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

as pernas como um arco
insuflaram tensão nos pulmões e no estômago
apesar da pedra digestiva

o vento foi fazendo-se narina e a barriga
comprimiu-se com o balanço para diante
do ponto de equilíbrio

o ar respirou-se no meu corpo
pregado ao zafu
como uma seta que caiu da lua

(meio logo, pé esquerdo)
----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: naufrágio BASENAME: naufragio DATE: Fri, 07 Jan 2011 19:01:42 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: anotações mentais CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

nuvens de mar a amarrotar a frente
precedem o naufrágio destes versos

nada há nos dedos que peça ser cantado

e nem sequer o alento marca um ritmo
que ser seguido pelo marinheiro bêbado

fazer-se ao mar é um exercício tolo

mas eis-me aqui

atirado a nadar com um colete
que traga à superfície este poema
depois do temporal

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: apagar BASENAME: apagar DATE: Fri, 19 Nov 2010 12:26:38 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: anotações mentais CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

sentado após o furacão
permito-me apagar palavras mortas
ninguém se estranhe se passando tempo
chego a apagar meu shobogenzo

(meio loto, pé esquerdo)
----- -------- AUTHOR: admin TITLE: meio loto BASENAME: meio-loto DATE: Fri, 19 Nov 2010 12:16:49 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: anotações mentais CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

hoje sentou-se comigo
o dançarino irrequieto
que não se importa com olhadas

dançou e moveu-me a toda a parte
mas sem ele a postura
tinha sido impossível

(meio loto, por fim, pé esquerdo)
----- -------- AUTHOR: admin TITLE: compra consciente BASENAME: compra-consciente DATE: Mon, 01 Nov 2010 17:01:17 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: anotações mentais CATEGORY: pintamentos TAGS: ----- BODY:
----- -------- AUTHOR: admin TITLE: textura BASENAME: texto DATE: Sun, 31 Oct 2010 12:37:16 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: anotações mentais CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

seja esta a regra da aranha:

coser o corpo ao coração, a língua
às palavras e os ritmos

mascarar-se de espelho perante o espelho
ligar a luz do sol
e dar-se a volta

não espelhar-se em máscaras

percorrer as distâncias
-texto a contexto a texto-
sobre um fio de sangue

tecer com gumes a aranheira e

morder com força nas faíscas apanhadas

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: zafu BASENAME: zafu DATE: Fri, 22 Oct 2010 11:43:43 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: anotações mentais TAGS: ----- BODY:

No centro do círculo
ninguém
apenas ar em vertical
e o ritmo
do coração do vento

(quarto de lótus, pé direito)
----- -------- AUTHOR: admin TITLE: mudra BASENAME: mudra DATE: Sun, 03 Oct 2010 16:31:22 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: anotações mentais CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

no topo da montanha
eu
transformando a cimeira em vale

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Café BASENAME: cafe DATE: Thu, 16 Sep 2010 17:15:01 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

A ideia vai mais rápida que a mão que a escreve.

Tento moldar o ar a minha volta,
esculpir o conceito do meu corpo
em vão.

Palheta no nariz.

Tremor do vento.

Barriga a dar as horas.

Café expresso.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Quarto de lótus III BASENAME: quarto-de-lotus-iii DATE: Tue, 14 Sep 2010 09:45:36 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: anotações mentais TAGS: ----- BODY:

na ausência de dores
respirar foi apenas ignorar-me inteiro

contei respirações
cumpri esses ciclos
e depois balancei-me levemente
procurando um centro

no movimento oscilante embalou-se o ego
e levantou-me de mim antes do tempo

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Quarto de lótus II BASENAME: quarto-de-lotus-ii DATE: Sun, 12 Sep 2010 07:58:16 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

da dor surda ao formigueiro
passa o lume que arrasa toda a vida
e me mantém fixado no momento

passam respirações
ficam as dores

o vento aviva o fogo posto
no calcanhar que treme

o fole intensifica em força a pedra
que me transforma em vento

e ardendo o coração lateja

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Quarto de lótus BASENAME: quarto-de-lotus DATE: Thu, 02 Sep 2010 07:39:09 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: anotações mentais TAGS: ----- BODY:

Uma agulha pequenina
espetada no tornozelo
fia este corpo no ar
como um bloco de concreto

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: za BASENAME: za DATE: Mon, 30 Aug 2010 07:57:44 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Este balão do corpo tem um furo.
Foge-lhe o ar,
não há pressão que chegue
para insuflar-me em força esta consciência.
Andam as cordas bambas. Não seguram
velas os mastros.
Nem a promessa chega de um avanço,
nem o desejo habita de um recuo.
Apenas nevoeiro em torno ao pau.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: intra BASENAME: intra-1 DATE: Fri, 27 Aug 2010 08:16:22 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Abri-te as pernas
como um livro
que me escreve.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: acordar BASENAME: acordar DATE: Wed, 25 Aug 2010 19:29:34 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

soaram todos os despertadores
naquela hora em que disseste as palavras
-Distância! A distância!
e a ponta do alfinete
que separa o mundo do mundo
veio espetar-se no cérebro acordado
e inçar de dores as palavras ditas
como uma verdade atordoada

iluminaram-se espaços esquecidos
e só havia pó a pairar no espaço aberto
do quarto em que deixáramos a rocha
dura do coração

feita agora em areia
que apanharemos juntos neste balde
para fazer um castelo em que vivermos

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: mar BASENAME: mar DATE: Wed, 25 Aug 2010 11:18:22 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: anotações mentais TAGS: ----- BODY:

dói-me o mar
em cada tecla
o mar
em ondas sonoras
a sugerir teu nome
a ser escrito
no mar
em cada mar
de cada tecla
em que começa sempre o teu nome

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: de volta (e meia) BASENAME: de-volta-e-meia-1 DATE: Sun, 22 Nov 2009 00:59:21 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: anotações mentais CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

olá de novo
poesia....

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: De porque os galegos somos todos negros... BASENAME: de-porque-os-galegos-somos-todos-negros DATE: Sat, 07 Feb 2009 10:33:57 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Pensamento social CATEGORY: Coisas de YouTube TAGS: ----- BODY:

Há tempo que não passava por este blogue meu, e há tempo que não deixava nada por aqui colado. Não vou enganar ninguém: é provável que não volte por aqui também em bastante tempo. Mas chegou-me ao correio electrónico este vídeo que demonstra de forma tão clara o porquê de os galegos sermos todos negros, e não queria deixar de publicar para nos horrorizarmos todos e todas. Às vezes é necessário, nem que seja só para lembrar onde estamos.

----- COMMENT: AUTHOR: Jorge Vicente [Visitante] DATE: Wed, 20 May 2009 11:11:05 +0000 URL: http://jorgevicente.blogspot.com

caro eugénio,

este vídeo é a prova de que ainda há muitos preconceitos que devem ser apagados e mesmo as pessoas de etnias diferentes têm esses preconceitos, inculcados pela sociedade maioritariamente branca, pela televisão maioritariamente branca, pelos jornais, pela vivência no dia-a-dia. é muito triste e revoltante saber isso.

agora outra coisa: descobri a tua poesia através da revista “sítio” de torres vedras e resolvi colocar alguns poemas teus no meu blog. os teus poemas ainda estão em stand-by, em rascunho. Mas coloquei lá um poema meu, inspirado no teu “sara e o labirinto". Espero que gostes.

um grande abraço desde portugal
jorge vicente

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Intra! BASENAME: intra DATE: Tue, 30 Sep 2008 17:26:40 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Tudo acontece dentro. Por trás dos olhos está a visão do mundo. Voltei ao peito de pedra granítica chamado Galiza e no percurso caíram as muralhas. Agora é Intra!, a casa no umbigo do corpo, como a arte de Fabiana Barreda que ilustra esta janela ao mundo.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Contramanifiesto pelas línguas comuns - algumas ideias BASENAME: contramanifiesto_pelas_linguas_comuns_al DATE: Wed, 02 Jul 2008 22:26:49 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: anotações mentais CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

O já famoso manifesto de um grupo de intelectuais espanhóis, com Fernando Savater em cabeça, e o apoio do partido Unión Progreso y Democracia de Rosa Díez em segundo plano, foi apresentado no passado dia 23 em Madrid. Desde esse dia, tem recolhido já milhares de apoios individuais e colectivos, até de meios de comunicação que depois quererão passar por imparciais(1 e 2, que eu saiba). Para dizer verdade, isto não espanta num país como a Espanha, com a rémora do franquismo ainda tão recente (por mais que insistam e negá-lo), e uns meios de comunicação constantemente a perpetuar o desconhecimento, por parte do cidadão espanhol, da situação linguística nisso que chamam "comunidades bilingues".

O manifesto parte de uma falácia que cai pelo seu próprio peso para qualquer pessoa que more ou tenha visitado algum dos territórios em questão: diz-se que o castelhano está em perigo. Porém, não é bem disso que quero falar. É que, para além dessa falácia inicial, o manifesto está cheio de muitas outras falsidades que têm a ver com a natureza do fenómeno linguístico, apesar de ter uma redacção cuidada que tenta dissimular essas carências, caindo muitas vezes numa total imprecisão. No fundo, também isto não espanta num colectivo (os autores e os assinantes do manifesto) que nunca viu perigar a sua própria língua, e portanto nunca teve de pensar nessa chave. Mas já que estas pessoas se dão ao luxo de intervir publicamente num assunto tão delicado como a política (e planificação!) linguística, não resisto a dar-lhe umas indicações básicas a este respeito, comentando o seu manifesto.

MANIFIESTO POR LA LENGUA COMÚN

Desde hace algunos años hay crecientes razones para preocuparse en nuestro país por la situación institucional de la lengua castellana, la única lengua juntamente oficial y común de todos los ciudadanos españoles. Desde luego, no se trata de una desazón meramente cultural ?nuestro idioma goza de una pujanza envidiable y creciente en el mundo entero, sólo superada por el chino y el inglés- sino de una inquietud estrictamente política: se refiere a su papel como lengua principal de comunicación democrática en este país, así como de los derechos educativos y cívicos de quienes la tienen como lengua materna o la eligen com todo derecho como vehículo preferente de expresión, comprensión y comunicación.

A constituição espanhola garante a preeminência do castelhano no estado, estabelecendo a obrigatoriedade do seu conhecimento por parte de todos os cidadãos. Isto constitui uma situação claramente discriminatória para os falantes das outras línguas, como depois se verá, e demonstra que o manifesto não vem, como pretende dizer, garantir nenhum direito, mas combater os poucos direitos que algumas comunidades conquistaram num contexto jurídico tão claramente adverso.

Por isso, dá nas vistas que se parta da premissa de o castelhano ser a ?única língua juntamente oficial e comum?, como se isto fosse qualquer coisa de imanente à própria língua. Bastaria que a lei dissesse que é obrigatório conhecer, por exemplo, como mínimo duas das línguas presentes no estado, para que todas elas fossem ?juntamente oficiais e comuns?. Mas isto é algo que, claramente, não está nos objectivos dos assinantes do manifesto.

Curiosa também ?e deixamos de parte o momento de exaltação da ?pujanza? da língua espanhola? é a expressão do seu ?papel como língua principal de comunicação democrática?. Desconhecemos que coisa seja a ?comunicação democrática?. Parece-nos que a expressão refira à comunicação do estado com os cidadãos e vice-versa, mas como existem poucas situações comunicativas mais assimétricas que essa, parece pouco ajeitado aplicar-lhe as virtudes da democracia. E se, porém, se tenta fazer referência a uma comunicação entre iguais, a constitucional imposição do castelhano não parece condizer com a ideia.

Seja como for, mal começamos quando a ideia principal do manifesto, aquela que na introdução nos situa no assunto de que se supõe que estamos a falar, é tão difusa como "comunicação democrática".

Como punto de partida, establezcamos una serie de premisas:

1) Todas las lenguas oficiales en el Estado son igualmente españolas y merecedoras de protección institucional como patrimonio compartido, pero solo una de ellas es común a todos, oficial en todo el territorio nacional y por tanto sólo una de ellas ?el castellano- goza del deber constitucional de ser conocida y de la presunción consecuente de que todos la conocen. Es decir, hay una asimetría entre las lenguas españolas oficiales, lo cual no implica injusticia (?) de ningún tipo porque en España hay diversas realidades culturales pero sólo una de ellas es universalmente oficial en nuestro Estado democrático. Y contar con una lengua política común es una enorme riqueza para la democracia, aún más si se trata de una lengua de tanto arraigo histórico en todo el país y de tanta vigencia en el mundo entero como el castellano.

CONTRA-PREMISSA 1

Comecemos por dizer que não deixa de chocar que se afirme que todas as línguas do estado são ?igualmente merecedoras? de protecção institucional, quando todo o manifesto está destinado a privilegiar uma por cima das outras.

À parte isso, compre não esquecer que na base de toda realidade linguística está a sua necessidade. Uma palavra existe porque existe a necessidade de ?dar nome? a um conceito, e da mesma maneira, uma língua existe porque existe a necessidade da língua.

Anular a necessidade das línguas diferentes do castelhano, como se faz em todo o manifesto, só pode levar à desaparição dessas línguas, o que seria uma forma quando menos curiosa de garantir direitos linguísticos, e viria a chocar frontalmente com a suposta boa vontade que quer transparecer no texto.

Aliás, na redacção deste parágrafo passa-se indiscriminadamente da questão linguística para a cultural, dizendo que existe uma cultura (e não apenas uma língua) que é comum a todos os cidadãos do estado, e insinuando-se ainda, ao ressaltar as virtudes democráticas (outra vez) do castelhano, que as outras não são uma ferramenta útil à democracia, e até deixando aberta a interpretação de serem um impedimento.

Noutra ordem de coisas, também desconhecemos que coisa seja uma ?língua política?, e portanto não sabemos se há línguas que não o são. Em qualquer caso, é a segunda vez que os autores do texto humanizam a língua, caindo exactamente no mesmo erro que dizem criticar: segundo estes senhores, as línguas não têm direitos, mas sim têm a possibilidade de serem ?políticas? e ?democráticas?.

Para acabar com este trecho, resulta hilariante a referência ao ?arraigo histórico? do castelhano, uma língua imposta manu militari que, ainda assim, continua a ser minoritária em grande parte dos territórios com línguas cooficiais.

2) Son los ciudadanos quienes tienen derechos lingüisticos, no los territorios ni mucho menos las lenguas mismas. O sea: los ciudadanos que hablan cualquiera de las lenguas co-oficiales tienen derecho a recibir educación y ser atendidos por la administración en ella, pero las lenguas no tienen el derecho de conseguir coactivamente hablantes ni a imponerse como prioritarias en educación, información, rotulación, instituciones, etc? en detrimento del castellano (y mucho menos se puede llamar a semejante atropello ?normalización lingüística?).

CONTRA-PREMISSA 2

Fique isto meridianamente claro: são, com efeito, os cidadãos, quem têm direitos linguísticos. Mas no manifesto ignora-se (propositadamente?) que as línguas são realidades colectivas.

Tenha-se em conta que uma língua cria identidades imediatas entre indivíduos e grupos de indivíduos, muito anteriores a qualquer formulação ideológica ou política, porque a identidade é um elemento consubstancial à comunicação linguística. É assim que nascem as comunidades linguísticas, verdadeiros alicerces da língua, em que os falantes enriquecem, afirmam e só assim conservam os seus hábitos linguísticos. Conservar uma língua implica assim conservar a comunidade de falantes, porque a língua não pode ser conservada individualmente.

Uma legislação que se proponha realmente manter o direito individual de falar uma língua não pode ser destinada, então, apenas a resolver conflitos individuais, mas a garantir o fortalecimento da comunidade linguística, potenciando a integração nela de pessoas que lhe sejam estranhas, quando as circunstâncias assim o prescrevam. Essa é a única maneira de garantir realmente o direito individual de uma pessoa a conservar a sua língua, conseguindo, aliás o enriquecimento cultural da pessoa integrada. A obrigatoriedade de conhecer as línguas ?autonómicas? nas comunidades que lhe são próprias conseguiria este objectivo. A proposta deste grupo de intelectuais, porém, negaria de facto o direito individual da pessoa cuja língua materna é a autonómica, empobrecendo culturalmente no processo a pessoa de fora da comunidade linguística, como aliás já está a acontecer sem necessidade de manifestos.

3) En las comunidades bilingües es un deseo encomiable aspirar a que todos los ciudadanos lleguen a conocer bien la lengua co-oficial, junto a la obligación de conocer la común del país (que también es la común dentro de esa comunidad, no lo olvidemos). Pero tal aspiración puede ser solamente estimulada, no impuesta. Es lógico suponer que siempre habrá muchos ciudadanos que prefieran desarrollar su vida cotidiana y profesional en castellano, conociendo sólo de la lengua autonómica lo suficiente para convivir cortésmente con los demás y disfrutar en lo posible de las manifestaciones culturales en ella. Que ciertas autoridades autonómicas anhelen como ideal lograr un máximo techo competencial bilingue no justifica decretar la lengua autonómica como vehículo exclusivo ni primordial de educación o de relaciones con la administración pública. Conviene recordar que este tipo de imposiciones abusivas daña especialmente las posibilidades laborales o sociales de los más desfavorecidos, recortando sus alternativas y su movilidad.

CONTRA-PREMISSA 3

Como já foi visto no ponto anterior, que a língua ?autonómica? seja veículo primordial e até exclusivo da educação e das relações com a administração pública, estaria justificado (se fosse verdade) pela simples intenção de garantir os direitos individuais das pessoas que falam essa língua, coisa em que parece que os assinantes do manifesto não pensaram demasiado.

De facto, tudo o que os autores do manifesto podem chegar a imaginar é ?um tecto competencial bilingue?, sem indicar bem ao certo se esse bilinguismo é social ou individual. Qualquer coisa que suponha que a ?língua autonómica? esteja por cima, mesmo que seja um pouco, da ?língua comum?, parecer-lhes-á, supomos, excessivo, quando não inconstitucional.

Parece-lhes normal, assim, que um/a falante de espanhol se negue a falar a ?língua autonómica?, e que a conheça apenas ?o suficiente para conviver cortesmente?. E este retrato do falante de espanhol define bem às claras a visão que estes intelectuais têm do conflito: a sua negativa a integrar-se na comunidade de falantes é ?cortês?, enquanto que a tentativa de integrá-lo é ?uma imposição?. Porém, a tentativa de integrar qualquer pessoa na comunidade de falantes de espanhol vai ser, como se afirma mais adiante, ?suposta?.

A escolha das palavras não parece casual nem inocente, e não espanta em pessoas que consideram perfeitamente normal que existam mais possibilidades laborais em castelhano que nas línguas ?autonómicas?. As línguas cooficiais supõem ?dizem estes intelectuais? um encurtamento das alternativas e da mobilidade, como se o mandado constitucional de conhecer o castelhano não existisse nem pesasse, e uma pessoa que tem como língua materna a autonómica não conhecesse também a língua castelhana, por lei. Estão-se a justificar desta maneira, de forma implícita, todos os abusos laborais que têm existido e existem por motivo de língua (afinal, quem pode condenar que um negócio queira ter "mais oportunidades"?), e afirma-se o absurdo de que conhecer uma única língua implique maiores vantagens do que conhecer duas.

4) Ciertamente, el artículo tercero, apartado 3, de la Constitución establece que ?las distintas modalidades lingüísticas de España son un patrimonio cultural que será objeto de especial respeto y protección?. Nada cabe objetar a esta disposición tan generosa como justa, proclamada para acabar con las prohibiciones y restricciones que padecían esas lenguas. Cumplido sobradamente hoy tal objetivo, sería un fraude constitucional y una auténtica felonía utilizar tal artículo para justificar la discriminación, marginación o minusvaloración de los ciudadanos monolingües en castellano en alguna de las formas antes indicadas.

CONTRA-PREMISSA 4

Não esquecemos, é claro, que no caso das pessoas cuja língua materna é a castelhana existem menores possibilidades de mobilidade. Mas sugerir que a responsabilidade desta situação é das políticas que garantem direitos a outros cidadãos é uma aberração imprópria de pessoas que se declaram a si mesmas democratas. A solução para esta desigualdade só poderá passar por que o estado ponha todos o meios ao seu alcanço para assegurar o direito de todos os cidadãos a aprender as línguas ?autonómicas?, tanto nos territórios onde estas são naturais quanto onde não são, atendendo ao texto constitucional a que o próprio manifesto faz referência: ?são um património cultural que será objecto de especial respeito e protecção?. Nego-me a pensar que a pobreza linguística e cultural seja um direito legislável.

Quanto a que esteja hoje ?cumprido sobradamente? o objectivo de acabar com as proibições e, sobretudo, restrições das línguas ?autonómicas?, qualquer pessoa que more numa das comunidades autónomas bilingues do estado sabe perfeitamente que é absolutamente falso.

Por consiguiente los abajo firmantes solicitamos del Parlamento español una normativa legal del rango adecuado (que en su caso puede exigir una modificación constitucional y de algunos estatutos autonómicos) para fijar inequívocamente los siguientes puntos:

REIVINDICAÇÕES

Chegados a este ponto, na verdade, a minha crítica ao manifesto devia acabar aqui, onde os que começam por dizer que o castelhano é a língua comum porque assim o marca a legalidade, querem mudar a legalidade para que fique claro que o castelhano é a língua comum. Mas nunca resisto a sonhar impossíveis, e também não vou fazê-lo agora. Vão a seguir cinco vindicações sonhadas, contra-réplicas das cinco do manifesto de Savater e companhia.

Evidentemente, e já postos a sonhar, adiro às palavras de ?em seu caso poderá exigir a modificação constitucional e de alguns estatutos autonómicos?. Afinal, abrir a possibilidade de uma modificação constitucional no estado espanhol é a única coisa que se pode salvar do manifesto original.

1) La lengua castellana es común y oficial a todo el territorio nacional, siendo la única cuya comprensión puede serle supuesta a cualquier efecto a todos los ciudadanos españoles.

1) A única maneira real de minorar os problemas linguísticos do estado mantendo os mesmos direitos entre todos os cidadãos é que o castelhano não seja a única língua ?comum e oficial?.

2) Todos los ciudadanos que lo deseen tienen derecho a ser educados en lengua castellana, sea cual fuere su lengua materna. Las lenguas cooficiales autonómicas deben figurar en los planes de estudio de sus respectivas comunidades en diversos grados de oferta, pero nunca como lengua vehicular exclusiva. En cualquier caso, siempre debe quedar garantizado a todos los alumnos el conocimiento final de la lengua común.

2) As línguas ?autonómicas? são património de todo o estado, e não apenas das comunidades onde são faladas. Por esta razão, a possibilidade de estudar estas línguas deve estar presente no currículo educativo de todo o território estatal. O conhecimento da língua castelhana deverá estar garantido, mas não necessariamente como língua veicular na educação.

3) En las autonomías bilingües, cualquier ciudadano español tiene derecho a ser atendido institucionalmente en las dos lenguas oficiales. Lo cual implica que en los centros oficiales habrá siempre personal capacitado para ello, no que todo funcionario deba tener tal capacitación. En locales y negocios públicos no oficiales, la relación con la clientela en una o ambas lenguas será discrecional.

3) Em todo o estado, qualquer pessoa terá o direito a ser atendido em todas as línguas do estado nas instâncias oficiais, o qual implica que nas comunidades monolíngues se deverá garantir que haja pessoal capacitado para o efeito. No caso das comunidades bilingues será exigido aos funcionários o conhecimento das duas línguas oficiais, de forma a poderem atender as duas comunidades linguísticas que estão a servir com o seu trabalho.

4) La rotulación de los edificios oficiales y de las vias públicas, las comunicaciones administrativas, la información a la ciudadanía, etc?en dichas comunidades (o en sus zonas calificadas de bilingües) es recomendable que sean bilingues pero en todo caso nunca podrán expresarse únicamente en la lengua autonómica.

4) A rotulação dos edifícios oficiais e das vias públicas, as comunicações administrativas, as informação à cidadania, etc. deverá ser necessariamente bilingue nas comunidades com duas línguas. Nas comunidades molingues será monolingue, mas poderá ser exigido o emprego de uma outra língua, caso se chegem a estabelecer nelas comunidades de falantes cuja língua comum de comunicação seja alguma das línguas autonómicas. Os movimentos migratórios dentro do estado e a necessidade da mobilidade laboral fazem prever que isto chegue a acontecer.

5) Los representantes políticos, tanto de la administración central como de las autonómicas, utilizarán habitualmente en sus funciones institucionales de alcance estatal la lengua castellana lo mismo dentro de España que en el extranjero, salvo en determinadas ocasiones características. En los parlamentos autonómicos bilingües podrán emplear indistintamente, como es natural, cualquiera de las dos lenguas oficiales.

5) O direito de um cidadão poder dirigir-se ao estado em qualquer uma das línguas oficiais deverá ser extensível, como é óbvio, também à classe política. Assim, as instituições de representação cidadã de nível estatal, como o parlamento ou o senado, deverão contar com um serviço de tradutores para poder garanti-lo. Aliás, potenciar-se-á que todos os representantes políticos no âmbito estatal conheçam, pelo menos de forma passiva, as outras línguas do estado, visto na sua função estarem a representar, não só as suas comunidades linguísticas, mas as de todo o estado.

----- COMMENT: AUTHOR: Helena B. [Visitante] DATE: Mon, 17 Nov 2008 11:13:47 +0000 URL:

Óptima contra-argumentaçao. Lástima nao a ter lido antes, teria-me ajudado nas discussoes com um “assinante” que me topei em catalunya. Um saudo.

Por certo, eu tambem estou de volta na Galiza, a ver se contactamos.

----- COMMENT: AUTHOR: suso [Visitante] DATE: Tue, 30 Sep 2008 11:38:45 +0000 URL: http://angueiradesuso.agal-gz.org

INTRA!!! INTRA!!! VIVA!!! VIVA!!! Que bom voltar a ter-te de novo entre nós!!! Bem-vindo à casa, caro Ugio!!! :)

----- COMMENT: AUTHOR: Júnior Madrigal [Visitante] DATE: Sun, 28 Sep 2008 15:28:54 +0000 URL:

Gostei muito deste texto!
Sou brasileiro e pretendo viajar pelos Países catalães” em 2010 ou 2011, e por isso estou aprendendo o catalão.

Gostaria de manter contanto para poder praticar a língua, seja pelo MSN, Skype, Ekiga ou por telefone mesmo.

----- COMMENT: AUTHOR: Josep Garcia [Visitante] DATE: Sun, 27 Jul 2008 12:26:47 +0000 URL: http://josepmgarcia.wordpress.com/

Um texto excelente. Fiz uma tradução ao catalão, a fim de ajudar a dar-lhe mais difusão: http://josepmgarcia.wordpress.com/2008/07/27/eugenio-outeiro-traduit/

Salut!

----- COMMENT: AUTHOR: suso [Membro] DATE: Fri, 04 Jul 2008 15:09:42 +0000 URL:

Por nada, mo… camarada!!! :D

----- COMMENT: AUTHOR: suso [Membro] DATE: Thu, 03 Jul 2008 19:18:32 +0000 URL:

A mim aconteceu-me 3/4 do mesmo (já tivem a ocasiom -e o privilégio- de dizer-lho ao amigo Eugénio em pessoa).

Já agora, enviei o “Contramanifesto…” ao “Chuza": http://chuza.org/historia/contramanifiesto-pelas-linguas-comuns-algumas-ideias/

----- COMMENT: AUTHOR: Pau [Visitante] DATE: Thu, 03 Jul 2008 17:28:28 +0000 URL: http://www.agal-gz.org

Boa reflexão, amigo. Fizeste com que me resultasse bem mais fácil ler o original. Cada linha era uma pinga mais de indignação… havia bem tempo que não me sentia tão agredido, a sério.

----- COMMENT: AUTHOR: Uz [Visitante] DATE: Thu, 03 Jul 2008 12:34:50 +0000 URL: http://agal-gz.org

Longo texto, abofé, mas necessário para analisar minuciosamente essa perversa falácia filofascista disfarçada de boa vontade. Ontem, na Rádio Galega, um ouvinte dizia muito bem que este “Manifiesto” é como aquela canção do espanhol Paco Ibáñez e que dizia “Érase una vez un lobito bueno al que maltrataban todos los corderos". Nunca o teria dito eu melhor.

E no que respeita aos cinco pontos do teu contra-manifesto, prezado Eugénio, onde é preciso assinar, que eu alinho! :)?

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Poesia de casa de banho BASENAME: poesia_de_casa_de_banho DATE: Mon, 26 May 2008 09:57:31 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: anotações mentais CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Já participei em recitais. Já quis pôr a poesia na rua. Já fiz parte de algum espectáculo poético interdisciplinar. Mas a única maneira que eu tive de senti-la foi na solidão e no silêncio do meu quarto. Por isso, e ainda que talvez essa vivência contravenha as próprias origens da poesia, para mim o poema (que continua a ser a unidade básica) pertence aos âmbitos em que o indivíduo se enfrenta só ao universo, sem músicas que façam de banda sonora nem outras pessoas a compartilhar a experiência. Talvez no passado a poesia fosse "um dizer", mas para mim, hoje e aqui, continua a ser "um ler" ou "um escrever". E não é um facto social, ou só é no sentido em que se pode ser sociedade quando se está só. Por isso na vida que fui escolhendo a poesia é cada vez mais um fenómeno de casa de banho. E se algum dia quisesse mostrar os meus poemas fora destas páginas, esse seria, sem dúvida, o meu âmbito de preferência.

----- COMMENT: AUTHOR: Tomze adito [Visitante] DATE: Tue, 17 Jun 2008 11:34:34 +0000 URL:

o wc é o melhor sítio para a poesia. De facto é onde tiramos o melhor que levamos dentro. E por certo, quando menos é poesia sincera, monocorde, monocor, beleza pura. Outros fazem poesia na Galiza e acham que os seus som lugares mais elevados. Merda e concentraçom! respondo.

----- COMMENT: AUTHOR: Oscar [Visitante] DATE: Sun, 01 Jun 2008 23:46:45 +0000 URL: http://www.finisterra.blogger.com.br

Caríssimo Eugénio, “o primeiro lampejo” da poesia é o dizer, não é? O que vem depois é elaboração poética, trabalho de pedreiro sobre aquela luz (as vezes intolerável)oferecida pela inspiração.

Não é minha esta reflexão,é de João Cabral de Mello Neto, o meu poeta favorito. Mas também me encontro naquilo que dizes - ou melhor dizendo não sei ainda onde é o meu lugar, ou o lugar onde ponho o meu poema.

Com um abraço daqui, desta Lisboa Revisitada.

----- COMMENT: AUTHOR: eugeniote [Membro] DATE: Wed, 28 May 2008 12:35:36 +0000 URL: http://www.agal-gz.org

Para dizer verdade, caro, sempre senti um pouco de invejá (sã) pelas pessoas que, como tu, conseguem fazer da poesia um fenómeno plural. Por isso tentei sempre participar dessas iniciativas, e -diga-se de passagem- as tuas sempre achei magníficas.

----- COMMENT: AUTHOR: igor [Visitante] DATE: Wed, 28 May 2008 06:38:48 +0000 URL: http://ovniseisoglossas.agal-gz.org

Para mim, por contra, ao revés.
De ser umha experiência pessoal, intima, silenciosa, mesmo tímida, passou a ser, de vagar, umha experiência colectiva, plural, sonora, mesmo extrovertida.
Mas umha cousa nom é incompatível com a outra. Tudo o contrário: som complementares.

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Autorretrato em Lourição BASENAME: autorretrato_em_louricao DATE: Wed, 14 May 2008 12:30:59 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: anotações mentais CATEGORY: TAGS: ----- BODY:
Autorretrato em Lourição

Feita nas passadas férias da Páscoa.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: aipo BASENAME: aipo DATE: Fri, 02 May 2008 15:17:01 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: feito à mão CATEGORY: TAGS: ----- BODY:
FAÇA VOCÊ MESMO


ai-po

As imitações é no que dão. &#59;)

Encontrei o recortável por e não pude evitar fazer a minha versão.

----- COMMENT: AUTHOR: Amelie Jolie [Visitante] DATE: Wed, 06 Aug 2008 20:49:15 +0000 URL: http://www.cozinhadaamelie.blogspot.com

Hahahaahaaha!!!!Ficou ótimo isso!!!!Ate eu quero um desse!!!

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Xohán, fotógrafo BASENAME: xohan_fotografo DATE: Sun, 16 Mar 2008 22:34:19 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: fotos CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Xohán fotógrafo

Esquecida entre outras fotos da minhas passadas férias de natal achei esta maravilha que, como se pode comprovar na própria imagem, é da autoria do meu sobrinho, Xohán Outeiro Barbosa. Não podia deixar de postá-la.

----- COMMENT: AUTHOR: suso [Visitante] DATE: Tue, 25 Mar 2008 23:56:03 +0000 URL: http://angueiradesuso.agal-gz.org/

Família de artistas!!! :)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: De grupúsculos e centímetros BASENAME: e_grupusculos_e_centimetros DATE: Tue, 22 Jan 2008 12:33:05 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: anotações mentais CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Adorei o último artigo do Valentim no Novas da Galiza. Fala em grupos ou grupúsculos, G, G.1, G.2... e pelas referências eu localizava-me no meio dos dois grupos, num G.1,5 ou assim. Mas vendo alguns comentários ao seu artigo, sinto-me cada vez mais longe de G.2 e cada vez mais longe de G.1. Sinto-me, simplesmente, Alt+F4.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Conflitos BASENAME: conflitos DATE: Wed, 16 Jan 2008 14:58:33 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: anotações mentais CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Com alguns conflitos internos do reintegracinismo assalta-me subitamente a mesma reflexão que imagino que teria se estivesse a ver dois marcianos fazendo amor à maneira deles (juntando trombetinhas ou lá o que for): mas que caralho é isto?

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: De princípio... BASENAME: de_principio DATE: Tue, 15 Jan 2008 21:23:15 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: anotações mentais CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Os reintegratas somos uns indivíduos com muitos princípios. De facto, raras vezes passamos deles.

----- COMMENT: AUTHOR: suso [Membro] DATE: Thu, 14 Feb 2008 12:15:19 +0000 URL:

Os finais justificam o “passar” dos princípios?!? X-)))

----- COMMENT: AUTHOR: Montoliu [Visitante] DATE: Fri, 25 Jan 2008 17:38:14 +0000 URL:

A verdade é falta sentido práctico e márqueting

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Ou jogamos todos... BASENAME: ou_jogamos_todos DATE: Wed, 17 Oct 2007 00:36:53 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: anotações mentais CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Ad Augusta per Angusta

...ou pinchamos a bola. E guardo-me o que pensava dizer sobre tirar a um rio uma mulher de moral distraída, porque ainda me obrigam a mim a fechar o blogue.

Seja como for, cá vai, via As tuas Balas, o desenho por que Yolanda queria denunciar Aduaneiros.

P.S.: E enquanto Aduaneiros não voltam a andar (e esperemos que voltem a fazê-lo), fica ISTO por cá para os que não podemos passar sem eles.

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Reflexos da chuva BASENAME: reflexos_da_chuva DATE: Sat, 22 Sep 2007 00:40:43 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: fotos CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Chove em Alacant estes dias e eu saí a tirar fotos. Um parque de skating molhado deu para tirar estas fotos:

Rampa

Reflexos

Reflexos 2

Reflexos 3

Reflexos 4

----- COMMENT: AUTHOR: Montoliu [Visitante] DATE: Tue, 30 Oct 2007 22:11:29 +0000 URL:

É verdade que chove pouco em Alacant…

----- COMMENT: AUTHOR: suso [Membro] DATE: Wed, 03 Oct 2007 18:33:34 +0000 URL:

Alaaa cant a águaaa!!! :-P

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: O meu flickr BASENAME: o_meu_flickr DATE: Thu, 06 Sep 2007 10:15:20 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: fotos CATEGORY: TAGS: ----- BODY:
Amarre

amarre

Hoje chegou a minha nova câmara. Já estava com vontade eu dela. Desde que há um par de semanas peguei na câmara do meu pai, fui dar uma volta pela ilha (lado B ) e fiz umas poucas fotos de que gostei especialmente, e entre as que se acha a de acima. Afora farei mais. Entretanto, gostava de mostar as que já estão no meu flickr.

----- COMMENT: AUTHOR: suso [Membro] DATE: Wed, 12 Sep 2007 22:07:23 +0000 URL:

É que o que é artista… é artista pra tudo! :-)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Samaro: uma mínima sessão fotográfica BASENAME: samaro_uma_minima_sessao_fotografica DATE: Mon, 03 Sep 2007 12:02:51 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: pintamentos CATEGORY: fotos TAGS: ----- BODY:

Começo a subcategoria fotografias, com esta pequena sessão fotográfica do meu avô. Desculpem que não comente grande coisa. Para mim, a só imagem deste homem resume tantas coisas que acho inútil qualquer palavra.

Sessão Fotográfica ao Samaro - 1

Samaro - 2

Samaro - 3

Samaro - 4

Samaro - 5

Samaro - 6

----- COMMENT: AUTHOR: Teresa Nieto Viñas. [Visitante] DATE: Sat, 16 Oct 2010 20:31:45 +0000 URL:

E si, sobran os comentarios…
A min tamén me deixa sen palabras, éncheme o peito dunha chea de sentimentos mornos e intimos deitados en cada ollada, cada enrruga, cada xeito…
Adoro a xente grande…
Biquiños. Tere.

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Respondendo ao Óscar: um meme BASENAME: respondendo_ao_oscar_um_meme DATE: Tue, 22 May 2007 11:52:03 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: anotações mentais CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Respondendo à provocação de Óscar no seu Finisterra.

(*) Um "meme" é um "gene cultural" que envolve algum conhecimento que passas a outros contemporâneos ou a teus descendentes. Os memes podem ser ideias ou partes de ideias, línguas, sons, desenhos, capacidades, valores estéticos e morais, ou qualquer outra coisa que possa ser aprendida facilmente e transmitida enquanto unidade autónoma.

As escadas do amor têm um degrau partido: não se pode ascender sem dar um salto.

E passo a provocação a: Ângelo, Igor e Suso.

PS. Demorou, mas não tinha esquecido.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: «Limpia, fija y da esplendor» BASENAME: llimpia_fija_y_da_esplendorr DATE: Sun, 13 May 2007 08:38:36 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: pintamentos CATEGORY: TAGS: ----- BODY:
RAE PELUQUEROS

Vi-o com estes olhinhos e tirei a foto com aquela camarinha. Um poema...

----- COMMENT: AUTHOR: Nóbrega [Visitante] DATE: Mon, 14 May 2007 10:24:26 +0000 URL: http://calacia.blogspot.com

É tudo umha questom de imagem…

----- COMMENT: AUTHOR: suso [Visitante] DATE: Mon, 14 May 2007 09:29:56 +0000 URL: http://angueiradesuso.agal-gz.org

Tomarom-che o pêlo? ;-p

----- COMMENT: AUTHOR: Ernesto [Visitante] DATE: Sun, 13 May 2007 08:45:51 +0000 URL:

que bom!

