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        COSMOVISOM E MEDICINA MAPUCHE

        COSMOVISOM E MEDICINA MAPUCHE

        22-01-14

        Texto do grupo de estudos do dia 24 de janeiro de 2014.

        COSMOVISOM

        A cosmovisom e a ciência ancestral da naçom mapuche é idêntica ao conhecimento dos povos indígenas do norte do continente americano. Os mapuche dim: Kom kiñe meu muten deumaley, pu anti, pu pilli, pu wanglen, pu che, ka pu mapu- Tudo está feito do mesmo, o Sol, o espírito, as estrelas, a gente, e a terra. De jeito, pois, que a ideia fundamental dos povos indígenas é que, depois do Big Bang tudo está inter-relacionado, ligado. Tudo o que existe no universo está formado por partículas e ondas magnéticas, que em mapudungun se chamam Newen, e som forças de energia cósmica que permitem e matêm toda a existência.
        A cosmologia mapuche está estreitamente ligada com o cone sul do continente americano, do mesmo jeito que o estám os pvos do mundo andino e amazônico. O mapudungun está cheio de conceitos e palavras que apontam para o cosmos. O Wenu Leufu identifica a via láctea. O Sol chama se Anti e a Lua Kuyen. As estrelas chamam-se Wanglen e a Constelaçom das Plêiades chama se Gul Poñi ou morea de patacas. A constelaçom de Centauro, chama-se Puñon Choike, ou a pegada da avestruz. A dança da avestruz ou choike purrun dos mapuche é sempre umha dança sagrada e dedicada à Constelaçom de Centauro, perto da Cruz do Sul.
        O peñi Armando Marileo Lefio, um Ngenpin do nosso povo, umha autoridade reiligiosa e aliás um homem experto no conhecimento ancestral e filosófico da naçom mapuche di que o conhecimento e a cosmovisom mapuche deve entender-se desde umha perspectiva holística e integral, de tal jeito que os elementos que constituem o mundo mapuche, estám todos ligados, convivem e interagem entre si. O cosmos, a terra, a natureza, o mundo natural e sobrenatural, tudo se relaciona, produzindo o equilíbrio e a harmonia no nosso meio de existência que o Nag Mapu.
        O Peñi Marileo di: A estreita relaçom entre o mapuche e o seu meio levou-no à procura permanente da igualdade e da convivência recíproca e harmoniosa, tornando-se esta procura na sua única razom de ser, o projeto da vida em comum; a cultura, os princípios, as leis e códigos, os distintos sistemas de organizaçom, som um meio e instrumento para conseguir o redito propósito. Além disso, para o mapuche a persistente procura do equilíbrio e a harmonia no Nag-Mapu é a procura constante do sue próprio equilíbrio e harmonia, o cal sem dúvida fornece dum bem estar pessoal tanto emocional, quanto espiritual, físico e mental e também coletivo, outorgando-lhe bem estar familiar, social, cultural e religioso.
        O trabalho realizado polo irmão Marileo é amplo e profundo no seu conteúdo. Eis apenas umha síntese da sua elaboraçom. O vínculo da relaçom da terra, o ser humano e a natureza estám dados pola correta definiçom de Nag Mapu e Mapu. O Nag Mapu é um espaço ubicado entre o céu e o subsolo natural; isto é, entre o Wenumapu e o Miche Mapu, que seriam os polos aparentemente opostos. Um representa as energias positivas e, o outro, as negativas. O centro é o Nag Mapu, onde vive o ser humano mapuche, e é ali onde é possível encontrar equilíbrio e harmonia.
        Mas o Nag Mapu é umha dimensom que nom tem limites nem fronteiras. Nom representa um território específico. É um espaço que nom se podemedir, mas o mapuche concebe a sua existência. É o lugar de relaçom e vínculo entre o ser humano, a terra, a natureza e as energias e poderes existentes. Apenas quando este espaço mental se concretiza num território, num lugar físico onde se produz a vida, e onde existe alimento espiritual e corporal para os seus habitantes, entom estamos perante o conceito de Mapu. Todos os entes quantos existem na natureza som os nossos irmãos. Mas tamém o Mapu é um conceito amplo, porque inclui o lugar de coexistência do ser humano, os animais, o ar, a água, as plantas, e todas as energias positivas e negativas existentes. Entom, o ser humano mapuche habita a dimensom do Nagmapu e o Mapu propriamente tal, e por isso dim que todos os seus seres racionais, por direito próprio se chamam Mapuche, gente da terra.
        Os mapuche acreditam que o grande espírito do universo, Ngen Fucha, criou primeiro à mulher e mais adiante ao homem. Da mulher surgem ou abrolham os diferentes elementos que constituem a natureza. A mulher mapuche é protagonista e fundamento da vida diária na cultura do povo mapuche e a projeçom como naçom indígena. Nom esqueçamos que, ao chegarem dos espanhóis a Chile, acharom umha sociedade matriarcal. A mulher goza de privilégios e de muita significaçom no mundo mapuche. Possui umha estreita relaçom e vínculo com a natureza. É o princípio originário e reprodutor da espécie, representa a fertilidade e a feminidade. A mulher está diretamente controlada polo ciclo lunar de 28 dias. A grande maioria das Machis hoje em dia som mulheres e elas seguem a ser escolhidas polas forças e poderes espirituais, para cumprir o seu rol de procurar permanentemente o equilíbrio e a harmonia das pessoas e o seu ambiente natural e social. A mulher é a que orienta, gruia, e projeta a cultura mapuche além dos tempos. Elas som as criadoras e inventoras de todos os desenhos existentes no artesanato mapuche, já for telar, greda, madeira, prataria, cestaria, etc.
        A família originária do povo mapuche estava constituída por umha mulher velha, chamada Kuche, umha mulher nova, chamada Ullche, um homem velho, chamado Fucha, e um homem novo chamado Weche. Esta primeira família estabeleceu a responsabilidade de manter o equilíbrio e a relaçom harmoniosa com todos os seres que habitam o Ñuke Mapu. Por isso entom se estabelecerom leis, regulamentos, pautas, condutas sociais, culturais, religiosas e políticas, cujos responsáveis na sua execuçom serám os moços e os anciáns. Entre a mulher e o home mapuche nom existe umha competência ou disputa polo poder, tampouco imposiçom, nem domínio dum sobre o outro; antes existe um complemento e equilíbrio entre ambos.

