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    Novembro 2020
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    Rui Davide em Ourense

    Rui Davide em Ourense

    Rui Davide é um cantor portuense, com uma voz privilegiada e que vem a Ourense por terceira vez. O seu repertório é formado por música de intervenção dos anos 60 e 70: Zeca Afonso, Sérgio Godinho, Fausto... e ainda músicas de ícones brasileiros como o Caetano Veloso.

    O Concerto decorrerá nesta sábado, dia 31, no local social A Esmorga, no seio das II Jornadas de Língua de Ourense. A entrada é de graça.

    O evento é denominado pelo autor Sons e Signos. Em suas próprias palavras:

    "Sons e signos é uma escolha muito pessoal de entre o universo dos grandes escritores de canções.

    A palavra e a música entrelaçadas, de mãos dadas. A canção-documento, a canção que fixa o instantâneo, a canção que canta o protesto. Datadas, mas dotadas de uma expressão artística, estética e poética inquestionável que lhes garantem uma intemporalidade própria para lá do que representam. Como signo e significado. Som e signo."

    Eis as letras dalguns dos temas que vai tocar:

    Zeca Afonso

    Era um redondo vocábulo
    A morte saiu à rua
    Maio Maduro Maio
    Coro da Primavera
    Mulher da Erva
    Cantar Alentejano
    Sérgio Godinho

    Que força é essa
    Cuidado com as imitações
    O meu compadre
    Fausto

    O barco vai de Saída
    Navegar Navegar

    Cantar Alentejano
    (José Afonso)

    Chamava-se Catarina
    O Alentejo a viu nascer
    Serranas viram-na emvida
    Baleizão a viu morrer

    Ceifeiras na manhãfria
    Flores na campalhevãopôr
    Ficou vermelha a campina
    Do sanguequeentão brotou

    Acalma o furorcampina
    Que o teuprantonão findou
    Quem viu morrer Catarina
    Não perdoa a quem matou

    Aquela pombatãobranca
    Todos a querem p'ra si
    Ó Alentejo queimado
    Ninguém se lembra de ti

    Aquela andorinhanegra
    Bate as asas p'ra voar
    Ó Alentejo esquecido
    Indaumdia hás-de cantar

    Maio, MaduroMaio
    (José Afonso)

    Maio maduro Maio, quem te pintou?
    Quemte quebrou o encanto, nuncate amou.
    Raiava o soljá no Sul.
    E uma falua vinhalá de Istambul.

    Sempredepois da sesta chamando as flores.
    Era o dia da festaMaio de amores.
    Era o dia de cantar.
    E uma falua andava ao longe a varar.

    Maio com meu amigo quem dera já.
    Sempre no mês do trigo se cantará.
    Qu?importa a fúria do mar.
    Que a voz não te esmoreça vamos lutar.

    Numa rua comprida El-rei pastor.
    Vende o soro da vida que mata a dor.
    Anda ver, Maio nasceu.
    Que a voz não te esmoreça a turba rompeu.

    Mulher da Erva
    (José Afonso)
    Velha da terra morena
    Pensa que é já lua cheia
    Vela que a onda condena
    Feita em pedaços na areia

    Saia rota subindo a estrada
    Inda a noite rompendo vem
    A mulher pega na braçada
    De erva fresca supremo bem

    Canta a rola numa ramada
    Pela estrada vai a mulher
    Meu senhor nesta caminhada
    Nem m'alembra do amanhecer

    Há quem viva sem dar por nada
    Há quem morra sem tal saber
    Velha ardida velha queimada
    Vende a fruta se queres comer

    A noitinha a mulher alcança
    Quem lhe compra do seu manjar
    Para dar à cabrinha mansa
    Erva fresca da cor do mar

    Na calçada uma mancha negra
    Cobriu tudo e ali ficou
    Anda, velha da saia preta
    Flor que ao vento no chão tombou

    No Inverno terás fartura
    Da erva fora supremo bem
    Cantarola tua amargura
    Manhã moça nunca mais vem.