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Samaro BASENAME: title_189 DATE: Sat, 10 Mar 2007 02:37:00 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Era uma vez um homem que levantava cordas de bateia com apenas uma mão. Era eu criança e lá estava, com os olhos arregalados, para poder dar testemunho nestas linhas. Era um homem que sempre tinha dormido na tilha da sua dorna e mal conseguiu depois dormir em camas fofas. Era um homem que, em criança, se erguia cedo porque a dorna tinha de de ir ao mar, e mesmo que ele não fosse naquela altura, não podia continuar a empregar a vela como cobertor. Era um homem de pele dura e barba curta de salitre, que chegando o natal cantava tangos e havaneras com voz de tenor. Era uma vez o meu avô, e continuar a ser, colado ao sofá da minha casa antiga.

Francisco de seu nome, Samaro de sua alcunha, o seu corpo moldou a complexão forte de todos os Samaros que depois viemos. Nunca soube donde lhe vinha o sobrenome, que suponho herdado. Agora a rede oferece-me apenas a hipótese de Santo Amaro, mas eu prefiro continuar a pensar que venha de mar, por meio de alguma engenharia linguística popular que desconheça.

Foi este o homem que me fez brinquedos na minha infância. Arcos que fossem, setas, espadas de madeira para aumentar os sonhos de Robin Hood ou de piratas que povoavam o meu imaginário. Brincava eu com a as minhas imagens adquiridas de filmes, e tudo aquilo ficava muito longe da realidade. Daí que as aventuras nas Caraíbas de Errol Flynn ou Kirk Douglas em nada me fizessem pensar daquela no meu avô, ele que sabia de mar mais que Flynn e Douglas juntos, e talvez até soubesse mais das Caraíbas, tanto como gostava dos seus mapas e atlas.

Quando, já no liceu, eu e alguns amigos levámos uma iniciativa para reciclar baterias, lembro ter assistido em silêncio às brigas dele com a minha mãe, que insistia em comprar novos tachos, em lugar de empregar os que o Samaro teimava em reciclar com novas pegas de madeira. Naquela altura, inconsciente, estava sem pensar do lado da minha mãe. Suponho que porque o meu avô não sabia que coisa fosse essa da reciclagem, se bem que sempre a tivesse feito, e apesar de que eu, sabendo a teoria, não chegasse nem aos calcanhares do exercício ecológico que era a vida do Samaro.

Falo do que eu lembro dele quando eu era criança e ainda depois, mas sei que este homem teve uma vida muito antes da minha chegada ao mundo. Qual fosse é que eu não sei. Apenas chego a conhecer fragmentos. Casou com a minha avó, isso é certeza. Também sei que assistiu alguma manifestação do 1º de Maio durante a II República, mas não pude saber muito mais, porque a minha avó o fez calar por medo. Trabalhou como ninguém pode imaginar, e no tempo livre simplesmente passeava com o seu cão, sem passar demasiado pela taberna, como sim fazia a maioria dos seus iguais. Lembro-o solitário, e suspeito que sempre tenha sido.

Sei também que ia procurar mexilhão longe, três ou quatro homens na mesma dorna, viagens de vários dias a velear, saindo da calmaria da ria para onde o Atlântico se enerva. Ele vem dessa época em que as indústrias de salga de peixe e de marisco começavam a agromar na Ria de Arousa, e homens, mulheres e crianças jogavam as suas vidas para alimentá-las. Da época, também, em que começou a haver movimentos operários, que suspeito Samaro tenha rondado, sem se implicar demasiado, como correspondia a uma pessoa discreta como ele.

Chegou-nos de uma época em que o "repente" era uma causa de morte, e de repente quis falar dele. E depois desta mínima lembrança que aqui deixo, resulta-me impossível imaginá-lo como seguramente esteja hoje, depois dos enfartes e a apoplexia: grudado ao sofá da casa dos meus pais na Ilha, dormitando perante um ecrã de TV de que só lhe interessaram, em toda a vida, as previsões climatéricas.

----- COMMENT: AUTHOR: Oscar [Visitante] DATE: Sat, 12 May 2007 13:28:52 +0000 URL: http://www.finisterra.blogger.com.br

Samaro de Santo Amaro (?), que tem mar e amar no sobrenome. Belo texto, Eugénio. Passa lá no meu blogue,por favor, há um desafio/provocaçã para ti. Dessas que a gente recebe, e se gostar passa adiante. Abraços!

----- COMMENT: AUTHOR: Gustavo [Visitante] DATE: Sun, 29 Apr 2007 10:54:56 +0000 URL:

mui fermoso texto caro. Entranhável. Como ja che contei há umhos dias, o meu irmao atopou as raices da minha familia, que vive em Serra de Outes, mas os nossos antepasados venhen de umha parróquia de Lugo.
Com esto quero animar-che a qie sigas investigando sobre a tua familia, os alcumes, investigar quais forom os elementos que che convertem em resultado de toda a historia familiar.

Saudaçons afectuossas, caro.
P.D. pasade polo Erik ao concerto de Raquel. O luns 30 ás 23:00.

----- COMMENT: AUTHOR: suso [Membro] DATE: Thu, 22 Mar 2007 12:14:56 +0000 URL:

Formoso texto, amigo Ugio, neto do Samaro! :-)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Percursos BASENAME: title_188 DATE: Thu, 08 Mar 2007 16:38:09 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: anotações mentais TAGS: ----- BODY:

Sou um desenhador gráfico medíocre.

Sou um informático ínfimo.

Sou um professor normalinho.

Era um poeta e já não sou.

É verdade que desfruto com o que faço. Mas há dias como hoje que me pergunto onde ficaram as aspirações passadas.

Isto tinha um nome que li há pouco. Síndroma de não-sei-quê: há tantas coisas interessantes para fazer que afinal resulta impossível centrar-se apenas numa.

Aprendi a sonhar da minha mãe. Ou talvez fosse simplesmente a sua presença feminina que fez com que não morresse essa aspiração natural que é imaginar-se melhor e querer sê-lo. Aprendi do meu pai a ser pau para toda a colher, uma pessoa útil, não negar-me, em geral, ao trabalho, e não desprezar esforços, por insignificantes que pareçam, enquanto forem necessários. Bem pensado, talvez simplesmente tenha aprendido as duas coisas dos dois, pai e mãe. E o resultado, suponho, só podia ser isto que sou: alguém disposto a fazer o preciso para o nascimento do sonho de a minha língua vir a ser a portuguesa.

Mas houve um tempo em que me sonhei sobretudo poeta. Escrevia por volta de dois poemas por dia, quando era novo. Depois comecei a deixar de parte a quantidade, mais preocupado pela qualidade. Aos 24 anos, acho que a sensibilidade poética virara modo de vida, graças em grande parte à intervenção da prática do budismo Zen. O poema devia ser sobretudo uma verdade, e passei a entender porque Antero podia pertencer à mesma geração que Eça. Líamos Cioran, Kierkegaard, Lautreamont, Pessoa, Saint-Exupéry somados à minhas anteriores leituras de Valente, que tanto me marcara.

Há pouco disse-me Ramom "tínhamos leituras duras, podíamos ter chegado a ser uma geração das boas". "Só faltava sermos mais de dois", retorqui irónico. E receio que os dois temos razão.

E sem ter morrido a esperança de vir um dia a ser poeta, eis que muitos que na altura considerava maus escritores(sempre, é claro, do meu ponto de vista de um poema precisar ser uma verdade) persistiram na escrita e na vontade de se fazerem públicos. Eu, no entanto, virei-me para as coisas úteis (as que eu considerei, é claro). Fiz-me linguista porque achei que eram precisos professores de língua portuguesa. Nos diversos movimentos em que estive, decidi empregar os meus parcos conhecimentos de composição estética para fazer aquilo que ninguém fazia: aprendi a desenhar coisinhas e fazer leiautes vários com o meu computador. A partir daí, acabei por entrar a fazer parte da equipa do PGL de mão do Valentim, em princípio para fazer imagens, mas logo acabei por aprender quatro noções de desenho web que me foram levando até criar estes blogues todos, e hoje até me ocupo também do Portal. Aqueles que persistiram continuam a ser poetas. Eu sou um responsável técnico.

E não me foi mal, é claro. Não me queixo. Mas às vezes é-me difícil reconhecer-me no passado e preciso vir a este blogue para lembrar os percursos. Desculpem se macei. Já deixo a lareta.

----- COMMENT: AUTHOR: Miro [Visitante] DATE: Sun, 13 May 2007 10:17:19 +0000 URL: http://galsatia.wordpress.com

Pois eu também estou numa etapa na que me pergunto se existe verdadeiramente uma contradição insalvável entre o homo technicus e o homo poeticus, ou se, simplesmente, imos velhos. Eu particularmente, quando tento deitar sobre mim próprio a olhada do eu mais novo, assusto-me. Meto-me medo a mim próprio. Como virei duro, frio, calculador, insensível. Se calhar foi a ciência que curtiu a minha pele. Se calhar foi o mundo anglo-saxão que me fez à sua imagem e semelhança. Se calhar foi o mundo, em geral. Se calhar foi a dor. Se calhar, vou velho. Olho para mim e vejo um bruto, um bárbaro (no sentido etimológico ou pseudo-etimológico, não pensem que é vaidade). Não é apenas uma crise vocacional, eu nunca quise ser poeta e, seja como for, ganho a vida duma forma relativamente criativa, é uma cousa mais ?profunda?. É como se eu próprio me tivesse forçado a levar um uniforme e a marchar pela vida com passo militar. Felizmente, é o passo do ganso o qual me permite ainda rir de mim próprio ;-)

----- COMMENT: AUTHOR: Rodrigo Inácio [Visitante] DATE: Sat, 31 Mar 2007 19:55:24 +0000 URL: http://br.groups.yahoo.com/group/Planeta_Cioran/

Se tens interesse, participa de nossa lista de discussão sobre Cioran em português:

Planeta_Cioran-subscribe@yahoogrupos.com.br

http://br.groups.yahoo.com/group/Planeta_Cioran/

----- COMMENT: AUTHOR: eugeniote [Visitante] DATE: Fri, 30 Mar 2007 16:08:21 +0000 URL: http://extramuros.agal-gz.org

AG Montoliu, obrigadíssimo pela tua mensagem. Serviu-me também para me sentir acompanhado.

Suso, és o maior…

Croios detector, de tanto insistir afinal vai acabar por ser mesmo a etapa audiovisual…

----- COMMENT: AUTHOR: Croios detector [Visitante] DATE: Wed, 28 Mar 2007 08:27:33 +0000 URL:

etapa audiovisual, don’t forget it!

----- COMMENT: AUTHOR: suso [Visitante] DATE: Tue, 27 Mar 2007 11:20:34 +0000 URL: http://angueiradesuso.agal-gz.org

For he’s a jolly good fellow!
For he’s a jolly good fellow!
For he’s a jolly good fellow!
And so say all of us!

http://www.mwscomp.com/movies/brian/brian-31.htm

----- COMMENT: AUTHOR: AG Montoliu [Visitante] DATE: Sun, 25 Mar 2007 17:49:12 +0000 URL:

Bemvindo ao clube.
@s que temos inclinações artisticas temos este problema, sempre queremos mais i fazemos muitas coisas porque estamos na vida para apreender.
Passei tudo o fim-de-semana a desenhar, quando deveria fazer alguma coisa pelo meu futuro professional… Mas ser artista total é tão dificil… E tambem estou a ensenhar… e este trabalho parece que não mas tira tempo…
E penso, esta não era a vida que eu queria, eu queria alguma coisa diferente, não melhor… mas mais excitante.
Vejo que não estou só.

----- COMMENT: AUTHOR: eugeniote [Visitante] DATE: Wed, 14 Mar 2007 00:42:41 +0000 URL: http://extramuros.agal-gz.org/

Eu suspeito que seja mais madurar, até porque me imagino perfeitamente a fazer-me a mesma pergunta se tivesse optado apenas pela poesia. Mas sim, a dúvida está la.

----- COMMENT: AUTHOR: O Congro [Visitante] DATE: Mon, 12 Mar 2007 16:41:23 +0000 URL: http://www.acovadocongro.com

Síntome profundamente identificado (gardando a distancias). E sempre me pergundo se a isso se lhe chama “madurar” ou “nom ter huevos".

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: O dia que Rubens apanhou por engano o pincel de Picasso (As três graças de Avignon) BASENAME: o_dia_que_rubens_apanhou_por_engano_o_pi DATE: Thu, 08 Mar 2007 01:49:16 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: pintamentos CATEGORY: o dia que... TAGS: ----- BODY:

Como dizia Cioran, um obra não está acabada quando está perfeita, mas quando já simplesmente estamos fartos dela. Hoje dei-lhe bastantes voltas a esta, e ainda que não a veja acabada, acho que já não posso dar-lhe mais nada. Publico-a já, portanto.

Os originais de que parti:

- As três graças de Rubens

- Les Demoiselles d'Avignon de Picasso

- Uma paisagem de Picasso

- Duas mulheres correndo de Picasso (para o fundo)

- A mulher flor de Picasso (um simples detalhe)

----- COMMENT: AUTHOR: Carlos Ac Liberal [Visitante] DATE: Tue, 01 Sep 2015 05:39:51 +0000 URL:

BELOS SEIOS

Porque faço o pedido/
se já fui acudido/
se ralha nos Deus/
se valha nos Céus/
Por que hei de ragatear/
pelos seios/
se são belos/
se são feios/
são formosos/
são dourados/
são duros/
são escarlate/
Porque hei de chantagear/
se o teu corpo luz /
se o teu corpo produz/
se as tuas ancas são lisas/
se os teus braços são brisas/
se em tudo teu está no olhar/
se és princesa/
se és rainha/
se o amor em ti está acesa/
tens o cabelo em gancho/
se és obra minha/
se em tudo teu está no beijar”

Carlos Ac Liberal

----- COMMENT: AUTHOR: Caelos Ac Liberal [Visitante] DATE: Tue, 01 Sep 2015 05:38:27 +0000 URL:

BELOS SEIOS

Porque faço o pedido/
se já fui acudido/
se ralha nos Deus/
se valha nos Céus/
Por que hei de ragatear/
pelos seios/
se são belos/
se são feios/
são formosos/
são dourados/
são duros/
são escarlate/
Porque hei de chantagear/
se o teu corpo luz /
se o teu corpo produz/
se as tuas ancas são lisas/
se os teus braços são brisas/
se em tudo teu está no olhar/
se és princesa/
se és rainha/
se o amor em ti está acesa/
tens o cabelo em gancho/
se és obra minha/
se em tudo teu está no beijar”

Carlos Ac Liberal

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Uma história deliciosa... BASENAME: uma_historia_deliciosa DATE: Tue, 06 Mar 2007 12:09:10 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Coisas de YouTube CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

[youtube]LKh7zAJ4nwo[/youtube]

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: cinco versos BASENAME: title_184 DATE: Wed, 28 Feb 2007 12:07:54 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Tento apalpar as sombras da expressão perdida.
Alguma coisa como um sonho antigo
salta p'ra as minhas mãos a mordiscar-me as gemas,
um insecto furioso mas pungente:
eis o processo que tansito agora.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Sem título - 2 BASENAME: sem_titulo_2 DATE: Sun, 18 Feb 2007 04:07:53 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: pintamentos CATEGORY: feito à mão TAGS: ----- BODY:

Sem Título 2

Mais um bocado do mesmo. Encontrei estes desenhos há pouco, fazendo limpeza, e decidi ir colocando-os por aqui. Correspondem a uma época em que tencionava que a minha vida estivesse guiada totalmente pelo Budismo Zen. Estes desenhos eram qualquer coisa como pinturas Sumi-e. O processo criativo era simples: primeiro faz-se uma linha, depois outra, depois outra, até que se intui que está acabado. O importante era que o que se fizesse não se podia apagar, e havia que saber quando parar, além de muitas outras coisas, como o estado de consciência ou a postura corporal.

----- COMMENT: AUTHOR: suso [Visitante] DATE: Fri, 23 Feb 2007 11:42:19 +0000 URL: http://angueiradesuso.agal-gz.org

Esta manhã vim este gajo (http://www.usc.es/theo/profesorado/otero.htm) a falar das Missões Pedagógicas (http://www.secc.es/ficha_actividades.cfm?id=1177) na TV (La2) e, não sei porquê, me lembrei de ti ;-)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Sem título BASENAME: title_180 DATE: Sun, 11 Feb 2007 04:40:37 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: pintamentos CATEGORY: feito à mão TAGS: ----- BODY:

Sem Título 1

É apenas um desenho que fiz há muito tempo. Encontrei um pincel na rua e decidi empregá-lo para algo. Mesmo sem ter nem a mínima noção de desenho.

----- COMMENT: AUTHOR: o'sanma [Visitante] DATE: Sun, 18 Feb 2007 00:48:42 +0000 URL: http://angueiradesuso.agal-gz.org

Como que “Sem título"? Sugiro-che eu um agora mesmo! “Tinta não há mais do que uma e o pincel encontrei-no na rua", ha, ha, ha. Não, a sério, que o’lombar tem mais razão que um santo! :-) Beijocas.

----- COMMENT: AUTHOR: o'lombar [Visitante] DATE: Thu, 15 Feb 2007 16:10:13 +0000 URL:

Pois, para não ter ideia de desenho…ainda bem que perdemos -não completamente, pelo que se ve- um bom artista para ter um magnífico professor de português e informático. Bjs.

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Só para que fique claro... BASENAME: so_para_que_fique_claro DATE: Fri, 09 Feb 2007 18:09:13 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: anotações mentais CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

É claro que eu não voto, mas na mesma, sou pelo SIM.

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Mais uma contradição da poesia BASENAME: mais_uma_contradicao_da_poesia DATE: Tue, 23 Jan 2007 04:09:58 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: anotações mentais CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Para dar a cara pela poesia como alguma coisa em si própria, é preciso uma inconsciência grandiosa. A mesma que há que perder para escrever algum poema de jeito.

----- COMMENT: AUTHOR: vicente de percia [Visitante] DATE: Fri, 02 Oct 2009 03:04:53 +0000 URL: http://blogdepercia.blogspot.com

Podes entrar em contato.acesse http://blogdepercia.blogspot.com

depercia#gmail.com

----- COMMENT: AUTHOR: vicente de percia [Visitante] DATE: Fri, 02 Oct 2009 02:57:14 +0000 URL:

Podes entrar em contato.acesse http://blogdepercia.blogspot.com

depercia#gmail.com

----- COMMENT: AUTHOR: Antonio [Visitante] DATE: Mon, 13 Apr 2009 02:46:30 +0000 URL:

Ola rapaz!

estou facendo um livro do Entroido na Arousa, como fago para entrevistar-te ?
(som tres perguntinhas)

se podes manda-me um e-mail a arrecendo@gmail.com

Saúdos!

----- COMMENT: AUTHOR: vicente de percia [Visitante] DATE: Wed, 04 Feb 2009 22:06:11 +0000 URL: http://blogdepercia.blogspot.com

Faço-lhe um convite para trocarmos opiniões em relação à literatura e o circuito das artes em geral.O meu blog servirá de apresentação http://blogdepercia.blogspot.com Acabo de participar do Forum Mundial em Belém do Pará,Brasil e estou em constante produção literária tanto como escritor como crítico e professor.Em recente visita a Portugal e Espanhal colhi várias produções.Aguardo seu contato.Vicente de Percia

----- COMMENT: AUTHOR: suso [Membro] DATE: Mon, 05 Feb 2007 12:11:56 +0000 URL:

“Dos tangos maricas", quiseste dizer? ;-p

----- COMMENT: AUTHOR: Oscar [Visitante] DATE: Mon, 29 Jan 2007 15:52:13 +0000 URL: http://www.finisterra.blogger.com.br

Olá amigo! Há tempos que não vinha aqui, e agora vejo que voltaste com novidades. Abraços desta Lisboa dos fados!

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Uma ideia sobre fados BASENAME: uma_ideia_sobre_fados DATE: Mon, 22 Jan 2007 20:02:35 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: anotações mentais CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

O fado é um tango maricas. Ou ao contrário: o tango é um fado machão.

----- COMMENT: AUTHOR: Oscar [Visitante] DATE: Mon, 29 Jan 2007 21:09:19 +0000 URL: http://www.finisterra.blogger.com.br

Caro Eugénio, nem foi a minha intenção qualquer correcção política. Mas reconheço que sou um bocado iconoclasta e “destruir” imagens, sejam elas de que suporte forem (escrita, iconográfica ou sonora)é um dos meus vícios nem sempre admitidos. É claro que as palavras são vicioasas. Mas também é da sua natureza serem elas, polissémicas. No entanto, às vezes, o “zoon politikon” que existe em mim se irrita e faz com que eu perca o meu senso de humor. Não precisavas te explicar, amigo, entendi perfeitamente. Abração… e continua na tua escrita!

----- COMMENT: AUTHOR: eugeniote [Visitante] DATE: Mon, 29 Jan 2007 19:54:03 +0000 URL: http://extramuros.agal-gz.org/

Meu caro Óscar, espero que tu (e tantas outras pessoas) não te tenhas incomodado com os ex-abruptos culturais “maricas” e “machão". O que tentava era reflectir de forma explícita sobre a forma de encarar o sofrimento, com efeito, humano. Tentava entender que há diferenças estilísticas entre um género e outro que estão a reflectir, na verdade, realidades de carácter, e quase estou por dizer filosóficas. E claro que a escolha das palavras não é inocente. Mas parece-me que de certa maneira me vem dado pela própria imagem (que é, em definitivo, a essência), destes dois géneros. Não é por acaso que a grande voz do Tango é um homem (Carlos Gardel), enquanto do Fado é uma mulher (a Amália).

Em qualquer caso, cá está a minha desculpa. O que queria dizer, em definitivo, é que não sei como expressá-lo melhor.

----- COMMENT: AUTHOR: Oscar [Visitante] DATE: Mon, 29 Jan 2007 15:48:25 +0000 URL: http://www.finisterra.blogger.com.br

O fado, o tango, o samba e o blues têm todos, a mesma inequívoca raíz: negra. Alguns historiadores da música têm outra opinião sobre a origem do fado, Ramos Tinhorão põe o seu nascimento entre os portos do Rio de Janeiro e Lisboa. Mas é em Lisboa, certamente, que ele, o fado, finca os seus pés. Os três são músicas de sofrimento, e o sofrimento é humano, nem gay nem machão, somente humano.

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Gato Fedorento - Telejornal Popular BASENAME: gato_fedorento_telejornal_popular DATE: Sat, 20 Jan 2007 05:01:35 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Coisas de YouTube CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

[youtube]UiYmOkD6UwY[/youtube]

----- COMMENT: AUTHOR: suso [Membro] DATE: Mon, 05 Feb 2007 12:08:51 +0000 URL:

:-)))

“Não existem, nos textos jornalísticos, fronteiras absolutas entre informação, interpretação e opinião” (do Livro de Estilo do Público).

http://www.publico.clix.pt/nos/livro_estilo/16o-palavras.html

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Experimentado o plugin das galerias com patos BASENAME: experimentado_o_plugin_das_galerias_com_ DATE: Sun, 10 Dec 2006 16:31:07 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: pintamentos CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Esta galeria mostras três imagens consecutivas, feitas para acompanhar um conto de Concha Rousia no Portal Galego da Línga.
[evo_gallery]655451727337704[/evo_gallery]

----- COMMENT: AUTHOR: suso [Visitante] DATE: Tue, 26 Dec 2006 10:55:15 +0000 URL: http://angueiradesuso.agal-gz.org/

Afinal, quê? Havemus galerias ou nom as havemus? É que queria umha para o dia de Reis, terceiro aniversário da minha visita ao Royal Observatory de Greenwich. Feliz Ano Novo. Pola hora velha, of course ;-p

----- COMMENT: AUTHOR: admin [Membro] DATE: Sat, 16 Dec 2006 05:47:10 +0000 URL: http://agal-gz.org/blogues/

Admirat Dr. Cat,

Ja he constestat via e-mail l’oferiment de participar en la recordació de la VA-CA. Aquest comentari és sols perquè suposo que l’agradarà també conéixer que el site archives.org, guarda també alguna altra cosa interessant:

http://web.archive.org/web/*/http://www.catigat.org

i

http://web.archive.org/web/*/http://www.estelnet.com/catigat

Amb admiració reiterada,

Eu.

----- COMMENT: AUTHOR: o' lombar [Visitante] DATE: Thu, 14 Dec 2006 17:57:21 +0000 URL:

Caro Eugénio, muito obrigado pelo presente (também passado) link-vaqueiro. Poupa de vir o Pai Natal. Abraço

----- COMMENT: AUTHOR: Dr. Cat [Visitante] DATE: Thu, 14 Dec 2006 00:01:49 +0000 URL: http://www.catigat.org

He vist la mena d’enllaç que porta als arxius de la va-ca. És genial! Podem promocionar-ho? És més durable que si fem un dvd-llibre recopilatori de la història de la va-ca? Des de BCN volem fer una exposició sobre el que va ser la va-ca. No és broma. T’hi apuntes virtualment?

Camarada 64

----- COMMENT: AUTHOR: suso [Visitante] DATE: Wed, 13 Dec 2006 17:31:10 +0000 URL: http://angueiradesuso.agal-gz.org/

Leste-me os pensamentos, caro! Como sabias que era a oferta que queria para o Natal? Como e quando podo estreá-la? :-D

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Arquimedes in love BASENAME: arquimedes_ligin_lovel_ig DATE: Tue, 14 Nov 2006 11:50:12 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: anotações mentais CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Se a minha amada cair, eu serei o seu ponto de apoio e juntos levantaremos o mundo.

Sei lá, passou-me pela cabeça...

----- COMMENT: AUTHOR: ana apaz [Visitante] DATE: Sun, 07 Jan 2007 22:08:39 +0000 URL:

“were I to let you fall, you would float upon the wind", JRR Tolkien, The Lord of the Rings

Beijos a para ti e para a amada Bárbara,

apaz, recebeste??

----- COMMENT: AUTHOR: suso [Membro] DATE: Thu, 16 Nov 2006 18:16:04 +0000 URL:

Eureka! Todo corpo mergulhado em um fluido sofre um empuxo vertical, dirigido de baixo para cima, de baixo para cima, de baixo para cima, igual ao peso do volume do fluido deslocado ;-)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: O homem mais odioso do mundo BASENAME: o_homem_mais_odioso_do_mundo DATE: Wed, 01 Nov 2006 08:48:47 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Coisas de YouTube CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

[youtube]vjimyF8-SqE[/youtube]
Já disse nalguma ocasião... bendito Gato Fedorento

----- COMMENT: AUTHOR: admin [Membro] DATE: Sat, 25 Nov 2006 17:16:33 +0000 URL: http://agal-gz.org/blogues/

Certeza que o Congro vai gostar de saber. É pena não deixares o comentário no seu blogue. Mas enfim, suponoh que terá que vir por aqui nalgum momento.

----- COMMENT: AUTHOR: rifenha [Visitante] DATE: Sat, 25 Nov 2006 16:52:00 +0000 URL: http://oescunchador.blogaliza.org/

Senhor congro. Gosto muito das suas palavras e e identifico-me muito com elas.
Ei volver mais veces por sua cova.
Encantada de o conhecer

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Cheira a chamusco BASENAME: cheira_a_chamusco DATE: Tue, 08 Aug 2006 10:40:32 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: anotações mentais CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

E gostava de me equivocar com esta hipótese sobre os fogos postos. Mas ter a perspectiva de quem vê as coisas de longe, no meu caso de forma forçada, costuma dar certo. Precisamente quando chego de cada tantos meses de volta e constato que se está a edificar cada vez mais na costa, e na ilha em concreto, começa uma vaga de incêndios de uma nova tipologia. Ou estou eu muito errado ou as novas tipologias respondem a novos interesses, e é que, com efeito, agora o lume chega logo a zonas povoadas. Vendo isto, atrevo-me a afirmar, sem saber, que um terreno queimado é mais barato que um sem queimar. É, digamos, uma intuição. Claro que até dentro de 30 anos não se pode edificar nesses terrenos, segundo a lei. Mas também é verdade que o grande capital espanhol, esse que já não pode edificar na costa mediterrânica por falta de espaço, sabe fazer planos a longo prazo. Depois de tudo, por que será, senão, que ardem sobretudo as províncias de Ponte Vedra e a Corunha? Não será que são as mais turísticas?

----- COMMENT: AUTHOR: eugeniote [Membro] DATE: Wed, 09 Aug 2006 22:55:56 +0000 URL: http://www.agal-gz.org

Para já, os meus parabéns pela iniciativa, que me parece bastante boa. Ainda que, na verdade, escrevo apenas para tirar a dúvida: este post foi escrito precisamente depois de ter colaborado (pouco, como todos os que lá estávamos) apagando o lume que aparece na foto.

----- COMMENT: AUTHOR: Erasmo [Visitante] DATE: Tue, 08 Aug 2006 17:44:40 +0000 URL: http://vigo.cidadans.net/Erasmo/

DEIXA O RATO E COLLE O SACHO…!

VOLUNTARIOS CONTRA O LUME…!

NUNCA MAIS INCENCIOS EN GALICIA…!

http://foros.vieiros.com/foros/viewtopic.php?p=11253#11253

Pasade o enlace se queredes…!

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: O dia que Castelao imitou os desenhos de Escher BASENAME: o_dia_que_castelao_imitou_os_desenhos_de DATE: Wed, 05 Jul 2006 18:37:53 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: o dia que... CATEGORY: pintamentos TAGS: ----- BODY:

Autor: eu.
Técnica: Corel Draw
Lugar: Ilha de Arousa

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: O dia que Piet Mondrian desenhou um par de cubos BASENAME: o_dia_que_piet_mondrian_desenhou_um_par DATE: Tue, 27 Jun 2006 08:52:43 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: o dia que... CATEGORY: pintamentos TAGS: ----- BODY:

O dia que Piet Mondrian desenhou um par de cubos

Autor: eu.
Técnica: Photoshop sobre Corel Draw
Dimensões: 1000 x 1022 píxels

Quando fazia a estrutura (os dois cubos), tive constantemente a incómoda sensação de ter visto o desenho com antecedência. Na verdade, quando comecei tentei fazer um cubo impossível desses que fazia Escher, mas perante a minha falta de perícia, preferi deixá-lo à parte no título. Enfim. Lá fica.

----- COMMENT: AUTHOR: Simone [Visitante] DATE: Sun, 15 Oct 2006 04:31:57 +0000 URL:

Oi, Franz Weismann construiu os dois cubos, somente com suas arestas e colocou duas faces, uma amarela e uma azul, e o chamou de mondrianas.

----- COMMENT: AUTHOR: eugeniote [Membro] DATE: Tue, 27 Jun 2006 11:01:58 +0000 URL: http://www.agal-gz.org

Que coisas! Acabei de descobrir que fiz três cubos e não dois!

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: O dia que Roy Liechtenstein se perdeu em Broadway BASENAME: o_dia_que_roy_liechtenstein_se_perdeu_em DATE: Sat, 24 Jun 2006 14:58:39 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: o dia que... CATEGORY: pintamentos TAGS: ----- BODY:

O dia que Roy Liecntenstein se perdeu em Broadway

Baseado no quadro intitulado Broadway, de Piet Mondrian, e diversos quadros de Roy Liechtenstein.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: O dia que René Magritte explicou um par de coisas a Caspar David Friedrich BASENAME: o_dia_que_rene_magritte_lhe_esplicou_um DATE: Sun, 18 Jun 2006 00:01:32 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: o dia que... CATEGORY: pintamentos TAGS: ----- BODY:

Baseado em 1, 2, 3, 4, 5 e 6 quadros de Friedrich, e outros tantos de Magritte (1, 2, 3, 4, 5 e 6).

----- COMMENT: AUTHOR: Teresamaremar [Visitante] DATE: Wed, 23 May 2007 11:43:30 +0000 URL: http://www.artesduas.blogspot.com

Que espectacular fusão a das imagens de Magritte e Friedrich!
parabéns pela ideia e pela selecção.

----- COMMENT: AUTHOR: eugeniote [Membro] DATE: Sat, 24 Jun 2006 15:04:24 +0000 URL: http://www.agal-gz.org

Pois é… Quando me aborreço dá-se-me por aí… Obrigado, caríssimo.

----- COMMENT: AUTHOR: suso [Visitante] DATE: Fri, 23 Jun 2006 11:48:25 +0000 URL: http://angueiradesuso.agal-gz.org/

Muito lhe dás ao côco, caro Eugénio! Chapeau, meu amigo! Chapéu-Côco (como o de Magritte), evidentemente!

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Um apelo à deserção (mail-art) BASENAME: um_apelo_a_desercao_mail_art DATE: Thu, 15 Jun 2006 17:29:14 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: pintamentos CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Re:ré: Magritte

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: 5 borboletas BASENAME: 5_borboletas DATE: Wed, 14 Jun 2006 16:16:54 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: pintamentos CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

----- COMMENT: AUTHOR: Isabel Pereira [Visitante] DATE: Mon, 02 Jul 2007 15:54:35 +0000 URL:

Olá!
Estava por aqui a procura de borboletas com a minha sobrinha Anita de 8 anos, quado ela me chamou a atenção sobre esta imagem linda dos quatro elementos da terra; água, fogo ar e terra.
Estás de parabens!
Isabel e Anita.

----- COMMENT: AUTHOR: suso [Membro] DATE: Thu, 15 Jun 2006 18:34:19 +0000 URL:

“borboleta", a palavra mais fermosa da língua galega ;-P

http://www.lavozdegalicia.es/inicio/noticia.jsp?CAT=126&TEXTO=4777703

----- COMMENT: AUTHOR: eugeniote [Membro] DATE: Wed, 14 Jun 2006 17:54:17 +0000 URL: http://www.agal-gz.org

Amigo Óscar, quem bom que continues por aí… ainda em Tunísia?

Quanto ao 5º elemento, é a união dos outros quatro: a vida.

----- COMMENT: AUTHOR: Oscar [Visitante] DATE: Wed, 14 Jun 2006 17:47:15 +0000 URL: http://www.finisterra.blogger.com.br

Caro Amigo, que bom que voltaste. Há tempos que venho aqui, e tu não. Cinco borboletas, quatro elementos. Quem é o quinto elemento?

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Uma homenagem à música BASENAME: uma_homenagem_a_musica DATE: Fri, 05 May 2006 14:49:38 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: anotações mentais CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Encontrei isto por , e não pude deixar de colocá-lo. Uma homenagem à música. Vejam, vejam, nostálgicos da movida...

----- COMMENT: AUTHOR: o'sanma [Visitante] DATE: Fri, 09 Jun 2006 11:41:31 +0000 URL: http://angueiradesuso.agal-gz.org/

I Love You Too!!! I Love You Tube!!!

----- COMMENT: AUTHOR: o'lombar [Visitante] DATE: Sat, 03 Jun 2006 09:37:18 +0000 URL:

Caro Eugenio, um grande abraço, e embora sem a rima original “ainda bem que fica Portugal!” (e os professores como tu).

----- COMMENT: AUTHOR: post scriptum [Visitante] DATE: Fri, 05 May 2006 16:25:35 +0000 URL: http://postscriptum.wordpress.com

anota mentalmente isto:

http://www.milinkito.com/los80.php

bjs!

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Arte BASENAME: arte DATE: Sun, 02 Apr 2006 22:28:10 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: perguntas e respostas CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Pergunta: A arte procura a beleza?

Resposta: Não necessariamente, mas costuma encontrá-la.

----- COMMENT: AUTHOR: A [Visitante] DATE: Sat, 22 Apr 2006 21:26:58 +0000 URL:

A arte é una necessidade do ser humano.

Para os que não somos religiosos é difícil exprimi-lo, mas o ser humano tem alguma coisa de divino, o que faz que sejamos a espécie que conseguiu dominar a Terra não é casualidade. A capacidade de crear nos faz diferentes dos outros animáis.

E essa capacidade é indisoluble do ser humano, ainda que hoje pareça difícil porque o nosso novo Deus é o dinheiro e tudo o que se faz é com o fim de consegui-lo. O nosso fim é crear, o arte és fazer coisas de forma artificial.

Temos necessidade de crear para expressar-nos, o arte procura a expressão do que temos dentro de nós, pode não ser belo, mas é humano

----- COMMENT: AUTHOR: Oscar [Visitante] DATE: Wed, 19 Apr 2006 14:44:21 +0000 URL: http://www.finisterra.blogger.com.br

Ola Galego no estrangeiro, li isto hoje: ” Avant toute chose, demandez-vous, à l’heure la plus tranquille de votre nuit: est-il nécessaire que j’ écrive?” e ” Une oeuvre d’arte est bonne qui surgit de la nécessité. C’est dans la modalité de son origine que réside le verdict qui la sanctionne: il n’y en a pas d’autre". São citações dele, Rainer Maria Rilke, que ora leio numa tradução francesa. Achei tais citações adequadas à nossa situação, situação de quem escreve, e às vezes não sabe bem o motivo. Andas silencioso, amigo! E isso pode ser muito bom…. Abraços daqui, de Tunis

----- COMMENT: AUTHOR: Oscar [Visitante] DATE: Mon, 03 Apr 2006 19:34:51 +0000 URL: http://www.finisterra.blogger.com.br

Se traduzirmos beleza por inquietação, sim!

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: anotação - 4 BASENAME: anotacao_5 DATE: Sun, 02 Apr 2006 01:49:08 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: anotações mentais CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Um sentimento não explica outro. Apenas as carências explicam sentimentos. O universo das paixões nasce de um vácuo primigénio. Tudo tende para o nada. A história da humanidade resume-se num horror vacui. Por isso de todas as paixões o amor está por cima, ou por outras palavras, não é uma paixão. Nele a carência não condiciona o sentir, mas ao contrário. Porque a entrega é uma vontade, e é assim que o amor nos faz humanos. A medida de todas as coisas.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: BASENAME: title_121 DATE: Sat, 18 Mar 2006 01:03:16 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: anotações mentais CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Afinal vai ser verdade que há quem leia estas coisas. O Óscar insiste que escreva, apesar da minha felicíssima pregiça. Já disse nalguma ocasião que os meus silêncios são as minha alegrias, e é verdade. Fiquem apenas com isto: sou feliz. O Pichel até ri de tudo isto (bom, e do resto também): se quero saber de ti, vou ao blogue, e se estiver parado, já sei que estás bem.. Não sei se devia fazer um resumo do que me aconteceu neste tempo todo, mas faço na mesma: eu e Bàrbara voltámos e quero estar com ela, coisa que me resulta mais importante que qualquer outra. Pronto. Tá-se a ver que as alegrias não se me dão bem. Sou mais de tristezas, suponho. Daí que hoje, pensando e pensando, lembre do Rubém, aquele rapaz tão simpático que me apresentou o Bruno no dia do meu aniversário. Estava no Avante, em Compostela, é claro, e quando me foi apresentar, ele disse qualquer coisa como, tu estás a dar aulas em Alacant? É que leio o teu blogue. Afinal vai ser verdade que há quem leia isto, já digo. E pergunto-me como será conhecer em pessoa um lamúrias como eu e de copos.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: O pior dos medos BASENAME: os_piores_medos DATE: Thu, 16 Mar 2006 02:03:06 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: anotações mentais CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Nalgum lugar do mundo, uma criança balbuciante de língua não românica junta inconscientemente e por acaso, deitando mão daqueles fonemas que consegue pronunciar por fim, uns sons que formam algo como a palavra "amor". O mundo circundante, no entanto, fica na mesma. Os pais que estão ao seu lado nem sequer se olham extranhados, nem a avó, nem o tio, nem o ursinho fofo que tem abraçado. É que, realmente, a coitada da criança não disse rigorosamente nada.

