às vezes penso isto

    • Aquilo que sou não é derrota nem fracasso daquele que creio que sou. (20-02-2014)
    • Os esqueletos não têm sexo, mas na mesma fazem amor quando nós fazemos. (20-10-2012)
    • Salvação é uma palavra gorda e avelhentada. (23-09-2012)
    • Comemos com a fome dos nossos avós. /  Estudamos com a vontade de aprender / dos nossos pais. Será... (19-07-2012)
    • A realidade é a memória da existência (26-05-2012)
    • Decir ‘amor’ es fácil, pero expresarlo… (19-05-2012)
    • É difícil seguir a natureza, mas continuá-la é inevitável. (10-05-2012)
    • A verdadeira compreensão é uma expressão (11-04-2012)
    • Esta euforia não me pertence (18-03-2012)
    • nem o amor nem deus nem a beleza: nada que eu crie é maior que eu próprio (11-03-2012)

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Ramón

resta-nos tanto mar por engolir
amigo
tanta verdade de sangue descarnada
tanta brecha que coser
e velear à sua margem

resta-nos tanto mar por engolir

vemo-lo desta praia de pedrinhas e cunchas
que o tempo desfez

antes eram os cons de semuinho
ou o com de três pés
ou a punta cavalo

mas o farol fez-se areia
e como a areia
continuamos mareados

o tempo fez-se idade

embarcados nesta distância que nos une
esta dorna que é um presente de gerações e anos
dalguma maneira conseguimos viver sem recordar-nos

surpreende-nos um dia
o piano esquecido cujo pedal deixa ainda reverberar sakuras
ou um disco de tangos
e todos os recordos são presentes do passado

o tempo
vemo-lo agora
fez-se idade

o tempo
que será história

de nós
talvez nada se salve na memória
de todos

talvez lembranças baças ou só nomes em livros
que ninguém leia
- e se os lessem, sejamos sérios, o que leriam? -

talvez nada tenhamos feito quando o vento da história nos sobarde a nos rebentar a vela

talvez engulamos o mar de vaga em vaga
talvez não possamos mais coser a brecha
talvez só fique de nós esta verdade de sangue

nem somos nem seremos nada

mas ao enfrentar a morte
como a enfrentamos agora nestes versos
flutua ainda no mar uma certeza

que cada vento
que alguma vez navegámos juntos nesta dorna
foi para o mundo ser melhor
agora

Uma visita ao casarão do Sr. Fuji

Está fora da vila, a alguns kilómetros de distância.
Caminhei até lá, na companhia de um lenhador,
um percurso sinuoso através de pinhais esverdeantes.
À nossa volta, no vale, rebentos selvagens de ameixeiras de perfume doce.
Cada vez que o visito ganho alguma coisa nova
e lá estou realmente à vontade.
Os peixes do estanque são grandes como dragões
e a floresta que o circunda é calma durante todo o dia.
O interior desta casa está cheio de tesouros:
volumes de livros espalhados por toda a parte!
Inspirado, abandonei o meu kesa, naveguei entre os livros
e compus os meus próprios versos.
Ao pôr do sol, caminho através do corredor do oeste
e sou deleitado de novo por um bando de pássaros primaveris.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA.

(Ryôkan)

O que é esta minha vida?

O que é esta minha vida?
A vaguear, confio-me ao destino.
Às vezes risos, às vezes lágrimas.
Nem um laico nem um monge.
Uma chuva precoce de primavera garoa uma e outra vez,
mas os rebentos de ameixeira ainda não alegraram o ambiente.
Toda a manhã fico sentado junto à lareira,
sem ter com quem falar.
Procuro o meu caderno
e pincelo alguns poemas.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA. O título é meu.

(Ryôkan)

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