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Mar04

Curiosidades do Carlos

Publicado por Clubes de Leitura on 04-03-2012  ~  Posted in: Pega no livro, Atividades, Ex-Alunos da EOI de Santiago

1.- Como todos sabem, se alguém espirra na nossa presença, devemos, se formos bem educados, dizer: Jesús! (em espanhol católico) ou Salud! (em espanhol ateu). Como diziam os galegos do rural quando ainda não chegara a contaminação linguística? Alguém sabe? Hoje imitam ao espanhol ou traduzem dele: Xesús! Saúde!
Em português católico têm outra expressão: Santinho! Alguém a tem ouvido a este lado do Minho?

Santinho: Expressão que se dirige a alguém que acabou de espirrar para lhe desejar saúde (Dicionário Priberam ON-LINE)

Já agora, alguém colocou uma dúvida no ciber-dúvidas: se a que espirra é mulher, deve dizer-se: Santinha!?

2.- Todos conhecem a versão portuguesa do Happy Birthday, mas não há tantas pessoas que saibam que a homenageada deve cantar uma resposta de agradecimento àqueles que vieram dar-lhe os parabéns de praxe:

Parabéns a você
Nesta data querida
Muitas felicidades
Muitos anos de vida

Hoje é dia de festa
Cantam as nossas almas
Para a amiga………..
Uma salva de palmas

RESPOSTA:

Obrigado meus amigos
Do fundo do coração
Por me terem cantado
Esta linda canção

Este estrambote foi-me comunicado pela professora Dra. Maria do Carmo Pinheiro Mendes do Instituto de Línguas e Ciências Humanas da Universidade do Minho. Ela disse que apenas as crianças a levavam à prática mas, não é verdade que só crianças celebram aniversários? (eu odeio essa data: lembra-me os muitos anos que já fiz).

Carlos Campoi-Vasques da 1ª promoção do curso de português na EOI de Compostela

Fev28

Brancos Estúpidos, Michael Moore, Temas e Debates, 301 páginas.

Publicado por Clubes de Leitura on 28-02-2012  ~  Posted in: Pega no livro, Livros

As pessoas que gostam de livros de geo-política e de ler autores como Chomsky, Petras, Ramonet ou Taibo, por citar apenas alguns nomes, vão achar não pouco de diferente na focagem e no estilo de Moore. Quem tenha visionado o documentário Bowling for Colombine, o mesmo trabalho que lhe valeu um Óscar, saberá de que estou a falar. A temática central é violência e o uso das armas nos EUA. No documentário não faltam dados abundantes com que tecer os fios argumentais mas há mais do que isso. Há também factos, mas temos também um humor corrosivo, pronto a ressumar no momento adequado e sem banalizar a história que se está a narrar. Inesquecível quando se introduz nas casas de cidadãos e cidadãs do Canadá para confirmar que, certeza, as suas moradas não estavam fechadas a sete chaves como nos EUA.

Brancos estúpidos patenteia este estilo mas num formato de página impressa. O alvo é o governo Bush da altura embora não deixe de lado o seu antecessor no cargo, Clinton, e, em geral os democratas de que afinal tiramos a conclusão de não serem uma alternativa lá muita alternativa. Em palavras do autor: Bill Clinton foi um dos melhores presidentes republicanos que tivemos; uma lista imensa de dados evidenciam a sentença.

Porém, a estrela é o Bush. O primeiro capítulo evidencia o golpe de estado que o colocou na presidência da primeira potência do mundo através de práticas como remover do recenseamento milhares de votantes negros e hispanos ou aceitar votos de militares chegados fora de prazo. Sobeja insinuar por quem costumam votar os uns e os outros. A seguir, centra-se no presidente e a sua ação de governo nos seus primeiros meses de mandado com uma comprida listagem de medidas anti-sociais que se poderiam utilizar nas aulas dos nossos liceus para exemplificar o que é Direita com maiúsculas (a maioria dos nossos escolares abandonam a educação obrigatória desconhecendo o que a direita e a esquerda é).