Já me tenho sentido alguma vez assim.

----- COMMENT: AUTHOR: Luisa Pádua Ramos [Visitante] DATE: Sun, 21 May 2006 10:54:56 +0000 URL:

Eu também, no entanto as palavras valem por si só. Terão sempre uma força esmagadora.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Silêncio BASENAME: silencio DATE: Tue, 07 Mar 2006 12:20:10 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

(...)sou vosaltres qui heu fet / del silenci paraules(...)

Não quero escrever. Só Deus sabe quanto me apetece fazê-lo. Eu, que verti neste meio tudo o que me veio à cabeça. Eu, que mostrei a impudícia dos meus pensamentos sem medo, que ouvi tantas vezes a pergunta "mas como podes escrever tudo isso na internet?". Que até falei sem falar quando tinha coisas minhas que esconder. Eu, agora, com a todas estas certezas a me bater o crânio por dentro, com tudo o que sei que sei, mas não posso dizer para que alguém não leia. Alguém que quero, para minha desgraça. Eu incapaz de escrever seguido, porque me treme o corpo todo. Eu a carregar a culpa que não me corresponde. Eu a calar. Desculpem.

----- COMMENT: AUTHOR: borja vilas [Visitante] DATE: Tue, 01 Aug 2006 22:18:52 +0000 URL:

estou verdadeiramente comocionado pelas suas intervençoes. é um bom amigo. recorda voçê aquela noite em vigo, conferência nacional da ami? rompiam as palavras baixo lençoes de oscura negaçao… grandes momentos de preguiça intelectual.

----- COMMENT: AUTHOR: Oscar [Visitante] DATE: Wed, 15 Mar 2006 19:31:36 +0000 URL: http://www.finisterra.blogger.com.br

Escreve rapaz, que apesar de não nos garantir muito, a escrita ainda nos vale. Um abraço, daqui, já da outra margem!

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: A minha vida dava para um filme indiano BASENAME: a_minha_vida_dava_para_um_filme_indiano DATE: Sat, 04 Mar 2006 03:00:59 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: anotações mentais CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Era isso, apenas o título. Bendito Gato Fedorento.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: anotação - 3 BASENAME: anotacao_4 DATE: Fri, 03 Mar 2006 00:32:30 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: anotações mentais CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Não perdi uma namorada. Ganhei a minha vida inteira.

----- COMMENT: AUTHOR: Bàrbara [Visitante] DATE: Mon, 19 Jun 2006 07:43:58 +0000 URL:

Espero que agora saibamos os dois que não se voltará perder aquilo que nunca se deveria ter perdido, eu vou tentar que não volte a passar porque já sei o que é ter-te perdido. Amo-te muito e não quero estar mais sem ti

----- COMMENT: AUTHOR: Márcia Campos [Visitante] DATE: Fri, 31 Mar 2006 22:08:04 +0000 URL:

vc escreve muito, estou facinada, estou buscando inspiração em vc, parabéns!

----- COMMENT: AUTHOR: O congro [Visitante] DATE: Fri, 03 Mar 2006 07:25:41 +0000 URL: http://www.acovadocongro.com

Já estava eu com ganas de oubir isto! Saúdos.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Sábado de entrudo BASENAME: title_115 DATE: Thu, 02 Mar 2006 12:32:52 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Lembro pouca coisa do sábado noite. Apenas começarmos a beber as duas garrafas de licor café que eu tinha levado, montar no autocarro de Montixelvo a Pego, sentado ao lado do Eduardo, e continuar a beber licor café. A partir daí é tudo névoa. Nalgum momento descemos do autocarro, eu e Eduardo continuamos a falar, dissemos as palavras mágicas, e lembro apenas que alguém me pegava na mão e dizia "vem, não te percas". Uma mão feminina, possivelmente mais de uma, que pegava na minha sem entrelaçar os dedos, apenas palma contra palma, e os dedos a abraçar o reverso quase sem se dobrarem. Lembro bem a sensação. Talvez fosse a Andrea, talvez a Maria, talvez a Mercé (que encontrei -lembro agora- quando eu estava perdido), ou talvez todas elas. Lembro, no entanto, ter lembrado isso mesmo no dia a seguir, e ter pensado que todas essas mãos eram uma e única, e que o realmente importante era que essa mão não era a minha, a que, adormecida ao volante do meu carro, começava a apanhar os restos da minha vida e a alçá-los

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: anotação 2 BASENAME: anotacao_3 DATE: Mon, 27 Feb 2006 23:58:59 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: anotações mentais CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

O esquecimento é uma utopia. O único possível é passar por cima.

(Depois da conversa de sábado à noite com o Eduardo em que alcaçámos a pronunciar as palavras mágicas)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Chocolates BASENAME: chocolates DATE: Mon, 20 Feb 2006 19:53:43 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: anotações mentais CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Da Tabacaria, de Álvaro de Campos. Desculpem que não escreva mais, mas não saberia expressá-lo melhor.

----- COMMENT: AUTHOR: Oscar [Visitante] DATE: Fri, 24 Feb 2006 16:04:28 +0000 URL: http://www.finisterra.blogger.com.br

Eu queria ter escrito “…Sara, Madalena, e a explicação das coisas concretas do mundo". E saiu-me Bárbara! Quem é Bárbara? Ora, se puder filiar o meu poema “Explicação à Madalena", e a esse teu “Sara e os pássaros"… Era isso o que eu queria dizer.

----- COMMENT: AUTHOR: Oscar [Visitante] DATE: Fri, 24 Feb 2006 16:01:29 +0000 URL: http://www.finisterra.blogger.com.br

As mulheres e os pássaros, os seres humanos e as aves. Bárbara, Madalena, e a explicação das coisas concretas do mundo. Um abraço, Eugénio!

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Falando em pássaros BASENAME: falando_em_passaros DATE: Fri, 17 Feb 2006 23:50:15 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: anotações mentais CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

SARA E OS PÁSSAROS


Beijava a relva com os pés.
Passava
como uma aragem pelo chão molhado.
Levemente vincava nos seus passos
as nuvens de algodão,
o vento vindo
do movimento mortecino das minhocas.
Pássaros não voavam:
eram hinos
chiando sob a pele portas velhas.
Pássaros tristemente acordando no ninho.
Pássaros
interminavelmente tremendo nos corredores do corpo,
gritando pássaros nas mãos, nos beiços,
pássaros nos seus olhos onde cabe o mundo.

Passou-se assim. Na noite
artificial, onde não há consciência,
um salto.
Uma queda infinita suavemente livre.
Uma garra ou quinhentas acariciando o vento.
Um movimento que arrastou um melro.
Uma boca ou um poço, uma roldana
descendo pássaros molhados.
Passou-se assim. Os pássaros
achegaram-se à boca ou ao contrário.
Chiaram estorninhos, repetiram
vozes caladas, nebulosos cantos.

Sara mordeu, os pássaros calaram.

Uma pena figiu-lhe ainda da boca.

Posso senti-la agora no ar pairando.

Não me publicaram este na Sítio, mas faz parte da mesma série que os poemas que lá estão publicados. Saiba, seu Óscar, que não tinha visto Saraband, mas estou à procura dela. Também fiquei mesmo com vontade de a ver.

----- COMMENT: AUTHOR: eugeniote [Membro] DATE: Tue, 21 Feb 2006 00:59:20 +0000 URL: http://www.agal-gz.org

Esse é o meu Suso. Sarabaaaa(nd)!

----- COMMENT: AUTHOR: Suso Sanmartin [Visitante] DATE: Sun, 19 Feb 2006 18:47:25 +0000 URL:

Eu vim Saraband em Cineuropa o domingo, 13 de Novembro de 2005 (3º Aniversário do Prestige). Bom, em realidade não a vim, porque fiquei dormido…

http://cineuropa.compostelacultura.org/programa/programad.php?id_e=595&lg=gal

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Publicações BASENAME: publicacoes DATE: Wed, 15 Feb 2006 17:10:15 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: anotações mentais CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

A tenho em minha posse. :-)

----- COMMENT: AUTHOR: Oscar [Visitante] DATE: Fri, 17 Feb 2006 16:50:27 +0000 URL: http://www.finisterra.blogger.com.br

Caro Eugénio:

pássaros são mesmo pertubadores! Não conhecia as obras que referiste. Brancusi é interessante. Mas agora fiquei mesmo curioso é para ouvir “Messiaen” e o seu “Oiseaux exotiques". A música para mim é importante, e uma fonte inesgotável de reflexão. Um abraço e bom fim de semana!

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: São Valentim BASENAME: anotacao_2 DATE: Tue, 14 Feb 2006 14:11:27 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: anotações mentais CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

...e como sempre me acontece nestes casos, ando a voltas com aquele poema de Luis Cernuda...

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: O amor não me salvará BASENAME: title_106 DATE: Sat, 11 Feb 2006 21:00:00 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Volto a casa depois de um magnífico concerto de Lluis Llach - depois, também, de mais um desconcerto com Bàrbara que já nem vale a pena narrar - pensando, pensando, voltado para dentro, nalgum lugar dos intestinos mais grossos, feito uma merda para que se entenda. Já o Congro me tinha dito há tempos, já me tinha advertido que ela era demasiado jovem, que me faria dano quisesse ela ou não, que já lhe tinha passado a ele, que fosse com cuidado. E eu a pensar daquela que nem tudo o que acontece a um tem que acontecer a outro, que voltar-se na vida sentimental de outrem com as experiências de um próprio não passa de uma analogia, e não uma lei, mas a pensar agora que as analogias acabam por dar certo, que se calhar foi por isso que dei em ser poeta. E Bàrbara a telefonar-me no meio do concerto porque eu lhe tinha dito que tinha de falar com ela, eu a dizer-lhe ao telefone que não podia continuar assim, a deixar entrever que pedia uma temporada de distanciamento, e então Lluis Llach a cantar Que tinguem sort, e as palavras que já não podem sair da minha gorja, e as analogias que voltam a dar certo, e as palavras de um autor que não conheço num blogue que sim conheço, a dar certo também, as palavras que imagino perfeitamente na pena de Fernando Pessoa imediatamente depois de Ofélia de Queiroz com calcinhas cor-de-rosa, as palavras a retumbar no interior do meu cérebro: o amor não me salvará, o amor não me salvará, o amor não me salvará. O amor não me salvará - a poesia é o meu único abrigo.

Mas onde está? Porque a deixei esquecida entre vírgulas e conjunções copulativas?

----- COMMENT: AUTHOR: Bàrbara [Visitante] DATE: Sat, 10 Jun 2006 07:48:29 +0000 URL:

Quatro meses depois, as coisas mudaram para ser como sempre, como nunca devia ter sido mudado…pela minha culpa…sinto muito, e agora sei que, já um dia te perdi, não perde-te-ei mais nunca

----- COMMENT: AUTHOR: eugeniote [Membro] DATE: Mon, 20 Feb 2006 20:02:53 +0000 URL: http://www.agal-gz.org

Sempre l’havia sospitat, pequè negar-ho. Sense desitjar-ho, però l’havia sospitat. I va ser tot un exercici de malabarisme existencial oblidar-ho dia a dia per a viure amb tu un somni en tots els sentits. Feia mal avans, com fa mal ara haver-te deixat fa uns minuts al teu cotxe. Estimant-te com te estime. Com t’estimava. Com he de deixar de estimar-te siga com siga. El que no conseguisc.

----- COMMENT: AUTHOR: Bàrbara [Visitante] DATE: Mon, 20 Feb 2006 19:41:16 +0000 URL:

Em sembla que tu ja sabies el futur de la nostra relació al “triar” aquesta cançó com la nostra…..a mi també em fa molt de mal

----- COMMENT: AUTHOR: Oscar [Visitante] DATE: Mon, 13 Feb 2006 16:45:51 +0000 URL: http://www.finisterra.blogger.com.br

Sim, Eugénio, às vezes a vida sentimental de um Sujeito pode ser a vida sentimental de todos os sujeitos: porque ao fim e ao cabo, os seres humanos são tão previsíveis na sua imprevisibilidade. Sabes, o teu texto de hoje me fez recordar (nem sei porquê) a cena capital de “Saraband", do Ingmar Bergman (não sei se viste o filme) onde a filha rompe a sua relação incestuosa com o pai, e este pede-lhe que toque com ela uma Sarabanda de Bach, e diz-lhe algo como, “se temos de terminar, então que terminemos com algo de sublime". O texto não é exactamente este, mas e ideia é. Depois de algumas relações, acho que é isso o que penso: se temos de acabar, que acabemos então com um música bonita. Dói na mesma, mas é uma dor bonita!

----- COMMENT: AUTHOR: O congro [Visitante] DATE: Mon, 13 Feb 2006 11:37:27 +0000 URL: http://www.acovadocongro.com

Eu conhecím este poema a través dumha certa amiga súa. Cecáis goste :

16

Un descafeinado,
por pedir.
Facer parroquia un pouco. Non moito.
Verdadeiramente nada. Nada.
Cando o fume me molesta nos ollos
-eu non fumo-, voume.
Pago, por suposto, logo, voume.
A parroquia éncheme os ollos de fume.
A parroquia arde.
As farolas están xa acesa ainda que é de día.
Tanta luz para non ter nada que ver
parece un desperdicio.
Eu mesmo parezo un desperdicio.
Chóranme os ollos. Prefiero
pensar que é do fume.
Quería que fora noite
sen farolas para que tí non viras -se estiveras-
como me choran os ollos polo fume
dese meu incendio.
Tanto lume foi deixando
preparada esta erosión, todo un egosistema
xamáis recuperable. Polo menos
totalmente.

Xose Luis Mosquera Camba (A tensa calma da catapulta)

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Um presente... BASENAME: um_presente DATE: Fri, 10 Feb 2006 12:08:08 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: arquivos para descarga CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

A última entrada do blogue, como foi dito em comentários, foi inspirada por um texto de Joan Fuster do seu Dicionari Per a Ociosos. Estive ontem a fazer a tradução do texto em questão, e disponibilizo-o agora em formato .pdf para fazer a descarga. É só clicar aqui.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: anotação 1 BASENAME: anotacao_mental DATE: Thu, 09 Feb 2006 01:00:00 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: anotações mentais CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Os sentimentos, quanto que universais, são amorfos, mas quanto que individuais (e portanto reais), são culturais, como demonstra o facto de existir uma aparendizagem emocional. A cultura, é claro, é um cojunto de formas, e as formas psicológicas, também é claro, distribuem-se socialmente segundo as regras do mercado, mas ao contrário. E isto é o que há, por mais que exista espaço para manobras.

----- COMMENT: AUTHOR: eugeniote [Membro] DATE: Fri, 10 Feb 2006 00:27:45 +0000 URL: http://www.agal-gz.org

É capaz de ser, caro. Parece-me. E contudo também me parece necessário pontualizar, talvez inutilmente. Se calhar instintos na concepção de Eros e Tânatos. O discurso freudiano anda tão banalizado para aí fora. Há tanta tendência a ver os instintos como algo simplesmente animal, e os animais costumam ser vistos como tão pouco humanos…

----- COMMENT: AUTHOR: Oscar [Visitante] DATE: Thu, 09 Feb 2006 14:52:17 +0000 URL: http://www.finisterra.blogger.com.br

Será que era possível afirmar que esta dialéctica entre o Universal e o Individual não seria, também, a velha relação instinto versus cultura de que fala Freud?

----- COMMENT: AUTHOR: eugeniote [Membro] DATE: Thu, 09 Feb 2006 12:05:45 +0000 URL: http://www.agal-gz.org

Eixa entrada sí té traducció portuguesa… ;-)

----- COMMENT: AUTHOR: [Visitante] DATE: Thu, 09 Feb 2006 12:02:49 +0000 URL:

Encara no té traducció portuguesa…

Dictionary for the idle. Translated by Dominic Keown. Sheffield: Sheffield Academic Press, 1992.

Diccionario para ociosos. Traducción de Isabel Mirete. Barcelona: Edicions del Mall, 1986. Barcelona: Península, 1992.

----- COMMENT: AUTHOR: eugeniote [Membro] DATE: Thu, 09 Feb 2006 11:44:11 +0000 URL: http://www.agal-gz.org

Ups! M’has descobert la font d’inspiració. ;-) De fet, estava preparant una altra entrada al bloc parlant d’eixe article. És que Fuster…

----- COMMENT: AUTHOR: [Visitante] DATE: Thu, 09 Feb 2006 11:32:05 +0000 URL:

Una reflexió molt lúcida i una anàlisi històrica i literària que ens explica per què “sentim” d’una determinada manera i no d’una altra és la primera entrada (Amor) del Diccionari per a ociosos, de Joan Fuster.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Não há espiga BASENAME: nao_ha_espiga DATE: Wed, 08 Feb 2006 12:22:02 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: pintamentos CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Digo eu todo o dia...

Não há espiga

(Foto tirada no Hospital do Íncio - Verão de 2005)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Caí... BASENAME: cai DATE: Wed, 08 Feb 2006 11:49:03 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Cinzeiro Mas conseguirei deixá-lo. Ontem passei o dia todo sem fumar e isso não é pouca coisa. Tive um par de enjoos durante as aulas, um par de taquicardias que duraram o dia todo, mas consegui não fumar absolutamente nada na escola. Não fumei de manhã nem de tarde. O difícil foi à noite, quando me sentei diante desta máquina tonta chamada computador. Na verdade, tinha começado a ver um documentário muito interessante (Del Roig al Blau - La transició Valenciana), mas vinha-me ao computador, voltava, ia para a cozinha, voltava, saí a comprar tabaco, voltava, fui outra vez ao computador, acendi um cigarro e já fiquei colado ao teclado, ao ecrã e ao cigarro. Isto foi à meia-noite e deitei-me por volta da 4:00. Fumei 10 cigarros. Demasiado. Mas na mesma foi pouco para um dia normal. Hoje já levo dois. Os últimos de hoje.

----- COMMENT: AUTHOR: eugeniote [Membro] DATE: Wed, 08 Feb 2006 13:36:40 +0000 URL: http://www.agal-gz.org

Pois é… Como dizia o Garfield, “Se não pudesse comer, morria!” Eu conformo-me com deixar só o tabaco… ;-)

----- COMMENT: AUTHOR: O congro [Visitante] DATE: Wed, 08 Feb 2006 12:52:52 +0000 URL: http://www.acovadocongro.com

Tabaco, sexo, comida. Renuncie a dúas (e só dúas) pero nom ás tres. É imposível.

----- COMMENT: AUTHOR: eugeniote [Membro] DATE: Wed, 08 Feb 2006 12:28:36 +0000 URL: http://www.agal-gz.org

Jo me l’he baixada per internet, però amb el tema de deixar de fumar encara he vist sols 20 minuts. Podem veure-la una dia, i si vols còpia, avisa…

----- COMMENT: AUTHOR: [Visitante] DATE: Wed, 08 Feb 2006 12:08:07 +0000 URL:

Ei xic,
L’havia proposada per a fer un videofòrum… Encara no l’he vista.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Ugio BASENAME: ugio DATE: Sun, 05 Feb 2006 13:43:29 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Foto de Ugio (Caamanho, claro)

Disse o que disse. Não estou exactamente arrependido, ainda que duvide dalgumas das afirmações que fiz em seu dia. Também disse que lhe tenho grande estima pessoal. Não mentia. E ler agora a última entrada do seu blogue clandestino traz-me lembranças de tempos que vivo recentes e talvez comecem já a não sê-lo. Aquela reunião do Conseho Nacional de Estudantes Independentistas (procuro na net algo que diga respeito à minha antiga organização e encontro só uma foto de uma pintada no antigo blogue da Sabela) aquela reunião -dizia- num bar qualquer da zona velha de compostela, todos à volta de duas mesas juntadas para a ocasião, inclinados para a frente para podermos ouvir o que dizia o companheiro ou a companheira, porque todos falávamos baixinho para não sermos ouvidos não se sabe por quem, tal era a sensação de clandestinidade em que vivíamos submersos (ou pelo menos eu, reconheço). Parecia uma reunião da máfia, ironizou Ugio, já daquela com os pés na terra, apesar de ser o mais novo dos que lá estávamos. E quando eu e ele (e mais alguém?) morríamos de risa com a ideia, e outros companheiros pediam ordem para continuar a reunião, guardando de novo a compostura disse Ugio de novo entre risas "Está bem, tem a palavra o companheiro Cara-cortada". E já não pude continuar a reunião sem morrer de risa.

Tinha uma retranca de espantar o nosso Ugio. Alegra-me comprovar no seu blogue que ainda a conserva. Diz: "Umha brincadeira que nom faz maldita a graça ao Eduardo, por certo, porque nunca sabe se falo a sério ou nom (...)". Essa retranca. A mim passa-me por aqui. E tenho mesmo vontade de voltar a desfrutar dela e com ele. Na rua, é claro.

----- COMMENT: AUTHOR: Oscar [Visitante] DATE: Tue, 07 Feb 2006 16:21:46 +0000 URL: http://www.finisterra.blogger.com.br

Caro Eugénio, obrigado pelos esclarecimentos sobre as minhas dúvidas. Agora já tenho uma ideia melhor formada sobre a questão política, linguística e de identidade galega. Agradeço também o “link” ao meu blogue. Tu és muito visitado porque pelo meu contador, aumentou o número de visitas ao meu blogue vindos da Espanha (o contador não marca a Galiza) e isso se deve a ti, com certeza. Um abraço

----- COMMENT: AUTHOR: eugeniote [Membro] DATE: Tue, 07 Feb 2006 14:17:15 +0000 URL: http://www.agal-gz.org

Amigo, Óscar, obrigado pela suas visitas. Também eu visito sempre o seu blogue e até coloquei, como verá, uma ligação a ele na coluna direita.

As questões que você me coloca talvez sejam grandes de mais para responder neste pequeno espaço.

Tentarei, no entanto, dar resposta breve, e portanto pouco concreta. Vou a isso:

1) Independentismo é aquela rama do nacionalismo galego que luta porque num futuro a Galiza tenha um estado próprio, deixando assim totalmente de depender da Espanha. É um movimento político, portanto.

2 e 3) Há com efeito, mais de uma norma para o galego. E o curioso do caso galego é que a escolha da norma leva implícita uma outra questão: a sua identidade. A intelectualidade galega tem estado a discutir muito tempo sobre esta questão: é a língua da Galiza a mesma que a de Portugal?. Segundo a resposta que cada grupo deu a essa pergunta, surgiram as respectivas opções normativas, que poderíamos resumir mais ou menos nas seguintes:

a) Non! O galego é unha lingua idependente do portugués, coa súa propia evolución e norma. Portanto a criação da norma (sobretudo a nível ortográfico) não deve depender da língua portuguesa. Contudo, se depender do castelhano não interessa. Esta é a opção mais estendida na oficialidade.

b)Sim, mas… a verdade é que os galegos nom nos sentimos mui identificados com Portugal, assim que, bem por umha questom estratégica, bem porque consideremos que tem de ser definitivo, cremos que a Galiza deve de ter umha norma própria dentro da Lusofonia, igual que tem o Brasil. Esta é a norma da AGAL. Mas eu, que também sou sócio, e muito activo, desta Associação, estou na outra opção

c) Sim. . E as particularidades galegas transparecerão inevitavelmente num escrito feito por mim. Como considero que galego e português são a mesma coisa, emprego a norma Lisboeta, ciente que talvez trasparecerão “galeguismos” no meu texto que continuará a ser na mesma totalmente português e 100% galego.

Quer dizer, o que eu escrevo tenta seguir as normas do português europeu, porque do meu ponto de vista o galego não é senao isso: uma forma de português, evidentemente europeu.

----- COMMENT: AUTHOR: Oscar [Visitante] DATE: Tue, 07 Feb 2006 12:47:35 +0000 URL: http://www.finisterra.blogger.com.br

Caro Eugénio, venho sempre ao teu blogue. E embora nem sempre deixe mensagens, gosto também de trilhar essa tua escrita, esse perder-se ou achar-se entre a selva de vocabulário que nós, os seres humanos, vamos construindo desde a nascença. Mas tenho algumas curiosidades: 1) O que é ser um independentista? Tenho amigos galegos que já me disseram algo, mas ainda não estou certo do que seja; 2)Tu escreves em português ou galego?A mim parece-me mais o português europeu; 3) Há mais de uma norma para o galego?

Eu sou brasileiro mas vivo há seis anos em Portugal. Essa experiência afectou a minha ortografia e deixou-me no meio do oceano, às vezes uso as duas normas ortográficas: a brasileira, claro, me é mais sentimental; a europeia passa a ser a língua de trabalho - dividido pela mesma língua, é onde me encontro, amigo! Um abraço, de Lisboa

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Mais de Hughes BASENAME: mais_de_hughes DATE: Mon, 30 Jan 2006 11:54:54 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

YOU HATED SPAIN

Spain frightened you. Spain
Where I felt at home. The blood raw light,
The oiled anchovy faces, the African,
Black edges to everything, frightened you.
Your schooling had somehow neglected Spain.
The wrought iron grille, death and the Arab drum.
You did not know the language,your soul was empty
Of the signs, and the welding light
Made your blood shrivel. Bosch
Held out a spidery hand and you took it
Timidly a bobby-sox American.
You saw right down to the Goya funeral grin
And recognised it and recoiled
As your poems winced into chill, as your panic
Clutched back towards college America.
So we sat as tourists at the bullfight
Watching bewildered bulls awkwardly butchered,
Seeing the grey faced matador, at the barrier
Just below us, straightening his bent sword
And vomiting with fear. And the horn
That hid itself inside the blowfly belly
Of the toppled picador punctured
What was waiting for you. Spain
Was the land of your dreams: the dust red cadaver
You dared not wake with, the puckering amputations
No literature course had glamorised.
The juju land behind your African lips.
Spain was what you tried to wake up from
And could not. I see you, in moonlight,
Walking the empty wharf at Alicante
Like a soul waiting for a ferry,
A new soul, still not understanding,
Thinking it is still your honeymoon
In the happy world, with your whole life waiting,
Happy, and all your poems still to be found.

Ted Hughes ? Birthday Letters

ODIAVAS ESPANHA


Espanha dava-te medo. Espanha
Onde me senti em casa. A luz crua de sangue,
As caras oleosas das anchovas, os africanos
Olhos negros de tudo, davam-te medo.
A tua formação esquecera Espanha por alguma razão.
As grades de ferro forjado, a morte e o tambor árabe,
Não conhecias a língua, a tua alma estava vazia
De signos, e a luz fundidora
Fez com que o teu sangue encolhesse. Bosch
Ofereceu-te uma mão aracnídea e tu tomaste-a
Timidamente, uma americana como o resto.
Olhaste abaixo para o ricto funeral de Goya
E reconheceste-o, e recuaste
Enquanto os teus poemas encolhiam no frio, o teu pânico
Agarrava-se de volta à América universitária.
Assim nos sentamos como turistas naquela tourada
Mirando a carnificina torpe dos touros aturdidos
Vendo o matador de cara cinzenta na barreira
Mesmo em baixo de nós, a preparar o estoque
E vomitando de medo. E o corno
Que se cravou na barriga de moscão
Do picador caído destruiu
O que estava à tua espera. Espanha
Era o país dos teus sonhos: o cadáver de terra vermelha
Com que não querias acordar, as amputações rugosas
Que nenhum curso de literatura tinha tornado formosas.
A terra de bruxarias que se estendia detrás dos teus lábios africanos.
Espanha era aquilo de que querias acordar
E não podias. Vejo-te, na luz da lua,
Caminhando o cais vazio de Alacante
Como uma alma à espera do ferry,
Uma nova alma, ainda sem perceber,
Pensando que ainda é a tua lua de mel
No mundo feliz, com toda a tua vida à espera,
Feliz, e todos os teus poemas ainda por serem econtrados.

Estive a procurar uma foto do porto de Alacante para ilustrar este poema. Tudo o que pude encontrar foram fotos recentes que, evidentemente, em nada se parecerão ao porto em que esteve passeando Sylvia Plath. Supondo que a praça de touros que aparece no poema seja também em Alacant, tenho a imensa emoção de saber que está bem perto da minha casa. Capturando uma imagem do Google Earth, situo-nos no mapa:

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Ted Hughes, outra vez e como sempre BASENAME: ted_hughes_outra_vez_e_como_sempre DATE: Fri, 27 Jan 2006 11:28:48 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:






CROW'S UNDERSONG


She cannot come all the way


She comes as far as water no further


She comes with the birth push

Into eyelashes into nipples the fingertips
She comes as far as blood and to the tips of hair

She comes to the fringe of voice
She stays

Even after life even among the bones


She comes singing she cannot manage an instrument
She comes too cold afraid of clothes

And too slow with eyes wincing frightened
When she looks into the wheels


She comes sluttish she cannot keep house

She can just keep clean
She cannot count she cannot last


She comes dumb she cannot manage words

She brings petals in their nectar fruits in their plush
She brings a cloak of feathers an animal rainbow

She brings her fabourite furs and these are her speeches


She has come amorous it is all she has come for


If there had been no hope she would not have come


And there would have been no crying in the city


(There would be no city)


Ted Hughes, Crow.






A MÚSICA DE ACOMPANHAMENTO DO CORVO

(A minha tradução ao galego)



Não pode chegar ao fim


Vem até à borda da água não mais além


Vem com o impulso do parto

Às pestanas aos mamilos as pontas dos dedos
Vem até onde chega o sangue e às pontas do cabelo

Vem até o limite da voz
Fica

Incluso depois da vida incluso sobre os ossos


Vem cantando não sabe tocar nenhum instrumento
Vem demasiado fria com medo das roupas

E demasiado devagar com olhos a tremer aterrorizados
Quando olha para as rodas


Vem nua não pode guardar casa

Só pode manter-se limpa
Não sabe contar não saber durar


Vem muda não pode usar palavras

Traz pétalas no seu néctar frutas no seu sumo
Traz um vestido de penas um arco-da-velha animal

Traz as suas melhores peles que são as suas falas


Ela veio para o amor é tudo para o que veio


Se não tivesse havido esperança não teria vindo


E não teria havido pranto na cidade


(Não teria havido cidade)




Retomo leituras de um sempre recente e traduzo. Um parto. A inocência do recém-nascido. A companhia. O amor. A cidade. Esta cidade? Hughes passeou-se por Alacant (e Benidorm), na lua de mel do seu matriomónio com Silvia Plath. Está tudo nas suas Cartas de aniversário. You hated Spain, desse mesmo livro, foi publicado também em Corvo em 1970, e nele Hughes expressa o horror que produziu em Silvia a visão de uma tourada. Tanta crueldade. Ele, porém, gostou imenso. O que fazia o toreador era também uma expressão da pulsão animal, da natureza em estado puro que tão bem transparece em Corvo, precisamente. E buscando ligações para esta entrada, encontro uma tradução de um outro poema de Silvia Plath: Corvo Negro em Clima Chuvoso. Vale a pena comparar os animais.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Poema BASENAME: poema DATE: Mon, 23 Jan 2006 14:18:57 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

SOTA ELS LLENÇOLS


Tancant els ulls tanca els meus ulls,
i em gire al llit cap al silenci.
A alguna part entre el meu cor i el terra
plora una nina que sóc jo i tremola
perquè comença el circ de les distàncies.
El cor del domador que ja no doma
redobla: veu l?angoixa
de l?acròbata disposada a fer el salt,
la pirueta impossible
de la Mariola al Monte Giabre.
Salta però no pot.
Tot es fa terra en la caiguda.
I les meues llàgrimes a la seua galta,
i les seues llàgrimes als meus ulls
són com dos rius paral?lels
que es giren als seus llits i corren
cap al silenci.

SOB OS LENÇÓIS
(Tradução a galego)

Fechando os olhos fecha os meus olhos
e giro-me no leito para o silêncio.
Nalgum lugar entre o meu coração e o chão
chora uma boneca que sou eu e treme
porque começa o circo das distâncias.
O coração do domador que já não doma
redobra. Vê a angústia
da acrobata disposta a fazer o salto,
a pirueta impossível
da Mariola ao Monte Giabre.
Salta mas não pode.
Tudo vira terra na queda.
E as minhas lágrimas nas suas meixelas
e as suas lágrimas nos meus olhos
são como dois rios paralelos
que giram nos seus leitos e corren
para o silêncio.

----- COMMENT: AUTHOR: Subcomediante R [Visitante] DATE: Tue, 24 Jan 2006 08:39:34 +0000 URL:

Espectacular o teu poema eugeniote! gostei imenso, imenso…

----- COMMENT: AUTHOR: Subcomediante R [Visitante] DATE: Tue, 24 Jan 2006 08:36:52 +0000 URL:

ajeitar o velocimetro
dedicado ao eugénio outeiro

só eu, um momento
e só eu,
sem a présa por alcançar novos jornais
à leitura
um velho amigo na rua será também
proibido
só agora, nos pés,
agora, a lentidão é o melhor
experimento revolucionário.
Conquistar a velocidade do passo,
como um troféu,
e deitar água quente
polo estômago até o desfrute
será o meu descobrimento.
Só eu,
um momento e já, só eu,
só aceitarei um companheiro para
o passo, e que mais terá o género,
mas realizará um desejo para o passo,
com um abaneo similar encontrado
e desencontrado ao meu
mas por enquanto,
o passo será, isso mesmo,
só eu

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Sítio que vou... BASENAME: sitio_que_vou DATE: Sun, 22 Jan 2006 15:02:11 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Capa revista SítioO bom amigo Luís Filipe Cristóvão, que se tinha posto em contacto comigo no verão porque queria ler os meus poemas, acabou de enviar-me um correio electrónico bem surpreendente. Visa sobre o próximo lançamento, às 17 horas do sábado 28, na livraria Livrododia, em Torres Vedras, do novo número da Revista Sítio, esse projecto literário que dirije e que conta com a participação de autores de Portugual, Brasil e um longo etc. de países entre os quais se encontra felizmente a Galiza. Surpreendi-me ao ver que entre os nomes dos colaboradores deste número estou eu, ao lado de Carlos Quiroga e Xavier Queipo, dois grandes. Uma coisa realmente inesperada, tanto mais quanto se supunha que devia ter-lhe enviado há tempos o meu poemário (esse que aparece nas minhas mãos, na foto da direita), coisa que nunca cheguei a fazer. Os poemas que aparecerão na revista são da série "No deserto de Sara", e têm já um tempinho, portanto.

Quem quiser ler os poemas, que compre a revista e não se arrependerá, se mais não, pelas outras pessoas que colaboram: André Simões, Carlos Guardado, Filipa Ribeiro, Luís Filipe Cristóvão , Luís Lourenço, Sara Ferreira Costa (Portugal), Ana Beatriz Guerra , Andrea del Fuego, Crib Tanaka, Herbert Farias (Brasil), Carlos Quiroga, Xavier Queipo (Galiza), Golgona Anghel (Roménia) e Eduardo Pellejero (Argentina), e os contributos plásticos de André Venceslau, Daniel Leite, Daniel Silva, Manuel Guerra Pereira, Marco Aresta, Marina Félix, Rute Cruz e Vera Vítor.

Entretanto, colo como presente um poema que comecei no verão e só acabei agora. Não faz parte da série publicada na Sítio, mas sem dúvida tem a ver.

CAMINHO ESPIRITUAL

ao congro

Simplesmente caminho mas não há caminho.
Alparcatas de pó, calças de vento, areia.
Passos de nada para nenhum lugar.
Apenas cruzamentos sem sentido,
o paroxismo de todas as encruzilhadas.
Também não há destino. Mas na mesma
procuro o meu destino. Com a olhada num mapa inexistente
revisito os espaços de memória onde nunca estive.
O coração é uma bússola e dá voltas.
Põe o Norte no Sul do subconsciente.
Fica apenas o pé como certeza.
Talvez não haja nem deserto.
Apenas caminhar. Não há caminho.
Mas na mesma caminho arrastando o presente pelas veias.
Depois de um passo ou outro, olho em redor e vejo.
O meu passado é uma recta a esboroar-se.
O meu futuro não existe.
O meu presente é só pisar areia.
Não há caminho
mas eu faço caminho cegamente. Mudo a rota
mas é sempre a mesma rota.
Escolhendo a deriva do meu tempo,
percorro espaços para encontrar espaços
que tinha deixado às minhas costas.
Quando chego a algum lugar
reconheço o meu ponto de partida.
E nesse local absurdo e impossível
tudo mudou
ou tudo está mudado.

----- COMMENT: AUTHOR: Crib Tanaka [Visitante] DATE: Fri, 28 Jul 2006 12:25:35 +0000 URL: http://www.desfio.zip.net

Que ótimo ver a Sítio em teu blog!

----- COMMENT: AUTHOR: O congro [Visitante] DATE: Mon, 23 Jan 2006 12:44:34 +0000 URL: http://www.acovadocongro.com

Muito obrigado pelo poema, caro companheiro de soidades.

----- COMMENT: AUTHOR: Subcomediante R [Visitante] DATE: Mon, 23 Jan 2006 12:02:06 +0000 URL:

espectacular….

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Cosas que nunca te dije - 2 BASENAME: cosas_que_nunca_te_dije_2 DATE: Wed, 18 Jan 2006 13:15:00 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Puede pasar de todo, ¿verdad? Cualquier cosa. Puedes amar tanto a una persona, que tan sólo el miedo a perderla haga que lo jodas todo y acabes perdiéndola. Puedes despertarte al lado de alguien a quien hace unas horas ni siquiera habías imaginado conocer... ¡y mírate ahora! Es como si alguien te regalara uno de esos puzzles con piezas de un cuadro de Magritte, de la foto de unos ponnies o de las cataratas del Niágara. Se supone que ha de encajar. Pero no.

Monólogo de Andrew McCarthey (Don), ao início do mesmo filme.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Cosas que nunca te dije BASENAME: cosas_que_nunca_te_dije DATE: Wed, 18 Jan 2006 12:48:43 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Cosas que Nunca te Dije

Que difícil... Pero me parece que aún es mas difícl quedarmelo para mi sola. Supongo que por eso lo hago. Tú siempre me preguntabas en que momento empecé a quererte. Empezé a quererte exactamente cuando llamaste para decir que me dejabas. De hecho fue en ese preciso momento quando olvidé el amor que sentía antes. Me olvidé de la ternura y... y el sexo... de tu lengua. Me di cuenta de que lo que había sentido antes no era más que el simple reflejo de lo que es el amor. Descubrí que no te había querido nunca. De repente pensé en aquella tortura que practicaban en Francia. Sabes que hacían? Ataban las extremidades de una persona a cuatro caballos y los azuzaban en direcciones diferentes. Pues así es como me sentí. Así es como me siento. Ahora ya sé lo que es amar. Te amo con esa clase de amor que había rezado por sentir cuando era una adolescente y que ahora rezo por no volver a sentir. Nunca más. No lo sé. Sólo quiero que sepas como me siento. Y no, no te creas que lo que quiero es volver a intentarlo. No. Sólo... Sólo quiero que sepas como me siento. No quiero que tu sigas con tu vida sin saber como me siento. No lo soporto. Enfín. Creo que ya está. [...]

