Bàrbara
Bàrbara

as tuas fotos vêm comigo
de casa em casa
de escuro a escuro
esconderijo

nelas estás nua
e nelas
estamos nós
há tanto tempo
nus

tu tão bonita
eu
tão tristemente homem

aquela miúda que ficou comigo
no papel fotográfico
e na memória
também ficou na vida

às vezes penso como pude
conseguir que me amasse
tanta beleza

é claro que não pude

é um mistério de esfinge que me ames
como o teu corpo que produz orgasmos

no teu umbigo remoinham-se arrepios
da minha pele
xiqueta que sempre foste
e és

falta-me tantas vezes o teu corpo breve
quase apagado nos meus braços

os teus peitos que não se apartam dos meus olhos
o teu sexo
que consegue engolir-me inteiro apenas por um apêndice

hoje escrevo estas palavras na distância
amanhã
terei contigo

então verei a prova da constância
desta mente de mono enlouquecido

e oxalá possa abraçar-te intensamente
e aguentar no sofá durante horas
as séries de que gostas

e oxalá o teu cabelo não me moleste no nariz
e possa abraçar-te deitadinhos
tentando acalmar-te quanto possa
as dores menstruais

mas entretanto
estás aqui
nos meus dedos
feita papel
e cores

deusa dos meus instintos
senhora dos meus pecados

menina e moça desse olhar malandro
que me desperta ao coração do mundo

Corpo

Este é o corpo real.

A nuvem louca.

A sensação eterna de queda
haja ou não haja queda.

O fluxo cego que gravita em torno à gorja.

Este é o corpo real
e do real.

O remoinho
de sensações em torno ao estômago.

Estômago o centro do mundo
digerindo
pedras nas tripas.

A segurança
do ar.

O vento.

Só em sentir-se

Depois de superar cansaços e percorrer quilómetros
toco o sino de dharma para o ar vazio.
Só a estátua do Buda se sentou comigo
e me acompanha a respirar as dores.

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