Mai10

Cecília, de Henrique Pousão

Publicado por Clubes de Leitura on 10-05-2012  ~  Posted in: Pega no livro

No passado 25 de abril, TUGA-LUGO-LENDO juntou-se para "ler" pintura portuguesa da segunda metade do século XIX e primeira do XX. RAMIRO ÁLVAREZ leu-lhe este texto à Cecília do Henrique Pousão, conseguindo que ela desistisse da própria leitura e pousasse o olhar na malta ali congregada. Obrigados, Ramiro.

Liguei o computador, à procura de um quadro de autor português do século dezanove e, pronto, o meu olhar deu no olhar da menina que me mirava com essa tranquilidade sossegada, como se se me oferecesse para ajudar-me na tarefa.

O quadro, de Henrique Pousão (1859-1884) representa uma rapariga, vestida à napolitana, orando junto a um pilar da igreja de Santo António dos Portugueses.

O primeiro que me chamou a atenção foram as texturas da pintura: o mármore das paredes, a madeira da cadeira, o tecido das teias, e a simbologia da coluna sólida, firme e duradoura.

E o olhar da menina.

Procurei o nome do quadro. Esperava algo como “menina orante” ou “napolitana com vestido de festa”, por isso fiquei surpreendido com o nome: “Cecília”. Não era uma simples pintura, a menina era alguém real.

Li a biografia do Henrique Pousão e soube da sua arte, da sua curta vida de vinte e cinco anos, das suas viagens à França e a Itália. Mas o que eu procurava era a ração daquele olhar tranquilo de Cecília, o porquê do nome personalizado do quadro, a relação de modelo e pintor.

Mas na Internet não havia explicações; apenas o quadro uma e outra vez; uma e outra vez o olhar tranquilo ao pé da coluna sólida, firme e duradoira. E decidi buscar na própria pintura, interrogar à Cecília por se ela me revelava qualquer coisa.

E olhei no olhar que me olhava.

E entrei na igreja de Santo António dos Portugueses um dia de festa. Uma igreja, sem dúvida, italiana. A menina lia no seu breviário, alheia ao rebuliço da gente, encostada na sua coluna sólida, firme e duradoira. O pintor achegou-se até ela e mirou-a desde todos os ângulos, estudando a sua face, a sua postura.

- Ó menina, olha para mim que quero fazer o teu retrato.

E a menina, surpreendida, levantou os olhos para o pintor que pegou na caneta e, rapidamente, começou a traçar riscas no papel.

O pintor trabalhava e a menina olhava o pintor trabalhar. O olhar de surpresa tornou-se olhar confiado, com uma pitada de picardia.

- Ó pintor, bem sei o que tu procuras que eu também tenho vinte e três anos e os teus mesmos desejos... Mas não sou menina de brincadeiras e o amor que te ofereço é como esta coluna, sólido, firme e duradoiro.

O pintor imortalizou a menina com os seus pincéis e a menina deu-lhe alma ao quadro com os seus sentimentos.

Henrique Pousão morreu em Portugal dois anos mais tarde, de vinte e cinco anos. Cecília ficou para sempre neste quadro vivo, no museu nacional de Soares dos Reis, no Porto, a olhar a quem a olhe para contar-lhe do seu amor sólido, firme e duradoiro...

Abr28

Tuga-Lugo-Lendo

Publicado por Clubes de Leitura on 28-04-2012  ~  Posted in: Pega no livro, Tuga-Lugo-Lendo (EOI de Lugo)

Tuga-Lugo-Lendo foi criado em outubro do ano 2009, por iniciativa do departamento de português da EOI de Lugo. A maior parte dos membros dos clube são alunos e ex-alunos da escola, mas as portas estão abertas para qualquer pessoa que queira participar.

Lemos em português, quatro ou cinco livros por ano. Tentamos sempre que haja um equilíbrio entre a literatura portuguesa, brasileira e dos países africanos com o português como língua oficial. Também fazemos o possível para contar com a visita de, polo menos, um autor por ano.

No primeiro ano de andamento do nosso clube tivemos três reuniões, mas o número de sessões foi aumentando, a atualmente realizamos uma por mês.

Já fizemos as seguintes leituras:

1. Jesusalém (Mia Couto)
2. Contos do Barroso (José Dias Baptista)
3. O Alienista (Machado de Assis)
4. As sereias do Mindelo (Manuel Jorge Marmelo)
5. O Planalto e a Estepe (Pepetela)
6. Rio Homem (André Gago)
7. Capitães da Areia (Jorge Amado)
8. Contos Galegos (Paulo Soriano)
9. O Mandarim (Eça de Queirós)
10. A primeira Aldeia Global (Martin Page)
11. Antologia do Conto Brasileiro Contemporâneo (VVAA)
12. Quantas Madrugadas tem a noite / Bom dia, Camaradas / Os da minha rua / Avodezanove e o segredo do soviético / A bicicleta que tinhas bigodes (Ondjaki)

José Dias Baptista, Manuel Jorge Marmelo e André Gago estiveram na nossa escola. O clube deslocou-se até à Eira da Joana, na Ulhoa, para apresentar o livro Contos Galegos num ambiente inspirador para o género fantástico e dos contos de terror.

Como pelo nosso clube passaram muitas pessoas em momentos diferentes, é difícil fazer uma votação dos livros mais bem sucedidos. O Planalto e a Estepe e os Capitães da Areia foram porventura os mais consensuais: Apostas certas para clubes de leitura.

No 25 de abril deste ano (2012) dedicamos uma sessão à pintura portuguesa naturalista, modernista e de vanguarda. “Lemos” quadros de Amadeo de Souza Cardoso, Almada Negreiros e Luís Pousão, entre outros.