No tema racial é talvez onde desenvolva uma ironia demasiado alargada que o leva a certo paroxismo quando afirma, por exemplo, que só brancos foram responsáveis das grandes asneiras e que haveria que dar emprego só a negros e negras. Porém, alguns dos conselhos que dá aos condutores negros para evitar serem parados pela polícia são mesmo bacanas: “coloque uma boneca insuflável branca no lugar do passageiro (...) Os polícias vão pensar provavelmente que você é o motorista e vão-no deixar em paz”

São muitos os temas que enfrenta Moore como a ecologia, as relações homens-mulheres (quase todos os presidentes e vice-presidentes dos EUA foram homens, brancos e cristãos), a religião ou as prisões, mas sempre neste esquema de corrosão, enxurrada de dados e propostas de ação para reverter aspetos concretos da realidade que na verdade podem ser alterados desde que a cidadania não olhe para outro lado. Neste ponto, a cidadania americana e a galega não sejam talvez lá tão diferentes.

Valentim R. Fagim, presidente da Agal e professor de português.

Fev28

Materna doçura, de Possidónio Cachapa

Publicado por Clubes de Leitura on 28-02-2012  ~  Posted in: Pega no livro, Livros

"Sacha G. não chegou a rei da pornografia aos vinte anos, como se costuma dizer. Pelo contrário: tinha mais de trinta, um casamento arruinado e muitas dívidas, quando teve a ideia de se dedicar à Pornografia Maternal [...] Logo, quando lhe apareceu esta ideia de filmar homens, a rodar nus, à volta do corpo lânguido e acolhedor das mães, não viu nisso nada de estranho. Afinal fora o que ele fizera nos trinta anos da sua existência: girar à volta do seio materno. Pareceu-lhe ser apenas a consagração do mais interdito dos interditos ou, se preferirem, a mais natural das coisas proibidas"

É assim que começa Materna Doçura, primeiro romance de Possidónio Cachapa.

Contra o que poda parecer não se trata de um livro sobre o incesto e sim sobre os vazios que provocam as mães quando desaparecem antes do previsto. E é por isto que Sacha G. fica no romance a preencher vazios, em especial com o Professor, uma personagem que se viu na obriga de adotar uma outra mãe, de tipo táctil, na criada preta Muganga apesar de ter uma mãe viva.

Não se trata de um livro denso, a exigir sacrifícios de qualquer tipo; polo contrário, é desses livros que alcançam a unanimidade entre as pessoas que o leem e que não nos larga logo que estamos presos entre as suas páginas. É desses livros que apontam ao coração e acertam em cheio e é por isso que namora a leitoras/es diversas/os porque no pano de fundo movimentam-se emoções universais.

É igualmente curiosa a sua concretização já que chegou ao seu fim mercê a uma bolsa estatal. O autor apresentara apenas os primeiros capítulos e foi selecionado entre mais de trezentos participantes. Talvez os membros do júri ficaram tão enlevados como ficamos nós e é por isso que o alentaram a finalizar aquela história que na altura era apenas um acervo de boas ideias o que nem sempre promete um desenlace feliz.

Materna Doçura é uma sucessão de pequenas histórias que nos alimentam, histórias que se enredam umas com as outras através de casualidades que por vezes atentam contra a verosimilhança mas nem nos importamos com isso, já que o nosso coração está entregue até chegarmos a um final o bastante aberto onde a nossa imaginação transita à vontade.

Valentim Rodrigues Fagim, presidente da AGAL e professor de português.

Fev28

CONTOS DA MONTANHA (Miguel Torga)

Publicado por Clubes de Leitura on 28-02-2012  ~  Posted in: Pega no livro, Livros

Miguel Torga (São Martinho de Anta, Trás-os-Montes 1907 — Coimbra 1995) publica esta coletânea de contos em 1941.

