A poesia
é ridícula: escreve-a,
orgulha-te,
ufana-te ao espelho
e acredita que sabes.


Ikkyu Sojun

às vezes penso isto

    • either the good and the bad thing about the body is it has so little memory (27-04-2011)
    • si la corteza no nos deja ver el árbol y el árbol no nos deja ver el bosque, ¿que es lo que el... (20-02-2011)
    • deus pai deve de ser, por toda lógica, etéreo-sexual (13-02-2011)
    • Um beijo é tanto mais intenso quanto mais se achegue a uma ameaça de mordida que nunca chega. (28-01-2011)
    • A respiração profunda choca com a digestão. O espírito está no estômago. Alimenta-se daquilo que não... (28-01-2011)
    • O abraço é uma semente que protege com as costas o tesouro das tripas e o sexo. (28-01-2011)
    • "vivemos numa cultura em que mover-se compulsivamente ao som da música é normal, mas sentar-se e..." (15-01-2011)
    • "o nosso amor é infinito - a nossa atenção não" (01-01-2011)
    • "nenhum dia é um dia qualquer" (01-01-2011)
    • tenho a impressão que alguns discursos pró-vegetarianismo têm sérias dificuldades para entender a... (27-12-2010)
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Categoria: intimidades

zafu

No centro do círculo
ninguém
apenas ar em vertical
e o ritmo
do coração do vento

(quarto de lótus, pé direito)
Café

A ideia vai mais rápida que a mão que a escreve.

Tento moldar o ar a minha volta,
esculpir o conceito do meu corpo
em vão.

Palheta no nariz.

Tremor do vento.

Barriga a dar as horas.

Café expresso.

Quarto de lótus III

na ausência de dores
respirar foi apenas ignorar-me inteiro

contei respirações
cumpri esses ciclos
e depois balancei-me levemente
procurando um centro

no movimento oscilante embalou-se o ego
e levantou-me de mim antes do tempo

Quarto de lótus II

da dor surda ao formigueiro
passa o lume que arrasa toda a vida
e me mantém fixado no momento

passam respirações
ficam as dores

o vento aviva o fogo posto
no calcanhar que treme

o fole intensifica em força a pedra
que me transforma em vento

e ardendo o coração lateja

Quarto de lótus

Uma agulha pequenina
espetada no tornozelo
fia este corpo no ar
como um bloco de concreto

za

Este balão do corpo tem um furo.
Foge-lhe o ar,
não há pressão que chegue
para insuflar-me em força esta consciência.
Andam as cordas bambas. Não seguram
velas os mastros.
Nem a promessa chega de um avanço,
nem o desejo habita de um recuo.
Apenas nevoeiro em torno ao pau.

intra

Abri-te as pernas
como um livro
que me escreve.

acordar

soaram todos os despertadores
naquela hora em que disseste as palavras
-Distância! A distância!
e a ponta do alfinete
que separa o mundo do mundo
veio espetar-se no cérebro acordado
e inçar de dores as palavras ditas
como uma verdade atordoada

iluminaram-se espaços esquecidos
e só havia pó a pairar no espaço aberto
do quarto em que deixáramos a rocha
dura do coração

feita agora em areia
que apanharemos juntos neste balde
para fazer um castelo em que vivermos

mar

dói-me o mar
em cada tecla
o mar
em ondas sonoras
a sugerir teu nome
a ser escrito
no mar
em cada mar
de cada tecla
em que começa sempre o teu nome

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