Monólogo de Lili Taylor (Ann) em Cosas que nunca te dije, de Isabel Coixet.

----- COMMENT: AUTHOR: Sara [Visitante] DATE: Mon, 13 Nov 2006 01:08:03 +0000 URL:

Si?
Si?
Ho-Hola Bob
C-C-Como estás?
?
Es extraño oírte decir eso.
Hombre?todos podemos equivocarnos
(Carraspeo)
¿Qué?
¿Que vuelves?
¿Quieres decir que vuelves a casa?
Oh Dios mío?
¡Si! ¡si! ¡Claro que si!
Yo también te quiero?
Si?claro
Si?
Si, estoy aquí
Si, te lo prometo
Te quiero.
Adiós.

¿Qué voy a hacer ahora?
¿Qué voy a hacer ahora?

Esta también es otra historia.

En el hospital me dieron la bala colgada de una cadena. Y yo se la regalé a Steve, que se enamoró locamente de una de las policías que le detuvieron y, para variar, yo tenía razón. Se olvidó por completo de su mujer.

Mi madre despertó después de tres años de permanecer en coma cuando mi padre le contó lo que había pasado; al parecer eso le impresionó más que lo de los cascos azules.

Una enfermera muy rara me dijo que Ann había preguntado por mí. No hubo manera de encontrarla?Se había esfumado.

Otro hombre andaba buscándola. Se ve que aquel tipo había venido desde Praga únicamente para verla. Me dio pena porque, la mujer de la que hablaba no se parecía en nada a la Ann que yo había conocido. Y, sé que es muy difícil dejar de querer a alguien a quien apenas has conocido.

Ahora viajo por toda el país vendiendo edificios para oficinas así no tengo que preocuparme por si la gente será feliz o no en ellos. Ya sé que no lo serán.

A veces me parece reconocer a Ann en alguna calle. Aunque, si volviera a encontrarla, deberíamos empezar de nuevo, claro. Me hubiera gustado?hay muchas cosas que me hubiera gustado decirle. Las cosas que no se dicen suelen ser las más importantes pero, ¿acaso no es siempre así? Me gustaría encontrarla para decírselo.

Todo puede pasar ¿no?

----- COMMENT: AUTHOR: lula by [Visitante] DATE: Tue, 31 Jan 2006 12:21:15 +0000 URL: http://www.lulaby.net

“Y me doy cuenta que mientras yo creía amarte y no lo hacía, tu ibas en dirección opuesta. Ojalá que el momento de empezar a querete hubiera coincidido con el que tu empezaste a quererme a mi. Ahora quizás todo estaría en su sitio, sin más dolor que el quotidiano. Pero empecé a quererte cuando tu dejaste de quererme a mi. Como si de una condena se tratara, como algo previsto, elaborado. Estoy atada a los caballos y no puedo cambiar-lo. Pero quería que lo supieras. Debes saberlo.”

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Namorar ao contrário - 2 BASENAME: namorar_ao_contrario_2 DATE: Tue, 17 Jan 2006 13:34:52 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Aos poucos vou aceitando o facto de que não esteja. Guarda-me grande carinho, e até direi que amor. Era evidente que a coisa não podia continuar. Eu não podia renunciar à Galiza, e percebo melhor que ninguém que ela não deveria vir comigo, quando me calhar em sorte voltar ao país. Conheço demasiado bem a situação de estar fora do teu lugar. Assim as coisas, normalizando-se, namorando ao contrário, hoje acompanhei-a a procurar onde morar que eu não esteja. Uma situação curiosa, contraditória, bem longe de onde eu poderia imaginar-me, e de facto não pude enquanto acontecia. No Centro 14, organismo do concelho de Alacant para a juventude, têm uma bolsa de vivenda em que a Bàrbara acabou de inscrever-se. Telefonaram-na e lá fui eu para ajudar, rodeado de muita outra gente que queria ver o mesmo piso, tudo casais realmente jovens, à procura, suponho, de um lugar para compartilharem a vida. Apesar da situação realmente incómoda, acho que safamos bem. E ainda que eu me visse totalmente fora de lugar, apesar que talvez os dois estivêssemos a renegar do facto, ela de ter-mo pedito, eu de ter aceitado, demonstrou-se que podemos e seremos capazes de falar-nos, de querer-nos e ajudar-nos, ainda que seja de uma forma totalmente diferente.

----- COMMENT: AUTHOR: eugeniote [Membro] DATE: Wed, 18 Jan 2006 13:38:02 +0000 URL: http://www.agal-gz.org

Obrigado.

----- COMMENT: AUTHOR: O congro [Visitante] DATE: Wed, 18 Jan 2006 11:51:57 +0000 URL: http://www.acovadocongro.com

Quizá fue una hecatombe de esperanzas
un derrumbe de algún modo previsto
ah pero mi tristeza solo tuvo un sentido

todas mis intuiciones se asomaron
para verme sufrir
y por cierto me vieron

hasta aquí había hecho y rehecho
mis trayectos contigo
hasta aquí había apostado
a inventar la verdad
pero vos encontraste la manera
una manera tierna
y a la vez implacable
de desahuciar mi amor

con un solo pronostico lo quitaste
de los suburbios de tu vida posible
lo envolviste en nostalgias
lo cargaste por cuadras y cuadras
y despacito
sin que el aire nocturno lo advirtiera
ahí nomás lo dejaste
a solas con su suerte
que no es mucha

creo que tenés razón
la culpa es de uno cuando no enamora
y no de los pretextos
ni del tiempo

hace mucho muchísimo
que yo no me enfrentaba
como anoche al espejo
y fue implacable como vos
mas no fue tierno

ahora estoy solo
francamente
solo

siempre cuesta un poquito
empezar a sentirse desgraciado

antes de regresar
a mis lóbregos cuarteles de invierno

con los ojos bien secos
por si acaso

miro como te vas adentrando en la niebla
y empiezo a recordarte.

Mario Benedetti (De verdade, que um poema para chorar nestes casos).

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Poema longo em 2ª pessoa BASENAME: uma_historia_moderna DATE: Sun, 15 Jan 2006 08:23:58 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

- hl amor,jo dormire a casa,ja stic de cami, t'estime molt.el tirant ha quedat super be,ja voras (09.10.05)

- Bona nit, coret meu,t'estime amb locura (15.10.05)

- Carinyo crida a ma mare i q ens grabe embrujadas val?petons (23.10.05)

- hl amor he acbat ara i stef n m'ha cridat,me'n vaig a casa a dscnsar petons (26.10.05)

- aneu amb conte,a la nit quan arribes crida'm amor,petons (28.10.05)

- hl amor meu, com aneu, jo stic en zara en monica,xo n hi ha res d la meua talla!petons TE (28.10.05)

- Bon dia amoret,com esta el meu xic?has dormit be?passa-ho molt be a Porto avui molt petons (29.10.05)

- Bona nit amor,l'obra ha stat genial,he stat a l'escapa dspres i porte un pet com un cadirer!t'estime vn monto petons guapisim (30.10.05)

- Hl amor me'n vaig a la uni a parlar mab la de geo x un concurs ja et conte sta nit,arribare vora les 8.30 o 9,t'estime amb locura guapo besets (2.11.05)

- Ja vaig cap a casa amor meu (2.11.05)

- Hl amor jo acbe ara d trballar,n crec que vaja hui a cmprar,anire dema,aneu amb compte i avisa'm quan arribeu petons forts (4.11.05)

- t'estime amb locura amor meu,no podria estimar ningu mes q a tu passeu-ho molt be (05.11.05)

- bona nit amor,ja em gite,stic cansada i tinc fred,fa una humitat d l'ostia!t'estime molt coret,aneu amb comte dema petons (06.11.05)

- encara n haveu sortit d perpinya? (06.11.05)

- no pasa res xo dis-li a joan q sta me la guarde...aneu amb compte (06.11.05)

- hl amoret,he demanat una pizza dl pizza hut i x 1?+ em regalen 1d 5 formtges!xa quan arribes x si tens gana besets (06.11.05)

- hl amor anire al descans i berenem junts (07.11.05)

- me'n vaig amb lidia a x sa mare a la vsprada,pillare el meu cotxe,ens veiem a la nit petons TE (09.11.05)

- no anire a alemany vaig a ajudar a lidia a traslladar les coses a casa d yasnaya,ens veiem a la nit en casa TE(15.11.05)

- Ai dormilon...n et preocupes,si ja n stic al baret baixa'm la camisa al rstaurant,n la planxes,n cal petons (16.11.05)

- no et preoocupes,ja ho fare jo quan arribe petons (23.11.05)

- T'ESTIME MOLT (25.11.05)

- Ja pots vindre si vols petons (27.11.05)

- T'espere aci petons (29.11.05)

- Ja stic d cami stas a casa? petons (02.12.05)

- Vine quan vulgues,ara et conte besets(03.12.05)

- Ja vaig amor(04.12.05)

- stic a casa amor,vine-te'n quan acbes petons(07.12.05)

- Vine quan vulgues (08.12.05)

- Vine ja amor (11.12.05)

- Vaig a per tu amor (13.12.05)

- bon dia amor,recorda q avui es l'aniversari dl teu pare, la calefaccio a l'escola sta encesa,q tingues un bon dia amoret (15.12.05)

- Vine quan vulgues amor meu (17.12.05)

- tardare un poc,et molesta?guapo besets(19.12.05)

- felicitats amor meu! (25.12.05)

- bona nit amoret,vaig a gitar-me,em trobe mal,crec q m'estic refredant,dma et cride t'estime molt(26.12.05)

- carinyo supose q hauras arribat be, m'havies dit q em cridaries...m'he preocupat un poc,crida'm dma bona nit amor t'estime(03.01.06)

- tardare un poc pq anem a tallar ara el rosco,et cride en 20min (05.01.06)

- val,quan arribes a madrid me diu TE (07.01.06)

- Anire a les 9 a l'escapa,val?(09.01.05)

- Com estas?a la nit em quedare a casa d lidia,xo m'agradaria cridar-te,si n vols m'ho dius,ho entenc besets (10.01.06)

- speram al pis i baixe alli stic a casa de lidia (13.01.06)

- no passa res,tampoc tenies obligacio,xo gracies x dir-m'ho,stic ja sopant passa-ho be besets (13.01.06)

- pq no es tot tan facil com guanyar una partida d billar?besets dl restaurant domingo (14.01.06)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Já sou sócio!!! BASENAME: ja_sou_socio DATE: Fri, 13 Jan 2006 15:03:40 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Sou o sócio nº 19. E vocês??? Quando entram no clube?

O meu cartão!!!

----- COMMENT: AUTHOR: xavi [Membro] DATE: Thu, 19 Jan 2006 16:37:48 +0000 URL: http://mariacastanha.agal-gz.org

Eu também sou sócio! :D

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Londres BASENAME: londres DATE: Fri, 13 Jan 2006 14:26:05 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Tenho de escrever algo muito importante, e fá-lo-ei em breve. Mas antes quero comentar uma outra coisa. Não sei se alguém reparou no mapa do mundo que coloquei ontem na barra direita deste blogue. É um serviço que fornece Clustr Maps e serve para marcar (em vermelho) o lugar donde são recebidas a visitas. Hoje vi-o de novo e surpreendi-me. Há muitas visitas de Alacant, coisa normal, porque ultimamente entro muito a ver se alguém deixou um comentário. Tou à procura de feed-back (já agora, obrigadinho, sabela). Também há visitas da Galiza, coisa também normal. O de Madrid também normal, que está o meu irmão. Encontrei alguma coisa de Lisboa, que me desconcerta um poco. Mas o que me tem pasmado é o de Londres (ou algum lugar da Inglaterra). Assim que me animo a animar. Dêem sinais de vida!!! Apresentem-se!!! Que curiosidade, meu deus...

PS. Se algum dos usuários dos blogues agal-gz quiser um, que me avise, porque é necessário integrá-lo no script.

----- COMMENT: AUTHOR: eugeniote [Membro] DATE: Mon, 16 Jan 2006 13:03:30 +0000 URL: http://www.agal-gz.org

Vai ser isso…

----- COMMENT: AUTHOR: O congro [Visitante] DATE: Mon, 16 Jan 2006 11:59:14 +0000 URL: http://www.acovadocongro.com

Coido que está vd. errado. O seu irmáo aparece como um puntinho bermelho na França (question de empresa), nom em Madrid.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Quarto dia triunfal BASENAME: title_93 DATE: Thu, 12 Jan 2006 20:04:46 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Ninguém me telefona e toda a gente me diz "se precisares falar, conta comigo". Mas eu nunca soube conhecer as minhas necessidades. Como se sabe que se precisa falar? Preciso falar para saber isto ou aquilo, para aclarar as minhas ideias ou para comunicá-las. Mas tenho demasiadas certezas que não interessam ninguém. Também falo para desabafar. Mas como saber que se precisa desabafar sem sentir-se completamente abafado? Quem disse "vou estar aí para que não chegues a esse ponto"? E se precisar simplesmente que alguém me veja chorar? Quando falei com alguém tentaram falar-me doutras coisas. Não sou parvo, reparo nisso. Com quem falarei que não mude de tema para que tente esquecer? Mas não quero esquecer. Quero que tudo volte ao seu normal. Sinto-me só e isto é só o começo. Quem vai mudar este meu hábitat que chama a conversas de queixas por isto ou aquilo? Quando ela estava chegava e queixava-se que no trabalho tal ou qual, ou que tal amiga tal ou qual. Chegava um momento em que me aborrecia tanta queixa. Agora passaram quatro dias e cá estou eu a queixar-me. Tal ou qual, saibam vocês. Intuo as vossas caras de aborrecimento. Talvez nem cheguem a ler já esta linha. Quem melhor que eu para compreendê-lo? Porém queixar-se parece-me agora uma forma de amor que neste momento espalho pela rede. Queixar-se é uma procura de resposta ou só de orelhas. Uma procura dirigida aonde se acha que pode estar a resposta. Mas essa resposta não era eu. Quero queixar-me. Mas a quem se ela não está? E se estivesse, o que conseguiria? Pena? Tudo o que sei é que não quer fazer-me dano. Não vou usar isso. Não quero. Sou algo mais que um molho de lágrimas em potência. Ainda que possa parecer o contrário ao dar uma vista de olhos a este blogue. "Quando estás bem nunca escreves", dizia-me ela. Tinha razão. Todos os silêncios são as minhas alegrias, porque verbalizar é um risco. Poderia acontecer que, ao escrevê-las, descobrisse que são apenas parvoíces. Porém as tristezas, essas, melhor que sejam o que são e pronto.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Sinha Rosa BASENAME: sinha_rosa DATE: Thu, 12 Jan 2006 13:18:54 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Sinha Rosa. Quanto tempo. Tive que ler a entrada toda para lembrá-la. Vai ser verdade que tudo morre quando deixa de ser visto. E eu devo de estar meio morto, porque não saio desta casa vazia.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Namorar ao contrário BASENAME: antes_do_fim DATE: Wed, 11 Jan 2006 22:16:36 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Não sei quem foi que disse, com tão bom critério, que as coisas que não se dizem é como se não tivessem acontecido. Lembro a frase e venho à janela do meu blogue mais uma vez para gritar ao mundo as minhas últimas verdades. Bàrbara deixou-me. Disse bem: deixou-me. Ainda que fosse eu a dizer que queria acabar a relação, foi ela que disse, no domingo à noite, recém chegado eu da Galiza, que precisava tempo para pensar nisso que, passados três dias do choque inicial, sei que não precisa pensar, apenas virar consciente. A decisão está tomada. Já estava antes de eu chegar da Galiza. A dúvida, neste caso, é uma verdade intuída que choca com todas as evidências: não me ama. Mas a esperança, essa mãe de todos o demos, impede-me virar consciente eu próprio dessa mesma verdade. Surpreendo-me a mim próprio pensando que volta. O meu piso está cheio de toda a sua roupa, os presentes que eu próprio lhe fiz, o seu lixo, a sua desarrumação. Foi-se para pensar, mas parece-me que fosse visitar os pais. E quando agora mesmo entrou pela porta para jantar (a precariedade de quem foge por surpresa) parecia-me impossível não darmo-nos um beijo nos beiços, não abraçá-la quando me dizia que lhe dói tudo por ter dormido num sofá, não oferecer-lhe uma massagem nessas circunstâncias, não ter o contacto físico de costume. E porém não fiz nada disso. Quem foi quem lhe deu um beijo na cara apenas na chegada e na despedida? Custa acreditar que fosse eu. Claro que a sua forma de agir não convidava a fazer mais do que isso. E quer pensar? Pensar o caralho. Desfazer-se da deriva de pensamento e acção. Isso é tudo. A mesma deriva que a levou, hoje à tarde, quando me viu na escola, a dar-me um beijo nos beiços (com o milissegundo conseguinte de surpresa na sua própria cara), a apanhar o telefone na casa, sem pensar que o telefonema era para mim, e achando os meus pais do outro lado do fio. Porque nenhum dos dois sabíamos que fazer. Estávamos a criar um hábito inexistente. Quanto à forma de agir (e só nisso) éramos como o homem e a mulher que querem começar a namorar. Os mesmo nervos, o mesmo mover-se de cá para lá, evitando o contacto visual. Ou fui eu só que fez isso? Seguramente fosse eu só. E se calhar é isso que me toca agora. Namorar ao contrário. E se consigo fazê-lo e normalizar uma amizade que agora tudo me indica que é contra o sentido comum, que me impedirá, depois, deixar de fumar? A minha frialdade supreende-me a mim próprio ao escrever essas palavras. Mas é que escrevo como se ela estivesse na sala a ver televisão, estudar ou lá o que for, em lugar de ter atravessado, há quarenta minutos, a porta para a rua.

----- COMMENT: AUTHOR: sabela [Visitante] DATE: Thu, 12 Jan 2006 17:30:24 +0000 URL: http://www.pepilucibom.tk

Sempre dói.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Marful BASENAME: marful DATE: Tue, 10 Jan 2006 13:35:51 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Não sei que tem a música de Marful para me curar a alma. Ou os versos de Anxo Quintela cantados por Ugia Pedreira. Não sei que têm. E que demo de nome é Marful?

----- COMMENT: AUTHOR: xavi [Membro] DATE: Tue, 17 Jan 2006 01:00:53 +0000 URL: http://mariacastanha.agal-gz.org

O nome de Marful escuitara que é o apelido de um avô da Ugia Pedreira (que será Ugia Pedreira Marful?). Bom, igual nom era o primeiro apelido, mas é isso ;) Eu também quero ser sócio do clube de fãs! :D

----- COMMENT: AUTHOR: eugeniote [Membro] DATE: Wed, 11 Jan 2006 12:16:56 +0000 URL: http://www.agal-gz.org

Caríssima Avelina, as perguntas que me faz têm reposta fácil, mas não curta. Talvez esta seja a mais curta: o que eu escrevo é português de Portugal. Sou professor de língua portuguesa como segunda língua e é esta a única norma oficial num país de fala portuguesa que conheço bem e sou obrigado a empregar em aulas. Por comodidade, costumo empregá-la também nos meus escritos. É mais do que possível, porém, que introduza mais de uma forma galega, que não exista em Portugal nem no Brasil, ou mesmo que exista num país e não noutro. A língua é assim. Estamos acostumados e acostumadas e vê-la como algo mais ou menos sólido, delimitado geogaficamente, mas nem sempre é assim.

Com muito gosto responderei qualquer pergunta que tenha sobre galego e português ou galego-português. Mas, para começar, acho que tudo o que possa dizer agora está muito melhor explicado no site da Associaçom Galega da Língua (AGAL), em que participo, e concretamente na secção que achará neste enlace.

Como verá, esse texto não está escrito em português de Portugal nem do Brasil, mas empregando uma outra norma, a do Português da Galiza ou norma da AGAL. Contudo, tenho certeza que não vai achar qualquer problema para lê-lo e perceber em grandes riscos que é isso que falam os seus pais e no seu país.

Beijos ou bicos de um galego galeguíssimo.

----- COMMENT: AUTHOR: avelina martinez gallego [Visitante] DATE: Wed, 11 Jan 2006 03:41:08 +0000 URL:

Caríssimo, entrei em seu bolg. Não quero comentar nada do que você escreveu, apenas manifestar minha admiração. Afinal, a lingua galega existe mesmo? O que você escreve é português do Brasil? O galego falado pelos meus pais é uma peça de museu? O português que eu falo e escrevo aqui no Brasil é realmente português ou é galego? Por favor responda urgentemente meus questionametos. Beijos ou bicos? De uma galega-braileira angustiada

----- COMMENT: AUTHOR: fam_namber_guam [Visitante] DATE: Tue, 10 Jan 2006 17:45:23 +0000 URL: http://clubedefansdemarful.blogspot.com

Pois fai-te fam de Marful, nós gostamos imenso de seguir crescendo, e sabemos o que tem essa música: qualidade e sentimento!!!
Só tens que enviar um correio a clubedefansmarful@sapo.pt e fazemos-te sócio
Beijos marfulianos

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Começar de novo BASENAME: comecar_de_novo DATE: Tue, 10 Jan 2006 08:00:00 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Recebo as palavras com a alegria de um começar de novo.
Logo a seguir o medo de começar de novo.
A mesma insegurança perante a vida.
O mesmo tremor da vida nas gemas dos dedos
a se escapulir entre as impressões digitais.
Sinto-o no estômago e quero regurgitá-lo.
Quero e não posso. Não consigo
deitar fora a maré destes meus sonhos
uma, outra vez, girando-me no corpo.
Mas eles, que não existem, cá estão para negar-me.
Eu que os criei. A minha má cabeça.

----- COMMENT: AUTHOR: Galician Poetry Detector [Visitante] DATE: Wed, 11 Jan 2006 15:17:56 +0000 URL:

Realmente isto não é poesia galega, parabéns! abraços laterais enormes of course!

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Daqui e d'agora BASENAME: daqui_e_d_agora DATE: Mon, 09 Jan 2006 11:42:31 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Um dia tudo acaba e reparamos que talvez nada tivesse começado. Então olhamo-nos nos olhos e sentimos a imensa felicidade de ter descoberto o engano. E apesar de uma lágrima que nos resulta irónica no momento do confronto, mas que sabemos a porta por que entrarão todos os mares, respiramos fundo e olhamos para a frente sabendo que é futuro. Sentimo-nos fortes, recolhemos o orgulho que não precisamos e agradecemos mais uma ferida que nos lembra que estamos vivos. Porque tudo caminhava ou esvarava por uma superfície engordurada e era preciso parar e reflectir. Sabemo-lo quando nos damos a oportunidade de mirar atrás e descobrir espantados que recuando só podemos ganhar. Pensamos que afinal talvez só fique um poema daquele projecto de livro que era a nossa vida, mas na mesma deitamo-nos com ele aconchegado ao nosso sexo, passamos-lhe a língua, amamo-lo e queremos entrar nos ocos dos seus ritmos. E entramos, claro, como entramos no mar, esse que amamos pelas suas ondas, e apesar de que nunca conheceremos de perto a falha atlântica. Ou por isso. Precisamente por isso.

----- COMMENT: AUTHOR: Oscar [Visitante] DATE: Tue, 10 Jan 2006 18:23:20 +0000 URL: http://www.finisterra.blogger.com.br

Caro Eugénio, tens razão sobre as quebras dos versos. Ele ganha outra leitura e compreensão na versão primeira. Acho bastante importante a espacialidade das palavras num poema; o espaço que elas ocupam, ou parecem ocupar é tão relevante quanto a mensagem que trazem. Abraços!

----- COMMENT: AUTHOR: eugeniote [Membro] DATE: Tue, 10 Jan 2006 02:59:43 +0000 URL: http://www.agal-gz.org

Por desgraça, amigo Óscar, o poema perdeu as quebras dos versos ao ser publicado no teu blogue. Podes dar-lhe uma olhada ao original aqui mesmo. Quanto à perfeição, seguramente não exista para além das nossas mentes. É lá que estava quando escrevi o poema.

----- COMMENT: AUTHOR: Oscar [Visitante] DATE: Mon, 09 Jan 2006 15:31:45 +0000 URL: http://www.finisterra.blogger.com.br

“Pensamos que afinal talvez só fique um poema daquele projecto de livro que era a nossa vida…” Caro Eugénio, gosto da tua prosa poética, desta plenitude geográfica que se vai aparecendo no teu discurso. Obrigado pela visita, e mais ainda pelo poema que deixaste no comentário: a perfeição desfeita, irrecuperável. Mas será que ela (a perfeição) existe mesmo, Eugénio?

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Momo BASENAME: momo DATE: Sun, 18 Dec 2005 01:00:00 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: pintamentos CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Momo

Nem saberia dizer muito bem porque é que me vêm a cabeça estas imagens ao lembrar do livro de Michael Ende. Li há muito tempo, em criança, e agora recolho vagamente sensações e conceitos em abstracto. Algo de relógios, homens cinzentos e suponho que algum capítulo em que tudo acontecia devagar. Não saberia falar exactamente da história. Mas acontece que tentei concretizar em imagem o tédio de uma tarde inteira perante o computador e, quando estava para acabar o desenho, faltando apenas o fundo, veio-me à cabeça esse título, Momo, e soube que o fundo não podia ser senão cinzento.

ADENDA

Procuro agora ligações para esta entrada a respeito de Momo e Michael Ende e encontro mais informações sobre o livro das que tinha quando fiz a imagem. Interessantíssima história, que quero voltar a ler e lerei, porque realmente estou a precisar. A ver se a consigo em português.

----- COMMENT: AUTHOR: Oscar [Visitante] DATE: Wed, 04 Jan 2006 16:16:38 +0000 URL: http://www.finisterra.blogger.com.br

Olá Eugénio, chego até aqui numa pesquisa sobre blogues galegos. Gostei muito do que fazes, e escreves. Às vezes é assim mesmo, escrever nem sempre é fácil e apetecível. Um abraço!

----- COMMENT: AUTHOR: Tar-tarugo [Visitante] DATE: Mon, 19 Dec 2005 09:56:06 +0000 URL: http://www.acovadocongro.com

Hace mucho, mucho tiempo, las tortugas eran completamente distintas a como son ahora : no tenían caparazón y tenían siempre muchísima prisa… eran, de hecho, los animales más rápidos de la creación. No sabían porqué, pero iban siempre corriendo a todas partes. Y apenas llegaban a cualquier sitio, salían enseguida corriendo de nuevo hacia otro lugar. Tanta y tanta prisa tenían que en su carrera acababan chocando contra los árboles, piedras y otras tortugas y animales que se cruzaban con ellas. A veces se hacían realmente daño.

Por eso, un día, las tortugas convocaron una reunión de urgencia. Se fueron deprisa al claro del bosque (chocando en su camino con todos los árboles), y buscaron una solución a su problema (una solución rápida, porque tenían mucha prisa). El caso es que, por unanimidad, decidieron pedirle a la madre naturaleza que las dotase de algún tipo de protección contra los choques. Como todo el mundo sabe, la madre naturaleza duerme en los nacimientos de los ríos, así que enviaron a la más rápida de todas las tortugas a recorrer el río hasta llegar a la fuente. Cuando la tortuga llegó, despertó a la madre naturaleza y le expuso la petición de las tortugas. La madre naturaleza, que siempre es comprensiva con todas las criaturas, accedió a la petición, y dotó a las tortugas de un caparazón duro que les recubría todo el cuerpo, y amortiguaba los duros golpes que se daban.

Al despertarse al día siguiente, las tortugas disponían ya todas de su caparazón. Enseguida echaron a correr encantadas, chocando como siempre, pero satisfechas porque no sentían el dolor de los golpes. Así transcurrieron algunos días.

Pero al cabo de algún tiempo, algunas tortugas se dieron cuenta que su duro caparazón, no les permitía sentir algunas cosas que antes les agradaban mucho : los abrazos, las caricias… incluso las cosquillas. Poco a poco el malestar fue creciendo entre las tortugas, hasta que de nuevo se reunieron todas en el claro del bosque. Aquello del caparazón no les gustaba nada. Así que de nuevo enviaron a la tortuga más rápida a pedirle a la madre naturaleza que les quitase el caparazón, y les devolviese de nuevo la piel sensible que tenían.

La madre naturaleza escuchó la queja de la tortuga, y contestó así :

- ¡Pobres tortugas! Siempre corriendo y siempre con prisa. No sois felices con caparazón como tampoco lo fuisteis sin él. Sólo hay algo que pueda hacer por vosotras: os quitaré el caparazón…. pero sólo cuando aprendáis de nuevo el ritmo de las cosas, cuando sepáis apreciar el sabor del mundo, el valor del tiempo, cuando vayáis tan despacio, que volváis a apreciar las cosas y criaturas que he puesto con vosotras en el mundo. Hasta que no consigáis esto, no os libraréis del caparazón.

Y desde entonces, las tortugas arrastran su caparazón muy, muy despacio, tomándose su tiempo para todo, sin prisa, saboreando cada minuto que caminan, despacio, muy despacio, en la esperanza de que, un día, la madre naturaleza les quite el caparazón y puedan volver a sentir las caricias, los abrazos, los besos y las cosquillas.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Estreio categoria BASENAME: estreio_categoria DATE: Fri, 16 Dec 2005 22:31:04 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: pintamentos CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Ultimamente não me apetece muito escrever. Apatece-me mas é pintar, e como não saberia que fazer com um pincel na mão, emprego o computador, que é o que sei fazer. Por isso estreio hoje e com esta entrada uma nova categoria para o blogue: pintamentos (como não me apetece escrever, também não se me ocorre nada melhor). Estreio com o seguinte desenho, refazendo um outro que o Vítor me encarregou para o Portal, e que sairá no dia 24 (acho).

Técnica: pixel sobre pixel

ADENDA

Já foi publicado, acompanhando o texto de Concha Rousia. Não quis dar mais informações para manter a surpresa. Está aqui.

----- COMMENT: AUTHOR: xavi [Membro] DATE: Fri, 23 Dec 2005 19:05:09 +0000 URL: http://mariacastanha.agal-gz.org

Pois é mui bonito :D A mim tampouco me apetece escrever nada, e como nom sei fazer isso com o computador ponho alguma foto xD

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe BASENAME: ruxe_ruxe_ruxe_ruxe_ruxe_ruxe DATE: Tue, 22 Nov 2005 13:30:18 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe,

Vale. Chegou. Suponho que com isto, já alguém que busque informação sobre os Ruxe-Ruxe num buscador qualquer chegará aqui antes que à outra entrada sobre os Ruxe-Ruxe.Vale. Porque já mudei de opinião. Os Ruxe-Ruxe são magníficos. Ouvi os seus discos e gostei. Mas sobretudo, penso, é que um grupo capaz de levantar tantas paixões, capazes por sua vez de fazer que uma simples entrada sem importância deste blogue sem importância e comezinho, atinja os 14 comentários, é que não pode ser mau.

Saúde, e por se acaso não chegou o de antes...

Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe, Ruxe-Ruxe,

Hóstiaaaaaaaaa! Hóstia! Ghoder! ghoder! ghoder!

Fiquem bem.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Eu também em South Park BASENAME: eu_tambem_em_south_park DATE: Thu, 17 Nov 2005 12:03:05 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Copio a ideia do Ivan e lá vou eu... Pelo menos eu vejo-me assim.

Eugénio em South Park

P.S.: Sorte que a máquina esta não permite pôr a barriga. Ainda saí bem favorecido... :-)

----- COMMENT: AUTHOR: Xohan [Visitante] DATE: Fri, 09 Dec 2005 19:27:10 +0000 URL:

Alomenos o seu sobrinho identificóuno :-)

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Pois trabalha... BASENAME: pois_trabalha DATE: Thu, 27 Oct 2005 10:57:13 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Consegui por fim pôr a trabalhar os blogues. Depois de todos os problemas causados pelos ataques constantes de hackers desconsiderados, consegui pô-los a trabalhar. Custou-me vários dias de levantar-me à 7:00 para poder pôr-me a trabalhar antes das aulas, mas valeu a pena. Falta ainda uma remodelação definitiva da capa, mas por enquanto já está. Tou feliz...

----- COMMENT: AUTHOR: bestilheiro [Membro] DATE: Sun, 30 Oct 2005 21:09:01 +0000 URL: http://bestilheiro.agal-gz.org

Mais uma vez, obrigado!

----- COMMENT: AUTHOR: ocorral [Membro] DATE: Sun, 30 Oct 2005 08:01:49 +0000 URL:

Graçinhas neno polo teu esforço. Umha forte aperta.
Saudinha e canta o merlo

Corral

----- COMMENT: AUTHOR: xavi [Membro] DATE: Fri, 28 Oct 2005 23:15:33 +0000 URL: http://mariacastanha.agal-gz.org

Bom, eu só tenho que dizer que obrigado por todo o trabalho que os demais desfrutamos.

Um abraço ;)

----- COMMENT: AUTHOR: além [Membro] DATE: Thu, 27 Oct 2005 17:59:09 +0000 URL:

Meu, pregaria-che que quando falares seja com propriedade. Os indivíduos que fizêrom o dos ataques nom som hackers, mas crackers, lammers ou algo similar. Um hacker é aquele que procura retos ou novos conhecimentos no que fai. Os outros dous som, respectivamente, alguém que fai as cousas com prejuízo a outros e alguém que, pensando que tem uns conhecimentos imensos, fai o que nom deve. As pessoas que atacárom o servidor, como podes comprovar, nom entram na primeira definiçom. Por favor, nom tomes a mal este apontamento :-) .

----- COMMENT: AUTHOR: eugeniote [Membro] DATE: Thu, 27 Oct 2005 16:13:44 +0000 URL: http://www.agal-gz.org

eu acho que sim…
vamos ver melhor…

----- COMMENT: AUTHOR: admin [Membro] DATE: Thu, 27 Oct 2005 16:11:59 +0000 URL: http://agal-gz.org/blogues/

Mas trabalha mesmo? Como vão os comentários?

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Dimonis BASENAME: dimonis DATE: Tue, 04 Oct 2005 17:52:45 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Há uns dias fui fazer isto:

Correfoc de la Ceba

Alguns amigos da Colla de Dimonis La Ceba (de Alacant), convidaram-nos, à Bàrbara e a mim, a participar num Correfoc na vila de Relleu. Resumindo, isso do correfoc é que uns indivíduos e indivíduas vestidos de demónios, colhem uns paus que têm na ponta um ferro mais fino e, nele, um mola frouxa, que dá voltas quando se coloca nela uma espécie de fogo de artifício, uma espécie e petardo que só solta faíscas. Os demónios, então, misturam-se com a gente do povo, correndo e fazendo como que dão medo, e é uma festa impressionante.

Mesmo assim, a verdade é que não ia com muita ilusão a participar neste evento. Para sermos exactos, quando surgiu a ideia pareceu-me magnífica, mas fui perdendo interesse aos poucos, ao ir constatando que, depois de uma semana de ter-nos anotado para participar, não tínhamos nem fato nem indicações de como se faziam as coisas. Íamos ao local da Colla um dia e outro para ver se nos informavam, mas só conseguíamos um muito de "tá-se bem", charros a rolar de mão em mão, que não fumávamos, e cerveja gratuita - ainda bem. Perante as nossas perguntas, só respondiam que não nos preocupássemos, e era precisamente isso que mais fazia que me preocupasse. Aliás, como costuma acontecer nestes casos, na Colla há poucas mulheres, assim que todos se centravam em falar com a Bàrbara e fazer que se sentisse à vontade. Eu estava num segundo plano, mais segundo ainda pelo facto de ser eu o único que perguntava que havia que fazer, quando era tão evidente que eles estavam fumados, e isso não lhes interessava, e os que não estavam fumados estavam demasiado ocupados fazendo o que não faziam os outros. Perante as minhas perguntas, a resposta era sempre a mesma: "não te preocupes e pergunta-lhe a outro".

Chegado o dia, e visto o pessoal com que tínhamos que ir, disse-lhe a Bàrbara que não me apetecia. Literalmente: "tenho a impressão que estarei rodeado de gente bêbada e quando quera ir a casa, não poderei". Bàrbara disse-me mais ou menos que tenho que relacionar-me com mais gente, assim que tínhamos que ir: vai Sixte, vai Anne, vai Pasqual, amigos meus que gostam de ver-me. Vale, muito bem, lá fomos.

Passamos pelo local da Colla, e surpreendentemente conseguimos uns fatos de dimonis. Não que ninguém os tivesse guardado para nós, mas eu que me cansei e comecei a revisar todo o local até encontrá-los, com a sensação constante de estar a roubar o de outrem. Quando já os tínhamos, e o vesti, senti outra sensação totalmente diferente. Afinal, vai ser verdade isso de que as fardas servem para integrar as pessoas no grupo. O caso é que já tinha vontade de tirar lume. Era realmente emocionante ver-se lá, no centro da festa. Visto que conseguira finalmente os fatos, relaxei-me e comecei a fazer-me à ideia que seguro que agora nos informariam. Erro total. Chegamos a Relleu no autocarro e toda a informação que nos deram era esta: "os que já sabedes já sabedes, os novos fazei o que fazem os outros".

Começou o Correfoc. Alguns dos experimentados levavam o pau em cima, soltado lume por cima das cabeças, e outros invertido, soltando as faísca para os pés do pessoal que nos seguia. Era realmente espectacular. Eu queria prová-lo tudo. Comecei com o pau em cima e ia baixando quando me apetecia. Soube depois que isso era algo que não se podia fazer, porque podes queimar alguém, e espero realmente não tê-lo feito. Mas claro, ninguém me tinha dito nada. Também ninguém me tinha dito que devia empregar óculos especiais, assim que empreguei os meus e, quando acabou o correfoc, constatei com assombro que as faíscas tinham queimado (sim, sim, queimado) o cristal dos meu óculos de todos os dias. Mas dei tudo por bom, porque fora realmente divertido.

Depois do correfoc, os dimonis estávamos convidados a tomar o que quiséssemos. Íamos de local em local, passando de festa privada em festa privada, e bebendo de graça. Num momento determinado, passamos de um local a outro e eu esqueci uma saca que levava comigo. Voltámos eu e Pasqual a procurá-la, mas para a minha surpresa não nos deixavam passar. Os jovens, mesmo muito jovens, que tinham aquele local estavam zangados connosco, porque resultou que alguém dos dimonis tinha roubado uma garrafa de whisky. Foram avisar essa pessoa, e esta encarou-se, mandando-os mais ou menos à merda e levando consigo a garrafa. O problema tivemos que comê-lo eu e Pasqual que, íamos por primeira vez, pedindo desculpa uma e outra vez. Evidentemente, aí comecei a agobiar-me.