“Ao nos adentrarmos pela paisagem humana das aldeias transmontanas, encontramos em cada esquina os rostos descritos no universo de Torga. Quantas lendas e costumes não nos conta essa gente que a narrativa de Torga registrou. São personagens inseridas no ambiente rústico e pobre das aldeias. São personagens natos nas dificuldades do frio cortante das montanhas e passam pela vida com a visão irônica de todo o meio do qual emanam as tradições, as crenças, o trabalho, a religião.” virtualiaomanifesto.blogspot.com

Impressões pessoais após a leitura

Comentário geral:

Há, de contínuo, uma tensão narrativa arrebatadora que desfecha, conto por conto, numa grande comoção. Cunha prosa intensa, poética e alegórica, através das personagens que constroi, vai describindo as paixões humanas mais ancestrais, fondas e institivas, e por isso mais auténticas e intemporais que são, com certeza, as nossas proprias paixões: o medo de cá e do além-mundo, o refugio na fê, a resignação, a complacença, a admiração, o amor, os ciumes, os remorsos, o odio, a vinganza... a vontade de suicídio.

Os contos são, de facto, independentes mas complementares: no conjunto fazem um mostruário dos modos de vida e das paisagens rústicas –geográficas, econômicas, culturais... dum passado que podemos pensar longínquo e que, aliás, podem ainda perdurar -e acho que perduram- embora seja remanescente daqueloutros tempos, não assim tão distantes.

Um contributo lingüistico notável são os refrãos e provérbios que de feqüência coloca em dicas ou exclamcões das personagens, ou mesmo do narrador -não sei se populares ou de ideia própria do autor-.

Em pormenor:

A Maria Lionça
A espera expectante do Pedro pelo pai retornado e a conseguinete decepção, lembrou-me “O pai do Miguelinho” de Castelao. E a espera pelos correios que nunca chegam, lembrou-me “Mamasunción” de Chano Piñeiro.

O cavaquinho
Acho que não foi assim bem resolvido, pois não percibi qualquer situação no relatório que ligue com a tragédia final, embora a imaginação me faça pensar que a única hipótese para o pai conseguir o cavaquinho fosse o roubo.

O filho
Encontrei conotações ambientalistas: a beleça e a grandeça do simples, do viver em harmonia com a natureza.

Maio moço
Acho que há uma crítica social á colectividade humana geral por não valorizarmos aquilo que não vem precedido duma posição elevada, dum prestígio, duma façanha.

Em destaque:

Solidão
“Não há falência maior que a de imitar o passado, mesmo que seja o nosso” (do próprio texto)

O lugar de sacristão
Gostei especialmente deste conto porque o autor não é assim tão directo como nos outros relatos. O jogo sicológico é mais sutil:
i) Uma intuição juvenil premonitória que paira no ar e mesmo o proprio protagonista não acerta a conhecer.
ii) O desencontro amoroso que desvenda para ele e para nós leitores o preságio.
iii) A mortificação de lhe assistir nos ritos tirados dum outro amor, que veio substituir o que a ele foi negado.
iv) E um final restaurador duma xustiza íntima e inconfesável.

Este post foi feito por Antom Labranha.

Fev11

assobiador que passou por aqui

Publicado por Clubes de Leitura on 11-02-2012  ~  Posted in: Pega no livro, Atividades

Já que o Joseph, alma deste re/canto da leitura, me anima a pôr algo sobre a recente visita do Ondjaki, farei caso por reverência àquele e darei apenas um apontamento por amizade deste –e por respeito ao pessoal todo, que anda na aventura de ler livros. Para variar, farei apenas glosas por fora deles, e porque às vezes também daí se instiga o gosto por tal.

Digo logo, e em primeiro lugar, que a visita deste rapaz –que já vai sendo menos– nem é a primeira, porque já nos visitou quase em menino, nem será de certeza a última, porque estou seguro que continuará a vir quando velho. O Ndalu de Almeida (esse o seu nome real) tomou-nos carinho sobre o terreno com 26 anos, e eis no recorte da foto de cima a sua cara assombrada. Tenho outras ainda mais simpáticas e menos urbanas, dessa altura e de muitas outras durante anos em que mutuamente nos frequentamos, mas essa primeira altura foi especialmente ternurenta, e o do carinho (recíproco) é algo mais que uma metáfora: na época ele já tinha editado nada menos que os livros de poemas Actu Sanguíneu e Há Prendisajens com o Xão, o romance Bom dia Camaradas, os contos Momentos de Aqui, e a novela O Assobiador, e foi esta última que serviu de desculpa para um lançamento improvisado na Palavra Perduda, e foi nessa noite de discoteca compostelana que o carinho deixou de ser metáfora –no que respeita ao rapaz e às moças que tinham estado na livraria! Lógico que as alunas das Letras se entusiasmassem com o jovem exótico com cara de menino, um recém licenciado em Sociologia que até tinha feito teatro amador, que já se tinha interessado por pintura, mas que era já autor de vários livros acima de dignos. E O Assobiador continua a ser, quanto a mim, uma das pérolas raras.

