No centro do círculo
ninguém
apenas ar em vertical
e o ritmo
do coração do vento
A ideia vai mais rápida que a mão que a escreve.
Tento moldar o ar a minha volta,
esculpir o conceito do meu corpo
em vão.
Palheta no nariz.
Tremor do vento.
Barriga a dar as horas.
Café expresso.
na ausência de dores
respirar foi apenas ignorar-me inteiro
contei respirações
cumpri esses ciclos
e depois balancei-me levemente
procurando um centro
no movimento oscilante embalou-se o ego
e levantou-me de mim antes do tempo
da dor surda ao formigueiro
passa o lume que arrasa toda a vida
e me mantém fixado no momento
passam respirações
ficam as dores
o vento aviva o fogo posto
no calcanhar que treme
o fole intensifica em força a pedra
que me transforma em vento
e ardendo o coração lateja
Uma agulha pequenina
espetada no tornozelo
fia este corpo no ar
como um bloco de concreto
Este balão do corpo tem um furo.
Foge-lhe o ar,
não há pressão que chegue
para insuflar-me em força esta consciência.
Andam as cordas bambas. Não seguram
velas os mastros.
Nem a promessa chega de um avanço,
nem o desejo habita de um recuo.
Apenas nevoeiro em torno ao pau.
soaram todos os despertadores
naquela hora em que disseste as palavras
-Distância! A distância!
e a ponta do alfinete
que separa o mundo do mundo
veio espetar-se no cérebro acordado
e inçar de dores as palavras ditas
como uma verdade atordoada
iluminaram-se espaços esquecidos
e só havia pó a pairar no espaço aberto
do quarto em que deixáramos a rocha
dura do coração
feita agora em areia
que apanharemos juntos neste balde
para fazer um castelo em que vivermos
dói-me o mar
em cada tecla
o mar
em ondas sonoras
a sugerir teu nome
a ser escrito
no mar
em cada mar
de cada tecla
em que começa sempre o teu nome