Voltámos com o grupo e comecei a falar com os mais experimentados a perguntar-lhes se aquilo era sempre assim. A resposta: tu não te preocupes, e deixa isso connosco. Graças a deus, pouco depois o meu agóbio minorou. Estávamos num outro local e alguém chegou e disse que o autocarro estava para sair. Estava agobiado, mas já íamos para casa e podia descansar e esquecer aquela panda de bêbados. Outro erro. Quando chegámos ao autocarro, resultou estar avariado. Bom, pensei, má sorte. Em qualquer caso, poderemos entrar no autocarro e dormir lá. E isso mesmo fizemos eu e a Bàrbara, que estava também muito bêbada. Mas não. Outra vez, não. Os mais bêbados ficaram ao pé do autocarro a tocar música, gritar e, resumindo, a molestar. Tivemos que esperar até às 7:00 para que chegasse um outro autocarro da empresa, quer dizer, umas quatro horas a tentar dormir e não poder, o suficiente para desquiciar-me totalmente. Quando chegou o autocarro e o grupo de fora entrou nele, não deixaram de fazer exactamente o mesmo que faziam fora: ruido e mais ruido. Quando alguém lhes disse que calassem, respondiam com mais ruido dizendo que não os agobiassem. E eu fui enchendo-me e enchendo-me de raiva até chegar a casa, às 8:00 da manhã, uma segunda-feira, por certo.

Quer dizer, que afinal, acertei: agobiei-me porque não pude ir para casa quando queria e estava rodeado de pessoal bêbado. Salva-se a Colla porque afinal há pessoal sério que veio pedir desculpa por coisas que eles não fizeram, e a dizer-nos que gostariam que voltássemos. A explicar-nos que não sabem que fazer para desfazer-se dessa gente, que eles também estão fartos, mas que o seu é um colla libertária e também não podem deitar fora as pessoas. São boa gente Alex, Alberto, Amador, Nabúqui, Ana, etc. Mas os outros preferiria não vê-los. Como diziam eles próprios: eu vou para passá-lo bem, não para que me agobiem.

----- COMMENT: AUTHOR: manuel [Membro] DATE: Thu, 06 Oct 2005 18:30:39 +0000 URL: https://www.facebook.com/groups/1650288525232212/?ref=ts&fref=ts

Na Catalunha não são “dimonis", mas “diables". Acho que é melhor “dimonis", porque Diabo só ha um. E demónios…

Mas eu prefiro actividades mais angelicais… ou angélicas.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Desquiciado BASENAME: title_62 DATE: Fri, 30 Sep 2005 11:34:02 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

É definitivo. Não há dúvida. Estou já oficialmente desquiciado. Nos últimos dias estou a plantejar-me seriamente ver um psicanalista. Os meus câmbios de humor têm-me preocupado. Estou hipersensível, e isso que já sempre fui muito sensível, e Bàrbara também não anda muito bem comigo por causa disto. Ontem discutimos por primeira vez na nossa relação. Mais uma vez nos últimos dias, acabei chorando. Deve de ser muito difícil para ela ter que suportar-me nestas circunstâncias. Sem dúvida, também não é fácil para mim. Tenho a impressão que, perante a minha iminente fugida para a Galiza, ela se fez à ideia de não ter-me. Vai um dia sim outro também a ver os seus colegas, a falar as suas coisas, e evidentemente não é lugar para mim. Precisa o seu espaço e evidentemente não quero negar-lho. Mas na mesma eu estou só, sinto-me desamparado, e preciso dela mais do que nunca. Numa situação normal, não haveria nada em seu comportamento que pudesse recriminar-lhe. Mas ontem não aguentei. Realmente não posso recriminar-lhe nada, mas na mesma recriminei, porque estou mal. Esse abismo entre razão e sentimento: um clássico. Deixou-me no Escaparate e foi ver os seus colegas. Tentando sobrepor-me a toda a minha tristeza, falei e tentei fazer-me um espaço. Horas depois chegou ela de novo, e o espaço construído desapareceu de súbito. Como vou negar-lhe que esteja com esses amigos, que são tanto dela como meus? Aferro-me à razão. Não quero ser injusto. E entretanto vou engolindo a merda toda de não ter o meu espaço. Vou enchendo-me de angústia. Vou caindo mais e mais baixo. E quando chego à casa, depois dos meus cinco copos de cerveja a estômago vazio, solto tudo como um estouro. Não estou zangado com ela, ou talvez sim, mas sei que não tenho razão para está-lo. E essa esquizofrenia faz-me chorar de novo, multiplica a mina raiva, que é contra mim, sei que é contra mim, mas estoura em todas as direcções e atinge-a a ela, que se zanga e eu compreendo que se zangue. Sou consciente que fui injusto, e tudo volta outra vez sobre mim próprio. Compreendo demasiado bem o seu ponto de vista. Só parece que não compreendo o meu. Pelo menos, não lhe vejo saída. Bàrbara propôs-me, enquanto eu chorava, que não viria tanto ao Escaparate. Acho injusto. Sempre lhe disse que não queria que renunciasse a nada por mim. Qualquer ano destes ainda vai resultar que vou de verdade para a Galiza, e então quê. E entretanto vou vendo o meu espaço reduzido. Um clássico, já disse. Um clássico, pelo menos para mim.

----- COMMENT: AUTHOR: José Ramom Pichel [Visitante] DATE: Tue, 04 Oct 2005 09:33:05 +0000 URL:

Possível terapia (II)
Julio Kortatar

Equilibrio

Estaba tan borracho
en la barra del bar
Estaba muy colgado
y solo hacias que mirar,
Te acercaste, me invitaste a cenar.
Todo lo que hice fue escucharte y
Vomitar.
Estaba muy jodido y
privaba sin parar
Me diste una hostia.
Te habría querido matar
pero me caí para tras
me desperté en tu cama
y no recuerdo nada mas…
Si resisto, si resisto y sobrevivo
Es por tu luz.
Me llevaste a tu casa
yo enseguida a sobar
tu ya imaginarias que no iba a funcionar
Y ahora en la cabeza que resaca de verdad.
Tu mosqueo de la noche no para de retumbar…

“Deja de beber tanta cerveza y lucha"…

Té pasas todo el día en
la barra del bar
aunque este todo perdido
Siempre queda molestar.
Si resisto, si resisto y sobrevivo
Es por tu luz.

----- COMMENT: AUTHOR: José Ramom Pichel [Visitante] DATE: Tue, 04 Oct 2005 09:29:26 +0000 URL:

Possível terapia (I)
Surrealista

you are welcome to elsinore

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

Mário Cesariny

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Tanto por dizer... BASENAME: tanto_por_dizer DATE: Sun, 25 Sep 2005 13:11:14 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Tanto por dizer. Difícil começar a escrever. Nada serve para expressar. Nada. Nem saberia por onde começar. Por dar alguma nova, que fico mais um ano em Alacant. Havia possibilidades, pensávamos, para que este ano voltasse para a Galiza. Mas não. Por dar alguma nova, mas nem saberia dizer se isso é realmente o que me pesa no peito. Demasiadas coisas.

Num primeiro momento, perante a notícia de que fico, senti um grande alívio. Acabava a angústia da dúvida. Acabou. Todas as caras de todas as pessoas que me rodeiam nesta cidade, com uma certa pena ou desconcerto porque me ia, Bàrbara diante de todos, e saber que também para eles acaba. A alegria medida das pessoas a dizer que gostam de que fique. A sua olhada extranha, sem saber o que pensar dalguém que quer abandoná-los. Ou isso penso. A distância que me separa do mundo. A minha primeira alegria por tudo isso, mas a minha surpresa hoje, acordado à noite por mim próprio só para poder chorar em solidão. Fui à cozinha. Não sabia que acontecia. De verdade não sabia. Se estava feliz por ficar, a que vinha essa tristeza. Literalmente: a que vinha? E chegou o momento da psicanálise. As coisas que saem nos filmes: "tenho raiva contra o mundo porque...". E comecei a pensar entre lágrimas.

Lembrei o Rubém dizendo, "afinal ficas, alegro-me". E Bàrbara dizendo a brincar "como na Galiza não o querem, fica por cá". A brincar ou nem tanto, talvez seja isso mesmo que sinto, sem ser o que penso em absoluto.

Há pessoas que me querem por cá, mas acho que não há pessoas que me queiram ouvir quando choro. Por isso acordo à noite e vou para a cozinha. A conversa com Bàrbara sobre a sua amiga Luísa: "É muito importante para mim, porque, agora mesmo, se tivesse um problema contigo, sei que posso falar com ela". Bonita forma de deixar cair que taqlvez tenha um problema comigo. E eu a constatar, ainda por cima, que não tenho nada parecido. Aqui não. Lá. Lá falaria com qualquer extranho e sentir-me-ia compreendido. Talvez até esteja a fazê-lo agora mesmo. Ou a tentar. Que não poderia falar com os amigos de verdade, que tenho e quero.

Mas não tenho nada parecido aqui. Lá. Lá há quem entenda o meu sentido do humor. Aqui tento e tento, mas tenho de contar anedotas para ouvir as risas. Tenho a impressão que as pessoas só interagem com pensamentos prefrabricados. Mesmo as mais inteligentes e interessantes. Uma ironia. Pego no "Atalaya", órgão de expressão das Testemunhas de Jeová, e digo que é interessante, apenas por dar uma risada analisando os conteúdos. Mas a minha cara não é de anedota (serei eu?), porque tento ser realmente irónico. Sempre me perderam as pausas dramáticas, que me saem sós (realmente, serei eu?). E antes de continuar a falar, para acabar a piada, tenho um aluvião de razonamentos contrários à ideia que tinha libertado como isca. Já não posso falar, porque não me deixam. Quando o interlocutor se cansa, eu também estou cansado. Balbucio que já sabia tudo o que me disse, mas tenho já tão pouco interesse em concordar com ele que o digo quase sem vontade, e fico com a impressão que, afinal, ele pensa que eu falava a sério.

Que ridículo: eu testemunha de jeová. Sinto-me antes como um personagem qualquer de Dostoiewsky. Um qualquer dos seus protagonistas, com essa sensação de incomprensão pelos pequenos detalhes. Essa angústia absurda de razonar as minudências e converti-las em mundos ou distância. A distância. Grandíssima puta.

----- COMMENT: AUTHOR: Vítor [Visitante] DATE: Fri, 28 Oct 2005 23:03:04 +0000 URL: http://http:alter-galiza.agal-gz.org

Sorri amigo Eugénio, embora chorar não faz mal.

Um abração do tamanho do mundo.

----- COMMENT: AUTHOR: José Ramom Pichel [Visitante] DATE: Tue, 04 Oct 2005 09:25:37 +0000 URL:

Foi um auténtico descobrimento o texto teu, que bem escreves cabrão!, e que cousas tão lindas em formato grágea para padales, uma boa comida. O teu lugar é com certeça cá, mas o lugar no fundo são faces, e dornas, um pindo, um pingo, uma careta, um copo, um texto, uma carragem cartafoleira, e cá aguardam por uma nova tentativa. Sem présas. um beijinho enorme.

----- COMMENT: AUTHOR: eugeniote [Membro] DATE: Wed, 28 Sep 2005 11:41:12 +0000 URL: http://www.agal-gz.org

Caro Valentão, é mesmo assim. A Galiza é o meu lugar, o meu espaço, a minha casa. Tudo isso e mais. Porque aí há gente como tu, como o Pichel, como o Miguel Penas, como o Vítor, como tantos e tantas. Ora, ficaria muito mais triste se pensasse que também ficas tu triste. Agradeço-te imenso a preocupação, como agradeço muitíssimo a preocupação de todo o verão por ver se voltava ou não. Mas fica bem, que eu também não fico mal. Tive a minha crise, como já tive em anos anteriores, e talvez volte a ter alguma, mas entre crise e crise também posso tentar ser feliz por aqui, e aproveitar a estadia. Darei notícia desse aproveitamento. Saúde.

----- COMMENT: AUTHOR: Valentim [Visitante] DATE: Mon, 26 Sep 2005 10:46:11 +0000 URL:

Eu sou uma das pessoas que na Galiza acalentava a ideia de o Eugénio voltar. E fui também quem durate todo o Verão o convenceu de que tava feito… mas afinal não foi e fiquei mesmo triste. Entendo as pessoas que em Alacante gostam de ele ficar aí mas… como o posso dizer, é como
ter um pardal encerrado. A priori podemos voar em qualquer parte do mundo mas o certo é que as maioria das pessoas alcançamos maiores alturas em um ou noutro lugar. O espaço não é indiferente. E os espaço do Eugénio é a Galiza.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Absurdo BASENAME: title_30 DATE: Thu, 28 Jul 2005 13:23:55 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Pensamento social CATEGORY: intimidades TAGS: ----- BODY:

Levo uns quantos dias alucinando. Ainda não consigo acreditar. Remeto apenas ao magnífico texto de Lupe Cês no foro de Vieiros. Concordo em tudo. Tudo. Passam-me tantas ideias pela cabeça, tantas coisas que quero dizer, entre a minha estima pessoal para com o autores do atentado e a minha absoluta repulsa à acção, por violenta e irracional. Entre a minha preocupação pelo que lhes possa acontecer e a minha carragem pessoal por como tudo isto nos pode condicionar a todos. Entre reconhecer-lhes o espírito de entrega e denunciar que joguem com um projecto de país que é de todos, e que nos condicionem a todos, como se tivêssemos pouco já contra o que lutar. Entre o absurdo e o absurdo, como abrir uma conta de solidariedade com os represaliados na mesma entidade bancária contra a que atentaram. Como que alguém mais conhecido que a Coca-Cola se ponha uma peruca para passar despercebido. Como começar uma guerra aberta pensando só no ataque, e nunca na defesa. Como provocar uma repressão imparável contra eles próprios, e quem sabe contra quem mais. Como passar a vida a justificar uns actos pela sua legitimidade (falsa), e não pela sua necessidade estratégica. A luta armada é legítima? A quem lhe importa! Seja como for é totalmente inconveniente. Quando militava no independentismo passei a vida a ouvir discussões sobre a puta legitimidade da puta luta armada. Pelos vistos, todos pensavam que era conveniente, porque sempre deixámos essa questão a um lado, porque sempre passamos a vida a contradizer o discurso moral da ideologia dominante, sem reparar noutras coisas. Tudo com um absurdo discurso sobre a honra do país que votou sempre maioritariamente num ex-ministro franquista. Tudo com um discurso moral que partia da pátria para chegar ao resto. Absurdo, absurdo, absurdo.

----- COMMENT: AUTHOR: Além [Visitante] DATE: Fri, 29 Jul 2005 10:52:17 +0000 URL: http://alemdascousas.blogspot.com

As minhas desculpas, restou algo por dizer.

O problema mais grave que tem hoje a Galiza, embora a sua identidade esteja a ser massacrada dia a dia disfarçando-a de folclore, nom é o controlo espanholista. É o que este controlo leva consigo: capitalismo, machismo, patriarcado, vulneraçom dos direitos dos monolíngües em galego, exploraçom laboral, emigraçom por mor do paro… Esses som os verdadeiros problemas da Galiza. Se nom os pode solucionar em Espanha, terá que ser pola sua conta.

----- COMMENT: AUTHOR: Além [Visitante] DATE: Fri, 29 Jul 2005 10:34:33 +0000 URL: http://alemdascousas.blogspot.com

Eu tampouco falei de me negar à luita. E, senhor MigRoque, o contexto histórico-político de Portugal em 1640 é distinto do contexto da Galiza hoje. Hegel já dixo que os indivíduos nascem a uma sociedade, e que nom podem dar-se de baixa dela. A sociedade do século XVII nom rejeitava a violência como médio para acadar algo. A nossa sim. Alguns podem pensar que isso faz que seja mais difícil ou até impossível acadar algo. Eu nom o penso. O povo catalám está a acadar muitas cousas devagar, mas essas cousas vam-se acumulando. Nom se pode ser como os de Falange Española, que pensam que as pessoas som borreguinhos, e eles som os “elitistas iluminados", os únicos capazes de dirigir o povo. Se na Galiza a gente votou o Fraga, haverá que pensar por que. Logo, sabêndomos isso, cambiemo-lo. E insisto na ideia de que uma pátria nom vale uma vida. Se hoje a nossa sociedade ainda pensasse assim, teríamos uma espiral de ódio que nom conduz a ningures.

----- COMMENT: AUTHOR: Mário [Visitante] DATE: Fri, 29 Jul 2005 09:38:34 +0000 URL:

Já julgaram esses dous rapazes? Não o sabia. Que rápidos somos os galegos, até mais do que a Justiça espanhola!

----- COMMENT: AUTHOR: eugeniote [Membro] DATE: Thu, 28 Jul 2005 19:26:41 +0000 URL: http://www.agal-gz.org

MigRoque, desculpa, mas não percebo nada de que queres dizer. Em nenhum momento me recusei a lutar pela minha identidade, antes me limitei a criticar uma forma de luta. Por outro lado, se não percebes que alguém se recusse a lutar pelo risco de perda de vidas, tens um problema com a humanidade.

----- COMMENT: AUTHOR: José Ramom Pichel [Visitante] DATE: Thu, 28 Jul 2005 19:04:26 +0000 URL:

Um pais que não se ri de si mesmo não merece nada! Tantas cousas por fazer entre todos e todas, pensemos igual ou diferente, e não há mais imaginação e mais prioridade do que isso. Surrealista. Nem sequer surrealista, subrealista. Muito bem o artigo Eugeniote.

----- COMMENT: AUTHOR: MigRoque [Visitante] DATE: Thu, 28 Jul 2005 18:03:43 +0000 URL: http://porolivenca.blogs.sapo.pt/

Hoje muitos se recusam a lutar seja por aquilo que for se agarrando ao medo de perca de vidas.(esquecendo que outros perderam a vida quando seus povos foram ocupados).
Mas penso ainda que sem nossa identidade nada somos mais do que mutantes em constante transformação.
Hoje Galiza está integrada na Espanha, Olivença está integrada na Espanha.
Mas no passado as coisas foram diferentes, e se em 1640 Portugal não reagisse também nós hoje eramos espanhois.
Penso que cada povo tem direito á sua própria identidade.
MigRoque

----- COMMENT: AUTHOR: Além [Visitante] DATE: Thu, 28 Jul 2005 14:59:59 +0000 URL: http://alemdascousas.blogspot.com

Muita razom tens, meu paisano. Nom comprendo como nom se decatam já duma vez do dano que fazem com acções desse estilo. É incompreensível que essa mesma gente logo pretenda ter credibilidade numa sociedade que rejeita todo câmbio ou acçom brusca. Como podem pretender que os demais tomem as suas posturas por legítimas? E o pior de todo: gente como essa faz muitíssimo dano à esquerda independentista -a de verdade, a que procura a libertaçom, nom a violência- da que muitos nos consideramos pertencentes. Por culpa de gente assim, já nom temos credibilidade, nom temos peso moral, nom temos nada. O câmbio vai vir da gente, e a gente vai identificar independentismo com bombas. À merda com o independentismo se custar apenas uma vida. Nom paga a pena.

>>Esperta do teu sono…

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: A mocidade com a bandeira BASENAME: a_mocidade_com_a_bandeira DATE: Fri, 15 Jul 2005 01:51:12 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Pensamento social CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Achega-se o 24 e a juventude galega mais consciente está pronta como todos os anos para a celebração e jornada de rebelião, réveillon e todos/as com a bandeira. A praça de Maçarelos vestir-se-á de festa um ano mais, convertir-se-á de novo no centro do mundo independetista e juvenil. Mas -ó, alegria!- este ano é especial. Este ano vamos com mais foça. Porque na mesma praça -assombremo-nos todos!- vão ter lugar, não uma, mas duas convocatórias simultâneas: a já tradicional da AMI, e a de BRIGA, que deveu de vir em trole. E vai haver concertos simultâneos de Obrint Pas e Betagarri! Na mesma praça à mesma hora! Um verdadeiro prodígio, muito por cima do Festigal, que este ano volta a superar-se com o desenho mais horrível, por mais que seja o único com presença lusófona não galega.

Enfim, que amanhã se tiver tempo ainda comento um bocado mais a jogada, que tem que se lhe conte. Uma pouca vergonha...

----- COMMENT: AUTHOR: sabela [Visitante] DATE: Tue, 19 Jul 2005 21:51:25 +0000 URL: http://www.pepilucibom.tk

http://www.briga-galiza.org/principal.php?pag=ler&id=123

----- COMMENT: AUTHOR: bestilheiro [Membro] DATE: Fri, 15 Jul 2005 14:38:24 +0000 URL: http://bestilheiro.agal-gz.org

Não sei por que será, mas não me surpreendedes. O de não querer negociar é uma prática (infelizmente) frequente em certos âmbitos.
Como dizia antes, não digo nada…
Iván

----- COMMENT: AUTHOR: eugeniote [Membro] DATE: Fri, 15 Jul 2005 14:34:14 +0000 URL: http://www.agal-gz.org

Eu também sei só o que me contaram, e é que alguém chegou às negociações com tudo atado e sem possibilidade de discordar.

----- COMMENT: AUTHOR: xavi [Membro] DATE: Fri, 15 Jul 2005 14:29:44 +0000 URL: http://mariacastanha.agal-gz.org

Eu só sei o que me contárom, e parece que umha das partes nom quijo a organizaçom conjunta dos actos. Umha lástima.

----- COMMENT: AUTHOR: bestilheiro [Membro] DATE: Fri, 15 Jul 2005 13:34:20 +0000 URL: http://bestilheiro.agal-gz.org

É uma pena que eu não possa estar lá, são dous programas muito interessantes os que apresentam AMI e Briga. De todos os jeitos, não sei se é bom fazer-se dous concertos simultâneos e na mesma praça. Haveria que coordenar-se, polo menos para estas cousas. Organizando-se em conjunto talvez fosse aínda melhor.
Bom, não digo nada…
Iván

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Eu também BASENAME: eu_tambem DATE: Tue, 28 Jun 2005 14:48:36 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Como diz o Igor, eu também sobrevivi às quatro legislaturas fraguistas (e eu -também os últimos três anos- fora da Galiza). Esperei à minha entrada número 100 neste diário para poder dizê-lo. A frase merece uma camisola.

Por diante:

camisola diante

Por trás:

costas

Evidentemente,a ideia da parte de trás é da VA-CA.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: O beijo - três representações BASENAME: o_beijo_tres_representacoes DATE: Thu, 23 Jun 2005 18:21:06 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

A estética romântica de Rodin, com a mulher dominada. A resposta igualitarista e abstractizante do seu aluno Brancusi. A plasmação surreal de Magritte: o beijo às cegas.

Rodin

Rodin


Brancusi

Brancusi


Magritte

Beijo-Magritte

----- COMMENT: AUTHOR: roberto [Visitante] DATE: Sat, 29 Aug 2009 21:20:28 +0000 URL:

roberto achei a imagem de tres beijo…
o ki vc acha???????/

eliana

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: De boca aberta BASENAME: title_6 DATE: Wed, 22 Jun 2005 19:11:32 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Um invento isto dos blogues. Antes, quando o meu blogue era um quadrado pequenino do PGL, só a família me lia. Agora, revejo entradas antigas e apareceram comentários às minhas entradas totalmente inesperados. Como este comentário à minha entrada, que agora colo e comento:

hostia, pois que saibades que os ruxe-ruxe, con outros ghrupos da nosa zona, estan a darlle vidilla o rock de aquí e en galego. E dende logo que lendo as túas opinións ,a priori dun home de cultura queda un un pouco decepcionado. Unha cousa son os teus ghustos e outra facer escarnio da forma de expresarse dunha xente, que por outro lado son xente auténtica desta terra e que se expresan exactamente como o fagho eu. E concretamente o cantante que criticas, que foi comnpañeiro meu na facultade é unha persoa ben culta e con moitísimos coñecementos sobre a nosa cultura. Eso si, non fala nen escribe do mesmo xeito ca tí. QUE PENA QUE TODOS OS GALEGOS NON SEXAMOS TAN ILUMINADOS COMA TÍ. Despois seghuro que es dos que aprobaches as oposicións a dedo e teu pai está forrado, seghuro que respondes o perfil de fillo de boa cuna, ou boa cona que dirían os heredeiros.

Eu já não esperava que ninguém lesse essa entrada do diário, mas de repente chega isto e deixa-me com a boca aberta. Já deixei um comentário de resposta desculpando-me por se se sentiu ofendido pelo tema de Ruxe-Ruxe, que, como não os ouvi muitas vezes, não me atrevo a dizer que são o que me pareceram. Interessa-me comentar o resto.

Vou aos poucos:

1- Unha cousa son os teus ghustos e outra facer escarnio da forma de expresarse dunha xente....

Claro, por isso não entendo a que vem tudo isto.

2- ...que por outro lado son xente auténtica desta terra e que se expresan exactamente como o fagho eu.

Devemos supor que eu não sou auténtico desta terra e/porque não me expresso igual. Tudo supondo também, é claro, que quando deixo de escrever, falo igual que Camões e Fernando Pessoa, ou algum caminho intermédio entre Macau e o Rio, digamos Lisboa, por exemplo.

3- E concretamente o cantante que criticas, que foi comnpañeiro meu na facultade é unha persoa ben culta e con moitísimos coñecementos sobre a nosa cultura.

Evidentemente nunca questionei os conhecimentos culturais do cantante de Ruxe-Ruxe, que suponho que terá em abundância. Isto só pode ser ou um toque familiar ou algo que vem preparando o que vem depois.

4- Eso si, non fala nen escribe do mesmo xeito ca tí.

Agora vemos as causas de tudo isto, claro. Agora chegamos ao tema. Alguém leu por acaso a minha entrada no blogue e pensou (sem pensar): "Como pode ser que um lusista qualquer possa criticar o cantante de Ruxe-Ruxe, que, apesar de ter muita cultura, fala igual que eu?". Porque, evidentemente, esta pessoa continua a pensar que falar galego e dizer palavrões é a mesma coisa. Porque, evidentemente, essa pessoa ainda pensa que um lusista não é um galego da terra, nem diz palavrões quando lhe der na cabeça. O que é um lusista, então, segundo ele? Continuemos a ler.

5- QUE PENA QUE TODOS OS GALEGOS NON SEXAMOS TAN ILUMINADOS COMA TÍ.

Um lusista, e eu, que devo de ser o estereótipo do lusismo, é um iluminado. E algo mais, claro, isto não fica aqui...

6- Despois seghuro que es dos que aprobaches as oposicións a dedo e teu pai está forrado, seghuro que respondes o perfil de fillo de boa cuna, ou boa cona que dirían os heredeiros.

Já está. Tudo resolvido. Somos os que aprovamos com cunha e temos pais cheios de dinheiro, etc. etc. etc. Só lhe faltou dizer que "depois seguro que" (que grande expressão) falo espanhol. Magnífico. E eu a mil Km. da Galiza com uma interinidade que não me assegura nenhum futuro, vindo-me todos os dias para trabalhar no portal ou noutras coisas, aprendendo catalão, e sem saber nada disto.

É o que há. É o que temos que aguentar. Paciência.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Ontem BASENAME: ontem DATE: Mon, 20 Jun 2005 11:40:59 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Pensamento social CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Ontem comentava por aí, entre copo e copo, que a Razão (assim com maiúsculas) produz-se e reproduz-se socialmente. A capacidade de uma olhada crítica -neste caso na vida política- está na mão de todos, mas só potencialmente. A Razão é um treino da mente que poucos fazem ou que, para dizer melhor, poucos se vêem forçados a fazer por circunstâncias sociais. E um sistema político como a democracia parlamentarista, baseada teoricamente no valor da razão, não pode passar nestas circunstâncias de uma boa ideia com pouquinha realização prática.

E é que este sistema político, que procura a participação de toda uma sociedade sem cultura política participativa, só pode funcionar com as nojentas carretagens de votantes ou as estratégias de marketing, que sem serem melhores no fundo, têm pelo menos a elegância da subtileza. As eleições num país como o galego, onde apenas uma minoria muito minoritária (que nem coincide com a classe política) tem acesso à cultura de forma crítica, não são representação de nada, ou apenas representam um milhar de milhões de carências da sociedade e das suas elites. Têm o mesmo valor representativo que um programa de televisão, um filme, ou qualquer exercício de ficção com a necessidade de se ser verosímil para triunfar no mercado. É uma farsa, se assim se quer dizer. Não têm um valor de representação. Não são a mímese da realidade.

Mas há tempo que, por meio da publicidade, por exemplo, vivemos submersos num mundo de símbolos que não falam de realidades.

As eleições não são representativas, mas têm um imenso valor simbólico. Qualquer pessoa que pretenda incidir na sociedade galega para mudá-la deve saber da capacidade desse universo simbólico autónomo que é a política parlamentarista para produzir e reproduzir formas de pensamento e, com elas, práticas sociais. As eleições não têm valor representativo, mas estamos na mesma condicionados por elas.

O símil do jogo de futebol de que fala o Quico Cadaval há tempo que trunfou entre nós. E como no futebol, se perder a equipa por que torcemos (e mesmo se não torcermos, porque basta só que o interlocutor ache que sim), não teremos legitimidade para falar no bar das maravilhas dos nossos jogadores. Por isso apesar de jogar fora de casa, e com o árbitro contra, a totalidade do nacionalismo tínhamos muitíssimo que perder e ganhar neste jogo, porque, sobretudo, o fascismo tinha muito, muitíssimo que perder.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: As eleições BASENAME: as_eleicoes DATE: Sun, 19 Jun 2005 17:16:25 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Passo a tarde a ler e reler as mesmas notícias nos meios galegos com presença em internet, à procura de novas que me falem da jornada eleitoral. Não falam. Repitem dados de participação que não fazem mais que preocupar-me. Denúncias de carretagem aos de sempre, denúncias a um apoderado do BNG por gravar o presidente da câmara de Vilamartim de Vale de Orras carretando votantes. 25% do censo eleitoral votou na província de Ourense já ao meio dia. Baltar ou Quintana? Que pergunta idiota. Espero mordendo as unhas mais novidades. Às 19:30 combinei para ver a actuação de Rubém, que disque vai fazer referência à eleições galegas. O café largo, a oferta, um bocado rasca, de café teatro do seu bar. Depois eu e o Gus teremos liberdade para fazer o que quisermos no bar, com televisão e dvd para ir vendo os resultados e projectar HQB, tentando dar uma perspectiva de que aconece e porque ou apesar de que. Mordo as unhas e os dedos, porque já não restam unhas. Pode ser a mudança definitiva. Pode ser o insucesso definitivo. Repito-lhe a Bàrbara que se o PP volta a ganhar as eleições com maioria absoluta será a prova de que o único que nos resta é a metralheta. Desvario e eu bem sei, mas são os nervos. Bàrbara olha-me com cara de não perceber nada. Tenta animar-me falando noutras coisas, mas sou incapaz de falar do que quer que seja. À parte as eleições, é claro. A ela pouco lhe importa o que aconteça. Preocupa-se por mim, e agradeço, mas não consegue. Clico no atalho do Firefox para vir aos blogues agal-gz, a ver se alguém escreveu alguma coisa. O coração lateja ao ritmo da "Absenta" de Liorna, quer dizer, muito rápido. Não há novidades também nos blogues. Só faltava que me desse a mim o enfarte em lugar de a Fraga, como estive a dizer estes dias. Começo a escrever esta entrada: primeiro a minha procura na internet, depois o que vou fazer, depois o que faço agora, Bàrbara e acabo. Sorrio para o ecrã. Saúde.

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: uma improvisação BASENAME: improvisacao DATE: Tue, 31 May 2005 21:08:38 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

e de súbito perceber que estava lá
mesmo ao pé da palavra certa
onde as melodias do tempo se estancaram
e nunca um sábio chegou para dizer Eureka

descobri-lo de súbito e de novo
no canto escondido da esperança e a surpresa
gritando a mares para ser ouvido
e virar píxel ou dado
facto não anunciado carne e osso lume
estalo súbido da madeira à noite
porque chegou o dia antes do dia agora
e eu volto ao lar para escrever de novo

----- COMMENT: AUTHOR: eugeniote [Membro] DATE: Sat, 18 Jun 2005 11:00:38 +0000 URL: http://www.agal-gz.org

ui que vergonhaaa….

----- COMMENT: AUTHOR: maria e teresa [Visitante] DATE: Thu, 16 Jun 2005 09:32:04 +0000 URL:

GUAPOOOOO!!!

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Resposta muito longa ao Celso BASENAME: resposta_muito_longa_ao_celso DATE: Sun, 24 Apr 2005 10:36:51 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Pensamento social CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Com todo este tema surgido a partir da notíca de Jaureguízar, e apesar de ter chegado bastante tarde ao conflito, estive a manter uma certa intervenção nos comentários do portal. Coloco a seguir a minha última intervenção, em resposta ao Celso (Álvarez Cáccamo), de que fiquei bastante contente. Não passa de uma metáfoa de tudo, mas aí fica.

Caro Celso,

é verdade que na Galiza, em geral, não se diferencia as personalidades das ideias e projectos (veja-se, senão, o caso PP = Fraga). Não é coisa exclussiva do luso-reitegracionismo, nem de movimento linguístico-cultural galego em sentido muito amplo, mas do país. Nessa situação estamos, e é desta perspectiva que me permito colocar o seguinte exemplo.

Eu tenho um amigo muito isolacionista, mesmo muito ofensivo muitas vezes neste tema. Há dias que no meu grupo de colegas se começa a falar no tema e ele não tem papas na língua: os reintegratas, de paiaços para acima. Depois repara que eu estou no meio e rectifica: bom, estou a falar de uns, mas não de ti, que és um bom galego, etc. etc. Evidentemente eu não trago, mas em lugar de pôr a parir os outros, ou defender os meus, o que faço é falar das virtudes do reintegracionismo. E aí cala. E muitas vezes consigo, por este meio, arrancar-lhe alguma que outra frase a favor da AGAL, de Carvalho Calero e de ti próprio, de quem fala especialmente bem, porque a sua tendência é a não citicar os galeguistas nem os que sabem.

Nessa situação, seria totalmente legítimo por minha parte pôr a parir o meu amigo por pouco dialogante e ofensivo, ou responder com outro ataque, mas a verdade é que isso me situaria, perante o resto do grupo, numa situação pouco propícia para que o luso-reintegracionismo fosse ouvido. Por desgraça, no meu grupo de amigos, como no resto da sociedade galega, o galeguismo é essa coisa de que falam os galeguistas, e criticar os galeguistas reconhecidos situa quem o faz fora do galeguismo, lugar em que me sinto muito a gosto. Evidentemente, isso não quer dizer que eu tenha imensa vontade de reconhecer, por exemplo, Quique Costas pelo seu trabalho a favor do galego, mas se houver admiradores de Quique Costas entre os meus colegas (e há), e quero achegar-me a eles, vou ter que ter um certo respeito por ele, como mínimo de palavra, para poder ser ouvido.

Imaginemos agora esta outra situação. Para além de mim, há outro reintegrata no grupo. É um bom amigo meu, ou nem tanto, mas com quem comparto todas, ou quase, as ideias. Repetindo-se a situação, o meu primeiro amigo começa a pôr a parir o reintegracionismo. Eu respondo como sempre, falando bem do luso-reintegracionismo, mas esta nova incorporação ao grupo começa a pôr a parir Quique Costas, razona muito, muitíssimo, mas aos gritos, e não responde nem um pouquinho às espectativas dos outros sobre " galeguismo". A situação quenta-se e a mim não me é permitido falar, porque toda a gente grita muito, e eu sou uma pessoa calma.

Na primeira situação, o conflito estava entre um preconceituoso (o meu primeiro amigo) e uma pessoa que tenta razonar, eu, que tinha, portanto, possibilidade de fazer chegar a minha mensagem ao resto da turma. Na segunda, o conflito está entre dois exaltados e, à falta de razonamentos (essa seria a impressão do resto da turma), entrariam em jogo algo mais que palavras, quer dizer, coisas como o prestígio social e o reconhecimento público, e aí o luso-reitegracioinismo teria tudo a perder. Aliás, nesta segunda opção eu ficaria num segundo plano e limitando-me a ver como todo o meu trabalho anterior para dar a conhecer o luso-reintegracionismo ficaria, afinal, em nada.

Perante isto, que é que eu vou fazer? É inevitável, nessa situação, que eu tome partido. E só tenho duas opções:

a) pôr-me de lado da pessoa com que compartilho as ideias luso-reintegracionistas. Dessa maneira, todo o meu trabalho anterior por dá-lo a conhecer e, em certa medida, legitimá-lo perante o resto da turma, ver-se-ia mermado, muito deslegitimado, quase ficaria em nada. Mantenho a coerência, sem dúvida, e talvez a minha postura sirva para criar um grupo mais forte de discurso reintegracionista. Mas, por outro lado, teria perdido a oportunidade comunicar-me com o grupo, e justo agora, que até houve algum que me pediu o livro de Barbosa para matar a curiosidade, e outros tinham começado a ir aos actos culturais dos centros sociais, e até começado a imitar certos usos linguísticos reintegracionistas. Aliás, aceitar esta opção significaria reconhecer que todo o meu trabalho anterior não serviu para nada, e dar-lhe de mão beijada ao outro o "status de líder", porque, contrariamente a mim, ele manteve a coerência.

b) Pôr-me de parte do exaltado isolacionista. Isto legitimar-me ia como galeguista dentro do grupo, e permitir-me-ia continuar o trabalho de concientização. Claro que assim eu ficaria bastante sozinho (bom, nem tanto), mas mantenho as possibilidades de fazer-me ouvir, que doutra forma perderia totalmente.

Entre entas duas opções, eu não duvidava em escolher a b). E isso, apesar de que, no estado de coisas, o que antes era um ponto estratégico (não desligitimar certa gente), agora corre o perigo de virar aliança a nível simbólico, por causa da intervenção do amigo luso-reintegracionista, e só por causa disso. A minha opção seria consciente, e em absoluto inocente, mas não deixaria de ser uma opção muito condicionada pela intervenção do meu amigo de discurso luso-reintegrata. Não haveria unidade entre eu e ele, portanto, mas é que para que existisse seria necessário que ele reconhecesse o meu trabalho anterior e não o desfizesse.

Não sei se me explico...

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: O problema do Comunismo BASENAME: o_problema_do_comunismo DATE: Thu, 17 Mar 2005 11:31:33 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Pensamento social CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

O problema do comunismo ? segredou-me recentemente o Subcomediante E-1 em reunião ultra-secreta ? é que Marx era péssimo contando anedotas, Lenine não sabia dançar a lambada e o Ché Guevara nunca viu os desenhos animados de Son Goku. Vinha a conto da conversa que estávamos a ter, há um par de fins-de-semana, quando eu voltei das Jornadas de Formação que o PSAN teve em L?Espluga del Francolí (Tarragona) e às que assisti com o Eduardo em regime de convidados simpatizantes.

Foram muito interessantes, se mais não, para constatar mais uma vez que o comunismo está no jurásico dos movimentos sociais. É história, assim de simples. Interessantíssima história de que sentir-se muito orgulhosos como continuadores de uma tradição igualitarista, mas história. A não ser, é claro, que se decida de uma vez a refundar-se, deixar de esticar a realidade para que caiba nos seus pressupostos teóricos, e começar a fazer o caminho cotrário. Nesse caso, até eu próprio poderia aderir de forma entusiasta, em certas circunstâncias.