    Coro da Primavera
    (José Afonso)
    Cobre-te canalha
    Na mortalha
    Hoje o rei vai nu

    Os velhos tiranos
    De há mil anos
    Morrem como tu

    Abre uma trincheira
    Companheira
    Deita-te no chão

    Sempre à tua frente
    Viste gente
    Doutra condição

    Ergue-te ó Sol de Verão
    Somos nós os teus cantores
    Da matinal canção
    Ouvem-se já os rumores
    Ouvem-se já os clamores
    Ouvem-se já os tambores
    Livra-te do medo
    Que bem cedo
    Há-de o Sol queimar

    E tu camarada
    Põe-te em guarda
    Que te vão matar
    Venham lavradeiras
    Mondadeiras
    Deste campo em flor

    Venham enlaçadas
    De mãos dadas
    Semear o amor

    Ergue-te ó Sol de Verão
    Somos nós os teus cantores
    Da matinal canção
    Ouvem-se já os rumores
    Ouvem-se já os clamores
    Ouvem-se já os tambores
    Venha a maré cheia
    Duma ideia
    P'ra nos empurrar

    Só um pensamento
    No momento
    P'ra nos despertar

    Eia mais um braço
    E outro braço
    Nos conduz irmão

    Sempre a nossa fome
    Nos consome
    Dá-me a tua mão

    Ergue-te ó Sol de Verão
    Somos nós os teus cantores
    Da matinal canção
    Ouvem-se já os rumores
    Ouvem-se já os clamores
    Ouvem-se já os tambores

    A Morte Saiu à Rua
    (José Afonso)

    A morte saiu à rua num dia assim
    Naquele lugar sem nome pra qualquer fim
    Uma gota rubra sobre a calçada cai
    E um rio de sangue dum peito aberto sai
    O vento que dá nas canas do canavial
    E a foice duma ceifeira de Portugal
    E o som da bigorna como um clarim do céu
    Vão dizendo em toda a parte o pintor morreu
    Teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual
    Só olho por olho e dente por dente vale
    À lei assassina à morte que te matou
    Teu corpo pertence à terra que te abraçou
    Aqui te afirmamos dente por dente assim
    Que umd ia rirá melhor quem rirá por fim
    Na curva da estrada há covas feitas no chão
    E em todas florirão rosas duma nação.

    Era um Redondo Vocábulo
    (José Afonso)
    Era um redondo vocábulo
    Uma soma agreste
    Revelavam-se ondas
    Em maninhos dedos
    Polpas seus cabelos
    Resíduos de lar,
    Pelos degraus de Laura
    A tinta caía
    No móvel vazio,
    Convocando farpas
    Chamando o telefone
    Matando baratas
    A fúria crescia
    Clamando vingança,
    Nos degraus de Laura
    No quarto das danças
    Na rua os meninos
    Brincavam e Laura
    Na sala de espera
    Inda o ar educa

    Que força é essa
    (Sérgio Godinho)

    Vi-te a trabalhar o dia inteiro
    Construir as cidades para os outros
    Carregar pedras, desperdiçar
    Muita força pra pouco dinheiro
    Vi-te a trabalhar o dia inteiro
    Muita força pra pouco dinheiro

    Que força é essa
    que força é essa
    que trazes nos braços
    Que só te serve para obedecer
    que só te manda obedecer
    Que força é essa, amigo
    que força é essa, amigo
    Que te põe de bem com os outros
    e de mal contigo
    Que força é essa, amigo
    que força é essa, amigo

    Não me digas que não me compreendes
    Quando os dias se tornam azedos
    Não me digas que nunca sentiste
    Uma força a crescer-te nos dedos
    E uma raiva a nascer-te nos dentes
    Não me digas que não me compreendes

    Que força é essa?

    Vi-te a trabalhar o dia inteiro
    Construir as cidades para os outros
    Carregar pedras, desperdiçar
    Muita força pra pouco dinheiro
    Vi-te a trabalhar o dia inteiro
    Muita força pra pouco dinheiro

    Que força é essa?