        MEDICINA MAPUCHE

        Para os Mapuche, a vida humana debe estar em harmonia. Umha perturbaçom nesta harmonia causa a doença. Do ponto de vista Mapuche, a doença divide-se em dous tipos, doenças Mapuche e doenças Winka. Citarella dá umha explicaçom detalhada de todos os possíveis tipos de Kutran (doença) que os Mapuche reconhecem.


        Fonte: CITARELLA et alia, Medicina y culturas en la Araucanía (2000)

        As doenças Mapuche som típicas desse mundo ou cosmosivom. A este tipo de Kutran correspondem aquelas doenças principalmente provocadas por fenómenos ou poderes reconhecíveis dentro desta cultura. Por isso, estas doenças devem ser tratadas com os remédios que lhes som próprios. As causas das doenças dividem-se em três categorias.
        1. Re Kutran; doenças causadas pola natureza
        2. Weda Kutran; doenças causadas por influências mágicas (sobrenaturais)
        3. Wenu Kutran; doenças causadas polos espíritos

        Dado que as doenças Mapuche som provocadas por fenômenos e forças claramente explicáveis e identificável, estas devem ser tratadas de acordo com o sistema médico Mapuche. As doenças winka, pola sua parte, pertencem ao mundo occidental, e devem ser tratadas á maneira occidental. Dependendo da doença, os Mapuche decidem se o tratamento deve ser feito por umha machi ou por um doutor. Citarella considera que a maioria dos Mapuche acham as doenças, em geral, como Mapuche Kutran; mas quando se presentam sintomas biológicos (tais como infeçons víricas ou bacterianas), os Mapuche decidem acudir ao doutor, já que este tipo de doenças som classificadas como doenças winka.
        Di-se que as machi som escolhidas por Chaw Ngnechen. Um anúncio às futuras machis realiza-se por meio de pewmas (sonhos) ou perimontun (visons), geralmente quando ainda som moças. No pewma ou perimontun, o espírito dumha machi morta reencarna-se na pessoa escolhida. As novas machis herdam o espírito de machi dum ancesto na linhagem materna familiar, frequentemente a avoa que faleceu. O processo de se fazer machi é geralmente mui longo. O mais importante, depois de ter vivido o perimontun ou pewma, é o reconhecimento da invocaçom. Esta invocaçom, sera reconhecida na medida que a pessoa adoece, porque o am (alma) tomou contato com os maus espíritos. As pessoas que nom reconhecem a invocaçom serám castigadas por nom seguirem o chamdo de Chaw Ngenechen: ficam doentes o resto das suas vidas e eventualmente morrem. Desde que o aprendiz aceita a chamada deve topar umha machi velha e com experiência que seja capaz de treina-la, até alcançar o estatus de machi. O treino pode ser um processo de anos e é mui difícil. A aprendiz de machi deve apreender cantigas especiais, deve apreender a tocar o kultrun (tambor cerimonial), induzir trances, orar, diagnosticar doenças, fazer prediçons, e apreender sobre o uso das ervas medicinais. O derradeiro ritual antes da aprendiz chegar a ser machi é a ereçom dum rewe (totem). O rewe é chantado frente a casa da machi, junto com o canelo, loureiro, maqui e copihue ?plantas que som consideradas sagradas-.
        Umha machi emprega várias formas de fazer o seu diagnóstico. A forma mais habitual é por pewutuwün willenmeo, ou olhar a urina da pessoa. A machi colhe o frasco com a urina, dalhe voltas e olha contra a luz. Em base a estas observaçons ela pode diagnosticar a causa da dor que pode ser física, psicológica ou sobrenatural. Ela também pode falar dos problemas pessoais ou da pessoalidade ou, mesmo, predizer o futuro. Normalmente este método é empregado para doenças que requerem um tratamento simples. O remédio para estas doenças consiste em ervas.
        Outra forma de diagnosticar é chamada pewutuwün tukunmeo: a machi examina a roupa da pessa doente, que lhe é levada polos seus familiares. Ela deve realizar um ritual no qual extende as peças sobre umha mesa e começa a tocar o kultrun, para logo tocar e cheirar a roupa do doente. Finalmente, o machi entra em trance com o objetivo de fazer preidçons sobre a doença que sofre o paciente. Ao longo deste ritual ela recebe ajuda do dungumachife ou tradutor, que traduz a informaçom entregada polos espíritos, o qual é exprimido pola machi durante o trance numha linguagem incompreensível.