Estava lá Josep Guia, o grande líder do partido, muito simpático e acessível, por certo. Na sua intervenção, sobre ?Conceitos teóricos de organização do partido?, disse que para ser comunista era muito fácil (!), só era preciso acreditar que a sociedade está dividida em classes e que a luta de classes é o motor da história. É difícil negar esta afirmação, claro, até porque são duas premissas sumamente imprecisas, mas acho necessárias tantas pontualizações para que se ajuste à verdade que não saberia se aderir. Mais de 20 anos depois da primeira publicação d?O Capitalismo Histórico de Wallerstein, esta afirmação pode ser tremendamente precisa para alguém que tenha lido o livro, mas dar lugar a toda uma série de equívocos para alguém que não conheça estas teorias. Depois de tudo, as ideias de Wallerstein não são assim tão conhecidas, e antes dele havia toda uma série de equívocos que mal nos permitiriam entender a sociedade actual.

Por outro lado, a afirmação de a sociedade achar-se dividida em classes também é sumamente discutível. Para já, falta uma definição de classe para a sociedade ocidental moderna. As definidas por Marx e Lenine mal existem nos nosso dias e outras, como a de Althusser, são muito imprecisas. Aliás, se mudar a definição de classe e passarmos, por exemplo, a considerar proletário qualquer assalariado, será evidente que a percepção que a classe tem de si própria é radicalmente diferente à que definiam Lenine ou Marx, não será possível entender a classe de forma monolítica e deveremos considerar as diferenças internas da própria classe trabalhadora. E se muda a classe, resulta que também mudam os seus interesses. Para muitos será necessário conservar as conquistas históricas, o que muda radicalmente a sua motivação perante a luta de classes que deve levar avante, e isto criará inevitavelmente no outro sector da classe (aquela que não beneficia dessas conquistas) um receio que também enfraquecerá a sua motivação.

O mau é que, no melhor dos casos, o comunismo tem redefinido este conceitos teóricos, mas isso quase nunca tem repercussão na prática política. Continua a pensar-se, e assim o constatei no encontro, que o apoio ao movimento deve vir dos conflitos de classe. Quer dizer, que o comunista deve estar lá para organizar (mão em mão com o afectado) a luta concreta quando surgir um conflito de classe, e que essa vai ser a canteira para o apoio ao partido. O problema é que uma vez que a classe tem interesses criados (como dissemos) no statu quo, o proletariado vai estar nessa lutas, não para conseguir coisas, mas para defender as que tem, quer dizer, que estará à defensiva, e portanto não estará aberto como antigamente a ser adoutrinado. A estratégia, portanto, não vai funcionar.

E como resolver este problema, então? Aí entra o Subcomediante e a sua afirmação. O comunismo tem de aprender marketing. Deixar de exigir e começar a oferecer. O comunismo tem de saber divertir e divertir-se. Num contexto de defesa dos interesses do povo trabalhador, deve saber descontrair para chegar melhor. E, sobretudo, o comunismo deve aprender alguma coisa mais sobre o funcionamento do universo simbólico das pessoas a que se dirige. Saber da dominação simbólica, além da económica, e arranjar umas teoria e praxe destinadas a superá-la. Outros movimentos, como o anti-globalização, já o fizeram, mas já não são comunismo strictu sensu.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Distância - 6 BASENAME: distancia_6 DATE: Tue, 15 Mar 2005 11:29:15 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Um dia o emigrado volta à terra e descobre assombrado que tudo continuou sem ele. É uma constatação um tanto absurda, como sacar a mão pela janela para sentir o contacto da chuva que se vê cair. Mas neste caso o contacto húmido da gota contra a palma faz acordar a vontade de ser um próprio água, virar chuva, voltar a ser parte do meio. Uma simples questão de perspectiva, porque o lugar sempre será o lugar, apesar do nosso sentido de pertença, e apesar de não podermos imaginá-lo sem nós, pela simples razão de que nunca o vimos assim. O observador que condiciona o objecto observado. O velho enigma da árvore que cai no meio do nada, sem que ninguém o veja ou ouça, mas cai, claro que cai. E nós que a vimos crescer, que talvez a regamos e adubamos, que pusemos nela a esperança de um dia ter a sua sombra, perguntamo-nos então como pôde ter caído sem nós. Sabemos mas perguntamo-nos só quando o vemos. Como sendo informados sobre a morte de alguém, sabemos -claro que sabemos -, mas a sombra da morte só nos cai em cima quando vemos o seu corpo inânime de olhos fechados. O retorno do emigrante é isso. Só que é a nossa própria vida a que jaze no caixão e são os nossos olhos os que estiveram fechados. É difícil ficar indiferente, muito mais fácil negar a realidade, culpar a terra. Num país de emigrados e retornados como o nosso devíamos sabê-lo. Seguramente saibamos. E porém, eis-me mais uma vez perante a evidência, surpreendido em flagrante. Pampo.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Autoclismo Total BASENAME: autoclismo_total DATE: Thu, 13 Jan 2005 11:28:44 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Há mulheres espidas a chorar pelos cantos à procura de serem reconhecidas como lágrima viva. Há homens espidos prestes a se tornar lágrima morta, pinga caída, olho assolagado na sua glândula lacrimal. Há corpos espidos a se procurar nos cantos, como quem procura roupagens nas ausências. Há palavras dançadas pelo ritmo: só há palavras dançadas pelo ritmo. O mundo é uma palavra dançada pelo ritmo no coração da terra, latejo a latejo, a dar-nos a palavra. É agora a sua vez, Ehus Mahot. Saiba que me interesso por tudo o que não me interessa. E não gosto de ser tratado por vosté.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Lusistas platónicos e lusistas "freelance" BASENAME: lusistas_platonicos_e_lusistas_freelance DATE: Mon, 13 Dec 2004 11:27:21 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Pensamento social CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Alguma coisa começa a mover-se, ao que parece. Agora é Vilhar Trilho a escrever em Vieiros sobre o lusismo. O artigo está bem, fala de coisas reais, sobre a falta de reconhecimento aos reintegracionistas, paralela ao reconhecimento progressivo que a socieade galega está a fazer à teoria reintegrata. Descobre Vilhar Trilho o conceito de "lusistas platónicos", e fá-lo entrar no terreno de jogo pela porta grande, nada menos que por um artigo em Vieiros. Começa a estar em jogo, parece, a definição social do campo do lusismo, saber quem tem o poder, a legitimidade, de definir o que é e não é.

Segundo o artigo de Vilhar Trilho, tudo lhe parece bem, e nada tem contra a "apropriação" da teoria do lusismo, ou isso diz. Mas não vamos equivocar-nos: o facto de publicar o artigo supõe por si próprio uma tomada de posição. Vilhar Trilho faz ouvir a sua voz, e não o faz por acaso. Fá-lo agora, que ainda está em tempo de ser reconhecido, coisa que tem (seja tudo dito) mais do que merecida. E fá-lo com umas palavras e não com outras.

Ora observemos a sua tomada de posição. "Lusistas platónicos" são, segundo Vilhar Trilho, Camilo Nogueira, María Xosé Queizán e o mesmíssimo Rouco Varela. Até a norma da AGAL, que nem se digna em nombrar, poderia entrar no saco, por não ser português padrão. De facto, ele faz a diferença (que eu julgava morta), entre "lusistas" e "reintegracionistas". Dissimula-o muito bem, mas fá-lo.

É um ponto importante, este, pelo que diz respeito à coerência. Suponhamos que reintegracionismo e lusismo são coisas diferentes. Suponhamos que o lusismo é a prática corrente e real da reintegração, e o reintegracionismo um simples achegamento. Demos agora uma olhadela ao panorama social galego e perguntemos: qual dos dois é que está a ser aceite? Tudo parece indicar que seria o reintegracionismo, não é? Quantas vezes se empregou a palavra "adopção" e quantas "achegamento" nesses discursos a que Vilhar Trilho faz referência? Não fica claro? Não estaria Vilhar Trilho, então, a apropriar-se ele do discurso do "reintegracionismo"? Ora, ora... Primeiro marca os termos e depois joga a confundir. Mal, muito mal...

Mas voltemos ao conceito. Que é um "lusista platónico"? Parece que é um lusista não praticante, um que muito falar e pouco reintegrar. Tudo, é claro, limitado à ortografia. Aceitemos por um momento o discruso, também. Quantas pessoas, na história da Galiza, poderíamos considerar lusistas? Toda a Geração Nós (que costumamos reivindicar) ficaria de fora. Nem Castelao, nem Vilar Ponte, nem Risco, nem Maria Santíssima. Todos fora, que não os queremos, por incoerentes e platónicos. Digo mais, aplicando a mesma regra, devíamos, suponho, diferenciar, galeguistas de lusistas. O lusismo seria uma nova coisa, muito moderna, nada de histórico, como realemnte é. E até o próprio galeguismo perderia figuras como Murguia, que nunca escreveu em galego. Muito falar e depois, vejam lá! Que incoerência!

Entende-se o que quero dizer? Pergunto aos que lêem o meu blog: percebeu-se? Resumo, por se acaso. O lusismo é reintegracionismo. O luso-reintegracionismo é um galeguismo. Estamos encravados e somos filhos de uma história. As leituras que façamos dela não são inocentes, e condicionam-nos ao agir e comunicar-nos. A ideias contam, ainda que não vão acompanhadas da prática, como nos demonstra a nossa história. Reconhecer os nossos parceiros dentro do luso-reintegracionismo e do galeguismo é essencial. Atacá-los é idiota.

E conste que o ataque, neste caso, é elegante e muito inteligente. Mas não nos enganemos: é ataque desde que tudo se defina por oposição ao "lusismo" e se negue, então, as outras realidades. E é que se há lusistas platónicos, não é menos certo que há lusistas freelance, que vão por livre e que ignoram, voluntariamente, os seus aliados naturais. Será que vamos ter que escolher entre uns e outros? Porque eu, por minha parte, tenho mais claro cada dia a minha escolha....

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Unidades, unidades, unidades BASENAME: unidades_unidades_unidades DATE: Tue, 30 Nov 2004 11:22:26 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Pensamento social CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Há uns dias escrevi um artigo intitulado Unidades de Bilhar, inspirado numa série de notícias aparecidas recentemente na imprensa galega. A ideia básica era esta: enquanto a unidade da língua castelhana é indiscutida, e mesmo assim potencializada, o movimento espanholizador pode dar-se ao luxo de jogar a fazer carambolas com a unidade das outras línguas do estado. O meu artigo original, que se calhar acaba por ser publicado no portal, seguia uma tradição secular do galeguismo: chegar tarde e mal. Quando por fim o enviei a Vieiros, onde pretendia publicá-lo, já havia um outro, de características muito similares, escrito magistralmente e assinado por Camilo Nogueira.

Devo reconhecer que senti uma dor pungente em todo o centro do ego quando vi o artigo do senhor Nogueira já publicado. Todo o meu trabalho por assinalar ideias e por tentar comunicá-las via-se reduzido a zero, ou quase, perante o trabalho de alguém muito mais capacitado e com mais predicamento no conjunto de pessoas a que queria chegar. O meu artigo, em definitivo, já não fazia sentido. Li-o e reli-o dezenas de vezes, como faço com os meus poemas e outras coisas inúteis que costumo escrever. Comparei-o com o outro artigo: definitivamente, o do senhor Nogueira era muito melhor.

Mas eis que neste estado de ânimo, volto a aceder Vieiros. Lá estava, agora, um novo artigo, assinado polo professor Celso Álvarez Cáccamo. Lá estava, sob o título de ?Unidade, unidade, unidade?, assim por triplicado, como respondendo as três ?carambolas? que davam fim ao meu artigo. Abri-o imediatamente, com a suspeita de que tratasse um tema relacionado. Como quem responde um e-mail pessoal, o Prof. Cáccamo tinha pegado em trechos do artigo de Camilo Nogueira e respondido, ponto por ponto, fazendo perguntas que assinalavam o ?absurdo? de o artigo ter sido escrito na normativa da RAG.

Fiquei confuso. Não entendia nada. Pensava, idiota de mim, que um artigo com teses reintegracionistas devia ser respondido por um artigo com teses isolacionistas. Era o normal, ou isso achava, porque responder teses reintegracionistas com teses reintegracionistas seria absurdo ou, pior, seria ir contra um aliado, contra um mesmo. Não, não entendia nada. Não era o comportamento típico da pessoa lúcida que o Celso tinha demonstrado ser tantas e tantas vezes. Algo devia estar errado. Não podia ser que o Celso, que eu sempre tinha admirado pela sua coerência, intitulasse ?Unidade, unidade, unidade?, um artigo em que atacava a coerência de Camilo Nogueira. Não podia ser que estivesse a pedir a uma pessoa como Camilo Nogueira, tão condicionada por questões de partido, que escrevesse em reintegrado, porque isso seria realmente como dizer-lhe que deixasse o reintegracionismo ou o partido. Seria, realmente, atacar o movimento reintegracionista, dar uma imagem para fora de desunião, quando o título do artigo incidia precisamente no contrário.

Fiquei muito tempo pampo, lendo e relendo, a ver se se me passava algo e por isso não percebia. Passei horas a pensar como podia ser. Desliguei o computador e fui fazendo a minha vida com a dúvida na mente. Pensei e pensei, procurando uma resposta. Dei-lhe voltas e voltas, e creio que, finalmente, resolvi o mistério. Nem sei como não reparei à primeira. O artigo do Celso não se intitulava simplesmente ?Unidade?, mas ?Unidade, unidade, unidade?. Devem de ser três unidades diferentes. Burricainas de mim...

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Unidades BASENAME: unidades DATE: Sun, 28 Nov 2004 11:19:07 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Pensamento social CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Também podia ter intitulado esta entrada:
INSTRUÇÕES BÁSICAS PARA A SUPREMACIA DO CASTELHANO

Em qualquer caso, tudo consistiria em colocar na boca do indivíduo político chamado Espanha estas palavras:

"Se eles a reclamam estão a a fazer uma imposição infame. Se a reclamamos nós, é porque somos um amável ponto de encontro."

A boca que se achega para beijar-nos quer mas é comer-nos... Nojento.

P.S.: Coloco como exemplo da unidade da nossa língua o tema do Eu-Návia. Nem que dizer tem que a unidade em geral da língua galego-portuguesa também entra no saco... Estamos, em qualquer caso, numa situação tão fraca que mesmo dentro do estado espanhol a nossa língua conhece duas normas oficais. Repito mais uma vez: NOJENTO.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Coragem! BASENAME: coragem DATE: Fri, 19 Nov 2004 11:14:40 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Tentei escrever-lhe um correio ao Vítor depois de ter notícia do falecimento do seu avô. Quis um texto novo e intransferível, que saísse dos tópicos, mas é impossível. Acho agora que perante a morte o único que nos resta é a colectividade. Palavras-chave, talvez esvaziadas de tão gastas, mas com o profundo conteúdo de serem as que emprega toda a gente. E quando no-las dizem, lá estamos nós a pensar que não somos os primeiros nessa situação. Trazem-nos talvez, pela frialdade, ao quotidiano, ao absurdo de comparar coisas incomparáveis como milhões de mortes. E creio que sabemos nesse momento que talvez a morte não tenha uma lógica. Mas também que se leva melhor acompanhado.

Cá estamos, Vítor, com as palavras vazias...

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Óculos de sol BASENAME: oculos_de_sol DATE: Tue, 16 Nov 2004 11:17:08 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Sempre pensei que os óculos de sol eram o complemento indicado para as calças curtas e os t-shirts frescos, a poder ser reinvindicaivos. Mátrix parecia-me (e por isso gostava do estilo) um epígono da movida, já se sabe, O Resentidos: Com isto da movida -que movida!- hai-che muito ye-ye, que de noite e de dia, usa ghafas de sol... E agora inverno em Alacant, um sol de morrer e um frio de idem. Quase nem consigo escrever uma frase seguida, porque tenho as mãos geladas, e quando saio à rua sinto uma dor súbita de córnea no churrasco.

Nunca acaba um de aprender, mesmo nas coisas mais simples...

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Volto às voltas BASENAME: volto_as_voltas DATE: Mon, 08 Nov 2004 11:13:58 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Há dias que um não fecha o olho, e quando digo um quero dizer eu. Dou voltas e voltas na cama, no intervalo do sonho e da vigília, procurando um corpo nu que não está ao meu lado, apenas a lembrança. Às vezes o travesseiro serve mais ou menos para enganar o cérebro. Às vezes simplesmente não dá para enganar ninguém, e dou voltas e voltas com o corpo, na cabeça, no sexo que está dentro da cabeça e fora do corpo. São três ou quatro da manhã, envio uma mensagem do telemóvel, aconchego a orelha de novo ao travesseiro, enganando-me a pensar que espero o sonho, já que não o sono. E enquanto dou voltas e voltas com tudo o que posso considerar irrenunciavelmente meu, sei que espero uma resposta que não chega por razões evidentes. São cinco da manhã. Noite perdida, nem dá para dormir, última esperança de comunhão. Amo e sei que amo e sou amado. Conservo ao menos isso na con(s)ciência.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Distância - 5 BASENAME: distancia_5 DATE: Tue, 02 Nov 2004 11:12:51 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Paráfrase das ensinanças zen. A ponta de um alfinente ou o grossor de um pêlo podem ser distâncias mais grandes que o Canhão do Colorado ou a distância daqui ao Canhão do Colorado. Para além da distância existe o movimento ou a intenção do movimento. E o desejo integrado no corpo da distância talvez não responda às leis da dinâmica, mas predispõe a mover-se mais que uma fita de borracha esticada na mão de uma criança. Aeronauta Eugénio. Viagem astral em terras de Madrid. Fim-de-semana.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Passará BASENAME: passara DATE: Thu, 14 Oct 2004 10:10:59 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Tenho colchão novo. Não consegui dormir. Estou mesmo cansado, perdendo tempo até às 16:00, que começo as aulas. Lá estarei até as 21:00 e depois numa reuinião da DIGUEM NO: (Plataforma pel no a la constitució europea). Não me apatece mesmo nada ir à tal reunião, mas não tenho mais remédio: o nome pus-lho eu na anterior assembleia (a primeira), e há pessoal que espera que lá esteja. Depois de tudo, também estou contra essa constituição, e a plataforma pode servir-me para fazer amigos do meu pau, ou isso espero.

Tenho saudades de Bàrbara. O seu corpo miúdo entre os meus braços. Há coisa de um ano a ideia de viver só fazia-me uma certa graça. Agora não. É tudo silêncio no meu apartamento: menos o ruídos dos carros a passar mesmo pela janela. É tudo vácuo em cada um dos quartos, menos um magote de objectos que nada ou pouco me dizem. É tudo nada, menos aquilo que de quando em quando aparece perante mim para recordar-me que é mesmo nada. Se não fosse Bàrbara.

Ponho o CD dos Lax'N'Busto que ela me deu em Lisboa para gravar. É bom. É muito bom. Ironias ou não, simples curiosidade que agora lembro: há uma canção linda que se chama "Dolça és la sal", e cujo estribilho diz "Sara, tu ets el que m?envolta". Sara. Lembro-a. Pouco. De quando em quando. E sempre que ouvi esta canção com Bárbara, deu-me um sei-lá-o-quê de medo, porque eu cantava a tornada e perguntava-me que pensaria ela (Bàrbara) de que cantasse com esse entusiasmo. Na verdade, sempre o fiz porque a canção é dela, de Bàrbara, mas creio ter descoberto também esse arrepio de incomodidade de um segundo em sua cara.

Não sei se é pouco maduro querer apagar tudo o imediatamente anterior à relação. Há algo disto na nossa. Não muito, apenas pequenos tremores de pele quando alguém fala de tal ou qual pessoa, se vier ao caso. Às vezes um pouco mais. Como no verão. Cheguei a Compostela e mesmo ao sair do carro achei Sara. Tomámos um café e mais nada. Contei-lho a Bàrbara e pôs-se mesmo nervosa. Não disse nada, mas a sua voz tremia do outro lado do telefone. Levávamos apenas dois meses, e ela conhecia bem a minha relação anterior. É normal. Depois contou-me. É normal. Tudo passou. Eu também tenho essas reacções. De quando em quando fala de ?el gallec?, o seu anterior namorado (também era galego, coisa engraçada), e não gosto, resulta-me incómodo. Ultimamente até tenho mais medo ainda. Está em Lisboa. Está longe. Vai conhecer pessoas, quem sabe se melhores para ela do que eu. Tenho medo de quando em quando. É normal. Passará.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Lisboa, portanto BASENAME: lisboa_portanto DATE: Wed, 13 Oct 2004 10:10:14 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Cheguei. Cheguei ontem, na verdade, mas é só agora que começo a escrever. Dez horas de viagem na ida, por volta das onze para a volta. Alacant está longe, fica demonstrado. Digo-o como um absoluto, apesar de estar a escrever desta cidade, e repito para ser mais específico: Alacant está longe: de mim.

À parte isso, reparei de novo como eu adoro Lisboa. Normalmente, sempre me entra um sei-lá-o-quê quando leio ou ouço um reintegracionista falar de Lisboa. Tenho um certo medo aos tópicos, a dizer verdade, e Lisboa é dos grandes. Mas estive lá e vivi mais uns dias as ruas velhas, os prédios de inícios de século. Para um espanhol pode ser simplesmente a imagem de um país mais pobre do que o seu. Para mim não pode ser outra coisa que um cidade que conserva a sua história, que a vive. Não a história de grandes monumentos, mas a história do fervilhar de milhares de pessoas em cada um dos cantinhos, edificações, habitáculos. O residencial onde estivemos a dormir a Bàrbara e eu, por exemplo, conservava interfones de deus sabe quanto tempo: uma espécie de trombetinhas coladas à parede com, suponho, canalizações que subiam até cada um dos andares. Lá estava a vida de alguém que falou por eles há tempo para chamar os amigos para ir de excursão à Serra da Estrela ou Sintra; ou a namorada, cheio de nervos, para passear de mãos dadas num entardecer outonal liboeta; ou simplesmente o amigo da criança que queria jogar a bola no largo ao lado com o seu fato de calças curtas.

Os interfones. Reparei neles enquanto nos beijávamos e algo nos impedia encostar-nos à parede. Essa cena tórrida da última noite, em que tudo pede sexo, tão difícil verbalizar o adeus e a despedida. E essa antiguidade da cidade que se me resume agora na palavra cinzento (por não dizer outono, folhas a cair, pôr-do-sol, Lisboa...) deu luz além do corpo à tristeza dos dois corpos, quase dois corpos, um corpo ou apenas partes em fricção. E tudo era unidade, Lisboa e corpos. E algo ficou colado, e trouxe algo de Lisboa aqui no peito (o colar que a Bárbara me deu?) que me permite ainda respirar essa luz baça e sentir-me ainda, mesmo que seja pouquinho, em casa.

----- COMMENT: AUTHOR: José Miguel Agudo García [Visitante] DATE: Wed, 06 Sep 2006 13:14:19 +0000 URL:

Olá..!
Fico muito contente de saber que gostaste/gostas tanto de Lisboa…
Eu estive cá o ano (curso) todo quase, em julho-agosto fui pà minha terra, Granada.. e agora tou cá de novo pa terminar trámites erasmus, visitar gente, “terminar"(?!) de conhecer ou aproveitar Lisboa.., tentar ir a Coimbra, etc!
Olha, quero enviar cumprimentos a este grande galego, com um blog tão interessante e completo (que inveja! lol..), e com um português tão estupendo..
e uma pergunta: podes me comentar mais alguma coisa de Lisboa, ou algum dado ou ideia concreta..?
Tb tem uma grande parte q é mesmo o centro urbano e não tem esse ambiente especial.. não é?
Acho q a vivência da cidade depende muito de onde vivas e a gente com quem estejas… eu tive experiências muito chatas da “grã cidade".. tipo perguntar por um sítio e nem receber resposta, repetidamente, coisas um bcd tristonhas ou surrealistas…
Tens um sítio de comidas preferido? Algum lugar necessário e pouco conhecido?

Obrigado
Fica bem

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Preparado para Lisbo BASENAME: preparado_para_lisbo DATE: Wed, 06 Oct 2004 10:08:45 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Lá está Bàrbara. Lisboa. Até agora acho que não desfrutou muito. O vácuo de uma não-galega a viver em Lisboa: não percebe nada: é como Espanha mas em pobre -disse-me uma aluna que sentiu nos primeiros dias. Agora está melhor. Esteve no piso do Joaninha, e agora já no seu piso, partilhando com galegos e quê galegos. Luís, Noémia, Carlos, Cristina. Depois de amanhã parto para esses lugares. Morro de vontade por chegar. Por Lisboa, por Bàrbara e por mim. Há tanto tempo que não vou lá que nem sei se não me perderei. Darei notícias da viagem. Saúde.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Hóstiaaaaa! BASENAME: hostiaaaaa DATE: Wed, 06 Oct 2004 10:08:12 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Foi no Festival da Terra e da Língua. Foi este verão, e disse que falaria daquele glorioso dia. Miguel e Vítor estavam lá, como o Pichel, o Valentim, o Máuri, etc. Foram os dois primeiros que me disseram estar a ler este diário. Olá, amigos. Desechos tinham abandonado já o cenário, depois de ter-nos feito dançar a todos/as como loucos/as. Talvez por isso não tivéssemos a cabeça para ouvir os Ruxe-Ruxe, que tocavam a seguir. Tumbados na erva, sem vontade de dar saltos nem guerra, era a única diversão que nos veio à cabeça (com todo o respeito aos Ruxe-Ruxe, etc.). E foi muito divertido competir com o Miguel. Apostámos: que diria mais vezes o cantante: "hóstia" ou "ghoder"? Ganhei eu, não é, Miguel? Bons tempos. Saudades.

Versão antiga desta entrada, para compreender os comentários, ainda que eu continue sem compreendê-los.

Foi no Festival da Terra e da Língua. Foi este verão, e disse que falaria daquele glorioso dia. Miguel e Vítor estavam lá, como o Pichel, o Valentim, o Máuri, etc. Foram os dois primeiros que me disseram estar a ler este diário. Olá, amigos. Ruxe-ruxe estava acima do cenário. A música era simplesmente horrorosa. O único divertido foi competir com o Miguel. Apostámos. Que diria mais vezes o cantante: "hóstia" ou "ghoder". Ganhei eu, não é, Miguel? Bons tempos. Saudades.

----- COMMENT: AUTHOR: Sapoconcho [Visitante] DATE: Mon, 08 Dec 2008 13:50:48 +0000 URL:

ruxe-ruxe rules !!!!

----- COMMENT: AUTHOR: eugeniote [Membro] DATE: Sat, 26 Nov 2005 15:55:48 +0000 URL: http://www.agal-gz.org

Bom, pois por se passa mai algum fã dos Ruxe por aqui, que saibam que acresci nova entrada sobre o tema. Vexam aqui.

----- COMMENT: AUTHOR: ruxe-ruxe fan reintegrado [Visitante] DATE: Mon, 21 Nov 2005 15:54:57 +0000 URL:

Oes ruxeruxe fan, que terá que ver a escolha da norma ligüística agora?
Será verdade que donde há um galego há um filólogo?
Por certo na ruxe-web segundo o teu critério os textos estam escritos tudos “muito mal".

Opa ruxe-ruxe,
Fuck tha police!

----- COMMENT: AUTHOR: prefiro gardar o anonimato [Visitante] DATE: Mon, 21 Nov 2005 15:52:19 +0000 URL:

a min gústanme moito, pero moito os ruxe-ruxe. Pero gústame máis a liberdade de expresión. E se ó rapas este non lle molaron ós ruxe ten todo o dereito do mundo a decir o que lle pete… Igual que vos dicides que Bisbal é unha merda sen razonar a resposta. Simplemente cuestion de gustos.
paz , tolerancia e marihuana irmáns!!!

P.D: e meterse en movidas normativas-linguisticas, como o jicho que criticaba a verba “muito", resulta xa o colmo da intolerancia rancia!

----- COMMENT: AUTHOR: Vox [Visitante] DATE: Mon, 21 Nov 2005 15:27:06 +0000 URL:

Es muy posible que a alguien no le guste un grupo, cuando no tiene el alma como para escucharlo. joder, a mi una vez me repugnó bruce springsteen… yo tenia 2 años y el Boss tocaba en Madrid, mi primo el cachas se pasó la tarde poniendo en el gramófono el Nebraska de arriba abajo… y yo no paraba de llorar y gritar. De hecho, aposté con mi abuelito (que bueno era!) a ver cuantas veces el capullo ese decía Hey!… Gané yo, mi abuelo era un notario con muy mal ojo para las emisiones sonoras y apelaciones al público para conseguir que este no se sentara en la hierva. Quien sabe, igual algun intelectual, al día siguiente recordara solo, tan solo, eso.

Por cierto: Bruce es un puto crack y mi abuelo más.

----- COMMENT: AUTHOR: ruxe-ruxe fan [Visitante] DATE: Mon, 21 Nov 2005 15:10:40 +0000 URL:

Pero tocaban “muito” mal como ercribes tí, ou simplesmente a tí non che gustaron?. Eu estiven alí aquel día e non vín que o público non saltase cos ruxe, máis ben foi exactamante ao revés, cos desechos nen se acercaron ao palco e cos ruxe chegaron a saltar as vallas do escenario.
No que si tes razón é en que o Vituco é un mal falado.

razona tu respuesta.

----- COMMENT: AUTHOR: eugeniote [Membro] DATE: Mon, 21 Nov 2005 13:42:39 +0000 URL: http://www.agal-gz.org

Em fim… eu é que não tenho nada contra o punk. Também não é que me molestem os palavrões, nem muito menos. O único que digo é que soavam mal, tocavam muito mal. Já digo que não os ouvi mais vezes, e se calhar foi só aquele dia. Mas é daquele dia que falo, porque é o que vi. Mas enfim… com uns meses de retrasso, vou modificar a entrada.

----- COMMENT: AUTHOR: cigarrom robote [Visitante] DATE: Mon, 21 Nov 2005 13:21:06 +0000 URL:

Terás que reconhecer que no teu comentário sob os ruxe-ruxe há um certo tom despectivo?
E também terás que entender que alguns dos moitos fans que tenhem ao ler por casualidade o teu comentário deixem algum recado nom moi amistoso?
Por certo ruxe-ruxe nom som um grupo inteletual (para inteletualiade já nos chega com Luar na Lubre) , ruxe-ruxe é-che simplemente punk meu, assí que se num concerto seu ouves demasiados hostia e ghoder é, como diria meu avó, o que há!

P.D. Para quem desejar escoitar aos inigualáveis ruxe-ruxe no seu reproductor mp3 deixo um link no que é possível descarregar os seus dous derradeiros trabalhos:

http://www.ruxeruxe.com/1mp3.php

COMPARTIR É FERMOSO, O EGOISMO NOM!

Ale, ale hop!

----- COMMENT: AUTHOR: rory gallagher [Visitante] DATE: Fri, 18 Nov 2005 18:07:32 +0000 URL:

este wey eché a oxtia. como carallo que os ruxe din tacos????… jajajjajaja… se sonche uns rapaces ben educaos e de aldea cativa. Recordo unha vez na co cantante soltou un “canastros” seghidiño dun “japoetas"… mima… montouse a ghorda… ían suspende-lo conserto pero remataron por anular a xira.

----- COMMENT: AUTHOR: ruxe-ruxe fan [Visitante] DATE: Thu, 17 Nov 2005 09:56:16 +0000 URL:

PENOSO.

----- COMMENT: AUTHOR: eugeniote [Membro] DATE: Sun, 02 Oct 2005 21:42:44 +0000 URL: http://www.agal-gz.org

Não sei quantas vezes hei de responder a estes comentários. Mais um e retiro a entrada do diário. Esta é do Festival da Terra e da Língua de 2004, onde não estavam Berrogueto, que me parecem, com efeito, muito bons. Por outro lado, não sei por que estranhíssima razão há quem espere neste diário pessoal sobre assuntos íntimos e em menor media sociais, uma crítica musical em condições. Era apenas uma recordação para ser lida por quem tinha que ser lida. Pronto.

----- COMMENT: AUTHOR: Ti quen carallo és? [Visitante] DATE: Sun, 02 Oct 2005 17:10:05 +0000 URL: http://www.portugalindependentedagaliza.com

Se o concerto lle gostase a máis do 95% da xente que estaba alí, sí que sería preocupante. Que o amigo esté nese excelso 5% restante non ten nada de particular, incluso é unha loubanza. Por outra parte, tamén tiñas a Berrogueto para contrarrestar, que supoño que serán máis da túa pola, inda que na miña opinión resultaron dunha pedantería insufrible e aburriron a morte a -case- todo o mundo. O que resulta curioso é a profundidade da crítica, que en canto á música limítase a calificala de “simplesmente horrorosa", abundando moito máis en detalles anecdóticos coma cantas veces decía o cantante isto ou aquelo. Se cadra é que cos Ruxe non se aprende xaponés.

----- COMMENT: AUTHOR: xan das bolas [Visitante] DATE: Sun, 31 Jul 2005 15:08:39 +0000 URL:

os ruxe son os mellores e ti es un mameluco

----- COMMENT: AUTHOR: sabela [Visitante] DATE: Wed, 22 Jun 2005 23:31:19 +0000 URL: http://www.pepilucibom.tk

A gente está um pouco alterada ultimamente, nom?

----- COMMENT: AUTHOR: eugeniote [Membro] DATE: Wed, 22 Jun 2005 18:21:54 +0000 URL: http://www.agal-gz.org

Desculpa se feri a tu sensibilidade, amigo barbancés, mas o único que queria dizer era que naquele concerto, aquele dia, naquelas exactas circunstâncias a música de Ruxe-Ruxe soava fatal. Não tenho nada contra eles, antes ao contrário. Parece-me um grupo que faz coisas muito necessárias e que eu nunca serei capaz de fazer.

----- COMMENT: AUTHOR: barbancés [Visitante] DATE: Wed, 22 Jun 2005 12:06:05 +0000 URL:

hostia, pois que saibades que os ruxe-ruxe, con outros ghrupos da nosa zona, estan a darlle vidilla o rock de aquí e en galego. E dende logo que lendo as túas opinións ,a priori dun home de cultura queda un un pouco decepcionado. Unha cousa son os teus ghustos e outra facer escarnio da forma de expresarse dunha xente, que por outro lado son xente auténtica desta terra e que se expresan exactamente como o fagho eu. E concretamente o cantante que criticas, que foi comnpañeiro meu na facultade é unha persoa ben culta e con moitísimos coñecementos sobre a nosa cultura. Eso si, non fala nen escribe do mesmo xeito ca tí. QUE PENA QUE TODOS OS GALEGOS NON SEXAMOS TAN ILUMINADOS COMA TÍ. Despois seghuro que es dos que aprobaches as oposicións a dedo e teu pai está forrado, seghuro que respondes o perfil de fillo de boa cuna, ou boa cona que dirían os heredeiros.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Bem-vindo, Portal BASENAME: bem_vindo_portal DATE: Tue, 05 Oct 2004 10:05:52 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Chegou-me a notícia de que desaparecia o Portal Galego da Língua e deu-me um baque o coração. O que eu vejo neste portal é mais do que informação. Resulta curioso não ter reparado antes no facto, mas afinal, o portal é mesmo uma cominidade. Nas notícias, cada vez que se anuncia um acto, posso saber que está a fazer algum amigo. Os comentários às notícias ou o foro têm-me entretido muito desde que estou em Alacant. Há pessoas aí detrás e posso falar com elas. É um organismo vivo, este portal. Para mim, é o recordo vivo da Galiza, porque neste portal tenho notícias daquilo que eu vivi. Que ainda vivo. Que viverei.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Promessas BASENAME: promessas DATE: Sun, 18 Jul 2004 10:04:55 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Li-o no livro que tinha Pichel em casa. A promessa não é uma realidade, a promessa pertence ao domínio do discurso. A promessa é uma invenção da linguagem. É um conjunto de palavras. É apenas uma regra, realmente, que nos impomos a nós próprios. A promessa é condicionar (ou não) as nossas vidas. Uma promessa é um contrato. Uma promessa é um milagre ou a condena de sermos civilizados.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Anjinhos.. BASENAME: anjinhos DATE: Sun, 04 Jul 2004 09:57:54 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Pensamento social CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Há um par de anos, Anjo, um colega do liceu que não via desde aquela, chegou-se a mim e disse-me: Tio, que vontade tinha de te ver, porque tenho pensado muito em ti (bom, disse o mesmo mas em castelhano). Acontecia que se lembrara de mim porque gostava da actitude que eu tinha no liceu por falar galego. Tinha-se lembrado muito de mim porque, ainda que eu era o único do centro, continuava a falar assim, como a mim me 'molava', e apesar de que todo o mundo dizia que eu era 'gilipollas' (Anjo dixit, a sério). Pelos vistos admirava-me por isso, e eu não sabia se rir ou chorar.

Vem tudo isto a conto da misteriosa enquisa feita pelo misterioso Haklar Casares (de nome sueco e conhecido apelido galego), e as conlusões a que chega, misteriosamente parecidas com as do Dr. Karamba. É realmente triste pensar que fosse necessário um estúdio com "métodos revolucionários" para chegar ao que já sabíamos. Não nego que com certeza os que fizeram o inquérito "estão a favor do galego", mas vale a pena pararmos a ver quanto.

Na notícia que se nos dá em Vieiros, fonte nada suspeita -acho- de esconder coisas neste tipo de temas, diz-se-nos que um dos impulsores do estudo, Manuel González (esse radical) advirte da perigosa situação de identidade entre galego-falante e nacionalista. Nada teria contra o que diz, se não fosse que não assinalou nada sobre o perigoso de assimilar galego-falante a "pailão", e que já se tem acusado o nacionalismo de querer monopolizar a defesa do galego. E é que essa parece ser, segundo a minha leitura, a única referência de todo o engraçado estúdio no que diz respeitos aos CULPADOS.

Os nacionalistas são os únicos. O que chegamos a saber pela notícia não deixa de ser, afinal de contas, que a causa da perda de falantes é, por um lado, a existência de preconceitos, e por outro, toda uma série de problemas estruturais inevitáveis. Afinal, o que nos diz a notícia (pelo menos a mim, como falante médio) é que a coisa está mal, que ninguém tem culpa e todos temos culpa, e sobretudo os nacionalistas. E não podiam, já que estavam, falar das causas dos preconceitos? Não digo no livro, mas na sua apresentação, que é o que transcende. É que o estudo parece muito interessante, mas é que não podíamos saber alguma coisa sem comprá-lo, já que a publicação a pagamos todos?