    O meu compadre
    (Sérgio Godinho)

    O meu compadre
    Que é rico, disse-me
    Tira os olhos do chão
    Aceita o meu conselho
    Não aceites derrotas
    Tira os lhos do chão
    Tira os olhos do chão

    E eu respondi
    Ó meu amigo, ó meu palerma
    Se eu tenho os olhos no chão
    Não é por estar derrotado
    É pra ver o meu futuro
    Em função do meu passado
    É pra ver o caminho
    E é pra ver o que calco
    Que eu não ando nas nuvens
    A pisar pó de talco
    A pisar pó de talco

    Vamos, vamos, vamos
    Tomar cuidado
    Com promessas assinadas
    Em papel molhado

    O meu compadre
    Que é rico, disse-me:
    Eu cá sou democrata
    Cumprimentos as vizinhas
    Como pão e sardinhas
    Até as como da lata
    Que eu cá sou democrata

    E eu respondi:
    Ó meu amigo, ó meu cretino
    Democratas assim
    Tem a gente de sobra
    A vender banha de cobra
    E a afinar o latim
    Pela nota corrente
    e pela nota de mil
    Democratas assim
    Até há dois no Brasil
    Até há dois no Brasil

    Vamos, vamos, vamos

    Cuidado com as Imitações
    (Sérgio Godinho)

    Estimado ouvinte já que agora estou consigo
    peço apenas dois minutos de atenção
    é pra contar a história de um amigo
    Casimiro Baltazar da Conceição

    O Casimiro talvez você não conheça
    a aldeia donde ele vinha nem vem no mapa
    mas lá no burgo por incrível que pareça
    era mais famoso que no Vaticano o Papa

    O Casimiro era assim como um vidente
    tinha um olho mesmo no meio da testa
    isto para lá dos outros dois é evidente
    por isso façamos que ia dormir a sesta

    Ficava de olho aberto
    via as coisas de perto
    que é uma maneira de melhor pensar
    via o que estava mal
    e como é natural
    tentava sempre não se deixar enganar
    e dizia ele com os seus botões

    Cuidado Casimiro
    cuidado com as imitações
    cuidado minha gente
    cuidado justamente com as imitações

    Lá na aldeia havia um homem que mandava
    toda a gente um por um pôr-se na bicha
    e votar nele e se votassem lá lhes dava
    um bacalhau um pão-de-ló uma salsicha

    E prometeu que construía um hospital
    uma escola e prédios de habitação
    e uma capela maior que uma catedral
    pelo menos a julgar pela descrição

    Mas o Casimiro que era fino de ouvido
    tinha as orelhas equipadas com radar
    ouvia o tipo muito sério e comedido
    mas lá por dentro com o rabinho a dar a dar

    E punha o ouvido atento
    via as coisas por dentro
    que é uma maneira de melhor pensar
    via o que estava mal
    e como é natural
    tentava sempre não se deixar enganar
    e dizia ele com os seus botões

    Cuidado Casimiro ...

    Ora o tal tipo que mandava lá na aldeia
    estava doido já se vê com o Casimiro
    de cada vez que sorria à plateia
    lá se lhe viam os dentes de vampiro

    De forma que para comprar o Casimiro
    em vez do insulto do boicote ou da ameaça
    disse-lhe Sabe que no fundo o admiro
    vou erguer-lhe uma estátua aqui na praça

    Mas o Casimiro que era tudo menos burro
    e tinha um nariz que parecia um elefante
    sentiu logo que aquilo cheirava a esturro
    ser honesto não é só ser bem-falante

    A moral deste conto
    vou resumi-la e pronto
    cada qual faz o que melhor pensar
    não é preciso ser
    Casimiro para ter
    sempre cuidado para não se deixar levar

    Cuidado Casimiro ...

    Mudemos de assunto
    Andas aí a partir corações
    como quem parte um baralho de cartas
    cartas de amor
    escrevi-te eu tantas
    às tantas, aos poucos eu fui percebendo
    às tantas, aos poucos
    eu fui percebendo
    às tantas eu lá fui tacteando
    às cegas eu lá fui conseguindo
    às cegas eu lá fui abrindo os olhos

    E nos teus olhos como espelhos partidos
    quis inventar uma outra narrativa
    até que um dia ai me chegou aos ouvidos
    e era só eu a vogar à deriva
    e um animal sempre foge do fogo
    e eu mal gritei: fogo!
    mal eu gritei: água!
    que morro de sede
    achei-me encostado à parede
    gritando: Livrai-me da sede!
    e o mar inteiro entrou na minha casa

    E nos teus olhos inundados do mar
    eu naveguei contra minha vontade
    mas deixa lá, que este barco a viajar
    há-de chegar à gare da sua cidade
    e ao desembarque a terra será mais firme
    há quem afirme
    há quem assegure
    que é depois da vida
    que a gente encontra a paz prometida
    por mim marquei-lhe encontro na vida
    marquei-lhe encontro ao fim da tempestade

    Da tempestade, o que se teve em comum
    é aquilo que nos separa depois
    e os barcos passam a ser um e um
    onde uma vez quiseram quase ser dois
    e a tempestade deixa o mar encrespado
    por isso cuidado
    mesmo muito cuidado
    que é fragil o pano
    que veste as velas do desengano
    que nos empurra em novo oceano
    frágil e resistente ao mesmo tempo

    Mas isto é um canto
    e não um lamento
    já disse o que sinto
    agora façamos o ponto
    e mudemos de assunto
    sim?

