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        Cineclube 25 de abril. Barronhos: quem teve medo ao poder popular?

        Cineclube 25 de abril. Barronhos: quem teve medo ao poder popular?

        25-04-20

        Cineclube Mádia Leva! Celebrando a revoluçom portuguesa com: Barronhos. Quem teve medo do poder popular? Um filme de Luis Filipe Rocha.

        Como cada ano a 25 de Abril, no cineclube do Mádia Leva!, projetamos um filme sobre a revoluçom portuguesa para acompanhar os eventos de celebraçom do 25 de Abril que organizamos no centro social. Os filmes escolhidos para esta data, procuram ir além da imagem arquetípica da revoluçom dos cravos que, anteponhem o protagonismo de atores políticos e militares ao povo, verdadeiro instigador dumha autêntica catarse revolucionária, finalmente atraiçoada por alguns dos atores que, sem se ruborizarem, agitariam as mesmas bandeiras da liberdade que pisotearam no tempo que durou o processo revolucionário em curso (PREC), que eles chamárom, nessa altura, de caos e de anarquia. Mas, entre outros documentos, o cinema militante que floresceu no Portugal revolucionário, fica como prova da ignomínia de homens que achavam serem eles os portadores da chama revolucionária. Filmes como o que projetamos no passado ano, Torre Bela de Thomas Harlam, sobre o fenómeno da ocupaçom de terras dos trabalhadores agrícolas, ou Barronhos, quem teve medo do poder popular? de Luis Filipe Rocha, sobre a luita dos moradores dos bairros de lata na periferia de Lisboa, que programamos para este 25 de Abril, antes do surto da crise pandémica obrigar-nos a adiá-la, ficarám para sempre como recordaçons da verdadeira face da revoluçom portuguesa, nom apenas como documentos verídicos do que realmente aconteceu, mas também como obras de arte perduráveis polo seu impacto emocional e o envolvimento coletivo dos seus protagonistas, sempre desterrados da cultura oficial.

        No caso que nos ocupa, Barronhos, quem teve medo do poder popular, documentário filmado em pleno processo revolucionário, no verao quente de 1975, o filme toma como ponto de partida um acontecimento de aparência marginal, que nom ocuparia mais do que umha pequena nota de imprensa na secçom de sucessos dos jornais locais. O crime, é o primeiro dos cinco capítulos que articulam o filme, e nele reconstroe-se através do testemunho das vizinhas de Barronhos, bairro de lata da periferia de Lisboa, e no próprio lugar onde aconteceu o facto, o assassinato do Jaime a maos de Braúlio, os dous vizinhos de Barronhos, por causa dum conflito que envolvia a comunidade toda, entorno da eletrificaçom do bairro. Nos sucessivos capítulos, a luz que deita o foco sobre este acontecimento irá ganhando amplitude. Em A personalidade do assassinado e o Retrato do criminoso, capítulos segundo e terceiro, conhecemos os dous protagonistas através das suas famílias, dos seus vizinhos, e da entrevista na cadeia ao assassino, introduzindo-nos no conflito no seio da comunidade. O Jaime encabeça a comissom dos moradores, modelo de auto-organizaçom popular que surgiu por toda a parte no Portugal revolucionário, que procurava, como soluçom às condiçons miseráveis de habitaçom das classes populares portuguesas, impor o seu próprio modelo de habitaçom e dispor da gestom dos recursos e os modos de vida próprios da classe operária. O Braúlio é o porta-voz daquelas pessoas mais acomodadas no bairro, que esperavam vantagens da nova política reformista que se tinha instalado nos sucessivos governos transitórios para acalmar as verdadeiras demandas revolucionárias do povo. Assim, chegamos ao terceiro capítulo O Bairro, descobrindo Barronhos e as suas Barracas, descobrimos que o bairro de lata é também o cenário onde se representa umha luita universal, a luita de classes. A comissom de moradores quer a destruiçom das barracas para criar, sob a sua direçom, sob o mandato do povo, e no mesmo emprazamento, no mesmo lugar que deu origem aos laços comunitários e sociais, um novo bairro adequado com as suas próprias necessidades e interesses coletivos. As autoridades correspondentes, com a cumplicidade de todas as formaçons políticas hegemónicas, incluído o PCP, temerosos da nova força popular, nom rejeitam o plano dos moradores, mas postergam-no umha e outra vez, oferecendo levar a luz como medida transitória, provocando assi umha forte divisom entre os moradores das barracas em melhores condiçons que aceitam o plano de eletrificaçom, e as que estavam em piores condiçons que rejeitam o plano, pois acham que implicaria a renúncia da transformaçom radical do bairro. Neste contexto é que Braulio mata o Jaime após este rasgar os papéis com as assinaturas dos moradores de Barronhos, que o Bráulio repartia para pedir à Câmara Municipal a eletrificaçom do Bairro, contra a decisom adotada pola comissom de moradores. Finalmente, fecha o círculo o último capítulo O país, que situa os fatos no contexto nacional, onde as imagens do bairro se intercalam com as imagens documentais da falsa euforia política, do banho de massas dos líderes, da sua hipocrisia revolucionária enquanto um povo, em condiçons de miséria, luita de forma descarnada por um mundo melhor.

        Este formidável percurso do particular ao global, do privado ao político, do marginal ao universal, que é Barronhos, quem teve medo do poder popular?, o filme de Luis Filipe Rocha, vê-se reforçado por umha extraordinária força narrativa que implica o emprego de múltiplos recursos, (a crónica negra, a reportagem jornalística, o documentário etnográfico e o comentário social), que se vam sucedendo envolvidos e integrados com naturalidade na lógica narrativa dos capítulos, que vam ampliando o ângulo panorâmico do filme. Ficará também, e para sempre, na memória das espetadoras do filme, a presença silenciosa das crianças que andam por toda a parte entre o lixo, os entulhos e as barracas, e que nos fai lembrar a um outro filme que projetamos no cineclube Mádia Leva!, O assassino de ovelhas de Charles Barnes, que retrata a vida dos moradores negros no guetto angelino de Watts, onde as crianças sempre estám presentes; a olhada das criança, que todo o vêem mas nada contam, e que nos permite traçar um fio que liga as luitas que se sucedem no mundo pola dignidade do Povo.

        Enfim, desta vez, ficamos em casa, mas vemo-nos proximamente no cinema, e na rua, para pôr fim à história da traiçom que se repete.

        25 de Abril Sempre.

        Escrito ?s 09:58:00 nas castegorias: album
        por SCMadiaLeva   , 981 palavras, 69 views     Chuza!

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