        Depois de diagnosticar, a machi decidirá se vai curar ou nom a doença, porque as machis apenas curam se estám seguras de que o remédio vai ajudar. No caso contrário elas mandam o paciente com alguém que poda cura-lo, esta pessoa pode ser também um doutor.
        Umha machi é umha persoa respectada dentro da sociedade Mapuche, ainda que nom moita gente acode à machi por razons médicas. A literatura mostra que a razom principal para nom consultar com a machi pode ser encontrada na influência do Cristianismo. Muitos Mapuche converterom-se ao catolicismo e um grupo mais pequeno ao protestantismo. Os Mapuche praticam o catolicismo ao seu jeito. Di-se que o Chaw Ngenechen é o equivalente ao Deus católico, mas a gente Mapuche acredita em forças da natureza e nom assistem à igreja. Muitos Mapuche praticam a sua própria religiom e som católicos ao mesmo tempo.
        É maioritariamente a geraçom mais nova a que abandona os hábitos da cultura Mapuche, muitos deles vam-se para as cidades com o fim de obter educaçom ou conseguir um emprego. Além disso, no referido às doenças, eles preferem outras formas de ajuda médica antes de acudir a umha machi. Assim, a machi nom atende muitos jovens. Influências tais como a modernidade e o capitalismo som razons para os Mapuche iremse aos centros urbanos. Estas mudanças causam muita incerteza entrre os Mapuche que entram em contato com a cultura Cristiana-Chilena, na qual se vem confrontados com umha ampla discriminaçom. Nas zonas urbanas, os Mapuche sofrem doenças psicológicas devido ao medo e á tensom, às que eles chamam sobrenaturais causadas polo ?mal? e a ?inveja?. Para este tipo de doenças requer-se dumha machi. Esta é a razom pola qual as machis se trasladarom ás cidades. Para todos os outros tipos de doenças a gente Mapuche prefere empregar a medicina occidental, já que esta forma de medicina e mais precisa e mais barata.
        As vezes teme-se que as machis sejam kalku (meiga). As kalku, como as machis, têm poder. Umha kalku desenvolve um sentido de poder mui semelhante ao xamám. Ela também tem pewma ou perimontún, mas herda o espírito dum ancestro feminino que também foi kalku. Umha meiga também tem os seus clientes, que podem pedir-lhe ajuda para tomar vingança noutras pessoas, habitualmente em situaçons de ciúmes.
        A respeito das forças opostas, a machi está ligada com as forças positivias, por isso devem confrontar com as forças negativas. As suas açons podem ser interpretadas como boas ou más, dependendo as posiçom da pessoa à que a machi ajuda. Ajudar a umha família com problemas pode implicar dirigir as forças negativas à família ?inimiga?. Por isso a primeira família vai dizer que a machi é umha pessoa escolhida por Chaw Ngnechen, en quanto a segunda família afirmara que a machi é umha kalku, por que empregou o seus poderes contra eles.
        Umha machi deve dar-se a conhecer na comunidade até que a gente quera atender-se com ela. Ela tem que provar-se a si própria que umha boa xamám. Depois de realizar complexas sanaçons, e assim provar que ela está no lado bom e nom no lado das kalku- a machi fai-se respeitada e os seus pacientes divulgam a sua fama.
        No caso dumha doença incurável, frequentemente coloca-se a questom de que o paciente foi tratado por umha machi desconhecida. A razom disto é a procura dum diagnóstico objetivo, dado que a machi que eles normalmente visitam conhece o estado da pessoa doente e da sua família, e procurará o diagnóstico em relaçom co a forma de vida.

        REFERENCIAS

        GAVILÁN, V.M; O pensamento em espiral. O paradigma dos povos indígenas (2012)
        KRASTER, AL; ?El uso del sistema de salud tradicional en la población Mapuche: comportamiento y percepción? (2003)

        Escrito ?s 10:48:24 nas castegorias: opinióm
        por SCMadiaLeva   , 2290 palavras, 635 views     Chuza!

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