    Fausto

    O barco vai de saída

    O barco vai de saída
    Adeus ó cais de Alfama
    Se agora vou de partida
    Levo-te comigo ó cana verde
    Lembra-te de mim ó meu amor
    Lembra-te de mim nesta aventura
    Pra lá da loucura
    Pra lá do equador

    Ah mas que ingrata ventura
    Bem me posso queixar
    Da Pátria a pouca fartura
    Cheia de mágoas ai quebra-mar
    Com tantos perigos ai minha vida
    Com tantos medos e sobressaltos
    Que eu já vou aos saltos
    Que eu vou de fugida
    Sem contar essa história escondida
    Por servir de criado essa senhora
    Serviu-se ela também tão sedutora
    Foi pecado
    Foi pecado
    E foi pecado sim senhor
    Que vida boa era a de Lisboa

    Gingão de rota batida
    Corsário sem cruzado
    Ao som do baile mandado
    Em terras de pimenta e maravilha
    Com sonhos de prata e fantasia
    Com sonhos da cor do arco-íris
    Desvairas se os vires
    Desvairas magia

    Já tenho a vela enfunada
    Marrano sem vergonha
    Judeu sem coisa nem fronha
    Vou de viagem ai que largada
    Só vejo cores ai que alegria
    Só vejo piratas e tesouros
    São pratas são ouros
    São noites são dias
    Vou no espantoso trono das águas
    Vou no tremendo assopro dos ventos
    Vou por cima dos meus pensamentos
    Arrepia
    Arrepia
    E arrepia sim senhor
    Que vida boa era a de Lisboa

    ­O mar das águas ardendo
    O delírio dos céus
    A fúria do barlavento
    Arreia a vela e vai marujo ao leme
    Vira o barco e cai marujo ao mar
    Vira o barco na curva da morte
    Olha a minha sorte
    Olha o meu azar

    E depois do barco virado
    Grandes urros e gritos
    Na salvação dos aflitos
    Esfola
    Mata
    Agarra ai quem me ajuda
    Reza
    Implora
    Escapa ai que pagode
    Reza
    Tremem heróis e eunucos
    São mouros são turcos
    São mouros acode
    Aquilo é uma tempestade medonha
    Aquilo vai pra´lá do que é eterno
    Aquilo era o retrato do inferno
    Vai ao fundo
    Vou ao fundo
    E vai ao fundo
    Que vida boa era a de Lisboa

    Navegar, Navegar, de Fausto

    Navegar, navegar
    Mas ó minha cana verde
    Mergulhar no teu corpo
    Entre quatro paredes
    Dar-te um beijo e ficar
    Ir ao fundo e voltar
    Ó minha cana verde
    Navegar, navegar

    Quem conquista sempre rouba
    Quem cobiça nunca dá
    Quem oprime tiraniza
    Naufraga mil vezes
    Bonita eu sei lá
    Já vou de grilhões nos pés
    Já vou de algemas nas mãos
    De colares no pescoço
    Perdido e achado
    Vendido em leilão
    Eu fui a mercadoria
    Lá na praça de Mocá
    Quase às avé-marias
    Nos abismos do mar
    Navegar, navegar...

    Já é tempo de partir
    Adeus morenas de Goa
    Já é tempo de voltar
    Tenho saudades tuas
    Meu amor
    De Lisboa
    Antes que chegue a noite
    Que vem do cabo do mundo
    Tirar vidas à sorte
    Do fraco e do forte
    De cima e do fundo
    Trago um jeito bailarino
    Que apesar de tudo baila
    No meu olhar peregrino
    Nos abismos do mar

    Escrito em Terça,01,27,2009, na categoria: Eventos, Música
    Chuza!

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