Nestes dias nos que se fala de Sarrionandia, rescato o poema/cartaz da torradeira de pam que falava com versos seus.
Neste poema, a torradeira recita primeiro uns versos de Roque Daltom, e mais tarde outros do Sarrionandia.
O poema fijo parte da "Poesia para ver/Poesia para ler", e antes disso foi publicado no Livro das Confusons, editado em Dezembro de 2006.
Umha das vezes
a voz saiu da torradeira do pam
Já sabedes
esse aparelho que torra o pam
com umhas resistências eléctricas
Ele
como todas as manhás
ia almoçar
e meteu as fatias de pam na torradeira
e carregou no botom
Nesse momento
a torradeira começou a falar
“Nego-me a acreditar nos venenos. Desde a conquista espanhola o meu povo ri idiotamente por umha grande ferida. Quase sempre é de noite...”
Ele gostava do pam no seu ponto justo
No que ele considerava o seu ponto justo
3 minutos
Aos 3 minutos as fatias de pam saltárom
e a torradeira deixou de falar
Ficara os três minutos absorto
a escuitar a torradeira
Sem pensar
pegou em duas novas fatias e meteu-nas na torradeira
Carregou no botom
Novamente falava
“O viageiro encaminha-se através da espiral embora nom
lembra quando e onde penetrou.
Supom que o caminho tem forma de espiral...”
Novamente aos 3 minutos saiu o pam quente
torradinho
tal e como ele gosta
Instintivamente
deu-lhe à rodinha até os 6 minutos
“O pam sairá mais torrado”
pensa
“mas a voz nom parará tam rápido”
Mete as fatias
desejoso de ouvir novamente aquela voz
espectacularmente preciosa
que lhe fala
a ele
Carrega no botom
Passam as horas
A escuitar a voz

Estou no mundo porque tem que haver de tudo
repetia a todas as horas
em todas as partes
aquele poeta inédito
licenciado e fanfarrom
que andava na procura das musas
entre as massas
ou das moças
tras os copos de uísque

Durante esta semana, os poemas que se poderam escuitar no Diário Cultural da Rádio Galega, serám os do meu livro "O Livro das Confusons".
Lembra que a Rádio Galega pode-las escuitar nestes pontos do teu dial, ou bem na internet em directo, ou escolhendo o programa que desejar.
Escuitamo-nos nas ondas!
E para rematar, umha ligaçom musical. Que gostedes!

Nom te confundas, isto nom é um concurso electrónico, isto nom é um calote de internet, isto nom é umha brincadeira virtual. Isto é umha pequena demostraçom de que a cultura (neste caso, modestamente, a literatura) pode nom só circular livremente grazas às novas tecnologías, mas que também pode repartir-se, livre e gratuitamente, boicotando isso que agora se chama indústria editorial e indústria dos direitos do autor, contando com as “vellas” tecnologías.
Se es umha das (imagino que poucas) pessoas que lêm este blog, que se actualiza dependendo das possibilidades de quem isto escreve, tes a oportunidade de conseguir, completamente de balde, um livro, completamente de poesia. E, por suposto, na nossa língua.
Eu também quereria ser luz
quereria ser metal no fundo do mar
eu também
Ser esse pequeno ruído que nos acorda
essa insignificante onda acústica
que nos fai volver a cabeça
ou aquel momento exacto
onde escolhemos
onde dizemos
onde fazemos aquilo que sabemos
Eu também quereria ser luz
Como essa luz que te ilumina
essa luz que caminha contigo
que tu deixas caminhar contigo
ou que tu nem tam sequer sabes que caminha contigo
Ser esse metal que do fundo do mar
nos fai pensar
ou nos fai sonhar
ou nos fai viajar
ou te ilumina quando apareces andando no extremo de umha rua
ou no recanto de umha praça
E nom esta distáncia
esta terrível sensaçom de estar fora
de nom ser
de nunca jamais fazer parte
Esta obscura negaçom da possibilidade
que se estende vertiginosamente
oferecendo só o caminho da fugida e a derrota
(d'O livro das confusons)
Confundim-me
ou enganárom-me
Eu queria solicitar um dos postos de músico
Acordeom
guitarra
ou bateria
Tanto me tinha um como outro
Eu nom tenho nem ideia de música
e penso que só umha vez vim um acordeom a menos de 100 metros
Mas pensei que isso teria possibilidades
Possibilidades de fugir
digo
Estar aí
com o acordeom com a guitarra com a bateria
sem chamar a atençom
e em qualquer momento
zás!
Fugir
Escapar
Evadir-me
isso é
Exactamente isso
Evadir-me
Eu escuitara em algum lado que a vida do músico
polo geral
é daquela maneira
já se sabe
mais relaxada
menos rígida
sem tanta vigiláncia e controlo
e pensei que numha dessas
entre notas partituras e semicolcheias
que eu nom sabia nem o que eram
e continuo sem saber
numha dessas
aproveitava eu
e...
A evasom
A escapada
A fugida
Eu por isso queria solicitar um dos postos de músico
Saber
o que se di saber
de música nom sei grande cousa
Mas nom som parvo
e podia aprender
Também aprendim a manejar a vassoira
a esfregar as janelas do quarto andar
que só abrem para fora e ninguém se atrevia
e a levar a roupa à lavandaria
que som o único de toda a minha secçom
a quem lhe deixam levar a roupa à lavandaria
Também podia aprender algo de música
E por isso fum pedir os papéis para solicitar um posto
Mas confundírom-me
ou enganei-me
e preenchim os papéis para o posto de operário jardineiro
E cá estou
sem poder sair destes muros
tam cinzentos
arrancando as ervas más que medram
tam verdes
nos jardins deste centro
tam psiquiátrico
(d'O livro das confusons)