às vezes penso isto

    • Aquilo que sou não é derrota nem fracasso daquele que creio que sou. (20-02-2014)
    • Os esqueletos não têm sexo, mas na mesma fazem amor quando nós fazemos. (20-10-2012)
    • Salvação é uma palavra gorda e avelhentada. (23-09-2012)
    • Comemos com a fome dos nossos avós. /  Estudamos com a vontade de aprender / dos nossos pais. Será... (19-07-2012)
    • A realidade é a memória da existência (26-05-2012)
    • Decir ‘amor’ es fácil, pero expresarlo… (19-05-2012)
    • É difícil seguir a natureza, mas continuá-la é inevitável. (10-05-2012)
    • A verdadeira compreensão é uma expressão (11-04-2012)
    • Esta euforia não me pertence (18-03-2012)
    • nem o amor nem deus nem a beleza: nada que eu crie é maior que eu próprio (11-03-2012)

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Cristo

há quanto tempo levantaram
a tua dor aos céus
carpinteiro
da ironia celeste
nesse humor negro
de te pregar ao madeiro?

do Gólgota ao presente construíram
vaticanos inteiros em teu nome
monumentos de amor e medo
e mortes consentidas

atiraste as redes e pescaste isso

agora
a tua dor é a nossa nas alturas

mas abres os braços mortos
a olhar para cima como se não houvesse
ninguém por estes lados

tu já não podes abraçar e a distância
é demais para abraçar-te

o teu único consolo é a consciência
de estarmos juntos sem consolo

pescador pescado

filho de peixe

quem nos dirá agora
que quem sabe nadar não necessita
caminhar sobre as águas?

Tags: cristo, dor
Um homem às direitas

Devia de ter eu os meus cinco ou seis anos. Naquela época os meus pais deixavam-me ficar em casa dos meus avós durante longas temporadas no verão, num tempo que eu desfrutava entre o mar e a pouca terra da Arousa, que parecia infinita sob os meus pés. Passava o tempo com amigos ou simplesmente seguindo o meu avô Francisco, o Samaro, nas suas caminhadas. Às vezes levava-me com ele pescar chopos, ou à batea, onde eu ficava maravilhado com a força infinita das suas mãos e braços, capazes de levantar cordas de ostras em peso.

As manhãs eram normalmente para passar o tempo em Pedra Serrada. Em casa dos meus avós, eu brincava com o cão, subia à figueira, ou acompanhava Francisco a fazer todo o tipo de trabalhos, de plantar ou colher batatas e milho a arranjar objetos trabalhando madeira. A minha avó, entretanto, limpava ou cozinhava dentro de casa, e não me queria lá dentro. Ela também plantava e colhia quando era o tempo, mas o que ela mais gostava era de falar com a vizinhança. A casa tinha um caminho que unia Pedra Serrada com a rua do cemitério, e ainda que era privado, era constantemente transido por pessoas que saudavam e davam uma conversa que a minha avó adorava. Por ali falava-se de tudo o que acontecia na Ilha, e dava-se opinião velada sobre a vida de todo o mundo. O meu avô, no entanto, gostava de estar sozinho, com o cão, e trabalhar com as mãos ou caminhar. E falava também com os vizinhos, é claro, mas assim que podia saía de casa para caminhar em silêncio.

Na parte de trás da casa, que agora já é parte de diante, tinham os meus avós um galinheiro. Eu não gostava muito das pitas, que achava bastante aborrecidas, ainda que me emocionava cada vez que encontrava um ovo por baixo do poleiro. Acho que era a minha avó que lidava mais com elas, e foi ela que descobriu nalguma ocasião que os pardais andavam a comer o grão. Depois de um tempo, decidiram pôr uma rede ao grande oco que as reixas deixavam pela parte de cima, e lá ficavam presos os pardais cada vez que tentavam chegar-se a comer.

A partir daí, o galinheiro ganhou interesse para mim. Subido à figueira, onde gostava de passar a maior parte do tempo, estava atento sempre por se nalguma ocasião caía um pardal. Quando acontecia, corria a buscar o meu avô, que, com aquelas mãos grandes, agarrava o pardal com cuidado e baixava-o para que eu visse de perto como era. Às vezes permitia-me segurá-lo eu próprio, mas sempre, sempre, o pardal voltava a ser ceivo.

Numa ocasião que o meu avô não estava em casa, vi de cima da figueira um pardal na rede, e fui correndo buscar a minha avó. Ela veio logo para fora, e descobriu que lá não havia um pardal, mas dois, e perante os meus olhos, apanhou-os um a um e retorceu-lhes o pescoço. Mentiria se dissesse que aquilo me resultou violento, mas evidentemente chocou-me a diferença na forma de agir. Por isso lhe perguntei:

    - Abuela, porque mataste os passarinhos?
    - Para comê-los! Agora vou frigi-los e já verás que bem sabem.
    - Pero o abuelo não os mata nunca….
    - Às vezes o teu abuelo não faz as coisas como um homem às direitas. A partir de agora, se gostas dos passarinhos no prato, tu diz-lhe que os mate.

Aquele dia a minha avó comeu um pardal e eu o outro, enquanto o meu avô engolia um grande prato de arroz com qualquer coisa. Eu gostei do sabor do passarinho, ainda que me resultou muito difícil de comer, porque havia muitos ossos e pouca carne. Mesmo assim o meu veredito era claro: o passarinho sabia bem.

Dias depois, estando eu brincando outra vez na figueira, enquanto o meu avô trabalhava no alboio, um novo pardal caiu na rede. A minha avó devia ter ido à vila para qualquer coisa, porque lembro que não estava em casa. Como era habitual, corri a buscar o meu avô, e ele veio e agarrou-o nas suas mãos enormes. Mas desta vez eu não tinha tanto interesse em ver o passarinho:

    - Abuelo, mata o pardal…

O meu avô ficou paralisado.

    - Pero porquê?
    - Para que abuela o cozinhe e eu possa comê-lo.
    - Pero o pardal quase não tem carne, não vale a pena…
    - Eu gosto! Sabe bem.
    - Um pardal pequeninho, tão bonito, não preferes soltá-lo?
    - Não, a abuela diz que matá-lo é fazer as coisas como um homem às direitas, e tu tens de ser um homem às direitas…

Então o meu avô Francisco, o Samaro, retorceu a cabeça do pardal com suas mãos enormes. Enquanto o fazia, o seu rosto desfigurou-se e as lágrimas saltaram-lhe nos olhos. Eu olhei para aquilo estupefacto e, ao pouco tempo, era eu quem chorava desconsoladamente. Então o meu avô disse-me algo irritado entre as suas próprias lágrimas:

    - Pero só o fiz porque tu mo pediste!

E eu voltei a chorar ainda com mais força, porque era verdade.

-

como dizer que morro em cada coisa?

que cada objeto é a medida dos limites
da própria vida

que em cada abraço morro nesses braços

que quando vejo morro e se sou visto mato

que a vida é sempre este morrer em tudo

que morro em cada flor e em cada flor renasço

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