Sábado de entrudo

Lembro pouca coisa do sábado noite. Apenas começarmos a beber as duas garrafas de licor café que eu tinha levado, montar no autocarro de Montixelvo a Pego, sentado ao lado do Eduardo, e continuar a beber licor café. A partir daí é tudo névoa. Nalgum momento descemos do autocarro, eu e Eduardo continuamos a falar, dissemos as palavras mágicas, e lembro apenas que alguém me pegava na mão e dizia "vem, não te percas". Uma mão feminina, possivelmente mais de uma, que pegava na minha sem entrelaçar os dedos, apenas palma contra palma, e os dedos a abraçar o reverso quase sem se dobrarem. Lembro bem a sensação. Talvez fosse a Andrea, talvez a Maria, talvez a Mercé (que encontrei -lembro agora- quando eu estava perdido), ou talvez todas elas. Lembro, no entanto, ter lembrado isso mesmo no dia a seguir, e ter pensado que todas essas mãos eram uma e única, e que o realmente importante era que essa mão não era a minha, a que, adormecida ao volante do meu carro, começava a apanhar os restos da minha vida e a alçá-los

O amor não me salvará

Volto a casa depois de um magnífico concerto de Lluis Llach - depois, também, de mais um desconcerto com Bàrbara que já nem vale a pena narrar - pensando, pensando, voltado para dentro, nalgum lugar dos intestinos mais grossos, feito uma merda para que se entenda. Já o Congro me tinha dito há tempos, já me tinha advertido que ela era demasiado jovem, que me faria dano quisesse ela ou não, que já lhe tinha passado a ele, que fosse com cuidado. E eu a pensar daquela que nem tudo o que acontece a um tem que acontecer a outro, que voltar-se na vida sentimental de outrem com as experiências de um próprio não passa de uma analogia, e não uma lei, mas a pensar agora que as analogias acabam por dar certo, que se calhar foi por isso que dei em ser poeta. E Bàrbara a telefonar-me no meio do concerto porque eu lhe tinha dito que tinha de falar com ela, eu a dizer-lhe ao telefone que não podia continuar assim, a deixar entrever que pedia uma temporada de distanciamento, e então Lluis Llach a cantar Que tinguem sort, e as palavras que já não podem sair da minha gorja, e as analogias que voltam a dar certo, e as palavras de um autor que não conheço num blogue que sim conheço, a dar certo também, as palavras que imagino perfeitamente na pena de Fernando Pessoa imediatamente depois de Ofélia de Queiroz com calcinhas cor-de-rosa, as palavras a retumbar no interior do meu cérebro: o amor não me salvará, o amor não me salvará, o amor não me salvará. O amor não me salvará - a poesia é o meu único abrigo.

Mas onde está? Porque a deixei esquecida entre vírgulas e conjunções copulativas?

Caí...

Cinzeiro Mas conseguirei deixá-lo. Ontem passei o dia todo sem fumar e isso não é pouca coisa. Tive um par de enjoos durante as aulas, um par de taquicardias que duraram o dia todo, mas consegui não fumar absolutamente nada na escola. Não fumei de manhã nem de tarde. O difícil foi à noite, quando me sentei diante desta máquina tonta chamada computador. Na verdade, tinha começado a ver um documentário muito interessante (Del Roig al Blau - La transició Valenciana), mas vinha-me ao computador, voltava, ia para a cozinha, voltava, saí a comprar tabaco, voltava, fui outra vez ao computador, acendi um cigarro e já fiquei colado ao teclado, ao ecrã e ao cigarro. Isto foi à meia-noite e deitei-me por volta da 4:00. Fumei 10 cigarros. Demasiado. Mas na mesma foi pouco para um dia normal. Hoje já levo dois. Os últimos de hoje.

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