Minho
Minho

E qual o limite exato
que separa o rio da terra de que bebem
estas árvores refletidas na água?
Onde estão as raízes dos reflexos
destes amieiros e carvalhos
a beira-rio?

A gravitação dos astros, a rotação
da terra, o simples peso
da combinação infinita de duas partículas
de hidrogênio e apenas uma
de oxígeno
movem o fluxo de que bebem
os javalis e os olhos dos amantes.

À beira desta terra passa água.

Dizemos que o Minho corre para o mar.
Dizemos Mera, Parga, Ladra,
Narla, Rato...
Os nomes construíram geografias
em que habitamos,
mapas que desenhamos
no território de um país fantasma.

A fantasia de conhecer o espaço
modificou o mundo à nossa imagem.
Destes moinhos e caneiros
nasceram as barragens que assolagaram vidas,
e iluminaram noites.

À beira desta água nós passamos
vida ante vida.

Apesar dos mapas,
fluímos.

Diluídos no tempo
somos
o que fazem de nós as margens e os caneiros
que nos conduzem as águas.

Domesticamos as correntes mas ignoramos
o seu mistério.

O Minho não existe.
Os átomos não são certezas.
Água
é só um nome.
Nem sequer o reflexo
da rama a tremer na superfície
oferece uma ideia a que agarrar-se.

Maria

Nasceste comigo para nascer de mim
mas não consigo
parir-te.
Sinto que estás
dentro das tripas desejando
somente ser tocada.
E quando o ar dá carícias ao peito
por dentro da laringe e borboletas
saltitam na barriga como querendo
querer-me
sei que o faço.
Eu também queria que fosse mais.
Mas passo a vida a ignorar-te e a ignorar-me
guardando as borboletas com uma pedra no peito.
Como farei para querer-te
eu, que mal consigo querer-me?
Como farei para querer-me em ti?
Tu, mulher impossível no meu corpo, como?

* * *

Hoje começa a nossa história.
Hoje vou dar-te a mão e prometo
que não te solto. Hoje
vamos andar juntinhos
sentindo os corações unidos.
Hoje adormeço contigo nos meus braços.
E hoje apresento-te aos amigos,
que há gente que quero que conheças,
e já começa a ser tarde.
Dou-te um presente de anos,
que é simplesmente um nome,
e vamos juntos dançar
a vida.

Cristo
Cristo

há quanto tempo levantaram
a tua dor aos céus
carpinteiro
da ironia celeste
nesse humor negro
de te pregar ao madeiro?

do Gólgota ao presente construíram
vaticanos inteiros em teu nome
monumentos de amor e medo
e mortes consentidas

atiraste as redes e pescaste isso

agora
a tua dor é a nossa nas alturas

mas abres os braços mortos
a olhar para cima como se não houvesse
ninguém por estes lados

tu já não podes abraçar e a distância
é demais para abraçar-te

o teu único consolo é a consciência
de estarmos juntos sem consolo

pescador pescado

filho de peixe

quem nos dirá agora
que quem sabe nadar não necessita
caminhar sobre as águas?

Tags: cristo, dor

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