Missão
Missão

Trabalhei no trabalho,
No meu sono eu dormi,
Morri na minha morte,
Já posso partir.

Deixa atrás a cobiça,
Deixa atrás o que sobra.
Cobiça no espírito,
Cobiça na cova.

Minha amada, sou teu,
Sempre fui, permaneço,
Do tutano até aos poros,
Desta pele ao desejo.

Agora que já acaba
Esta minha missão
Pela vida que tive
Pede o meu perdão.

Fui atrás do meu corpo
Que de mim veio atrás.
O meu desejo é um espaço,
Morrer é navegar.

Original do texto e do desenho em Book of Longing, Penguin Poetry, 2007. ISBN. 978-0-141-02756-2 .

(Leonard Cohen)

Poema de amor verdadeiro

Eu não te necessito.
Se não estás
estou sozinho ou com outras pessoas
e não se passa nada.
A tua ausência
não enche o coração de ausências,
porque a minha vida
não és tu.
O meu coração,
que tu tão bem conheces,
também não te pertence.
Afinal, estou a usá-lo
e necessito-o
também com outra gente.
Mas contigo estou melhor que sem ti.
Tu dás valor a coisas que antes nem considerava.
Há algumas que com mais ninguém
consigo compartir.
Contigo o coração é terno
mas não eterno.
Contigo é mais fácil sentir amor à vida
e talvez seja por isso
que a vida te ama
através de mim.
E isso
é
tudo.
E mais nada.

Improvisação com rima

deixar fluir o tempo com o tempo
a vida continua pelas mãos afora
e nada mais que o vento pelo vento
se deixa arrastar para o interior da porta
do peito deste peito dos seus peitos
gravados na memória da memória
e no ventre da deusa em que derreto
em carne e voz a diluir na boca
a sensação de polpa que um segredo
deixa na boca da boca dessa boca

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