Nesse mesmo ano da sua primeira visita inscreveu-se no Mestrado em Cinema da Columbia University, ainda que pouco resistiu em New York. O do cinema levou o jovem a participar posteriormente na escrita da série angolana Sede de Viver, em documentários como Oxalá cresçam Pitangas, ou a trabalhar como assistente do Tabajara Ruas, e filmar quarenta dias no Rio Grande do Sul. Acabou por fixar-se no Brasil, sim, e hoje tem até nome com eco amplo naqueles lados, mas passou na Galiza várias vezes, chegou a forçar os pais em trânsito por Portugal a vir aqui, participou no Festival de Poesia do Condado, falou-nos no JL e, claro, tivemos cumplicidades de última fila, noitada em todas as Correntes d'Escritas em que nos encontramos, e na Bahia, e no Porto, conspirantes de projetos mais prolongados –que ainda um dia podem e até deviam acontecer.

Em Julho de 2005 partilhamos em Compostela vários dias de cozinha intensiva acompanhados por Ruffato, Adriana Lisboa, Possidónio, Peixoto e Luís Cardoso, Cadaval a reforçar o lado galego. O menino que tinha nascido 2 anos depois da independência, que cresceu nessa Angola com a proximidade das últimas guerras, que foi estudar em Lisboa com 16 anos, que seguiu aí a universidade, que aí tomou contato com a cultura portuguesa, certo, mas também –e surpreendido na descoberta– com outras comunidades africanas, como a de caboverdianos, santomenses, moçambicanos, acrescentou à sua consciência a descoberta e a amizade da galega para o diálogo da língua portuguesa, desde o primeiro dia, desde aquele primeiro encontro na Póvoa, desde aquela primeira visita a esta terra que a foto de cima comemora. E já nunca largou.

Do texto que nos deixou no mencionado Julho de 2005 (e recolhe as Actas do VIII Congresso Internacional da Associação Internacional de Lusitanistas, v. II, pp. 1905-1907), chamado "NA PLURALIDADE DAS LÍNGUAS", vou deixar-vos um par de breves recortes para fechar:

"Ao longo do tempo, das leituras e das escritas, vai-se descobrindo a importância da alteração dos sentidos para buscar o modo propício de chegar ao que se quer dizer. Experimentando outros ecos do mesmo rio, buscando águas que já choveram e outras que estão por chegar. É nessa permissividade de conteúdos literários que o escritor cria e ganha uma alternância ao hábito dos sentidos. Julgo que não há criatividade sem alternância de sentires e a permissão dessa alternância.
(...)
Oxalá saibamos manter, por muitas mais gerações, o essencial destas culturas plurais, acompanhando a modernidade sem nunca ferir a tradição; oxalá saibamos trilhar, como os nossos mais-velhos, a senda de contornar o tempo, fintando os anos em sorriso de aceitação, mas sobretudo, manejando as palavras, as correntes e os desvios, para celebrar este quintal que, dividindo, nos une: a Língua Portuguesa, com as suas árvores, os seus frutos e os seus desertos promissores.
Oxalá."

O Ondjaki é dos que a nossa voz entendem, sim. E como ele há mais nomes, alguns já mencionados, outros ainda por vir, alguns mais militantes na causa, outros menos ainda, que mais dá. Oxalá saibamos manter, com a ajuda dos livros desses nomes, os nossos próprios nomes, já que a nós especialmente cabe o peso de eles continuarem inteligíveis –nomes e livros– na nossa língua. Oxalá.

c q

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