Não, melhor ficarmos a saber o mesmo. Melhor que ninguém saiba das culpabilidades por ausência. Melhor que ninguém pergunte se o governo galego não poderia fazer algo, se não é a sua obriga. Melhor. Melhor que as pessoas fiquem a saber que existem preconceitos, olhando por cima do hombro os seus vizinhos, seguros, uns e outros, de não serem eles os portadores de semelhante peste. Muito melhor, sim senhor, que os que falemos galego continuemos a ser vistos como pessoas de fortes convicções, admirados pela nossa perseverância, e inevitavelmente icompreendidos, e inevitavelmente assinalados como "gilipollas" pelas mesmas pessoas que dizem admirar-nos. Muito melhor, claro que sim. Para eles. Para os anjinhos. Esses que não aparecem na notícia.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Lloc de paraules BASENAME: lloc_de_paraules DATE: Thu, 17 Jun 2004 10:01:21 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Polsant la pols de les paraules veig ma casa.
Jugant cerco el meu lloc,
la meua llar,
la llum,
el llit que lluita per donar-me calma.
Jugant cerco els meus ulls per a mirar darrere
i trobo ritmes, sons, pronúncies rares.
Ma mirada és de música.
La meua veu es del color de l'ànima.
I entant que intente dir coses
amb el meus dits banyats per l'esperança,
el meu espai es fa davant,
també darrere,
després pertot arreu:
m'acull com d'aigua.

És sols un joc
el meu lloc.
Lloc de paraules.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Comparsa BASENAME: comparsa DATE: Thu, 17 Jun 2004 09:51:30 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Pensamento social CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Vou trabalhar de empregado de mesa à "comparsa" que gerem os pais de Bàrbara em Ontinyent. Chego e sou muito bem recebido pela famíla. Começo a trabalhar e a actividade é frenética: há mais de sessenta pessoas a que servir a comida. Enquanto comem tenho alguns minutos e sento-me, empunho um cigarro como estilete e começo a análise da situação:

1- Levo uma camisola de Nunca Mais. E para mais inri, num povo qualquer de um território, o valenciano, em que o espanholismo se tem preocupado de introduzir e explorar o ódio ao catalão, levo uma camisola de Nunca Mais Catalunya. Muitos olham para mim como má cara. Aquele, que Bàrbara me disse falaginsta, levanta o braço para que vá servi-lo. Pergunta-me em espanhol alguma coisa que não entendo, porque há muito ruído, e respondo em catalão que se me pode repetir. Os amigos que o rodeiam e ele próprio ficam surpreendids (tinham-lhes dito já que era galego), começam a rir e de repente todos me felicitam. Até o temido falangista está agora orgulhoso do valenciano (já dizer que está orgulhoso do catalão é muito), porque, ainda que a recusse, sabe que é a sua língua.

2- À parte algum despistado que se dirige a mim em castelhano pensando que não entendo, todos sem excepção falam catalão entre eles. Ontinyent é considerado um povo por aqui, apesar de ter 31.000 habitantes e muita indústria. Quer dizer, que seria uma cidade na Galiza, mas todos/as falam catalão (contrariamente à Galiza). Curiosamente, no entanto, quando começam a fazer uma espécie de representação de Mouros e Cristãos (a comparsas são associações que preparam essas festas), mudam para castelhano. São representações em verso, de rima mais ou menos fácil e arte menor. E tudo isto faz-me pensar que: a) a tradição destas festas é plenamente espanhola; b) o seu início relativamente recente e mais bem romântico. O curioso, no entanto, é que todos acreditam a tradição vir já desde a Idade Média. E penso no curioso de a grande maioria de celebrações galegas terem origem precisamente aí, na Idade Média, e estarem, pouco a pouco, a morrer. Eles recordam a sua história. Nós rejeitamos o nosso presente, porque, desde essa época longínqua, nunca se foi. Apenas alguns citadinos gostamos disso e o reivindicamos, porque nunca foi o nosso presente. Nos dois casos, buscamos um paraíso perdido. Uns adiante. Outros atrás.

3- A comparsa em que me encontro chama-se Taifes e é uma comparsa moura. Todos os que lá estão representarão mouros nas festas de Ontinyent de finais de Agosto. Por isso uma menina recita versos fazendo de cristã para que outra possa recitar os seus fazendo de moura. Quando fala a cristã, todos gritam e abucheiam. Têm orgulho mouro, do mais velho ao mais novo. A comparsa une-os arredor dum mesmo símbolo: a mouraria.

A poucas quadras de ali, no entanto, há em Ontinyent uma importante comunidade árabe (e muçulmana). Não sei o número exacto, mas comentam-me que existe uma mesquita em Ontinyent e que estão a pedir outra, porque o número de muçulmanos residentes aumenta a grande velociadade. A comparsa é moura, mas não se vê nenhum mouro por aqui. Disque houve algum uma vez, a fazer de empregado de mesa, mas não voltou. O conflito é apassionante, e tem história.

Há uns anos uma comparsa moura, com toda a intenção de fazer a festa o melhor possível, foi à Andaluzia comprar uma alcatifa para a representação. Compararam uma, a mais linda, com umas curiosas inscrições em árabe que ninguém entendia, e com ela fizeram a representação, de grande sucesso tão bonito que era tudo. Foi no dia a seguir, no entanto, quando um importante empresário muçulmano da comarca lhe pôs uma denúncia: aquelas letras eram do Corão e o grande problema é que havia mulheres a passar por cima. Grande escândalo por toda a parte, claro.

Por estes e outros conflitos, uma outra comparsa, também moura, decidiu fazer um exercício de integração e contratar árabes para a representação. Com verdadeira meticulosidade, tentou-se recriar fielmente a vida na Idade Média daquele recanto de Al-Ándalus, pedindo conselho ao próprio imame de Ontinyent. Tiveram um trabalho impressionante, mas nada é perfeito, e no dia da representação, apesar do realismo ou precisamente por isso, ninguém gostou. Faltava-lhe colorido, e era pouco espectacular.

A comunidade árabe não gostou da resposta. O comentário dos mais abertos é que claro, que entendem o ponto de vista da comunidade árabe, mas que eles têm de entender também que essas são as suas tradições e respeitá-las, igual que se respeitam as suas crenças religiosas e se lhes dão mesquitas e tudo. Também é que são pouco compreensivos. E aliás, que são um bocado machistas, porque a história essa das mulheres a passar por cima da alcatifa já me dirás.

E, já agora, esquecia dizer: o dia grande das festas de Mouros e Cristãos é o último. A atracção principal é a queima de Maomé. E na comparsa havia seis mulheres de um total de sessenta e sete pessoas. Quatro dessas mulheres estavam detrás da barra.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Voz própria BASENAME: voz_propria DATE: Fri, 28 May 2004 09:50:02 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Pensamento social CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Uma língua é uma identidade. Dizemo-lo tantas vezes. Socialmente, uma língua marca a fronteira entre "os que falamos assim" e "os que falam doutra maneira". Sem necessidade de abraçar o conceito de nação, é, ou deveria ser, fácil percatar-se de tudo isto. Mas costumamos vê-lo sempre de um ponto de vista nacional. E no entanto, eu sou galego, e falo catalão. Só sentindo-me parte do colectivo de catalano-falantes posso aprender e ajudar e, no entanto, não vou deixar de lado a minha identidade. Mas que identidade?

Façam a prova, se ainda não a fizeram. Apanhem uma aparelhagem qualquer e gravem-se a si próprios. Ouçam-se depois. A sensação é sempre, para a grande maioria das pessoas, muito desagradável. Quase nunca se diz, mas sempre é. Por questões puramente fisiológicas, ouvimo-nos a nós próprios com uma voz diferente a como nos ouvem os demais. E quando ouvimos a nossa verdadeira voz, a sensação é extranha, sabemos que somos nós, mas não podemos reconhecer-nos: não nos identificamos com nós próprios.

A nossa voz, a forma como falamos, é a parte mais importante da nossa identidade. Somos muitos os que nos disfarçamos no entrudo, ou os que fazemos caretas diante do espelho, mas poucos os que imitam voces ou sotaques. Porque a língua é uma identidade (política) que se respira. Está em jogo o nosso ritmo respiratório, para além das melodias que possamos estar acostumados/as a produzir, em forma de prosódia, entoação, etc. A identidade está em jogo dentro dos nossos peitos, e é identidade pura, individual e ao mesmo tempo colectiva (as línguas existem), sem necessidade de grandes razonamentos políticos e filosóficos: talvez não me identifique com uma bandeira, mas identifico-me com a minha próprias voz.

Por isso aprender uma língua é sempre aprender a ser outro em certa medida. Por isso os conflitos linguísticos, sempre políticos, são sempre conflitos identitários. Ainda que não se articule nenhum movimento nacionalista à sua volta. Afinal de contas, o que está em jogo, em comunidades de falantes como a valenciana ou a galega, é se eu me identifico com o meu vizinho e, portanto, não tenho medo em falar como ele. Não se trata apenas de palavras, mas da própria voz, repito. E aí tem muito, muito que revisar o nacionalismo galego. E tanto e tantos isolacionistas que perdem a gorja e a paciência a dizer que os lusistas vendemos a nossa identidade por grafar como grafamos, deviam revisar as suas amígdalas para ver se estão mesmo puras. É claro que também muitos reintegracionistas deviam/devíamos fazer o mesmo.

Corolário:

E fica assim demonstrado como aprender língua é mesmo importante para a simples convivência. E fica assim definido o nacionalismo espanhol, porque o ensino de línguas estrageiras no Estado é mais do que deficiente. Porque o ensino de línguas do estado, que não sejam a espanhola, é também deficiente. E por que será?

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: A pirâmide BASENAME: a_piramide DATE: Fri, 28 May 2004 09:47:43 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: Pensamento social CATEGORY: intimidades TAGS: ----- BODY:

Vejo através da janela da minha casa e vejo obras por toda a parte. Ao lado do meu piso estão a construir uma escola privada que - sai hoje no jornal ? não tem licença municipal para ser construída, mas querem, mesmo assim, abrir no ano que vem para poder competir com o colégio público que abrirá daqui a dois anos a duas quadras daqui. O turismo, soube há pouco, não traz assim tanto dinheiro a Alacant como se pensa. Há povos, como Torrevella, Santa Pola ou Benidorm, em que directamente os turistas são residentes, quer dizer, compraram a sua casinha e não têm que pagar nada por aluguer de vivenda. Também abriram os seus negócios, com preços do estrangeiro, e a gente que antes vivia nesses locais não pode fazer as compras neles, porque não lhes dá o ordenado. Nem sequer pagam impostos, os turistas, e tem de ser o estado, quer dizer, nós, quem pague as infra-estruturas que eles precisam: estradas, caminhos, chafarizes, bueiros, recolhida de lixo, etc. No meu prédio mais do 70% dos pisos estão vazios durante o ano, e mesmo assim, da minha casa vejo um formigueiro de operários a construir vivendas, não hotéis nem estalagens. Quem vai comprá-los? Para todos esses operários, ou outros da sua classe ou poder aquisitivo, as possibilidades de melhora passam por comprá-los e alugá-los a turistas (caso ?optimista de mim- de terem já habitação própria). Entretanto, é de esperar que os turistas também queiram comprar, contando para isso com seu poder aquisitivo, maior quase sempre que o daqui. Em consequência, muito possivelmente subam os preços, e o operário terá que trabalhar mais para poder pagar e começar a ganhar algo com essa ?riqueza? que se lhe vende e a que chamam turismo. Para isso, terá que continuar a construir mais prédios, que o construtor acabará, por sua parte, por vender também, e a quem?

O capitalismo de-construção é o timo da pirâmide. Toda a população alicantina está a dar os seus recursos (recursos naturais e força de trabalho) para que lhe seja devolto multiplicado por dois, quer dizer, em riqueza monetária e meios para o seu próprio ascenso social. Entretanto, na cúspide, o faraó-construtor sorri enquanto se enriquece, empregando os meios de todos/as de forma a amortecer melhor o seu próprio investimento, não o comum, devolvendo apenas parte do que lhe é entregado e ficando com o resto. Mas nalgum momento, como no timo, a pirâmide não poderá crescer mais. Talvez seja mais tarde que cedo, mas tudo chegará. E nesse momento, como no Egipto, o faraó fechará as portas da pirâmide, morrerá entre as suas riquezas, e os escravos ficarão dentro, obrigados a suicidar-se ou suicidados, protegendo e servindo quem foi deus em vida.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Armário BASENAME: armario DATE: Fri, 28 May 2004 09:44:18 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

O coração é como um armário. É necessário de quando em quando tirar tudo o que há dentro e só depois voltar a metê-lo, colocando cada coisa em seu lugar. No processo talvez se dêem algumas surpresas, como achar o par de meias sem usar que havia tanto tempo que não víamos ou aquele t-shit que, de tão velho, perdeu a cor, não o desenho.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Optimismo BASENAME: optimismo DATE: Tue, 25 May 2004 09:42:42 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

A garrafa está meio cheia. A saca do lixo meio vazia.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Oiga, doctor BASENAME: ligoiga_doctorl_ig DATE: Tue, 25 May 2004 09:40:39 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Envia-me o meu irmão por e-mail a letra desta canção de Sabina. Na verdade, não ando bem nesse tema. Um pouco sim, mas nem tanto. O caso é que chegou a época de avaliação aqui à escola e eu ando com exames de um lado e doutro e ainda por cima, Timofonica volta a superar-se a si própria cobrando-me um seviço de tarifa plana ADSL que simplesmente não me permite conectar-me em casa nem cinco segundo seguidos. E na escola o servidor de internet permite-me receber e-mails mas (oh surpresa!) não me permite enviá-los. Estou incomunicado contra a minha vontade. Seja dito que a minha vontade também não é assim uma necessidade absoluta, como era há uns meses, mas existir existe, e não posso dar-lhe saída. Bom, estou a fazê-lo com esta entrada do diário, e outras que virão.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Ací i ara BASENAME: aci_i_ara DATE: Tue, 11 May 2004 09:31:30 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Ha arribat el temps d'escriure en valencià. Ja fa mès de dos setmanes que estic parlant-lo constantment (amb Bàrbara, clar) i mai ho escric. Però això ha de cambiar i ha de ser ara
i ací.

Supose que tindré molts errors, però no m'importa res. També supose que encara no podré dir massa, per que em manquen moltes paraules, però he de intentar-ho i això es el que faig ara
i ací.

Vull ficar-me en Veu Pròpia. No tenen ningú a Alacant. Es suposa que aquesta ciutat es "territori cremat", com ja he sentit mès d'una vegada. I això encara em dona mès ganes de paralar-ho i de fer alguna cosa, el que siga, per a defendre el català ací
i ara.

Ací
i ara.

Ací
i ara.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Cinzento BASENAME: cinzento DATE: Mon, 03 May 2004 09:27:36 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Cinzento, cinzento, cinzento. Dia nublado em Alacant. Acordei com Bárbara, deitar-me-ei com ela. Praticamente moramos juntos. Os seus pais sabem da minha existência e do nosso. Gostam de mim porque falo catalão, disque. Os meus pais sabem da sua existência e do nosso. Acho que não gostam demasiado, porque me querem na Galiza, mas como sempre transigem. Eu sim que gosto, mas também quero estar na Galiza. Ela também gosta, mas vai para Lisboa. Estou tão à vontade com ela. Mágoa que a felicidade não dê para grandes páginas literárias, que por isso escrevo menos. Só às vezes, em dias cinzentos. Mas que se lixe a literatura. Que se lixe. Tenho um espaço que não é de palavras. Tenho uma casa e está um dia cinzento. É isto a Galiza?

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Bàrbara e tal... BASENAME: title_1 DATE: Sat, 01 May 2004 09:17:05 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Penso agora que o caso era não pensar e dou tudo por bom. Porque foi para bem, afinal de contas. Foi assim, e eu reconstruo, ou tento:

Chego a Alacant em Setembro, passo o mês aqui e ao retomar as aulas (já em Outubro), Bárbara está no grupo de segundo ano. Tento fazer aulas descontraídas, vou tomar umas imperiais com os alunos ao sair, procuro dar-me bem com eles, resultar o mais próximo possível. Tento dar uma certa sensação de indisciplina, o que me resulta bastante fácil, na verdade. A ideia é fazer aulas participativas, e para isso permito um certo desordem. Não demasiado, creio. Nesse clima, aliás, posso deixar mais ou menos à vista as minhas tendências políticas. Não que as diga directamente (bom, nalguma ocasião sim), mas sobretudo à hora de vestir os meus t-shirts reivindicativos, os únicos que tenho. Em mais de uma ocasião deixo ver a minha simpatia pela língua valenciana. Bárbara, pelos vistos, gosta disso. Boa coisa. Estou à vontade com ela e isso ajuda-me a dar aulas.

Mas muitos dos alunos vão desaparecendo ao poucos das aulas, especialmente no grupo de segundo. Os que ficam põem interesse, no entanto. Tenho as minhas crises existenciais, pela falta da Galiza e de Sara, que pioram quando chego às aulas e vejo pouca gente: tenho a sensação de que o meu "bom rolho" teve más consequências. Bárbara não falta nunca, no entanto, e há algum dia em que estamos sós e simplesmente vamos tomar algo. Fala-me das suas amigas, da família, dos estudos, e a verdade é que não dou muito pelo que me conta. Muita informação, e eu quero confraternizar, mas nem tanto. Vejo-a e revejo-a. Gosto dela, a verdade, mas o meu coração está noutro lugar e noutro corpo, e não dá para imaginar-me nada, nem para ter sequer a ideia de que talvez pudesse passar algo entre nós. Aliás é aluna e também não me interessa muito ligar-me a este lugar, querendo como quero voltar à Galiza. Porém, gostaria de sair algum dia com alguém que não fosse Gus e Marina. Questão de saber-me um bocado livre. Tento, portanto, fazer-me amigo dela e abro-me muito, ainda mais, e acabo por contar-lhe absolutamente tudo. Falo-lhe de Sara, da minha família, da Galiza, de língua (falei muito de língua). Descubro que ela fala catalão normalmente, mas quase nunca em Alacant. Definitivamente, esta mulher cai-me bem, e é mesmo linda.

Vou para a Galiza, volto da Galiza. Estou com Sara, mas não estou com ela. Aqui, na Galiza e onde seja, estamos mas não estamos. Reconheço que esta situação me vicia, é uma montanha russa de sensações. Sara é complexa, mas vou decobrindo aos poucos que é uma sonhadora, igualzinha que eu, no fundo. E, a verdade, acredito (ainda acredito) que é uma pessoa especialmente... pessoa. Como mais pessoa que os demais. Sinto que o é, portanto é, e claro que estou consciente que há problemas, mas não sinto os problemas, apenas as suas consequências, que por isso doem, doem, doem. Creio que derrubando um par de muros poderíamos ser felizes (sim, sim, felizes). Também lho digo a Bárbara, em conversas a que não dou importância, mas que reparo agora que me fizeram muito bem. É simpática esta rapariga. Escutou-me quando lhe conto que Sara decidiu deixá-lo, e quê bem dissimula, porque realmente parece senti-lo. Sente-o por mim, apesar de que eu não o sinta, porque sei que o olá e o rencontro foram também antes do rencontro e eu tão contente. E sinto-me com forças e com vontade de fazer coisas por aqui, conhecer mais gente, e ? tenho de dizê-lo ? deixar de depender sexualmente de uma viagem de mil quilómetros, que depois chego como chego e não digo mais, que agora resulta que o meu pai anda a ler este diário...

O caso é que desde que o eu Sara o deixamos, eis que Bárbara põe mais interesse em falar comigo. Eu encantado: abro horizontes, posso falar com mais gente, há possibilidades de relacionar-me com quem ainda nem conheço. Enfim, que como sempre, não dou por nada, e isso que está bem claro. O caso é que cada vez vamos mais tomar os copos depois das aulas, e sempre ficamos sozinhos. Estou mesmo bem com ela. Nas despedidas é que aparece qualquer coisa como um campo magnético e tenho de refrear-me para não beijá-la ou qualquer coisa. É assim, é a situação, digo-me que não, basicamente porque é aluna, e esqueço-a totalmente depois que se vai. E pronto. Não quero nada. Não tenho nenhuma intenção, ou isso penso (melhor ainda: isso não penso, porque simplesmente esqueço o tema).

Importante chekpoint: férias da Páscoa. Vou para a Galiza. Estou com a Sara. Mais uma vez, estamos mas não estamos. Não estou a falar de compromiso nenhum, o que digo já o expliquei numa outra entrada deste diário. Por primeira vez sinto a necessidade, não apenas razonada, de estar com alguém aqui. E ? engraçado ? ao segundo dia de chegar, Bárbara vem e convida-me a ir a Valência para a manife de 25 de Abril. Já tinha vontade de ir, mas agora é que decido definitivamente que vou, porque foi ver Bárbara no gabinete e reparar que é ela com quem posso e gosto de estar. Sem pensá-lo, digo-lhe imediatamente que sim e ela fica surpreendida, mas não mais do que eu, embora dissimule e muito bem como sempre. De facto, duvido ? é a minha natureza ? sobre as possibilidades reais de que alguma coisa aconteça. Falo com Marina e ela vê-o claro. Eu a verdade é que bastante, mas prefiro esperar a Valência para saber.

Chega o dia de subir a Valência. Primeiro, no entanto, tenho de ir a Ontinyet a apanhá-la para irmos depois de comboio. É o seu pai que nos leva a Xàtiva, e isso faz-me pensar que ela não tem intenção de ter nada comigo: por alguma razão penso que uma rapariga de 21 anos como ela teria vergonha de apresentar-lhe ao pai alguém com quem quer engatar, coisa que não aconteceria com um professor, antes ao contrário. Minusvalorei a sua madurez, de que tanto gosto. Chegámos a Valência, a casa de Xola (a sua amiga) e as olhadas e certos comentários que faço por ignorar demonstram-me que não só há possibilidades, mas que o peixe está vendido e que simplesmente não se baralha qualquer outra opção. Fazem por ignorar o tema das camas, mas eu bem vejo que, pelos que somos e pelas camas que há, toca-me dormir acompanhado. Alegra-me a perspectiva, mas começam as dúvidas de se é ou não é ético ter algo com uma aluna, por mais que os dois sejamos adultos. Em qualquer caso, sei que não é até à noite que terei que tomar uma decisão a esse respeito, e também não lhe dou demasiadas voltas. Na manife acho Eduardo, a quem lhe tinha dito que eu não queria nada com Bárbara (mentiroso, mentiroso...), vamos os três tomar uma café e ele diz-me que que rapariga tão simpática. Falando, como sempre, eu e Eduardo acabamos por falar das aulas. Bárbara faz por fugir do tema e gosto disso: ela diz claramente que as aulas são as aulas, e que não quer falar delas fora da escola, que nesse momento simplesmente está comigo. Faz por fugir também da palavra amigo ao se referir a mim e eu bem reparo. E pronto, já tudo estava claro. A questão já era só esperar o momento. Chegou a noite, fomos ao concerto, fizemos botellón à entrada e já estava claro que o momento estava a chegar. O primeiro beijo foi, creio lembrar, quando Lluis Llach cantava Que tinguem sort . Coisa bonita. Depois eu tive de ir mijar (pouco romântico mas inveitável) e perdi-a. Ela buscou-me, e eu busquei-a. Telefonamo-nos, mas não há maneira de ouvir o telefone, porque já estão tocando Obrint Pas e é muita festa. Mas sempre nos achamos. Com tanquilidade, mais beijos e muito tá-se bem. Eduardinho que me sorri e diz e repite que ?de puta madre, tio, tu desfruta e passa-o bem? e eu que vou a isso e nisso estou ainda agora.

E assim é que vamos. Bárbara veio dormir comigo todos os dias da semana. Até chegar o fim-de-semana, que tinha que ir trabalhar a Ontinyent. Por isso não escrevi antes, nem falta que tinha. E bom, creio que já disse tudo.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: E sem pensar... BASENAME: e_sem_pensar DATE: Tue, 27 Apr 2004 09:15:22 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

O pensamento é uma doença da alma. Disse-o Alberto Caeiro, se mal não lembro. O budismo zen, sem tê-lo feito explícito (acho) parte de uma base muito similar: o pensamento como doença seria algo assim como a conciência deslocada do aqui e agora. N'A Esmorga o protagonista falava também do pensamento como uma doença, creio lembrar, ou tinha uma doença a que chamava sabiamente pensamento. É-vos o que há. Levo vários dias sem assomar-me a esta janela para escrever e não é por acaso: não tenho muitos pensamentos. 'Tá um tempo magnífico cá embaixo e eu estou melhor que nunca. Barbaramente, se me alguém me entende. Não deu para pensar, mas passaram coisas, ou precisamente por isso.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Voar BASENAME: voar DATE: Fri, 23 Apr 2004 09:07:41 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Tomo assento. Coloco os dispositivos de segurança. A máquina começa a mover-se. Por enquanto vamos bem, subindo a um ritmo lento e parece que não se passa nada, se bem que uma sensação de vertigem comece aos poucos a tomar posse de mim, antecipando o que se achega. Estamos no ponto mais alto e de repente tudo muda: o mundo move-se, começa a dar voltas à velocidade do raio, as pernas esticam-se sós com a força centrífuga, e grito e grito e rio e volto a gritar. São apenas uns segundos, mas bem intensos. Ao pouco tempo estou no ponto de partida, saio de Tizona e vou para a Ave Fénix.

Com efeito: ontem fui a Terra Mítica, esse parque de atracações que há em Benidorm, a apenas trinta quilómetros de Alacant. Uma festa. O mais impressionante, à parte as atracções, foi a mensagem de texto que recebi estando lá: "Bloquéate el móvil que me has llamado dos veces y veo que te lo estás pasando en grande." Era uma mensagem de Bárbara, aluna minha, que me tinha telefonado para me convidar a ir a Valência este fim-de-semana. Flipou. Não sei por que me dá que amanhã me vai tocar aguentar uns quantos comentários simpáticos, durante concerto de Lluis Llach, ou na manife de 25 de Abril, ou talvez antes. Enfim... toca... e até vou gostar.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Nono BASENAME: nono DATE: Wed, 21 Apr 2004 09:07:12 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Procuramo-nos a nós próprios nas palavras dos outros. Ouvimos a música literariamente, ouvindo o que foi escrito, harmonias, ritmos que já conhecíamos. Nono via nisto "uma violência totalmente conservadora". E, reconhecendo o que quer dizer, estando consciente dos mecanismos que assinala, eu vejo apenas liberdade. E entre a sua postura e a minha, assalta-me agora uma dúvida pungente. Qual das duas é que tende para a solidão? Agradeço respostas...

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Tempo BASENAME: tempo_1 DATE: Tue, 20 Apr 2004 09:02:18 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Retomo o diário depois de dez dias de agradável silêncio em terras galegas. Tive tempo para muita coisa. Juan, Tomás, Sílvia, Sara, Carlos, Heitor, Marcos, Pichel, Suso, outro Heitor, os meus pais, a família, a ilha, Cangas, Compostela, Ponte Vedra, a Crunha.

Volto a Alacant depois de uma viagem acompanhado pela minha tia e os meus primos (Tomás incluído até Madrid) e ligando o computador leio que o tempo é um problema, que tudo tem um fim, tudo se acaba. E não posso evitar pensar, relembrando uma leitura de há muitos anos que nem sequer reconheço, que a eternidade é o sucessivo simultâneo. E penso também então que o tempo não é um problema, que o tempo é, pura e simplesmente. Que não está em nossa mão julgá-lo. E sei por experiência que há muitas formas de vivê-lo e que é apenas aí que está o problema. O problema sou eu que o faço. O problema somos nós que o fazemos.

O sábado foi um dia, por exemplo, de rencontro com Carlos e Heitor, na plena consciência de não voltar a vê-los em muito tempo. Um dia de disfrute, com pequenos traços de tristeza por uma despedida que começava muito antes de ter-nos visto. Traços de eternidade do sucessivo simultâneo, que não impediram que no tempo que tivemos juntos passássemos como se nunca nos tivéssemos separado. Vivemos esse tempo. Vivêmo-lo tão intensamente, que até faltei aos actos da AGAL em Compostela, a que tinha dito que ia para ver outra gente que também quero. Um dia de grande bebedeira, de puracos que não fumo sem eles, de reflexões políticas e filosóficas e de piadas brutas, de comentários machistas "que não saiam daqui", de desabafos de tudo isso que se quer fazer e não se pode porque nem sequer se sabe que se quer, e risas e mais risas, e abraços nostálgicos e alimentar-nos mutuamente o ego, poque nisso consiste confraternizar e estamos entre amigos. Um dia para a história, para a nossa história, poque não temos medo de tê-la. Porque a nossa conciência estava no que dizíamos e não no que nos preocupávamos por não dizer.

Não posso dizer o mesmo de outros dias. Porque houve dias em que me matei realmente por não dizer o que pensava, em favor de um simulacro de convívio. Tentei-o várias vezes, mas não tive a resposta que esperava e deu-me medo manter essa postura todo o tempo. Porque estive contigo, que fazias o mesmo, porque tu e eu nos preocupámos por não sentir demasiado. Porque o adeus e a despedida foi muito antes da despedida, e queríamos tê-lo presente em todo o momento. Sem querer, mas foi assim. Aprofundámos na eternidade, e fizemo-lo de mãos dadas (sem a manga a entorpecer), com imensa dor a assolagar-nos, ainda que não a sentíssemos. Pedimos tempo, mas não quisemos o que tínhamos. E esse é o principal problema.

E não me foge que tudo isto acontece pelo domínio do desejo. Que o que acontece é que os dois desejamos estar juntos. E que daí vêm à memória a dois filmes vistos abraçados, as risas ao ver "Abajo el amor", a sensação de eternidade ao ver "Las Horas", e sobretudo o parque de Bonaval, o mesmo lugar a que anos atrás ia com Ramom a filosofar e ver o pôr-do-sol. Ah! E lembro agora, sim: era o folheto que nos deram no CGAC no concerto de música contemporânea de Lugi Nono: a eternidade é o sucessivo simultâneo. Era na mesma época em que escutava Vinícius e Morais:

(...)Que não seja imortal, posto que é chama
mas que seja infinito enquanto dure.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Sebolhão BASENAME: ligsebolhaol_ig DATE: Tue, 06 Apr 2004 08:54:47 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Levo sete horas de férias. Sou todo um portento, porque já estou totalmente bêbado. Fui ao bar do Rubém com toda a ideia de tomar "a última". Resultado: entrei às seis e meia, saí às doze da noite. O cabroncete esteve a pôr-me músicas de:

- El último de la fila
- Carlos Núñez
- Matto Cóngrio
- Citânia
- La Bola de Cristal
- e para acabar de ghodê-la: The Smiths

Que podia fazer eu, senão ouvir acompanhado da minha canha/ do meu quitno de Alhambra? E é que, ainda por cima, o tipo ainda me pergunta por "um grupo que se chama Leixa-prém". Cago em tudo! Assim chego eu à casa, que não diferencio o gato da esfregona!

Enfim, amanhã cláustro (espera aí, creio que claustro não se acuntuava!) e a seguir carro e para a Galiza. Aí o vou!!!!!

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Calrinhos BASENAME: calrinhos DATE: Sat, 03 Apr 2004 08:51:42 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Bom, pois já li Cerdedo in the Voyager 1. E ainda estou comocionado e emocionado. Profundamente. Tudo o que se me ocorre dizer é que Calros é o melhor poeta galego da actualidade. Simplesmente. Cerdedo in the Voyager 1 é todo um alarde de recursos expressivos. Irónico, combativo, extremadamente lírico e íntimo ao mesmo tempo. Poemas visuais que não perdem em nenhum momento o sentido do ritmo. Assustador. Quanto aos conteúdos... Acho que é a melhor expressão da célula da universalidade que já vi. A melhor expressão do espírito vaqueiro. Digo-o totalmente a sério. Quero escrever um artigo de opinião para o portal sobre o livro. A ver se tenho tempo antes de ir para a Galiza.

Coloco a seguir dois poemas.

VI

amoleCERDEDOzura
esqueCERDEDOres
faCERDEDOs
queCERDEDOncela
careCERDEDOte
xaCERDEDOus


XI


Polo pan baila o can

CAN ~ ASTRO

Laika, senta!
e
Laika senta

Laika, deita!
e
Laika deita

Laika, bota
e
Laika vota

Laika, Rolling Stone

E digo eu, como hóstias faz este homem???

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: L'Escaparate BASENAME: l_escaparate DATE: Sat, 03 Apr 2004 08:51:14 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

No pub de Rubém não se pode fumar. E, contra todo o prognóstico, está-se mesmo bem nele. Só falta gente. Mas à falta dela, tem uma boa colecção de cus feitos em cerâmica a servir de vasos e de cinzeiros (na entrada). (Bom, na verdade só tem dois, mas dão mesmo nas vistas e estão muito bem feitos). Ontem fomos lá Gus, Marina e eu. Rubém é realmente uma das pessoas mais interessantes que por cá tenho encontrado. Faz teatro e ajudou-nos a Gus e a mim no playback que fizemos da Década Presitgiosa no Alacant Desperta, representando Nunca Mais. (Bom, corrijo-me de novo, realmente ajudamo-lo nós a ele, fazendo de vedettes). Faz representações todos os dias no seu local, comentando a imprensa, mas nuns horários que não me permitem assistir. (Mágoa. Tenho certeza que estarão muito bem). Ontem esteve a mostrar-nos fotos da inauguração e de obras que representou em tempos. Só as suas caras (é principalmente um cómico) valem o preço do bilhete (seja qual for) multiplicado por vinte. É um tipo que já me caíra muito bem quando o conheci, e que não voltara saber dele até agora. É bom tê-lo localizado (e nunca melhor dito).

(E já agora, ontem tive sexo de baixa intensidade. Sim. Com Gus e com Marina, mas tive. Encerro parênteses).

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Pelotari BASENAME: pelotari DATE: Fri, 02 Apr 2004 08:45:26 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Comprei "La Pelota Basca" de Medem há dois dias. Hoje vi-a, e é mesmo interessante. Muito menos rompedora do que eu esperava, depois de toda a polémica. Achei comezinha, mas está bem.

Medem emprega a metáfora da pelota para a política em Euskadi, e por isso coloca imagens do jogo entre entrevista e entrevista. A mim estas imagens fizeram-me pensar numa outra coisa.

O pelotári impreme o movimento à bola, e a parede devolve-a como rebote. Às vezes dá-lhe efeito, e vai para um lado ou para outro. O pelotári corre então para dar-lhe de novo. Seria impossível jogar sem parede. A parede tem uma importante função no jogo. Às vezes, suponho, pode ser imprevisível para onde largue a bola, sobretudo para jogadores como eu, muito inexperirentes. Mas é o pelotári que impreme movimento. A bola move-se porque ele quer. Pode-se jogar porque ele quer. Enfim, sei que estou a dar uma visão sesgada do jogo, porque um pelotari não pode jogar só, mas é porque é assim que vejo a relação que até há pouco estive a ter.

Prefiro o ténis.

...E porém eis-me aqui pensando nestas coisas.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: O periodo BASENAME: o_periodo DATE: Fri, 02 Apr 2004 08:42:52 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Estou com o periodo, mais uma vez. Deitando contas, acho que me vem uma vez ao mês. Já me volto sentir só. Na verdade, estou a reparar que isso de estar só não passa de um nome, que o meu é estar simplesmente mal. Acontece quando reparo em tudo o que não fiz, ou o que não tenho, ou o que vejo impossível. Na Galiza vinha-me a miúdo, mas então combinava com alguém, tomava umas garimbas por aí, falava. E sempre tinha um abraço, bem na saudação, bem na despedida, bem durante a conversa. Sou abraço-dependente. Na Galiza era a combinação perfeita: passava tempo e tempo só, porque sou solitário por natureza, mas quando a solidão me assolagava, quando todos os projectos que me plantejo para mim podiam comigo, sempre havia alguém, quem quer que fosse, para falar do que quer que fosse. Se uns não podiam, podiam outros. Mas aqui não. Por isso quando me sinto mal, também me sinto só, e passa de quando em quando. Gus (meu caríssimo Gus) não pôde ontem combinar comigo. E acabaram-se as hipóteses.

E depois está a questão do contacto físico, o sexo de baixa intensidade: abraços, beijos, carícias no costado ou na cara. Tudo o que se pode fazer entre amigos ou familiares sem correr perigo. No domingo passado achei uma aluna num bar. Era a inauguração de L'Escaparate, do amiguete Rubém. Lucia, a minha aluna, estava totalmente bêbada, e no meio da conversa e as piadas deu-me um beijo na cara, sem pedi-lo eu nem que a situação o pedisse. Estava bêbada, repito, e emocionou-se com o facto de termos os mesmo amigos e que eu estivesse também bêbado. Mas reparei nalgo importante. No mesmo momento em que me deu o beijo, em que passou a mão pela minha barriga dizendo "Uxio, estás borracho!", dei-me conta da quantidade de tempo que ninguém fazia isso. E foi uma verdadeira libertação poder mover as mãos como uma menina ilusionada, pondo cara de surpresa, justo no momento a seguir. Porque, hóstias, eu tenho pluma. A minha pluma é parte do jogo de sexo de baixa intensidade. A minha pluma permite-me jogar a ser amiga dos meus amigos e amigas, e é uma passada. E já estou farto de ser o professor que tem que guardar a compostura. Romper essa barreira foi lindo. Passar outra vez sem isso, agora sabendo o que estou a perder... não, não é. E não sei se tenho hipótese. Mas esta noite vou ao bar de Rubém a ver quem anda. Se não houver sexo de baixa intensidade, pelo menos poderei conhecer gente para tomar um café.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Mandris pelos correios BASENAME: mandris_pelos_correios DATE: Thu, 01 Apr 2004 08:38:10 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Acordo e dou-lhe a comida ao gato. Vou às aulas. Saúdo os contínuos e eles saúdam-me. Os meus alunos rim as minhas piadas, porque hoje é o dia dos enganos, e aproveito para pôr-lhes uma falsa prova surpresa. Vemos Monstros e Companhia em português, e prometo-lhes que trarei Shreck, que já comprei. Saio das aulas. No hotel de diante da escola saúdam-me quando vou comer, e já quase sabem quê sandes vou pedir, se bem que me oferecem paelha, para que varie um pouco. Como sempre, recuso, e mantenho de novo a conversa de que trabalho na Escola de Línguas e dou aulas de português. Os empregados turnam-se e nem sempre lembram. Volto à escola e reparo mais uma vez em que as aulas de quinto me ficam muito grandes e o livro de texto empece mais do que ajuda. Saio de aulas, e volto a montar no carro, ouvindo como sempre as músicas de Cojón Prieto y los Guajalotes. Tudo mais ou menos como sempre, em definitivo. E chego à casa e de repente nos correios Cerdedo in the Voyager 1. Hóstia puta! Calros Solla escreveu um novo livro de poemas e enviou-mo! A introdução escreve-a o mandril Heitor Mera! Na dedicatória de Calros, que Galiza espera por mim... Na introdução do Mandril disque sou "entrañable". E hóstias! Sinto-me parte de um triângulo amoroso homossexual e acho em falta os meus colegas. Enfim, que a páscoa começa na próxima quarta-feira. E eu vou, Galiza, eu vou...

