Há tempo que não passava por este blogue meu, e há tempo que não deixava nada por aqui colado. Não vou enganar ninguém: é provável que não volte por aqui também em bastante tempo. Mas chegou-me ao correio electrónico este vídeo que demonstra de forma tão clara o porquê de os galegos sermos todos negros, e não queria deixar de publicar para nos horrorizarmos todos e todas. Às vezes é necessário, nem que seja só para lembrar onde estamos.
Levo uns quantos dias alucinando. Ainda não consigo acreditar. Remeto apenas ao magnífico texto de Lupe Cês no foro de Vieiros. Concordo em tudo. Tudo. Passam-me tantas ideias pela cabeça, tantas coisas que quero dizer, entre a minha estima pessoal para com o autores do atentado e a minha absoluta repulsa à acção, por violenta e irracional. Entre a minha preocupação pelo que lhes possa acontecer e a minha carragem pessoal por como tudo isto nos pode condicionar a todos. Entre reconhecer-lhes o espírito de entrega e denunciar que joguem com um projecto de país que é de todos, e que nos condicionem a todos, como se tivêssemos pouco já contra o que lutar. Entre o absurdo e o absurdo, como abrir uma conta de solidariedade com os represaliados na mesma entidade bancária contra a que atentaram. Como que alguém mais conhecido que a Coca-Cola se ponha uma peruca para passar despercebido. Como começar uma guerra aberta pensando só no ataque, e nunca na defesa. Como provocar uma repressão imparável contra eles próprios, e quem sabe contra quem mais. Como passar a vida a justificar uns actos pela sua legitimidade (falsa), e não pela sua necessidade estratégica. A luta armada é legítima? A quem lhe importa! Seja como for é totalmente inconveniente. Quando militava no independentismo passei a vida a ouvir discussões sobre a puta legitimidade da puta luta armada. Pelos vistos, todos pensavam que era conveniente, porque sempre deixámos essa questão a um lado, porque sempre passamos a vida a contradizer o discurso moral da ideologia dominante, sem reparar noutras coisas. Tudo com um absurdo discurso sobre a honra do país que votou sempre maioritariamente num ex-ministro franquista. Tudo com um discurso moral que partia da pátria para chegar ao resto. Absurdo, absurdo, absurdo.
Achega-se o 24 e a juventude galega mais consciente está pronta como todos os anos para a celebração e jornada de rebelião, réveillon e todos/as com a bandeira. A praça de Maçarelos vestir-se-á de festa um ano mais, convertir-se-á de novo no centro do mundo independetista e juvenil. Mas -ó, alegria!- este ano é especial. Este ano vamos com mais foça. Porque na mesma praça -assombremo-nos todos!- vão ter lugar, não uma, mas duas convocatórias simultâneas: a já tradicional da AMI, e a de BRIGA, que deveu de vir em trole. E vai haver concertos simultâneos de Obrint Pas e Betagarri! Na mesma praça à mesma hora! Um verdadeiro prodígio, muito por cima do Festigal, que este ano volta a superar-se com o desenho mais horrível, por mais que seja o único com presença lusófona não galega.
Enfim, que amanhã se tiver tempo ainda comento um bocado mais a jogada, que tem que se lhe conte. Uma pouca vergonha...
Ontem comentava por aí, entre copo e copo, que a Razão (assim com maiúsculas) produz-se e reproduz-se socialmente. A capacidade de uma olhada crítica -neste caso na vida política- está na mão de todos, mas só potencialmente. A Razão é um treino da mente que poucos fazem ou que, para dizer melhor, poucos se vêem forçados a fazer por circunstâncias sociais. E um sistema político como a democracia parlamentarista, baseada teoricamente no valor da razão, não pode passar nestas circunstâncias de uma boa ideia com pouquinha realização prática.
Com todo este tema surgido a partir da notíca de Jaureguízar, e apesar de ter chegado bastante tarde ao conflito, estive a manter uma certa intervenção nos comentários do portal. Coloco a seguir a minha última intervenção, em resposta ao Celso (Álvarez Cáccamo), de que fiquei bastante contente. Não passa de uma metáfoa de tudo, mas aí fica.
O problema do comunismo – segredou-me recentemente o Subcomediante E-1 em reunião ultra-secreta – é que Marx era péssimo contando anedotas, Lenine não sabia dançar a lambada e o Ché Guevara nunca viu os desenhos animados de Son Goku. Vinha a conto da conversa que estávamos a ter, há um par de fins-de-semana, quando eu voltei das Jornadas de Formação que o PSAN teve em L’Espluga del Francolí (Tarragona) e às que assisti com o Eduardo em regime de convidados simpatizantes.
Alguma coisa começa a mover-se, ao que parece. Agora é Vilhar Trilho a escrever em Vieiros sobre o lusismo. O artigo está bem, fala de coisas reais, sobre a falta de reconhecimento aos reintegracionistas, paralela ao reconhecimento progressivo que a socieade galega está a fazer à teoria reintegrata. Descobre Vilhar Trilho o conceito de "lusistas platónicos", e fá-lo entrar no terreno de jogo pela porta grande, nada menos que por um artigo em Vieiros. Começa a estar em jogo, parece, a definição social do campo do lusismo, saber quem tem o poder, a legitimidade, de definir o que é e não é.
Há uns dias escrevi um artigo intitulado Unidades de Bilhar, inspirado numa série de notícias aparecidas recentemente na imprensa galega. A ideia básica era esta: enquanto a unidade da língua castelhana é indiscutida, e mesmo assim potencializada, o movimento espanholizador pode dar-se ao luxo de jogar a fazer carambolas com a unidade das outras línguas do estado. O meu artigo original, que se calhar acaba por ser publicado no portal, seguia uma tradição secular do galeguismo: chegar tarde e mal. Quando por fim o enviei a Vieiros, onde pretendia publicá-lo, já havia um outro, de características muito similares, escrito magistralmente e assinado por Camilo Nogueira.
Também podia ter intitulado esta entrada:
INSTRUÇÕES BÁSICAS PARA A SUPREMACIA DO CASTELHANO
Em qualquer caso, tudo consistiria em colocar na boca do indivíduo político chamado Espanha estas palavras:
"Se eles a reclamam estão a a fazer uma imposição infame. Se a reclamamos nós, é porque somos um amável ponto de encontro."
A boca que se achega para beijar-nos quer mas é comer-nos... Nojento.
P.S.: Coloco como exemplo da unidade da nossa língua o tema do Eu-Návia. Nem que dizer tem que a unidade em geral da língua galego-portuguesa também entra no saco... Estamos, em qualquer caso, numa situação tão fraca que mesmo dentro do estado espanhol a nossa língua conhece duas normas oficais. Repito mais uma vez: NOJENTO.