É increível a rapidez com a que as parvoices ocupam os espaços...
Eu também quereria ser luz
quereria ser metal no fundo do mar
eu também
Ser esse pequeno ruído que nos acorda
essa insignificante onda acústica
que nos fai volver a cabeça
ou aquel momento exacto
onde escolhemos
onde dizemos
onde fazemos aquilo que sabemos
Eu também quereria ser luz
Como essa luz que te ilumina
essa luz que caminha contigo
que tu deixas caminhar contigo
ou que tu nem tam sequer sabes que caminha contigo
Ser esse metal que do fundo do mar
nos fai pensar
ou nos fai sonhar
ou nos fai viajar
ou te ilumina quando apareces andando no extremo de umha rua
ou no recanto de umha praça
E nom esta distáncia
esta terrível sensaçom de estar fora
de nom ser
de nunca jamais fazer parte
Esta obscura negaçom da possibilidade
que se estende vertiginosamente
oferecendo só o caminho da fugida e a derrota
(d'O livro das confusons)
(Também publicado no velho blog)
Olho para as leitugas
enquanto boto água nas fendas da memória
e co sacho golpeio docemente
cada umha das palavras que rodeiam esta casa
"Parabéns"
berram os gatos todos os gatos do mundo
enquanto sigo a cair polo precipício
e oito galinhas cantam
a coro
a melodia das casas habitadas
Um cam dorme diante da porta
aberta
Lentamente
esqueço as horas
os minutos os segundos
até chegar a esta pequena sensaçom de calor
Talvez todo seja arrastar palavras
dum lado para outro
sem cessar
até que alguém escuite
e entom ficar em silêncio
Para sempre
Confundim-me
ou enganárom-me
Eu queria solicitar um dos postos de músico
Acordeom
guitarra
ou bateria
Tanto me tinha um como outro
Eu nom tenho nem ideia de música
e penso que só umha vez vim um acordeom a menos de 100 metros
Mas pensei que isso teria possibilidades
Possibilidades de fugir
digo
Estar aí
com o acordeom com a guitarra com a bateria
sem chamar a atençom
e em qualquer momento
zás!
Fugir
Escapar
Evadir-me
isso é
Exactamente isso
Evadir-me
Eu escuitara em algum lado que a vida do músico
polo geral
é daquela maneira
já se sabe
mais relaxada
menos rígida
sem tanta vigiláncia e controlo
e pensei que numha dessas
entre notas partituras e semicolcheias
que eu nom sabia nem o que eram
e continuo sem saber
numha dessas
aproveitava eu
e...
A evasom
A escapada
A fugida
Eu por isso queria solicitar um dos postos de músico
Saber
o que se di saber
de música nom sei grande cousa
Mas nom som parvo
e podia aprender
Também aprendim a manejar a vassoira
a esfregar as janelas do quarto andar
que só abrem para fora e ninguém se atrevia
e a levar a roupa à lavandaria
que som o único de toda a minha secçom
a quem lhe deixam levar a roupa à lavandaria
Também podia aprender algo de música
E por isso fum pedir os papéis para solicitar um posto
Mas confundírom-me
ou enganei-me
e preenchim os papéis para o posto de operário jardineiro
E cá estou
sem poder sair destes muros
tam cinzentos
arrancando as ervas más que medram
tam verdes
nos jardins deste centro
tam psiquiátrico
(d'O livro das confusons)
(Mira cá umha explicaçom sobre este texto)
Quando se nega o dia a escalar o corpo dos altos edifícios
mostrando fragmentos de estrelas proibidas
onde a penas existem feridas que se esquecem
porque nos arrodean os poldros perdidos da brétema
Alta cidade tinguida pola névoa
Na cidade chove em amarelo
umha água fresca que me encelma a língua
e umha música lonxana esvaendo-se
Desde a opaca pátina do balcom pechado
no abissal fundo dos oceanos
venhem lentas as fías dos remorsos
No meio da rua
grosseira inculta e pouco delicada
em um jardin que tarde ou cedo há engolir o asfalto
memória do que queremos esquecer
ainda há algo a reclamar-nos
Som tempos de olhar a chuva
invernía no lento fluír dos almanaques
Será a emoçom quanto vale nesta terra?
De cada cidade agroma o aroma dum mistério
fronte ao mar equivocado
Como sei que ti e eu nos queremos
* O poema é meu, o título de Santiago Jaureguizar e os versos de: Celso Álvarez Cáccamo, Luisa Villalta, Miro Villar, Anxo Angueira, Xohana Torres, Fran Alonso, Antón Avilés de Taramancos, Xosé Luís Santos Cabanas, Yolanda Castaño, José Alberte Corral Iglesias, Ana Romani, Emma Couceiro, Lois Pereiro, Pilar Pallarés, Marta Dacosta, X. Antón L. Dobao, Eduardo Estévez, Carlos Negro, Estíbaliz Espinosa, Alberte Momán, Franck Meyer, Maria Lado.
(Outro texto do velho blog)
Umha das vezes
a voz saiu da torradeira do pam
Já sabedes
esse aparelho que torra o pam
com umhas resistências eléctricas
Ele
como todas as manhás
ia almoçar
e meteu as fatias de pam na torradeira
e carregou no botom
Nesse momento
a torradeira começou a falar
"Nego-me a acreditar nos venenos. Desde a conquista espanhola o meu povo ri idiotamente por umha grande ferida. Quase sempre é de noite..."
Ele gostava do pam no seu ponto justo
No que ele considerava o seu ponto justo
3 minutos
Aos 3 minutos as fatias de pam saltárom
e a torradeira deixou de falar
Ficara os três minutos absorto
a escuitar a torradeira
Sem pensar
pegou em duas novas fatias e meteu-nas na torradeira
Carregou no botom
Novamente falava
"O viageiro encaminha-se através da espiral embora nom
lembra quando e onde penetrou.
Supom que o caminho tem forma de espiral..."
Novamente aos 3 minutos saiu o pam quente
torradinho
tal e como ele gosta
Instintivamente
deu-lhe à rodinha até os 6 minutos
"O pam sairá mais torrado"
pensa
"mas a voz nom parará tam rápido"
Mete as fatias
desejoso de ouvir novamente aquela voz
espectacularmente preciosa
que lhe fala
a ele
Carrega no botom
Passam as horas
A escuitar a voz
e a pensar na sorte de ter mercado
ontem mesmo
dous pacotes de pam de forma
Vou começar a colar algumhas cousas que apareciam no antigo blog, e que gostaria de ver neste.
Andivemos a jogar na escola com a literatura, e isto foi algumhas das cousas que escrevim. Tratava-se de continuar o escrito em negrito.
O médico remata de examinar-me e tranqüilizar-me: nom é grave, numha semana estarei bem. Eu desconfio. Quando me fala fai-no como se nom falara comigo. Como se falará só.
Além do mais, na porta do seu gabinete há um cartaz que di: "Dr. Rodríguez. Médico-forense".
Num pequeno povo de Escócia vendem livros com umha página em branco perdida polo meio do volume. Todo o mundo pensa que detrás se agacha um grande mistério, mas o único certo é que o dona da imprensa despediu ao revisor das provas e já nom tem ninguem que controle os trabalhos que se fam na sua empresa.
Outro dia, mais.