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Acabou-se a música BASENAME: acabou_se_a_musica DATE: Tue, 30 Mar 2004 08:28:00 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Acabou-se a música. Agora vou escrever. Como despedida deixo no entanto as letras de um bom número de canções. As músicas, cada um que se desenrasque, ou então que me pergunte directamente. Lá vai:

Oasis - Whatever

I'm free to be whatever I
Whatever I choose
And I'll sing the blues if I want

I'm free to say whatever I
Whatever I like
If it's wrong or right it's alright

Always seems to me
You only see what people want you to see
How long it's gonna be
Before we get on the bus
And cause no fuss
Get a grip on yourself
It don't cost much

Free to be whatever you
Whatever you say
If it comes my way it's alright

You're free to be wherever you
Wherever you please
You can shoot the breeze if you want

It always seems to me
You only see what people want you to see
How long's it gonna be
Before we get on the bus
And cause no fuss
Get a grip on yourself
It don't cost much

I'm free to be whatever I
Whatever I choose
And I'll sing the blues if I want

Here in my mind
You know you might find
Something that you
You thought you once knew
But now it's all gone
And you know it's no fun
Yeah I know it's no fun
Oh I know it's no fun

I'm free to be whatever I
Whatever I choose
And I'll sing the blues if I want

Whatever you do
Whatever you say
Yeah I know it's alright

Whatever you do
Whatever you say
Yeah I know it's alright

Linkin Park - Drag

I'm drowning
Make me feel
Like I am real
Torture me
Drag me under you

Time
Lifts me up and down
Time
Makes me
SHUT UP

Life is much too short to be here
Intoxicated
Life is much too short to be here
Drag

Please treat me
Like I'm a fallen angel
Supress me
Tell me
LIES

Life is much too short to be here
Intoxicated
Life is much too short to be here
Drag

You can't tell me

Life is much too short to be here
Intoxicated
Life is much too short to be here
DRAG Yeah yeah yeah yeah yeah

DRAG!
DRAG!
DRAG!

The Cure - Boys don't cy

I would say I'm sorry
If I thought that it would change your mind
But I know that this time
I have said too much
Been too unkind

I try to laugh about it
Cover it all up with lies
I try to
Laugh about it
Hiding the tears in my eyes
'cause boys don't cry
Boys don't cry

I would break down at your feet
And beg forgiveness
Plead with you
But I know that
It's too late
And now there's nothing I can do

So I try to laugh about it
Cover it all up with lies
I try to
laugh about it
Hiding the tears in my eyes
'cause boys don't cry

I would tell you
That I loved you
If I thought that you would stay
But I know that it's no use
That you've already
Gone away

Misjudged your limits
Pushed you too far
Took you for granted
I thought that you needed me more

Now I would do most anything
To get you back by my side
But I just
Keep on laughing
Hiding the tears in my eyes
'cause boys don't cry
Boys don't cry
Boys don't cry

Lenny Kravitz - Again

I've been searching for you
I heard a cry within my soul
I've never had a yearning quite like this before
Now that you are walking through my door.

All of my life
Where have you been
I wonder if I'll ever see you again
And if that day comes
I know we could win
I wonder if I'll ever see you again

A sacred gift of heaven
For better, worse, wherever
And I would never let somebody break you down.
Or steal your crown... never

All my life
Where have you been
I wonder if I'll ever see you again
And if that day comes
I know we could win
I wonder if I'll ever see you again

At every time, I' ve always known
That you were there, upon your throne
A lonely queen, without her king
I longed for you, my love forever

All of my life
Where have you been
I wonder if I' ll ever see you again
And if that day comes
I know we could win
I wonder if I' ll ever see you again

All of my life...
repeat two times
All of my life where have you been
I wonder if I' ll ever see you again
I wonder if I' ll ever see you again
I wonder if I' ll ever see you again
I wonder if I' ll ever see you again

I wonder if I' ll ever see you again
I wonder if I' ll ever see you again
I wonder if I' ll ever see you again

Tenho dito!

----- COMMENT: AUTHOR: letra [Visitante] DATE: Mon, 31 Jan 2011 00:42:53 +0000 URL: http://letra-de-musicas.musicasgratis.org

Nem sei o que dizer direito, essas músicas são fantásticas, boas demais!

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: E agora quê? BASENAME: e_agora_que DATE: Tue, 30 Mar 2004 08:26:38 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Escolhi por fim viver a vida que tenho, e não a que não tenho. Fico. Há coisas que não vou ter e que tinha só em parte. Um homem segura o cabo da frigideira, mas abraça uma viola. Eu abraçava o traste da viola e claro, não soava. Soltei o traste, soltei o lastre. Sofro menos, porque não espero ouvir música, mas também não ouço música. E agora quê? Quem pode convertir o silêncio em melodia? Volta, maldita alma. Atravessa os quilómetros e volta para o meu corpo, tu que estás ainda noutro corpo. Porque esse corpo não é meu. Porque esse corpo não é teu. Porque esse corpo não pode ser teu nem meu. Porque sem ti não posso nem saber se o corpo existe. Se o meu corpo existe. Voltei aqui para buscar-te. Passa pa' casa...

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Na onda... BASENAME: na_onda DATE: Sun, 28 Mar 2004 08:23:31 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Yeah, yeah, yeah... Se gostaste da outra música de Sandra de Sá, espera ouvir isto. A rainha do Soul brasileiro canta com o rapper Gabriel o Pensador este tema que lhe poria os cabelos em ponta ao mesmíssimo Joaquín Luqui se não fosse que o coitado já é assim. Um, dois três - dentro... - Dançando com a vida.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: O salto BASENAME: o_salto DATE: Wed, 24 Mar 2004 09:19:45 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

As ondas de vaidade inudaram os vilarejos
E minha casa se foi como fome e banquete
Então sentei sobre as ruínas
E as dores como o ferro, a brasa e a pele ardiam
Como fogo dos novos tempos
Ardiam... Como fogo dos novos tempos

Refrão
E regar as flores no deserto
E regar as flores com chuvas de insetos

Mas se você ver em seu filho
Uma face sua e retina
De sorte e união
Reina com o brilho do sol o que farias tu?
Se espatifaria ou viveria um espírito santo

Aos jornais eu deixo meu sangue como capital
E as familias um sinal
A corte eu deixo um sinal

Refrão

As ondas de vaidade inudaram os vilarejos
E minha casa se foi como fome e banquete
Então sentei sobre as ruínas
E as dores como o ferro a brasa e a pele ardiam
Como fogo dos novos tempos

Mas se você ver em seu filho
Uma face sua e retinas
De sorte e união
Reina com o brilho do sol, o que farias tu?
Se espatifaria ou viveria um espírito santo

Aos jornais eu deixo meu sangue como capital
E as familias um punhal, um sinal, um sinal
Aos jornais eu deixo meu sangue como capital
E as familias um punhal, um sinal
A corte eu deixo um sinal

Refrão

A O Rappa vai-se-lhes a bola muitíssmo. Mas que pedaço de tema, por favor, que pedaço de tema!

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Tonto BASENAME: tonto DATE: Tue, 23 Mar 2004 09:19:15 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Eu senti-me um pouco
Tonto
Sem saber o que fazer
Talvez fosse a tua
Imagem
Talvez fosse por
Querer

Ao certo abriste-me a
Porta
Mas eu não queria entrar
Só queria uma miragem
Só queria naufragar

Faz tanto tempo
Tanto tempo
E eu não esqueci

E tu chegaste tão perto
Que te apertei no meu peito
Já não era uma miragem
Era a serio eras Tu
Era a serio eras Tu

Faz tanto tempo
Tanto tempo
E eu não esqueci

Tonto - Pedaço de tema de Xutos e Pontapés

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Negro - branco - negro - banco BASENAME: negro_branco_negro_banco DATE: Sun, 21 Mar 2004 09:06:41 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Dormir dormir en ti

O mejor despertar

            Abrir los ojos

En tu centro

     Nebro blanco negro

Blanco

    Ser sol insomne

Que tu memoria quema

      (Y

La memoria de mi en tu memoria

Disse Octavio Paz e eu confirmo. Há, com efeito, uma memória de mim numa memória. Há uma memória sua e eu durmo, durmo, durmo nela. Negro branco negro branco. Negro. Tudo como que quer voltar, porque ficar é impossível. Tudo se move avança para o seu fim o que quer que seja outro começo branco. Negro branco negro. Branco. E entre o ir e o voltar, há este latejo que confirma que eu não sou sem vontade. Este latejo negro. Este latejo branco que queima na memória que queima. Dormir negro branco negro. Ou melhor acordar no centro - branco negro branco - de todos os latejos. De TODOS os latejos -branco- E amar a vida...

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Aqui e agora - 2 BASENAME: aqui_e_agora_3 DATE: Thu, 18 Mar 2004 09:04:04 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Tenho memorizados os semáforos de caminho à casa.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Bye bye, tristeza BASENAME: bye_bye_tristeza DATE: Wed, 17 Mar 2004 08:57:38 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Ninguém aqui é puro, anjo ou demônio,
nem sabe a receita de viver feliz
Não dá pra separar o que é real do sonho,
e nem eu de você, e nem você de mim (bis)

Eu não tô aqui pra sofrer,
vou sentir saudade pra quê,
quero ser feliz
Bye bye, tristeza, não precisa voltar
(bis)

Já sei errar sozinha sem pedir conselhos,
se eu sofrer quem é que vai chorar por mim
Já sei olhar pra mim sem precisar de espelhos,
não me diga que não, e nem diga que sim(bis)

Eu não tô aqui pra sofrer,
vou sentir saudade pra quê,
quero ser feliz
Bye bye, tristeza, não precisa voltar
(bis)

Bye, bye tristeza, magnífica música de Sandra de Sá

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Quebrar BASENAME: quebrar DATE: Tue, 16 Mar 2004 08:56:25 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Quebrar cinturas.

Quebrar fronteiras.

Quebrar corações.

Quebrar cabeças.

Nada - e digo nada - se parece com isto.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Madame Satã BASENAME: madame_sata DATE: Tue, 16 Mar 2004 08:55:08 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Ontem fui ao cinema com os alunos (bom, realmente com a aluna, porque o resto nem apareceu) ver Madame Satã em versão original legendada. Depois de ter-lhes posto Cidade de Deus em aulas, tenho a impressão de ser o professor mais politicamente incorrecto do mundo. Mas valeu a pena. O filme é dos que mareiam. A personagem das que apaixonam. Lindo. Hoje cheguei a casa e fui ver a página oficial do filme. Alucinei.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Horror Vacui -2 BASENAME: horror_vacui_2 DATE: Thu, 11 Mar 2004 08:53:22 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Substituo internet por telefonemas. A preocupação pela língua pelos absolutos, e estes, por sua vez, pela política. Tudo para não enfrentar-me ao meu silêncio. Tudo para não achar-me onde estou. Falo, falo e falo, quando não escrevo, escrevo e escrevo. Esta entrada do diário é um contrassentido. Espero que o pensamento acabe por mudar meus actos, por isso insisto neles. Mas as escadas do amor têm um degrau partido: não se pode ascender sem dar um salto. E eu vou ter que dar vários, está visto. Assim que tchau! Se alguém perguntar, que saí (pela janela).

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Horros Vacui BASENAME: lighorros_vacuil_ig DATE: Thu, 11 Mar 2004 08:52:48 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Acordo outra vez desacougado, na metade da noite. Não sei como dizer que não tenho palavras. Sei bem o que tenho que fazer. Também sei o que não tenho que fazer. Mas não sei não fazer. Mas não sei não pensar. Mas não sei não dizer. Assusta-me o vazio. Assusta-me ainda mais o meu medo ao vazio.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: O que se planta BASENAME: o_que_se_planta DATE: Wed, 10 Mar 2004 08:50:36 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

- O amor - disse eu há tempo - é como Deus. Sou eu que o construo para ser maior do que eu.

Negava o amor a escala humana. Verbalizar é um risco: o que se planta é sempre o que se colhe.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Liberdade BASENAME: liberdade DATE: Mon, 08 Mar 2004 08:49:37 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Deixei de fazer um importante trabalho, carregando outras pessoas com ele. Deixei de fazer porque esqueci, sinceramente. Sinto-o muito por eles, e isso tento, inutilmente, comunicar-lhes. Mas esquecer isso foi do mais inteligente que fiz ultimamente, por raro que pareça. Alegro-me por mim. Liberdade, hóstia, liberdade.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: borboletas BASENAME: borboletas DATE: Mon, 08 Mar 2004 08:47:58 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

este esvarar de areia sobre as costas

estes finos tremores no interior do braço

este formigueiro no peito feito de coração

este dançar das borboletas na barriga

são as carícias que colho das ausências

é a minha forma de fazer-te o amor

mas na distância

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Crise BASENAME: crise DATE: Sun, 07 Mar 2004 08:46:39 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Domingo. Acordo à seis e meia da manhã, nervoso. Há alguma coisa que me preocupa. Até o de agora estive a lembrar, a retomar caminhos que já tinha seguido. Mas acordo inseguro agora, há apenas uns minutos, porque percebo que há algo que não superei nunca. E não sei se me sinto capaz de afrontá-lo agora. Acho que não. E não sei se me vejo capaz de afrontá-lo algum dia. Acho que sim. Mas não é algo que possa afrontar sozinho. Não é apenas a mim que me atinge (- ou sim? -). Acho em falta um abraço. Se tu estivesses aqui, isso resolveria tudo. Mas não estás, e em lugar disso, vou outra vez à praia. O ar limpo e frio do mar a estas horas é mais fácil de respiar.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Verbalizar BASENAME: verbalizar DATE: Sat, 06 Mar 2004 08:43:15 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Às vezes o nome mata o seu referente. Outras vezes ajuda a defini-lo Verbalizar é um risco tão grande e necessário, como só talvez não fazê-lo.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: De retirada BASENAME: de_retirada DATE: Fri, 05 Mar 2004 08:44:55 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Gostava de comunicar os meus silêncios. Mas os vácuos são uns bichos tremendamente susceptíveis, e só podem ser abraçados quando já não interessam. A vontade dá-lhes alergia, como aos gatos.

Ou seja, que estou de retirada.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: De descovertas BASENAME: de_descovertas DATE: Fri, 05 Mar 2004 08:39:52 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Contava-me Juan, um homem budista a que conheci há anos no dojo da mestra Bárbara Kusen, en Madrid, os efeitos das pessoas depois de fazerem zazen por primeira vez:

- A grande maioria de gente redescobre as cores. Outros voltam a dar intensidade a odores, ou percebem de novo como é bom o sabor dos morangos. Para mim, - disse-me - a surpresa foi sair à rua e ouvir como em Madrid cantam os pássaros.

Quando eu o conheci, Juan era o encarregado de tocar uma espécie de tambor (de que não lembro o nome) para indicar o final da meditação Zen e e o início da leitura dos sutras. Essa era a encomenda que lhe tinha feito, sabiamente, a mestra.

Não voltei saber nada sobre ele. Quanto a mim, aqui e agora, sem ter feito zazen ultimamente, aconteceu-me hoje qualquer coisa de parecido. Não vou dizer quê descobri: é uma surpresa. Mas fique por cá o facto de tê-lo descoberto, e que isto me faz pensar que, vá para onde for, estou no bom caminho.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Feridas BASENAME: feridas DATE: Fri, 05 Mar 2004 08:38:46 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Por enquanto
as feridas
sararam.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Raiva BASENAME: raiva DATE: Thu, 04 Mar 2004 08:38:03 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Vejo-me capaz de deitar abaixo uma parede aos murros.

Poderia perfeitamente levantar um touro.

Sinto-me com vontade de matar um homem.

Mas não posso enfrentar-me à mina vida.

E isso só aumenta a minha raiva.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Claridade BASENAME: claridade DATE: Thu, 04 Mar 2004 08:36:27 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Basculho nos limites do coração.

Há um abismo interminável depois da fronteira até onde chego
e as minhas mãos desaparecem se tenciono tocá-lo.

O infinito é um pixel.

O coração torna rígido quando tenciono desenhá-lo ou desenhar-me.

Retomo forças para largá-lo tudo.

Para largar-me.

Para largar amarras.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: O estouro -2 BASENAME: o_estouro_2 DATE: Thu, 04 Mar 2004 08:35:42 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Não sou capaz de controlá-lo. Esta merda vai mesmo estourar. Antes era uma metáfora. Agora é uma panela a pressão.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: O estouro BASENAME: o_estouro DATE: Tue, 02 Mar 2004 08:34:01 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Esta é a oitava entrada que deixo no dia. É óbvio que de repente quebrou a barragem ou qualquer coisa que me retinha. Está bem como início. Mas em breve terei que parar este estouro, reconduzi-lo para a vida. Porque é a única forma de que perdure e quero, mais do que nunca, conservá-lo.

Que o estouro seja um rebento.
Que o coração floresça.
Que seja primavera.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Só BASENAME: so DATE: Tue, 02 Mar 2004 08:33:08 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Não estou só. E nunca estive. Mas a mente no desejo não é consciência, e isso impedia-me de saber. Só quando o desejo se viu colmado pude recomeçar de novo.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Digo amor - 2 BASENAME: digo_amor_2 DATE: Tue, 02 Mar 2004 08:30:45 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Amor é incorporar o desejo:

metê-lo no corpo do amor.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Digo amor BASENAME: digo_amor DATE: Tue, 02 Mar 2004 08:29:55 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Amor é desejo. Eis a grande contradição. E iluminação é a superação de todas as contradições. A harmonização dos opostos. Harmonizar, até, a oposição entre "desejo" e "iluminação".

A essência e os fenómenos entrelaçados como uma aranheira in(di)visível de cristal.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Digo desejo BASENAME: digo_desejo DATE: Tue, 02 Mar 2004 08:28:13 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Um é sempre aqui e agora.
O desejo é deslocar a mente para onde / quando um não está.
A mente no desejo não pode ser consciência.
Consciência é tudo o que podemos ser.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Contradição BASENAME: contradicao DATE: Tue, 02 Mar 2004 08:26:56 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

O amor é a iluminação.
O amor alimenta-se de desejo.
O desejo é o princípio de todos os males.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Cruzar as pernas BASENAME: cruzar_as_pernas DATE: Tue, 02 Mar 2004 08:24:47 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Em lôtus, a união das pernas cria um ponto de intersecção por cima do sexo, e é justo aí que me costuma doer. Na verdade, nunca cheguei a pôr-me em lôtus -apenas meio-lôtus-, mas é precisamente nesse ponto, onde estão os tornozelos, que se me centra a dor quase sempre. Também hoje.

Ponto de intersecção: o presente. Ponto de intersecção: este lugar. Ponto de intersecção: a dor resume "aqui e agora". E há outras maneiras, sim.
Mas esta é tão válida como qualquer outra.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Aqui e agora (2) BASENAME: aqui_e_agora_2 DATE: Mon, 01 Mar 2004 08:22:16 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

E lembro ainda as palavras de E. M. Cioran a dizer aquilo de que "Segundo o Budiscmo, para se libertar é preciso desfazer-se do duplo jugo do bem e do mal. Mas estamos demasiado retrassados espiritualmente para acreditar que o bem seja um impedimento. Assim, não nos libertamos". E fico feliz de saber que o meu caro Cioran errava. E é por isso que me volta o ânimo de reler e praticar. Tudo é maravilhosamente velho e contemporâneo hoje. Luz! Mais luz! Esta noite cruzarei as pernas.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Aqui e agora BASENAME: aqui_e_agora DATE: Mon, 01 Mar 2004 08:00:01 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

"Gritei e nesse grito ardi.
Calei e marginado e mudo ardi.
Dos limites todos me largou.
Ao centro fui e no centro ardi."

Muhamad Jalalaldim Rumi.

Também eu estou a bem pouco de me tornar em chama. O meu coração é quase o centro do universo. E o centro do universo, é bem sabido, está deslocado de si próprio, sempre. Dai esta necessidade (destrudo, dizem que lhe chamam) para voltar de novo ao aqui e agora (buda dixit) e fugir do círculo das rencarnações (1) provocadas pela insã tirania do desejo. Apenas a minha torpeza pode tirar-me deste pensamento, e fazer-me voltar ao inferno de naraka, como chamam os japoneses. Mas que eu seja torpe não seria nada novo.

E é que poucas vezes, nos últimos tempos, tive um pensamento tão claro. E lembro, talvez por isso, um poema que escrevi há tempo, quando conservava a medida certa do caminho do centro. E reproduzo:

Dei voltas com o pensamento
desesperadamente num coarrossel.
Passei tempo no inferno e Naraka.
Do centro
para fora
e vice-versa,
abriu-se um caminho luminoso
que partiu o círculo
Zazen.

(1)- Dizque o tal círculo se chama samsara, em língua Pali. Curioso nome, não é? Porque o universo está dacordo nestes dias?

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Distância emocional BASENAME: distancia_emocional DATE: Tue, 24 Feb 2004 08:14:34 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Distância emocional?
Mmmmmmmmmmmm....
Ooooommmmmmmm....
Hipóteses!

a) O cientista disecciona a rã com estiletes:
- Não é isso.
b) O julgamento é sempre feito por uma terceira pessoa gramatical:
- Também não é isso.
c) O presidente dos Estados Unidos atira bombas, mas não sabe o que é receber um bombardeamento sobre a casa branca.
- Também não.
d) Saber não é sentir. O símbolo não é o mesmo que o seu referente. A distância impede de sentir o latejo de um coração em peito alheio.
- É isso. É mesmo isso.
Que te acho em falta.
Que acho em falta sentir quê sintes.
Que acho em falta sentir que sintes.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: DISTÂNCIA - 4 BASENAME: distancia_4 DATE: Mon, 23 Feb 2004 10:13:01 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

De toda as distâncias, a pior com diferença é a distância emocional. E para essa não há carros que valham. Nem comboios. Nem aviões. Apenas pequenos passos, como passarinhos atrás do pão.

Digo-o para autoconvencer-me, porque o que eu queria agora era um jet privado.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Distância - 3 BASENAME: distancia_3 DATE: Mon, 23 Feb 2004 08:11:08 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Não sei que força ou corrente me impulsa a assomar-me a esta janela agora. Olá, Galiza! Olá! Existe alguém nesse recanto do mundo? Há apenas uma semana que lá estive, e já nem lembro. É assutador como o quotidiano consegue trazer-me a Alacant. Ou foi um carro? Ou fui eu que trouxe Alacant ou o quotidiano? Pouco importa. Estou aqui. Assomado à janela, como sempre. Tenho o corpo no interior do quotidianto, e a cabeça do outro lado, mais uma vez. Eeeeeoooo! Só espero não cair. Seria terrível esmagar a cabeça precisamente com a Terra. Esse é o meu único temor agora: que a Terra me caia sobre a cabeça. Como os gloriosos gauleses. Pedras milenárias e um par de asas por cima das orelhas. Engraçado. Eis-me a mil quilómetros de uma vida perfeita a pensar em gauleses. Antes estava a mil euros mensais da mesma vida. E é que há distâncias e distâncias. E, a verdade, já não sei qual prefiro.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Caminho espiritual BASENAME: caminho_espiritual DATE: Tue, 17 Feb 2004 23:27:47 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

...O meu coração é um sapo que engole as fases da lua...

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Apenas um tacho BASENAME: apenas_um_tacho DATE: Mon, 16 Feb 2004 23:19:12 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Estou sem espaço
Estou sem oco.
Estou sem eco.
Estou sem resposta.
Estou sem repercusão.
Estou sem percusão.
Estou sem bateria.
Estou sem covertura.
Estou sem covertores.
Estou sem lençóis.
Estou sem telas.
Estou sem movimentos.
Estou sem terramotos.
- Estou sem movimentos telúricos. -
Porém queria...
Uma erupção volcânica qualquer...
Lume para esquentar um tacho em que me evapore.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Inactividade BASENAME: inactividade DATE: Sun, 01 Feb 2004 23:16:59 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Escrevi há uns poucos dias o que agora acredito ser o melhor poema da minha vida. Acontece como sempre. Emociono-me, projecto nessas palavras um ideal poético, e nada, já nada pode contentar-me. Escrevo qualquer coisa mas parece vazia. E talvez não seja, mas acho impossível passar dos primeiros versos. A própria ideia, estrutura ou o que for do que vou escrever revela-se-me estúpida e sem sentido, porque não atinge o ideal do que já fiz. Às vezes consigo autoconvencer-me que ainda posso escrever qualquer coisa de bom, que se o fiz uma vez posso fazê-lo outra, que eu consigo, se tentar. E é então que tento. E é então que chega o pior. Porque é quando percebo que estou a repetir o poema de referência. Emprego qualquer palavra que apareceu já antes e tenho a sensação de estar a rescrever o escrito. Pior. Emprego essa palavra e volto a lembrar o poema inteiro, e percebo que o que estou a escrever não serve para nada, que não atinge tudo para o que foi pensado.

Então deixo a caneta ou desligo o computador, segundo o caso. Acendo um cigarro, sento-me a ver TV ou saio a caminhar à praia. E entre fumaça e fumaça, publicidade, passo e passo, dou uma olhada dentro, procurando palavras. E começo a martirizar-me pelo meu silêncio.

----- COMMENT: AUTHOR: ric [Visitante] DATE: Mon, 10 Oct 2011 18:41:22 +0000 URL:

Graças ao tvhd.com.br a Sky nunca mais vai ver a cor do meu dinheiro

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: faz sentido? BASENAME: faz_sentido DATE: Mon, 26 Jan 2004 23:15:55 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

...e de repente as coisas deram em acontecer à velocidade da luz. Como por acaso sentei-me perante o computador e comecei a escrever um poema que se revelou naquilo a que aspirava desde tempo e tempo. Subitamente descobri o Mediterrâneo numa noite fugaz em que o céu e o mar calmo se confundiam com uma única parede negra -uma parede que escoava espumas na base - e fiquei maravilhado. Repentinamente reparei que havia alguém do outro lado do fio, que não estou só em sentido estrito, que o meu gato é a projecção astral de um espírito amável. E de repente, também, vi-me transportado aqui, comecei o trabalho e percebi de novo que desfrutar da vida neste fim-de-semana tinha sido o começo de uma recriminação injusta por não ter feito o que devia. Mais uma vez, o mundo em contra. Mais uma vez, eu contra o mundo. É uma reacção irracional - eu sei-o. Mas faz sentido! Fez sentido! Faz sentido!

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Poema actual à minha moda BASENAME: poema_actual_a_minha_moda DATE: Sun, 18 Jan 2004 23:13:54 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Houve um silêncio.
Tudo se resumiu em frio.
Bateram nas entranhas do planeta
certas ausências,
cálculos decimais,
distâncias.
Partiu-se o gelo de tão frio
e houve
súbito um hesitar da consistência.
Vacilações cutâneas de mar em calma
abalaram o invólucro do ser.
A perfeição desfez-se.
E nada pode já recuperá-la.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: SSSSSSSSS BASENAME: sssssssss DATE: Wed, 14 Jan 2004 23:11:40 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Sossego.

Ser
sugado
sem
salamandras
sentido
sapos
seródios.

ser
selvagem
sob
siso:

Solidão,
soldado
subterrâneo.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: RRRRRRRR BASENAME: rrrrrrrr DATE: Mon, 12 Jan 2004 23:08:15 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Raiva.
Rastejando
relva
rasteira,
recordo
remorsos
rápidos:
recolho
retinas
relembradas.

Retortas
ratas
repartem
reptos
repentinos.

Ressuscito.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: O rato BASENAME: o_rato DATE: Thu, 08 Jan 2004 23:08:10 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Tenho um rato cabrão a me roer nos sentimentos:
- abrindo espaços vácuos
- espargindo galerias de ar entre as entranhas
- descompactando as actitudes como gases no estômago
- dando-lhe espaço ao espaço
- atravessando a matéria do coração a nado
- abrindo as águas da memória

Tenho um rato cabrão a me morder na sombra
da mão
do braço
do coração
da Terra.

PS: E tu, Hamlet, amigo, que fazes que não atacas?

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: O adeus e a despedida BASENAME: o_adeus_e_a_despedida DATE: Mon, 05 Jan 2004 23:02:23 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Será
-achegaram-se as bocas-
simultaneamente aqui e antes
ali e agora
perto
mais perto
- peito -
boca com boca
peito apertado
passo
palpite
- é -
mordida
ali
- beiço
com peito-
moradia
e beijo
presente
- foi -
aqui
passo
simultaneamente
antes da despedida

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Ela BASENAME: title DATE: Fri, 26 Dec 2003 22:59:15 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Às vezes surpreendo-me a mim próprio com as entranhas em posição sexual, tomando e vertendo sangue noutro corpo, como um parasita qualquer de sentimentos. Eis-me aqui, por exemplo, com o pênis a sair-me da barriga, banhado em sangue que nem sei se me pertence, à procura de outra metade. Eu à procura da ela outrem, que se extende para além do espelho dos meus óculos. Nesta ocasião tenteando como um cego, na certeza de haver alguém do outro lado do fio.
-Há alguém aí? - Ninguém responde.
Prova de não achar-me perante o meu eco.
Prova de não achar-me perante o meu oco.
Prova de não achar-me perante o meu ego.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Tempo BASENAME: tempo DATE: Thu, 25 Dec 2003 23:01:38 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Alacant, 5 de Dezembro de 2003. Afinal chegou o Outono.

Que triste tempo quando falava no tempo. Dou uma olhada atrás e só vejo segundos vazios, à procura de um algo nas palavras.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Tudo dá voltas BASENAME: tudo_da_voltas DATE: Thu, 25 Dec 2003 23:00:35 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Tudo dá voltas. Arredor deste mundo que é a minha vida. Tudo dá voltas. Apenas eu não volto, apesar de todas as viagens. A realidade é uma máquina de lavar. Os meus sonhos com Ela um remoinho de mar interior. Tudo dá voltas. A realidade é o enjoo profundo de um poço que dá voltas como tudo. Um poço no deserto. Às vezes até mergulho nas águas para tirar em limpo o tempo de ter estado dentro. Porque tudo dá voltas, o enjoo é a forma mais diáfana de ser-se equilibrado. A realidade é uma ventoinha. O meu sono com Ela um remoinho de dois corpos trançados. Tudo dá voltas, sim. Mas sou eu que não volto. Estou em crise porque a linha recta está em crise. O paraíso perdido é uma doença para a alma. O pecado original é ser-se emigrado de si próprio. (Volta também o tópico da Terra.) A realidade é uma betoneira. O meu acordar com Ela um paraíso em terra firme. Um paraíso para a alma. E eu sou a alma. E Ela é a alma. E tudo é a alma. E tudo dá voltas.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: A viagem - 2 BASENAME: a_viagem_2 DATE: Fri, 12 Dec 2003 22:58:17 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Apenas 4 horas para a partida. Em Alacant volta a ser primavera: tá um dia de sol esplendoroso. Gosto da ideia de que em 19 horas de viagem vou presenciar um fazer-se a Galiza perante os meus olhos por meio do clima. Acho em falta a chuva de Compostela, por tópico que seja. Durante a viagem cantarei Andrés Dobarro.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: A viagem - 1 BASENAME: a_viagem_1 DATE: Thu, 11 Dec 2003 22:57:26 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Amanhã parto para a Galiza. Senti a alegria a invadir-me o corpo justo ao comprar os bilhetes do comboio. É esquisito que não sentisse antes, quando decidi que ia, nem quando decidi que ia compar os bilhetes, sei lá. O caso é que levo vários dias a sorrir como um idiota. E gosto.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Chegou BASENAME: chegou DATE: Fri, 05 Dec 2003 22:55:17 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

O céu está cinzento com variedades de metal e ameaça chuva. Há um vento vendaval que move os plásticos das obras e as ramas das árvores, como que mais escuras, e até pode que com menos folhas. Na praia, o mar grita uma espuma de ondas brancas que fazem eco contra as rochas. Pelas ruas as pessoas escondem-se sob as roupagens e dá a impressão de estarem a pensar para si próprias.

Alacant, 5 de Dezembro de 2003. Afinal chegou o Outono.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Hamlet BASENAME: hamlet DATE: Sun, 16 Nov 2003 22:53:30 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Ontem achei um gato na rua. Tem para aí um ou dois meses. Gostei dele. Estava só, e tinha uma pata mal. É branco e com pequenas manchas cinzentas e atigradas. Trouxe-o à casa para fazer-me companhia. Chama-se Hamlet. Algum dia será o rei da casa.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Distância - 2 BASENAME: distancia_2 DATE: Thu, 06 Nov 2003 22:52:37 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Vivo a mil kilómetros da minha vida intelectual e emocional. Não há tanta distância entre essas vidas. Como é sabido, na Galiza tudo está perto. Mas moro a mil kilómetros do coração e o cérebro e sou, por isso, um homem dividido. Suponho que triste, de alguma maneira, porque fecho a janela e a minha mente fica do outro lado. Mas só um bocadinho. A minha personalidade irónica chegou agora a rir-se de mim. Diz-me que estou a revalidar todos os tópicos sobre os galegos e a saudade. Assim seja.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Distância BASENAME: distancia DATE: Thu, 06 Nov 2003 22:52:24 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Deixei uma personalidade irónica na Galiza. Escrevo de Alacant. Há já dois meses que voltei a esta cidade à beira-mar de calma mediterrânea. Calhou assim, e é aqui que moro. A minha mente, no entanto, está a mais de mil kilómetros de distância. Diariamente entro nesta janela que contrai os espaços e sinto-me um bocado mais perto. De quê. Às vezes a minha ironia vence essa distância, atravessa a janela e senta-se-me no corpo. Perto de mim.

----- -------- AUTHOR: eugeniote TITLE: Isto é só o começo BASENAME: isto_e_so_o_comeco DATE: Thu, 06 Nov 2003 22:47:57 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Isto é só o começo. Escreverei este diário, e é este o começo que lhe dou ou que lhe calha. Dalguma maneira havia de ser. Escreverei quando me der e tiver tempo. Suponho que não serei eu a escolhê-lo. Tempo, tempo, tempo. Quando tiver tempo, quando tiver coisas a dizer. A quem não sei. Suponho que também não posso escolher isso. Tempo para escrever o que não sei a quem não sei. O meu único poder, afinal, talvez seja o de sentar-me perante o computador e deixar sair os pensamentos, as palavras. Mas não quero enganar-me. Esta é a minha situação e sou eu que a escolho. Sou eu a escolhê-la de entre tantas e tantas possíveis.

----- -------- AUTHOR: admin TITLE: Sobre mim BASENAME: sobre-mim DATE: Tue, 27 May 2003 17:25:41 +0000 STATUS: publish PRIMARY CATEGORY: intimidades CATEGORY: TAGS: ----- BODY:

Chamo-me Eugénio Outeiro e nasci na Ilha de Arousa, Galiza, em Abril de 1976. Sou poeta, budista zen, reintegracionista, desenhador web amador, e professor de português. Algumas destas coisas aparecem misturadas de diversas maneiras neste blogue.

Escrevi um modesto livro de poemas, Às Vezes Vida, que a associação cultural Ateneo de Pontevedra teve a bem publicar no verão de 2002, e em julho de 2012 foi publicado o meu segundo livro, Mordida, da mão da Através Editora.

Tento focar a escrita como um complemento de uma prática mais funda e completa: o budismo zen. Pretendo que a poesia seja uma espécie de lupa que me ajude a ver detalhes de que não sou consciente no dia-a-dia.

O meu mestre na prática do zen é Dokushô Villalba Roshi, fundador da Comunidad Budista Soto Zen e do Templo Luz Serena. Também faço parte da Associação Zen de Galiza, de que sou secretário.

Participei durante anos do conselho da Associaçom Galega da Língua (AGAL), no seio da qual tenho desenvolvido o meu gosto pelo desenho gráfico e o desenho web. O portal de blogues que serve de plataforma a este é, por exemplo, da minha responsabilidade. Também é meu o desenho dos sites da AGAL, da Revista AGÁLIA, a loja on-line Imperdível, e dos cursos aPorto, por colocar só aqueles de que me sinto mais orgulhoso.

A única profissão que tenho, porém, é professor de português como língua segunda. Atualmente são os alunos da Escola Oficial de Idiomas de Lugo que têm de suportar as minhas aulas, mas já lecionei nas EOI's de Vila Garcia de Arousa, Santiago e Alacant.

Mantenho este blogue (Intra) desde há já 9 anos, mas para dizer a verdade tenho sido desde aqueles recuados tempos muito pouco constante à hora de atualizar esta janela ao mundo. Atualmente deixo por aqui sobretudo traduções de textos que quero ler e só encontro em inglês. Achei boa ideia traduzi-los para entendê-los melhor eu próprio, e uma vez feito o trabalho, acho que vale a pena ser compartido.

NOTEM: A imagem da ameixieira em flor que encabeça este blogue é da autoria de Weeping Plum, um dos artistas do coletivo Sumie Artists of Canada. O original tinha a assinatura, mas esta foi retirada para evitar confussões sobre a autoria do resto do blogue.

----- COMMENT: AUTHOR: Francisco Rangel Gonçalves de Oliveira [Visitante] DATE: Sun, 17 Jun 2012 21:10:07 +0000 URL: http://www.gelderussas.prosaeverso.net

Eu sou Rangel ou gel como gosto de ser chamado!… Apresento com Gel, o poetinha filho de Russas… Meu objetivo aqui é encontrar um caminho para divulgar meus textos fora do Brasil!
Neste ato,anexo um dos meus textos que ja foi publicado aqui no Brasil atraves do Recantos das letras!

Quero Descobrir Teu Corpo,
Quero Descescobri Voce!…

Quero Descobrir Teu Corpo…
Como o poeta que descobre
A essência das palavras.
Quero descobri teu ser
Em partículas e átomos.
Quero descobrir você…

Quero descobrir teu corpo…
Em um nu não explicito,
Mas em um nu angelical.
Quero sobrepor tuas muralhas,
E teus labirintos.
Quero descobrir você…

Quero descobrir teu corpo…
Submerso em águas rasas,
Para não perder a tua silueta.
Embaixo dos lençóis,
Para fugir do frio e da solidão.
Quero descobrir você…

Quero descobrir teu corpo…
Antes, bem antes…
Antes que seja dia,
Antes que seja noite,
Antes que seja tarde…
Quero descobrir você…

Quero descobrir teu corpo…
Como um viajante universal.
Chamar-te de corpo celestial,
Estrela ascendente e de luz.
Quero descobrir você…

Quero descobrir teu corpo…

Quando sede sentir,
Saciar-me-á a sede de ti.
Quando fome sentir,
Cevar-me-á a fome de ti.
Quero descobrir você…
Quero descobrir teu corpo…

Quando perdido estiver,
Nortearei meu rumo em ti.
Quando exausto estiver,
Repousarei em teu colo.
Quero descobrir você…

Quero descobrir teu corpo…

Descansarei vivo e em paz.
Descobrirei em meus sonhos…
Amarei você…
Assim como eles me revelarem…
Quero descobrir você…

Descobrirei teu corpo,
Descobrirei a tua existência,
Descobrirei o teu amor…
Descobrirei a tua essência,
Descobrirei você…

Descobrirei a razão da minha vida…
Serei quântico, transcendental,
Lógico, físico e imortal.
Serás infinitamente minha,
Serei eternamente teu.
De forma eclíptica em seu
Apogeu, apoteótica…
O sol sobre a lua
Eu sobre você…

Com Carinho… Francisco Rangel
Rio de Janeiro, 04/02/00

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