O nosso contacto é lugolendo@gmail.com

Abr26

Dia de escrita em Lendo lendas

Publicado por Clubes de Leitura on 26-04-2012  ~  Posted in: Pega no livro, Atividades

Olá mamai !! já levo um mês aquí , no teu país natal, e estou encantada!

Antontem parece ser que houve uma “ciclogénese explosiva”, mas aqui não explora nada, tens uma terra bem tranquilinha. Choveu muito, isso sim, mas bem me disseste que isso era natural aqui na Galiza.

Este mês fum de visita a Mugardos, a recolher as bases do concurso de escrita, envío-che uma foto e que não che dê morrinha.

Ontem, no clube Lendo lendas, tivemos a primeira juntança de narradores e foi um pequeno acto ideal, foi como ir ao teatro. O teatro de Xan Palomo “eu guiso-o, eu como-o”. Levamos os quatro contos inventados e lemos en voz alta cadanseu relato mentres o resto escutava. Quatro histórias diferentes, quatro estilos diferentes, mas tudos bem feitucos. Já sei o que estas a pensar, minha mãe: “essa modestia, filha ...”.

Agora estamos matinando de criar alguma obra colectiva, pode ser mesmo tipo Brockhoff:
http://en.wikipedia.org/wiki/Stefan_Brockhoff

e pouco máis, marcho a pensar na seguinte história
bikos da tua Mafalda
P.E: alegrei-me muito ao recebir a tua carta, sentim-me menos longe.

Abr17

Clube de Leitura Paco Martín, Bretonha

Publicado por Clubes de Leitura on 17-04-2012  ~  Posted in: Bretonha

Aló polo 26 de decembro do 2011 nace o clube de lectura de Bretoña, fruto da semente que a Pega trouxo no bico, e non secou nin lle fixo falta abono, pois seguimos adiante, iso sí, paseniñamente, como se cociña un bon xantar.

Empezamos só con xente do propio pobo, invitamos a quen queira a que se una a este magnífico proxecto, sexan de onde sexan, e según nos van coñecendo vaisenos unindo xente, entre eles, o alcalde, e tamén o escritor Paco Martín, que na sua honra puxémoslle de nome ao clube: Clube de Lectura Paco Martín. É un clube formado por xente moi diversa, tanto en idade como en ideas e isto fai que as xuntanzas sexan interesantes e divertidas.

O primeiro libro que escollemos é O club da calceta, de María Rimóndez, e que aínda estamos lendo (xa dixen que aquí vaise amodiño) e entre outras actividades programadas, temos a intención de remata-lo cunha visita de María e o visionado da película. Tamén hai algún membro do clube que está calcetando.

A próxima obra aínda non a decidimos, pero polo medio meteremos algún conto do libro “O Conto Brasileiro Comtemporâneo”, un novo reto para o noso clube.

Abr15

Afinal, será que Deus é brasileiro? Comentário do João Facal aos Quinze Brasis de Fernando Bonassi

Publicado por Clubes de Leitura on 15-04-2012  ~  Posted in: Leituras

Comentário do João Lopes Facal aos Quinze Brasis de Fernando Bonassi (Antologia do Conto Brasileiro Contemporâneo)

Bom, eu concordo em que contos, propriamente, não são. De facto, os 15 textos pertencem ao género, tão estimulante, do pranto pelos males da pátria e a desgraça de ter nascido no lugar errado.

Atribui-se a Cánovas del Castillo – pessoa esperta na matéria – a afirmação de que: " Son españoles... los que no pueden ser otra cosa ". Concordo. Contudo, não podia faltar o génio saudoso português para melhorar a marca, neste caso a voz do meu amado poeta António Nobre: “... Amigos, que desgraça nascer em Portugal!”

Bom, o caso é que nos países novos, onde o futuro é mais longo que o passado e os livros de história não importunam as criancinhas com proclamas heróicas, costumam levar melhor a afortunada desgraça de ter nascido. Lembramos agora que o mais grande poeta norteamericano, talvez, Walt Whitman, cantava-se a si mesmo e ao seu país com a maior alegria: “Tenho trinta e seis anos. A minha saúde é perfeita e com o meu alento puro começo a cantar hoje…”
Brasil… bom Brasil não é ainda Norteamérica mas a verdade é que a tristeza da favela foi sempre menos triste que a do barraco do tio Tom. O samba afinal é para bailar enquanto o blues apenas para cantar a saudade.
O caso é que o Bonassi arrenega no seu Brasil em 15 capítulos do ritmo tropical, de qualquer celebração do futuro e parece mesmo que o que pretende é contradizer a afirmação do presidente Lula: “Eu digo sempre que depois da descoberta da Petrobras está ficando provado que Deus é brasileiro”. Tem-no merecido, Pelé ou Machado de Assis estão muito acima de Petrobras sem que a estátua do Pão de Açúcar se tenha comovido.

Bom, Bonassi opina contra. Quinze são os argumentos do Bonassi, todos eles convincentes se acreditamos na sua experiência de primeira mão. Para começar, adota Bonassi a voz de um poeta brasileiro para lembrar-nos que nascer é muito comprido e custa habituar-se. Ele demonstra-o, não foi capaz ainda.
Naturalmente renuncio a resumir os aforismos, ou sentenças, ou chicotaços do tal Bonassi – romancista, contista, cineasta e roterista: São Paulo, 1962 – porque não é possível reduzir o que é já mínimo. É questão de lógica.

Não renuncio, contudo, a chegar a compreender plenamente alguma das histórias que de tão concentradas parecem reclamar mesmo um golinho de água como os uísques de alta graduação. Talvez alguém poda chegar a explicarmos, talvez o Bonassi mesmo se for certo que afinal Deus é brasileiro e gosta de se dar a conhecer.

João Lopes Facal, Compostela, 2012

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